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19/02/2008
Apostar
na vida
Apostar
na vida
Como a propaganda do antigo sabonete, ‘você vale quanto pesa’
Padre Otto Dana
A modernidade, aos poucos, foi nos subtraindo a condição humana e a
nossa identidade. Já não temos nome e sobrenome. Somos apenas
"contribuintes", "consumidores",
investidores" e ... "inadimplentes". Não pertencemos
mais a uma "sociedade"; pertencemos ao "mercado".
E no "mercado", viramos "mercadoria"; e a
mercadoria é impessoal, descartável, um número, um código de
barra.
A vida, hoje —— a vida humana, a vida animal e a vegetal ——,
também está reduzida a objeto de mercado. De compra e venda. Coisas
de consumo e de contabilidade. Quanto "vale" um senador, um
empresário, um jogador de futebol, um músico, o presidente
norte-americano? Quanto vale o seu passe ou seu resgate? Se você
quiser saber a sua cotação no mercado social, imagine quanto
pediriam pelo seu resgate no caso de seqüestro.
E alguém o seqüestraria? A cotação de uma pessoa se faz pelo número
de seguranças, pelo carro blindado, pela cerca elétrica e pelas
grades que o isolam. Como a propaganda do antigo sabonete, "você
vale quanto pesa" em ouro, em dólares ou euros. Logo, logo
seremos identificados não pelo RG, mas pelo código de barras e por
um chip.
E tudo o que se refere à vida também é cotado no grande mercado.
Olha-se para a floresta não para avaliar o que ela representa para a
qualidade da vida humana, mas, para calcular, ao derrubá-la, quanto
ela vai "render" em madeira, em pastagem, em exploração do
seu subsolo.
Olha-se para os rios e mananciais de água não como fonte de vida
para o homem e para o peixe, mas por quanto eles "valem" na
exploração comercial de suas águas para envasamento, e em quanto
eles barateiam os custos públicos de escoamento do esgoto, do lixo e
dos detritos químicos.
Assim também com a vida humana. Para que manter vivo o velhote pobre
ocupando inutilmente um leito de hospital? Eutanásia nele! Por que
permitir a uma mulher pobre colocar mais um pivetinho no mundo para
ameaçar a vida dos que "trabalham" e "produzem"?
Aborto nele! Afinal, cada pobre que nasce é um perigo e um estorvo
para a sociedade. É mais um que vai assaltar, vai incomodar o
"consumidor" no sinaleiro, no estacionamento de rua, nos
restaurantes. Aborto neles!
E outra: se a vida é apenas uma mercadoria descartável, podemos
manipulá-la à vontade. A engenharia genética, como a engenharia
industrial não é uma permanente busca de superação do antigo pelo
novo? Uma nova geração de computadores e celulares não resiste a um
mês. Já saímos da loja ou da agência com o último modelo de
celular ou de carro ultrapassado. Não é mais a idade que nos torna
velhos. É a mercadoria, a roupa, a filmadora que usamos.
E de onde surge o novo? Do poder de manipulação no laboratório.
Nada mais é intocável, imutável, perene, eterno. Nada mais é
território exclusivo de Deus. O parceiro de Deus rompeu os limites. Já
não há mais fruto proibido. Como qualquer outro produto, o homem é
uma engenhoca de laboratório. Como rato-cobaia, é dissecado, clonado,
retalhado, base de experiências. Seus órgãos entram na cotação do
mercado.
E ele mesmo, como embrião, perdeu a sua condição de ser humano em
potencial para ser um tubo de ensaio congelado. No mundo dos negócios,
a ética e a moral são o que menos contam. Foi assim que Jesus
espinafrou o comportamento escrupuloso dos fariseus nos detalhes sem
importância, e se omitia do fundamental: "Vocês dão a Deus até
o Dízimo da hortelã, da arruda e das verduras, mas não são justos
com os outros e não amam a Deus."
Para o cristão e pessoa de boa vontade, a vida não pode ser reduzida
a um mero fator de mercado. Nem a vida humana, nem a vegetal, nem a
animal. O cristão aposta na capacidade que o ser humano tem, como
parceiro de Deus, de acelerar o processo de humanização do homem por
meios éticos e morais. O cristão é alguém que se orgulha de
pertencer a uma humanidade que sai da condição de moradora da
caverna para alcançar o espaço integrado no todo da natureza. Que
consegue, por meio do avanço da ciência e da tecnologia da medicina,
permitir ao homem aumentar a idade média de vida de 40 para 80 anos.
Que, com a tecnologia de alimentos, consegue triplicar o número de
participantes do banquete da vida. O cristão faz festa ao se sentir
construtor da história humana, sempre em evolução, corrigindo os
desacertos e viezes que, por vezes, o desumanizam como agora. O cristão
acredita que o ser humano é capaz de superar-se a si mesmo. Que se
esforça por restituir ao ser humano, mesmo reciclado com todos os
recursos do laboratório, a sua condição de "humano" e não
de objeto de mercado, de compra e venda."
"Escolha, pois, a vida!" (Campanha da Fraternidade 2008)
Padre Otto Dana
é pároco da Igreja Sant’Ana em Rio Claro
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OBS: Sim, tem razão o padre e os exemplos estão nas Escrituras. Mas
lembro que está dito nelas também que o homem seria marcado, para
comprar e para vender. E não somente aos bens como a si mesmo, vender
suas almas ao preço vil de um dilúvio de pecados. Estamos, pois, nos
tempos profetizados.
Lembro ainda que também que se Jesus teve fixado seu preço em 30
moedas de prata, como esperar que alguém de nós possa valer mais do
que isso? Cada jogador que é vendido, cada passe de atleta que troca
de mãos, cada mulher ou homem que vende seu corpo, torna o ser humano
em mercadoria vulgar, porque quanto mais passa das 30 moedas, mais
afronta Aquele que, valendo apenas isso na conta dos homens, mesmo
assim com seu Sangue precioso e de valor infinito, nos resgatou da
morte eterna.
Temos uma alma que não tem preço, e que sozinha e cada alma, vale
mais do que tudo o que existe no Universo, com todas as riquezas que
contém. De fato, a maioria das pessoas que vive este absurdo indicado
pelo Padre Otto, vende seu corpo por alguns trocados e dá sua alma de
brinde.
Sim, porque servindo ao seu novo senhor, já não é mais dono de si.
Este lhe exigirá uma dedicação total, de modo que nunca mais ele
poderá sequer pensar em Deus.
Triste mundo, a que ponto chegamos.
Fonte:
Recados do Aarão
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