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Julho 2006
Vejo
uma caverna na rocha. Na caverna estão folhas esmagadas sobre uma espécie
de padiola feita de ramos entrelaçados e amarrados com juncos. Deve
ser uma cama 'cômoda' como um instrumento de tortura. Na gruta ou
caverna está também uma grande pedra que faz de mesa e outra pedra
menor que faz de assento. No lado mais interno há uma outra grande
pedra, aliás, é um pedaço saliente da rocha como fosse prateleira.
Não sei se é assim por natureza ou se foi obra humana. Sobre esta
prateleira, que parece um rústico altar, está pousada uma Cruz feita
com dois ramos, segurados juntos por vimes. Numa fenda terrosa há
planta de hera. Quem
a plantou cuidou que os ramos formassem um enfeite à Cruz quase como
se abraçasse, enquanto em dois rústicos vasos, que parecem modelados
na argila por mão inexperiente, estão flores silvestres, e próprio
ao pé da Cruz, numa concha gigante, está uma pequena planta de
jasmim selvagem com as pequenas folhas bem limpas e dois botões próximo
a desabrochar. Aos pés deste altar está um feixe de ramos espinhosos
e um flagelo de cordas nodosas. Na gruta há também uma rústica
vasilha de barro, com água dentro. E nada mais. Da estreita e baixa
abertura da gruta se vê ao longe uns montes. A abertura é quase
completamente escondida pelos ramos pendentes das plantas de hera, de
caprifoliáceas e de roseiras selvagens. Parece uma cortina toda
rasgada com fio que pende e se agitam por qualquer sopro de vento. Uma
mulher magra, vestida de uma rústica veste escura sobre a qual está
pousada uma pele de cabra como manto, entra na gruta afastando os
ramos pendentes. Parece exausta. É difícil identificar a sua idade.
Se se deve julgar pelos rosto ressequido deveria ter bem mais de
sessenta anos. Se se devesse julgar pelos cabelos compridos, densos
dourados, longo as costas curvas se diria que tem quarenta anos. Os
cabelos pendem em duas tranças longa às costas curvas e magras. Os
cabelos são a única coisa que resplandecem naquela esqualidez. A
mulher certamente deve ter sido uma bela mulher porque a fronte é
ainda alta e lisa. O nariz bem feito e oval, porquanto emagrecida pela
penitência, é regular. Mas
os olhos não tem mais fulgor. Estão muito afundados na órbita e
assinalados por dois bistres quase azuis. Dois olhos que denunciam as
muitas lágrimas derramadas. Duas rugas (quase duas cicatrizes) se
gravaram do ângulo do olho passando ao longo do nariz, vão se perder
naquela outra característica ruga de quem sofreu muito que das
narinas desce como um acento circunflexo aos ângulos da boca. As Têmporas
são como escavadas e as veias róseo palidíssimo. Um tempo deve ter
sido uma bonita boca, agora é desflorada. A curva dos lábios é
semelhante àquela de duas asas que pendem cortadas. Uma boca
dolorosa. A
mulher se arrasta até a pedra que faz de mesa e pousa sobre a mesa
umas frutinhas de murtas e de moranguinhos selvagens. Depois vai até
ao altar e se ajoelha. Mas está tão fraca que quase cai e deve se
sustentar com uma mão à pedra. Reza olhando a Cruz e umas lágrimas
descem pelo sulco da ruga até a boca que a bebe. Depois deixa cair a
pele de cabra e permanece só com a rústica túnica. Pega
os flagelos e os espinhos. Aperta os ramos espinhosos ao redor da cabeça
e ao redor dos lombos e flagela-se com as cordas. Mas é demais
fraca, para e os flagelos caem-lhe das mãos. Está
para desmaiar. Com ambas as mãos se segura no altar apoiando também
a cabeça. Diz: 'Não aguento mais Raboni! Não posso mais sofrer.
Mais sofrer em memória dos teus sofrimentos!' Pela
voz a reconheço. É Maria de Mágdala. Estou na sua gruta de penitência.
Maria de Mágdala chora. Chama por Jesus com amor. Não pode mais
fazer penitência. Mas amar pode ainda. A sua carne triturada pela
penitência não resiste mais à fadiga de flagelar-se mas o coração
tem ainda pulsações de amor e se consome nas suas últimas forças
amando. E ela ama, permanecendo com a cabeça coroada de espinhos e os
lombos apertados pelos espinhos, ama falando com seu Mestre em uma
contínua profissão de amor e em renovado ato de dor. Escorregou
com a fronte por terra. A mesma posição que tinha no Calvário
defronte à Jesus deposto sobre o seio de Maria, na mesma posição
que tinha na casa do Cenáculo em Jerusalém quando a Verônica abriu
o véu com a imagem de Jesus, a mesma posição que tinha no horto de
José de Arimatéia quando Jesus a chamou depois da Ressurreição e
ela o reconheceu e o adorou. Mas agora chora porque Jesus não está.
'A vida me foge Mestre meu. E deverei morrer sem te rever? Quando
poderei alegrar-me por ver teu Rosto? Os meus pecados estão defronte
a mim e me acusam. Tu me perdoaste e creio que o inferno não poderá
me possuir. Mas quanta espera no Purgatório antes de vir a Ti! Oh!
Mestre bom! Pelo amor que me deste, conforta a minha alma! A hora da
morte chegou. Pelo teu morrer desolado na Cruz, conforta a tua
criatura! Tu me geraste. Tu. Não minha mãe. Tu me ressuscitaste mais
que a Lázaro, meu irmão. Porque ele era bom e a morte não podia senão
ser uma espera no limbo. Mas eu era morta na alma, e morrer queria
dizer morrer eternamente. Jesus nas tuas mãos recomendo meu espírito!
É teu, porque Tu o remiste. Aceito por última expiação de conhecer
a dureza do Teu morrer abandonado. Mas dá-me um sinal que a minha
vida serviu para expiar os meus pecados'. 'Maria!'
Jesus aparece. É belo. Parece que desceu da rústica Cruz. Mas não
é ferido e nem morrente. É belo como na manhã da Ressurreição.
Desce do altar e vai para a prostrada no chão. Se curva sobre ela. A
chama ainda, e dado que ela parece crer que aquela voz é espiritual,
e, com o rosto por terra como está não vê a luz que Cristo emana.
Ele a toca com uma mão na cabeça e tomando-a por um cotovelo, como a
Betânia, para levantá-la. Quando ela se sente tocar e reconhece pelo
comprimento aquelas Mãos, há um grande grito. E
levanta o rosto transfigurado pela alegria. E logo o abaixa para
beijar os pés do seu Senhor. 'Levanta-te, Maria, sou Eu mesmo. A vida
foge. É verdade. Mas Eu venho para dizer-te que o Cristo te espera. Não
há espera no Purgatório para Maria. Tudo já é perdoado a ela.
Desde o primeiro momento foi perdoado. Mas agora é mais que perdoado.
O teu lugar já está pronto no meu Reino. Maria, vim para te dizer
isto. Não dei ordem ao anjo de comunicar-te isto porque Eu dou o cêntuplo
de quanto recebo, e Eu lembro quanto recebi de ti. Maria, revivamos
juntos uma hora do passado. Lembra Betânia. Era noite depois do sábado.
Faltavam seis dias para a minha morte. A tua casa, a lembras? Era toda
bela na cintura florida do teu pomar. A água cantava nos tanques e as
primeiras rosas cheiravam ao redor dos seus muros. Lázaro me havia
convidado à Ceia e tu havia despojado o jardim das flores mais lindas
para ornar a mesa onde teu Mestre haveria de consumar o seu alimento.
Marta não te disse nada porque lembrava as minhas palavras e te
olhava com uma doce inveja porque tu resplandecias de amor, andando e
voltando nos preparativos. E
quando Eu cheguei tu correstes mais rápido que uma gazela ao meu
encontro, precedendo os servos, para abrir a porteira com teu grito
costumeiro. Parecia sempre o grito de uma prisioneira libertada. De
fato Eu era a tua libertação e tu eras uma prisioneira libertada. Os
Apóstolos estavam comigo. Todos. Também aquele que já era como um
membro podre do corpo apostólico. Mas estavas tu para tomar aquele
lugar. E tu não sabias que Eu olhando a tua cabeça abaixada para me
beijar os pés, Eu esquecia o desgosto de ter ao meu lado o traidor.
Quis que tu estivesse no Calvário por este motivo. Porque ver-te era
ser seguro que a Minha morte não era sem resultado. E mostrar-me a ti
era agradecimento pelo teu fiel amor... Maria,
tu bendita que nunca traíste, depois da conversão e que me
confirmaste na esperança Minha de Redentor, em ti vi todos os salvos
pelo Meu morrer. Aquela noite do convite enquanto todos comiam, tu
adoravas. Me deste a água perfumada para os meus pés cansados e
beijos castos e ardentes para as minhas mãos e, não contente ainda,
quebraste o último precioso vaso de perfume teu para ungir-me a cabeça
e me 'arrumaste' os cabelos como uma mãe e me ungistes as mãos e os
pés para que o teu Mestre cheirasse como um rei consagrado... E Judas
te odiava porque tu eras honesta...e te repreendeu...mas Eu te defendi
porque tu fizeste tudo por amor. Um amor tão grande que a sua lembrança
veio comigo na agonia da noite de quinta-feira até às quinze horas
de sexta-feira... Ora,
por este ato de amor que tu me deste antes da minha morte, Eu venho a
ti, antes da tua morte. O teu morrer não é diferente daquele que
derrama o seu sangue por mim. O que dá o mártir? Dá a sua vida por
amor ao seu Deus. Que dá o penitente? Dá a sua vida por amor ao seu
Deus. Que dá o amante? Dá a sua vida por amor ao seu Deus. Vês que
não há diferença. Martírio, penitência e amor consomem o mesmo
sacrifício e pela mesma finalidade. Em ti, então, penitente e
amante, há o martírio como de quem morre nas arenas. Maria, Eu te
precedo na glória. Beija-me a mão e morre E
Jesus a obriga a estender-se sobre aquela espécie de leito e
desaparece. Ela, com lágrimas nos olhos, se estende. Pranto de êxtase
e parece que está para dormir com as lágrimas nos olhos que
continuam a descer, com as mãos cruzadas sobre o peito e um sorriso
nos lábios. De repente uma luz vivíssima ilumina a gruta. Maria se
levanta. É o Anjo que traz um Cálice e que pousa sobre o altar. O
Anjo se ajoelha e adora. Maria também se ajoelha. O Anjo pega de novo
o cálice e lhe dá a Comunhão. Depois o Anjo desaparece. Maria cai
com o rosto sobre as folhas do seu leito e morre.
Fonte: Recados do Aarão |
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