O PAI NOSSO E A AVE MARIA
EDIÇÃO
ELETRÔNICA
Rio de Janeiro, 2003
Conforme
o testemunho de seus contemporâneos, entre os quais se contam muitos de seus
irmãos de ordem, sabemos que um ano antes de sua morte, isto é, desde o
Domingo da Sexagésima, 12 de fevereiro de 1273, até o dia da Páscoa, 9. de
abril, Santo Tomás se consagrou, com todo o cuidado, à instrução dos fiéis,
na igreja conventual de São Domingos, em Nápoles.
Fez
ali sermões, sucessivamente sobre o Símbolo dos Apóstolos, a Oração
Dominical, a Saudação Angélica, sobre os dois preceitos gerais da caridade e
os dez mandamentos da lei.
Não
se vê, à primeira vista, o que une esses diferentes assuntos, mas o santo
Doutor teve o cuidado de mostrá-lo aos seus ouvintes:
«Três
coisas são necessárias ao homem para a sua salvação. A primeira é o
conhecimento daquilo que se deve crer; a segunda, conhecer o que se deve desejar
e a terceira, conhecer o que se deve realizar. O homem tem o primeiro desses
conhecimentos no Símbolo dos Apóstolos; a Oração Dominical o instrui sobre o
que se deve desejar; e os dois preceitos da caridade e os dez mandamentos da lei
mostram o que se deve pôr em prática».
O conjunto desses sermões constitui uma verdadeira catequese pré-batismal. Padre Toco, dominicano, que assistia às práticas, afirma que cada dia aumentava mais o número de assistentes; a multidão escutava o Bem-aventurado com veneração, como se a palavra viesse diretamente de Deus. Somente o aspecto físico de Santo Tomás, já causava uma impressão profunda. Segundo João Blasio, juiz de Nápoles, Santo Tomás fez os dois sermões sobre a Saudação Angélica, de olhos fechados ou elevados para o céu, o ar extático.
Os numerosos ouvintes do santo, nessa quaresma de 1273, pertenciam a
todas as classes sociais e Santo Tomás dirigia-se a eles em italiano, não em
latim. Os textos latinos que chegaram até nós, não são, pois, textos
originais, mas apenas um resumo destes. Não é certo que o Santo os tenha
escrito de sua própria mão nem mesmo que ele os tenha revisto. No entanto,
todos os autores que falaram sobre esses textos (Mandonnet, Michelitisch,
Grabinan, Walz) são unânimes em afirmar sua autenticidade. Todos asseguram que
eles exprimem fielmente o pensamento do Santo Doutor.
A origem dos textos explica porque algumas vezes são encontradas
obscuridades na expressão e porque nem sempre se discerne perfeitamente o elo
que une alguns pensamentos. As citações das Sagradas Escrituras são muito
numerosas, mas nem sempre a relação das citações com o contexto é muito
clara.
Para tornar a leitura da tradução mais corrente, não hesitamos em
suprimir algumas destas citações, quando a relação destas com o contexto não
era perceptível. Pela mesma razão, todas as vezes em que isso pareceu necessário,
procuramos exprimir explicitamente o pensamento de Santo Tomás, seja
desenvolvendo o que a concisão do texto latino apenas sugeria, seja modificando
a ordem material das proposições.
É certo que o homem não pode fazer nada maior, nem mais necessário
à sua salvação, do que elevar sua alma a Deus para ligá-la a Sua Majestade.
Ora, é pela oração que o homem se eleva a Deus e a Ele se une. E quanto mais
perfeita for sua oração, maior será sua união com Deus.
Sendo assim, é da maior importância compreender bem esta sublime
oração, em todos os seus pedidos, para fazê-la inteiramente nossa. Possa a
leitura atenta das explicações de Santo Tomás sobre a Oração Dominical
ajudar-nos a penetrar melhor no sentido profundo das diferentes partes desta
prece divina.
Falando sobre a Saudação,Angélica, em seu Tratado sobre a
verdadeira devoção à Santíssima Virgem, São Luiz-Maria Grignion de Montfort
escreve (§ 252, 253):
«A Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do Pai
Nosso: É a saudação mais perfeita, que podeis fazer a Maria, pois é a saudação
que o Altíssimo lhe fez por meio de um Arcanjo, para ganhar o coração da
Virgem de Nazaré. E tão poderosas foram aquelas palavras, pelo encanto secreto
que contêm, que Maria deu seu pleno consentimento para a Encarnação do Verbo,
apesar de sua profunda humildade. É por esta saudação que também vós
ganhareis infalivelmente seu coração, contanto que a digais como deveis...
isto é, com atenção, devoção e modéstia».
Poderemos acrescentar: com inteligência, o que nos obriga a um
esforço para compreendermos melhor o sentido profundo das palavras que
pronunciamos. A leitura das explicações do Doutor Angélico nos ajudará muito
nisto.
Como muitos escolásticos do século XIII, Santo Tomás pensava, e pensou até o fim de sua vida, que a Santa Virgem tinha contraído o pecado original e que tinha sido purificada por uma graça especial, desde o seio de sua mãe. Ele o diz por duas vezes na explicação da Saudação Angélica (n° 6 e 7). Nestes dois pontos, nossa tradução, propositadamente, não é uma tradução; pois não exprime o sentido do texto latino, mas o que é de fé, para a Santa Igreja e o que hoje contempla o Santo Doutor na visão beatífica, a saber, a Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria.
PRÓLOGO
I. As cinco qualidades requeridas para todas as orações.
1. — A Oração Dominical, entre todas, é a oração por excelência,
pois possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração
deve ser: confiante, reta, ordenada, devota e humilde.
2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos
Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, a fim de
alcançar a misericórdia e achar graça para sermos socorridos no tempo
oportuno.
A
oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago. (Tg 1,6):
Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus... Mas peça-a com fé
e sem hesitação.
Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das
orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais sábio dos
pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria (cf. Cl 2, 3), daquele
de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um advogado junto ao pai: Jesus
Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu em seu Tratado da oração
dominical: «Já que temos o Cristo como advogado junto ao Pai, por nossos
pecados, em nossos pedidos de perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso
favor, as palavras de nosso advogado».
Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se
deixa de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho, apaga os
pecados veniais.
3. — Nossa oração deve, em segundo lugar, ser reta, quer dizer,
devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A oração, diz São
João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que convém pedir».
Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens
que verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque
pediste mal», diz São Tiago. (4,3).
É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o
que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos Romanos (8, 26): Não
sabemos pedir como convém, mas (acrescenta), o próprio Espírito
intercede por nós com gemidos inefáveis.
Mas não é o Cristo que é nosso doutor? Não foi ele que nos
ensinou o que devemos pedir, quando seus discípulos disseram: Senhor,
ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1).
Os
bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais convenientes. «Se
rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo Agostinho, quaisquer que sejam
os termos que empregamos, não diremos nada mais do que o que está contido na
Oração Dominical».
4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como
o próprio desejo que a prece interpreta.
Na
Oração Dominical, o Senhor nos ensina a observar esta ordem: primeiro pedimos
as realidades celestes e em seguida os bens terrestres.
5.
— Em quarto lugar, a oração deve ser devota.
A
excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a Deus. Em
vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista, e minha alma
é saciada como de fino manjar.
A
prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção; também o
Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em vossas orações não
multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos, (Mt 6,7). S. Agostinho
recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da oração a abundância de palavras; no
entanto não deixeis de suplicar, se vossa atenção continua fervorosa».
Esta
é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai Nosso.
6.
— A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do próximo. O Pai
Nosso é uma manifestação destes dois amores.
Para
mostrar nosso amor a Deus, o chamamos «Pai» e para mostrar nosso amor ao próximo,
pedimos por todos os homens justos, dizendo: «Pai nosso», e empurrados
pelo mesmo amor, acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»,
Uma
oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como nos mostra o
Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18, 9-15) e Judite, rogando
ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por agradável a súplica dos humildes
dos mansos.
Esta
humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira humildade está
naquele que não confia em suas próprias forças, mas tudo espera do poder
divino.
II.
Os bons efeitos da oração.
8.
— Notemos que a oração produz três espécies de bens.
Primeiramente,
constitui um remédio eficaz contra todos os males. Livra-nos dos pecados
cometidos: «Remistes, Senhor, a iniqüidade de meu pecado, diz o
Salmista (Sl 31,5-6) por isso todo homem santo dirigirá a Vós sua prece».
Assim pediu o ladrão sobre a cruz e obteve seu perdão, pois Jesus lhe
respondeu: «Em verdade vos digo, hoje mesmo estareis comigo no paraíso». (Lc
23,43), Do mesmo modo rezou o publicano e voltou para casa justificado (cf. Lc
18,14).
A
oração nos liberta do medo dos pecados que virão, das tribulações e da
tristeza. Alguém está triste entre vós? Reze com a alma tranqüila (Tg
5,3).
A
oração nos livra das perseguições dos inimigos. Está escrito no Salmo 108,
4: Em resposta ao meu afeto me fizeram mal; eu, porém, orava.
Se
não somos atendidos, será porque — ou não pedimos com insistência: é
preciso rezar sem descanso (Lc 18, 1) — ou então não pedimos o que é mais
útil à nossa salvação. «O Senhor é bom, diz Santo Agostinho, muitas vezes
não nos concede o que queremos, para nos dar os bens, que desejaríamos
receber, se nossa vontade estivesse bem de acordo com a sua divina vontade». São
Paulo é exemplo disso, pois, por três vezes, pediu para ficar livre de um
forte sofrimento em sua carne e não foi atendido (cf. II Cor 12,8).
11. — Perguntamos: como é que Deus é Pai? E quais são nossas
obrigações para com Ele devido à sua paternidade?
Chamamo-lo Pai, por causa do modo especial com que nos criou.
Criou-nos à sua imagem e semelhança, imagem e semelhanças estas, que não
imprimiu em nenhuma outra criatura inferior ao homem. Não é ele teu Pai,
teu Criador que te estabeleceu? (Dt 32, 6).
Deus merece também o nome de Pai, por causa da solicitude
particular que tem para com os homens no governo do universo. Nada escapa ao seu
governo, sendo este exercido de modo diferente em relação a nós e em relação
às criaturas inferiores a nós. Os seres inferiores são governados como
escravos e nós como senhores. Ó Pai, diz o livro da Sabedoria (14, 3), vossa
providência rege e conduz todas as coisas; e (12, 18) a nós governa com
indulgência.
Deus,
enfim, tem direito ao nome de Pai, porque nos adotou. Enquanto não deu, às
outras criaturas, senão pequenas dádivas, a nós fez o dom de sua herança, e
isso porque somos seus filhos. São Paulo diz (Rm 8, 17): Porque somos seus
filhos, somos também seus herdeiros, e ainda (vers. 15): Vós não
recebestes um espírito de servidão, para recairdes no temor, mas recebestes um
espírito de adoção, que nos faz clamar: Abba, Pai.
Esta
honra consiste em três coisas: a primeira em relação aos nossos deveres para
com Deus; a segunda, nossos deveres para conosco mesmos; a terceira, nossos
deveres para com o próximo.
A
honra devida ao Senhor consiste, primeiramente, em oferecer a Deus o dom do
louvor, seguindo o que está escrito (Sl 49, 23): O sacrifício de louvor me
honrará. Este louvor deve estar não só nos lábios, como no coração.
Está escrito em Isaías (29,13): Este povo me honra com os lábios, mas seu
coração está longe de mim.
A
honra devida a Deus, em segundo lugar, consiste na pureza de nossos corpos, pois
o Apóstolo escreveu: (1 Cor 6, 20) Glorificai e trazei a Deus em vosso corpo.
Consiste,
enfim, esta honra, na equidade de nossos julgamentos para com o próximo. O
Salmo 98, 4 diz: Honrar o rei é amar a justiça.
13.
— Em segundo lugar, devemos imitar Deus, porque ele é nosso Pai. Diz o
Senhor, em Jeremias: (3, 9) chamar-me-eis Pai, e não deixareis de andar atrás
de mim.
A
imitação para ser perfeita requer três coisas.
A
primeira é o amor. Diz São Paulo (Ef 5, 1-2): Sede imitadores de Deus, como
filhos bem amados, e caminhai no amor. Este amor deve ser encontrado em
nosso coração.
A
segunda é a misericórdia. O amor deve ser acompanhado da misericórdia,
segundo a recomendação de Jesus (Lc 6, 36): sede misericordiosos. E
essa misericórdia deve mostrar-se nas obras.
14. — Em terceiro lugar, devemos
obediência a nosso Pai. Se nossos pais segundo a carne nos castigam e nós os
respeitamos, por mais forte razão devemos submeter-nos ao Pai dos espíritos,
diz São Paulo (Heb 12,9).
A obediência é devida ao Pai celeste
por causa de seu domínio soberano, sendo Ele o Senhor por excelência. Já os
Hebreus, ao pé do monte Sinai, declararam a Moisés (Ex 24, 7): Tudo o que
disse o Senhor nós o faremos e obedeceremos.
Nossa
obediência está também fundada no exemplo de Cristo que, sendo o verdadeiro
Filho de Deus, se fez obediente até à morte (Fp 2, 8).
Por fim obedecemos por interesse próprio.
David dizia de Deus: Tocarei diante do Senhor que me escolheu (2 Rs
6,12).
15. — Em quarto lugar e sempre,
porque Deus é nosso Pai, devemos ser pacientes, quando ele nos castiga. Meu
filho, dizem os Provérbios (3, 11-12), não rejeites a correção do
Senhor; nem desanimes, quando Ele te corrige. O Senhor castiga àquele que ama e
se compraz nele como um Pai com seu filho.
16. — O Senhor nos prescreveu
dirigirmo-nos a seu Pai, na Oração Dominical, não somente como «Pai», mas
também como «Pai nosso», Fazendo isto, mostrou quais são nossos deveres para
com nossos próximos.
Em segundo lugar, devemos respeito a nossos semelhantes. Temos um
único Pai, diz Malaquias (2, 10). Não foi um só Deus que nos criou?
Por que haverás de desprezar teu irmão? E São Paulo escreve aos Romanos
(12-10): Cuidai de respeitar-vos uns aos outros.
A realização desde duplo dever nos proporciona os mais desejáveis
frutos, pois o Cristo, nos escreve São Paulo (Heb 5,9) é, para todos
os que lhe obedecem, princípio de salvação eterna.
17. — Entre as disposições necessárias àquele que reza, a
confiança tem uma importância considerável. Quem pede alguma coisa a Deus,
diz São Tiago, (1,6) faça-o com confiança e sem hesitação.
O Senhor, no princípio da Oração que nos ensinou, expõe os
motivos que fazem nascer a confiança.
Primeiro, a complacência do Pai: Pai Nosso. Depois, diz o
Senhor (Lc 11, 13): Vós que sais maus, sabeis dar coisas boas a vossos
filhos; quanto mais dará vosso Pai celeste, do alto dos céus, àqueles que lhe
pedem, seu bom Espírito.
Um
outro motivo de confiança é a grandeza e o poder do Pai, o que nos faz dizer
ao Senhor não apenas Pai nosso, mas Pai nosso que estais no céu.
O Salmista também diz: (Sl 122, 1) Elevei meus olhos para vós que habitais
nos céus.
Em
primeiro lugar, esta expressão tem por objeto preparar a oração, como nos
recomenda o Eclesiástico (18, 23): Antes da oração, preparai vossas almas.
Seguramente, o pensamento de que nosso Pai está nos céus, isto é, na glória
celeste, nos prepara para lhe dirigirmos nossas súplicas.
Na
promessa do Senhor a seus Apóstolos (Mt 5, 12): vossa recompensa será
grande nos céus, a expressão «nos céus» tem igualmente o sentido de «na
glória celeste».
A
preparação da oração se realiza pela imitação das realidades celestes,
pois o filho deve imitar seu pai. Assim, São Paulo escreve aos Coríntios (I,
15,49): Como revestimos a imagem do homem terrestre, é preciso também
revestirmos a imagem do homem celeste.
A preparação para a oração requer também a contemplação das
coisas celestes. Os homens têm por hábito dirigir freqüentemente o pensamento
para o lugar onde está seu pai e onde se acham os outros seres, objetos de seu
amor, segundo a palavra do Senhor (Mt 6, 21): Lá onde está o teu tesouro,
também está teu coração. Foi por isso que o Apóstolo escreveu aos
Filipenses (3,20): Nos céus está a nossa morada.
A preparação da oração reclama, enfim, que aspiremos às coisas
celestes. Àquele que está nos céus devemos pedir coisas celestes, como nos
diz São Paulo (Cl 3, 1): Procurai as coisas do alto, lá onde está o Cristo.
Jeremias
diz (14, 9): Senhor, Vós estais em nós. Os santos são realmente
chamados «céus», segundo essas palavras do Salmo 18,12: «Os céus
proclamam a glória de Deus».
Ora,
Deus habita nos santos pela fé. São Paulo escreve aos Efésios (3, 17): Que
Cristo habite em vossos corações pela fé.
Deus
também mora nos santos pela caridade. Aquele que habita na caridade, diz
São João (I, 4, 16), habita em Deus e Deus nele.
Deus
mora ainda nos santos pela realização dos mandamentos. Se alguém me ama,
declara o Senhor (Jo 14,23), guarda minha palavra e nós viremos a ele e nele
faremos nossa morada.
20.
— Em terceiro lugar, «que estais nos céus» se refere à eficácia do Pai ao
nos ouvir. Neste caso a palavra «céus» designa céus materiais e visíveis; não
que queiramos dizer, com isso, que Deus está encerrado no céu corpóreo, pois
está escrito (2 Rs 18, 27): Eis que os céus e os céus dos céus não vos
podem conter; mas estas palavras «que estais nos céus» mostram:
a)
que Deus, por seu olhar, é clarividente e penetrante, porque vê do alto. Ele
olhou de sua santa altura, diz o Salmo 101,20;
b)
que Deus é sublime em seu poder, segundo a palavra do Salmista (102, 19): O
Senhor dispôs seu trono, nos céus;
21.
— Estas palavras «que estais nos céus» dirigidas ao Pai, no momento da oração,
nos dão um triplo motivo de confiança, que repousa:
a)
sobre o poder de Deus;
b)
sobre a amizade de Deus, que nós invocamos;
c)
sobre a conveniência de nosso pedido.
a)
O poder do Pai que nós imploramos nos é sugerido pela expressão: «que estais
nos céus», se por céus compreendermos os céus materiais e visíveis. Sem dúvida,
Deus não está encerrado nos céus materiais, pois nos diz em Jeremias (23,
24): Encho o céu e a terra; diz-se, entretanto, «estais nos céus»
para insinuar a virtude de sua natureza.
22.
— Contra aqueles que afirmam que tudo vem necessariamente pela influência dos
corpos celestes e negam a utilidade de se pedir qualquer coisa a Deus pela oração
— como são tolos! — dizemos a Deus: «que estais nos céus» e ali está,
por virtude de Seu poder, como Senhor dos céus e das estrelas, seguindo a
palavra do Salmo (102, 19): O Senhor preparou seu trono nos céus.
24. — b) Muitos disseram que Deus, pelo fato de estar tão alto, não
cuida das coisas humanas. É preciso, ao contrário, pensar que Ele está próximo
de nós, e que está intimamente presente em nós. Esta familiaridade de Deus
com o homem nos é apontada pelas palavras da Oração Dominical «que estais
nos céus», se as entendemos assim: «vós que estais nos santos». Os santos são
os céus, segundo a palavra do salmista (18,2): os céus mostram a glória de
Deus e também Jeremias (14,9): Estais no Senhor.
25. — Esta intimidade de Deus com os homens nos inspira dois
motivos de confiança quando rezamos ao Senhor.
O primeiro se apóia nesta proximidade divina que o Salmista mostra
nas palavras (14, 4, 18): O Senhor está próximo dos que o invocam. Por
isto o Senhor nos dá o aviso (Mt. 6, 6): Quando rezardes entrai em vosso
quarto, quer dizer, no interior de vosso coração.
O
segundo repousa no patrocínio dos santos. Por sua intercessão, podemos obter o
que pedimos. (Jó 5, 1): Dirigi-vos a qualquer dos santos e São Tiago
(5, 16): Rogai uns pelos outros, para que sejais salvos.
O pensamento de que o Pai é nosso Bem espiritual eterno, objeto de
nossa bem-aventurança, nos convida, com força, a levarmos uma vida celeste, a
fim de nos tornarmos conforme o nosso Pai. Como é o celeste, assim também
serão os celestiais, declara o Apóstolo (1 Cor 15, 18).
27. — Este é o primeiro pedido, no qual pedimos que o nome de
Deus seja manifestado em nós e por nós proclamado.
Ora, o nome de Deus é antes de tudo, admirável, porque em
todas as criaturas opera obras maravilhosas. O Senhor declara no Evangelho (Mc
16,17): Em meu nome, expulsarão os demônios, falarão novas línguas, e se
beberem algum veneno mortal, este não lhes fará mal algum.
28. — Em segundo lugar, o nome de Deus é amável. «Não
existe debaixo do céu, diz São Pedro (At 4, 12) nenhum outro nome,
entre os que foram dados aos homens, que possa salvar-nos». E a salvação
deve ser buscada por todos. Santo Inácio dá-nos o exemplo do quanto devemos
amar o nome de Cristo. Quando o imperador Trajano exigiu que ele negasse o nome
de Cristo, Santo Inácio respondeu: «Não podereis arrancá-lo de minha boca».
O tirano ameaçou cortar-lhe a cabeça e assim tirar o nome de Cristo de seus lábios;
replicou o bem-aventurado: «Não o arrancarás jamais de meu coração, pois é
lá que está gravado, por isto não posso deixar de invocá-lo». Ouvindo estas
palavras, Trajano, desejoso de verificar-lhes a exatidão, mandou cortar a cabeça
do servidor de Deus e extrair-lhe o coração. E no coração encontrou gravado,
com letras de ouro o nome de Cristo. O santo possuía este nome como um selo em
seu coração.
30. — Em quarto lugar, o nome de Deus é inexprimível, no sentido
de que nenhuma língua é capaz de exprimir toda a sua riqueza.
Tenta-se, no entanto, explicá-la pelas criaturas. Assim, dá-se a
Deus o nome de rochedo, por causa de sua firmeza. E notemos que se o Senhor deu
a Simão, futuro fundamento da Igreja, o nome de Pedra (Mc 3, 16) foi
precisamente porque sua fé, na divindade de Jesus, (cf. Mt 16, 18) devia fazê-lo
participar de sua firmeza divina.
Designa-se Deus também pelo nome de fogo, em razão de sua virtude
purificadora. Assim como o fogo purifica os metais, Deus purifica o coração
dos pecadores. Assim está no Deuteronômio (4, 24): Vosso Deus é um fogo
que consome.
Deus é também chamado luz, por causa de sua capacidade de
iluminar. Como a luz ilumina as trevas, Deus ilumina as trevas do espírito. O
Salmista, em sua oração, diz ao Senhor (17, 29): Meu Deus, iluminai as
minhas trevas.
31. — Pedimos então que este nome seja manifestado, conhecido e
tido por santo.
A palavra santo tem três significações:
Primeiramente, santo que dizer firme, sólido, inabalável. Assim,
todos os Bem-aventurados que habitam os céus são chamados santos, porque se
tornaram, pela felicidade eterna, inabaláveis. Neste sentido não há santos
neste mundo, porque os homens estão, aqui, em constante movimento. «Senhor,
dizia Santo Agostinho, afastei-me de vós e andei errante; afastei-me de
vossa estabilidade.»
Primeiro porque, se não é cultivada, germinam nela espinhos e
cardos, como está escrito no Gênesis (3, 8). Assim, também a alma do pecador,
se não é cultivada pela graça, só produzirá os espinhos e os cardos do
pecado.
Segundo, a terra é obscura e opaca, símbolo dos pecadores. Diz o Gênesis
(1, 2): As trevas cobriram a face do abismo.
Terceiro, a terra, se não é aglutinada pela água, divide-se,
desagrega-se, pulveriza-se, torna-se seca, pois o Senhor estabeleceu a terra
sobre as águas, como diz o Salmista (Sl 135, 6): Deus firmou a terra sobre
as águas. Assim a umidade da água remedeia a aridez da terra. A alma do
pecador, privada da água, não passa de uma alma seca e árida, como constata o
Salmo 142, 6: Minha alma é como a terra sem água.
33. - Enfim, santo, em terceiro lugar, significa «tinto de sangue».
Também os santos que estão no céu são chamados santos, porque estão tintos
de sangue, segundo o Apocalipse (7, 14): Estes são os que vieram da grande
tribulação e lavaram suas vestes, no sangue do Cordeiro. Também diz o
Apocalipse (1, 5): Jesus Cristo que nos amou e nos lavou dos nossos pecados,
no seu sangue.
Como Deus é nosso Pai, devemos não somente venerá-lo e temê-lo,
mas também alimentarmos uma terna e delicada afeição por Ele. É esta afeição
que nos faz pedir a vinda do reino de Deus. São Paulo declara em Tito, 2,
11-13: A graça de Deus apareceu a todos os homens, ensinando-nos que vivamos
neste mundo sóbria, justa e piamente, aguardando a esperança bem-aventurada e
a vinda gloriosa de nosso grande Deus.
35. — Mas podemos perguntar: Se o reino de Deus sempre existiu,
porque pedimos a sua vinda?
Devemos responder a esta pergunta de três maneiras:
a) Primeiro: o reino de Deus, em sua forma acabada, supõe a
perfeita submissão de todas as coisas a Deus. Um rei não será rei,
efetivamente, antes de que todos os seus súditos lhe obedeçam.
Sem dúvida, Deus pelo que é e por sua natureza, é o Senhor do
universo; e o Cristo, sendo Deus e sendo homem, tem, como Deus, o senhorio sobre
todas as coisas. Diz Daniel (7, 14): No mais antigo dos dias foi lhe dado o
poder, a honra e a realeza. É preciso que tudo lhe seja submetido. Mas isto
ainda não é assim e se realizará no fim do mundo. Está escrito (1 Cor 15,
25): É necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo
de seus pés. Eis porque pedimos: venha a nós o vosso reino.
36.
— Assim fazendo, pedimos três coisas, a saber:
—
que os justos se convertam;
—
que os pecadores sejam punidos;
Os homens são submetidos ao Cristo de duas maneiras: ou
voluntariamente ou contra a vontade. A vontade de Deus, com efeito, possui tal
eficácia, que não pode deixar de se realizar totalmente. E já que Deus quer
que todas as coisas sejam submissas ao Cristo, é preciso necessariamente ou que
o homem cumpra a vontade de Deus, submetendo-se a seus mandamentos — o que
fazem os justos — ou que Deus realize sua vontade naqueles que lhe
desobedecem, isto é, nos pecadores e nos seus inimigos, punindo-os. O que
acontecerá, no fim do mundo, quando Ele colocará seus inimigos debaixo de seus
pés (cf., Sl 109, 1). Por isso é dado aos santos pedirem a Deus a vinda de seu
reino, com a total submissão de todos à sua realeza. Mas esse pedido faz
tremer os pecadores, pois assim terão de se submeter aos suplícios requeridos
pela vontade divina. Infelizes aqueles (pecadores) que desejam o dia do
Senhor (Am 5, 18).
A
vinda do reino de Deus, no fim dos tempos, será também a destruição da
morte. O Cristo é a vida; ora, a morte — que é contrária à vida — não
pode existir em seu reino, segundo a palavra (1 Cor 15,26): O último inimigo
a ser destruído será a morte, o que quer dizer que na ressurreição,
segundo São Paulo (Fp 3, 21), o Salvador transformará nosso corpo de miséria,
e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso.
37. b) Segundo: o reino dos céus designa a glória do paraíso. Não
há nisto nada de espantoso, pois o reino quer dizer, simplesmente, governo. Um
governo atinge seu mais alto grau de excelência, quando nada se opõe à
vontade de quem governa.
Quando, pois, pedimos a Deus: «venha a nós o vosso reino»,
rezamos para que, triunfando sobre esses obstáculos, sejamos participantes de
seu reino e da glória do paraíso.
38. — Três motivos tornam este reino extremamente desejável.
Primeiro, pela soberana justiça deste reino. Falando de seus
habitantes, o Senhor diz a Isaías (60, 21) que todos são justos. Aqui,
os maus estão misturados com os bons, mas lá não haverá nem maus nem
pecadores.
39. — Segundo, pela perfeita liberdade dos eleitos.
Aqui na terra, todos desejam a liberdade, sem possuí-la plenamente.
Mas no céu se goza de uma plena e inteira liberdade, sem a menor servidão.
Diz-nos São Paulo (Rm 8, 21): A própria criação será libertada do
cativeiro da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
E não somente todos os eleitos possuirão a liberdade, mas serão
reis, segundo o Apocalipse: Fizeste-nos reis e sacerdotes e reinaremos sobre
a terra.
40. — Terceiro, pela maravilhosa abundância de seus bens. Diz Isaías
ao Senhor (64, 4): O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado
para aquele que te esperam. E o Salmista (Sl 102, 5). Enches de bens,
segundo o teu desejo.
E
é preciso notar que «só em Deus» o homem achará a excelência e a perfeição
daquilo que procura, «neste mundo». Se procurais o deleite, em Deus achareis o
deleite supremo. Se procurais riquezas, em Deus achareis a superabundância de
tudo de que tendes necessidade e tudo que é razão de ser das riquezas. O mesmo
acontece com os outros bens. Santo Agostinho reconhecia em suas Confissões: «A
alma que fornica, ao afastar-se de vós, procurando os bens fora de vós, só os
encontrará límpidos e puros se voltar para vós».
41. — c) Terceiro: porque muitas vezes o pecado reina e triunfa
neste mundo, pedimos a Deus a vinda de seu reino. São Paulo se levantava contra
esta calamidade (Rm 6, 12): Que o pecado não reine em vossos corações.
Esta
infelicidade se realiza quando o homem se deixa levar sem resistência, até o
fim de sua inclinação para o pecado.
Deus deve reinar em nosso coração e o faz efetivamente quando
estamos prontos a observar os seus mandamentos.
Quando pedimos a vinda do reino de Deus, rezamos para que não reine
em nós o pecado, mas que só Deus ali reine e para sempre.
Com efeito, segundo a primeira explicação do pedido venha a nós
o vosso reino (n° 35), o homem, pelo fato de desejar que Deus seja
reconhecido mestre soberano de tudo, não se vinga da injustiça recebida, mas
deixa esse cuidado a Deus. Pois se vingando ele está procurando seu triunfo
pessoal e não a vinda do reino de Deus.
De acordo com a segunda explicação (n° 37) se esperais o reino de
Deus, quer dizer, a glória do paraíso, não deveis ficar inquietos, quando
perdeis os bens deste mundo.
Do mesmo modo, pela terceira explicação, (no 41) pedis que reine em vós
Deus e seu Cristo. Assim como Jesus foi mansíssimo, pois ele mesmo o diz (Mt
11, 29), deveis também ser mansos e imitar os Hebreus dos quais diz São Paulo
(Heb 10, 34): aceitaram com contentamento a espoliação de seus bens.
43. — O Espírito Santo produz em vós um terceiro dom, chamado
dom de Ciência.
O
Espírito Santo não produz nos bons somente o dom do Temor e o dom da Piedade
que, como vimos atrás (n° 34), é um amor delicado por Deus. O Espírito Santo
torna o homem sábio.
Davi pedia o dom da ciência no Salmo 118, 66, dizendo: Ensinai-me
a bondade, a doutrina e a ciência. E é esta ciência do bem viver,
que nos ensina o Espírito Santo.
Um homem não confia em seu próprio julgamento se é humilde, pois,
ensinam os Provérbios (11, 2): onde há humildade, aí há igualmente
sabedoria. Os orgulhosos ao contrário, põem em si toda confiança.
44. — Assim sendo, o Espírito Santo nos ensina, pelo dom de Ciência,
a não fazer a nossa vontade, mas a vontade de Deus. E também quando pedimos a
Deus, que Sua vontade se faça no céu, como na terra, manifesta-se O dom de Ciência.
Quando dizemos a Deus: Seja feita a vossa vontade, é como se fôssemos
doentes que aceitam o remédio amargo, prescrito pelo médico. O doente não
quer tal remédio, mas aceita a vontade do médico, do contrário, seguindo só
sua vontade, seria um insensato. Da mesma maneira, não devemos pedir a Deus
nada além do Seu querer, isto é, a realização de Sua vontade em nós.
O coração do homem é reto, quando está de acordo com a vontade
divina, assim como fez o Cristo: (Jo 6, 38): Desci do céu, não para fazer a
minha vontade, mas a vontade d' Aquele que me enviou.
45. — Mas qual é a razão de ser desta oração: «Seja feita a
vossa vontade?»
Não se diz a Deus, no Salmo 113 (v. 3): Tudo quanto quis, fez? Se
Deus faz tudo que quer no céu e na terra, porque diz Jesus: Seja feita a vossa
vontade assim na terra como no céu?
46. — Para compreender a causa deste pedido é preciso saber que
Deus quer para nós três coisas que realizamos nesta oração.
a) Em primeiro lugar, Deus quer que tenhamos a vida eterna. Quando
alguém faz alguma coisa visando um determinado fim, quer que ela atinja tal
fim. Ora, Deus não fez o homem sem um fim determinado. Diz o Salmo (88, 48):
acaso criastes em vão todos os filhos dos homens? Deus criou os homens, para um
fim que não são as volúpias, pois estas também as têm os animais. Deus quis
que o homem alcançasse a vida eterna. (cf. Jo. 3, 16; 10, 10).
47. — Quando alguma coisa atinge o fim para que foi feita, diz-se
que está salva; quando não atinge, diz-se que está perdida. Ora, o homem é
feito por Deus para a vida eterna. Quando ele chega lá, está salvo; e esta é
a vontade de Deus para ele. Esta é a vontade do Pai que me enviou: que o que
vir o Filho e crer nele, tenha a vida eterna. (Jo 6, 40).
48. — b) Quanto a nós, Sua vontade é que cumpramos Seus
mandamentos. Quando alguém deseja um bem, quer não só este bem, como os meios
para obtê-lo. Também o médico, para conseguir a saúde do doente, quer a
dieta, os remédios e outras coisas desse gênero.
Ora, Deus quer que tenhamos a vida eterna.
Ao moço que lhe pergunta: Que devo fazer de bom para ter a vida
eterna? Jesus responde: Se queres entrar na vida eterna, guarda os
mandamentos (Mt 19, 17).
São Paulo escreve, a esse propósito, aos Romanos (12, 19): E não
vos conformeis com este mundo, mas reformai-vos com um espírito novo, para que
experimenteis qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita.
A vontade de Deus é boa porque é útil. Sou o Senhor teu
Deus, que te ensina o que é útil. (ls 48, 17).
É agradável para aqueles que a amam. Se a vontade de Deus não
é grata aos que não a amam, para os que a amam é deliciosa. A luz nasceu
para os justos, a alegria para os retos de coração, diz o Salmista (Sl 96,
11 ).
A vontade de Deus é também perfeita, porque é uma bondade
superior a tudo. Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito,
prescrevia Jesus (Mt 5, 48).
Ora, a vontade de Deus se cumpre nos justos, mas ainda não nos
pecadores. Os justos são designados pelo céu e os pecadores pela terra.
Pedimos, pois que a vontade de Deus seja feita na terra, isto é nos
pecadores, como é feita no céu, nos justos.
49. — Notemos que Jesus, com o próprio modo de formular o
terceiro pedido do «Pai nosso» nos dá um ensinamento:
Jesus não nos faz dizer a nosso Pai: «fazei a vossa vontade», nem
tão pouco, «que nós façamos a vossa vontade», mas sim: «Seja feita a
vossa vontade».
Com efeito, duas coisas são necessárias para alcançarmos a vida
eterna: a graça de Deus e a vontade do homem.
Apesar
de Deus ter criado o homem sem chamá-lo a cooperar na criação, não o
justifica, no entanto, sem a cooperação dele. «Aquele que te criou sem ti, não
te justificará sem ti» diz Santo Agostinho, em seu comentário sobre São João.
Realmente, Deus quer esta cooperação do homem. Convertei-vos a mim, e eu me
converterei a vós, diz Ele em Zacarias (1,3); e São Paulo escreveu: (1 Cor
15, 10) Pela graça de Deus sou o que sou e sua graça não tem sido vã em
mim.
Não sejais presumidos, mas confiai na graça de Deus; não
negligencieis o vosso esforço, mas trazei vossa cooperação.
Mas Jesus nos faz dizer: Seja feita a vossa vontade, pela graça de
Deus, à qual juntamos nosso trabalho e nosso esforço.
50. — c) em terceiro lugar, Deus quer que sejamos restabelecidos
no estado e na dignidade em que foi criado o primeiro homem. Dignidade e estado
tão elevados que seu espírito e sua alma não sentiam qualquer oposição da
parte da carne e da sensibilidade.
Enquanto a alma foi submissa a Deus, a carne foi submissa ao espírito
e tão perfeitamente que não experimentou nem a corrupção da morte nem a
alteração da doença e das outras paixões.
Mas a partir do momento em que o espírito e a alma, que estavam
entre Deus e a carne, se rebelaram contra Deus, pelo pecado, também o corpo se
rebelou contra a alma e começou a ter doenças e a morrer, e sua sensibilidade
continuamente se revoltou contra o espírito. O que faz com que São Paulo diga:
(Rm 7,23). Sinto nos meus membros uma outra lei, que repugna à lei do meu
espírito. E (Gl 5, 17) A carne tem desejos contra o espírito e o espírito
contra a carne. Assim há uma guerra incessante entre o espírito e a carne;
o homem torna-se cada vez pior pelo pecado.
Deus quer que o homem seja restabelecido em seu primeiro estado,
isto é, que não haja nada na carne que se oponha a seu espírito; o que São
Paulo exprime assim (1 Ts 4, 3): Pois é essa a vontade de Deus: a vossa
santificação.
No
entanto a vontade de Deus se realiza aqui em baixo, no espírito dos justos, por
sua justiça, ciência e vida. Assim, quando dizemos: «Seja feita a vossa
vontade», pedimos ao Senhor que realize sua vontade também em nossa carne.
Segundo
esta explicação, no pedido, «Seja feita a vossa vontade, assim na terra, como
no céu», a Palavra céu designa nosso espírito e a palavra terra designa
nossa carne. E o sentido deste pedido será: que vossa vontade seja feita na
terra, isto é, em nossa carne, como é feita no céu, isto é, em nosso espírito,
pela justiça.
52.
— Este terceiro pedido nos faz chegar à bem-aventurança das lágrimas, que o
Senhor nos fez conhecer no Sermão da Montanha (Mt 5, 5): Bem aventurados os
que choram, porque serão consolados. É fácil demonstrá-la retomando os
três pontos de nossa explicação.
Primeiramente,
Deus quer para nós e nos faz desejar a vida eterna. Por esse amor à vida
eterna, somos levados a derramar lágrimas. Ai de mim, canta o salmista, como
é longo o meu exílio! (Sl 119,5). E esse desejo de vida eterna, entre os
santos, é tão forte que os faz aspirar à morte, se bem que, em si mesma, ela
seja objeto de aversão. Nós preferimos deixar este corpo e estar presentes
no Senhor (2 Cor 5,8).
Em
segundo lugar, os que guardam os mandamentos de Deus, para obedecer à vontade
de Deus, estão também na aflição, porque, se os preceitos são doces para a
alma, são amargos para a carne, pois a mortificam. Falando da carne, e também
de suas almas, o Salmista diz dos justos (Sl 125, 5): Semearam em lágrimas,
com alegria ceifarão.
53. — Muitas vezes, a grandeza da ciência e da sabedoria tornam o
homem tímido, e então é preciso ter força no coração, para que o
homem não desanime diante das necessidades.
O Senhor, diz Isaías (40,
29), dá força aos cansados e vigor aos que são fracos. E Ezequiel (2,
2) também diz: Entrou em,mim o Espírito, e me firmou sobre os meus pés.
O
Espírito Santo, de um lado, dá força para impedir que o homem desfaleça com
o medo de não ter o necessário, e por outro lado, para que o homem creia
firmemente que Deus o proverá de tudo que precisar.
Assim o Espírito Santo, dispensador desta força, nos ensina a
dizer: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. E o chamamos Espírito de
força.
54. — É preciso saber, que nos três pedidos precedentes do «Pai
Nosso», pedimos bens espirituais, cuja possessão começa neste mundo, mas só
será perfeita na vida eterna.
Também é necessário pedir a Deus alguns bens indispensáveis,
cuja possessão perfeita é possível na vida presente. Por isso, o Espírito
Santo nos ensina a pedir estes bens, necessários à vida presente e
perfeitamente possuídos aqui em baixo.
Ao mesmo tempo nos faz mostrar que é Deus que nos provê em nossas
necessidades temporais, quando dizemos: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje».
55. — Por estas palavras, Jesus nos ensina a evitar os cinco
pecados que se comete habitualmente por um desejo imoderado das coisas
temporais.
O primeiro destes pecados é que o homem, insaciável, quanto às
coisas que convêm a seu estado e a sua condição, e impelido por um desejo
desregrado, pede bens que estão acima de sua condição. Age como um soldado
que se queira vestir de oficial ou um clérigo, como um bispo.
Este vício desvia o homem das coisas espirituais, porque o prende
excessivamente a coisas temporais.
56. — Um segundo vício consiste em cometer-se injustiças e
fraudes na aquisição dos bens temporais.
Este é um vício perigoso, porque é difícil restituir os bens
roubados e, segundo Santo Agostinho, «tal pecado não é perdoado, se não
restituímos o que foi roubado».
O Senhor nos ensina a evitar este vício, pedindo para nós, não o
pão de outrem, mas o nosso. Os ladrões comem o pão dos outros e não o seu próprio.
57. — O terceiro pecado é a solicitude excessiva para com os bens
terrenos. Há pessoas que nunca estão satisfeitas com o que têm e querem
sempre mais.
Senhor, não me deis nem a Pobreza nem a riqueza: dai-me somente o
que for necessário para viver,
dizem os Provérbios (30, 8).
Jesus
nos ensina a evitar este pecado pelas palavras: «de cada dia nos dai hoje»,
quer dizer, o pão de um só dia ou de uma só unidade de tempo.
58. — O quarta vício, causado pela apetite desmesurado das coisas
daqui de baixa, consiste numa insaciável avidez das bens terrenas, uma
verdadeira voracidade.
59. — O deseja desregrada dos bens terrestres engendra um quinto
pecado, a ingratidão.
Este é o deplorável vício do homem que se orgulha de suas
riquezas e não reconhece que as deve a Deus, autor de todos os bens espirituais
e temporais, segunda a palavra de Davi (I Par. 29, 14): Teu é tudo e o
recebemos de tua mão.
Para afastar esse vício e fixarmos que todos esses bens vêm de
Deus, Jesus nos faz dizer: «Dai-nos nosso pão».
60. — Recolhamos a lição da experiência e das Sagradas
Escrituras a respeito do caráter perigosa e nociva das riquezas.
Quantas vezes se possui grandes riquezas e não se tira qualquer
utilidade delas, mas, ao contrário, males espirituais e temporais.
Há homens que morrem par causa de suas riquezas. Há ainda um
mal que tenho visto debaixo do sol, diz o Eclesiastes (6, 1-2), e ordinário
por certo entre os homens: um homem a quem Deus deu riquezas, bens e honra; nada
falta à sua alma de tudo o que pode desejar, e Deus não lhe concedeu o poder
de gozar destes bens, mas virá um homem estranho a devorar suas riquezas. E
diz ainda o Eclesiastes (5, 12): Ainda há outra enfermidade bem má debaixo
do sol: as riquezas acumuladas em detrimento de seu dono.
61 — Voltando ao vício de uma solicitude excessiva em relação
aos bens terrenos, vemos homens que se inquietam hoje com o pão de um ano
inteiro, e se chegam a possuí-lo, nem por isso, deixam de se atormentar. Mas o
Senhor lhes diz (Mt 6, 31): Não vos inquieteis, pois, dizendo: que comeremos
ou o que beberemos ou com que nos vestiremos? Também Deus nos ensina a
pedir para hoje o pão nosso, quer dizer, o necessário para o momento presente.
62. — Existem além do pão, alimento do corpo, duas outras
qualidades de pão. O pão sacramental e o da palavra de Deus.
Na Oração Dominical também pedimos nosso pão sacramental que é
todo dia preparado na Igreja e que recebemos como sacramento, como penhor de
nossa salvação.
Jesus declarou aos Judeus (Jo 6,5): Eu sou o Pão vivo que desceu
do céu. — Quem come deste pão, e bebe do cálice do Senhor
indignamente, come e bebe para si a condenação (1 Cor 11, 29).
Pedimos
também na Oração Dominical este outro pão que é a palavra e Deus. Deste pão
disse Jesus (Mt 4, 4): Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra
que vem da boca de Deus.
64. — Encontramos homens de grande sabedoria e força, mas quem
confia em sua própria força não trabalha com sabedoria nem conduz até o
final aquilo que se propusera fazer. Parecem ignorar que os conselhos dão
força às reflexões. Como ensinam os Provérbios (20, 18).
Mas notemos que o Espírito Santo que dá a força, dá também o
conselho; pois qualquer bom conselho relativo à salvação do homem só pode
vir do Espírito Santo.
O conselho é necessário ao homem, quando este sofre tribulações,
assim como o conselho do médico, quando se está doente. Quando um homem está
espiritualmente doente pelo pecado, deve pedir conselho. E Daniel mostra que o
conselho é necessário ao pecador, quando diz ao rei Nabucodonosor (Dn 4, 24): Segue,
ó rei, o conselho que te dou, redime os teus pecados com esmolas.
O conselho de dar esmolas e ser misericordioso é excelente para
apagar os pecados. Por isso o Espírito Santo ensina aos pecadores esta oração
pedindo: Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos
devedores.
Além disso devemos verdadeiramente a Deus aquilo a que Ele tem
direito e que nós lhe recusamos. Ora, o direito de Deus exige que façamos Sua
vontade, preferindo-a à nossa vontade. Ofendemos, portanto, seu direito, quando
preferimos nossa vontade à sua, e isto é o pecado. Assim os pecados são
nossas dívidas para com Deus. E o Espírito Santo nos aconselha que peçamos a
Deus o perdão de nossos pecados e por isso dizemos: Perdoai as nossas dívidas.
a) Primeiro, por que fazemos este pedido?
b) Segundo, quando será realizado?
c) Terceiro, que devemos fazer para que Deus realize nosso pedido?
a) Da primeira, tiramos dois ensinamentos necessários ao homem,
nesta vida.
Um, que o homem deve sempre temer a Deus e ser humilde. Há quem
seja bastante presunçoso para dizer que podemos viver neste mundo de modo a
evitar o pecado. Mas isto a ninguém foi dado, a não ser ao Cristo que possui o
Espírito em toda a plenitude; e à Bem-aventurada Virgem, cheia de graça e
imaculada, da qual dizia Santo Agostinho: «Desta (Virgem) não quero fazer a
menor menção, quando falo do pecado». Mas a nenhum outro santo foi concedido
não cair em pecado ou, ao menos, não incorrer em algum pecado venial. Diz, em
sua Epístola, São João: Se dissermos que estamos sem pecado, nós mesmos
nos enganamos, e não há verdade em nós. (I, 1,8).
E isto tudo é provado pelo próprio pedido. Firmamos, pois, que a
todos, santos ou não, convém dizer o Pai Nosso, com o pedido: Perdoai as
nossas dívidas. Portanto, cada homem se reconhece e se confessa pecador e
indubitavelmente devedor. Se, pois, sois pecador, deveis temer e vos humilhar.
É, pois, muito útil que sempre esperemos. O homem, por mais
pecador que seja, deve esperar sempre o perdão de Deus, se seu arrependimento
é verdadeiro, se se converteu perfeitamente.
Ora, esta esperança se fortifica em nós, quando pedimos: Pai
nosso, perdoai as nossas dívidas.
67. — Os hereges Navatini negavam essa esperança, dizendo que
aquele que peca, depois do batismo, não alcança a misericórdia. Ora, isto não
é verdade, se é verdade o que Cristo diz (Mt 18,32): Perdoei-te a dívida
toda, porque me pediste.
Assim, em qualquer dia em que pedirdes, podereis obter a misericórdia,
se rogardes arrependidos por terdes pecado.
Se, portanto, por esse pedido, nasce o temor e a esperança e todo
pecador contrito alcança a misericórdia, concluímos o quanto é necessário
fazê-lo.
68. — b) Quanto à segunda consideração, é preciso lembrar que,
no pecado, são dois os elementos presentes: a culpa, pela qual se ofende a
Deus, e o castigo devido pela ofensa.
Ora, a falta é remida pela contrição, se esta é acompanhada do
propósito de se confessar e de satisfazê-la. Declara o Salmista (Sl 31, 5): Eu
disse: confessarei ao Senhor contra minha injustiça; e tu me perdoaste a
impiedade de meu pecado.
Como
dissemos, se a contrição dos pecados, com o propósito de confessá-los, basta
para obter sua remissão, o pecador não deve desesperar.
A esta pergunta responderemos: Deus, pela contrição, redime o
pecado, mudando o castigo eterno em castigo temporal; o pecador, contrito, fica
submetido à pena temporal,
Assim, se o pecador morre sem confissão, não por tê-la
desprezado, mas porque a morte o surpreendeu, irá para o purgatório onde,
segundo Santo Agostinho, sofrerá muitíssimo. No entanto, ao vos confessar, o
sacerdote vos absolve da pena temporal pelo poder das chaves, ao qual vos
submeteis na confissão; pois disse Cristo aos Apóstolos (Jo, 20,22,23): Recebei
o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados e aos
que os retiverdes, serão retidos. Assim, quando se confessa uma vez, alguma
parte da pena é perdoada e do mesmo modo, quando se repete a confissão ou se
confessa, tantas vezes, quanto necessário, será totalmente perdoada.
70. — Os sucessores dos Apóstolos acharam um outro modo de remir
a pena temporal: pelo benefício das indulgências. Para quem vive na caridade,
as indulgências têm o valor que o Papa lhes pode conferir.
Quando os santos fazem boas obras, sem terem pecado, ao menos
mortalmente, essas obras são úteis para a Igreja. Do mesmo modo os méritos de
Cristo e da bem-aventurada Virgem são reunidos como um tesouro. O Soberano Pontífice
e aqueles a quem ele confiou tal cuidado, podem aplicar estes méritos, onde
mais houver necessidade.
Assim, pois, os pecados são remidos, quanto à falta, peia contrição,
e quanto à pena, pela confissão e pelas indulgências.
Diz-nos o Eclesiástico (28, 2-5): Perdoa a teu próximo o mal,
que te fez e a seu pedido teus pecados ser-te-ão perdoados. O homem
guarda sua ira para com outro homem e pede a Deus remédio? Não tem compaixão
de um homem seu semelhante, e pede perdão de seus pecados? Sendo carne,
conserva rancor e pede propiciação a Deus? Quem lha alcançará por seus
delitos? Perdoai, (Lc 6, 37), e ser-vos-á perdoado.
É por isso que neste quinto pedido do Pai N'osso o Senhor nos põe
uma única condição: perdoai o outro. Se assim não fazemos, não seremos
perdoados.
72. — Mas poderíamos dizer: Direi as primeiras palavras do pedido
a saber: perdoai as nossas dívidas, mas não as últimas: como nós
perdoamos aos nossos devedores.
Quereis
enganar a Cristo? Mas certamente não enganareis. Cristo compôs esta oração e
dela se lembra bem; como podeis enganá-lo? Portanto, se dizeis com a boca,
ratificai com o coração.
73. — Mas, perguntamos, aquele que não tem o propósito de
perdoar seu próximo deve dizer: Assim como nós perdoamos os nossos
devedores?
Parece que não, pois estaria mentindo.
Mas respondo que não estaria mentindo, porque não está rezando em
seu nome, mas em nome da Igreja, que não se engana. É por isso que esse pedido
foi posto no plural.
O segundo modo de perdoar é comum a todos, é a obrigação de
todos; nada mais é que perdoar os que pedem perdão, como diz o Eclesiástico;
(28, 2) Perdoa teu próximo pelo mal que te fez e a seu pedido teus pecados
ser-te-ão perdoados.
75. — Bem-aventurados os misericordiosos, é o fruto deste
quinto pedido. Porque nos leva a ter misericórdia para com o próximo.
76. — Há pecadores que desejam obter o perdão de seus pecados; confessam-se e fazem penitência, mas não se aplicam como devem, para não recaírem no pecado. São inconseqüentes consigo mesmos, pois choram e se arrependem de seus pecados, para em seguida caírem novamente nos mesmos pecados e assim acumularem motivo para lágrimas futuras. A propósito disto, diz o Senhor em Isaias: (1, 16) Lavai-vos, purificai-vos, tirai de diante de meus olhos a malignidade