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24/6/2009
Autores - Cristão
modelo
Nestes
tempos finais, onde estamos sendo postos contra a parede, por um mundo
ateu e cada vez mais carregado de ódio contra a Igreja, apresento
parte de um trabalho do autor a seguir citado, sobre o Bem Aventurado
Contardo Ferrini (1859-1902). Este é um exemplo de cristão valente,
que devemos ter como sinalizador doravante. Ele nasceu numa época de
grande ateísmo, onde eram exaltados grandes hereges e falsos mestres,
cujos escritos ainda hoje pesteiam as bibliotecas e corrompem mentes,
entretanto, jamais se desviou da fé, mesmo tendo freqüentado as
escolas destes falsos profetas da razão. E tal era a sua fortaleza
espiritual, que até mesmo seus inimigos e discordantes o escutavam
com prazer. Gostaria que o leitor meditasse especificamente no item
que fala sobre o infinito. Nenhuma palavra até hoje me fez meditar
tanto quanto esta. Quem com toda humildade medita nela, acabará por
chegar perto de Deus.
Artigo do Prof. Dr. Cláudio De Cicco
Autorizada divulgação (Gentileza Nelson)
RESUMO
O presente texto tem por objetivo difundir a grande figura de Contardo
Ferrini mestre no campo do direito, mas ao mesmo tempo um homem de
Deus, um modelo admirável pela elevação sobrenatural do seu espírito
e pela santidade de sua vida. Vivendo, ele não operou milagres nem
portentos; o portento e o milagre é ele mesmo. Foi ele cristão autêntico
em um século no qual a caridade de Cristo parecia banida da sociedade
humana; num século em que a doutrina de Cristo e o seu Evangelho eram
freqüentemente desprezados e esquecidos na prática da vida e da família;
em um século em que progrediu certamente a ciência da natureza e do
mundo, mas também aquela ciência que da natureza e das vísceras da
terra tira e multiplica as armas e as invenções para as lutas, a
destruição e as ruínas.
Com todo progresso que acompanha o curso da vida humana, o homem não
tem aqui uma residência permanente, porque é criado para outro
mundo, para um mundo espiritual, ao qual todos estão destinados, mas
do qual tão poucos se lembram. Os verdadeiros cristãos são os
heróis que têm o pé na terra e o ânimo no céu: Contardo Ferrini
foi um destes, desde a sua juventude. Dedicado ao estudo das fontes
bizantinas do Direito Romano ou no estudo das leis penais romanas,
com a aplicação de sua inteligência, foi metódico, claro, muito
atento, mas também na Associação de São Vicente de Paulo soube
ajudar os mais pobres. Foi beatificado pelo papa Pacelli, Pio XII, em
1947.Pouco tempo depois, aqui no Brasil, na fundação da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo,em 1948, o Cardeal
Arcebispo de S.Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, designou
o novo Beato Contardo Ferrini para patrono da Faculdade de Direito,
que a integrava.
OS PRIMEIROS ANOS
Nasceu Contardo Ferrini em Milão, aos 5 de Abril de 1859, cresceu e
se educou em Suna, aprazível cidade junto ao Lago Maggiore, onde seu
pai, o engenheiro e professor de física Reinaldo Ferrini, estabeleceu
sua residência, com a esposa, Luísa Bucellati Ferrini e mais cinco
filhos. Bastante saudável e agitado, o menino Contardo era um
verdadeiro traquinas, exigindo, muitas vezes, corretivo severo de seu
pai, como de uso naquele tempo.
No entanto, mais exatamente a partir de sua primeira comunhão,
revelou um espírito sobrenatural, capaz de antever a razão essencial
de toda a sua vida, resumida numa afirmação categórica de
Gian-Battista Vico :” o homem é um ser finito que deve tender para
o Infinito.” (PELLEGRINO, 1928, p. 25 e segs.). Sobre esta admirável
intuição, baseou depois completamente sua existência.
Ainda estudante do liceu, entre as anotações explicativas e glosas
à margem dos textos de literatura ou de história, Contardo escrevia
pequenas jaculatórias “Salvai-me, Senhor” (CAMINADA, 1953, p.
18), certamente quando assistia a aulas de mestres agnósticos ou
ateus confessos, na atmosfera anticlerical do “Risorgimento”,
causada pela famosa “Questão Romana”, ou seja, a tomada de Roma,
capital dos Estados Pontifícios, pelas tropas de Garibaldi, em 20 de
Setembro de 1870, que só será encerrada pelo Tratado de Latrão, em
1929, entre o chefe do governo italiano, Benito Mussolini e o Cardeal
Gasparri, secretário de estado do papa Pio XI, o qual, como se sabe,
criou o soberano Estado do Vaticano, que perdura até hoje,
garantido-se, assim, a independência do pontífice perante a política
italiana e vice-versa.
Apesar desse ambiente, Contardo Ferrini, ao lado de uma
espiritualidade que irá num crescendo até atingir os píncaros da
ascética e da mística, em seus escritos espirituais da idade madura,
já revelava uma tendência marcante para o estudo e a pesquisa.
Seus colegas reuniam-se em sua casa para ouvi-lo repetir as lições
do liceu. “Quase nunca falava de religião, mas, como atesta seu
colega Ferrario, todos compreendiam como o estudo e a ciência eram,
para ele, meios para subir até Deus”. (CAMINADA, op.cit., p. 23).
Terminados os estudos do liceu, Ferrini ingressou no Colégio Borromeu,
onde se matriculou na Faculdade de Direito. “Recordo muito bem,
escreve o advogado Zapparoli, as impressões bem diferentes que me
deixavam as lições escritas por Ferrini, comparadas com as dos
outros companheiros. Ferrini não escrevia com as palavras do
professor, mas reunia em poucas frases um grande discurso, anotando
com prontidão e maravilhosa clareza só a idéia. Desde então,
admirei esta característica da inteligência de Ferrini: ele era
eminentemente sintético, e ao mesmo tempo muito claro.”
(PELLEGRINO, op.cit. p. 58). Esta admirável capacidade de ir
diretamente ao cerne das questões será uma característica de
Ferrini, que explica seu êxito no campo tão complexo que escolheu em
seus estudos de pós-graduação.
Desde cedo se sentiu atraído pelo estudo aprofundado das leis penais
dos povos da Antiguidade. Como salientava o Papa Pio XII, na homilia
de sua beatificação “Ferrini não só levava consigo nesta empresa
uma rica bagagem, um profundo conhecimento das línguas antigas e um
bom conhecimento dos mais importantes idiomas moderno, mas também um
puro e alto idealismo, que lhe desvendava e lhe indicava no Direito
Romano um reflexo daquela lei natural, a qual, até mesmo pelo
pensamento pagão é considerada como algo de eterno e divino, segundo
o solene testemunho de Cícero: ” - Vejo que a opinião dos mais sábios
foi que a lei não é invenção do engenho humano nem da vontade dos
povos, mas é qualquer coisa de eterno que deve reger o mundo inteiro,
pela sabedoria dos preceitos e das proibições.” (Cícero, De
Legibus, L. II, cap. 4)” (Pio XII , Papa, 1947, p. 88).
UM POUCO DE INFINITO
Donde tirava ele sua serenidade perante um revés que tanto fez sofrer
um estudioso, principalmente quando vê triunfar a injustiça? De sua
profunda sede de Deus. Continuava fiel a seu pensamento de
adolescente: o homem é um ser finito que deve tender para o Infinito.
Seu dia-a-dia estava impregnado de Deus, desde sua meditação
matutina, até a visita e comunhão diária, à leitura do evangelho e
das vidas de santos, que traziam uma meta, no intervalo das pesquisas
laboriosas. O nada das coisas terrenas, a vaidade do aplauso dos
homens, o único permanente que é Deus, tudo isso transparece no opúsculo
que dedicou a alguns amigos “Um pó d’infinito”.
“Toda criatura inteligente sabe e pode elevar-se ao infinito. Antes
já existe uma parte de infinito em todo ser inteligente, no qual se
reflete o esplendor da face de Deus: neste pensamento que brota de uma
alma imortal e filho do espírito, ignora os limites do tempo e do
espaço e evoca as idades que passaram e sonha com as futuras. E
verdadeiramente existem momentos na vida em que o contato com o
infinito é necessário, e imprescindível e em que se produzem elevações
voluntárias e sublimes. Toda filosofia é ciência do infinito,
entendido tantas vezes de través, jamais negado; toda religião é
uma aspiração natural ao infinito, mil vezes desiludida, jamais
desesperada de achá-lo.
“E, entre todas as filosofias e entre todas as religiões, o
Cristianismo, ao nos revelar a verdade, também mostrou a capacidade
universal de elevar-se ao infinito. O sábio brâmane queria ser
absorvido no infinito divino, até perder sai individualidade, e o
vulgo jazia no torpe politeísmo, que obscurecia toda luz natural e
todas aspirações do coração. Não assim o Cristianismo. Diante
desta solene revelação de Deus cai toda barreira: Servos e livres,
gregos e bárbaros, ricos e pobres, sábios e ignorantes todos são
convidados, o infinito é acessível a todos e a todos apareceu a
benignidade de Deus. O pescador galileu, Pedro, revela diante do palácio
de Cesar a loucura da cruz, no pórtico de Atenas, Paulo, um judeu de
cultura grega, revela o “deus desconhecido”, em toda parte se
anuncia a boa nova e em toda parte se canta com incenso louvor, pois
“revelou estas coisas aos pequenos e as escondeu aos sábios”.
“Estupendos arcanos de Deus! Confundida a alma soberba, Ele sabe
tirar a luz, onde o mundo não suspeita haver senão trevas; Ele sabe
cegar, onde o mundo espera ver a luz. Aqui não falo somente daqueles
que renegam a Deus e destroem a fé dos outros. Falo de vós, filósofos
cristãos, de vós teólogos sutis e celebrados. Ah! Quantas vezes a
velhinha das montanhas em que vivi poderia ensinar-vos e dizer
maravilhada a palavra do evangelho: “Como! Vós sois mestres em
Israel e ignorais estas coisas?”
“Por que tanta luz de Deus nas almas santas, humildes e simples e
sem acastelamentos de livros? Por que tanto conhecimento de Deus?
Quantas vezes, cansado de uma longa jornada de caminho sobre os
montes, sentado à sombra de um abeto me defendia do sol, conversei
com pastores dos Alpes, com a pobre mulher, filha da montanha! E toda
vez fiquei maravilhado e confuso, tanta era a sabedoria da vida, tão
grande o senso da Providência Divina, tão baixa a estima das coisas
terrenas, tão grande a paz íntima e a alegria de uma vida intemerata!
“É a terrível verdade: aquela ciência que parecia ser a estrada
do infinito, não alcança, se não está fundada na mais simples
humildade antes se extravia e delira. Se alguns dos nossos grandes sábios
compreendeu e sentiu a Deus, observai se foi no árido estudo de questões
complicadas, ou foi antes em uma hora matutina diante do altar de
Deus, ou no crepúsculo, quando o último raio de sol ou o primeiro
lume da lua caía sobre a modesta imagem de Maria e um homem prostrado
em doce e confidente oração.
(5) FERRINI, Scritti religiosi, p.
174 a
210. O opúsculo é todo ele um comentário da palavra de Vico “Homo
est ens finitum quod tendit ad infinitum” e que, como já dissemos,
Ferrini tinha tomado como diretiva e razão de sua via.
“Tal é, pois a divina economia deste mistério: a estrada do
infinito é a humildade, a virtude mais acessível a todos, e
especialmente aos que nós menos estimamos. O pobre aldeão que as
roupas esfarrapadas não protegem dos ventos invernais saberá,
se virtuoso, elevar-se até Deus com o hábito de santos pensamentos e
com uma vida humilde e de resignação. O culpado arrependido de seus
múltiploes e graves erros encontrará no seu remorso mesmo a estrada
pra Deus e se enaltecerá perante o Senhor, enquanto que o justo,
soberbo de sua justiça, nunca poderá fazê-lo. E isto é bem razoável.
O que é humilde senão a verdade, a pura e única verdade? O que nos
ensina a natureza, a experiência e a razão além disso?
Como não chegará à verdade aquele que faz da verdade a regra de
todas as suas ações e de todos os seus pensamentos? Nestas pessoas o
mundo não pensa, e no entanto eles entenderam a vida, porque como que
intuíram uma ordem superior de Deus, se elevaram até o Infinito, que
lhes explicou o infinito, “causa causarum”, causa de todas as
causas, como reconhecia Cícero, O que sabe em comparação o filósofo
orgulhoso, que semeia doutrinas funestas, carregadas de imoralidades,
de desconforto, de dúvida e de desesperança?
“Quando a pobre velhinha, que lê com dificuldade seu livro de orações,
implora a Deus a conversão do filósofo incrédulo, ela comenta sem o
saber o primeiro capítulo da Epístola aos Romanos! Pobre avozinha!
Falava-se de um homem doutíssimo, celebérrimo e ela pergunta se ele
ia à missa. Um imbecil riria dela, mas estaria rindo também da
palavra de Paulo: “Se eu falasse a língua dos anjos e não tivesse
a caridade, eu não passaria de um bronze que ribomba e de um címbalo
que tine!”
“Seja louvado o Senhor. Tudo é vaidade, espinhos e remorsos de
vida, exceto elevar-se a Deus; tudo é miséria, exceto repousar no
Senhor. São chamados à sabedoria celeste, ao reino de justiça, de
paz e de alegria, os que trouxerem o desejo de eternidade que compensa
toda cegueira do mundo, aquela pureza de coração que prega o
Infinito.”
Ao voltar, em setembro de 1902, de uma excursão ao monte São
Martinho, onde se detivera junto a um riacho para beber água que
talvez percorrera campos estrumados, Contardo foi acometido de fortes
dores que o levaram ao leito no dia 4 de outubro. Chamado o médico,
verificou-se que se tratava de tifo. Acometido de delírio, só se
referia a coisas santas, das quais a alma estava cheia. Murmurava:
“Cumpri o meu dever…” A 17 de outubro, recobrou as faculdades e,
calmo e sereno, assistido por seus familiares, entregou o espírito a
seu Criador.
Revestido do hábito da ordem Terceira de São Francisco a que
pertencia, desde 1899, o professor de Direito Romano de três
Universidades famosas, e que soubera ser digno discípulo do Santo
Poverello Francisco de Assis (basta ler os trechos em que se vê seu
amor pela natureza no opúsculo “Un pó d’infinito”) foi
sepultado no cemitério de Suna, que logo se tornou alvo de peregrinações.
Sabendo de sua morte, o padre Aquiles Ratti, futuro papa Pio XI, que
com ele tivera muitas conversações relacionadas com suas pesquisas
na biblioteca vaticana, fez em Milão seu elogio fúnebre,
referindo-se a ele como a um santo.
No ano seguinte, sobe ao trono de São Pedro o Cardeal Sarto, com o
nome de Pio X.
“Serei feliz de poder elevar às honras dos altares um professor de
Universidade. Oh! Certamente seria um grande exemplo nos nossos
tempos!” Esta foi sua reação, quando ouviu comentários de vários
sacerdotes piemonteses a respeito da santidade do professor de Direito
Romano da Universidade de Pavia, Itália setentrional, conhecido nos
meios intelectuais como um grande pesquisador das fontes do direito
justinianeu e intérprete fidelíssimo do Direito Penal Romano: o
Professor Contardo Ferrini
Mais tarde, sua beatificação virá em 1947, no pontificado de
Pio XII, que disse na homilia:
“É de grande conforto que o Senhor tenha dado à Igreja um beato, o
qual foi um mestre, um grande no campo do direito, mas ao mesmo tempo
um homem de Deus, um modelo admirável pela elevação sobrenatural do
seu espírito e pela santidade de sua vida. Vivendo, ele não operou
milagres nem portentos; o portento e o milagre é ele mesmo, que
esplende, exemplar de todas as virtudes, à veneração do povo.
Inclinai as cabeças e meditai. Meditai de que o modo ele se fez santo
em um século no qual a caridade de Cristo parecia banida da sociedade
humana; num século em que a doutrina de Cristo e o seu Evangelho eram
frequentemente desprezados e esquecidos na prática da vida e da família;
em um século em que progrediu certamente a ciência da natureza e do
mundo, mas também aquela ciência que da natureza e das vísceras da
terra tira e multiplica as armas e as invenções para as lutas, a
destruição e as ruínas. Meditai como com todo progresso que
acompanha o curso da vida humana, o homem não tem aqui uma residência
permanente, porque é criado para um outro mundo, para um mundo
espiritual, ao qual todos estão destinados, mas do qual tão poucos
se lembram.
Os santos são os heróis que têm o pé na terra e o ânimo no céu:
Contardo Ferrini foi um destes, desde a sua juventude. Aprendei com
ele e com seus exemplos a crescer na ciência que da terra se eleva ao
céu, e transforma os passos da vida aqui em baixo em uma soma de méritos
para a vida que depois desta não tem fim. Não vos ensoberbeça a ciência
profana: guie-vos para o alto do conhecimento das verdades da fé,
profundamente estudadas e praticadas; que vos sublime em Cristo a ciência
de sua caridade.”(PIO XII, Papa , op. cit., p. 99.)
À sua beatificação sucederam inúmeros livros biográficos, além
da publicação de todas as suas obras jurídicas. Escolas, liceus,
institutos, bibliotecas ruas e praças na Itália e por todo o mundo
receberam seu nome e, aqui no Brasil, na fundação da Pontifícia
Universidade Católica em 1948, o então Cardeal Arcebispo de São
Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, designou o novo beato
para patrono da Faculdade de Direito que a integrava.
CONCLUSÃO
Só nos resta esperar que, em futuro bem próximo, possamos chamar
aquele que viveu e resolveu problemas semelhantes aos nossos, com
generosidade e humildade, e por isso é legítimo modelo e protetor
dos professores, pesquisadores e estudantes de Direito: São
Contardo Ferrini.
Fonte:
Recados do Aarão
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