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15/04/2007
16:10:48 Outros Autores - Tempos de fogo Tempos de fogo Marisa Fillet Bueloni Se você for pego transportando vasos de um lugar para outro num cemitério, com suspeita de roubo, ou se pegar gravatas de grife sem pagar em lojas chiques de Nova York, basta alegar que toma remédios para dormir ou antidepressivos e tudo estará bem. Você não ficará muito tempo mofando na cadeia, até porque o inusitado da situação vexatória irá lhe conferir um certo “status”. Certo? Creio que deveria ser “errado”. Todos nos admiramos com o recente surto do rabino Henry Sobel, homem do mais respeitáveis, quando apareceu na mídia com sua figura descomposta e desgrenhada, acusado de roubo. O que pensar? Consta que o rabino é um homem de posses, portanto, não precisa sair roubando gravatas de grife. Queremos acreditar que este homem, de fato, estaria passando por um momento de crise, sob efeito de remédios que lhe afetaram o senso e a razão. Sobel sempre pautou sua vida de modo admirável, de forma ética, buscando o diálogo inter-religioso, e por isso muito estimado pelos líderes de diferentes denominações. O que pensar disso tudo, dos desvarios e intempéries de toda ordem que assombram os quatro cantos do mundo? Sou do tempo em que uma pessoa bondosa fazia uma canja de galinha daquelas, bem saborosa, e levava para quem estivesse doente ou levemente acamado. Ainda existe quem se disponha a atravessar a rua, com uma terrina fumegante de sopa, para levar a um vizinho, a um amigo adoentado? Nosso estômago atual bem agradeceria esta canja benfazeja, para nos ajudar a suportar a amargura destes tempos de fogo. Nossa alma queima de dor, revolta e asco, ante a visão tenebrosa da falta de MORAL e de respeito, de verdadeiro AMOR CRISTÃO, de gentileza, de amor à vida em todas as suas formas. Cada vez mais, impõe-se a visão de que o mundo precisa mudar, a começar de cada um, individualmente. Não podemos permanecer dentro dos nossos casulos, trancados em nosso confortável mundinho, cuidando do próprio interesse e tudo bem. Por vezes, o próximo é só alguém que devemos cumprimentar com educação, sem perguntar “como vai?”, com medo que ele resolva responder. Já não temos tempo nem paciência para o nosso interlocutor. As pessoas quase não se ouvem mais, não se acolhem, não se abraçam. Poucos têm coragem de dizer “eu gosto de você”, ou “você é uma pessoa sensível e inteligente”, porque sentimos medo de elogiar o outro. E as salas dos terapeutas devem andar lotadas de almas desesperadas e carentes de tudo! Quantos jovens sofrendo com a dependência química, quantos pais assustados com a vida! Quanta gente fumando e bebendo demais, dirigindo alcoolizada e matando; quantos viciados nas sensações de prazer que o mundo oferece de forma ilusória. Depois da dança, resta o quê? Talvez só um corpo cansado e um coração vazio. O sistema tem sido implacável, com a ajuda de uma propaganda que incita ao consumo desregrado e a um estilo fútil de vida. O quadro é assustador, porém não irreversível. Devemos buscar com discernimento a diferença entre o certo e o errado, sem medo de anunciá-la quando necessário. É preciso enxergar onde está o erro e abominá-lo com veemência, ou apenas estaremos engrossando as filas de pacientes anônimos numa sociedade profundamente enferma. Este é o século da doença, é o tempo patológico em todos os seus níveis e segmentos, virulência que ataca o corpo e o espírito. Vislumbramos um tempo mortífero, do aquecimento global, derretimento das geleiras, ciclones, inundações, destruição de ecossistemas, escassez de água, fome, aumento do fosso entre ricos e pobres, violência, medo, perseguição, rejeição às coisas de Deus e esfriamento da caridade – o império de tudo o que se pode chamar de “mal”. Também sou do tempo – graças a Deus! – do terço, do escapulário, do responso, da água benta, do sal exorcizado, da medalha milagrosa, das novenas, da devoção aos anjos e santos, do jejum e da penitência, da confissão e da santa missa, onde se comunga aos domingos. Mantenho até hoje a devoção aos sacramentais. Louvado seja o Senhor e Sua santa palavra que é luz para tempos de trevas. Benditos sejam os nomes do Senhor e de Sua Mãe Santíssima que guardam para nós a fé e a esperança, acenando-nos com a promessa de Novos Céus, Nova Terra! Sim, este “mundo velho” está decrépito. Doloroso é olhar para a paisagem do caos urbano e humano. O homem está doente, derrotado. A mãe que é presa por vender a filha de sete anos para sexo precisa de uma mudança em seu coração, precisa conhecer o Evangelho. Os homens de Estado que permitem o descalabro da miséria e da injustiça precisam ouvir a palavra de Deus. Os bandidos que arrastaram o menino João Hélio também precisam de conversão profunda. Os recém-nascidos abandonados em lagoas, brejos, terrenos baldios e latas de lixo precisam desesperadamente de corações bondosos, de uma chance para viver. Todos devemos olhar além da novela, além do computador, além do dinheiro, além da ganância, além da última moda, além de si mesmo, e buscar a Lei do Senhor. O mundo vive sem lei, mas existe uma Lei eterna para a felicidade humana. Estamos no fim de uma era, no final de um tempo. O Pai, lá nas alturas, talvez esteja tão arrependido de ter criado o homem, como no tempo do Dilúvio. Que atitude Ele irá tomar? -------------------------- Marisa F. Bueloni é formada em pedagogia e orientação educacional. (marisabueloni@ig.com.br) ================================================================= OBS: Também eu nasci neste tempo em que as familias cantavam serestas à noite, e onde o diálogo e a partilha embalavam nossos sonhos e sono. Havia entre nós amor verdadeiro e isso nos era ensinado pelos pais. Rezávamos o Terço e me lembro ainda do quanto amava sentar no colo quente de meu pai, diante do fogão a lenha, naquelas noites frias de inverno. Bem, não vou me alongar muito> foi no dia em que penduramos o terço num prego e nos postamos diante de uma televisão a ver filmes podres, novelas fantasiosas e comerciais tolos que nosso mundo começou a desmoronar. Trocamos o diálogo pelo "cala a boca", o amor e o respeito pelo "muda de canal, não gosto deste"... E o mundo afundou conosco, afundamos todos porque trocamos a Deus pelo ídolo TV. Há, quem pudesse voltar atrás... Fonte: Recados do Aarão |
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