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22/07/2007
O
modernismo
A
INFILTRAÇÃO DO MODERNISMO NA IGREJA
(Coloco este artigo de Dom Marcel Lefébvre, já falecido, que fora
excomungado da Igreja por ter se rebelado contra o modenrismo e contra
a derrubada da Missa em Latim. Como ele venceu e agora Sua Santidade o
Papa Bento XVI restabeleceu-a, é bom conhecer as entranhas desta
batalha interna da Igreja. Dom Marcel já está no Céu, embora tenha
pegado mais de 20 anos de Purgatório, e presumo, não devido ao fato
de ser excomungado, me devido ao ódio e às paixões que tal luta
suscitou. Ódio contra os cardeais que o fizeram sucumbir)
Breve História
Fico contente em constatar que no mundo inteiro, no mundo católico,
em todo lugar, pessoas corajosas se reúnem em torno de padres fiéis
à fé católica e à Igreja Católica, para manter a tradição que
é a fortaleza de nossa fé.
Se existe um movimento tão geral é porque a situação da Igreja é
verdadeiramente grave. Pois, para que padres, fiéis católicos,
aceitem ser tratados de rebeldes, de dissidentes, de desobedientes,
mesmo se tratando de bons padres, alguns dos quais já serviram em paróquias
durante trinta anos com grande satisfação de seus paroquianos, é
para manter a fé católica. Eles o fazem conscientemente no espírito
dos mártires.
Ser perseguido por seus irmãos ou pelos inimigos da Igreja, qualquer
que seja a mão que bata, por vista que seja contra a manutenção da
fé, é sofrer um martírio. Esses padres, esses fiéis, são
testemunhas da fé católica. Eles preferem ser considerados como
rebeldes e dissidentes a perder a fé.
Nós assistimos, no mundo inteiro, a uma situação trágica,
inacreditável, que parece não se ter jamais produzido na história
da Igreja. É preciso então tentar explicar esse fenômeno extraordinário.
Como podem bons fiéis, bons padres, se esforçarem por manter a fé
católica num mundo católico que está em plena dissolução? Foi o
Papa Paulo VI, ele mesmo, que falou de autodemolição da Igreja. O
que significa esse termo de autodemolição senão que a Igreja se
destrói, ela mesma, por ela mesma, por seus próprios membros? É
isso o que já dizia o Papa São Pio X na sua primeira encíclica,
quando escrevia: «Hoje, o inimigo da Igreja não está mais no
exterior da Igreja, está no interior». E o Papa não hesitava em
designar os lugares aonde ele se encontrava: «O inimigo se encontra
nos seminários». Por conseqüência, já no início do século, o
Santo Papa Pio X, na sua primeira encíclica, denunciava a presença
de inimigos da Igreja nos seminários.
E é evidente que esses seminaristas que estavam imbuídos do
modernismo, do Sillonismo e do progressismo se tornaram padres. Alguns
deles se tornaram bispos e entre eles cardeais. Poderia-se citar os
nomes daqueles que fizeram seu seminário no início do século, que
morreram agora, mas cujo espírito era modernista e progressista.
Assim, já o Papa Pio X denunciava essa divisão na Igreja, uma certa
ruptura no interior mesmo da Igreja e do Clero.
Eu não sou mais jovem e já tive ocasiões, ao longo de minha vida de
seminarista, de minha vida sacerdotal e de minha vida episcopal, de
constatar essa divisão, e isso já no seminário francês de Roma,
onde eu fazia meus estudos, pela graça do Bom Deus. Confesso que não
estava muito entusiasmado pelos estudos feitos em Roma. Eu
pessoalmente preferia estar, como os seminaristas de minha diocese, no
seminário de Lille e me tornar um pequeno vigário e em seguida um
simples cura numa paróquia do campo.
Manter a fé numa paróquia: eu me via um pouco pai espiritual de uma
população a qual nos apegamos, para lhe inculcar a fé e os modos
cristãos. Era o meu ideal. Mas, aconteceu que meu irmão estava já,
depois da Guerra de 1914-1918, em Roma, porque ele tinha se separado
da família por circunstâncias da guerra no norte da França e, por
conseqüência, meus pais insistiram para que eu fosse reencontrar meu
irmão. «Como seu irmão já está em Roma, no seminário francês, vá
então encontrá-lo e fazer seus estudos com ele». E eu parti para
Roma. Fiz meus estudos na Universidade gregoriana, de 1923 a 1930. Fui
ordenado em 1929 e fiquei como padre no seminário durante um ano.
As primeiras vítimas do Modernismo
Ora, durante esses anos no seminário, passaram-se coisas trágicas
que me lembram exatamente tudo o que eu vi depois do Concílio. Estou
praticamente na mesma situação em que estava nosso superior do seminário
francês naquele momento: o padre Le Floch, que foi o superior do
seminário francês de Roma durante trinta anos. Era um homem muito
digno, um Bretão, forte e firme na sua fé como o granito da
Bretanha. Ele nos ensinava as encíclicas dos papas e o que era o
modernismo condenado por S. Pio X, os erros modernos condenados por Leão
XIII, o que era o liberalismo condenado por Pio IX. E nós amávamos
nosso padre Le Floch. Nós éramos muito apegados a ele.
Mas sua firmeza na doutrina, na tradição, desgostava aos
modernistas, evidentemente. Já existiam progressistas naquela época,
pois os papas os condenavam. Ele desagradava não somente aos
progressistas, mas também ao governo francês. O governo francês
tinha medo que, por intermédio do Pe. Le Floch, por essa formação
dada aos seminaristas, os bispos tradicionalistas viessem se implantar
na França e dessem à Igreja da França um clima tradicional e
evidentemente antiliberal. Ora, o governo francês era maçônico e
por conseqüência, fundamentalmente liberal e não podia nem pensar
que bispos não liberais pudessem tomar os postos mais importantes.
Pressões foram exercidas sobre o papa para eliminar o Pe. Le Floch.
Foi Francisque Gay, futuro líder do M.R.P., o encarregado dessa operação.
Ele desceu a Roma e fez pressão sobre o Papa Pio XI, denunciando o
Pe. Le Floch como sendo, por assim dizer, da Action Française, e um
homem político ensinando aos seminaristas a serem membros da Action
Française.
Tudo isso era mentira. Durante três anos eu escutei o Pe. Le Floch
nas suas conferências espirituais. Nunca ele nos falou da Action Française.
Hoje eles me dizem: «Você foi naquele tempo membro da Action Française».
Eu nunca fui membro da Action Française.
Evidentemente, dizem que somos membros da Action Française, nazistas,
fascistas, tudo o que se pode nos rotular como etiquetas pejorativas,
porque nós somos anti-revolucionários e antiliberais.
Então uma pesquisa foi feita: o cardeal arcebispo de Milão foi
enviado ao local. Não era o menor dos cardeais. Beneditino, homem de
uma grande santidade e de uma grande inteligência, foi designado pelo
Papa Pio XI para pesquisar no seminário francês para ver se o que
dizia Francisque Gay era exato ou não. A pesquisa foi feita. O
resultado foi: o seminário francês funciona perfeitamente bem sob a
direção do Pe. Le Floch. Não temos absolutamente nada a reprovar ao
superior do seminário.
Bem, isto não foi o suficiente. Três meses depois, nova pesquisa,
dessa vez com a ordem de acabar com o Pe. Le Floch. A nova pesquisa
foi feita por um membro das Congregações Romanas que concluiu, com
efeito, que o Pe. Le Floch era amigo da Action Française, que ele era
perigoso para o seminário e que era preciso pedir sua demissão. O
que foi feito. Em 1926, a Santa Sé pediu ao Pe. Le Floch para deixar
a direção do seminário francês. Nós ficamos estarrecidos. O Pe.
Le Floch nunca foi um homem político. Era um homem tradicional,
apegado à doutrina da Igreja, aos papas, grande amigo do Papa Pio X,
que tinha uma grande confiança nele. E, precisamente, porque ele era
um amigo do Papa Pio X, então ele era inimigo dos progressistas.
E depois, nessa época em que eu estava no seminário francês, não
somente o Pe. Le Floch foi atacado, mas também o Cardeal Billot, teólogo
de primeiro valor, hoje ainda reputado e estudado nos nossos seminários.
Monseigneur Billot, cardeal da Santa Igreja, foi deposto. Tiraram-lhe
a púrpura e enviaram-lhe, como penitência, para perto de Albano,
Castelgandolfo, na casa dos Jesuítas, proibido de sair, sob o
pretexto de que ele tinha ligações com o Action Française. De fato,
o Cardeal Billot não era da Action Française, mas ele estimava a
pessoa de Maurras e o citava em seu livro de teologia. Por exemplo, no
segundo livro da Igreja, «De Ecclesia», o Cardeal Billot fez um magnífico
estudo sobre o liberalismo, onde, em notas, fez algumas citações de
Maurras. Era um pecado mortal!Eles acharam isso para depor o Cardeal
Billot. Isto não é pouca coisa, um dos maiores teólogos de sua época
deposto como cardeal, reduzido ao estado de simples padre, pois ele não
era bispo (naquele tempo ainda havia cardeais diáconos). Já era a
perseguição.
O Papa Pio XI sofreu influência dos progressistas
O Papa Pio XI sofreu influência dos progressistas que se achavam já
em Roma. Nós vemos aí precisamente, uma certa diferença entre os
papas que se sucederam e portanto nessa época o Papa Pio XI fez encíclicas
magníficas. Não era um liberal. Sua encíclica contra o comunismo
Divini Redemptoris, sua encíclica sobre o Cristo-Rei, instaurando a
festa do Cristo Rei , logo, o reino social de Nosso Senhor Jesus
Cristo é magnífico. Sua encíclica sobre educação cristã é
absolutamente admirável e permanece hoje um documento fundamental
para aqueles que querem defender a escola católica.
Então, no plano da doutrina, o Papa Pio XI foi um homem admirável,
mas fraco no domínio da ação prática. Ele era influenciável. Foi
assim que ele foi muito influenciado na guerra do México (1926-1929)
e que ele deu ordem aos Cristeros, àqueles que defendiam a religião
católica e combatiam pelo Cristo-Rei, de confiar no governo e
entregar as armas. Desde que entregaram as armas, foram todos
massacrados. Ainda se lembram, no México, desse massacre horrível. O
Papa Pio XI confiou no governo, que o enganou. Depois do que se
passou, ele mostrou-se desolado. Ele não imaginava que um governo que
lhe prometera tratar com honra àqueles que defendiam sua fé iria em
seguida massacrá-los. Foram, com efeito, milhares de mexicanos que
foram massacrados por causa de sua fé.
Já no início do século certas situações anunciam uma divisão na
Igreja. E chegamos lentamente, mas seguramente, às vésperas do Concílio.
O Papa Pio XII foi um grande papa. Tão bom nos seus escritos quanto
na sua maneira de conduzir a Igreja. E no tempo de Pio XII a fé foi
firmemente mantida e, naturalmente, os progressistas não gostavam
dele, porque ele lembrava os princípios fundamentais da teologia e da
verdade.
Então veio João XXIII, ele que não tinha o temperamento de Pio XII.
João XXIII era um homem muito simples, muito familiar. Ele não via
problemas em lugar nenhum.
Quando ele quis fazer um sínodo em Roma, lhe disseram: «Mas, Santo
Padre, um sínodo tem que ser preparado, é preciso ao menos um ano,
talvez dois, para preparar tal reunião, afim de que os frutos sejam
numerosos e que as reformas possam ser verdadeiramente estudadas e em
seguida aplicadas para que Vossa diocese de Roma tire proveito. Isto não
pode se fazer assim, no espaço de dois ou três meses e depois quinze
dias de reuniões, e tudo irá bem. Não é possível !».
«Ah, sim, sim, eu conheço, eu sei, vamos fazer um pequeno sínodo,
vamos preparar isso em alguns meses e tudo irá bem».
Preparou-se o sínodo rapidamente: comissões em Roma, todo mundo
trabalhando. Quinze dias de sínodo e depois tudo acabou. O Papa João
XXIII estava contente, seu pequeno sínodo foi feito; resultado:
nenhum. Nada mudou na diocese de Roma. A situação ficou exatamente a
mesma.
À deriva com o Concílio
A mesma coisa para o Concílio. «Tenho a intenção de fazer um Concílio».
Já o Papa Pio XII tinha sido solicitado por certos cardeais para
reunir um Concílio. Mas ele recusou, estimando que isso seria impossível.
Não se pode, dizia ele, na nossa época, fazer um Concílio com 2.500
bispos. As pressões que se pode sofrer do fato dos meios de comunicação
social são muito perigosas para que se possa reunir um Concílio.
Corre-se o risco de perder o controle. E ele não fez o Concílio.
Mas o Papa João XXIII disse: não se pode ser pessimista; é preciso
ver as coisas com confiança. Vamos nos reunir durante três meses,
com todos os bispos do mundo inteiro. Começamos em 13 de outubro e
entre 8 de dezembro e 25 de janeiro, tudo terminado, todo mundo vai
embora e volta para suas casas e acaba-se o Concílio.
E o papa lançou o Concílio! Era preciso prepará-lo. Não se faz um
Concílio como um sínodo. Foi preciso prepará-lo dois anos antes.
Fui nomeado pessoalmente membro da Comissão Central Preparatória,
sendo arcebispo de Dakar e presidente da Conferência Episcopal do
Oeste Africano. Eu vim, então, a Roma, durante dois anos, ao menos
umas dez vezes, para participar das reuniões dessa Comissão Central
Preparatória que era, de fato, muito importante porque para ela todos
os documentos das comissões secundárias eram enviados, para serem
estudados e submetidos ao Concílio. Havia nessa comissão setenta
cardeais e uns vinte arcebispos e bispos, além dos peritos. Mas estes
não eram membros da comissão. Estavam lá somente para serem
eventualmente consultados pelos membros.
A aparição da divisão
Ora, durante esses dois anos, as reuniões se sucederam e apareceu
claramente, para todos os membros que estavam presentes, que havia uma
divisão profunda no interior da Igreja. Uma divisão profunda, não
acidental ou superficial, mas uma divisão profunda mais ainda entre
os cardeais que entre os arcebispos e bispos. Na ocasião dos votos
que foram feitos vimos os cardeais conservadores votarem de uma
maneira e os cardeais progressistas de outra. E todos os votos eram
sempre mais ou menos no mesmo sentido. Está claro que havia uma divisão
real entre os cardeais.
Relatei em um de meus livros, Un Evêque Parle, um pequeno incidente
que sempre lembro porque caracteriza verdadeiramente o fim dessa
Comissão Central e o início do Concílio. Foi durante a última sessão;
nós tínhamos recebido dois documentos sobre o mesmo tema. O Cardeal
Bea tinha preparado um texto De Libertate Religiosa,“Da Liberdade
Religiosa”. O Cardeal Ottaviani tinha preparado um outro: De
Tolerantia Religiosa, “Da Tolerância Religiosa”.
Tratando do mesmo assunto, já os dois títulos eram significativos de
duas concepções diferentes. O Cardeal Bea falava da liberdade de
todos as religiões e o Cardeal Ottaviani da liberdade da religião
católica e da tolerância do erro, tolerância das falsas religiões.
Como isso poderia se arrumar em comissão ?
E desde o começo o Cardeal Ottaviani apontou o dedo sobre o Cardeal
Bea e lhe disse: «Eminência, não tens o direito de fazer esse
documento». O Cardeal Bea respondeu: «Perdão, como presidente da
Comissão de Unidade eu tinha perfeitamente o direito de fazer esse
documento. Logo, eu fiz esse documento cientemente. E, aliás, eu sou
radicalmente opositor de vossa tese.
Assim, dois cardeais dos mais eminentes, o Cardeal Ottaviani, prefeito
do Santo Ofício, e o Cardeal Bea, confessor do Papa Pio XII, jesuíta,
tendo uma grande influência sobre todos os cardeais, que era bem
conhecido no Instituto Bíblico, que fez estudos bíblicos muito
superiores. Ou seja, duas personalidades eminentes que se opõem sobre
uma tese fundamental na Igreja. Outra coisa é a liberdade de todas as
religiões, isto é, por-se sobre o mesmo pé a liberdade e o erro e
depois, de outro lado, a liberdade da religião católica e a tolerância
dos erros.
É totalmente diferente. Tradicionalmente a Igreja foi sempre pela
tese do Cardeal Ottaviani e não por aquela do Cardeal Bea, que é
totalmente liberal.
Então, o Cardeal Ruffini, de Palermo, se levantou e disse: «Nós
estamos na presença de dois confrades que se opõem um ao outro sobre
uma questão muito importante na Igreja. Nós vamos ser obrigados a
apelar à autoridade suprema».
Com freqüência, o papa vinha presidir nossas reuniões. Mas ele não
estava nessa última. Então os cardeais pediram para votar: «Nós não
queremos esperar ir ver o Santo Padre, nós vamos votar». Fizeram um
voto. A metade dos cardeais, mais ou menos, votou pela tese do Cardeal
Bea e a outra pela do Cardeal Ottaviani. Ora, todos os que votaram
pelo Cardeal Bea eram os cardeais da Holanda, da Alemanha, da França,
da Áustria, todos, em geral, da Europa e da América do Norte. Quanto
aos cardeais tradicionais, eles eram da Cúria romana, da América do
Sul e em geral os de língua espanhola.
Era uma verdadeira ruptura na Igreja. E desde esse momento eu me
perguntei como o Concílio iria se passar, com oposições parecidas
sobre teses também importantes. Quem vai prevalecer? É o Cardeal
Ottaviani com os cardeais de língua espanhola e de língua latina, ou
os cardeais europeus e os da América do Norte?
E, com efeito, a luta começou imediatamente no interior do Concílio
desde os primeiros dias. O Cardeal Ottaviani apresentou a lista dos
membros que faziam parte das comissões preparatórias, dando plena
liberdade a cada um de escolher o que queria. Porque era evidente que
nós não nos conhecíamos. Nós chegáramos, cada um de sua diocese,
como conhecer os 2.500 bispos do mundo ?
Pede-se para votar para designar os membros das comissões do Concílio.
Quem escolher? Nós não conhecíamos os bispos da América do Sul, da
África do Sul, da Índia.
Então o Cardeal Ottaviani pensou: Roma já fez uma escolha para todas
as Comissões Preparatórias, isso poderia ser uma indicação para
ajudar os padres do Concílio a escolher. Era perfeitamente normal.
O Cardeal Lienart se levantou e disse: «Nós não aceitamos esse
procedimento. Pedimos 48 horas de reflexão afim de melhor conhecer
aqueles que poderiam fazer parte de diferentes comissões. É uma
pressão que é exercida sobre o julgamento dos padres. Nós não o
aceitamos».
O Concílio tinha começado há dois dias e já era um afrontamento
entre os cardeais. O que aconteceu?
Durante essas duas horas os cardeais liberais tinham já preparado
listas variadas de todos os países do mundo e eles distribuíram nas
caixas de correio de todos os padres do Concílio. Nós todos
recebemos então uma lista propondo: membros de tal comissão, este,
aquele... de diferentes países. Muitos disseram: – enfim, porque não?
Eu não os conheço. Como a lista já está pronta, só temos que nos
servir. Quarenta e oito horas depois foi a lista dos liberais que veio
em primeiro lugar. Mas ela não passou com dois terços de votos, como
previa o regulamento do Concílio.
Então, o que faria o Papa? O Papa João XXIII iria fazer uma exceção
ao regulamento do Concílio ou aplicá-lo ? Evidentemente os cardeais
liberais tiveram medo e se precipitaram em busca do Papa e disseram:
«Escute, temos mais da metade das vozes, quase 60%. O senhor não
pode recusar isso. Não se vai ainda refazer uma eleição, não se
sairá mais disso. Isto representa bem a maioria do Concílio, só
podemos aceitar isso». E o Papa João XXIII aceitou. E desde o começo
todos os membros da Comissão do Concílio foram nomeados pela fração
liberal. Pode-se calcular que influência enorme isso iria ter no Concílio.
Estou certo que o Papa João XXIII morreu prematuramente do que ele
viu e anteviu do Concílio. Ele que pensava que no fim de alguns meses
tudo teria acabado. Um Concílio de três meses. Todos se abraçam e
voltam para casa, felizes e contentes de ter estado em Roma e de ter
feito uma boa reuniãozinha.
Ele descobriu que o Concílio era um mundo e um lugar onde haveria
disputas. Nenhum texto saiu da primeira sessão do Concílio. O Papa
João XXIII ficou desconcertado e eu acho que isso acelerou sua morte.
Disseram mesmo que sobre seu leito de morte ele disse: «Pare o Concílio,
pare o Concílio».
Paulo VI dá seu apoio aos liberais
Veio o Papa VI. E é evidente que ele deu seu apoio à facção
liberal. Como assim?
Desde o começo de seu pontificado, na Segunda sessão do Concílio,
ele nomeou imediatamente quatro moderadores. Mas já havia os dez
presidentes que durante a primeira sessão presidiram os trabalhos do
Concílio. Cada um dentre eles presidia uma sessão, depois o segundo,
depois o terceiro. Eles estavam numa mesa mais elevada que os outros.
Eles dirigiam o Concílio.
O Papa Paulo VI nomeou imediatamente esses quatro moderadores, e os
presidentes se tornaram os presidentes de honra. Os quatros
moderadores tornaram-se os verdadeiros presidentes do Concílio.
Ora, quem eram esses moderadores? O Cardeal Döpfner, de Munich, muito
progressista, muito ecumênico. O Cardeal Suenens, que todo mundo
conhece como mais carismático e que fez conferências em favor do
casamento dos padres. O Cardeal Lercaro, conhecido por seu
filo-comunismo e que tinha um vigário geral inscrito no partido
comunista. E, enfim, o Cardeal Agagionian. Ele representava um pouco a
facção tradicional, pode-se dizer. Era um homem discreto, sério,
que por conseqüência não teve verdadeira influência sobre o Concílio.
Mas os três outros conduziram a tarefa com o vento em popa. Eles
reuniam constantemente os cardeais liberais, o que deu uma força
considerável à facção liberal do Concílio.
Evidentemente os cardeais e os bispos tradicionalistas se acharam,
desde então, como postos de lado, desprezados.
Quando o pobre cardeal Ottaviani, cego, pedia a palavra, se ele não
terminasse no fim dos dez minutos que lhe era dado, escutava-se murmúrios
entre os jovens bispos para lhe fazer calar, lhe fazer compreender que
se estava satisfeito de lhe ouvir. Que já bastava. Foi horrível.
Esse venerável cardeal, venerado por toda Roma, que teve uma influência
enorme na Santa Igreja, prefeito do Santo Ofício, não é uma função
qualquer. Era escandaloso ver como eram tratados aqueles que eram
tradicionalistas.
Monsenhor Stoffa (nomeado cardeal mais tarde) muito ativo, recebeu da
presidência do Concílio pedido que se calasse. Coisas inimagináveis.
A Revolução na Igreja
Assim se passou o Concílio. É evidente que todos as teses, todos os
textos do Concílio foram influenciados pelos cardeais liberais e as
comissões liberais. Não devemos nos espantar que tenhamos tido
textos ambíguos, favoráveis a mudanças, a uma verdadeira revolução
na Igreja.
Será que nós poderíamos ter feito alguma coisa, nós que representávamos
a facção tradicional dos bispos e cardeais? Pouca coisa, em
definitivo. Éramos duzentos e cinqüenta favoráveis à permanência
da Tradição e desfavoráveis a mudanças de vulto na Igreja: falsa
renovação, falso ecumenismo, falsa colegialidade. Nós éramos
opostos a essas coisas. Esses duzentos e cinqüenta bispos,
evidentemente, tiveram algum peso e, em certas ocasiões, os textos
foram modificados. O mal foi um pouco limitado. Mas nós não
conseguimos impedir certas teses de passar, particularmente a da
liberdade religiosa, cujo texto foi refeito cinco vezes. Cinco vezes a
mesma tese voltava. Nós nos opusemos sempre. Havia sempre duzentos e
cinqüenta vozes contra. Então o Papa Paulo VI fez adicionar duas
pequenas frases no texto, dizendo: «não há nada nesse texto que
seja contrário à doutrina tradicional da Igreja» e «a Igreja
permanece sempre a verdadeira e única Igreja de Cristo».
Então, os bispos espanhóis, em particular, disseram: «bem, já que
o Papa adicionou isso, agora não há mais problema, já que não há
nada contra a tradição». Se as coisas são contraditórias, essa
pequena frase contradiz tudo o que está no interior do texto. É um
esquema contraditório. Não se pode aceitar isso. Então sobraram
somente, se eu me lembro bem, setenta e quatro bispos que permaneceram
contra. É o único esquema que encontrou uma tal oposição: 74 sobre
2.500, é pouca coisa !
Então terminou o Concílio, não podemos nos espantar com as reformas
que foram feitas. Depois de toda a história do liberalismo, os
liberais saindo vitoriosos no interior do Concílio, exigiram do Papa
Paulo VI lugares nas Congregações romanas. E, de fato, os lugares
importantes foram dados aos progressistas. Quando morria um Cardeal,
ou numa ocasião qualquer que permitisse ao Papa Paulo VI afastar um
cardeal tradicionalista, ele colocava imediatamente um cardeal liberal
no seu lugar.
Foi assim que Roma achou-se ocupada pelos liberais. É um fato que não
se pode mais negar, nem que as reformas do Concílio foram reformas
que respiram esse espírito de ecumenismo, um espírito protestante,
nem mais nem menos.
A Reforma Litúrgica
O mais grave foi a reforma litúrgica. Ela foi operada, sabe-se, por
um padre bem conhecido, Bugnini, que tinha preparado isso muito tempo
antes.
Já em 1955, o Padre Bugnini fez traduzir os textos protestantes por
Mons. Pintonello, Capelão Geral do exército italiano, que tinha
passado muito tempo na Alemanha durante a ocupação, pois ele próprio
não conhecia alemão. Foi Mons. Pintonello que disse a mim mesmo que
ele tinha traduzido os livros litúrgicos protestantes para o Padre
Bugnini, que naquele momento era um membro menor de uma comissão litúrgica.
Ele não era nada. Depois foi professor de liturgia no Latrão. O Papa
João XXIII lhe mandou embora por causa de seu modernismo, de seu
progressismo. Pois bem, ele tornou-se presidente da Comissão da
Reforma da Liturgia. É inacreditável. Eu tive ocasião de constatar
eu mesmo a influência do Padre Bugnini. Como isso pôde acontecer em
Roma.
Eu era, naquele tempo, logo depois do Concílio, superior geral da
Congregação dos Padres do Espírito Santo e nós tínhamos, em Roma,
uma Associação de superiores gerais.
Nós pedimos ao Pe. Bugnini para nos explicar o que era sua nova
missa, porque enfim, não era um pequeno acontecimento. Depois do Concílio,
logo depois, ouviu-se falar de Missa normativa, Missa nova, novus ordo,
o que é isso tudo? Não se falou disso no Concílio. O que está
acontecendo? Então nós pedimos ao Pe. Bugnini para explicar ele
mesmo aos 84 superiores gerais que se reuniram, entre os quais eu me
encontrava.
O Padre Bugnini, com muito boa vontade, nos explicou o que era a Missa
normativa: vai-se mudar isso, vai-se mudar aquilo, vamos pôr um outro
ofertório, poderemos escolher os Canons, poderemos reduzir as orações
da Comunhão, poderemos ter muitos esquemas para o final da Missa.
Poderemos dizer a Missa em língua vernácula. Nós nos olhávamos
dizendo: não é possível!
Ele falava exatamente como se nunca tivesse tido uma Missa antes dele.
Falava de sua Missa normativa como de uma invenção nova.
Pessoalmente, fiquei atônito e mudo, quando, habitualmente, eu tomo
com facilidade a palavra para me opor àqueles com os quais não estou
de acordo. Não conseguia dizer uma palavra. Não é possível que
seja a esse homem que está aí diante de mim que foi confiada toda a
reforma da Liturgia Católica, do Santo Sacrifício da Missa, dos
Sacramentos, do Breviário, de todas as nossas orações. Aonde vamos
nós? Aonde vai a Igreja?
Dois superiores gerais tiveram a coragem de se levantar. E um deles
questionou o Padre Bugnini: «É uma participação ativa, é uma
participação corporal, isto é, orações vocais, ou é a participação
espiritual? Em todo caso, o senhor falou tanto da participação dos
fiéis, que parece que não se justifica mais a Missa sem fiéis,
porque toda a sua Missa foi feita em função da participação dos fiéis.
Nós beneditinos, celebramos nossas Missas sem fiéis. Então, devemos
continuar a dizer nossas Missas privadas, visto que não temos fiéis
que aí participem?»
Eu vos repito exatamente o que disse o Pe. Bugnini, eu tenho ainda nos
meus ouvidos tanto isso me chocou: «Para falar a verdade, não se
pensou nisso», disse ele!
Depois um outro se levantou e disse: «Reverendo Padre, o senhor
disse: vamos suprimir isso aqui, suprimir aquilo lá, substituir isso
por aquilo, e sempre orações mais curtas, eu tenho a impressão que
a sua nova Missa vai ser dita em dez, doze minutos, um pequeno quarto
de hora, não é razoável, não é respeitoso para um tal ato da
Igreja». E ele lhe respondeu isso: «Poder-se-á sempre adicionar
qualquer coisa». É sério? Eu ouvi com os meus ouvidos. Se fosse
qualquer um que me tivesse contado eu teria quase duvidado, mas eu
escutei eu mesmo.
Depois, no momento em que essa Missa normativa começou a se realizar,
eu estava tão horrorizado que nós fizemos uma pequena reunião com
alguns padres, alguns teólogos, de onde saiu o “Breve exame crítico”
que foi levado ao Cardeal Ottaviani. Eu presidia essa pequena reunião.
Foi dito: «É preciso ir aos cardeais. Não se pode deixar fazer isso
sem reagir.»
Então fui procurar eu mesmo o secretário de Estado, o Cardeal
Cicognani e lhe disse: «Vossa Eminência deixará passar isto? Não
é possível. O que é essa nova Missa? É uma revolução na Igreja,
uma revolução na liturgia.»
O Cardeal Cicognani, que era o Secretário de Estado de Paulo VI, pôs
a cabeça entre as mãos e disse-me: «Oh, Monsenhor, eu bem sei: Eu
estou de acordo com o senhor, mas o que eu posso fazer ? O Pe. Bugnini
pode entrar no escritório do Santo Padre e lhe fazer assinar o que
ele quer.» Foi o Cardeal Secretário de Estado que me disse isso! Então,
o Secretário de Estado, a personalidade número dois da Igreja depois
do Papa, foi posta em estado de inferioridade em relação ao Pe.
Bugnini. Ele podia entrar nos aposentos do Papa quando ele queria e
lhe fazer assinar o que ele quisesse.
Isso pode explicar, então, porque o Papa Paulo VI teria assinado
textos que ele não tinha lido. Ele disse isso ao Cardeal Journet, que
era um homem muito ponderado, professor na Universidade de Friburgo,
na Suiça, um grande teólogo. Quando o cardeal viu essa definição
da Missa na Instrução que precede o novo “Ordo”, ele disse: não
se pode aceitar essa definição da Missa; é preciso que eu vá a
Roma ver o Papa. Ele foi e disse: «Santo Padre, não podeis deixar
essa definição, ela é herética. Não podeis continuar a deixar
vossa assinatura numa coisa como essa». E o Santo Padre lhe respondeu
(o Cardeal Jounet não me disse a mim mesmo, mas a alguém que me
repetiu): «Bem, realmente, eu não a li. Eu assinei sem ler.»
Evidentemente, se o Pe. Bugnini tinha uma tal influência sobre ele,
é possível. Ele dizia ao Santo Padre: «Podeis assinar» «Mas o
senhor prestou bem atenção?» — «Sim, vós podeis assinar.»E ele
assinou.
E isso não passou pelo Santo Ofício. Eu o sei, pois o Cardeal Seper
ele mesmo me disse que estava ausente quando o Novo Ordo foi editado e
que isso não passou pelo Santo Ofício. Então, foi realmente o Pe.
Bugnini que obteve essa assinatura, que contrariou talvez o Papa, nós
não sabemos, mas que tinha, sem dúvida alguma, uma influência
extraordinária sobre o Santo Padre.
Terceiro fato do qual eu fui testemunha a propósito do Pe. Bugnini:
na ocasião da permissão que estava sendo dada para a comunhão na mão
(mais uma coisa horrível!) eu achei que não podia deixar passar
isso. É preciso que eu vá ver o Cardeal Guth – um suiço – que
era prefeito da Congregação do Culto. Eu fui então a Roma, onde o
Cardeal Guth me recebeu muito amavelmente, e imediatamente me disse:
«Eu vou fazer entrar o meu segundo, o Arcebispo Antonini, afim de que
ele possa ouvir o que o senhor diz.» E nós conversamos. Eu disse: «Escute,
o senhor que é responsável pela Congregação do Culto, não pode
deixar publicar esse decreto autorizando a comunhão na mão. Imagine
todos os sacrilégios que isso vai representar. Imagine a falta de
respeito pela Santa Eucaristia que vai se espalhar em toda a Igreja.
É inadmissível, o senhor não pode deixar fazer algo assim. Já os
padres começam a dar a comunhão dessa maneira. É preciso parar isso
imediatamente. E com essa nova missa eles pegam sempre o pequeno cânon,
o segundo, que é muito breve». A esse propósito, o Cardeal Guth
disse a Mons. Antonini: «Veja, eu disse que isso aconteceria, que os
padres pegariam o cânon mais curto, para ir mais rápido, para acabar
mais rápido com a Missa».
Depois o Cardeal Guth me disse: – «Monsenhor, se pedissem minha
opinião (quando ele dizia "pedissem", era ao Papa que ele
se referia, porque só o Papa era seu superior), mas eu não estou
certo que vão me pedir (ele que era Prefeito da Congregação do
Culto, encarregado de tudo que era ligado ao culto e a liturgia!), eu
me poria de joelhos, Monsenhor, diante do Papa e lhe diria: Santo
Padre, não faça isso, não assine esse decreto! Eu me poria de
joelhos, Monsenhor. Mas eu não sei se me interrogarão pois não sou
eu que mando aqui». Isso eu ouvi com meus ouvidos. Ele fazia alusão
a Bugnini, que era o terceiro na Congregação do Culto. Havia o
Cardeal Guth, o Arcebispo Antonini e o Pde. Bugnini, presidente da
Comissão de Liturgia. É preciso ter escutado isso! É preciso
compreender também minha atitude quando me dizem: o senhor é um
dissidente, um desobediente, um rebelde.
Infiltrados na Igreja para destruí-la
Sim, eu sou um rebelde. Sim, eu sou um dissidente. Sim, eu sou um
desobediente dessa gente, dos Bugnini. Porque são eles que se
infiltraram na Igreja para destruí-la. Não é possível fazer de
outro modo.
Então, vamos contribuir para a destruição da Igreja? Vamos dizer:
sim, sim, amém, mesmo se é o inimigo que penetrou até junto do
Santo Padre e que pode fazê-lo assinar o que ele quer? Sob quais
pressões? Não sabemos. Existem coisas escondidas que nos escapam,
evidentemente. Alguns dizem que é a maçonaria. É possível, eu não
sei. Em todo caso, há um mistério. Como um padre que não é cardeal
nem mesmo bispo, um padre ainda jovem naquela época, que subiu contra
a vontade do Papa João XXIII, que o tinha expulsado da Universidade
do Latrão, que subiu, subiu e que chegou ao topo que se ri do Cardeal
Secretário de Estado, que se ri do Cardeal Prefeito da Congregação
do Culto, que vai diretamente ao Santo Padre e lhe faz assinar o que
ele quer. Nunca se viu nada de parecido na Santa Igreja. Tudo passa
sempre pelas autoridades. Faz-se Comissões. Estuda-se os documentos.
Mas esse rapaz era todo poderoso!
Foi ele que trouxe esses pastores protestantes para mudar nossa Missa.
Não foi o Cardeal Guth. Não foi o Cardeal Secretário de Estado,
talvez nem mesmo o Papa. Foi ele. Que tipo de homem era esse Bugnini?
Um dia o Abade de São Paulo fora dos Muros, beneditino que precedeu
Bugnini na Comissão de Liturgia, me disse: «Monsenhor, não me fale
do Pe. Bugnini; eu sei muito sobre ele. Não me pergunte quem ele é».
Eu retomei: «Mas diga-me, porque é necessário que as pessoas
saibam, é necessário que as coisas apareçam» «Eu não posso lhe
falar do Pe. Bugnini». Logo, ele o conhecia bem. É provável que
tenha sido ele que tenha pedido a João XXIII de sair da Universidade
do Latrão.
Este conjunto de coisas nos mostra que o inimigo penetrou no interior
da Igreja, como já dizia São Pio X; ele está no mais alto cume,
como anunciou Nossa Senhora de La Salette, e como está, sem dúvida,
no terceiro segredo de Fátima.
Mas, se o inimigo está realmente dentro da Igreja, deve-se lhe
obedecer? Ah! sim, ele representa o Papa... Antes de tudo, não se
sabe de nada, não se sabe o que pensa o Papa.
É bem verdade que eu tenho provas pessoais de que o Papa Paulo VI era
muito influenciado pelo Cardeal Villot. Diziam que o Cardeal Villot
era maçom. Não sei. Aconteceram coisas. Fotocopiaram cartas de maçons
endereçadas ao Cardeal Villot. Não tenho as provas. Mas, de qualquer
forma, o Cardeal Villot tinha grande influência sobre o Papa. Ele
reuniu em suas mãos todos os poderes em Roma. Tornou-se o mestre,
muito mais do que o Papa. Tudo passava por suas mãos. Isso eu sei. Um
dia, fui ver o Cardeal Wright, sobre o catecismo canadense. Eu lhe
disse: «Veja esse catecismo. O senhor conhece estes livretos
intitulados Ruptura? São abomináveis. Eles ensinam às crianças a
romper: romper com a família, com a sociedade, com a Tradição...são
os catecismos que se ensina às crianças no Canadá, com Imprimatur
de Mgr. Courdec. O senhor é encarregado dos catecismos no mundo
inteiro, o senhor está de acordo com este catecismo?» «Não, não -
me disse ele - este catecismo não é católico» «Ele não é católico?
Diga isso imediatamente à Conferência Episcopal do Canadá.
Diga-lhes para parar, de joga-lo no fogo e retomar verdadeiros
catecismos». «Como quer o senhor que eu me oponha a uma Conferência
Episcopal?»
Eu disse então: acabou-se. Não há mais autoridade dentro da Igreja.
Terminado! Se Roma não pode dizer mais nada a uma Conferência
Episcopal, mesmo se ela esta destruindo a Fé das crianças, então é
o fim da Igreja.
Esta é a situação: Roma tem medo das Conferências Episcopais.
Estas Conferências são abomináveis. Na França, existe uma campanha
patrocinada pelos bispos em favor da contracepção. Acho que eles
foram convencidos pelo governo socialista que passa constantemente na
televisão este slogan: tome a pílula para impedir o aborto. Eles não
acharam nada melhor do que isso e fazem uma campanha irracional em
favor da pílula. Elas são subvencionadas para meninas de doze anos,
para evitar o aborto! E os bispos aprovam! No boletim da diocese de
Tulle, que continuo a receber porque é a minha antiga diocese, havia
documentos oficiais em favor da contracepção, firmados pelo bispo,
Mgr. Bruneau, um antigo superior geral dos padres de Saint Sulpice, um
dos melhores bispos da França. É assim!
Porque eu não obedeço
O que devemos fazer? Eles dizem: o senhor deve obedecer, o senhor é
desobediente, não tem o direito de continuar o que está fazendo, está
dividindo a Igreja.
O que é uma lei? O que é um decreto? O que nos obriga à obediência?
Uma lei, diz Leão XIII, é uma ordenação da razão para o bem
comum, nunca para o mal comum – é para o bem. Isso é tão evidente
que, se for para o mal, deixa de ser uma lei. Leão XIII dizia isso
explicitamente na Encíclica Libertas. Uma lei que não é para o bem
comum não é mais uma lei e não deve ser obedecida.
Muitos canonistas, em Roma, dizem que a Missa de Bugnini não é uma
lei. Não houve lei para a Nova Missa. Admitamos que tenha até havido
uma lei, vinda de Roma, uma ordenação da razão para o bem comum e não
para o mal comum. Ora, a Nova Missa está destruindo a Igreja,
destruindo a Fé. É evidente. O Arcebispo de Montreal (Canadá), Mgr.
Grégoire, numa carta publicada, foi muito corajoso. É um dos raros
bispos a ter ousado escrever uma carta denunciando os males que sofre
a Igreja em Montreal. «Ficamos assustados de ver o abandono das paróquias
por grande número de fiéis. Atribuímos isso, em grande parte, à
reforma da Liturgia». Ele teve a coragem de falar assim.
Estamos diante de uma verdadeira conjuração dentro da Igreja, da
parte dos atuais cardeais, como o Cardeal Nox, que fez essa famosa
pesquisa sobre a Missa de S. Pio V no mundo inteiro. É uma mentira
clara e evidente para influenciar o Papa João Paulo II, para que ele
dissesse: se é só esse pequeno número que quer a Tradição, isso
vai acabar sozinho, não vale nada. Na verdade, o Papa, quando me
recebeu em audiência, em Roma, em novembro d e1978, queria assinar um
ato, pelo qual os padres pudessem rezar a Missa de sua escolha. Ele
estava inclinado a fazer isso.
Mas existe em Roma um grupo de cardeais que é radicalmente contra a
Tradição. O Cardeal Casaroli, prefeito da Congregação dos
Religiosos; o Cardeal Baggio, prefeito da Congregação dos Bispos,
posto muito importante que cuida da nomeação dos bispos. E o famoso
Virgínio Lévi, segundo da Congregação do Culto, talvez pior do que
Bugnini. O Cardeal Hamer, arcebispo belga, segundo do Santo Ofício,
nascido na região de Louvain, formado com todas as idéias
modernistas de Louvain. Estes são radicalmente contra a Tradição; não
querem nem ouvir falar. Creio que se pudessem me esganar eles o
fariam.
Que eles nos deixem ao menos a liberdade
Eles se unem contra mim assim que sabem que eu faço um esforço junto
ao Santo Padre para tentar obter a liberdade para a Tradição. Que
eles nos deixem em paz; que nos deixem rezar como se rezou durante séculos;
que nos deixem continuar o que nós aprendemos no seminário; que eles
nos deixem continuar o que aprendemos quando éramos moços, que é
procurar a melhor maneira de se santificar. É isso que nos ensinaram
no seminário. Pratiquei isso quando me tornei padre; quando me tornei
bispo, ensinei isso aos meus padres e a todos os meus seminaristas:
eis o que é preciso fazer para tornar-se santo. Amar o Santo Sacrifício
da Missa, a que nos é dada pela Igreja; os sacramentos, o catecismo.
Principalmente, não mudem nada, preservem a Tradição que dura há
vinte séculos. É isso que nos santifica, foi isso que santificou os
santos. Agora eles querem mudar tudo. Não é possível. Que eles nos
deixem, ao menos, a liberdade!
Ora, quando eles ouvem isso, imediatamente eles vão ao Santo Padre e
dizem: nada para Mgr. Lefebvre, nada para a Tradição. Não volte atrás!
Como são cardeais muito importantes, o Cardeal Casaroli, Secretário
de Estado, e outros, o Papa não ousa. Há alguns cardeais que
aceitariam uma norma favorável, como o Cardeal Ratzinger. Ele
substituiu o Cardeal Seper, que morreu no Natal de 1981. E olha que o
Cardeal Ratzinger era muito liberal na época do Concílio. Foi amigo
de Rahner, de Hans Kung, de Schillebeeckx. Mas por causa de sua nominação
como arcebispo de Munich ele abriu um pouco os olhos. Ele está,
certamente, mais consciente do perigo das reformas e mais desejoso de
voltar às normas tradicionais, junto com o Cardeal Palazzini, da
Congregação das beatificações, e do Cardeal Oddi, da Congregação
do clero. Esses três cardeais estariam dispostos a nos deixar a
liberdade. Mas os demais têm ainda muita influência sobre o Santo
Padre...
Fui a Roma, há cinco semanas, para ver o Cardeal Ratzinger, que foi
nomeado pelo Papa para substituir o Cardeal Seper junto à
Fraternidade São Pio X, junto a mim. O Cardeal Seper tinha sido
nomeado quando da audiência que o Papa João Paulo II me tinha
concedido. Ele chamou o Cardeal Seper e lhe disse: «Eminência, o
senhor manterá as relações entre Mgr. Lefebvre e eu. O senhor será
o intermediário». Agora ele nomeou o Cardeal Ratzinger.
Fui vê-lo e conversamos durante quase duas horas. Certamente o
Cardeal Ratzinger parece mais positivo e mais capaz de alcançar uma
boa solução. A única dificuldade que permanece séria é a questão
da Missa. No fundo, sempre foi a Missa, desde o início. Pois eles
sabem muito bem que eu não sou contra o Concílio. Há coisas que eu
não aceito no Concílio. Não assinei o texto da liberdade religiosa;
não assinei o texto da Igreja no mundo. Não se pode dizer que eu sou
contra o Concílio, mas há coisas que não se pode aceitar, que são
contrárias à Tradição. Isso não deveria lhes importar tanto, pois
o próprio Papa disse que se deve analisar o Concílio à luz da Tradição.
Se fosse visto o Concílio à luz da Tradição, isso não me
incomodaria em nada. Eu assinaria esta frase, pois tudo o que é contrário
à Tradição seria, evidentemente, rejeitado. Durante uma audiência
que o Papa me concedeu, ele me perguntou: «O senhor estaria disposto
a assinar esta fórmula?» Eu respondi: «Foi o senhor mesmo que a
utilizou e eu estaria disposto a assina-la». «Então, disse ele, não
há dificuldade dogmática entre nós». E eu disse: «Assim eu espero»
«O que sobra, então? O senhor aceita o Papa?» «É claro que nós
reconhecemos o Papa e rezamos pelo Papa nos nossos seminários. Nós
somos, talvez, os únicos seminários do mundo onde se reza pelo Papa.
E respeitamos muito o Papa. Quando o Papa me pediu para vir, eu sempre
vim. Mas há a questão da liturgia, disse eu, que é realmente muito
difícil. A liturgia está demolindo a Igreja, demolindo os seminários.
É uma questão muito grave». «Não, não, é uma questão
disciplinar, não é grave. Se só existe isso, penso que chegaremos a
uma solução».
Em seguida o Papa chamou o Cardeal Seper que veio imediatamente. Se
ele não tivesse vindo, penso que o Papa teria assinado um acordo. O
Cardeal Seper chegou e o Papa lhe disse: «Acho que as coisas não são
difíceis de se acertar com Mgr. Lefebvre; creio que poderíamos
chegar a uma solução, há apenas a questão da liturgia que é um
pouco difícil» E o Cardeal respondeu: «Ah! não dê nada a Mgr.
Lefebvre. Eles fazem da Missa de S. Pio V uma bandeira». E a mim de
intervir: «Uma bandeira, claro, a bandeira de nossa Fé, a Santa
Missa, Misterium Fidei, é o grande mistério de nossa Fé. É claro,
é nossa bandeira, é a expressão de nossa Fé».
Mas isso impressionou muito ao Santo Padre, que pareceu mudar
imediatamente. Para mim, isso mostrou que o Papa não é um homem
forte. Se ele tivesse sido forte, ele teria dito: sou eu que vou ver
isso. Vamos resolver isso. Mas não. De repente ele teve como um medo,
tornou-se temeroso e, no momento em que deixava seu escritório ele
disse ao Cardeal Seper: «O senhor poderia conversar já agora.
Poderia tentar acertar as coisas com Mgr. Lefebvre. Fiquem aqui, eu
tenho que ir ver o Cardeal Baggio. Ele tem muitos dossiers para ver
comigo sobre os bispos. Eu tenho de ir». E ao sair ele me disse: «Pare,
Monsenhor, pare». Ele estava transformado. Em poucos minutos ele
tinha mudado completamente. Foi nesta audiência que eu lhe mostrei
uma carta que tinha recebido de um bispo polonês.
Ele me tinha escrito um ano antes, para me dizer que ele me felicitava
pela obra que eu tinha fundado em Écône, dos padres que eu formava.
Ele queria que eu mantivesse a Missa antiga em toda sua Tradição, e
acrescentava: não sou o único. Somos vários bispos que vos admiram,
que admiram seu seminário e a formação que o senhor dá aos padres
e a Tradição que o senhor mantém dentro da Igreja, porque nós, nos
obrigam a tomar a nova Liturgia para arrancar a fé dos nossos fiéis.
Isso dizia este bispo polonês. Então eu levei esta carta no meu
bolso quando fui ver o Santo Padre, pois eu pensava: ele vai
certamente me falar da Polônia. E não me enganei. Ele me disse: «O
senhor sabe, na Polônia tudo vai muito bem. Porque o senhor não
aceita as reformas? Na Polônia não há problemas. Só se sente falta
do latim, nós éramos muito ligados ao latim, pois isso nos unia a
Roma, e nós somos muito romanos. É pena, mas o que o senhor quer que
eu faça, não há mais latim nos seminários, nem no Breviário, nem
na Missa. Não tem mais latim. É uma infelicidade, mas é assim. O
senhor vê, na Polônia aceitou-se as reformas, não há nenhum
problema: nossos seminários estão cheios, nossas igrejas estão
cheias».
Eu respondi ao Santo Padre: «O senhor me permite mostrar uma carta
que recebi da Polônia?» E mostrei a carta. Quando ele leu o nome do
bispo disse: «Oh! é o pior inimigo dos comunistas...ah! é uma boa
referência.». E o Papa leu atentamente a carta. Eu olhava seu rosto
para ver sua reação diante dessas palavras ditas duas vezes na
carta: nos obrigam a tomar a reforma litúrgica para arrancar a fé
dos nossos fiéis. Evidentemente era difícil de engolir. No final ele
me disse: «O senhor recebeu esta carta assim?» - «Sim, é uma fotocópia
que eu trouxe para o senhor». - «Oh! deve ser falsa».
O que eu podia dizer? Não havia nada mais a responder. O Papa me
disse: «O senhor sabe, os comunistas são muito hábeis para tentar
provocar divisões nos episcopados». Ou seja, segundo ele, seria uma
carta fabricada pelos comunistas que me teria sido enviada. Mas eu
duvido muito, pois esta carta foi postada na Áustria e eu suponho que
seu autor tenha tido medo do extravio da carta pelos comunistas e que
ela não chegasse. Por isso ela foi postada na Áustria. Eu respondi a
este bispo, porém não recebi mais nada dele. É para mostrar que há,
eu penso, também na Polônia, divisões profundas. Aliás, sempre
houve, entre os padres da Pax e os que querem manter a Tradição.
Isso foi trágico atrás da cortina de ferro.
A influência dos comunistas em Roma
É preciso ler o livro Moscou e o Vaticano, do padre jesuíta Lepidi.
É extraordinário. Ele mostra a influência que têm os comunistas em
Roma e como eles chegam a fazer nomear bispos e até dois cardeais: o
Cardeal Lekaï e o Cardeal Tomaseck. O primeiro, sucessor do Cardeal
Mindszenty. O segundo, sucessor do Cardeal Beran, que foram heróis e
mártires da Fé. Em seus lugares puseram os padres da Pax, ou seja,
pessoas decididas, antes de mais nada, a se entenderem com os governos
comunistas e que perseguem os padres tradicionais. Os padres que vão
secretamente batizar alguém no interior ou fazer o catecismo
escondido para continuar sua obra de pastores da Igreja Católica, são
perseguidos por estes bispos que lhes diz: vocês não têm o direito
de não respeitar as ordens dos governos comunistas. Vocês nos
atrapalham agindo assim.
Esses padres estão prontos a dar suas vidas para preservar a fé de
seus filhos, para preservar a fé das famílias, para dar os
sacramentos aos que têm necessidade. É claro que nestes países é
preciso sempre pedir autorizações, quando vão levar o Santíssimo
Sacramento nos hospitais ou para qualquer outra coisa. Se eles saem de
suas sacristias têm de perguntar ao P.C. se lhes autoriza. É impossível.
As pessoas morrem sem sacramentos; as crianças não são mais
educadas de modo cristão. Por isso eles fazem escondido. E quando
eles são presos, são os próprios bispos que os perseguem. É
assustador.
Não seriam o Cardeal Wyszynski, nem o Cardeal Slipyi, nem o Cardeal
Mindszenty, nem o Cardeal Béran que fariam algo parecido. Eles, ao
contrário, empurravam seus bons padres dizendo: vamos, partam. Se
forem para a prisão terão feito seu dever de padre. Se for para
serem mártires, sejam mártires.
Isso mostra a influência exercida sobre Roma e que temos dificuldade
de imaginar. É difícil de acreditar.
Quanto a mim, nunca estive contra o Papa. Nunca disse que o Papa não
era papa. Sou inteiramente pelo Papa, pelo sucessor de Pedro. Não
quero me separar de Roma. Mas sou contra o Modernismo, contra o
progressismo, contra toda esta influência má, nefasta, do
protestantismo nas reformas, e contra todas as reformas que nos
envenenam e envenenam a vida dos fiéis. Eles dizem: o senhor é
contra o Papa. Ao contrário, eu venho socorrer o Papa, pois o Papa não
pode ser modernista e progressista, é uma fraqueza ele deixar
acontecer. Isso pode acontecer. São Pedro foi fraco também diante de
S. Paulo, quanto aos judeus. E São Paulo o repreendeu duramente: «Não
andas segundo o Evangelho», disse São Paulo a São Pedro. São Pedro
era Papa e São Paulo o repreendeu. Ele disse com vigor: «Repreendi o
chefe da Igreja que não andava segundo a lei do Evangelho» Era grave
dizer isso ao Papa. E Santa Catarina de Sena, também fez críticas
veementes aos Papas. Nós temos a mesma atitude ao dizer: Santíssimo
Padre, o senhor não está cumprindo seu dever. É preciso voltar à
Tradição se deseja que a Igreja refloresça. Se o senhor permite que
esses cardeais, que esses bispos, persigam a Tradição, estará
realizando a ruína da Igreja.
Tenho certeza que, no seu coração o Papa tem uma profunda inquietação
e que ele procura um meio de renovar a Igreja, e eu espero que com
nossas orações, com nossos sacrifícios, com as orações de todos
os que amam a Igreja, todos que amam o Papa, tenho certeza que
conseguiremos.
E principalmente com a devoção à Santíssima Virgem. Se nós
rezarmos à Santíssima Virgem, ela não pode abandonar seu Filho, ela
não pode abandonar a Igreja que seu Filho fundou, a esposa mística
de seu Filho. Vai ser difícil, vai ser um milagre, mas nós vamos
conseguir.
Mas para mim, não quero que me façam dizer que a Nova Missa é boa,
que ela é simplesmente menos boa que a outra, mas que é boa. Não
posso dizer isso. Não posso dizer que estes sacramentos são bons.
Eles foram feitos pelos protestantes, eles foram feitos por Bugnini. E
o próprio Bugnini disse, como podemos ler no Observatório Romano e
na Documentation Catholique, que traduziram o discurso de Bugnini, de
19 de março de 1965, ou seja, antes de todas as reformas:
«Devemos tirar das nossas orações católicas e da liturgia católica
tudo que possa ser sombra de choque para nossos irmãos separados,
quero dizer, para os protestantes».
Será possível que se tenha de ir perguntar aos protestantes, sobre o
Santo Sacrifício da Missa, dos sacramentos, de nossas orações, do
nosso catecismo: em que vocês não estão de acordo? Vocês não
gostam disso ou daquilo? Bom, vamos suprimir.
Não é possível. Talvez não nos tornemos heréticos, mas a fé católica
será diminuída. É assim que não se acredita mais no limbo, no
purgatório, no inferno. Não se acredita mais no pecado original, nem
nos anjos. Não se acredita mais na graça, não se fala mais do
sobrenatural. É o fim da nossa fé.
Então devemos manter inteiramente nossa fé e rezar à Santíssima
Virgem porque, por nós mesmos... é um trabalho de gigantes que nós
queremos realizar, e sem o socorro do Bom Deus não conseguiremos.
Dou-me conta da minha fraqueza, do meu isolamento. O que posso fazer
sozinho diante do Papa? Diante dos cardeais? Não sei. Vou como um
peregrino, com meu cajado de peregrino. Vou dizer: guardem a fé,
guardem a fé. Sejam mártires mas não abandonem a fé. É preciso
manter os sacramentos e o Santo Sacrifício da Missa.
Não podemos dizer: ah! você sabe, se mudou não faz mal. Eu tenho a
fé bem enraizada e não corro o risco de perder a fé.
Percebemos que os que estão habituados a freqüentar a nova missa e
os novos sacramentos, pouco a pouco mudam de mentalidade. Alguns anos
mais tarde, conversando com alguém que vai nessa nova missa, nessa
missa ecumênica, percebemos que adotou o espírito ecumênico.
Termina-se colocando todas as religiões no mesmo plano. Podemos
perguntar-lhe: pode-se salvar pelo protestantismo, pelo budismo, pelo
islamismo? Ele responderá: mas claro, todas as religiões são boas.
E pronto! Tornou-se um liberal, protestante. Não é mais católico.
Só existe uma religião, não há duas. Se Nosso Senhor é Deus e se
Deus fundou uma religião, a religião Católica, não pode haver
outras religiões, não é possível. As outras religiões são
falsas. É por isso que o Cardeal Ottaviani disse: «Da tolerância
religiosa». Tolera-se os erros porque não se pode impedir que eles
se espalhem. Mas não se os coloca em pé de igualdade com a Verdade.
Ou então se acaba com o espírito missionário. Se todas essas falsas
religiões salvam, então porque sair em missão, para quê?
Deixem-nos em suas religiões e eles vão se salvar...Não é possível.
O que fez a Igreja durante vinte séculos? Porque todos esses mártires?
Porque todos os que foram massacrados nas missões? Os missionários
perderam seu tempo, perderam seu sangue, perderam suas vidas! Não
podemos aceitar isso.
Precisamos permanecer católicos e é muito perigoso escorregar no
ecumenismo e embarcar numa religião que não é mais católica.
Desejo vivamente que todos sejam testemunhas de Nosso Senhor, da
Igreja Católica, testemunhas do Papa, da Catolicidade, mesmo se
devemos ser desprezados, insultados nos jornais, nas paróquias, nas
igrejas. E daí! Somos as testemunhas da Igreja Católica, os
verdadeiros filhos da Igreja Católica e os verdadeiros filhos da Santíssima
Virgem Maria.
+ Mgr. Marcel Lefebvre
Fonte:
Recados do Aarão
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