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07/09/2007
Deus
único
Deus
Único Reverenciado na Santíssima Trindade
Autor: Bispo Alexander (Mileant)
Tradução: Boris Petrovich Poluhoff
(Visão ortodoxa de Deus)
Gentileza Thomas
Conteúdo:
A grandeza de Deus e o esforço do homem para conhecê-Lo. A imagem de
Deus perante os povos antigos e perante os filósofos. Os atributos de
Deus: como eles são explicados nas Escrituras Sagradas e nos relatos
dos Santos Padres. O mistério da Santíssima Trindade. A revelação
da perfeição Divina através de Jesus Cristo. Oração a Deus. Ode a
Deus. Quão sagrado é Deus.
A grandeza de Deus e o esforço do homem para conhecê-Lo.
Deus é o mais elevado e perfeito Ser, Criador e Dirigente de todo o
universo. Ele é o Espírito Eterno, que está em todo lugar
(onipresente), que tudo sabe (onisciente) e que tudo pode
(onipotente). Em Seu Ser, Deus está acima da compreensão não
somente para o raciocínio dos seres humanos, mas também para o
entendimento dos anjos: "Que é o único que possui a
imortalidade e que habita numa luz inacessível, o Qual não foi nem
pode ser visto por nenhum homem, ao qual seja dada honra e império
sempiterno. Amém" (1Tim 6:16).
São Basílio, o Grande, escreve: "Se você deseja falar sobre
Deus, renuncie ao seu corpo e aos seus sentimentos físicos, deixe a
terra, o mar e faça o ar estar abaixo de você. Ultrapasse as estações
do ano, a sua ordem natural, os ornamentos da terra, coloque-se mais
elevado do que a esfera celestial, passe através das estrêlas, de
sua beleza, de sua grandeza, de seu benefício, do que elas oferecem
em conjunto, boa ordem, harmonia, equilíbrio, luz, posição,
movimento e passe através das várias conexões e distâncias, que
elas têm entre si. Ultrapassando tudo isso com sua mente, viaje pelo
céu e parando acima dele, com um só pensamento visualize toda a
beleza deste lugar: ignorando os exércitos dos Anjos, a liderança
dos Arcanjos, a força dos Principados, a glória dos anfitriões os
Tronos, Querubins e Serafins, as Virtudes, Dominações e Potestades,
que são as três ordens celestes existentes. O mundo espiritual
angelical é muito maior do que o nosso mundo físico. Ultrapassando
tudo isso, deixando toda a criação abaixo de nosso intelecto,
ampliando nossa mente além dos seus limites, imagine em seus
pensamentos a essência de Deus, imutável, inabalável, infalível,
impassível*, simples, descomplicada, correta, indivisível, luz
inacessível, força sem dimensão, grandeza ilimitada, glória
radiante, bondade cobiçada, beleza imensurável, que ataca
profundamente a alma ferida, porém, que pelos seus méritos não pode
ser retratada por palavras".
*(indiferente à dor, à alegria ou ao desgosto)
Tal elevação espiritual exige uma reflexão sobre Deus. O ser humano
parecendo contrário ao senso comum, no entanto, desde a infância
esforça-se por conhecer a Deus apesar de todas as limitações de sua
mente e de suas forças espirituais. O esforço instintivo da mente
humana em direção a um Ser Superior e em direção ao mundo
espiritual é observado entre as pessoas de todas as raças, culturas
e níveis de desenvolvimento. Aparentemente, no caráter real de uma
pessoa há alguma coisa como um imã, que a atrai para cima e para
dentro de uma esfera invisível e perfeita. As Escrituras Sagradas
chamam essa "alguma coisa" que existe no homem de "a
imagem e semelhança de Deus", a qual o Criador fixou na base de
nosso ser espiritual (cf. Gên 1:27). Somente a existência desse
parentesco entre a alma e o seu Criador pode explicar porque pessoas
inteiramente destituídas da educação religiosa e nas mais desfavoráveis
circunstãncias, adquirem por si próprias gradualmente noções
verdadeiras sobre Deus. É também considerável, que Deus vem ao
encontro dessas pessoas, que O procuram e de alguma maneira misteriosa
Ele Se revela a elas.
As Escrituras Sagradas preservaram a memória de um curto e precioso
período do surgimento da humanidade, quando Deus aparecia e dialogava
com Adão e Eva, como um Pai dialoga com Seus filhos (Gên 2). Entre
os primeiros habitantes não existia nenhum sinal de medo perante o
Ser Superior, embora os ateístas afirmem repetidamente, que a religião
surgiu como resultado do medo instintivo dos seres humanos frente aos
fenômenos naturais como: furacões, maremotos, vulcões e outras catástrofes
da natureza. Ao contrário, de acordo com o livro de Gênesis, o
primeiro reconhecimento do Criador para com o homem foi repleto de graça
e de confiança. A perda da graça devido ao pecado original foi
precisamente o que privou o homem do sentimento de familiaridade
divina e da bondade de Deus.
A imagem de Deus perante os povos antigos e perante os filósofos.
A maioria dos descendentes de Adão e Eva depois que perderam a graça
divina, começaram a afastar-se cada vez mais de Deus, tornando-se
mais selvagens, adquirindo superstições e entregando-se aos vícios.
O desenvolvimento da idolatria começou gradativamente. Entretanto, o
esforço instintivo em direção a Deus permaneceu no homem. Toda a
história da humanidade antiga reconhece o fato, de que o homem em
oposição aos animais nunca se limitou somente à satisfação de
suas necessidades físicas. Seu pensamento é subconscientemente atraído
para cima, para o outro mundo, para o Criador. Ele tem sede de saber,
como e porque surgiu o mundo que o cerca; se existe uma razão
superior para sua existência na terra e o que o aguarda além da
morte; se existe um outro mundo ou mundos mais evoluídos; e, se
existe uma justiça superior e absoluta como recompensa pelos bons
atos e como castigo pelos crimes. Ele observando a grandeza, a
harmonia e a beleza do mundo, chega à conclusão, que tem que existir
um Criador para tudo. Seu sentimento moral indica também, que existe
um único Ser justo, o Qual admitirá a cada um, receber o que merece.
Assim, sob a influência de razões internas e motivos externos é que
surge gradativamente no homem o sentimento religioso ― a
necessidade de conhecer seu Criador e se aproximar Dele.
Por essa razão, nunca existiu um povo completamente destituído de
qualquer sentido sobre Deus. Plutarco escreveu (séc. I d. C.):
"Olhem para a face da terra, vocês encontrarão cidades sem exércitos
e fortificações, sem culturas avançadas, sem líderes, vocês verão
pessoas sem moradias permanentes, sem o conhecimento do uso do
dinheiro, sem o conceito das artes, mas vocês não encontrarão
nenhuma sociedade humana sem fé em Deus".
Devido a falta de escritos detalhados sobre a vida e crenças dos
povos mais antigos é difícil determinar como surgiram e se
desenvolveram suas aspirações religiosas. Uma série de estudiosos
na área das religiões comparativas afirmam, porém, que a religião
original de muitos povos antigos era a fé em um único Deus
estruturada no monoteísmo, enquanto que o endeusamento das forças da
natureza e diferentes deuses (politeísmo) surgiram mais tarde entre
esses povos (ver o livro do professor Wilhelm Schmidt "Der
Ursprung der Gottesidee" "A Origem da Concepção
Divina"). Os primeiros capítulos do livro de Gênesis
apresentam-nos o fato, de que o politeísmo começou a se desenvolver
entre os "filhos do homen" (descendentes de Caim) como
resultado de sua depravação moral, enquanto que "os filhos de
Deus" (descendentes de Set, outro filho de Adão, que substituiu
Abel morto por Caim) conservaram sua fé em um Deus único (Gên 6:2 e
rodapé 6).
A propósito, é necessário esclarecer, que nas religiões politeístas
destacava-se normalmente um Único Grande Deus entre as outras
divindades menos importantes. Por essa razão, apesar de todas as
imperfeições das religiões pagãs, suas confissões na existência
de um Deus Superior deduz que o ser humano é religioso por natureza.
O ateísmo é antinatural, ele é um estado patológico da alma
humana. Ele se origina de um estilo de vida pecaminoso e se torna
arraigado através dos anos pelo modo de fixação das idéias ateístas.
Na Grécia, onde o politeísmo começou a afastar o monoteísmo
aproximadamente 600 anos antes de Cristo, vemos uma sensível e forte
resistência por parte dos pensadores daquela época — os filósofos.
O primeiro deles, Xenofonte (570-466 a.C.) indignou-se contra aqueles
que endeusavam animais e seus heróis legendários. Ele disse:
"Entre deuses e homens existe um único Deus Mais Superior, o
Qual não Se assemelha com eles nem espiritualmente, nem externamente.
Ele é todo visão, todo pensamento, todo audição. Ele habita eterna
e imutavelmente em um único lugar... Com Seu pensamento, Ele governa
tudo sem dificuldade". Heráclito fala do Logos eterno, de Quem
tudo recebeu a sua existência. De acordo com Logos ele significa
Sabedoria Divina. (Os ensinamentos sobre Logos foram desenvolvidos por
Filo no século I d.C.). Anaxágoras (500-427 a.C.) descreve Deus como
a mais pura Razão, Onisciente (que tudo sabe) e Onipotente (que tudo
pode).
Essa Razão, por ser uma Essência Espiritual Onipresente (presente em
todos os lugares) e Onipotente traz tudo em perfeita ordem. Deus criou
o mundo do caos original (vazio obscuro e ilimitado que antecede e
propicia a geração do mundo). Sócrates (469-399 a.C.) reconheceu
que há um único Deus. Esse Deus é o início moral no mundo e a
"Providência", isto é, Ele se preocupa com o mundo e com
as pessoas. Platão (428-347 a.C.) lutando contra as crenças pagãs,
exigiu que fosse excluído qualquer sinal de imperfeição, apreensão
ou alteração do conceito de Divindade: "Deus, e não o homem,
é a medida mais elevada de tudo". Para Platão, Deus (Demiurgo:
designação dos filósofos platônicos para Deus) é o criador de
tudo, o Artista do universo. Ele é o Espírito eterno, que muda a
aparência da matéria de acordo com Seu pensamento. Existe um eterno
e real mundo das idéias, o qual é por natureza inseparavelmente
ligado a realidade verdadeira do homem. O cabeça desse reino das idéias
eleva-se à Idéia do Bem, ou Deus, o Criador do universo infinito
(escrito por "Timeu").
Platão sustentava que a alma humana é imortal. Aristóteles (384-322
a.C.) vê em Deus o início de todo o mundo, o começo do movimento do
universo, "o Primeiro Ativador imutável", a fonte do
movimento e da ação no universo. Ele é a Essência eterna,
toda-perfeita, o início e o centro da ação, o movimento e a
energia. Ele é inatingível, incompreensível, autocriador. Ele é a
Razão Puríssima, "razão da razão", livre de qualquer
materialidade e vivendo na mais intensiva atividade intelectual da própria-contemplação.
"A realidade do pensamento é vida e Deus é essa
realidade". De acordo com Aristóteles o mundo todo anseia por
Deus, por um Ser amado como resultado de Sua perfeição. Arato da Cilícia,
poeta do século III a.C., elevou a idéia da imagem de Deus no homem,
dizendo: "somos verdadeiramente da Sua linhagem" (um raciocínio
similar foi expressado pelo seu contemporâneo, o estóico de nome
Cleanto) (At 17:28 e rodapé 28). Com isso, se pode presumir, que os
filósofos insistindo na existência de um Único Ser sábio sobre o
mundo, o Ser perfeito, influenciaram os atenienses a levantarem um
altar ao "Deus desconhecido", o Qual foi mencionado pelo apóstolo
Paulo no começo de seu célebre discurso no Areópago em Atenas (At
17:23).
Dessa maneira, as noções de alguns filósofos sobre Deus eram
verdadeiras e profundas. Os próprios pensadores mais eminentes
compreendiam que poderia haver somente um Deus verdadeiro. Deus é
todo pensamento e possuidor da mais elevada sabedoria. Ele é o
eterno, Absoluto transcendental, a primeira Razão de qualquer
atividade e movimento no mundo. Para alguns filósofos predominou a idéia
de Deus como o "Demiurgo" — o responsável pela existência
do universo. Porém, eles não possuiam uma noção precisa sobre Deus
como a encontramos na Bíblia, que é a noção de Deus como Criador,
Que fez o mundo do nada. A principal falha de suas idéias filosóficas
sobre Deus está em um Deus "frio", isto é, um Deus
distanciado da terra como se Ele estivesse solitário em Sua própria
vida interna contemplativa.
A razão dessa idéia "fria" sobre Deus dos filófosos é
devido ao fato deles não possuírem a prática espiritual pessoal:
eles não experienciaram uma vida relacionada com as graças de Deus,
uma vida que surge para a pessoa durante a evocação de dedicadas
preces e orações (contudo, muitos Santos Padres tinham alta estima
pelos antigos filósofos e até mesmo os denominaram de "cristãos
antes de Cristo". A principal contribuição dos antigos filósofos
gregos é por terem trabalhado e desenvolvido conceitos
morais-religiosos e criado uma terminologia adequada, que ajudou os
primeiros cristãos a se defenderem e os pais da Igreja a levarem
adiante e a defenderem as verdades cristãs).
As análises sobre o Ser Superior dos filósofos aqui apresentadas são
também interessantes, porque elas mostram os limites sobre o
conhecimento de Deus que o homem pode obter através de seus próprios
esforços naturais (outras análises mais evoluídas sobre Deus entre
os filósofos da idade média e contemporânea foram tomadas do
cristianismo). Nós encontramos conhecimento mais puro e completo
sobre Deus nas Escrituras Sagradas, onde aprendemos que Ele Se revelou
às pessoas que O procuraram — os justos do Antigo e do Novo
Testamento. Aqui, não é mais o fruto de reflexões abstratas e
suposições, mas o esclarecimento direto de Deus compreendido pelos
Santos como uma experiência espiritual ativa. Os Santos escreveram
sobre Deus, aquilo que o Espírito Santo revelou aos seus espíritos.
Por essa razão, nas Escrituras Sagradas assim como nas obras dos
Santos cristãos não há especulações ou contradições, mas há
uma concordância completa em tudo.
Os atributos de Deus: como eles são explicados nas Escrituras
Sagradas e nos relatos dos Santos Padres.
As Escrituras Sagradas dão-nos uma elevada e unificada representação
de Deus. Elas ensinam que Deus é único. Ele é o mais elevado,
global e individual Ser; Deus é Espírito — eterno, bondoso,
onisciente, justo, onipotente, onipresente, imutável, pleno e
bem-aventurado. O Deus todo-poderoso não tendo necessidade de coisa
alguma, criou do nada, através de Sua bondade, todo o mundo visível
e invisível, inclusive os seres humanos. Antes da criação do mundo
não existia nada, nem o espaço, nem o tempo. Um e outro surgiram
juntos com o mundo. Deus, igual a um Pai amoroso, preocupa-se com o
mundo como um todo e com cada ser por Ele criado — até mesmo com o
menor de todos os seres. Ele dirige cada pessoa para a salvação
eterna através de Seus caminhos misteriosos, porém, sem forçá-la,
mas esclarecendo-a e ajudando-a a realizar suas boas intenções.
Nós vamos examinar agora, mais detalhadamente, vários atributos
divinos mostrados nas Escrituras Sagradas e através dos Santos Padres
da Igreja. Deus revela-se ao homem como um Ser completamente distinto
do mundo físico, mais especificamente — como um Espírito. As
Escrituras dizem: "Deus é Espírito e em espírito e verdade é
que O devem adorar os que O adoram" (Jo 4:24). "Ora o Senhor
é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, aí está a
liberdade" (2Cor 3:17). Em outras palavras, Deus é destituído
de qualquer tipo de materialidade, corpo ou forma, pois essas características
são inerentes aos seres humanos e até mesmo aos anjos que revelam em
si somente a "imagem" da espiritualidade de Deus. Deus é o
mais elevado, mais puro e mais perfeito Espírito. Deus revelou-Se ao
profeta Moisés como: "Eu sou Aquele Que sou" (Êx 3:14),
como a mais pura, espiritual e elevada Existência.
Na verdade, encontramos às vezes nas Escrituras Sagradas algumas
passagens, as quais descrevem Deus simbolicamente como tendo membros
semelhantes aos dos seres humanos: ouvidos, olhos, braços e outros,
denominando isso de antropomorfismo (semelhante aos humanos). Essas
expressões são usadas para maior clareza, a fim de nos ajudar a
visualizar uma aparência. Elas são encontradas, na maioria das
vezes, nas partes poéticas das Escrituras Sagradas. Com essas expressões,
as Escrituras têm em mente as propriedades espirituais
correspondentes de Deus, como por exemplo: ouvidos e olhos simbolizam
Sua orientação e direção para tudo (onisciente); mãos e braços
simbolizam Seu poder de realizar tudo (onipotência) e o coração
representa Seu amor.
Para a consciência contemporânea não é nenhuma questão
tradicional, imaginar Deus como um Espírito puro, contudo o difundido
panteísmo em nosso tempo contradiz essa verdade ("Deus é tudo e
tudo é Deus" — uma forma de Divindade que está espalhada por
toda a natureza sem uma característica definida e inconsciente, como
por exemplo, o Budismo e algumas religiões orientais baseadas nessa
idéia). Por essa razão, até hoje em dia ouvimos durante o
"Ritual da Ortodoxia" celebrado no primeiro domingo da
grande quaresma (Páscoa): "Para aqueles que dizem, que Deus não
é Espírito, mas corpo — anátema".
Deus é eterno. A existência de Deus é atemporal, uma vez que o
tempo é simplesmente uma forma de existência finita e mutável. (O
tempo é considerado como a "quarta" dimensão na
relatividade física. De acordo com a cosmologia moderna, espaço e
tempo não são entes infinitos. Eles surgiram com o mundo e
desaparecerão juntos com ele. Eles apareceram pela vontade de Deus e
podem desaparecer ou tornar-se algo completamente diferente do que
eles são agora). Para Deus não existe passado, nem futuro, mas
somente o presente. "No princípio, Senhor, fundaste a terra, e
os céus são obra das Tuas mãos. Eles perecerão, mas Tu permanecerás;
todos eles envelhecerão como veste. E como roupa os mudarás, e serão
mudados; Tu, porém, és sempre o mesmo, e os Teus anos não terão
fim" (Sl 101:26-28).
Muitos Santos Padres ressaltam a diferença entre o conceito de
"eternidade" e "imortalidade". Eternidade é a força
vital, não tendo começo, nem fim. "O conceito de eternidade
pode somente ser aplicado para uma única essência Divina sem começo,
na Qual tudo é sempre o mesmo e está sempre no mesmo estado. O
conceito de imortalidade é atribuído àquele a quem foi dada a existência
e que não morre, como por exemplo, aos anjos e a alma humana.
Eternidade no sentido verdadeiro aplica-se somente para a essência
Divina" (São Isidoro Pelusiote). Nesse sentido mais expressivo
é "Deus pré-eterno".
Deus é bondoso, isto é, Ele é infinitamente generoso. As Escrituras
testemunham: "O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e
de muita misericórdia" (Sl 102:8). "Deus é caridade"
(1Jo 4:16). A bondade de Deus não se estende para uma região
limitada da terra, nem Seu amor característico é dirigido para
determinados seres, mas ela se estende para o mundo todo e para todos
os seres que nele se encontram. Ele se preocupa carinhosamente com a
vida e com a necessidade de cada criatura, não importa quão pequena
ou insignificante elas possam parecer para nós. São Gregório o Teólogo
diz: "Se fosse perguntado a nós: A quem vocês honram e a quem
vocês reverenciam? A resposta está pronta: Nós reverenciamos o
amor". Deus concede as Suas criaturas tantas bênçãos, quantas
cada uma possa aceitar, de acordo com sua natureza e condição e na
medida em que isso corresponde à harmonia geral do mundo. Deus dá
Sua graça especial aos seres humanos.
"Deus é como uma ave-mãe, que vendo seu filhote caído do
ninho, voa até ele para ampará-lo e levantá-lo, e quando ela o vê
em perigo de ser engolido por alguma cobra, ela o sobrevoa com
lamentosos pios assim como a todos seus outros filhotes, não sendo
ela capaz de ser indiferente à perda de nenhum deles" (Clemente
de Alexandria). "Deus ama-nos mais que um pai, mãe ou amigo, ou
mais que qualquer outra pessoa que nos possa amar e até mesmo mais
que nós próprios podemos nos amar, porque Ele se preocupa mais com
nossa salvação do que com Sua própria glória; e como prova desse
amor Ele enviou ao mundo (em forma humana) Seu Filho Unigênito para
sofrimento e morte e somente para nos abrir o caminho da salvação e
da vida eterna" (João Crisóstomo).
Se a pessoa não compreende toda a força da graça de Deus e isso
ocorre várias vezes, significa que ela focaliza demasiadamente seus
pensamentos e desejos no bem-estar terreno, porém a Providência
Divina procura mostrar-nos, que não devemos valorizar tanto os bens
terrenos e temporários e nos chama a conquistar para nossas almas o
bem eterno.
Deus é onisciente. "Não há nenhuma criatura invisível na Sua
presença mas todas as coisas estão a nu e a descoberto, aos olhos
Daquele de Quem falamos" (Hebr 4:13). O rei David escreveu:
"Os Teus olhos viram-me, quando era ainda informe" (Sl
138:16). A onisciência de Deus é simultaneamente visão e
conhecimento direto de tudo, atual e possível, o presente, o passado
e o futuro. A própria previsão do futuro é na verdade uma visão
espiritual, porque para Deus o futuro é o presente.
A previdência de Deus não impede o livre arbítrio de Suas
criaturas, assim como a liberdade de nosso próximo não é violada
pelo fato de nós vermos suas ações. A previdência de Deus com relação
ao mal no mundo e nas ações dos seres livres é no entanto coroada
pela previsão da salvação do mundo, quando "E, quando tudo Lhe
estiver sujeito, então ainda o mesmo Filho estará sujeito Àquele
que sujeitou a Ele todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em
todas as coisas" (1Cor 15:28).
A Sabedoria de Deus é o outro lado de Sua onisciência. "Grande
é o nosso Senhor, e grande o Seu poder, e a Sua Sabedoria não tem
limites" (Sl 146:5). Os Santos Padres da Igreja seguindo a
palavra de Deus, apontavam sempre para a grandeza da Sabedoria Divina
com profunda veneração, quando se referiam à ordenação do mundo
visível, dedicando a esse assunto obras completas, como por exemplo:
Discussões sobre os 6 dias, isto é, sobre o processo da criação do
mundo (São Basílio "O grande", São João Crisóstomo, São
Gregório de Nissa). "Uma erva ou uma folha de relva é o
suficiente, para você ocupar todo seu pensamento com a investigação,
de que maneira ela foi criada" (São Basílio "O
grande").
Deus é justo. Justiça é compreendida na palavra de Deus e na sua
linguagem habitual de duas maneiras: a) como sagrada e b) como justiça
na defesa do bem. Justiça como sagrada consiste não somente na ausência
do mal ou do pecado, mas é a presença do mais elevado valor
espiritual, ligado com a pureza e com a ausência do pecado. Justiça
como sagrada é comparada à luz, e Justiça Divina é como a mais
pura luz.
Deus é "O Único Sagrado" por essência, por Sua natureza.
Ele é a Fonte do sagrado para os anjos e para os seres humanos. A
justiça de Deus é um outro aspecto de Sua benevolência. "E Ele
mesmo julgará toda a terra com eqüidade; julgará os povos com justiça"
(Salmo 9:9). "Que há de dar a cada um segundo as suas
obras" (Rom 2:6). "Porque diante de Deus, não há acepção
de pessoas" (Rom 2:11).
Como pode o amor Divino ser coordenado com a verdade Divina durante o
julgamento rigoroso dos pecados e o castigo do pecador? Muitos Santos
Padres da Igreja falaram abertamente sobre essa questão. Eles
comparam a ira de Deus com a ira de um pai, que para fazer o filho
desobediente voltar ao seu bom-senso, usa de medidas paternas
punitivas, as quais ao mesmo tempo o entristece e o faz sofrer devido
a irracionalidade do filho, sentindo compaixão por ele e pela angústia
que lhe causou. Por essa razão a verdade de Deus é sempre a misericórdia
e a misericórdia é a verdade, de acordo com a colocação: "A
misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se
oscularam" (Sl 84:11).
O sagrado e a verdade de Deus estão intimamente ligados entre si.
Deus chama a todos ao Seu Reino para a vida eterna, porém, no Reino
de Deus não pode entrar nada impuro e por essa razão o Senhor
purifica-nos com castigos como atos de repreensão pelo amor que Ele
tem por nós, pois um tribunal de justiça aguarda-nos, um tribunal
que é temível para nós. Como poderíamos entrar em um reino sagrado
e de luz e como nos sentiríamos nesse reino, sendo impuros e obscuros
e não tendo dentro de nós o sagrado e nenhum valor espiritual ou
moral favorável?
Deus é onipotente. "Porque Ele disse, e foi feito; mandou, e foi
criado" (Sl 32:9), assim o autor do salmo expressa-se sobre a
onipotência de Deus. Deus é o Criador e o Provedor do mundo. Ele é
o Todo-Poderoso. "Bendito seja o Senhor Deus de Israel; é só
Ele que faz maravilhas" (Sl 71:18). Se Deus suporta o mal e os
maus no mundo, não é porque Ele não pode destruí-los, mas é
porque Ele concedeu aos seres espirituais o livre arbítrio e os
orienta, a fim de que eles pela vontade própria rejeitem o mal e
sejam mobilizados para o bem. (Considerando as questões ocasionais
com relação ao que Deus "não pode" fazer, é necessário
explicar, que a onipotência de Deus estende-se a tudo que é do
anseio de Seus pensamentos, de Sua bondade e de Sua vontade).
Deus é onipresente. "Para onde irei a fim de me subtrair aoTeu
espírito? E para onde fugirei da Tua presença? Se subo ao céu, Tu lá
estás; se desço ao inferno, nele Te encontras. Se tomar asas ao
romper da aurora, e for habitar no extremo do mar ainda lá me guiará
a Tua mão, e me tomará a Tua direita" (Sl 138:7-10). Deus não
tende a qualquer limitação de espaço, mas Ele penetra em tudo por
Si só. Além disso, Deus como um Ser simples (indivisível) está
presente em todo lugar não somente com uma parte de Si e não apenas
com Sua força, mas Ele está presente com todo Seu Ser, enquanto que
ao mesmo tempo não se une com aquilo, no qual Ele está presente.
"Deus penetra em tudo, não Se une com nada e nada penetra
Nele" (João Damasceno).
Deus é imutável. "Toda a dádiva excelente e todo o dom
perfeito vem do alto e descende do Pai das luzes, no Qual não há
mudança, nem sombra de vicissitude" (Tg 1:17). Deus é perfeição,
e como cada mudança é um sinal de imperfeição, ela não pode ser
admitida no Ser perfeito. O que não se pode dizer sobre Deus, é que
Nele ocorra qualquer tipo de processo de crescimento, mudança de aparência,
evolução, progresso ou qualquer coisa desse tipo. A imutabilidade de
Deus não é uma imobilidade ou isolamento Consigo Próprio. Sua
imutabilidade, Seu Ser é vida, cheio de força e ação. Deus Próprio
em Si é vida e a vida é Sua existência.
Deus é pleno e bem-aventurado. Essas duas palavras têm significado
semelhante. Pleno é uma palavra eslava e não pode ser compreendida
como "satisfeito consigo mesmo". Ela significa o domínio de
tudo, o tesouro absoluto, a plenitude de todas as graças. "Deus,
que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo Ele o Senhor do céu e da
terra, não habita em templos feitos pelos homens, nem é servido
pelas mãos dos homens, como se necessitasse de alguma coisa, Ele que
dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas" (At
17:24-25). Desse modo, o Próprio Deus apresenta-se como a fonte de
toda a vida, de todo o bem. Todas as criaturas recebem Dele graças.
O apóstolo Paulo chama Deus de "bem-aventurado" por duas
vezes em sua carta "A qual é segundo o Evangelho da glória de
Deus bem-aventurado, o qual me foi confiado" (1Tim 1:11). "A
qual mostrará, a seu tempo, o bem-aventurado e o único poderoso, o
Rei dos reis e Senhor dos senhores" (1Tim 6:15). A palavra
"bem-aventurado" não deve ser entendida como Deus tendo
tudo em Si-mesmo é indiferente aos sofrimentos no mundo por Ele
criado, mas deve ser comprendida como todos os seres recebem Dele e
Nele suas bem-aventuranças. Deus não sofre, mas é misericordioso.
"Cristo sofre como um mortal" (cânone de Páscoa) não pela
Sua Divindade, mas pela Sua humanidade. Deus é a Fonte da
bem-aventurança, Nele está a plenitude da alegria, a satisfação e
o prazer para todos aqueles que O amam, como é dito no Salmo 15:11
" Mostraste-me as sendas da vida, a plenitude da alegria comTua
presença, as eternas delícias a Tua destra".
Uma coisa deve ser observada, que as Escrituras Sagradas e os Santos
Padres da Igreja falam primeiramente dos atributos de Deus e não da
essência atual de Deus. Os Santos Padres falam raramente e apenas
indiretamente sobre a natureza de Deus, explicando que a essência de
Deus é "Una, Simples e Descomplicada". Mas essa
simplicidade e essa falta de complexidade não é um todo indiferente
ou vazio, mas ela contem em si a plenitude de Seus atributos.
"Deus é um mar de essência, imensurável e ilimitado" (São
Gregório o Teólogo). "Deus é a plenitude de todas as
qualidades e perfeições em sua forma mais elevada e infinita"
(São Basílio "O grande"). "Deus é simples e
descomplicado. Ele é todo sentimento, todo espírito, todo
pensamento, toda mente e toda fonte de todas as graças" (Irineu
de Lion).
Os Santos Padres ressaltam que as multiplicidades dos atributos de
Deus em vista da simplicidade do Ser é o resultado de nossa
incapacidade de encontrar uma maneira simples para observar o que é
Divino. Em Deus, um atributo é a faceta do outro. Deus é justo, isto
significa que Ele é onisciente, onipotente, bom e bem-aventurado. A
infinita simplicidade de Deus é semelhante à luz do sol, que se
revela nas várias cores do arco-íris.
Os Santos Padres e as orações litúrgicas usam predominantemente na
identificação dos atributos de Deus expressões gramaticalmente
organizadas na forma negativa, usando as partículas "não"
ou o prefixo "des". No entanto, temos que lembrar uma coisa,
que essa forma negativa indica a "negação de limitações",
como por exemplo, "não desconhecendo" ― significa
"conhecendo". Dessa maneira, isso contém a afirmação da
ilimitabilidade de Sua perfeição.
Além disso, nossos pensamentos falam sobre Deus 1) ou de Seu
contraste para com o mundo, como por exemplo, Deus é Sem Começo,
enquanto que o mundo teve um começo; Deus é eterno, enquanto que o
mundo é temporário; 2) ou das ações de Deus no mundo e Seu
relacionamento para com Suas criaturas (Criador, Provedor,
Misericordioso, Juiz Justo).
Mesmo que nós ressaltemos os atributos de Deus, não conseguimos dar
uma definição precisa para compreendê-Lo. Semelhante definição é
em essência impossível, porque em qualquer definição há uma
indicação de limites e portanto uma indicação de incompletude.
Para Deus não há limites, portanto, não pode haver uma definição
da compreensão de Deus. "Pois até mesmo a compreensão é uma
forma de limitação" (São Gregório o Teólogo).
O mistério da Santíssima Trindade.
Os conceitos de unidade e dos mais elevados atributos de Deus não
esgotam por si próprios a totalidade dos ensinamentos cristãos sobre
Deus. A fé cristã nos introduz no mais profundo mistério da vida
interior de Deus. Ela apresenta o Deus Único em essência e como uma
Trindade em Três Pessoas. O conceito de "Pessoa" está
limitado à idéia de "individualidade" e "consciência"
da personalidade. Já que Deus é Único em Sua essência, então
todos Seus atributos como eternidade, onipotência, onipresença e
outros pertencem de igual forma a todas as Três Pessoas da Santíssima
Trindade. Em outras palavras, o Filho de Deus e o Espírito Santo são
eternos e onipotentes, assim como é Deus o Pai.
A verdade da Tri-unicidade (Trindade) de Deus representa um atributo
de destaque do cristianismo. Não apenas as religiões mais comuns
desconhecem essa verdade, mas não há clareza e nem uma revelação
direta dessa verdade sobre a Trindade nos ensinamentos do Antigo
Testamento. Nele existem simplesmente primeiras noções, gráficos,
indicações ocultas, que só podem ser completamente compreendidas
sob a luz do Novo Testamento, o qual revela com clareza completa os
ensinamentos da Santíssima Trindade.
Assim, por exemplo, são os dizeres do Antigo Testamento,
testemunhando a pluraridade de Pessoas na Divindade: "Façamos o
homem a Nossa imagem e semelhança" (Gên 1:26). "Eis que Adão
se tornou como um de Nós, conhecendo o bem e o mal; agora, pois,
(expulsemo-lo do paraíso), para que não suceda que ele estenda a sua
mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva
eternamente" (Gên 3:22). "Vinde, pois, desçamos, e
confundamos de tal sorte a sua linguagem, que um não compreenda a voz
do outro" (Gên 11:7). Aqui, Deus apropria-Se do rígido plural.
Há um outro exemplo bíblico quando da narração sobre Deus onde os
Três aparecem como Um. Por exemplo, quando Deus apareceu a Abraão na
forma de três homens (anjos). Abraão conversando com os três
utiliza a forma singular (cf. Gên 18:1-3). Essa aparição de Deus a
Abraão serviu como tema para o famoso Rublev pintar o ícone da Santíssima
Trindade.
O ensinamento sobre a Santíssima Trindade é a base sobre a qual é
construída a fé cristã. Todos os agradáveis lados das verdades do
cristianismo sobre a salvação, como a santidade, a bem-aventurança
e a felicidade do ser humano podem sómente ser aceitos com a condição
de nós acreditarmos nos Três-hipostáticos Seres da Santíssima
Trindade, já que todas essas grandes bênçãos são dadas a nós
através da atividade recíproca e conjunta das Três Pessoas Divinas.
São Gregório o Teólogo diz: "O perfil de nossos ensinamentos
é único e simples. Ele é como uma verdade gravada numa pedra,
compreensível a todos: Essas pessoas ― sγo fiéis
adoradoras da Trindade". A grande importância e o significado
central do dogma da Santíssima Trindade esclarece a preocupação,
pela qual a Igreja cristã sempre protegeu esse significado com
vigilante e intenso esforço de pensamento e com o qual ela sempre
defendeu sua fé das várias heresias, esforçando-se em fornecer
sempre a mais precisa definição desse significado.
"Com efeito, são três os que dão testemunho no céu: o Pai, o
Verbo e o Espírito Santo, e estes três são uma só coisa. E são três
os que dão testemunho na terra: o espírito, a água e o sangue, e
estes três são uma mesma coisa" (1Jo 5:7-8). Nessas poucas
palavras está explícita a essência do ensinamento cristão sobre a
Santíssima Trindade. Mas apesar da forma simples e resumida o dogma
da Trindade contém um dos mais profundo, incompreensível e
misterioso segredo da Revelação de Deus. Por mais que nós
exercitemos nossa mente, somos completamente incapazes de compreender,
como três Pessoas Divinas independentes (que não são forças,
atributos ou fenômenos) e completamente iguais em dignidade Divina
podem constituir um único e indivisível Ser.
Os Santos Padres da Igreja aproximaram-se inúmeras vezes dessa não
abrangente, profunda e elevada verdade através de seus pensamentos
iluminados por Deus. Eles usaram diferentes comparações em suas
tentativas de esclarecê-la e trazê-la mais próxima à compreensão
de nossa mente limitada, tomando um ou outro dos fenômenos
circundantes da natureza ou da estrutura espiritual do ser humano como
exemplo: 1) o sol, a luz e o calor ("Luz da Luz" no Credo);
2) a fonte, a chuva e o rio; 3) a raiz, a árvore e os galhos; 4) o
pensamento, os sentimentos e o desejo. (São Cirílo, o santo igual
aos apóstolos, instrutor dos eslavos, em 869 d.C., em um debate sobre
a Santíssima Trindade com os muçulmanos apontando para o sol disse:
"Veja, no céu encontra-se um círculo iluminado e dele nasce a
luz e o calor que é emitido. Deus Pai como o disco solar é sem começo
ou fim. É Dele que nasce o Filho de Deus, como a luz nasce do sol e
como o calor que vai do sol junto com os raios de luz, assim procede o
Espírito Santo. Cada um de nós consegue diferenciar separadamente o
disco solar, a luz e o calor, mas o sol é um único no céu. Assim é
a Santíssima Trindade: três Pessoas Nele, mas um único e indivisível
Deus".
Todas essas comparações que facilitam a assimilação do mistério
da Santíssima Trindade, parecem, no entanto, a mais fraca alusão à
natureza do Ser Superior. As comparações usadas para esclarecimento
desse assunto tão elevado, deixam-nos com uma sensação de insuficiência,
desigualdade e incompreensão do mistério. Elas não conseguem
retirar o véu da incompreensibilidade do mistério dos ensinamentos
sobre o Deus Trino, que reveste o intelecto humano.
Com relação a esse assunto uma estória instrutiva foi preservada
pelo conhecido mestre da Igreja ocidental — Santo Agostinho. Ele,
certa vez, concentrado em seus pensamentos sobre o mistério da Santíssima
Trindade e rascunhando um plano para escrever sobre o tema, partiu
para uma praia à beira mar. Lá, ele viu um menino pequeno, brincando
e escavando um buraco na areia. Aproximando-se do menino ele
perguntou: "O que você está fazendo?" O menino respondeu
sorrindo: "Eu quero despejar o mar nesse buraco". Santo
Agostinho então compreendeu: "Será que eu não estou fazendo a
mesma coisa que esse menino, tentando compreender o mar infinito de
Deus com meu intelecto?"
Do mesmo modo, o grande Santo universal e bispo Gregório, que por seu
talento aprofundou-se com seus pensamentos até mesmo nos mais
profundos mistérios da fé e que foi honrado pela Igreja com o nome
de Teólogo, escreveu a respeito de si mesmo: que ele fala sobre a
Santíssima Trindade mais vezes do que ele respira e confessa sua
insatisfação perante a todas as comparações dirigidas à compreensão
do dogma da Trindade. Ele dizia: "Tudo que eu examinei com meu
pensamento de todas as formas e variáveis, eu não consegui chegar
perto do verdadeiro significado do Ser Deus".
De modo que, o ensinamento sobre a Santíssima Trindade é o mais
profundo e incompreensível mistério da fé. Todos os esforços para
fazê-lo compreensível e assimilá-lo dentro dos padrões habituais
de nosso pensamento tradicional são em vão. São Atanásio "O
grande" observa: "Aqui está o limite daquilo que os
Querubins ocultam com suas asas".
No entanto, apesar de todas essas incompreensibilidades os
ensinamentos sobre a Santíssima Trindade têm um significado moral
importante para nós, e evidentemente por essa razão esse mistério
é gradualmente revelado às pessoas. De fato, ele eleva a idéia de
monoteísmo, coloca-o em uma base sólida e elimina aquelas
importantes e invencíveis dificuldades, que antigamente surgiam no
pensamento humano. Vários pensadores da antiguidade pré-cristã
elevando-se à compreensão de unicidade no Ser Supremo, não podiam
solucionar a questão, sobre como e onde exatamente revela-se a vida e
atividade desse Ser por Si-próprio além de sua relação com o
mundo. Assim, para eles a Divindade identificava-Se com o mundo (o
panteísmo), ou apresentava-Se sem vida, fechada em Si mesma como um líder
imóvel e isolado (o deísmo) ou tornava-se algo temível e austero
sobre o mundo (o fatalismo). O
cristianismo revela nos ensinamentos sobre a Santíssima Trindade, que
nos Três-hipostáticos Seres na (Trindade) e além de sua relação
com o mundo manifesta-se uma infinita plenitude de uma vida interna
misteriosa. De acordo com a citação de um antigo mestre da Igreja
(Pedro Crisológue), Deus é Único, mas não só. Nele há uma distinção
de Pessoas, vivendo Uma com a Outra em associação contínua.
"Deus o Pai não nasce e não procede de outra Pessoa. O Filho de
Deus nasce do Pai pré-eternamente e o Espírito Santo procede do Pai
pré-eternamente". Nessa associação mútua das Pessoas Divinas
é onde existe a sagrada vida interna da Divindade, a qual antes de
Cristo estava oculta atrás de uma cortina impenetrável.
O cristianismo ensinou através do mistério da Trindade, não apenas
a honrar e a venerar a
Deus, mas também a amá-Lo. O cristianismo deu ao mundo através
desse mistério em particular a encantadora e importantíssima idéia
de que Deus é infinito e perfeito Amor.
O rigoroso e seco monoteísmo dos ensinamentos de outras religiões
(judaísmo e islamísmo) por não se elevar à idéia inalterável da
Trindade Divina, não pode por essa razão elevar-se à verdadeira
compreensão do amor como característica dominante de Deus. O amor
por sua mera essência é inconcebível sem uma união ou
relacionamento. Se Deus é Uno, em relação a quem seria revelado o
Seu amor? Ao mundo? Mas o mundo não é eterno. Como poderia o amor
Divino ser expressado na eternidade antes de existir o mundo? Além
disso, o mundo é limitado e o amor de Deus não pode revelar-se em
toda sua infinitude.
O mais elevado amor exige um objetivo mais elevado para sua completa
revelação. Mas onde ele está? Sómente o mistério do Deus Trino
fornece respostas para essas questões. Ele revela que o amor de Deus
nunca esteve inativo, sem se revelar: As Pessoas da Santísima
Trindade vivem Umas com as Outras em contato contínuo de amor desde a
eternidade. "O Pai ama o Filho, e pôs todas as coisas na Sua mão"
(Jo 3:35, 5:20; Mt 3:17, 17:5 e outros). O Filho diz de Si: "Mas
é preciso que o mundo conheça que amo o Pai e que faço como Ele me
ordenou" (Jo 14:31). As palavras breves e expressivas de Santo
Agostinho são profundamente verdadeiras: "O mistério da Santíssima
Trindade cristã é o mistério do amor Divino. Você vê a Santíssima
Trindade, se você vê o amor".
O conceito de Deus como Amor é baseado nos ensinamentos sobre a Santíssima
Trindade. Todos os ensinamentos morais cristãos são fundamentados
nesse ensinamento, cuja essência consiste na lei do amor.
Em nosso humilde reconhecimento da impossibilidade da compreensão do
mistério da Santíssima Trindade devemos aceitá-lo com a máxima fé
e de tal modo que essa verdade não se torne algo externo e isolado em
relação a nós, mas que ela penetre na mais íntima profundeza de
nosso espírito, tornando-se propriedade total de nossa alma e o guia
da fonte de força de nossa vida. Assim, deveria ser em essência a
aquisição de outras verdades cristãs, pois o cristianismo não é
uma teoria abstrata, mas um novo renascimento da vida!
Nota: Os antigos ensinamentos ortodoxos sobre as características
individuais do Pai, Filho e Espírito Santo são distorcidos pela
Igreja Católica Romana com a criação do ensinamento à respeito da
origem do Espírito Santo do Filho, ocasionando, portanto, a questão
do filioque. A primeira menção desse relato provém do século VI,
da Espanha. No século IX o papa Leão III na cidade de Nicéa em
Constantinopla aprovando pessoalmente esse ensinamento, proibiu, no
entanto, o acréscimo das palavras "e do Filho" no Credo,
onde se diz, que o Espírito Santo "procede" do Pai. Apesar
disso, alguns séculos mais tarde as palavras "e do Filho"
foram, contudo, estabelecidas no Credo Católico Romano.
A Igreja Ortodoxa nunca concordou com esse acréscimo, porque o
ensinamento sobre a procedência do Espírito Santo do Filho é
ausente nas Escrituras Sagradas, era desconhecido pela Igreja da
antiguidade e apresenta-se como uma invenção humana. Essa distorção
da fé cristã é um dos mais sérios obstáculos para a aproximação
da Igreja Católica Romana com a Igreja Ortodoxa. Os protestantes
herdaram esse ensinamento dos católicos romanos, dos quais eles se
separaram no século XVI.
A revelação da perfeição Divina através de Jesus Cristo.
Há 2.000 anos atrás aconteceu um grande milagre e um mistério de
devoção foi revelado: o Deus onipotente vivendo na mais inacessível
glória veio ao mundo na Pessoa de Seu Filho Unigênito e Se tornou
homem. O Filho de Deus ocultou a glória de Sua natureza Divina sob o
abrigo de um corpo humano, de tal modo, que Ele não Se tornou uma
pessoa das cinzas. Assim, o invisível tornou-se visível, o
desconhecido tornou-se acessível a nossos conhecimentos e o inatingível
tornou-se atingível.
Jesus Cristo disse a Seus contemporâneos: "Quem Me vê, vê também
o Pai" (Jo 14:9). Quais atributos Divinos foram revelados às
pessoas, que viram e se relacionaram com o Filho de Deus? Elas viram
os atributos naturais a Deus — Sua onipotência e onisciência. A
vida terrena do Salvador foi acompanhada por uma infinidade de
milagres. Para Ele não existiam doenças incuráveis; a natureza
inanimada obedecia imediatamente Sua palavra Divina; os anjos
serviam-No com temor como a um Soberano; os demônios fugiam Dele
temerosos assim como escravos culpados; até a implacável morte e o
inferno absoluto rendiam-se a Ele, libertando seus prisioneiros ao céu.
Todos os atos de Sua onipotência Divina foram realizados aos olhos de
todos e deixaram uma indelével impressão na história da humanidade.
A consciência da realidade dos discípulos de Cristo era tão forte
em seus encontros com o Criador, que todos eles dedicaram suas vidas
à pregação pelo mundo da alegre nova sobre a vinda de Deus a terra.
São João o Teólogo escreveu: "O que era desde o princípio, o
que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, o
que apalparam as nossas mãos relativamente ao Verbo da vida, porque a
vida se manifestou e nós a vimos, e damos dela testemunho, e vos
anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e nos apareceu" (1Jo
1:1-2).
As pessoas que tiveram um relacionamento com Cristo, viram Nele, além
da Sua onipotência Divina, alguma coisa muito valiosa para si com
relação à moral, que foram as Suas qualidades espirituais e
santidade. Na vida terrena do Salvador foi revelada às pessoas uma
visão completa de Suas virtudes: Sua sensibilidade, compaixão, altruísmo
(não egoísta), humildade, paciência, coragem, obediência ao Pai,
compromisso com a verdade, pureza absoluta, santidade e principalmente
Seu Amor ilimitado. Os apóstolos mencionam continuamente a compaixão
de Cristo, o Seu compadecimento pela aniquilação humana. São João
o Teólogo conclui: "Nisto conhecemos o amor de Deus: em ter dado
a Sua vida por nós; igualmente nós devemos também dar a vida pelos
nossos irmãos" (1Jo 3:16).
O apóstolo Paulo sentindo a força do amor de Cristo, assim ele
descreve as características dessa virtude: "A caridade é
paciente, é benéfica; a caridade não é invejosa, não é temerária;
não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios
interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a
injustiça, mas folga com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo
espera, tudo sofre. A caridade nunca há de acabar, mas as profecias
passarão, as línguas cessarão e a ciência será abolida"
(1Cor 13:4-8).
Assim, Cristo monstrou ao mundo com Sua vida e atos a perfeição
moral de Deus e nos deu a oportunidade de compreender, que a imagem e
semelhança de Deus existe no homem, para que nós nos esforçemos por
ela.
*** *** ***
Em resumo, Deus é o Ser Espiritual mais elevado, a Quem tudo pertence
e sem o Qual nada é concebível. Ele não tem começo e nunca terá
fim, existindo acima de qualquer tempo e espaço. Ele está em todo
lugar ao mesmo tempo, penetrando tudo, mas nada pode penetrá-Lo. Ele
é o começo, a continuação e a vida de tudo que existe. Ele é
infinitamente bom e ao mesmo tempo é infinitamente justo. Ele não
necessita de nada. Ele, em Sua bondade, preocupa-se com todo o mundo
visível e invisível e dirige a vida de cada ser humano para a salvação.
O caminho para o conhecimento de Deus e das bênçãos eternas é
revelado às pessoas através do Filho Unigênito de Deus.
O homem contemporâneo, com sua enorme bagagem de todos os tipos de
conhecimento, pouco sabe e pouco pensa sobre Deus. Tudo é
direcionado, como se fosse de propósito, para o homem desviar seus
pensamentos do mais importante ― de Deus e da eternidade,
negando-lhe o relacionamento vivo com o Criador. Disso, vem nossa
preocupação permanente, nossa decepção contínua e nossa tristeza
espiritual. Um esforço voluntário é indispensável a nós, para
afastarmos as preocupações a um segundo plano e voltarmos nosso
rosto para Deus e enxergarmos Sua luz. Então, através do
relacionamento com Ele sentiremos Sua proximidade e bondade, veremos
Sua mão guiando nossa vida e aprenderemos a reverenciar Sua vontade.
Assim, Deus tornar-Se-á gradativamente para nós, o que há de mais
importante em nossa vida — a fonte de nossa força, paz e alegria; o
objetivo de nossa existência. Ele se tornará nosso Pai e nós
― Seus filhos.
Fonte:
Recados do Aarão
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