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27/08/2007
O sofrimento

 

 

O SOFRIMENTO
(Padre Inácio José do Vale)
 
            O grande teólogo, filósofo e Doutor da Igreja Santo Agostinho disse: “A firmeza cristã exige não só fazer o bem, mas também sofrer o mal”.
            A raiz do sofrimento está no pecado: “Ele retomou: “E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibiu de comer!” O homem respondeu: “A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!” Deus disse à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente me seduziu e eu comi”. Depois disse Deus: “Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!” E Deus o expulsou do jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado (Gênesis 3,9-13.22.23).
            Sofremos pelos nossos erros, enganos e seduções. “Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: É Deus que me está tentando”, pois Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Antes, cada qual é tentado pela própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida a concupiscência, tendo concebido, dá a luz ao pecado, e o pecado, atingido a maturidade, gera a morte (Tiago 1,13-15).
            Pela nossa ignorância, estupidez, ambição, orgulho, prepotência e ira desenfreada, acarretamos muitas dores e sofrimentos para o nosso corpo e alma.
            O sofrimento é uma grande ferramenta para o nosso ensino e disciplina espiritual. Os grandes homens da humanidade se serviram desta ferramenta para realizarem as suas grandes obras. Ninguém escreve seu nome na História, ninguém torna se herói sem passar pela escola do sofrimento. Ninguém chega ao Paraíso sem passar primeiro no calvário. “A cruz é uma escola”, dizia Santo Agostinho.
            Grandes conquistas, grandes vitórias, grandes tormentas. Impossível chegar lá, sem grandes dificuldades. O sofrimento é a poderosa arma do corajoso, do persistente. A maior e a melhor lapidação para o homem é o sofrimento . O salmista reconheceu a riqueza do sofrimento em sua própria vida: “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra... Foi-me bom ter um passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Salmo 119,67-71).
            É no meio do infortúnio que o homem se ver acuado da sua soberba. É na adversidade e na humilhação que o homem enxerga melhor a sua miserabilidade. É na desgraça e no óbice que o homem entende que não é nada. É na doença incurável que o homem se ver como um verme. “Os vermes o comerão gostosamente”. “Quanto menos o homem, essa larva, e o filho de homem, esse verme” (Jó 24,20; 25,6).
 
ENTREGÁ-LO A DEUS
 
            As maiores bênçãos do mundo foram geradas através dos maiores sofrimentos. Nas grandes vitórias foram derramados sangue e lágrimas. As glórias deixam marcas de terríveis dores. Conta-se que o grande poeta alemão Johann Goethe disse certa vez: “Nunca tive uma aflição que não se tenha transformado em poema”. Goethe afirmou: “O homem que não é posto a prova não evolui”.
            Similarmente, escreve São Pedro Apóstolo: “Nisso deveis alegrar-vos, ainda que agora, se necessário, sejais contristados por um pouco de tempo, em virtude de várias provações, a fim de que a autenticidade comprovada da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, cuja genuinidade  é provada  pelo fogo, alcance louvor, glória e honra por ocasião da Revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1,6.7).
            O insigne escritor sacro Paul E. Bilheimer escreveu: “Os melhores traços do caráter cristão, em geral, são frutos do sofrimento. Quando estão no início de uma provação, a maioria dos cristãos se encontra num estado de frieza, com uma mente mundana e carnal; no final dela, porém, seu espírito já está abrandado, amadurecido e  edificado”.
            As aflições santificadas abrandam a aspereza e aplainam as quinas pontiagudas da nossa vida. Consomem as impurezas do egoísmo e do materialismo. Abatem o orgulho, moderam as ambições humanas e sufocam o fogo das paixões. Expõem o mal que existe em nosso coração, revelando fraquezas, falhas e defeitos e tornando-nos conscientes do perigo espiritual. Disciplinam o espírito obstinado. Para alguns de nós, somente a escola do sofrimento será capaz de transmitir as lições sobre paciência, tolerância e domínio próprio que precisamos aprender.
            Um dos métodos usados por Deus  para aperfeiçoar o caráter cristão consiste em permitir que soframos injustamente. A maioria pensa que sofrer já é difícil, quem diria sofrer injustamente! Contudo, ao falar sobre sofrer injustamente, Pedro declara: “Pois, que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados...” (1 Pedro 2,20.21).
            Sem dúvida, estamos falando de uma ferramenta muito afiada e dolorosa para nossa alma. Você sabe, no entanto, que quando um torneiro mecânico tem um trabalho muito fino e detalhado para executar, ele escolhe a ferramenta mais afiada que possui. De modo semelhante, Deus emprega o afiado recurso do sofrimento injusto quando deseja esculpir um lindo desenho na vida do cristão. É difícil receber injúria dos outros e sempre retribuir com o bem, mas enquanto o molde divino não for profundamente gravado na estrutura de nossa alma, Deus não terá completado a sua obra nós.
            Não podemos evitar sofrer nas mãos dos outros. É certo que isso acontecerá. No entanto, em última análise, ninguém consegue ferir-nos a não ser nós mesmos. Nenhuma injustiça que os homens cometam contra nós poderá machucar-nos a menos que permitamos que ela nos torne ressentidos e rancorosos. Um ato ou atitude só pode nos causar mal de verdade se dermos lugar à amargura e a ira.
            Porém, você pode perguntar: “Como posso evitar a amargura? Como posso deixar de me sentir magoado?” Existe a história de uma criança indígena que se aproximou de um velho líder da tribo, levando um pássaro ferido nas mãos. O velho olhou para o pássaro e disse: “Leve-o de volta e deixe-o onde você o encontrou. Se você o segurar, ele morrerá. Se você devolve-lo para as mãos de Deus, ele curará sua ferida, e o pássaro viverá”.
            Eis uma lição sobre o que devemos fazer quando somos atingidos pela dor. Nenhuma mão humana é capaz de curar um coração ferido; é preciso entregá-lo a Deus (Lucas 4,18; Mateus 11,28-30).
            “O meu Deus proverá magnificamente todas  as vossas necessidades, segundo a sua riqueza, em Cristo Jesus ” (Filipenses 4,19).
 
 
CONCLUSÃO
 
            Temos consciência que muito sofrimento fica sem explicação. Toda a sua realidade será revelada na eternidade. É impossível a razão humana entender o mistério do sofrimento.
            O sofredor Jó passou seus dias implorando e suplicando ao Senhor Deus que lhe desse maiores informações e explicitasse o seu padecimento. Quando o Todo-Poderoso finalmente manifestou, ele demonstrou que seu servo Jó não tinha capacidade nem para entender a resposta, muito menos para discutir com o seu Eterno Criador. E no final do seu calvário, o patriarca Jó compreendeu e se colocou nas mãos de Deus com absoluta confiança (Jô 3,1-4; 9,1-4; 42,1-17).
            Em alguns casos o sofrimento que é inexplicável no momento, mais adiante, por vontade de Deus é simplesmente compreendido. Por que o bondoso Deus permitiu que o jovem José do Egito fosse vendido pelos seus próprios irmãos como escravo e depois sofresse dois anos na prisão por permanecer honesto e casto? Mais tarde o propósito ficou claro, ou seja, o por quê? Foi respondido (Gênesis 50,17-21; Romanos 8,28).
            Nem sempre podemos obter a reposta para as nossas dificuldades, todavia, temos a capacidade de entender que só em Deus, o Todo-Poderoso, podemos confiar absolutamente.
            “Entrega teu caminho ao Senhor, confia Nele, e ele agirá; manifestará tua justiça como a luz e teu direito como o meio-dia” (Salmo 37,5.6).
            Do sofrimento, podemos tirar uma grande lição, ele nos diz que necessitamos desesperadamente do Senhor Deus.
O HOMEM É UM PROBLEMA?
 
            O  homem já andou na lua, mas em muitos lugares não consegue passear sem medo nas ruas do seu próprio planeta. Ele pode equipar sua casa com todo tipo de aparelhos modernos, mas não consegue impedir a onda de famílias desfeitas. E pode introduzir a era da informação, mas não consegue ensinar as pessoas a viverem juntas em paz. Ele pode se comunicar com o mundo inteiro, via a internet, mas não consegue dialogar com o seu vizinho.
            Na tentativa de estabelecer certa medida de ordem na sociedade, os homens se têm organizado em uma variedade de governos. Todavia, não tem eliminado as guerras, fome, miséria, corrupção, injustiças e imoralidades. Eles não têm governado suas próprias vidas e são desencontrados no seu próprio ser.
            O ilustre professor de história Hugh Thomas, afirmou: “A difusão do conhecimento e da educação ensinou pouco à humanidade em matéria de autodomínio e menos ainda na arte de conviver com outros homens”.
            “A humanidade produz bíblias e armas, tuberculose e tuberculina (...), constrói igrejas e universidades que as combatem; transforma mosteiro em casernas, mas nas casernas coloca capelães militares”, escreveu o romancista austríaco Robert Musil (1880-1942) em O Homem sem Qualidades.
            O renomado historiador Norman Cantor escreve: “Em todos os lugares, os padrões de comportamento social – já em declínio – foram devastados. Se os próprios políticos e generais haviam tratado milhões de pessoas sob seus cuidados como animais enviando ao abate, que princípios religiosos ou éticos impediriam que os homens tratassem uns aos outros com a mesma ferocidade dos animais selvagens?... A matança da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) desvalorizou completamente a vida humana”. “Os seres humanos são capazes das mais belas criações e dos mais horrendos crimes”, diz Marcelo Gleiser, professor de física teórica do Dartmouth College, Hanover (EUA) e autor de O Fim da Terra e do Céu.
 

O HOMEM PÓS-MODERNO


 
            No desespero da sua angústia, ambição, egoísmo e soberba, o homem vive descontrolado da sua racionalidade. Procura tomar posse de tudo, e se perdendo do Universo e de si mesmo. Auto-afirmando seu objetivo, mas distante dos seus ideais humanitários.
            Voltado cada vez mais para dentro de si mesmo, carente do senso da sociedade. O homem pós-moderno afunda no vazio. No prazer de ser um qualquer.
            O homem contemporâneo vai, assim, cada vez mais se minimizando, se miniaturizando. Tudo torna se pequeno, acanhado, agachado, sem grandeza. Ele tende a ser a raiz quadrada do homem do início do século.
            Totalmente dominado pelas pequenas delícias, ele torna se apático. “Cada qual vive em um bunker de indiferença”, diz Gilles Lipovetsky.
            Ocorreu uma miniaturização do desejo humano. Qualquer quinquilharia produzida pela tecno- ciência já preenche suas perspectivas. Muitas vezes, aquilo que reduz num shopping center basta para saciar sua capacidade de desejo. Suas micro-aspirações satisfazem-se inteiramente com micro-objetos.
            Para o homem pós-moderno quase só existem duas coisas: o “eu” e o “agora”.
            È curioso, mas a mídia quase não aborda tal fenômeno. Entretanto, no mundo das idéias e dos livros muito se tem escrito sobre o tema. Os títulos de algumas obras deixam filtrar seu conteúdo: A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky; A Derrota do Pensamento, de Alain Finkielkraut, O Fim do Social, de Jean Baudrillard...
            Nos livros e na realidade, o homem vai sendo cada vez menos o que sempre foi. Alguns autores usam a palavra zumbi.
            Diz-se homo psychologicus (mergulhado na própria psicologia); homo clausus (fechado em si); homo aequalis (homem igualitarizado, se assim se pudesse dizer). Mas não se fala quase mais em homo sapiens!
            Como evidente mas expressivo exagero, chega-se a falar em mutação antropológica (Lipovetsky). De certa forma, o homem não é mais o mesmo; mas como ele foi se transformando aos poucos, muitos nada percebem.
            Como diz Fredric Jameson, assistimos a uma formidável erosão dos contornos. Ora, essa erosão dos contornos atinge o homem em seu cerne, em sua personalidade, transformando-o quase num semi-homem(1).
            Mas, porque o homem não possui o olhar que alcança todo o resultado de suas ações, e nem sempre possui a medida suficiente de força moral para querê-lo, enfim, também porque a vontade muitas vezes fracassa, as demonstrações de seu poder se transformam inadvertidamente em testemunhos de sua fraqueza. Como o aprendiz de feiticeiro do Fausto de Goethe, o homem se vê no fim acossado e ameaçado pelas forças que ele mesmo desencadeou.
            Que é o homem depois de tudo isso, como ele se apresenta e como ele se experimenta no contato com o seu mundo? Um ser intermediário entre dois extremos, capaz de dominar coisas inauditas e escravo das coisas por ele produzidas; criador de novas realidades e ao mesmo tempo subjugado e manobrado por elas; continuamente desiludido com seus resultados, mas levado precisamente por tais fracassos e novas iniciativas e intuições; a par de todos os conhecimentos, mas topando com problemas cada vez maiores; tendo olhos e não vendo; sendo cego, e conhecendo; nascido para a contemplação, e embriagado pela ação; cético no entusiasmo de sua capacidade de produção; angustiado em meio à abundância das seguranças da existência; solitário no meio da multidão e incapaz de entrar em si mesmo; ávido de paz e instigado pelo desassossego interior; sedento de si mesmo e contudo incapaz de entrar em acordo consigo mesmo; senhor de um mundo e inseguro de si mesmo; um ser formado de contrastes que reciprocamente se condicionam e, contudo, permanecem irreconciliáveis entre si; centro que tende à conciliação dos extremos e, contudo, não se concilia consigo mesmo(2).
 
 

LUZ E TREVAS


 
            “É perigoso fazer ver demais ao homem quanto ele é igual aos animais, sem lhe mostrar a sua grandeza. É também perigoso fazer-lhe ver demais a sua grandeza sem lhe mostrar a sua baixeza. Mas o mais perigoso de tudo é deixá-lo na ignorância de uma e outra coisa. É muito útil representar-lhe ambas”, afirma o intelectual francês Blaise Pascal (1623-1662).
            O sacerdote ortodoxo russo Aleksander Mien, assassinado em 1990, autor de Jesus, Mestre de Nazaré, disse: “O mal que o homem encontra mais amiúde em sua vida é o mal que vive dentro dele. De um lado, é a sede de poder, de prevaricação e violência; de outro, uma revolta cega em busca de  auto afirmar, dar livre curso a todos os próprios instintos. Estes demônios, adormecidos no fundo da alma, mas sempre prontos para ressurgir em qualquer ocasião propícia, são alimentados pelo sentimento do nosso “eu” como centro de tudo, como valor supremo”.
            “Todo homem, entretanto, permanece para si mesmo um problema insolúvel, obscuramente percebido. Em algumas ocasiões, com efeito, sobretudo nos mais importantes acontecimentos da vida, ninguém consegue fugir de todos a esta pergunta. Só Deus dá uma resposta plena e totalmente a esta questão e chama o homem ao mais alto conhecimento e a pesquisa mais humilde” (G.S. 21e).
            Declara magistralmente o Papa Bento XVI: “Sempre que o homem se deixar iluminar pelo esplendor da verdade, empreende quase que naturalmente o caminho da paz” (3).
 

CONCLUSÃO


 
            A teoria da evolução e o relativismo, deterioraram o fundamento divino do homem. Seguimento social organizado, tem trabalhado para derrubar todo o contexto tradicional do homem. O sistema com forças capitalistas tem armado muito bem sua plataforma contra toda dignidade do ser humano. O esquema está formado e tem trabalhado bastante contra o convencional e natural da beleza humana. A conspiração irracional se vê em toda parte com seu projeto de falsa liberdade e prosperidade.
            Parte da mídia está comprometida com essa irracionalidade. Não é à toa que somos bombardeados com falsas notícias e ideologias perniciosas. Na realidade, não é liberdade e sim libertinagem, a prosperidade é para poucos e as mazelas para muitos. A exclusão da dignidade do homem é o resultado dos ensinamentos cristãos que a sociedade optou a não praticá-los.
            O homem pós-moderno vive numa encruzilhada de indecisões. Perdido na velocidade das informações. Rodeado de inseguranças, do medo, do tédio, do prazer e não prazer e do teatro do absurdo. Na verdade, o vazio toma parte total o seu ser. Seu ser descontrolado por caminhos desencontrados. Na crise de afeto, quer receber carinhos e carícias de tudo e de todos, porém, rejeitado pelos mais próximos e até por si mesmo.
            A sociedade que propaga tanto a cultura de liberdade e multidões, no entanto, estamos vendo o homem acorrentado e solitário.
            O mundo marcado pelo individualismo e materialismo, causa desespero e óbice no homem. O sociólogo americano Philip Slater, no livro The Pursuit of Loneliness (Em  busca da solidão), declarou esplendidamente essa prática ao escrever: “Buscamos mais e mais privacidade, e nos sentimos mais e mais alienados e sozinhos quando a conseguimos. Competimos em vez de cooperar; rejeitamos em vez de aceitar; agimos de maneira fria e tornamos o mundo um pouco mais frio”.
            Essa  é a triste realidade de uma sociedade em que vê o homem como produto de mercado.
            Todo o homem é sagrado e transcendental, por isso, inegociável.
 
SANTOS E SANTIDADE
 
            A venda espetacular do Auto Retrato sem Barba, de Vicent van Gogh, por 71,5 milhões de dólares sacudiu o mercado de arte na terceira semana de novembro de 1998. Arrematado na noite de quinta-feira por um colecionador que preferiu ficar no anonimato, a tela tornou-se a terceira obra de arte mais cara do planeta.
            O lance vitorioso foi feito por telefone para a casa de leilão Christie’s, em nova York. “Foi uma venda extraordinária. Havia compradores de todas as partes do mundo”, declarou Franck Giraud, chefe do departamento de arte dos séculos XIX e XX da Christie’s. No jargão dos marchands, a fortuna paga pelo comprador do Auto Retrato sem Barba deve ser diagnosticada como “Síndrome da última chance”, já que um quadro com tal pedigree raramente aparece no mercado.
            O Auto Retrato sem Barba foi o último retrato finalizado por Van Gogh, em 1889, quando ele se recuperava de um surto psicótico num asilo em St. Rémy , no sul da França, pouco antes de se matar. Pintado como um presente de Vicent para o aniversário de 70 anos da mãe, Anna Cornelia van Gogh, a tela foi concebida como uma imagem idealizada do pintor. Além de ter-se retratado sem barba, ele o fez com uma expressão mais serena, como se quisesse passar um atestado de sanidade mental para a mãe.
            O pintor holandês entrou para a história como um herói romântico, um gênio torturado e incompreendido em seu tempo. Sua tragédia pessoal funciona como uma cruel alavanca, jogando suas cotações ainda mais para o alto. É claro que o talento do pintor também conta. Van Gogh, realmente foi um gênio dos pincéis, capaz de revolucionar a pintura num curtíssimo espaço de tempo, entre os anos de 1886 e 1889. Juntos, todos esses fatores fazem do holandês o pintor mais caro do século XX, com nada menos do que quatro das dez mais valiosas telas do planeta. O espanhol Pablo Picasso é o segundo colocado no ranking (1).
            Esse ínclito  pintor Van Gogh depois de passar toda a vida pintando camponeses, macieiras e girassóis, confessou, das profundezas de sua convicção religiosa que, se lhe tivesse sido dado faze-lo, gostaria de ter pintado as figuras dos santos. “Ter-se-iam transformado em homens e mulheres semelhantes aos primeiros cristãos” (2).
            Os santos são informadores, formadores, resplendores e indicadores da presença da Santíssima Trindade em nossa vida.
            Encontramos nos santos poderosas mensagens de beleza, consolo, confiança, paciência e esperança.
            Os santos são modelos de libertação e desapego das coisas terrenas. Os santos nos convidam a andarmos na estrada da santificação. Seus exemplos nos conduzem a Cristo. Leva-nos a amar ardentemente a Deus, o próximo e as obras sagradas da Santa Madre Igreja.
            Disse são Maximiliano Maria Kolbe: “A máxima glória possível de Deus mediante a salvação e a mais perfeita santificação própria e de todos aqueles que vivem agora e viverão no futuro, por meio da imaculada. Devo ser santo, e o mais santo possível” (2).
            “Os santos não apenas se deram a si mesmos, mas se deram a serviço de Deus e de seus irmãos”,afirmou o Papa Paulo VI (4).
            Os santos provocam em nós uma atitude destemida e muitas vezes somos surpreendidos a imitá-los a sua coragem e heroísmo.
            Quanta timidez e vergonha da nossa parte em não correspondermos a essa doação ao bom Deus e aos irmãos. Será que podemos dar ouvido as palavras do Santo Padre, o Papa João Paulo II e atender o seu maravilhoso convite: “Pais e família do mundo inteiro, deixai que vo-lo diga: Deus vos chama à santidade! Ele mesmo escolheu-nos ‘por Jesus Cristo, antes da criação do mundo – nos diz São Paulo – para que sejamos santos na sua prece (Ef 1,4)” (5).
            Dizia com muita ênfase João Paulo II: “Que a força mais poderosa para você levar alguém a Cristo e a sua santidade”. “A santidade não é outra coisa senão amar”.
            E o Papa missionário foi exemplo de santidade e de amor.
 
 

NO INÍCIO DO NOVO MILÊNIO


                                                           Por João Paulo II
 
 
            Ao encerrar o Ano Jubilar e abrir o novo milênio, o Santo Padre João Paulo II publicou mais uma Carta Apostólica, em que recorda os benefícios recebidos pela Igreja por ocasião do Jubileu e traça linhas de ação para os próximos tempos. Muito significativa é a coragem que o Papa demonstra ao enfrentar os desafios do futuro como também a ênfase dada à preparação espiritual ou ao cultivo da vida interior (procura da santidade, oração, vida sacramental...) como necessária para o trabalho apostólico.
            Aos 06/01/01 o Santo Padre encerrou o Ano Santo e assinou uma Carta Apostólica pela qual traça atitudes e linhas de ação para clérigos e leigos no terceiro milênio. O documento é muito rico em propostas e ensinamentos.
            Diz o Papa que é preciso traduzi-las em orientações pastorais ajustadas à condições de cada comunidade. Estas hão de ser alimentadas por alguns pontos de espiritualidade imprescindíveis para que se tornem realmente fecundas.
“Espera-nos uma entusiasmante obra de retomada pastoral, uma obra que toca a todos. Entretanto, como estímulo e orientação comum, desejo apontar algumas prioridades pastorais que a experiência do Grande Jubileu me fez com particular intensidade”.
E quais seriam essas prioridades?
a)Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para o qual deve tender todo caminho pastoral é a santidade”. O Papa lembra que todos os fiéis batizados são chamados à santidade, como realçou a Constituição Lúmen Gentium, cap. V do Concílio do Vaticano II. “Perguntar a um catecúmeno: ‘Queres receber o Batismo?’ significa, ao mesmo tempo, perguntar-lhe: ‘Queres fazer-te santo?’ Significa colocar em sua estrada o radicalismo do sermão da montanha: ‘Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5,48)”.
“É claro que os itinerários da santidade são pessoais e exigem uma verdadeira pedagogia da santidade”.
b)A Oração. “Para esta pedagogia da santidade, necessita-se de um Cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração... É necessário aprender a rezar, voltar sempre de novo a conhecer esta arte dos próprios lábios do Divino Mestre, como os primeiros discípulos: ‘Senhor, ensina-nos a orar’ (Lc 11,1). Obra do Espírito Santo em nós, a oração abre-nos, por Cristo e em Cristo, à contemplação do rosto do Pai”.
“Nossas comunidades, amados irmãos e irmãs, devem tornar-se autênticas escolas de oração, onde o encontro com Cristo se exprima não apenas em pedidos de ajuda, mas também em ação de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta, afetos de alma, até se chegar a um coração verdadeiramente apaixonado”.
c)A Eucaristia dominical. “desejo insistir, na linha do que disse na Carta Apostólica Dies Domini, em que a participação na Eucaristia seja verdadeiramente, para cada batizado, o coração do domingo: um compromisso irrenunciável, assumido não só para obedecer a um preceito, mas como necessidade para uma vida cristã realmente consciente e coerente... Mediante a participação eucarística, o dia do Senhor torna-se também o dia da Igreja, que poderá assim desempenhar de modo eficaz a sua missão de sacramento da unidade”.
d)O sacramento da Reconciliação. Importa redescobrir o rosto de Cristo por meio deste sacramento, que constitui para um cristão, a via ordinária para obter o perdão e a remissão de seus pecados graves cometidos após o Batismo”. O Papa reconhece que tal sacramento tem estado em crise; mas adverte:
“Não devemos render-nos, queridos irmãos no sacerdócio, diante de crises temporâneas! Os dons do Senhor – e os sacramentos contam-se entre os mais preciosos – vêm daquele que conhece bem o coração do homem e é o Senhor da história”.
e)O primado da graça. “Há uma tentação que sempre insidia todo caminho espiritual e também a ação pastoral pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo que Deus nos pede uma colaboração real com a sua graça... mas ai de nós se esquecermos que ‘sem Cristo nada podemos fazer’ (cf. Jo 15,5)... E a oração que nos faz viver nessa verdade. Ela nos recorda constantemente o primado de Cristo e, relativo a ele, o primado da vida interior e da santidade. Quando não se respeita esse primado, é de se admirar se os projetos pastorais fracassam e deixa na alma um sentido deprimente de frustração?... Neste início de milênio, seja permitido ao sucessor de Pedro convidar toda a Igreja a este ato de fé, que se exprime num renovado compromisso de oração”.
f)Escuta da Palavra. “Sem dúvida, este primado da santidade e da oração só é concebível a partir de uma renovada escuta da Palavra de Deus... E preciso, amados irmãos e irmãs, consolidar e aprofundar essa linha, inclusive com a difusão do livro da Bíblia nas famílias. De modo particular, é necessário que a escuta da palavra se torne um encontro vital segundo a antiga e sempre válida tradição da lectio divina; esta permite ler o texto bíblico como Palavra viva, que interpela, orienta e plasma a existência”.
g) Anúncio da Palavra. “Ao longo destes anos, muitas vezes repeti o apelo à nova evangelização; e faço-o agora uma vez mais para inculcar sobretudo que é preciso reacender em nós o zelo das origens, deixando-nos invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu a Pentecostes...”
Essa paixão não deixará de suscitar na Igreja uma nova missionaridade, que  não poderá ser delegada a um grupo de especialistas, mas deverá estender-se a todos os membros do povo de Deus”.
O Papa lembra ainda aos missionários (que são todos os fiéis) o testemunho dos mártires, cujo sangue é semente de novos cristãos, conforme Tertuliano ( Ϯ  220 Aproximadamente). “Resta-nos seguir, com a graça de Deus, as suas pegadas”. (Dom Estêvão Bettencourt, OSB. PR, nº 469. Junho de 2001).
 
 

CONCLUSÃO


 
“Exclama Santo Agostinho: “Ó minha fé, vai avante na tua confissão. Diz ao senhor teu Deus: santo, santo, santo é o Senhor meu Deus. Fomos batizados em teu nome. Pai, Filho e Espírito Santo”. (Confissões 13.12).
“Na água do Batismo fomos lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus” (I Cor 6,11).
Durante toda nossa vida, nosso Pai “nos chama para a santidade” (I Ts 4,7). E já que é “por ele que vós sois em Cristo Jesus , que se tornou para nós santificação” (I Cor 1,30). Contribui para sua glória e para nossa vida o fato de seu nome ser santificado em nós e por nós. Essa é a urgência de nosso primeiro pedido (CIC 2813).
Somos batizados na Igreja para sermos santos em toda nossa maneira de viver (I Pd 1,15.16).
Escreve o ‘Bispo e Doutor da Igreja São Pedro Crisólogo: “Rezamos, portanto, para merecermos ter em nossas almas tanta santidade quanto é santo o Nome de nosso Deus”.
A Santa Igreja, como Mãe e Mestra, apresenta-nos os exemplos de santidade para nos encorajar, ajudar e nos fortalecer em nossa caminhada tão espinhosa aqui na terra com tanto oblíquos.
Os santos são como luzes ou setas que indicam o perfeito caminho e também mostra o rumo certo para nossas vidas. Despertam em nós o ardente desejo de santidade, provoca em nós a fome e sede pela Santíssima Trindade e bate forte em nossa mediocridade.
É para o nosso benefício e paradigma que eles são beatificados e canonizados. Seguindo seus exemplos, caminhamos seguros, com Jesus Cristo, em direção a casa do Pai Eterno.
Os santos têm uma poderosa pedagogia de eliminação de futilidades e um tesouro de virtudes transcendentais. Disse o grande escritor irlandês C. S. Lewis: “Tudo o que não é eterno é eternamente inútil”. Os santos são eternos e nos convidam à eternidade.
 
 
Pe. Inácio Jose do Vale
Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História de Igreja
Faculdade de teologia de Volta Redonda
e-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com

Fonte: Recados do Aarão

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