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A
arte de escutar o silêncio Quem ama 'escuta' no olhar aquilo que os lábios ainda não disseram Existem
situações que experienciamos nas quais parece que ninguém nos
entende. Há dores que nos roubam a capacidade de nos expressarmos e,
conseqüentemente, de sermos compreendidos naquilo que somos. São
realidades nas quais as palavras se ausentam e não somos capazes de
“nos dizer” no que pensamos e sentimos. Isso acaba inaugurando em
nós um gradativo processo de solidão em virtude de não sermos
conhecidos e compreendidos em nossa verdade. São
raras as pessoas que têm sensibilidade para escutar nossos “silêncios”,
e paciência para, aos poucos, desvelar o mistério que somos nós. Expressar-se
é uma arte, compreender alguém também o é. Essas virtudes são
fruto de muita luta e empenho, e não apenas de habilidade natural. Penosa
e desestruturante é a dor da incompreensão, do sentir-se estrangeiro
no próprio território, por sentir algo e perceber que os outros não
podem compreender. Dor ainda maior se faz real quando nos descobrimos
julgados e encarcerados no que não somos, em conseqüência de não
sermos escutados em nossa realidade, expressa em “palavras” que
ainda não fomos capazes de dizer. Pelo
fato de não conseguirmos nos comunicar externando o que somos,
constantemente, somos mal interpretados e confundidos em inverdades de
compreensão, que nos aprisionam e nos ausentam de nossa identidade. Diante
disso, acredito que amar é ter a capacidade de descobrir o outro no
que ele não diz... Para descobrir alguém assim é preciso gastar
tempo, é preciso observá-lo, abrindo mão dos próprios barulhos e
agitações para entender a linguagem silenciosa que revela o ser.
Quem ama “escuta” no olhar aquilo que os lábios ainda não são
capazes de dizer. São
raras, nos tempos atuais, as pessoas que têm paciência para
descobrir o outro nos detalhes, para assim poder amá-lo com
inteireza. O fato é que, muitas vezes, estamos tão cheios de nós
mesmos que mesmo que o outro “grite” não somos capazes de escutá-lo.
Só
acompanha o outro – com qualidade – quem se esvazia das próprias
razões. Quem entendeu o que é amar percebe que não pode ser o
centro de tudo e que precisa dar espaço em sua vida para que o outro
seja quem realmente é, revelando-se em seus valores e crenças. Há
muitos que em toda a vida são amados – se é que o são – somente
a partir de uma imagem criada a seu respeito e não daquilo que
verdadeiramente são. Tal realidade impõe no ser uma profunda crise,
estabelecendo a solidão e a inexistência como paradoxo na compreensão
do real. Dizer-se
– de maneira compreensível e encarnada – e compreender o outro são
necessidades essenciais para que haja harmonia em toda e qualquer relação.
Há casamentos, amizades e relacionamentos familiares que se
desfiguram pelo fato de ambas as partes não terem a devida
simplicidade para decodificarem (traduzirem) sua linguagem, de forma
que ambos possam se compreender e ser compreendidos. O
que destrói um relacionamento não é somente a ausência de amor,
mas também de boa comunicação.
Comunicação que nos transporta para além do comum e nos faz
descobrir os segredos que revelam concretamente uma identidade. Que
Jesus, Aquele que, por excelência, tem o dom de traduzir os “símbolos”
humanos, nos ensine com a sensibilidade que emana do seu coração a
real maneira compreender e se expressar, desvendando silêncios e
inaugurando sempre as novas possibilidades presentes no coração. “Nos
detalhes, nas calçadas, nos poemas, nas
esquinas... sempre disse o que digo. Porém,
o eco não se fez. Há
quem perceba uma linguagem que constrói inverdade.
Nas
frases não ditas poucos escutam o silêncio. Ele
que inocente pede carona, com sede de transportar. Transportar
revelando pela força do olhar; aquilo
que a verdade não cansou de cantar com voz
eloqüente: Existe alguém aqui.” Adriano
Zandoná Fonte:cancaonova.com |
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