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13
Março 2005
Segue
a seqüência da visão do inferno, por Fanny Moisseieva. Por
todas as partes se fez um silêncio de túmulo. Satanás começou seu
discurso que se ouvia distintamente em todos os ângulos do amplo salão:
“– Eu vim para anunciar-vos novos tormentos”, disse, e sua voz
se tornou ainda mais ameaçadora e estridente e seus olhos se
acenderam ainda mais pelo ódio. “– Far-vos-ei sofrer tantas
torturas que, em comparação com elas, as penas anteriores
empalidecerão. Cada ano eles serão mais terríveis e assim será
eternamente.” Com
um espantoso ruído se abriram detrás de suas costas as duas grandes
asas negras. Que terrível era, imensamente terrível, o grande Satanás!
Todos os seus demônios, ao ouvir-lhe prometer novas penas,
estrondearam em risos de alegria. Os pecadores, pelo contrário,
pressentindo os tormentos que lhes esperavam, se agacharam gemendo e
chorando, enquanto as colunas de fogo brilharam com uma luz sangüínea,
bem como se tornou sanguinolenta a estrela de cinco pontas colocada
sobre o trono. Tudo se cobriu de vermelho. Satanás
se sentou novamente. Então vi que uma multidão de espíritos
malignos se precipitar sobre a bela mulher de olhos negros, fazendo-a
levantar a pontapés. Ela se pôs de pé como uma fera ferida e seus
olhos relampejavam de ódio. Mas de improviso se direcionou sorrindo e
com passo seguro, impressionantemente descarada, dirigiu-se até o
trono, movendo os quadris, levantando seus seios alvos, ostentando sua
graça e todo seu encanto pessoal. Mas Satanás riu com uma risada de
zombaria e desprezo. “–
Na terra, você subjugava os homens com sua voz, com seus olhares, em
uma palavra com seus encantos, e oferecia-lhes todas as alegrias da
felicidade terrena: ouro e até o poder. Não deixava em paz aqueles
que escolhia. Assegurava-lhes em seus cantos que ninguém a não ser
você podia dar a felicidade plena. Desperdiçava o ouro e as riquezas
sem se preocupar e se vangloriava de sua glória efêmera e do
esplendor de seu palácio, e assim conseguia conquistar o coração
que tinha escolhido. Mas depois saciada e indiferente, ordenava a
morte sem piedade para aqueles que antes haviam sido seduzidos por você.” Com
um gesto da mão, Satanás chamou o mais nojento de todos os demônios
e, apontando-lhe a pecadora, ordenou: “– Acaricie-o, beije-o e
ame-o o quanto ele desejar. Vá com ele, eu não tenho necessidade de
você. Mas eu gostaria muito de sentir o sabor de seus beijos e, para
isso, aqui está meu pé.” Ele
ria, fazendo mover suas asas negras. Pálida, mordendo os lábios, a
pecadora estava de pé sem mover-se, como uma estatua de mármore. Mas
logo respondeu áspera e taxativamente: “– Nunca”, e em sua
atitude orgulhosa estava belíssima. “–
Nunca? - perguntou Satanás, roxo de raiva - Mas você não
sabe que minha vontade é capaz de domar qualquer orgulho?” Vieram
então os espíritos malignos que apanharam a pecadora e jogaram-na
aos pés de Satanás e obrigaram-na a beijar-lhe o pé. Depois disto
levantaram-na e levaram-na até a coluna ardente e apoiaram-na contra
ela. Ficou negra pela dor insuportável e pelas queimaduras, mas seus
olhos rebeldes, como antes, estavam fixos, terríveis em seu ódio,
cheios de maldade, sobre Satanás. Enquanto
isso, alguns demônios que se encontravam junto ao trono agarraram os
dois pecadores de má reputação, aquele calvo e aquele de traço
polonês, e à força os arrastaram diante de Satanás e lançaram-nos
aos seus pés. E olhando-os com um olhar irado e terrível, Satanás
disse: “–
Vêem a todos estes milhares de pecadores que reuni aqui junto ao meu
trono? Por minha vontade diante de vocês e deles passará agora uma
parte de suas vidas de criminosos e eu verei de novo suas ações, e
far-me-á gozar deste espetáculo como uma festa.” Satanás
fez um gesto e tudo ao redor ficou escuro. No fundo da sala apareceu
um disco luminoso, como uma tela sobre a qual todos viram representada
uma sangrenta batalha. Ouviu-se o estalido dos projéteis, o ruído
das metralhadoras e o assobio das granadas. Viram-se regimentos com
seus oficiais à frente, baterem-se com valentia sem igual. Viram-se
cair os mortos e feridos e viu-se também como os soldados salvavam
aos oficiais e
vice-versa, todos irmãos no ideal comum. E todos aqueles guerreiros
pertenciam à mesma gloriosa terra à qual pertencia também o pecador
calvo. “–
Eis aqui que se inicia o período de suas inumeráveis feitorias”,
disse Satanás. Ouvindo-se estas palavras, o pecador calvo que se
encontrava aos pés do trono, começou a gemer penosamente, e ao mesmo
tempo sobre o disco branco apareceu seu rosto, já suplicante, já
fechado, o rosto sobre o qual se refletia o espanto e o nascente
triunfo; e ao redor dele tudo era escuridão semelhante a uma parede
negra, impenetrável. Neste momento, a cena da batalha mudou
rapidamente. Ouviram-se novamente
canhonaços e o ruído das metralhadoras. Depois apareceu uma praça
sobre a qual se erguia um palácio todo de pedra vermelho-escura. No
centro da praça surgia uma coluna alta e elegante sustentando a estátua
de um anjo. Toda a praça estava cheia de uma multidão enfurecida que
assaltava o palácio. E a cena mudou novamente: apareceram, solenes e
maravilhosos, os salões do palácio. A plebe havia conseguido
apoderar-se dele. Uma das salas tinha as portas defendidas por
garotas: estavam armadas de fuzis e defendiam com desesperada coragem
o palácio de seus soberanos. Entretanto, o povo conseguiu invadir
todo o palácio. Feras
com uniformes de marinheiros ou soldados, com faixas ou cintos
vermelhos e cintos para completar sua ostentação, foram e arrancaram
os fuzis das fracas e delicadas mãos das heróicas jovens. Gritando e
blasfemando alucinadamente, violaram até a morte às nobres heroínas.
E sobre toda aquela orgia se ouviam gritos rudes que enalteciam a vitória
conseguida: “– Viva a liberdade”. “Viva nosso líder.” Vendo
aqueles horrores e ouvindo aqueles gritos, o pecador calvo, prostrado
aos pés de Satanás, chorou ainda mais tristemente. De novo tudo caiu
na escuridão e sobre o fundo luminoso apareceu uma nova cena. Vi um
grupo de prisioneiros, entre os quais se destacava uma mulher de alta
estatura, de rosto altivo e maneiras nobres. Junto a ela se
encontravam umas jovens e diante de todos, sentado numa cadeira,
estava um homem de idade com um garoto de uns 14 anos sobre seus
joelhos. Usava um simples uniforme de soldado, sem ombreiras, e calçava
botas longas. Senti-me
atraída por seu olhar doce, tão suave e sonhador. Lembrei que já
havia visto aquele olhar uma vez em outro lugar. Olhei melhor e vi e
pareceu-me reconhecer meu imperador. De repente esta cena desapareceu
de minha vista e vi uma pobre cabana no meio da qual estava de pé uma
mulher magra como um esqueleto, vestida de trapos com o cabelo
emaranhado e com olhos cheios de loucura. Aproximou-se tremendo do armário
e do forno, procurando com as mãos trêmulas algo: naquele instante
um menino gritou em seu berço e a mulher, rindo com uma gargalhada de
louca, deu um salto até o berço, pegou o pequeno e, continuando a
rir, estrangulou-o e lançou o pequeno cadáver em uma panela cheia de
água fervendo que estava sobre o fogão. Fiquei profundamente
aterrorizada por esta cena terrível, mas um sentimento inexplicável
me fez compreender que aquela mulher era uma mãe canibal da Rússia
faminta. Aquela
cena horripilante foi seguida por outra que representava as minas de
carvão. Aqui vi as mesmas cenas que tinha observado um pouco antes no
inferno. Velhos e jovens, de maneiras diferentes, mas com uma dor e
uma tristeza infinitas em seus olhos, realizavam um trabalho inumano,
eram forçados por golpes de chicotes e perseguidos por guardas
robustos, cujas feições revelavam uma estúpida bestialidade. E de
novo o mesmo sentimento me fez compreender aqueles desgraçados eram
os melhores generais e oficiais russos, cuja culpa consistia em ter
amado profundamente a sua Pátria, a Rússia. Também
esta cena desapareceu. Satanás estava sempre sentado no trono,
enquanto que o pecador calvo, invadido pelo terror, apertava
convulsivamente a cabeça entre as mãos, murmurando fracamente
palavras sem sentido. “– Você viu o que você fez em sua vida?”
O pecador calvo respondeu com voz muito baixa: “– Eu vi!” E
Satanás, dirigindo-se de novo aos espíritos malignos, gritou
furiosamente: “– Pegai-o e mantei-o junto a mim, enquanto eu
julgarei aos que foram seus cúmplices na terra”. Os
demônios pegaram o pecador, lançaram-no por terra junto ao trono,
depois se puseram a dançar furiosamente sobre seu corpo. O outro
pecador, aquele de tipo polonês, abaixou a cabeça e fechou os olhos:
seu rosto estava alterado pela dor, mas já não tinha forças para
gritar nem para chorar. Satanás lhe disse: “– Levante a cabeça e
olhe. Far-lhe-ei ver só uma cena que lhe fará lembrar todas as suas
ações”. Viu-se
então uma rua comprida e ampla, mas tão comprida que parecia não
ter fim. Por aquela rua caminhavam lentamente dezenas de milhares de
homens, velhos e jovens, mulheres e crianças, homens de todas as
condições e de todas as profissões, bispos e sacerdotes, generais e
jovens oficiais, soldados e licenciados, operários e camponeses.
Alguns tinham o peito perfurado pelas balas, outros a cabeça ferida,
outros levavam ainda ao redor do seu pescoço a corda da forca. Todas
estas sombras de mártires caminhavam sem pressa pela rua sem fim, em
uma direção desconhecida. Mas
de repente ocorreu uma coisa extraordinária: todas aquelas sombras
espantosas de assassinados se transformaram em um instante – vi-os
vestidos com trajes brancos, leves, etéreos, e em suas mãos vi
brilhar velas acesas. Sobre eles descia uma luz nova, azul, estranha.
Suas terríveis feridas desapareciam e seus rostos serenos de novo
emanavam o sentido de uma felicidade plena, de um bem-estar tão
luminoso que parecia que a própria luz emanasse de seus corpos. Toda
a rua foi enfeitada com flores de extraordinária beleza. E aquelas
dezenas de milhares de assassinados iam, serenos e purificados, com os
braços levantados para a luz deslumbrante que brilhava diante deles e
chamava-os para si. Depois
desapareceu tudo outra vez e a tétrica festa de Satanás continuou.
Ele disse: “– Tudo isto foi você quem causou com suas próprias mãos.
Todos estes que você viu foram mortos por você, mas eles, por meio
das torturas que você os fez sofrer, expiaram seus pecados e
encontraram a beatificação, enquanto que se tivessem continuado
vivendo, muitos entre eles teriam vindo parar em meu reino. Por tudo
isto, minha vingança sem piedade os alcançará. Eis aqui que já se
aproximam para vocês”. E
diante do trono desceu um monstro repugnante, provido de um grande número
de tentáculos que se expandiam avidamente em todas as direções. O
monstro, aproximando-se do pecador calvo e seu discípulo, pegou os
dois com seus tentáculos e arrastou-os. Eles se agitavam, gemiam e
lamentavam-se como duas moscas que estivessem presas entre as patas
tenazes e impiedosas da aranha. Todos
os pecadores, com a respiração cortada estavam à espera do que lhes
ia passar. Compreendiam perfeitamente que nenhum entre eles poderia
escapar ao terrível castigo de Satanás e na espera, um terror
secreto os paralisava. Nada mais parava o ruído produzido pela fuga
do monstro, a bela mulher de cabelo vermelho se aproximou
espontaneamente do trono e jogando para trás a cabeça flamejante,
olhou para Satanás com seus olhos ardentes. Mas o olhar de Satanás
estava cheio de ironia e com um sorriso de maldade lhe disse: “–
Conheço sua mão terrena. Eras uma famosa cortesã cuja beleza e
inteligência foram admiradas por velhos e jovens sem distinção.
Eras riquíssima e para teu palácio vinha a mais alta aristocracia de
sua época. Tinhas declarado sempre que não reconhecias outras coisas
que as materiais e terrenas. A única ocupação de tua vida foi a
libertinagem e experimentavas grande alegria em destruir a vida e a
felicidade dos outros. Gostavas de subjugar a um homem e logo ser para
ele como uma serpente. E então agora, por estes teus pecados, deverás
arrastar-te como uma serpente ante meus demônios que não te
abandonarão jamais. Eles te obrigarão a fazer o que eles gostam e
nunca poderás rebelar-te.” “–
Tenha piedade de mim”, disse a beldade caindo de joelhos diante do
trono e estendendo para Satanás, em um gesto desesperado, seus braços,
pela primeira vez impotentes em sua beleza. Mas Satanás continuava
rindo e a um sinal seu, uma multidão de demônios agarrou a mulher e,
entre saltos e zombarias, arrastaram-na até a saída, deleitando-se
com os sofrimentos que lhe causavam. IV Durante
todo este tempo, o velho grisalho tinha estado à parte. Mas de todos
os lugares chegavam os lamentos dos que tinham sido seduzidos por sua
incredulidade e por sua falsa doutrina. Seu rosto se escurecia cada
vez mais e cada vez se afundavam mais as rugas da testa. Era óbvio
que estava pensando em coisas da maior gravidade. Depois sacudiu a
cabeça aturdida como para retirar da mente cansada as contínuas
meditações, os pensamentos e as lembranças penosas. Mas no inferno
não existe o esquecimento do passado e dos próprios pecados. Parecia
que tivesse compreendido isto, com sua aguçada inteligência, porque
inclinou a cabeça em uma expressão de desespero completo. Por seus
olhos passou uma nuvem de tristeza: compreendia muito bem que devia
responder por ele mesmo e também por aqueles que tinham sido
extraviados por ele e por todo o povo. Mas
o que atemorizava o velho não era o castigo que lhe esperava. Todo
seu horror consistia no fato de que, finalmente, agora lhe parecia
claro como se tinha equivocado durante toda sua vida e como sua
doutrina não tinha semeado mais que incredulidade e pecado em lugar
de felicidade e amor. Nisto consistia seu drama íntimo e seus
sofrimentos morais eram indescritíveis. Satanás o olhou com olhar
imperativo. O velho levantou a cabeça e, sem a menor subserviência,
mas com severidade e valentia, manteve o olhar em Satanás. Depois,
com atrevimento, deu alguns passos adiante e pôs-se na frente do
trono. Satanás continuava olhando-o em silêncio sem que por isso seu
olhar insistente desse medo ao velho, que se atreveu a dirigir a Satanás
uma pergunta: “– Assim é que você existe realmente”. E Satanás,
com uma risada irônica, respondeu: “– Sim”. E o velho
continuou: “– Mas, por que vive deste modo? Por que está sempre
em meio a estas frias trevas e passa séculos inteiros em hostilidades
vazias contra todo o Universo e envolve na mais profunda dor aos
homens que lhe servem? Que necessidade tem de todos estes tormentos e
deste diabólico ruído?” A
gente em silêncio conteve a respiração com a ânsia de saber o que
ia acontecer. “– Por que não quer recomeçar o caminho reto,
voltar a ser bom e terminar em um bom dia com todo o mal que faz?”
Com o olhar fixo à distância, Satanás respondeu sombriamente:
“– Porque fui amaldiçoado.” Durante
algum instante reinou um profundo silêncio. O velho estava meditando
e o próprio Satanás esperava ouvir suas palavras. O velho continuou:
“– Agora não somente creio que você existe realmente, mas também
que você foi amaldiçoado. Para você estão apagadas todas as
estrelas e em seu céu não há sol. Difamou a terra, conduzindo seus
habitantes para o pecado. Que você quer fazer no futuro? Continuar
destruindo ou bem criar algo novo e mais digno?” O
olhar de Satanás brilhou sinistramente pelo ódio e murmurou com voz
que soava a ameaça: “– Enviarei ao mundo o Anticristo e ainda e
sempre lutarei contra Aquele que me amaldiçoou!” “–
O Anticristo?”, perguntou assombrado o velho. “– Sim, o
Anticristo”, exclamou Satanás. Seu olhar ficou ainda mais triste.
Depois de uma pausa, Satanás continuou: “–
Virá o tempo em que em um lugar, que já tenho designado, viverá uma
cortesã que terá uma filha ainda mais perversa do que ela. Ela há
seu tempo parirá outra cortesã e assim durante onze gerações
consecutivas. Na décima segunda geração, nascerá uma mulher que
superará em depravação, perversidade e imoralidade todas as outras.
Esta será a que porá no mundo aquele que deverá ser a perdição da
humanidade inteira. Ele será o Anticristo. Nem se saberá quem é o
pai porque será concebido em estado de embriaguez imunda. Desde seu
nascimento, eu viverei nele e ele em mim. A mãe notará muitos sinais
incompreensíveis no momento do nascimento, mas eu a induzirei ao silêncio”. Será
um homem de uma inteligência extraordinária, que superará em muito
a inteligência de seus contemporâneos. Terá também uma vastíssima
cultura. Quando alcançar a idade adulta, sentirá dentro de si uma
desenfreada avidez de comando e encontrará o apoio de um povo que será
seu predileto. Por-lhe-ei nas mãos, riquezas imensas, e por meio
delas será grande e poderoso. E quando se desencadear uma grande
guerra, na qual participará todo o mundo, o Anticristo participará
nela em qualidade de simples oficial. Devido a suas capacidades, a sua
bravura e coragem, ele fará em pouco tempo uma brilhantíssima
carreira e ocupará os mais altos postos da hierarquia. Não conhecerá
os fracassos e, conseguindo uma vitória atrás da outra, ganhará uma
popularidade sem limites e infundirá em todos a simpatia e a confiança
em sua pessoa. Nenhum
projétil poderá alcançá-lo nunca e as armas de todos os tipos lhe
farão apenas sorrir. Em qualquer posto em que se encontre, será
sinal seguro de que este posto não poderá ser tomado. Os barcos e os
aviões que se encontrem ao seu comando terão a vitória segura. Eu
farei de maneira que a água, o fogo e os outros elementos da natureza
lhe estejam submetidos. Vencerá e destruirá os poderes de todos os
outros povos, de modo que ainda aumentará mais a admiração por ele
entre as populações. Destronará reis, expulsará ditadores e
presidentes e subjugará, por último, a todos os povos que se
inclinarão diante de seu poderio e o reconhecerão por líder
supremo. Reinará sobre todo o mundo e será o verdadeiro dono e
senhor de toda a terra (São João 5, 43: “Eu vim em nome de Meu
Pai e vocês não me receberam, se outro vier em seu próprio nome, a
esse o receberão.”) E eu lhe darei o poder de operar milagres,
de forma que o mundo acreditará que ele é o próprio Cristo (II
Tessalonicenses 2, 9-10: “A vinda do ímpio vai acontecer graças
ao poder de Satanás, com todo tipo de falsos milagres, sinais e prodígios,
e com toda a sedução que a injustiça exerce sobre os que se perdem,
por não se terem aberto ao amor da verdade, amor que os teria salvo.”)
(4). Ainda sem compreender seus atos, não se atreverão a criticá-lo
e assim, por meio dele, eu corromperei a todo o gênero humano,
empurrando-o à busca de novos conceitos no campo da filosofia e
colocando-os em contradição com a religião. (4)
Naturalmente que os textos bíblicos citados, o são pela autora e não
por Lúcifer. Destruiremos
também todas as leis da moralidade e, através do escárnio,
cultivaremos na terra o sacrilégio e a blasfêmia, faremos que ocorra
toda classe de acontecimentos desagradáveis ao extremo. Em todas as
partes criaremos um número incrível de obstáculos e envolveremos a
todos os homens e a todas as mulheres na sede das mais refinadas
depravações. Recolheremos deliciosos frutos nos campos do mal.
Durante o reinado do Anticristo enviado por mim, meus servos fiéis
assumirão formas tais que não deixarão supor que sejam demônios.
Levarão a tentação às mentes e os homens perderão sua
personalidade e sua capacidade de governar os próprios instintos. E
deste modo o mal reinará. Teremos
que realizar muito esforço nesse período, porque cada invocação e
cada oração dirigidas a Jesus Cristo serão suficientes para
converter uma alma. Mas nós continuaremos sem trégua em nosso terrível
avanço: criaremos uma vida absurda e brutal, destruiremos tudo e
teremos constrangido a todos os povos entre nossas mãos. Destruiremos
e devastaremos os templos, apagaremos todas as lâmpadas acesas em
honra ao Altíssimo. Ó, como eu odeio aos que rezam nos templos!
Odeio as Missas, as predicações e os cantos litúrgicos. Em meu
reinado do Anticristo só haverá maldade e sofrimentos em tal
quantidade, que desde que o mundo é mundo não se terá visto tanta.
Então, em um excesso de dor e de louco desespero, os homens começarão,
gemendo, a murmurar e culpar a Deus. Esta será a culminação de
todos os meus desejos. Este será meu reinado, reino do mal e do ódio
eternos”, assim gritava Satanás, flamejando com seus terríveis
olhos. O
velho franziu a testa e seus olhos brilharam com uma estranha luz.
“Nunca, nunca, você compreendeu?”, disse a Satanás em um impulso
de impetuosa violência. “Nunca as trevas triunfarão sobre a luz. O
mal não vencerá o bem. Estive errado durante toda a minha vida, mas
agora creio com toda a alma e estou seguro que Jesus Cristo vencerá e
lhe esmagará, a você que é o filho das eternas trevas”.(5) (5)
Estas palavras não são de arrependimento, mas simples constatação.
No inferno não existe mais o arrependimento e milhões há que
somente quando caíram lá é que entendem a verdade. Ao
ouvir estas palavras, Satanás, levantando-se, gritou furiosamente:
“Por seu atrevimento, por sua incredulidade sobre o que lhe digo e
pelas palavras insolentes que pronuncias aqui em meu reino, poderia
fazer-lhe sofrer tais torturas como jamais se viram aqui no inferno.
Mas deves saber que minhas leis, as leis do mal, são tão exatas como
as leis do bem de Deus. Tudo o que eu disse acontecerá exatamente
como eu lhe descrevi”. Depois,
indicando-lhe a sala com um amplo gesto da mão: “Olhe quantos
pecadores estão aqui reunidos. Após a chegada do Anticristo, o seu número
aumentará milhares de vezes. E eu já tenho desde agora inventadas
uma quantidade incomensurável de novas torturas, de modo que cada
pecador tenha a pena apropriada”. Naquele
instante junto ao velho apareceu uma figura negra, desordenada. Satanás
se sentou. “– Não lhe farei sofrer nenhuma tortura física –
continuou entre o mais completo silêncio da massa – porque
compreendo perfeitamente que elas não seriam apropriadas para você,
que não as mereceria. Eu não lhe deixarei em meu reino, mas lhe
mandarei sobre a terra, colocando-o junto a um companheiro que lhe
seguirá nas reuniões de seus sequazes. Você assistirá às suas
reuniões e ouvirá seus discursos sacrílegos, escutará seus erros
que você mesmo lhes inspirou e dos quais só agora você se
arrependeu. Escutando seus erros, você tentará em vão dirigir-lhes
pelo caminho reto fazendo-os esquecer sua falsa doutrina, mas sua voz
não será ouvida e estará invisível e inatingível para eles. E seu
castigo será tanto maior quanto que os seus esforços não darão
nenhum resultado”. Assim
será durante um larguíssimo tempo. Depois lhe enviarei sobre um
planeta, todo coberto de um mar eternamente tempestivo. No meio deste
mar só há uma rocha alta sobre a qual passarão meus fiéis súditos
transportando ao meu reino a todos os seus sequazes. Você estará
sempre ali e verá continuamente como se enche meu reino graças a
suas doutrinas. Vai!” e estendeu a mão com gesto imperativo. O
velho se virou silenciosamente e, sempre acompanhado da sombra negra,
dirigiu-se até a saída sem pressa e dignamente, seguido do olhar atônito
de todos aqueles que se encontravam no salão infernal. Apenas tinha
desaparecido o velho, quando um pequeno e esperto demônio se
aproximou saltando ao trono de Satanás. Colocou-se na mesma ponta e
sussurrou ao ouvido de Satanás algo. E Satanás disse: “– Está
bem”. Como
uma bola, o demônio rodou pela areia e dirigiu-se até o grupo de
pecadores que se encontrava diante do trono. Com um gesto chamou os
outros demônios e todos juntos se puseram a empurrar a multidão dos
pecadores, gritando desmedidamente. Em poucos momentos, uma grande
parte da arena estava completamente livre e então se ouviu por todas
as partes um terrível ranger. Inumeráveis chamas brotaram do chão e
saltaram ao alto, torcendo-se e entrelaçando-se. Milhares de estrelas
coloridas e de globos ardentes voavam pelo ar. Tudo foi iluminado por
uma luz tão forte que causava dano aos olhos. Todos os pecadores
juntos entoaram um canto e entre uma estridência de assobios
ensurdecedores, apareceu um corpo de baile composto de milhares de dançarinas.
Todas estavam identicamente vestidas: uma túnica curtíssima feita de
correias, enquanto as costas e os ombros nus estavam adornados de
grinaldas de espinhos que lhes causavam dores insuportáveis, ferindo
suas imagens incorpóreas a cada movimento. Cheias de tristeza,
rodearam o trono de Satanás em um círculo multicolor, executando uma
antiga e meticulosamente estudada e solene dança. Mas ainda querendo,
era impossível compreender o significado destas complicadas figuras. Na
terra, elas haviam sido dançarinas que tinham perseguido somente os
prazeres terrenos, esquecendo completamente a vida do espírito,
esquecendo também que , depois da vida terrena, existe outra vida, a
eterna, durante a qual se prestará conta de todos os pecados
cometidos. Depois
apareceu uma centena de bailarinas de categoria superior. Eram as
melhores bailarinas que o mundo havia tido e se encontravam ali por
haver-se entregue demais ao pecado. Havia de todas as nações. Tinham
o olhar triste e nos olhos e nas dobras da boca se escondia uma
profunda amargura que dizia melhor que toda palavra o penoso que eram
suas vidas. Não tinham, entretanto, esquecido sua arte e flutuavam,
leves e graciosas, etéreas aparições tocando a arena apenas com a
ponta dos pés, com o acompanhamento da música infernal. Algumas
pareciam que se lembravam de seus êxitos passados e mantinham a cabeça
erguida, enquanto outras, ao contrário, choravam resignadamente
pensando nos belos dias felizes terminados para sempre. De vez em
quando se detinham e tomavam formas, atitudes pitorescas e apáticas
ante o trono do soberano das trevas, que as olhava sorrindo com um
sorriso maligno, mas sem que seu rosto expressasse verdadeira alegria. Riam
junto com ele todos os demônios que se encontravam na sala, mas os
pecadores, pelo contrário, estavam esgotados por todo o que tinham
visto. Algumas bailarinas, sem forças por aquela dança ininterrupta,
caíam exaustas no meio da arena, mas em seguida se lançavam em cima
delas os demônios ferozes, golpeando-as nos rostos sempre em vão.
Nenhuma oração, nenhum grito podia comover a Satanás, que não
parava de rir. E seus servos, com novos ímpetos arrastavam as
bailarinas, que soluçavam. De novo se formou ante o trono um espaço
livre. Satanás, sempre tenebroso, disse em voz alta: “– Não há
qualquer divertimento, sinto-me triste”. Como um furacão soou a
terrível voz e ninguém pôde suportar seu olhar sinistro. Agitando
suas enormes asas, levantou-se em toda sua estatura e em sua testa
apareceram rugas. Ao redor dele zumbiam uma espécie de moscas para
diverti-lo. Então
os espíritos do mal as empurraram à parte para deixar lugar a um
coro que se aproximava. Mas ainda que o coro executasse cantos belíssimos,
Satanás, submerso em quem sabe que tristes pensamentos, não prestou
qualquer atenção ao mesmo, cujos cantos se extinguiam antes de
chegar aos seus ouvidos. Ele
olhava um ponto indefinido do espaço. Os coristas, depois de ter
emitido as últimas notas da canção, levantaram seus olhos em súplica
para o tremendo Satanás, mas não receberam dele nenhum elogio, pelo
contrário, flechas de fogo, aparecidas de improviso, fincaram-se em
seus peitos. Entraram depois saltando bailarinas, malabaristas, palhaços
e acrobatas, que executavam todo tipo de exercícios cômicos e
prodigiosos. E minha atenção foi atraída especialmente por um
palhacinho de cabelo vermelho, eriçado e todo emaranhado. Realizou
toda classe de exercícios tentando fazer rir com trejeitos extraordinários
e até então nunca vistos. Sua boca tentava esboçar um sorriso e
todo seu ser tentava aparentar um aspecto alegre. Mas era evidente sua
trágica situação e foi-me possível notar em seguida a dor íntima
que o consumia. Me causou uma dó imensa. Mas também ele seguiu a
sorte dos outros e foi conduzido para fora por um demônio cinzento. Mas
não havia alegria. O terror reinava pr todas as partes: milhões de
seres cantavam e dançavam, mas em seus cantos se ouviam gemidos. Todo
este espetáculo era tão estranho, terrível e feroz e mudava tão
continuamente, que era difícil dar-se conta de todos os graus de
terror que suscitava. Depois
vi voar seres estranhos, transparentes como se fossem tecidos com teia
de aranha. Dos olhos emanava uma estranha luz verde. Flutuavam daqui
para lá, buscando alguma alma para torturar e com seus mordiscos
venenosos proporcionavam aos pecadores uma dor insuportável. Na sala,
no entanto, os gritos dos pecadores continuavam ressoando, gritos de
espanto, e seus rostos estavam transformados, mas para ele não
pareciam suficientes estes sofrimentos e desejava desfrutar ainda
mais. Fez
um gesto imperativo e seus olhos lançaram chamas. Todos os demônios
que ocupavam a sala compreenderam em seguida o gesto e o olhar. Com
prontidão se lançaram sobre os pecadores, segurando homens e
mulheres e fazendo-os dar voltas em uma dança louca. Tudo ardia com
uma luz deslumbrante. Os globos de fogo se haviam separado de seus
apoios e, descendo, misturavam-se à multidão em redemoinho. Como
ferro ardente, queimavam os corpos dos pecadores. Faíscas de muitas
cores caíam por todas as partes, enquanto que chamas altíssimas, saídas
das entranhas da terra, envolviam como serpentes sinuosas aos
pecadores como se fossem fitas de fogo. Eu
estava literalmente ensurdecida por este caos de ruídos e gritos, e
tudo começou a confundir-se e a girar ante meus olhos. De repente,
através de alguma fenda invisível, começou a penetrar na sala uma
fumaça sulfurosa, esverdeada, sufocante, que pouco a pouco encheu o
salão, envolvendo tudo como na neblina. As luzes se escureceram e
todo ruído parou: só se ouviu, naquela misteriosa escuridão, um
estalido que fazia estremecer. Era Satanás que lentamente abria suas
gigantescas asas negras. De golpe, com um assobio estridente, abriu-as
totalmente e, como um pássaro fantasmagórico, levantou-se sobre os
pecadores e os demônios que havia na sala. Entre a neblina verde
pareceu-me descobrir as sombras dos demônios que continuavam
perseguindo a suas vítimas, enquanto Satanás, voando soberbamente
sobre tudo, triunfava rindo e emitindo palavras e frases cujo
significado só ele compreendia. Depois,
pouco a pouco, a densa neblina clareou e pude ver nitidamente o que
acontecia. Os pecadores, exaustos pelas incalculáveis torturas, já não
puderam suportar mais, haviam-se rebelado contra os demônios e tinham
começado a lutar com eles, que fora de si ocupavam-se em acabar com o
tumulto entre horríveis palavrões. Venceram ao final os terríveis e
impiedosos demônios e ouvi ressoar nas profundezas da enorme caverna
seu relincho, com o qual expressavam seu menosprezo pelos pecadores.
Deste modo Satanás celebrava sua festa anual. Mas minha mente se
ofuscou e senti um zumbido incômodo na cabeça. Depois passou por meu
lado um redemoinho e fui arrastada para fora por uma força
desconhecida.
Arnaldo escreve: Termina aqui este relato horripilante. Serve
para que todos nós nos compenetremos da terrível realidade do
inferno, destino eterno daqueles que se rebelam contra Deus, dos que
fazem pouco caso da Justiça Divina, dos que não crêem que o demônio
existe, e especialmente de todos aqueles que não fazem uso da divina
misericórdia, rejeitando assim a graça e a salvação eterna de suas
almas. Ele é o destino eterno dos orgulhosos, dos mentirosos, dos
invejosos e de todos aqueles que amam ao pecado e ao mal. Não se
trata de castigo demasiado forte e sim de rebeldia além do limite
extremo. O inferno quem deseja é o homem mau! E ele o terá! Arnaldo Tradução
livre de Maria, este o nome de uma professora universitária.
Lembremos de nossa Mãe Maria Santíssima, o terror do inferno e
apeguemo-nos nela. |
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