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04/02/2008
MÁSCARAS
Por
Jorge Alberto, in memoriam:
Havia um pai a quem a sua filha um dia pediu que a deixasse ir brincar
o Carnaval. O pai respondeu:
- Ao Carnaval brincas tu o ano inteiro! Descansa ao menos hoje!
Perante a surpresa da jovem, o pai lhe explicou como ela todos os dias
afivelava a máscara procurando mostrar-se melhor do que realmente
era. E fazia isso junto dos pais, das amigas, dos vizinhos, enfim, de
toda a gente, pois a ninguém se mostrava como era. Ao próprio
confessor… nem sempre! Preferia mudar de confessor e ir a um que não
a conhecesse quando tinha de confessar certas coisas que temia
deixassem mal impressionado o seu confessor habitual e ele a passasse
a estimar menos, a considerá-la menos piedosa… muitos degraus a
menos em cada virtude.
Fácil é simular virtude e fazermos da nossa vida um Carnaval
permanente! São máscaras e mais máscaras que vamos colocando umas
sobre as outras, tantas como os nossos pecados e como as virtudes que
queremos mostrar às pessoas que nos rodeiam. Ó como é repugnante
tentar apoarentar o que não se é.
Fácil é dizermos como nos horrorizamos com os pecados que se cometem
no Carnaval, mas não os lembramos nem nos horrorizamos com o nosso próprio
e contínuo Carnaval.
Qual deles será pior?
Não respondamos sem pensar e sem olhar com atenção e sinceridade
para o nosso interior, que tão frequentemente está sujo, mesmo
quando parece limpo e adornado.
Mostro-me na igreja como alma cheia de unção e recolhimento, pareço
um anjo bento, mas interiormente recordo aquilo que o colega me fez,
que o vizinho me disse, recordo aquela pessoa embirrenta que vou
encontrar mais logo, o trabalho que os outros não ajudam a fazer
porque, penso eu, são preguiçosos e descarregam tudo sobre mim.
Imagino o que lhes direi, como irei responder a certas coisas.
Entretanto peço a Deus que me ajude nessas pequeninas vinganças, que
O deixam horrorizado.
Vou rezando pelo livro ou pelo terço, mas vou olhando para quem
entra. Ai! Como aquela vem! Olha lá! Que vestido curto! Como é que o
pai ou a marido deixa! E aquela outra está com o mesmo vestido da
semana passada. Certamente nem lavou! E aquele mais adiante, vai
comungar mas ontem o vi cometer velhacaria...
E aquele, olha como está gordo! Deve comer imensos doces! Se fizesse
jejuns como eu não estava assim! Sim, penso eu, é preciso jejuar por
causa destes pecados desta gente e dos outros que não vêm à Missa!
E lá vou eu, fecho os olhos, levanto as mãos para os Céus, suspiro
de quando em vez...
Durante a semana vou para o trabalho, cumprimento o chefe com grande
sorriso, embora tenha vontade de o morder. Para mim vou pensando que
ele é um grande animal que nos mata de trabalho, que só faz favores
às moças bonitas que lhe dão sabe-se lá o quê. Vem a secretária
do chefe. Sorrio para ela e cumprimento-a, não vá dizer mal de mim e
eu ficar em pior situação. Mas sei bem que é uma intriguenta e que
nem vai à igreja. E também sei outras coisas, que digo ao ouvido dos
outros colegas.
Se estou a estudar, os professores não podem saber que não estudei
nada! Os pais ainda menos. Estive metido no quarto a pensar naquela
rapariga, naquele rapaz… a mandar MSN, a recordar aquele filme…
aquelas anedotas… depois… mas ninguém vai saber! A minha mãe
pensa que eu sou tão bonzinho!
Valerá a pena continuar, descer ainda mais o grande abismo dos nossos
pecados íntimos, tão costumeiros, que já nem lhes ligamos e
deixamos que vão passando nas nossas vidas e se vão acumulando, como
poeira e teias de aranha em quarto em que ninguém entra?
Mas entramos vezes sem conta nos pecados dos nossos irmãos. Às vezes
até entramos nas suas virtudes e dizemos que são fingidas. Dizemos
que se mostram bons porque querem lucrar alguma coisa! Assim vamos
afivelando as nossas máscaras e brincando o Carnaval diariamente.
Volto a perguntar: Qual será o pior Carnaval? Será o daquelas
pessoas mundanas, motivadas por costumes culturais e por uma imensa
ignorância religiosa, pessoas que deviam ter sido ensinadas e nunca
foram, pessoas que não beneficiam de bons exemplos… ou será o
nosso Carnaval, o das almas piedosas, instruídas em religião,
boazinhas, cheias de virtudes (aparentes), almas que rezam, que
jejuam… mas que mordem sem cessar na vida dos outros… que
resmungam no seu interior… que estão cheias de maus desejos que não
revelam… e que pensam que Deus lhes deve muito porque elas são boas
e se sacrificam?
Eu não vou ajuizar qual será o pior destes carnavais, porque disso
me sinto incapaz, mas lembro que Jesus disse que os publicanos e as
prostitutas nos precederiam no reino dos Céus. E porquê? Certamente
porque Ele abomina os sepulcros caiados em que nos tornámos, quando
pensamos que temos de reparar pelos pecados dos outros e não nos
colocamos no meio deles, como pecadores que somos, com muito mais
responsabilidade, porque nos foram dadas mais graças!
Sim, Ele abomina mais o pecado escondido, mascarado de bonzinho, do
que o pecado declarado, que é mais facilmente reconhecido, mais
facilmente levado ao ato de contrição e, portanto, mais facilmente
perdoado. Se não nos sentimos pecadores, não poderemos ser
perdoados. Que carga então levamos conosco!
Por isso, é importante, muito importante não julgar, ainda que
aquilo que nos cai diante dos olhos seja nitidamente mau. A
responsabilidade de quem o faz só Deus conhece. Mas a nossa
responsabilidade ao julgar o próximo é muito, muito grande. Mal
sabem os homens que se a humanidade dependesse dos julgamentos
humanos, milhares de bons estariam perdidos, e se salvariam mil
celerados. Só porque sabem por máscaras em sua face. Ou são
famosos, e estes podem tudo...
Há quem julgue as pessoas até pela sua maneira de rezar, pela sua
maneira de estar na igreja e até pela sua maneira de comungar! São
terríveis estes julgamentos! É a pessoa querer colocar-se no lugar
de juiz, no lugar de Deus, pois só Ele é nosso Juiz! É o velho
desejo de Adão: “Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal”.
Sim, conhecemos o bem e o mal, mas não como Deus. Só conhecemos
pelas aparências, imperfeitamente. Deus vai ao fundo aos escondido
nas profundezas da alma. E lá, quanta sujeira amontoada, quanta
maledicência, mesmo não exprassa, mas quem sabe pronunciada entre os
dentes.
Como podemos dizer que este ou aquele está naquela posição ou
comunga daquela maneira porque não tem respeito ou porque se quer
mostrar mais santo que nós? Que sabemos nós dos motivos que o levam
a isso? Que sabemos nós daquilo que o Senhor põe no seu coração,
talvez até de maneira praticamente irresistível?
Nada sabemos e, se continuamos pelo caminho do Carnaval da vida e dos
julgamentos, temo que nunca cheguemos a saber, senão quando entrarmos
para o duríssimo Purgatório que os pecados de juízos nos irão
merecer.
Não esqueçamos de que Jesus nos recomendou que não julgássemos,
para não sermos julgados. Portanto, se julgamos, também seremos
julgados com a mesma dureza e severidade que usamos para com os nossos
irmãos, porque Jesus também disse que seremos medidos com a medida
com que medirmos.
Se não julgarmos e medirmos sempre com medidas largas de misericórdia,
certamente receberemos muita misericórdia, no momento em que caírem
todas as máscaras e os nossos muitos pecados ficarem a nu.
Não julguemos os nossos irmãos, para termos a felicidade de ouvir um
dia o nosso Juiz olhar-nos com Amor e dizer-nos: “Também não te
julgo. Vai em paz. Entra para o gozo do teu Senhor”.
Falando em máscaras termino com estes soneto:
MAL SECRETO
De: Raimundo da Mota Azevedo Correia
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N´alma e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através da mascara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez, existe
Cuja ventura unica consiste,
Em parecer aos outros venturosa!
Fonte:
Recados do Aarão
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