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29/03/2007
No Getsêmani
MARIA
VALTORTA
(Ao chegarmos perto da Semana Santa, seguem abaixo as revelações de
Jesus à mística Maria Valtorta, que narram a entrada triunfal e o
Getsêmani. Vale a pena meditar sobre isso)
590. O pranto sobre Jerusalém e a entrada triunfal na Cidade Santa.
30 de março de 1947.
Jesus passa um braço por sobre os ombros de sua Mãe, que se
levantou, quando João e Tiago de Alfeu a alcançaram, para dizer-lhe:
“O teu Filho vem vindo”, e depois voltaram para trás, para se
reunirem com os companheiros, que vão andando lentamente,
conversando, enquanto Tomé e o André foram correndo a Betfagé, a
fim de procurar a jumenta com o jumentinho e levá-los a Jesus.
Enquanto isso, Jesus fica falando com as mulheres. “Eis-nos aqui
perto da cidade. Eu vos aconselho que vades com segurança. Entrai
antes de Mim na cidade. Perto de Em Rogel estão todos os pastores e
os discípulos de mais confiança. Eles receberam a ordem para
servir-vos de escolta e dar-vos proteção.”
“É que... Nós já falamos com Azer de Nazaré e com Abel de Belém,
e também com Salomão. Eles tinham, vindo até aqui para verem a tua
chegada. A multidão prepara uma grande festa. E nós queríamos ver.
Estás vendo como se estão sacudindo as copas das oliveiras? Não é
o vento que as está agitando desse modo. Mas é o povo que está
apanhando ramos para espalha-los pelo caminho e cobrir-te dos raios do
sol. E aquilo lá? Olha como estão despojando as palmeiras de seus
leques. Parecem ser uns cachos pendurados, mas são homens que subiram
pelos fustes das palmeiras, e estão colhendo o mais que podem. E nos
declives os meninos estão curvados colhendo flores. E as mulheres
certamente estão nos hortos e jardins, apanhando corolas e ervas
cheirosas, para encherem de flores o caminho. Nós queríamos ver... e
imitar o gesto de Maria de Lázaro, que recolheu todas as flores
pisadas por teus pés, quando entraste no jardim de Lázaro”, diz
afetuosamente por todas, Maria de Céofas.
Jesus acaricia sobre a face a sua velha parenta, que mais parece uma
menina cheia de vontade de ver o espetáculo, e lhe diz: “No meio da
grande multidão, não veríeis nada. Ide na frente. Ide à casa de Lázaro,
aquela que está sob a guarda de Matias. Eu passarei por lá, e vós
me vereis, lá do alto.”
“Meu Filho... e Tu vais sozinho? Não posso estar perto de Ti?”,
diz Maria, levantando o seu rosto cheio de tristeza, e fitando seus
olhos azuis como o céu, sobre seu doce Filho.
“Eu quereria pedir-te que fiques escondida. Como a pomba na fenda do
rochedo. Mais do que da tua presença, o de que eu preciso de ti é da
tua oração, minha Mãe querida”.
“Se assim é, meu Filho, nós rezaremos, todas nós, por Ti.”
“Sim. Depois de tê-lo visto passar, ireis conosco para o meu palácio,
em Sião. E eu mandarei alguns servos ao Templo, e que irão sempre
atrás do Mestre, a fim de que eles nos tragam as ordens dele e suas
notícias”, assim decide Maria de Lázaro, sempre alerta para
compreender o que é melhor fazer-se, e para fazê-lo sem demora.
“Tens razão, minha irmã. Ainda que eu sofra por não poder
acompanhá-lo, compreendo que a ordem é justa. E, afinal, Lázaro nos
disse que não contradigamos ao Mestre em nada. E que lhe obedeçamos
até nas menores coisas. E assim faremos.”
“Então, ide. Estais vendo? As ruas vão ficando movimentadas. O
povo já está quase alcançando os apóstolos. Ide. A paz esteja
convosco. Eu vos farei vir nas horas que Eu julgar oportuno. Minha Mãe,
adeus. Fica em paz. Deus está conosco.” E a beija, e se despede
dela. E as obedientes discípulas lá se vão com cuidado.
Os dez apóstolos alcançam Jesus. “Tu as mandastes para frente?”
“Sim. De alguma casa poderão ver a minha entrada.”
“De qual casa?”, pergunta Judas de Keriot.
“Ora” São... tantas já as casas amigas”, diz Filipe.
“Por que não vão para a da Anália”, insiste Iscariotes.
Jesus responde negativamente, e vai-se encaminhando para Betfagé, que
fica pouco longe.
Ele já vai chegando perto, quando vêm voltando para trás os dois
que foram mandados buscar a jumenta e o jumentinho. E eles gritam:
“Achamos tudo o que disseste, e te trouxemos os animais. Mas o dono
deles quis escová-los e adorná-los com os melhores arreios, a fim de
prestar-te uma honra. E os discípulos, unidos aos que passaram a
noite nas estradas de Betânia, a fim de te prestarem honras e querem
ter a honra de conduzi-los a Ti, e nós consentimos. Pareceu-nos que o
amor deles merecia um prêmio.”
“Fizeste bem. Então, vamos para a frente.”
“São muitos os discípulos?”, pergunta Bartolomeu.
“Oh! São uma multidão. Não se consegue nem entrar pelas ruas de
Betfagé. Por isso, Eu disse a Isaque que leve o jumento, passando por
Cleonte, queijeiro”, responde Tomé.
“Fizeste bem. Vamos até o cume da colina. E lá esperamos um pouco,
à sombra daquelas árvores.”
Eles vão para o lugar que Jesus lhes está mostrando.
“Mas assim nos afastamos do caminho. Tu estás à altura de Betfagé,
deixando-a para trás!”, exclama Iscariotes.
“E, assim Eu quero fazer, quem e que me pode proibir? Será que Eu já
sou um prisioneiro, não me sendo permitido ir para onde quero? E
haverá pressa para que Eu o seja, e se teme que Eu possa escapar da
captura? E, se Eu julgasse justo afastar-me por lugares mais seguros,
haverá quem mo possa impedir?” Jesus dardeja com os seus olhos
sobre o traidor, que não abre a boca, e dá de ombros, como se
dissesse: “Faze o que te parecer.”
De fato, eles passam por detrás da pequena cidade, eu diria por um
subúrbio da cidadezinha, porque do lado oeste estão pouco longe
dela, fazendo já parte das encostas do Monte das Oliveiras, que coroa
Jerusalém do lado oriental. Lá embaixo, entre os declives e a
cidade, as águas do Cedron brilham ao sol de abril.
Jesus se assenta no meio daquele silêncio verde, e se concentra em
seus pensamentos. Depois ele se levanta, e vai até a borda do
outeiro.
Diz Jesus: “Aqui colocarás a visão de 31 de julho de 1944:
“Jesus que chora sobre Jerusalém”, a partir da frase que Eu te
disse como começo da visão. Depois Ele continua a mostrar-me as
fases de sua entrada triunfal.
30 de julho de 1944.
Não sei como farei para descrever, porque eu me sinto tão mal do
coração, que até para ficar sentada sinto dificuldade. Mas é assim
mesmo. Eu devo escrever o que vejo. O Evangelho de hoje me ilumina o
caminho: hoje é o 9º Domingo depois de Pentecostes.
De uma colina perto de Jerusalém, Jesus olha para a cidade estendida
a seus pés. Esta não é uma colina muito alta. No máximo como pode
ser a esplanada de São Miniato do Monte, em Florença. Mas é o
bastante para que o olho domine sobre a extensão do terreno onde estão
as casas e as ruas que sobem e descem pelas pequenas elevações do
terreno onde está Jerusalém. Mas esta colina é certamente muito
mais alta, se tomarmos por base o nível mais baixo da cidade, não
tanto com o Calvário, mas por estar mais perto do muro do que ele.
Ela nasce propriamente quase de fora dos muros, e se ergue, com um
salto rápido, ao lado dele, enquanto que do outro lado, desce devagar
para o campo todo verde, que se estende para o leste. Pelo menos me
parece ser o lado do oriente, se eu estiver interpretando bem, pela
luz solar.
Jesus e os seus estão debaixo de um grupo de árvores, sentados à
sombra delas. Estão descansando do muito que caminharam. Depois Jesus
se levanta, deixa aquele espaço cheio de árvores onde estavam
sentados, e se dirige para onde desejava ir: para um lado do outeiro.
Sua alta estatura se destaca nítida no meio do vazio que o circunda.
E ela fica parecendo ser ainda mais alta, estando Ele assim de pé, e
sozinho. Ele tem as mãos cruzadas sobre o peito, por cima do manto
azul, e está olhando sério, muito sério.
Os apóstolos o estão observando. Mas o deixam tranqüilo, não se
movem nem falam. Devem estar pensando que Ele veio sozinho para rezar.
Mas Jesus não está rezando. Depois de ter ficado olhando de lá para
a cidade em todos os seus bairros, em suas elevações, em suas
particularidades, de vez em quando lança demorados olhares sobre este
ou aquele ponto e outras vezes com menor duração. E Ele se põe a
chorar, sem sacudir-se nem fazer barulho. Suas lágrimas enchem as órbitas,
depois escorrem, e vão descendo por sobre as faces, e caem, por fim.
São grandes lágrimas, silenciosas e muito tristes. São lágrimas
como as de quem sabe que deve chorar, sozinho, sem esperar o consolo
nem a compreensão de ninguém. Por uma dor, que não pode ser
anulada, e que deve ser sofrida, incondicionalmente.
O irmão de João, por sua colocação, é o primeiro que vê aquele
pranto e fala dele aos outros. Eles olham um para o outro, surpresos.
“Nenhum de nós lhe fez mal”, diz um deles. E um outro diz: “Não
foi ninguém da multidão que o insultou. Pois não havia no meio dela
nenhum inimigo dele.”
“E, então, por que Ele está chorando?”, pergunta o mais velho de
todos.
Pedro e João se levantam, ao mesmo tempo, e se aproximam do Mestre.
Pensam que a única coisa que podem fazer seria fazê-lo ouvir que o
amam, e perguntar-lhe o que houve.
“Mestre, Tu estás chorando?”, diz João, pousando sua cabeça
loura sobre o ombro de Jesus que é mais alto do que ele, da base do
pescoço para cima.
E Pedro, pondo-lhe a mão na cintura, e apertando-o, como se o abraçasse,
puxa-o para si, e lhe diz: “Que é que te faz sofrer. Jesus? Dize-o
a nós, que te amamos.”
Jesus apóia a face sobre a cabeça loura do João e abrindo os braços
passa por sua vez, o braço sobre o ombro do João. Ficam assim abraçados
todos os três, em uma postura de muito amor. Mas o pranto continua a
gotejar. João o percebe descer por entre seus cabelos, e torna a
perguntar: “Por que estás chorando, Mestre meu? Será que nós é
que te fazemos sofrer?”
Os outros apóstolos se reuniram ao grupo amoroso, e com ansiedade
esperam uma resposta.
“Não”, diz Jesus. “Não sois vós. Vós sois meus amigos, e a
amizade, quando é sincera, é um bálsamo e um sorriso, mas nunca um
pranto. Eu gostaria que vós permanecêsseis sempre meus amigos. E
principalmente agora, quando vamos entrar na corrupção que fermenta,
que corrompe a quem não tem a vontade decidida de permanecer
honesto.”
“Para onde vamos, Mestre? Não é para Jerusalém? A multidão já
te saudou com alegria. Queres desiludi-la? Será que vamos a Samaria
ver algum milagre? E justamente agora, que a Páscoa está perto?”
As perguntas são feitas por muitos ao mesmo tempo. Jesus levanta as mãos
para impor silêncio e depois, com a mão direita, mostra a cidade. É
um gesto largo como o do semeador, que joga as sementes para a frente
de si. Ele diz: “Ali está a corrupção. Nós estamos entrando em
Jesrusalém. Estamos entrando. E somente o Altíssimo é que sabe como
Eu quereria santificá-la de novo a esta que já deveria ser a Cidade
Santa. Mas não poderei fazer nada mais para ela. Está corrompida, e
corrompida irá ficar. E os rios da santidade, que jorram do Templo
vivo, ainda mais jorrarão por alguns dias, até deixá-lo vazio de
vida, não sendo eles suficientes para redimi-la. Virá ao Santo a
Samaria e o mundo pagão. Sobre os templos mentirosos surgirão os
templos do verdadeiro Deus. Os corações dos gentios adorarão o
Cristo. Mas este povo, esta cidade será sempre inimiga dele, e o seu
ódio ao maior dos pecados. Isto deve acontecer. Mas, ai daqueles que
vão ser instrumentos desse delito. Ai deles!...” Jesus olha
fixamente para o Judas, que está quase à sua frente.
“Isto a nós não acontecerá nunca. Nós somos os teus apóstolos e
cremos em Ti, e estamos dispostos a morrer por Ti.” Judas mente
despudoradamente, e não abaixa o olhar, ainda que sinta que o olhar
de Jesus continua sobre ele... Os outros protestam todos juntos.
Jesus responde a todos, mas evita responder ao Judas diretamente.
“Queira o céu que vos sejais assim. Mas ainda há muita fraqueza em
vós... e a tentação poderia tornar-vos semelhantes àqueles que me
odeiam. Rezai muito, e velai muito sobre vós. Satanás sabe que está
para ser vencido, e quer vingar-se, afastando-vos de Mim. satanás está
ao redor de todos nós. Ao redor de Mim, para impedir me de fazer a
vontade do Pai e de cumprir a minha missão... E de vós para fazer de
vós servos seus. Vigiai. Do lado de dentro daqueles muros, Satanás
pegará aquele que não souber ser forte. Aquele para o qual a maldição
terá sido o ter ele sido escolhido, porque ele fez dessa escolha um
plano humano. Eu vos escolhi para o Reino dos Céus, e não para o do
mundo. Lembrai-vos disso. E tu, cidade que queres a tua ruína, e
sobre a qual Eu choro, fica sabendo que o Cristo ora pela tua redenção.
Oh! Se pelo menos nesta hora que te resta souberes vir a quem seria a
tua paz! Pelo menos que compreendesses nesta hora o Amor que está
passando no meio de ti, e te despojasses do ódio que te torna cega e
louca, cruel para contigo mesma, e para com o teu bem! Mas dia virá
em que te lembrarás desta hora! Já será tarde demais, então, para
chorares e te arrependeres. O Amor terá passado, e terá desaparecido
de tuas estradas, e só ficará o ódio, que foi o preferido por ti. E
o ódio se porá contra ti, e contra os teus filhos. Porque tem-se
aquilo que se quis e ódio se paga com ódio. E não será mais o ódio
dos fortes contra o desarmado. Mas ódio contra ódio e, por isso,
guerra e morte. Cercada por trincheiras e homens armados, já terás
definhado, mesmo antes de seres destruída, e verás caindo os teus
filhos pelas armas e pela fome, e os que sobreviverem serão levados
como prisioneiros e escarnecidos, e, então, tu pedirás misericórdia,
mas não a encontrarás mais, porque te recusaste a reconhecer a tua
Salvação. Eu choro, meus amigos, porque Eu tenho um coração de
homem, e por isso as ruínas da Pátria me fazem chorar. Mas é justo
que isso se cumpra, pois a corrupção campeia do lado de dentro
destes muros, e passa acima de todos os limites, atraindo o castigo de
Deus. Ai dos cidadãos que são causa do mal da Pátria. Ai dos
reitores, que são a causa principal disso. Ai daqueles que deveriam
ser santos, para levarem os outros a serem honestos, pois, ao contrário
disso, eles estão profanando a casa do seu ministério e a si mesmos!
Vinde. Minha ação nada mais valerá. Mas façamos que a Luz brilhe,
ainda uma vez, no meio das Trevas!”
e Jesus vai descendo, acompanhado pelos seus. Vai, andando depressa
pelo caminho, com um rosto sério, e, eu diria, quase fechado. Ele nem
fala mais. Entra em uma casinha, aos pés da colina, e eu não vejo
nada mais.
Diz Jesus:
A cena narrada por Lucas parece desconexa, quase sem lógica. Eu que
me compadeço das desventuras de uma cidade culpada, e não saberei
compadecer-me dos costumes desta cidade? Não. Não os conheço, e não
me posso compadecer deles, pois que, pelo contrário, são esses próprios
costumes que geram as desventuras. E, ao vê-las, torna-se para mim
mais aguda a minha dor. A minha ira contra os profanadores do Templo e
uma lógica conseqüência da minha meditação sobre as próximas
desventuras de Jerusalém.
São sempre as profanações do culto de Deus, da Lei de Deus, que
provocam os castigos do Céu. Fazendo da Casa de Deus uma espelunca de
ladrões, aqueles sacerdotes indignos e aqueles crentes indignos, pois
o são somente de nome, atraiam sobre todo o povo maldição e morte.
É inútil dar este ou aquele nome ao mal que faz um povo sofrer.
Procurai o nome justo, que é este: “Punição por viverem como uns
brutos”. Deus se retira, e o Mal avança. Eis o fruto de uma vida
nacional indigna do nome de cristã.
Como naqueles tempos, também agora, neste fim de século, não tenho
faltado com prodígios, que fazem estremecer e reclamar... Mas, hoje
como ontem, Eu não atraí sobre Mim e sobre meus instrumentos nada
mais, do que escárnio, indiferença e ódio. Cada um em particular e
as nações recordem-se de que inutilmente choram quando, antes, não
quiseram conhecer sua salvação. Inutilmente me invocam, quando no
tempo em que Eu estava com eles, eles me perseguiram com uma
guerra-sacrílega que, partindo das consciências individuais,
devotadas ao Mal, espalhou-se por toda a Nação. As Pátrias não se
salvam somente com as almas, mas também com uma forma de vida, que
atraia as proteções do Céu.
Repousa, pequeno João. E faze por onde sejas sempre fiel e tua
escolha. Vai em paz.
Que cansaço. Não agüento mais...”
597. Quarta-feira de noite no Getsêmani com os apóstolos
8 de março de 1945.
“Eu vos disse: “Ficai atentos, vigiai e orai, para que não sejais
vencidos pelo sono. Mas estou vendo que vossos olhos cansados querem
fechar-se e que os vossos corpos, mesmo sem o quererdes, procuram posições
de descanso. Tendes razão, meus pobres amigos! O vosso Mestre muito
exigiu de vós nestes dias, e vós estais muito cansados. Mas, daqui a
poucas horas, vos sentireis contentes, por não terdes perdido nem um
momento para estardes longe de Mim. Contentes estareis por não terdes
recusado nada ao vosso Jesus. Em resumo, é esta a última vez que Eu
vos falo destas coisas tristes. Amanhã Eu vos falarei do amor, e
farei para vós um milagre todo de amor. Preparai-vos com uma grande
purificação para recebe-lo. Oh! Quanto é mais consoante para Mim
mais falar de amor do que de castigo! Como é doce dizer: “Eu vos
amo. Vinde. Durante toda a minha vida, sonhei com esta hora!” Mas,
até o falar em morte é amor. Durante toda a minha vida, sonhei com
esta hora!” Mas até o falar em morte é amor. n amor, quando a
morte, para aqueles que vos amam é a suprema prova de amor. É amor,
porque preparar os amigos queridos para a desventura é uma previdência
afetiva, que deseja vê-los prontos, e não apavorados naquela hora.
É amor, porque confiar um segredo e uma prova de estima, que se tem
para com aqueles aos quais ele é confiado. Eu sei que vós
atormentastes com perguntas ao João, quando queríeis saber o que foi
que Eu lhe disse, quando fiquei sozinho com ele. E não acreditastes
que não houve palavras entre nós. Mas assim foi. Para Mim bastou ter
perto de Mim uma criatura.”
“Então, por que havia de ser ele, e não outro?”, pergunta
Iscariotes e pergunta com uma arrogância cheia de ira.
Até Pedro, e com ele Tomé e Filipe dizem: “Sim. Por que a ele, e não
aos outros?”
Jesus responde a Iscariotes: “Terias gostado que fosse tu? E podes
pretender isso?
Era aquela uma fresca e serena manhã do mês de Adar... Eu era um
desconhecido viandante que ia pela estrada de perto do rio... Cansado,
empoeirado, pálido por estar em jejum, com a barba descuidada, as
sandálias rotas, parecendo um mendigo pelos caminhos do mundo... Ele
me viu... E me reconheceu como sendo aquele sobre o qual havia descido
a Pomba do fogo eterno. Naquela minha primeira tranfiguração,
certamente um raio do meu divino esplendor deve ter-se manifestado. Os
olhos abertos pela Penitência do Batista e os que foram conservados
angelicais pela Pureza, viram o que os outros não viram. E os olhos
puros guardaram aquela visão nos tabernáculos de seus corações, e
a encerraram, como uma pérola em um escrínio... Quando se
levantaram, depois de terem estado quase dois meses sobre o
esfarrapado viandante, a alma dele me reconheceu... E Eu era o seu
amor. O seu primeiro e único amor. E o primeiro e único amor nunca
se esquece. A alma percebe quando ele chega, mesmo que ele se tenha
afastado, e o percebe chegar, vindo das distâncias mais longínquas,
e pula de alegria, desperta a mente, e esta desperta a carne, para que
todos participem do banquete da alegria de se encontrarem e de se
amarem. E, com a boca tremente, ele me disse: “Eu te saúdo, ó
Cordeiro de Deus!”
Oh! A fé dos que são puros, como és grande! Como superas todos os
obstáculos! Ele não sabia o meu Nome. Quem era Eu? De onde é que Eu
vinha? Que é que Eu fazia? Era Eu pobre? Era sábio? Era ignorante?
Será que Ele faz saber tudo pela fé? Ele aumenta ou diminui por
saber? Ele acreditava em tudo o que havia dito o Precursor. Como uma
estrela que transmigra de uma para outra parte do céu, ele se havia
separado do seu céu, o Batista, e saído de sua constelação, e ido
para o seu novo céu, o Cristo, da constelação do Cordeiro. Ele não
é a estrela maior, mas é a mais bela constelação do amor.
São passados três anos, desde aquele tempo. Estrelas e estrelinhas
se uniram e depois se afastaram da minha constelação. Umas se
precipitaram e morreram, outras ficaram enfumaçadas por pesados
vapores. Mas permaneceu fixo, com sua luz pura, junto de sua Polar.
Deixai-me olhar sua luz. Duas serão as luzes nas trevas do Cristo:
Maria e João. Mas quase não poderei vê-las, por tão grande que vai
ser a dor. Deixai que Eu imprima em minha pupila estes quatro íris,
que são fímbrias de Céu, por entre cílios louros, para que Eu os
leve comigo para onde ninguém poderá ir, como uma lembrança de
pureza. Todo o pecado, todo sobre as costas do Homem. Oh! Oh! Os três
náufragos que emergem do naufrágio de uma humanidade no mar do
Pecado.
Será, então, a hora em que Eu, o rebento da estirpe de Davi, gemerei
ao dar o antigo suspiro de Davi: “Meu Deus, volta-te para mim. Por
que me abandonaste? De Ti me afastam os gritos dos delitos, que Eu
assumi em lugar de todos... Eu sou um verme, e não mais um homem, sou
o opróbrio dos homens, o rebotalho da plebe.”
E ouvi Isaías: “Abandonei meu corpo aos perseguidores, as minhas
faces a quem me arrancava a barba e a quem me ultrajava e me cobria de
escarros.”
Ouvi de novo Davi: “Muitos novilhos me rodearam, muitos touros me
atacaram. Sobre Mim eles abriram suas bocas para me devorarem, como
uns leões, que despedaçam e rugem. Eu me vi dissolvido, como água.”
E Isaías completa: “Eu mesmo tingi as minhas vestes.” Oh! As
minhas vestes, Eu mesmo as tinjo, não com o meu furor, mas com a
minha dor e o meu amor por vós. Como as duas pedras chatas da prensa,
eles me comprimem, e espremem o meu sangue. Não sou eu diferente do
cacho prensado, que entrou todo bonito na prensa, e depois vira uma
papa espremida, sem suco e sem beleza.
E o meu coração, eu falo como Davi: “torna-se como a cera, e se
derrete dentro do meu peito”. Oh! Coração perfeito do filho do
homem, que te tornaste agora? Está parecido com aquele que uma longa
vida de pândega faz que fique desfeito e sem vigor. Todo o meu vigor
se esgotou. Minha língua está pegada ao céu da boca, por causa da
febre e da agonia. E a morte me pega de surpresa, com sua cinza que
asfixia e cega.
E, além disso, ela não tem piedade! Um bando de cães me cerca e me
morde. E sobre as feridas recebo outras mordidas. E por cima das
mordidas, recebo as bordoadas. Nenhuma parte de meu corpo fica sem
dor. Meus ossos rangem, deslocados por um alongamento criminoso. Não
sei onde apoiar o meu corpo...”
A horrorosa coroa é um círculo de fogo, que penetra na cabeça.
Estou pendurado pelas mãos e pelos pés transfixados. E assim sou
elevado, e apresento o meu corpo ao mundo, e todos podem contar os
meus ossos...”
“Cala-te! Cala-te”, soluça João.
“Não fales mais, que nos fazes entrar em agonia”, suplicam os
primos.
André não fala, mas pôs a cabeça entre os joelhos, e chora sem
fazer barulho. Simão está lívido. Pedro e Tiago de Zebedeu parecem
estar sendo torturados. Filipe, Tomé, Bartolomeu parecem três estátuas
de pedra, com uma expressão de angústia.
Judas é uma máscara macabra, demoníaca. Parece um condenado que
finalmente compreendeu o que fez. Com a boca aberta, depois de um urro
que de dentro dele quer sair, mas que continua fechado na garganta,
ele, com os olhos dilatados e cheios de pavor, como os de um louco,
com as faces cor da terra, por baixo do véu amorenado de uma barba
rala, com os cabelos despenteados, porque sempre os desarruma com a mão,
suado e confundido, parece estar quase desfalecendo.
Mateus, tendo levantado o olhar, a fim de procurar quem o ajude em seu
tormento, vê o que está acontecendo, e diz: “Judas, estás mal?...
Mestre, Judas está sofrendo!”
“Eu também”, diz Jesus. “Mas Eu sofro em paz. Tornai-vos espíritos,
a fim de poderdes suportar esta hora. Alguém que foi carne, não
poderá vive-la sem enlouquecer...
Fala ainda Davi, ao ver as torturas do seu Cristo: “Ainda não estão
contentes e olham para Mim escarnecendo de Mim e repartindo entre si
minhas vestes e tirando a sorte para ver quem vai ficar com minha túnica.
Eu é que sou o malfeitor. É o direito deles.”
Oh! Terra, olha o teu Cristo! Procura saber reconhece-lo, ainda que
Ele esteja tão desfigurado. Escuta, lembra-te das palavras de Isaías,
e procura compreender o porquê, grande porquê. Ele ficou assim, e o
homem foi capaz de matá-lo, reduzindo a esse estado o Verbo do pai.
Ele não tem beleza, nem esplendor. Nós o vimos. Não era de belo
aspecto. E não o amamos. Foi desprezado como o último dos homens.
Ele o Homem das dores, acostumado a padecer, estava com o rosto
escondido. Era vilipendiado, e nós não fizemos conta alguma dele.”
Sua beleza de Redentor era essa máscara de torturado. Mas tu, ó
Terra estulta, ainda preferias ver o seu rosto sereno!
“Verdadeiramente Ele tomou sobre si os nossos males e levava as
nossas dores. E nós olhávamos para Ele como para um leproso, como
para alguém amaldiçoado por Deus, para um desprezado. E, no entanto,
se ele foi coberto de feridas, assim o foi por causa de nossas
perversidades. Sobre Ele caiu o castigo, que estava reservado para nós,
o castigo que nos deveria pôr de novo em paz com Deus. Pelos sinais
de suas equimoses é que ainda fomos salvos. Nós éramos como umas
ovelhas errantes. Cada um de nós se havia desviado do caminho reto, e
o Senhor pôs nas costas dele as iniqüidades de todos.”
Aquele e aqueles que pensam terem ajudado a si mesmos e a Israel,
tratem de desiludir-se. E também aqueles que julgam terem sido mais
fortes do que Deus. E também os que pensam que não terão que
prestar contas por esse pecado porque Eu me deixo matar de boa
vontade. Eu cumpro a minha santa tarefa, a da perfeita obediência ao
Pai. Mas isso não exclui a obediência deles a Satanás, nem que
deixem de pôr em prática o seu plano nefando.
Sim. O teu Redentor foi sacrificado porque Ele o quis, ó terra.
“Ele não abriu a boca para dizer alguma coisa, pedindo para ser
poupado, nem uma palavra de maldição contra os seus assassinos. Como
uma ovelhinha que se deixou conduzir até o matadouro para ser morta,
como um cordeirinho que é levado a quem o vai tosquiar.”
Depois da captura e da condenação, Ele foi levantado. Ele não terá
posteridade. Como uma planta, Ele será cortado da terra dos vivos.
Deus o feriu por causa do pecado do seu povo. “Não haverá na Terra
alguém de sua geração que se compadeça dele? Não terá filhos,
esse que foi cortado em sua vida na terra?”
Oh! Eu te respondo, ó profeta, sobre o teu Cristo. Se o meu povo não
tiver compaixão do que foi morto sem culpa, os anjos, que são o povo
celeste, se compadecerão dele. Se a virilidade dele não terá filhos
humanamente, porque sua natureza não podia encontrar união com carne
mortal, Ele bem que terá filhos, e filhos segundo um modo de gerar,
que não é o da carne e do sangue animal, mas do amor e do Sangue
divino Ele terá vida, uma geração do espírito, pela qual há de
ter a tua prole.
E Eu ainda te explico, ó mundo que não entendes o profeta, quem são
os ímpios que foram levados à sepultura, e quem é o rico em sua
morte. Olha, ó mundo, olha se um só dos teus matadores, por acaso
teve paz e longa vida! Ele, o Vivente, brevemente irá deixar a morte.
Mas, como as folhas que o vento do outono ajunta, uma por uma, nos
sulcos, depois de tê-las arrancada com repetidas sacudidas, e todas
forem ajuntadas na ignóbio sepultura que para ele havia sido
destinada, e um que pelo ouro viveu poderia, se lícito fosse colocar
o imundo onde esteve o Santo, para ser deixado onde ainda estiver a
umidade provinda das inumeráveis feridas da Vítima que foi imolada
sobre o Monte. Tendo sido acusado sem ter culpas, Deus faz por ele a
sua justiça. Pois nunca houve fraude em sua boca, nem iniqüidade em
seu coração.
Consumido pelos sofrimentos. Mas da consumação terminada de uma vida
cortada em um sacrifício de expiação, aí é que teve início a sua
glória entre os membros da futura humanidade. Todos os desejos e as
santas vontades de Deus para com ele serão levados a efeito. Pelas ânsias
de sua alma, verá a glória do verdadeiro povo de Deus, e com isso
ficará feliz. A sua doutrina celeste, que Ele selará com seu sangue
será a justificação de muitos, que não estão entre os melhores, e
dos pecadores tirará a iniqüidade. Por isso, haverá uma grande
multidão, ó terra, e ao redor deste Rei desconhecido, do qual os pérfidos
zombaram, e que os melhores não compreenderam. E Ele, então, dividirá
com os seus os despojos dos vencidos. Dividirá os despojos dos
fortes, como único Juiz dos três reinos e do Reino.
Tudo Ele mereceu, porque tudo deu. Tudo lhe será entregue, visto que
Ele entregou sua vida à morte, e foi contado junto com os
malfeitores. Ele era sem pecado. Sem outro pecado, a não ser um
perfeito amor, uma infinita bondade. São duas culpas que o mundo não
perdoa: um amor e uma bondade que o levaram a tomar sobre Si os
pecados de muitos, do mundo todo, e a rezar pelos pecadores. Por todos
os pecadores. Até por aqueles pelos quais Ele foi condenado à morte.
Terminei. Não tenho nada mais a dizer. Tudo está dito sobre o que Eu
queria dizer-vos sobre as profecias messiânicas. Do nascimento até
à morte, Eu vo-las apresentei todas, a fim de que Me conhecêsseis, e
não ficásseis em dúvida. E não tivésseis desculpas para o vosso
pecado.
Agora, vamos rezar juntos. É esta a última tarde em que podemos
rezar juntos, todos unidos como os bagos no cacho que os segura.
Vinde. Vamos rezar. “Pai nosso que estás nos Céus, santificado
seja o teu Nome. Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade na Terra,
como é feita no Céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia.
Perdoa-nos as nossas dívidas, como nós as perdoamos aos nossos
devedores. Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
Amém.”
Seja santificado o teu Nome. Pai, Eu o santifiquei. Tem piedade do teu
Rebento.
“Venha o teu Reino.” Para fundá-lo é que Eu morro. Piedade de
Mim.”
“Seja feita a tua vontade.” Socorre a minha fraqueza. Tu, que
criaste a carne do homem, e dela revestiste o teu Verbo, para que Ele
aqui embaixo te obedeça, como sempre te tenho obedecido no Céu. Tem
piedade do Filho do homem
“Dá-nos o pão”... Um pão para a alma. Um pão, não desta
terra. Não é para Mim que Eu o peço. E não tenho mais necessidade,
senão do teu conforto espiritual. Mas por ele, Eu como um Mendigo, te
estendo a mão. Daqui, a pouco ele será transfixada e fincada, e não
poderá mais fazer um gesto de amor. Mas agora ainda pode. Pai,
concede-me que Eu possa dar a eles o pão que cada dia fortifique a
fraqueza dos pobres filhos de Adão. Eles são fracos, ó Pai eles não
têm força, porque não possuem o Pão, que é força, o Pão dos
anjos que espiritualiza o homem e o leva a ser divinizado em Nós.
“Perdoa-nos as nossas dívidas...”
Jesus, que até aqui falou de pé e rezou de braços abertos, agora se
ajoelha, levanta os braços e o rosto para o Céu, um rosto alvejado
pela força feita, ao suplicar, e pelo beijo da lua, acompanhado por
um pranto silencioso.
“Ao teu Filho perdoa, ó Pai, se em alguma coisa Ele faltou para
contigo. Diante de tua perfeição, posso até parecer imperfeito, Eu,
o teu Cristo, que a carne torna pesado. Aos homens... não. O meu
intelecto me assegura que tudo isso Eu fiz por eles. Mas Tu, perdoa ao
teu Jesus... Eu também perdôo. Quanto eu terei que perdoar! Quanto!
Mas eu perdôo. A estes aqui presentes, aos discípulos ausentes, aos
surdos de coração, aos inimigos, aos que escarnecem de Mim, aos
traidores, aos assassinos, aos deicidas. Aí está. Perdoei a toda a
Humanidade. Por Mim, ó Pai, considere anuladas todas as dívidas do
homem para com o Homem. Eu morro para dar a todos o teu Reino, e não
quero que fique anotado para a condenação o pecado contra o Amor
Encarnado. Não? Tu dizes não? É a minha dor. Este “não” me
infunde no coração o primeiro trago do cálice atroz. Mas, o Pai, a
quem sempre obedeci, Eu te digo: “Seja feito como Tu queres.”
“Não nos deixes cair em tentação”. Oh! Se Tu queres, podes
afastar de nós o demônio! Ele é a tentação que excita a carne,
mente, o coração. Ele é o Sedutor. Afasta-o, ó Pai. Que o teu
arcanjo esteja a nosso favor! Para afugentar aquele que, desde o nosso
nascimento até a morte, nos arma ciladas!... Oh! Pai Santo, tem
piedade dos teus filhos!
“Livra-nos, livra-nos do mal” Tu o podes fazer. A nós que aqui
ficamos chorando... É tão belo o Céu, e temos medo de perdê-lo. Tu
dizes: “O meu Santo não o pode perder”. Mas Eu quero que Tu vejas
em Mim o Homem, o Primogênito dos homens. Eu sou irmão deles. Eu
rezo por eles e com eles. Pai, piedade! Oh! Piedade!...”
Jesus se inclina para o chão. Depois se ergue: “Vamos. Saudemo-nos
nesta tarde. Amanha pela tarde não nos será mais possível...
E os beija, um por um, a começar por Pedro, depois Mateus, Simão,
Tomé, Filipe, Bartolomeu, Iscariotes, os dois primos, Tiago de
Zebedeu, André e, por último, João, ao qual depois Ele fica
apoiado, enquanto vão saindo do Getsêmani.
(Gentileza, Conceição)
Fonte: Recados do Aarão
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