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Natal
é tempo de receber o Presente Mal
começa a preparação de uma festa, qualquer que seja, a febre das
compras e das vendas incendeia o comércio. Comprar, para quem tem um
bom poder aquisitivo, é fonte de prazer; e vender, para quem
comercia, é fonte de lucro. O comércio é o lugar da troca. O
dinheiro é o documento que, desde tempos muito antigos, simplificou
esta coisa admirável de cambiar serviços e bens. O
papel-moeda, ou simplesmente, a moeda, dá ao portador o direito de
receber algum bem ou serviço por já ter oferecido a outros algum bem
ou serviço. Que invenção bonita é o dinheiro! O pedreiro, que
assentou tijolos, leva consigo a nota de cem reais que comprova ter
ele colaborado para construir o abrigo de uma família. Com esse
documento nas mãos ele entra no supermercado e volta para a casa com
a sacola cheia do alimento que garante a vida de seus filhos. A
sociedade atual, tão complexa, seria um caos sem o dinheiro. Mas como
tudo que é sagrado pode ser corrompido, também o dinheiro, símbolo
do suor de quem luta para sobreviver com dignidade, deixou de ser o
que é: um facilitador da troca amorosa de bens e de serviços, para
se tornar, na expressão de Marx, um fetiche. A
idolatria do dinheiro, a voracidade de tudo possuir, a insegurança de
não ter e o medo de ficar sem, paralisam o que de melhor existe no
ser humano: a alegria da reciprocidade. Há os que acumulam por acumular e morrem sem ter colaborado
para a construção do bem comum através do dinheiro que ganharam. Há
ainda os que assaltam, carregando títulos de serviços prestados por
outros. Há os que dilapidam e se apropriam indebitamente desta coisa
bonita, chamada imposto, e que deveria ser oferecida com a alegria de
quem se coloca a serviço do bem comum. Mas há pessoas generosas,
empresas conscientes de sua importância na construção da paz
social, há uma economia de comunhão em andamento no mundo. Nem tudo
está perdido. Mas
o que pensar das compras e vendas por ocasião do Natal? E dos
presentes?
Admirável comércio este que celebramos no Natal. Que troca
estupenda! “Ele se fez pobre para nos enriquecer com Sua pobreza”.
Seu presente é Sua Presença. Há filhos de pais ricos que ganham
presentes, mas não recebem o mais desejado: a Presença, o diálogo,
a troca amorosa. Natal é tempo de receber o Presente. Não precisa de
dinheiro, basta preparar o coração. Ele veio a primeira vez na
humildade, despojado de qualquer poder, em tudo igual a nós, – só
não pecou e nem estava inclinado ao pecado –, para salvar-nos da
desgraça que nós mesmos havíamos construído. Ele foi, desde a
manjedoura, presença da infinita misericórdia de nosso Deus e Pai
que n’Ele, seu Filho Unigênito, se curvou sobre nossa miséria e
pequenez para envolver-nos em sua infinita ternura. Os
pastores, ao se abeirarem do Recém-Nascido, n'Ele viram uma pobre
Criança como as que lhes nasciam em suas próprias casas. Leram-Lhe,
entretanto, a infinita dignidade nos olhos enternecidos da mãe que,
em profundo silêncio, contemplava no improvisado e pobre berço,
envolto nos panos de nossa humana fragilidade, o mistério que lhe
acontecera quando da anunciação do Anjo e que por nove meses ela
abrigara em seu virginal ventre. Em tão adversas e inesperadas
circunstâncias lhe nascera o Filho e sua alma continuou a cantar com
igual alegria o hino de exultação pelo poder de seu Deus, que
escolhera vir pobre entre os mais pobres. Dispersem-se os soberbos e
caiam por terra os poderosos diante do mistério da onipotência
amorosa de Deus, que vence todas as distâncias para mergulhar em
nossa condição, – até a cruz – e deixar-se tomar pelas nossas
trevas para iluminar-nos com Sua luz. Ele virá uma segunda vez para
abolir definitivamente toda escravidão e instaurar o dia sem ocaso, só
feito de luz, na justiça e na verdade, alegria eterna de um amor sem
fim. Entre
a primeira e a segunda vinda estamos nós. Se acolhermos a mensagem da
primeira, Ele faz morada em nós, com o Pai e com o Espírito, e nós
poderemos já pré-gustar, no caminho, a felicidade da chegada e do
encontro definitivo. Seja este Advento o tempo de meditar essas coisas
e com Maria experimentar a verdade do Natal: encontro com o Deus que
vem. Para isso, escutemos João Batista, pois ele é a “voz que
clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai as veredas
para ele. Todo
vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas, as vias
tortuosas serão endireitadas e os caminhos esburacados, aplanados. E
todos verão a salvação que vem de Deus” (Lc 3,4-6). E João
recomendava: “Quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem e quem
tiver comida faça o mesmo...” E aos cobradores de impostos: “não
cobreis mais do que foi estabelecido”...E aos soldados: “não
maltrateis a ninguém, nem tomeis dinheiro à força...” (Lc 3,
10-14). Cada um de nós tem o que mudar na própria vida. Dom
Eduardo Benes de Sales Rodrigues
Fonte:cancaonova.com
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