Fardos...



- Que vida é essa?
     Quanto mais rezo, mais decepções tenho?
     Por que o meu fardo é tão pesado?
     Eu bati com força na porta do quarto e me apoiei nela.


     - O que mais poderá acontecer? Me perguntei.
     Joguei-me na cama e me afundei nela,
     apertando o travesseiro nos meus ouvidos
     para tentar silenciar o barulho da minha existência.


     - Deixe-me dormir. Não agüento mais...
     Gritei para Deus!


     Com uma profunda dor - aquela que dilacera as
     fibras mais sutis d'alma - eu tentei me levar para
     um estado de inconsciência, para aceitar a escuridão
     que tinha se apoderado de mim. Assim que recuperei
     a consciência uma luz me envolveu. Eu procurei a
     fonte dessa luz e vi uma figura de um homem
     em pé diante de uma cruz.


     - Minha filha, por que ainda não acreditas em mim?
     A pessoa me perguntou.


     - Como não acredito ! ?
     Passo minha vida rezando, implorando... e...

     - Nada acontece? -Continua Ele a minha frase inacabada-


     - Senhor, eu sinto muito, mas... Eu não posso mais...
     Estou me entregando... Leve-me para teus braços...
     Só no descanso eterno terei paz...
     Você mesmo pode ver o quão difícil está sendo pra mim.
     Olhe só para o fardo que eu tenho em minhas costas.
     Eu simplesmente não posso mais carregá-lo.
     Tudo parece desmoronar de uma só vez...
     Problemas financeiros, problemas de relacionamentos...
     É só problemas que não acabam mais !


     - Mas eu não lhe disse para colocar todos os seus
     fardos em mim? Eu me importo com você !


     - Ah ! Eu sabia que você ia dizer isso.
     Mas por que o meu tem que ser tão pesado ?
     Você vai pagar minhas contas ?
     Porque tudo parece acontecer comigo.
     Poxa ! Eu tenho fé, mas está vacilando.


     - Minha filha, todas as pessoas tem um fardo.
     Talvez você gostasse de tentar um diferente ?


     - É ? Quem sabe !
     Então, Ele apontou vários fardos que estavam aos seus pés.


     -Sim, você pode escolher qualquer um desses.


     Todos pareciam ser do mesmo tamanho.
     Mas cada um tinha um nome.

     - Esse é o de Joana, eu disse. Joana era
     casada com um empresário bem sucedido.
     Ela vivia em uma bela casa tinha um casal
     de filhos e pagava a faculdade mais cara
     da cidade para eles. Algumas vezes ela me
     deu carona até a Igreja quando o meu carro
     estava quebrado, pra variar. Ela não devia
     ter problemas para pagar suas contas, não é ?


     - Vou experimentar esse ! Apesar do fardo de Joana
     Estar ali, nos pés da cruz, não poderia ser difícil carregar
     o fardo dela, eu pensei. O Senhor retirou o meu fardo
     e colocou o de Joana nos meus ombros.
     Eu caí de joelhos devido ao peso.


     - Tire isso de mim ! O que o faz ser tão pesado ?


     - Olhe dentro do fardo. Eu desamarrei as tiras e
     abri o topo. Dentro havia uma foto da sogra de Joana,
     e quando eu a peguei ela começou a falar:
     - Joana você nunca vai ser boa o bastante para o meu filho,
     ele nunca devia ter casado com você... Eu rapidamente
     joguei a foto dentro do saco e tirei outra. Era João, filho
     mais velho de Joana. O seu corpo estava tão enfaixado
     devido a tantas cirurgias que ele havia sofrido e, mesmo
     assim, não tinha resolvido por completo o problema da
     paralisia infantil. A terceira foto era da irmã de Joana,
     que perdeu seu filho de apenas 20 anos de câncer.


     - Eu vejo porque o fardo dela é tão pesado, Senhor.
     Mas ela está sempre sorrindo e ajudando os outros...
     Eu não imaginei...


     - Você gostaria de tentar outro ?
     Ele me perguntou mansamente.


     Eu testei vários. O de Paula era muito pesado.
     Ela estava criando 3 filhos, uma temporona,
     sem um tostão; o marido, já na casa dos seus 50 anos,
     aposentado com uma miséria e desempregado...
     O de Sonia também: uma infância de abusos sexuais
     e um casamento de abusos emocionais.
     Quando eu vi o de Rute eu nem tentei.
     Eu sabia que eu encontraria artrite, velhice, a
     necessidade de um emprego pesado,
     um marido amado em um hospital.


     - Todos são muito pesado, Senhor,
     eu disse. - Me devolva o meu.


     Assim que eu levantei a minha carga tão familiar,
     ela me pareceu muito mais leve do que todos os outros.


     - Vamos olhar o que tem dentro - Ele disse.
     Eu me virei fechando o fardo.


     - Não é uma boa idéia, deixa pra lá - eu disse.

     - Por que ?

     -Tem um monte de besteira aqui.

     - Deixe me ver... O doce trovejar de sua voz
     me fez abrir o meu fardo. Ele tirou um tijolo de dentro.

     - Fale-me sobre este.

     - Senhor você sabe ! É o dinheiro.
     Eu sei que sofremos como muitas outras pessoas.
     Mas quando as crianças ficam doentes,
     nós nem sempre podemos levá-las ao médico.
     E eu estou cansada de vestí-los com roupas ajustadas,
     eles nunca reclamam de nada, isso me pesa ainda mais !
     As contas ? Não estamos conseguindo pagar, é muita dificuldade !


     - Minha filha, eu vou suprir todas as suas
     necessidades, cada uma há seu tempo...
     E, quanto aos seus filhos, eu os dei corpos sadios.
     Eu vou ensiná-los que roupas caras não é
     o que faz uma pessoa realmente de valor.

     Então ele tirou a figura de uma família.

     - E isso ? Ele perguntou.

     - Minha família -meus pais e irmãos-
     ... Eu abaixei a cabeça com vergonha de
     chamar a minha família de "fardo".


     - Mas, Senhor, reclamam de tudo,
     tenho que correr com eles pra cima e pra baixo.
     Nunca estão contentes, só há cobranças:
     -Porque não veio ontem ? Vai vir amanhã ?
     Você não liga mesmo pra família, se esqueceu de nós.
     Senhor eu não consigo mais suportar,
     qualquer hora perco a paciência.

     - Minha filha, Ele disse - se você acredita
     em mim, eu vou renovar as suas forças,
     se você me permitir eu vou cobri-la com meu Espírito,
     eu vou dar-lhe o dom da paciência.


     Ele então retirou algumas pedrinhas do meu fardo.


     -Sim, Senhor -eu disse- essas são pequenas,
     mas não tem mais importância na minha vida.
     Eu detesto o meu cabelo. Ele é crespo e não consigo
     fazer com que ele fique legal. Eu estou acima do peso e
     não consigo emagrecer. Eu detesto tudo em mim.
     Mas, para onde quero ir agora, não preciso de um corpo !


     -Minha filha, as pessoas olham pra você e vêem
     o seu exterior. Eu vejo o seu coração.
     A sua beleza não deve vir de fora.
     Ao contrário ela deve vir de dentro de você,
     a beleza que não desbota, de um gentil e
     calmo espírito, que tem um valor enorme
     aos meus olhos. E eu preciso de você assim !


     O meu fardo agora parecia mais leve do que antes.


     - Eu acho que eu posso suportá-lo agora.
     - Tem mais. Ele disse. Passe-me aquele último tijolo.

     - Você não precisa tirar esse, eu posso suportar.

     - Minha amada filha, me dê o tijolo.

     Novamente sua voz me levou a fazê-lo.
     Ele estendeu a mão e pela primeira vez
     eu vi sua horrível chaga.


     - Senhor, mas esse tijolo é tão nojento,
     tão repugnante, tão... Senhor ! O que aconteceu
     com suas mãos ? Elas estão feridas !


     Não mais olhando para o meu fardo,
     eu olhei pela primeira vez para a sua face.
     Em sua testa havia cicatrizes - como se alguém
     houvesse enfiado espinhos em sua carne.


     - Senhor ! -eu sussurrei- O que aconteceu a você ?

     Os olhos Dele, cheios de amor alcançaram minha alma.

     - Minha filha, você sabe. Passe-me esse tijolo,
     ele me pertence. Eu o comprei.

     - Como ?

     - Com o meu Sangue.

     - Mas por que Senhor ?

     - Por que eu a amo com um amor sem fim.

     - Passe-me o tijolo agora !

     - Eu coloquei o tijolo nojento nas mãos feridas Dele.
     Ele contém toda a sujeira e mal da minha vida:
     meu orgulho, meu egoísmo, minha falta de humildade,
     e a depressão que me ronda, disfarço bem pra
     ninguém perceber, aí o sofrimento aumenta.
     Ele se voltou para a cruz e atirou o tijolo na
     poça de sangue que existia aos pés dela...


     - Agora, minha filha, você deve voltar a viver.
     Eu estarei sempre com você.
     Quando você tiver algum problema,
     me chame e eu a ajudarei, mostrando-lhe
     caminhos que você nunca imaginou.


     Eu me adiantei pra pegar o meu fardo.


     - Você pode deixá-lo aqui se quiser.
     Você vê todos esses fardos ?
     Esses são aqueles que algumas pessoas deixaram
     aos meus pés. Joana, Paula, Débora, Rute... Se você
     deixar o seu fardo aqui eu o carregarei pra você.
     Lembre-se meu jugo é suave e meu fardo é leve.


     Assim que eu deixei o meu fardo com Ele,
     a luz começou a diminuir.
     Mas eu ainda pude ouvi-lo dizer:


     - Eu nunca vou deixá-la,
     nunca a esquecerei nem a abandonarei.


     E uma paz inexplicável encheu minha alma...



     Este texto escrevi a partir de algo que li na
     Internet. Aqui está um pouco de mim !

     Não importa o tamanho dos problemas que atravessamos,
     importa o tamanho da fé que temos em Deus...
     E tudo se torna mais leve !

     * Sandra Zilio *

 

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