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07/09/2007
(Padre
Inácio José Vale) Doutora da IgrejaSão Hugo, bispo da Ordem Cartusiana, visitando os hospitais, dava aos enfermos pasto de espiritual doutrina, e particularmente aos infectos de lepra, ou com chagas asquerosas, inclinando-se, lhos beijava afetuosamente. Achando-se uma vez a este vistoso espetáculo o chanceler de Lincôlnia, por nome Guilherme, admirou tanta humildade, e depois, receando a vanglória no bispo, o tentou dizendo: São Martinho com o seu ósculo sarava os leprosos; não fazeis vós outro tanto. Respondeu o santo: O ósculo de Martinho sarava os leprosos, porém o ósculo dos leprosos sara a minha alma. O padre Manuel Bernardes (1644-1710), da Congregação do Oratório de Lisboa, filósofo, poeta e escritor notável, um dos mais célebres clássicos da literatura portuguesa, afirmava com categoria: “Não há coisa tão segura como a humildade, nem mais arriscada que a soberba”. São Macário, egípcio, ensinava aos seus discípulos: “O humilde não cai, porque onde há de cair, se está debaixo de todos?”. A soberba, o orgulho nasceu no coração do Diabo. Esse é o principal pecado no coração do homem. A derrubada do primeiro casal, foi devido a esse terrível pecado, pelo o qual tinha sido Satanás expulso do céu (Isaías 14:11-16; Ezequiel 28:11-19; Lucas 10:18). No jardim do Édem, o casal trocou: A humildade pela soberba De servo para ser senhor A santidade pelo pecado A vida pela morte A verdade pela mentira Deus pelo diabo Por isso disse o apóstolo São Paulo: “Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador” (Romanos 1:25). Ofereceu-se à santa Teresa de Jesus um pensamento: por que razão seria Deus tão amigo da humildade – e sentiu que no seu interior lhe respondia: Porque sou a mesma verdade. Muitos santos definem a humildade pela verdade. São João Apóstolo disse que não há verdade no diabo, ele é o pai da mentira (João 8:44). O casamento perfeito da humildade com a verdade. Diabólico é o casamento da soberba com a mentira. Dizem que os lobos fogem do cheiro da pólvora e o maior teólogo americano Jonathan Edwards disse que: “Nenhuma outra coisa deixa a pessoa fora do alcance do diabo como a humildade”. A cruz é o único caminho para a humildade. A vida de cruz é a vida do cristão humilde. Ela elimina o orgulho de ser senhor de si mesmo e mostra o caminho de ser escravo de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Afirma S. Agostinho de Hipona: “Fia-te de deus constantemente, e deixa-te nas suas mãos sem reserva; não queiras ser dono de ti mesmo, e entregue á tua disposição. Professa ser escravo daquele clementíssimo, gloriosíssimo e utilíssimo Senhor”. E diz mais: “Onde há humildade, aí há caridade”. São Bento de Núrsia, ensinava aos seus monges não serem orgulhosos. Dizia: “Vendo o bem em si mesmo, atribuí-lo a Deus e não a si”. “Não querer ser chamado santo antes de o ser, mas ser primeiro, para então ser assim chamado de verdade”. Para São Bento, o primeiro degrau da humildade é a obediência sem demora”. A humildade alegra o coração misericordioso de Deus. Enquanto o orgulho é uma abominação aos olhos de Deus. O orgulho consta na lista dos sete pecados capitais. Os outros são: avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Os Santos Padres da Igreja, ensinam com razão que ele é a raiz de todos os outros pecados, e que ademais corrompe muitos atos virtuosos, porque nos leva a praticá-los com intenção egoísta. O erudito teólogo AD. Tanquerey diz que “ o pecado do orgulho opera para si, ou para agradar aos homens, em lugar de trabalhar para Deus. É a causa da infelicidade. O orgulhoso vive perturbado, agitado e infeliz”. O apóstolo da humildade, São Pedro diz que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (I Pedro 5:5). O mestre de espiritualidade, o francês M. Olier, afirma que “Deus resiste aos soberbos, porque, como o soberbo ataca diretamente e aborrece a soberania divina, Deus lhe resiste ás pretensões insolentes e horríveis; e, como se quer conservar no que é, abate e destroi o que se eleva contra si”. Outro ínclito pensador cristão francês Jacques Bossuet diz: “O orgulho é uma depravação mais profunda: por ele o homem, entregue a si mesmo, considera-se como seu próprio Deus; pelo excesso do seu amor próprio”. Como é horrível e arrivista clérigos orgulhosos. Em suas costas está montado o demônio. Exortava S. Gregório Magno: “Não passam assim as coisas, até mesmo entre os membros do clero, que querem ser chamados doutores e procuram avidamente os primeiros lugares e os cumprimentos?”. O Senhor Deus não suporta pessoas orgulhosas. Está escrito no Salmo 147:6 “O Senhor eleva os humildes, e abate os ímpios até a terra”. Por divina revelação foi ensinada aos filhos de Deus a “santa humildade”. O primeiro sinal do cristão é o amor e o segundo é a virtuosíssima humildade. Devemos Ter muita reverência ao bom Deus por meio da humildade. Devido a sua amabilíssima misericórdia e maravilhosa graça, nós não somos destruídos eternamente, já que somos miseravelmente pecadores. O grande místico S. Bernardo de Claraval, afirma que há estreita afinidade entre a graça e a humildade. AD. Tanquerey diz: “E também o fundamento de todos as virtudes; é, se não a mãe, ao menos a matriz de todas elas, sob um duplo aspecto a saber: sem ela não há virtude sólida, com ela todas as virtudes se tornam mais profundas e perfeitas”. Diz mais: “A humildade é, pois, uma virtude muito prática e santificadora que abraça o homem inteiramente”. Viver a santidade, a via unitiva e chegar a gloriosa contemplação, Santa Teresa de Jesus, nos ensina o caminho da virtude. Diz a Doutora da Igreja: “Humildade, humildade; por esta se deixa vencer o Senhor a quanto dele queremos”. Humilhai-vos! (I Pedro 5:6). O SOFRIMENTO: UM MISTÉRIO O filósofo inglês Bertrand Russel (1872-1970) escreveu: “O advento da civilização grega que produziu tal explosão de atividade intelectual é um dos acontecimentos mais espetaculares da história. Jamais ocorreu algo semelhante, nem antes nem depois. No curto espaço de dois séculos os gregos produziram na arte, na literatura, na ciência e na filosofia uma assombrosa torrente de obra prima que estabeleceram os padrões gerais da civilização ocidental”. Da Filosofia de Sócrates, de Platão e Aristóteles aos jogos olímpicos, os gregos antigos lançaram as fundações daquilo que hoje se entende por civilização ocidental. Não é de estranhar que a imagem idealizada que ficou da Grécia Antiga seja a de um lugar rigorosamente ordenado segundo proporções clássicas entalhadas em mármore. No pensamento da filosofia grega antiga dizia: Páthos máthos (sofrimento é escola e educação). O sofrimento lapida o ser humano liberta-o da soberba e do egoísmo e o faz mais sedento por virtudes eternas. Quando o sofrimento não educa e a escola não serve para impregnar no ser humano os valores morais, a pessoa não suporta a dor e pode praticar todo tipo de miséria. Dizia um dos maiores mestres latinos, Marcial (40-104 d.C.): “Só é realmente corajoso o homem que suporta a desgraça”. Nem toda pessoa é forte suficiente para agüentar os infortúnios desta vida: de suor, lágrimas, sangue, pedras, buracos, espinhos, cardos, traves e encruzilhadas. “Existem certas batalhas em nossas vidas que ou acabam conosco ou nos tornam mais fortes”, disse o autor da obra monumental O Peregrino, o inglês John Bunyan (1628-1688). O sofrimento consegue transformar, alterar o rumo de pessoas, famílias, escolas, empresas, estados, nações, tanto para o bem, como para o mal. HEROÍSMO OU REBELIÃO O renomado escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), autor da obra clássica As Crônicas de Nárnia. Foi criado numa família anglicana de Belfast, na Irlanda do Norte, o escritor e estudioso de literatura Lewis tinha péssimas lembranças da infância e da juventude. Elas abarcavam desde a perda da mãe, aos 9 anos, até a teimosia do pai e os internatos onde era surrado e aterrorizado pelos colegas. O ser humano está sujeito a inúmeras tentações. Uma delas é a tentação do sofrimento. C.S. Lewis explica que “o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podemos levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento”. O sofrimento pode provocar várias tentações – a tentação da super indagação (a de querer entender a razão do sofrimento), a tentação da exageração (a de ampliar a dor desnecessariamente), a tentação da fixação (a de não querer consolo), a tentação da amargura ( a de misturar o sofrimento com decepção, ódio, ira e agressividade) e a tentação da apostasia (a de perder a fé e os padrões de comportamento, entregando-se ao álcool, às drogas, à violência e ao desregramento total). C.S. Lewis diz que “o sofrimento oferece uma oportunidade para o heroísmo” e acrescenta que “essa oportunidade é aceita com surpreendente freqüência”. O mesmo Lewis explica que “o problema de conciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus só é insolúvel enquanto associarmos um significado trivial à palavra ‘amor’ e considerarmos as coisas como se o homem fosse o centro delas”. (1) Ninguém gosta de sofrer, mas todos passam pelas tribulações da vida. O poeta alemão Johann Goethe (1749-1832), dizia: “O homem que não é posto a prova não evolui”. O italiano Dante Alighieri (1265-1321), afirmava: “Quem conhece a dor conhece tudo”. O artista e poeta libanês Kahlil Gibran (1883-1931), nos ensina que “ninguém atinge a aurora sem passar pela noite”. E o célebre poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), nos exorta magistralmente: “A vida é combate, que os fracos abate, aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”. O sofrimento leva alguns ao desespero e derrota, e outros conseguem sair da tormenta com grandes vitórias. O ser humano que passa por terríveis provas e dores cruéis não se rebela contra tudo e contra todos, é um herói, iluminado e abençoado pelos céus. Temos ciência que, o sofrimento nos acompanha desde o nosso nascimento até a morte. Todavia, possa ser amenizado por momentos de profunda felicidade. Como exemplo de um sono tranqüilo sem esquecer de possíveis pesadelos. Perder e ganhar faz parte da nossa caminhada. O contributo desta jornada é a fé, a paciência e a esperança. Com estas três práticas poderosas e o pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne(1533-1592), temos as armas para não sermos vencidos e destruídos pelas aflições. “Existem derrotas mais triunfantes que as vitórias”, disse o filósofo. Disse Jesus Cristo: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” (João 16,33). CONCLUSÃO O filósofo italiano Antonio Negri defende que a dor afia a nossa visão de existência em ensaio sobre “O Livro de Jó, A Força do Escravo”. Trata-se de um ensaio sobre “O Livro de Jó”, um dos livros da sabedoria do Antigo Testamento, da Bíblia Sagrada. Diz o filósofo que o patriarca Jó, ensina que do mais intenso sofrimento podem ressurgir a paixão e a criação. Existe um aspecto positivo na dor: é a travessia pelo deserto do sofrimento que Jó, enfim, chega a si: A experiência da dor pode se converter, desse modo em uma experiência ética, que ajuda o sofredor a se aproximar da verdade e, mesmo, da alegria. Não se trata de ser otimista, ou de ser pessimista, ele afirma. Mas de usar a dor para afiar nossa visão da existência. O sofrimento é condição da existência. Condições que está ligada diretamente á solidão humana. A vida, de fato, é dura, mas o homem tem vontade de potência e uma grande capacidade de construir o futuro, diz Antonio Negri. Negri compartilha do mesmo pensamento do seu conterrâneo, o poeta Giacomo Leopardi (1789-1837), que declara magistralmente: “O homem deve olhar bem fixo o sofrimento e vivê-lo intensamente, sem recuar, até conseguir tirar dele alguma coisa”. Nós sabemos que não é tarefa fácil passar e suportar as vicissitudes de coisas maléficas. A experiência do sofrimento é muito dolorosa. As marcas ficam. Nada faz surgir tantas perguntas, quanto o sofrimento. Os porquês aparecem mais sobre esse assunto. A mente fica perturbada pelas respostas convincentes sim e não. São muitos questionamentos para poucas respostas. A dor, agonia, tristeza e a solidão podem durar pouco tempo, um longo período, como pode durar uma vida inteira. “Muitas vezes não adiantará você perguntar por que diante de uma doença ou decepção, diante da morte de uma pessoa que lhe é muito querida ou de uma tragédia. É preciso, isto sim, pedir ao Pai que o enriqueça de amor e confiança”. Em cada vida há marcas da dor. A sociedade atual tem feito um grande esforço para eliminar a Cruz e o sofrimento da vida humana. Diante de suas tentativas infrutíferas, multiplicam-se as explicações, também infrutíferas. Normalmente, diante do sofrimento, as palavras se tornam pobres, fracas, e vazias. É por isso, talvez, que as pessoas que mais sofreram são as que menos falam da dor, diz com magnífica maestria o preclaro Sr. arcebispo Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ. (2) A via-sacra e o calvário são para poucos. O bom Deus não permite para muitos, para que muitos não sejam reprovados. “Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. Mas, com a tentação, ele vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar”. (I Coríntios 10,13) REFERÊNCIAS (1) Ultimato, setembro-outubro, 2004, p.31 e 32. (2) Brasil Cristão, julho, 2007, pp.20 e 21. ( 3) Valor, sexta-feira e fim de semana, 6,7 e 8 de julho de 2007, pp.4-6. RUSSEL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental, Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. Pe.Inácio José do Vale Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo Professor de História da Igreja Faculdade de Teologia de Volta Redonda E-mail: Fonte: Recados do Aarão |
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