João Paulo II
Ele
dirigia tudo para Jesus Cristo
Se o demônio pediu para joeirar os fiéis,
Isto é, lançar em seus corações dúvidas e desânimo, Jesus rezou
por Pedro, para que confirmasse os irmãos, depois mesmo que ele fosse
confirmado.
Fugindo dos batidos lugares comuns que são explorados em todos os
meios de comunicação social, nestes dias de agonia e de luto, eu
gostaria de apresentar aos fiéis de nossa Igreja alguns poucos pontos
de reflexão, que pudessem nos ajudar a aproveitar para a vida os
acontecimentos destes dias.
Acompanhando os muitos e diversificados noticiários destes dias,
chamou-me a atenção alguma coisa muito simples, que acreditamos, mas
nem sempre vivenciamos: a catolicidade da Igreja de Jesus Cristo e de
como ela é o fermento na massa.
Nós acreditamos que a Igreja de Jesus é católica, universal. Para
todos os tempos, para todas as culturas, para todos os homens e
mulheres, para todos os povos, por toda extensão da geografia. Nós
acreditamos. Mas nem sempre experimentamos. Às vezes ficamos
demasiadamente presos ao nosso minúsculo espaço, ao nosso
"mundinho".
Foi chocante e mesmo emocionante acompanhar pelo mundo afora as
Comunidades em oração. Lembrei-me daquela passagem dos Atos dos Apóstolos
quando toda a Igreja rezava por Pedro que estava encarcerado. Penso
que não desfiguro a realidade dizendo que a agonia do Papa, que alguém
me falava do seu calvário, era uma verdadeira prisão. E a Igreja
toda, a católica - universal - rezava pelo Papa.
E, nesta verdadeira comunhão humana eu tenho a certeza de muita oração
brotando do coração de irmãos de outras crenças e sensibilidade
religiosa.
Outra experiência de vida que me marcou nestes dias foi a presença
simultânea da dor e da alegria. Se o próprio Jesus chorou por seu
amigo Lázaro, porque não podemos chorar pelo Papa João Paulo II,
nosso grande Pastor, por um período grande demais? Mas nossas lágrimas
são suaves na fé e na esperança, até o fim. Como ele teria
comentado, Jesus Cristo não desceu da cruz e ele foi firme e sereno
até o fim, dando-nos um magnífico testemunho de fidelidade, de
compromisso, de seu amor pelo mundo, pela Igreja e por Jesus Cristo o
Senhor.
Choramos mas sorrimos ao mesmo tempo. Dor pela separação. Alegria
pela vitória, pela certeza da vida que não acaba e da ressurreição.
Será possível resumir a vida de João Paulo II? Como poderíamos
encontrar o seu pensamento norteador? Penso não estar errado dizendo
que sua vida pode ser resumida em seu amor entranhado por Jesus
Cristo.
Ele pode repetir aquelas palavras de Pedro - "Tu sabes tudo, tu
sabes que eu te amo".
Já no começo de seu ministério petrino ele nos pede para não
termos medo, para abrirmos, ou melhor, escancararmos nossas portas
todas a Jesus Cristo, o único capaz de penetrar, até o fundo, no
mistério do coração dos homens.
Acompanhando, dia-a-dia, seu longo pontificado, temos de dizer que João
Paulo II, como nenhum outro líder de todos os tempos, viveu cercado
de inúmeras multidões. Foi o homem o mais universal. Mas ao lado
desta realidade que ninguém é capaz de contestar, temos de afirmar
com clareza meridiana que ele nunca se aproveitou disto para si mesmo,
para sua glória e para sua projeção pessoal. Ele dirigia tudo para
um único objetivo: para Jesus Cristo. Ele foi discípulo fiel de João
Batista que afirmava que Cristo devia crescer e que ele devia
desaparecer.
Um ensinamento de João Paulo II para cada um de nós sempre é a
centralidade de Jesus Cristo: só Ele tem palavras de vida.
Compromisso radical e único com o Senhor.
Os Papas morrem. Quantos, nestes dois milênios de Igreja, assumiram o
lugar de Pedro, o chefe dos Apóstolos. Alguns sucederam Pedro por
longos anos, como é o caso de João Paulo II. Outros, por um tempo
muito pequeno, como foi o caso de João Paulo I. Todos cumprem sua
missão, de nos confirmar na fé. Trabalham e passam.
Mas a Igreja não passa, não morre. Nosso PASTOR é o Senhor Jesus
e Ele permanece para sempre. Há homens que, desde Pedro, escutaram as
palavras de Jesus: tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a
minha Igreja... tu me amas, mais do que os outros? ...apascenta minhas
ovelhas, apascenta meus cordeiros. Foram muitos que como Pedro
disseram: Tu sabes tudo, Tu sabes que eu te amo.
João Paulo II, até agora, era o último desta fila. Agora, cumprida
sua Missão, ele é levado nos ombros do Bom Pastor para os prados
eternos, relva verde, água cristalina, a Casa do Pai.
Agora, esperamos por um outro que vai escutar as mesmas palavras de
Jesus: Tu me amas, mais do que os outros? Apascenta o meu rebanho.
E nós rebanho entregue a Pedro e a seus Sucessores dizemos: Bendito o
que vem, em nome do Senhor.
Para ele dizemos mais uma vez: Que vivas tanto ou mais que Pedro!
Dom Arnaldo Ribeiro
Arcebispo Metropolitano de Ribeirão Preto/SP
Fonte: www.cnbb.org