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É
grande orgulho não aceitar a própria miséria
O tempo da Quaresma é uma ocasião especial para a luta contra o
pecado, a pior realidade para o homem, para a Igreja e para o mundo.
Mas essa luta exige sabedoria. É
preciso ter paciência consigo, especialmente nas quedas e nos
pecados. Calma e paciência e nada de ficar pisoteando a própria
alma, demonstrando um orgulho escondido e refinado de quem não aceita
a própria fraqueza. Somos fracos mesmo. Por isso Jesus nos deixou o
maravilhoso sacramento da confissão. É
grande orgulho não aceitar a própria miséria. Deus é paciente
conosco, como, então, não teríamos paciência com nós mesmos? Até
quando, meu Deus, aguentarei os meus pecados? São
Francisco de Sales ensinava: “Considerai os vossos defeitos com mais
dó do que indignação, com mais humildade do que severidade, e
conservai o coração cheio de um amor brando, sossegado e terno”. Nunca
podemos nos desesperar ou desanimar, mesmo que nossos pecados sejam
numerosos. Não podemos permitir que, depois do pecado, entre o
desespero em nosso coração. À mulher adúltera, Cristo perguntou:
“Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vá e não peques
mais”. Depois
do pecado, o demônio do desespero corre para nos dizer: “Tua alma
está morta, está perdida, não incomodes mais o Mestre...” (Mc 5,
35-43). Nesta
hora temos de dizer como Jó: “Ainda que o Senhor me tirasse a vida,
ainda assim esperaria n'Ele”. Apesar
dos nossos pecados, Jesus nos ama com um amor infinito. Santa
Terezinha garante que “quanto mais pobre e miserável é nossa alma,
tanto mais apta está para as operações do Amor que consome e
transforma”. Talvez
você seja uma mãe que chore por seu filho estar na perdição deste
mundo; não se desespere, confie e espere no Senhor. A viúva de Naim
não podia imaginar que Jesus fosse aparecer quando o seu filho já
estava morto e o devolvesse vivo... Dizia
São Martinho de Tours que “a intervenção da Providência Divina
é tanto mais certa quanto menos prováveis os recursos humanos”.
Quando tudo falha... Deus age. Santa
Mônica rezou longos 20 anos pela conversão do seu querido Agostinho,
mas teve a alegria de vê-lo um dia convertido, e muito mais:
sacerdote, bispo, santo, doutor da Igreja, um dos homens mais
importantes que o mundo já viu. Tudo porque ela não desanimou de
rezar. São
Francisco de Sales dizia que “a Providência Divina demora o seu
socorro para provocar nossa confiança”. Deus firma a nossa confiança
provando-a. Não tem outro jeito. Portanto, não se aflija durante a
boa prova da confiança. Seja corajoso. Os méritos serão muito
maiores. Santa
Terezinha gostava de lembrar que “a nossa desconfiança é o que
mais fere o Coração de Jesus”. Na mesma linha de pensamento, São
Bernardo, o grande santo doutor, afirmava: “Possuireis todas as
coisas sobre as quais se estender a vossa confiança. Se esperais
muito de Deus, Ele fará muito por vós. Se esperais pouco, Ele fará
pouco”. Portanto,
alma querida, confia muito, espera bastante, e não tenha receio de
pedir muito; isso não é falsa humildade. O
autor da obra “A Imitação de Cristo” ensina que o “que o homem
não pode emendar em si ou nos outros, deve sofrê-lo com paciência,
até que Deus disponha de outro modo.” Caiu?
Levante-se! Peça a Deus o perdão. Perdoe a si mesmo e continue a
caminhada. Não é porque perdemos uma batalha que vamos perder a
guerra contra o pecado. As
tentações não nos afastam de Deus quando não cedemos a elas, mas
nos aproximam ainda mais do Senhor. Muitos santos foram tentados
horrivelmente. Sentir não é pecado, pecado é consentir. Enquanto
você não for conivente com o erro, não pecou, mesmo que tenha de
conviver com ele. As
tentações contra a pureza nos tornam mais castos quando as
superamos; as tentações contra a ira nos tornam mais mansos; as
tentações da gula nos tornam mais fortes na temperança. O combate
contra a tentações nos fazem mais fortes e mais vigilantes.
Em
meio à tentação parece que o inferno está contra nós; muitas
vezes, vem o desânimo, o desejo de blasfemar, de desesperar, de se
revoltar contra Deus... Calma, paciência, fé e abandono em Deus são
necessários. Santa
Catarina de Sena, uma das três doutoras da Igreja, depois de uma fortíssima
tentação, perguntou a Jesus: “Onde estavas, meu Jesus, durante
esta tempestade?” E Jesus lhe respondeu: “No meio do teu coração.”
Muitos
santos sofreram tentações de fé terríveis: Santa Terezinha, São
Vicente, Santa Margarida. A esta última Jesus disse: “Serás
perseguida pelo demônio, pelo mundo, e por ti mesma; as tuas três
cruzes.” Santa
Terezinha, na luta contra as tentações da fé, dizia: “Pronunciei
mais atos de fé no espaço de um ano do que em toda a minha vida
passada.” “A
cada nova ocasião de combater quando o inimigo me quer provocar,
procedo com valor. Como sei que o duelo é covardia, não enfrento o
adversário, dou-lhe sempre as costas e corro, pressurosa para
Jesus... É tão doce servir o bom Deus na noite na prova! Só temos
esta vida para viver de fé” (idem). Conhecemos
bem a história do paralítico cujos bons amigos o fizeram chegar até
Jesus, descendo-o pelo teto da casa; por isso, quando os pecados nos
impedirem de chegar a Jesus, deixemos que os bons amigos, o
sofrimento, o confessor e a confissão nos levem até Ele. Talvez
nem Santo Agostinho, nem Santa Maria Madalena, nem muitos outros
santos se tivessem santificado se não tivessem caído. Foram grandes
no pecado e grandes na santidade. Tiveram de tocar o chão duro
para experimentar a misericórdia de Deus. Nossas
faltas fazem-nos conhecer experimentalmente e tocar com os dedos a
nossa miséria e impotência e nos dá a humildade. As quedas nos
ajudam a desprezar-nos e a confiar O
grande santo também afirmava que “entre a Misericórdia e a miséria
há uma ligação grande que uma não pode se exercer sem a outra.” A
nossa miséria nos confere um direito sagrado de confiar na Misericórdia.
Ou me salvo, confiando na Misericórdia, ou me condeno desesperado,
sem ela. Não
é à toa que Jesus mandou Santa Faustina escrever no quadro da
Misericórdia: “Jesus, eu confio em Vós!” Diante
de Deus tem mais direito quem mais necessita. Entre muitos doentes,
qual deles é atendido primeiro? É o mais enfermo. Foi para socorrer
a nossa miséria que a Misericórdia baixou à terra. Santo
Agostinho dizia que até os nossos pecados contribuem para a nossa
santificação quando os aproveitamos bem. Portanto, coragem e confiança,
alma humana, que vive a cair! Felipe
Aquino
Fonte:cancaonova.com
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