|
02/11/2007
IDOLATRIA
VIP
(Padre
Inácio José Vale)
Em Êxodo capítulo 20, o Senhor Deus revelou para Moisés o Decálogo,
ou seja, Os Dez Mandamentos.
O Decálogo é o coração Lei mosaica e mantém o seu valor na nova
Lei, ou seja, na Era da Graça da Nova Aliança com Jesus Cristo, (Mt
5,17; Mc 10,7-21).
Deus proibiu rigorosamente a fabricação de ídolos pagãos. Esta
proibição coloca a nação de Israel à parte de todos os povos que
os cercavam.
O Senhor Deus exige de Israel um culto exclusivo, é a condição da
santa Aliança. Iahweh é o único Deus. Além dele não existe outro
(Dt 4,35). “São estes os mandamentos, os estatutos e as normas que
Iahweh vosso Deus ordenou ensinar-vos, para que os coloqueis em prática
na terra para a qual passais, a fim de tomardes posse dela” (Dt
6,1).
Israel estava cercado de povos idólatras (Dt 7,1-6), e foi liberto do
Egito idólatra (Dt 32,1-5;7.8).
A idolatria é condenada porque é uma ofensa terrível contra Deus,
por detrás da adoração, existe o comércio dos ídolos e pelo
pecado de prostituição e crimes (Ex 32,21-28; Os 4,10-14; I Rs
15,11-13; II Rs 16,1-4; Jr 7,31).
Moloque, Astorete, Baal, Asera, Dagom, Merodoque, Júpiter, Mercúrio
e Artemis são alguns dos deuses e deusas mencionados por nome nas
Sagradas Escrituras. (Lv 18,21; Jz 2,13; I Rs 18,19; Jr 50,2; Atos
14,12;19,24). Todavia, somente Iahweh é identificado nas Escrituras
como o verdadeiro e único Deus Todo Poderoso. Num cântico de vitória,
Moisés liderou o povo em cantar: “Quem entre os deuses é
semelhante a ti, ó Iahweh?” (Ex 15,11).
Deus não divide a sua glória com ninguém (Is 42,8; 48,11). A proibição
foi radical contra a fabricação de imagens de deuses e deusas,
devido à falsa adoração a esses ídolos pagãos.
FUGI DA IDOLATRIA
A evolução tecnológica e o progresso científico, têm trazido
inumeráveis benefícios para a humanidade. Todavia, a nossa
sociedade, capitalista, hedonista, narcisista e relativista, tem usado
boa parte desses benefícios para culto de si mesmo.
É incrível a escravidão, o louvor, o fanatismo e adoração pelas
novas máquinas.
As novas modalidades da tecnologia de ponta têm exigido demais de
seus fiéis, tempo para suas celebrações e sacrifícios.
Esses discípulos renunciam tudo pelas imagens, som e voz de suas máquinas.
Esses novos objetos eletrônicos são os ídolos da pós-modernidade.
Muitos são guiados por eles. Também devemos fugir dessa nova forma
de idolatria (1 Cor 10,14).
Ninguém pode servir a Deus e a Mamom, ou seja, ao dinheiro, as
riquezas e a opulência (Mt 6,24).
Ninguém pode beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios,
ou seja, beber das ideologias dos novos ídolos, que sejam máquinas
ou pessoas (1 Cor 10,19.20). Como cantor, cantora, ator, atrizes,
atletas, líderes políticos e religiosos. Não se devem confundir
vocação artística, política e religiosa com ídolos, deuses e
deusas.
Infelizmente, muitos usam seus talentos para o culto de si mesmo e
provocam idolatria aos outros. Se perdem pelo caminho da fama, do
poder, do sexo e do conforto.
Ninguém pode participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (1
Cor 10,21), ou seja, estar no banquete eucarístico, e depois nos
banquetes das festas pagãs.
“Feliz o homem que não se assenta na roda dos zombadores” (Sl
1,1).
É um pecado mortal comer da carne e beber do sangue de Cristo e
depois comer e beber das coisas oferecidas e sacrificadas aos ídolos
do diabo (1 Cor 10,27; 11,27-30; Ef 5,5-18).
“Ninguém pode ascender uma vela para Deus e outra pro diabo”.
“Quereis realizar o desejo do diabo?” (Jo 8,44), “ou fazer a
obra de Deus?” (Jo 6,28-32).
IDOLATRIA DO CAPITAL
“A relação entre fé e riqueza nunca despertou tanto interesse
quanto nos dias de hoje. Graças à predominância do capitalismo, as
religiões são cada vez mais atraídas por um apelo financeiro. O
principal alvo dos críticos dessa relação são os evangélicos que,
em geral, não dispensam o discurso proselitista em prol da expansão
do Reino de Deus para justificar a arrecadação de fundos que
financiem os esforços evangelísticos, cada vez mais dispendiosos por
conta dos crescentes investimentos em patrimônio e mídia eletrônica”,
descreve a revista protestante Eclésia (1).
O estudioso das igrejas neopentecostais, o sociólogo Ricardo Mariano,
da PUC-RS, diz que “a teologia da prosperidade, ao justificar o
intenso pedido de dízimos e ofertas, agrada aos pastores cujos
projetos evangelísticos são ambiciosos e de alto custo, enquanto
que, ao prometer bênçãos materiais e uma vida vitoriosa, mostra-se
quase irresistível aos fiéis. A relação com dinheiro, na qual o dízimo
assume papel de destaque, adquiriu conotação e valor teológico
positivo, tornando-se até objeto de cultos especiais. Pastores, sem
cerimônia, passaram a pedir dinheiro em grandes quantias, enquanto os
fiéis, sem culpa, assumiram seus desejos e consumo e ambições
materiais”.
O sociólogo também afirma que “os neopentecostais acabaram
estimulando muitas igrejas de outras linhas teológicas, como as
renovadas e as protestantes históricas, a imitá-los” (2).
O líder da Universal do Reino de Deus, “bispo” Edir Macedo disse:
“quando alguém começa a obedecer a Deus nos dízimos e nas
ofertas, imediatamente se transfere para o lado de Deus” (3). Que
terrível heresia!!!
Macedo é um dos pregadores da idolátrica teologia da prosperidade.
Esta é a principal heresia atual do protestantismo pentecostal. É
uma das doutrinas de demônios do nosso tempo (1 Tm 4,1).
O que faz a pessoa imediatamente se transferir para o lado de Deus é
obedecer:
1. Os mandamentos de Deus (Mt 19,17; Jo 15,10; I Jo 3,24).
2. A ordem de Jesus Cristo é tê-lo como único caminho que leva ao
Pai (Jo 2,5; 14,6; 15, 5 e 14).
O ínclito Doutor e Bispo da Igreja, Santo Agostinho disse: “Queres
ter Deus do teu lado? É muito simples: põe-te do lado de Deus”.
Para continuar ao lado de Deus é necessário ter:
1. Amor (Mt 22,37-39; Jo 21,17).
2. Fé (Mc 11,22; Hb 11,6).
3. Santidade (Mt 5,48; Hb 12,14).
Por tudo responde a maravilhosa graça do bom Deus ao pecador (Ef 2,8;
1 Tm 1,14), e não o dinheiro pregado por Macedo.
Escreve São Paulo Apóstolo: “Ora, os que querem enriquecer caem em
tentações e cilada e na perdição. Porque a raiz de todos os males
é o amor ao dinheiro” (1 Tm 6,9-11).
Dizia o estadista americano Benjamin Franklin: “Daquele que acredita
que o dinheiro pode fazer tudo, pode-se suspeitar com fundamento que
será capaz de fazer tudo por dinheiro”.
Esses pregadores da teologia da prosperidade, são tomados de
heresias. São discípulos de Mamom (Mt 6,24). São mestres e doutores
na hipocrisia, na mentira e nos falsos ensinos bíblicos (cf. 1 Tm 4,
1 e 2; 2 Pd 2,1-3).
Por que muitas igrejas evangélicas estão ensinando heresias? Quem
responde é o escritor, professor e pastor americano Larry Crabb:
“Tudo começa com o reconhecimento da teologia empobrecida que temos
hoje”. E para seu colega Eugene Peterson “é a superficialidade da
teologia trinitária da igreja evangélica”.
“Até que esta teologia se aprofunde, não conseguiremos progredir
muito no que diz respeito à formação espiritual. As pessoas
precisam ser profundamente impactadas pela comunidade trinitária”,
diz Crabb (4).
A revista protestante Graça diz: “Embora não adorem imagens,
muitos evangélicos – às vezes, inconscientemente – praticam a
idolatria” (5).
“Ficou claro para mim que a carta do pastor Ricardo Gondim *não era
uma expressão isolada que existe hoje, entre nós, um movimento de
pessoas que estão cansadas. Cansadas de ver Baal na igreja evangélica
brasileira. Nas pregações que nos alisam o ego sem confrontar-nos
com nosso pecado pessoal e coletivo e sem denunciar a idolatria e a
injustiça que estão dentro e fora dos nossos templos” afirma o
pastor luterano Valdir Steuernagel.
O CULTO AO LUXO E A BELEZA
Vivemos uma era do mito de Narciso, o culto ao luxo, a beleza e a
vaidade extremada. Muita gente direciona a sua vida a um estilo de
prazer, pelo absoluto prazer carnal.
A idolatria ao corpo virou para muitas pessoas uma obsessão, um culto
sem limite.
A anorexia e a bulimia são doenças contemporâneas, causadas pela
ditadura do culto à beleza magérrima das modelos.
“Algumas mulheres chegam a gastar entre 6000 e 15000 reais por mês
para manter a boa forma. Há até quem lave os cabelos com água
mineral importada. Beleza a qualquer preço”, matéria de capa da
Veja- São Paulo, 03/07/2002.
Tomados pela vontade exacerbada de ter uma beleza irresistível e um
corpo perfeito, milhares de pessoas recorrem às clínicas de cirurgia
plásticas como quem vai às compras.
Por que o mito de Narciso é tão atual? Há várias explicações.
“As pessoas estão mais vaidosas como forma de preencher um vazio. E
um sentimento egoísta quando a pessoas toma a si mesma como objeto de
amor”, afirma o psicanalista Jorge Forbes, membro da escola Européia
de Psicanálise. A professora de psicologia Ceres Alves de Araújo, da
PUC de São Paulo, define a fase atual como ‘neonarcisista”, de um
individualismo extremo:”Nunca as pessoas estiveram tão preocupadas
com elas mesmas e, conseqüentemente, ficam mais atentas ao corpo, às
roupas” (6).
Há um vazio no coração do ser humano que só o bom Deus pode
preencher amorosamente.
__________
*Carta sobre o cansaço das incompatibilidades doutrinária no meio
evangélico. Publicado na edição de Julho/Agosto de 2004, pp. 40 e
41 da Revista Ultimato.
Com categoria dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Deus é mais
terno do que uma mãe”. “Guardando a Deus, tudo é graça”.
“Tudo, com exceção de Deus, tudo é vaidade”.
Para se chegar ao 50º andar da imponente torre comercial conhecida
como Capital Mansion, prédio que pertence ao conglomerado
financeiro-industrial Citic, no bairro de Sanlitun, não se usam os
imensos elevadores do edifício. A entrada é por um pequeno elevador
exclusivo, num canto do saguão principal, com direito a um segurança
de terno preto (Que proíbe fotos), e o tapete vermelho de dois metros
até o elevador. Na placa ao lado se lê: “Bem-vindo ao Capital Club.
É vedada a entrada no elevador de pessoas de calça jeans e tênis.
Lembre-se que o uso do celular é proibido nos salões de jantar”
Se o segurança não conhece a pessoa de rosto, o visitante é
delicadamente solicitado a apresentar sua carteira VIP, na verdade, um
documento que prova ser ele membro de um dos mais seletos clubes
prives de Pequim: o Capital Club. Num país que cresce a um ritmo de
11,5% ao ano (taxa do primeiro semestre), tem 236 mil milionários
(segundo estudo da Cap Gemini e da Merrill Lynch) e que, durante anos,
foi oprimido pela ditadura do coletivo, a emergência dos muito ricos
da China tem criado nas grandes cidades uma histeria por
exclusividade, já batizado pela mídia estatal de “cultura do
VIP”.
De fato, não há um só restaurante ou boate em Pequim que não
tenham as famosas salas VIP, onde se paga fortunas por cabeça para
que ninguém seja obrigado a se misturar com os outros visitantes.
Hospitais privados têm carteiras VIP para quem quer pagar por mais
conforto, além do tratamento, e até casas de massagem lançam
carteiras VIP para os que procuram algo mais que uma simples massagem.
Os ricos chineses hoje precisam de um espaço exclusivo, precisam
brilhar, querem sofregamente privacidade e a justa recompensa por seu
trabalho. Ou seja, luxo (7).
Com razão escreveu o célebre “Doutor da Graça”, Santo
Agostinho: “Se, de fato, você invocasse a Deus, ele viria e seria
sua riqueza. Mas você, na realidade, prefere ter o cofre cheio e a
consciência vazia. Deus preenche os corações, não os cofres. De
que lhe servem as riquezas exteriores, se o que move internamente é a
miséria?”.
O culto ao corpo, ao luxo e a beleza, não só leva ao vazio, a
depressão, a idolatria, a prostituição, ao adultério, ao crime,
com a morte física e espiritual.
Essa matéria é um aviso para pais, educadores, lideranças
religiosas, sociais e políticas e formadores de opinião. Mas é
acima de tudo um compromisso com o Deus da libertação que cada um de
nós precisa assumir uma voz profética contra tudo que gera a morte.
Devemos radicalizar o grito pela vida!
CONCLUSÃO
Os israelitas entraram na terra prometida como povo de Deus
sustentados pela Aliança (Dt 29,11-12). No entanto, depois de
estabelecidos, adquiriram imagens de ídolos e os colocaram em seus
novos lares. Josué foi notificado e os desafiou abandonar a
idolatria, se livrando desses deuses falsos (Js 24,23). Alguns
conservaram as imagens. Por exemplo, Raquel, esposa de Jacó, trouxe
alguns, (Gn 31,19 e 30-36) e até Davi, homem segundo o coração de
Deus, (1 Reis 15,3), iniciou sua vida de casado com Micol, tendo uma
estátua dentro de casa (1 Sm 19,13,16). Atualmente não temos estátuas
de ídolos, mas em muitos lares, “o deus deste mundo” é adorado
(2 Cor 4,4). Este deus é a vida de conforto, sexo, dinheiro, poder,
os adeptos ao humanismo, que são apresentados pela mídia como o máximo
a atingir na vida. Muitas vezes, os lares têm a TV ou aparelhagens
eletrônicas cada vez mais sofisticadas literalmente entronizadas. Não
se trata de ídolos de ouro ou de prata, mas continuam com
“adoradores” à sua volta, fazendo refeições sacrifíciais (ou
ao menos, um lanche), oferecendo o tempo mais precioso do dia, se
prostrando diante da “estatua” do lar.
“As pesquisas revelam que, no Brasil, há mias televisores do que
geladeiras. Nos Estados Unidos, há mais televisores do que água
encanada. Os meios de comunicação de massa, em parte, estimula à
idolatria”.
A idolatria tem sido feroz e intensa no decorrer dos séculos e ainda
continua sendo. Tudo que toma todo seu tempo e o lugar de Deus no seu
coração é idolatria. Vai desde a vil concupiscência, avareza e a
vontade de ser Deus ou vice-Deus
“O sonho do ser humano é ser Deus e seu pesadelo é ver-se obrigado
a simular que alcançou esse propósito”, diz Guilhermo Cabrera
Infante, escritor cubano radicado em Londres.
O Senhor Deus exige adoração e adoração exclusiva. “Eu sou o
Senhor; este é o meu nome! Não cederei a outrem a minha glória, nem
a minha honra os ídolos” (Is 42,8). “Eu sou o Senhor, e não há
nenhum outro, fora de mim não há Deus” (Is 45,5).
Será que as pedras e as paredes de sua casa darão testemunho do que
vem em primeiro lugar em sua vida? (Ler Is 24,26-27).
Será que na sua casa contém os símbolos católicos da nossa fé ou
imagens de artistas e de deuses pagãos?
Será que seu lar manifesta a glória de Deus ou revelação das
coisas mundanas?
Será que sua casa pode dizer como disse Josué: “Eu e a minha casa
serviremos ao Senhor, pois ele é o nosso Deus” (Is 24,15).
Disse Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ninguém pode servir a dois
senhores” (Mt 6,24).
Pe. Inácio José do Vale
Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja
Faculdade de Teologia de Volta Redonda
e-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com
REFERÊNCIAS
(1)Eclesia, Maio de 2004, p.26.
(2)Idem, p. 27.
(3)Folha Universal, 29/07/2007, p.2.
(4)Impacto, Julho-Agosto de 2004, p.28.
(5)Graça, Agosto, 2002, p.44.
(6)Época, 01/04/2002,pp.57 e 58.
(7)O Globo, 29/07/2007, 41.
Fonte:
Recados do Aarão
|