24
Outubro 2005
O
INFERNO EXISTE
Publicaremos
a seguir todo um livreto, com o título abaixo, datado de 1939. Ele foi todo
copiado por Ricardo, por se sentir tocado com o alcance destas mensagens. Elas são
originais e confiáveis, embora livros assim sejam hoje pouco divulgados, porque
parece não ser mais missão da Santa Igreja falar sobre a terrível realidade
do inferno e do purgatório, como se ele fosse uma invenção de padres carolas.
Na realidade, o livro fala por si só, e foi mantida, tanto a fidelidade
aos originais até quanto à acentuação antiga, quanto ao conteúdo completo.
Agradeço a Ricardo de todo coração!
O
INFERNO EXISTE
LEITURAS
CATÓLICAS DE DOM BOSCO
ANO
XLIX – Outubro de 1939 – n.º 593
PROVAS
E EXEMPLOS
Pelo
Servo de Deus
Padre
André Beltrami
(Salesiano)
3ª
EDIÇÃO
NITERÓI
Escola
Industrial Dom Bosco – 1945.
(OBS:
grafias e acentuação das palavras copiadas do original)
PREFÁCIO
DO AUTOR
Nos
nossos dias, mais que em outros tempos, é necessário lembrar aos cristãos a
existência do inferno, já que muitos vivem como se as verdades da Fé não
existissem.
O
pensamento do inferno foi sempre fecundo de generosas resoluções. Quantos
abandonaram o pecado e se entregaram de corpo e alma à pratica da virtude,
meditando naquelas chamas devoradoras, naqueles tormentos horríveis que a língua
humana não pode exprimir! O padre Mestre Avila converteu uma senhora tôda
entregue aos pecados e às vaidades do mundo pondo-lhe diante o terrível sempre
e o terrível nunca, sempre sofrer, nunca um
instante de alívio. Por isso, suplico ao bom leitor que, depois de ter lido êste
opúsculo, o faça ler aos seus parentes e amigos que vivem afastados de Deus,
esquecidos da sorte infeliz reservada aos ímpios na outra vida. Quem sabe se o
pensamento das chamas eternas não suscite em seus corações um temor salutar
que os determine a mudar de vida! Pode bem ser que os exemplos narrados
contribuam para avivar em seus corações a fé já extinta! E se unirem também
às suas orações para tal fim, estou certo de que Nosso Senhor lhes tocará o
coração e êles voltarão às práticas da religião que abandonaram.
Na
compilação dêste livrinho, valí-me especialmente dos trabalhos de Monsenhor
Luiz Gastão, Ségur e do Padre Francisco Xavier Schouppe, que tão egregiamente
trataram dêsse assunto.
Deus,
o qual protesta não querer a morte do pecador, mas que se converta e viva, abençoe
meu pobre trabalhinho e faça de maneira que sirva para a conversão de tantos
transviados e os afaste do caminho da perdição. Jesus Cristo os estreitará
cheio de alegria ao seu Sacratíssimo Coração, como já fez um dia com o filho
pródigo, e os Anjos farão festa e celebrarão com cânticos de alegria o seu
retôrno à casa paterna.
Turim
– Valsálice > Seminário das Missões – junho de 1897
CAPÍTULO
I
A
revelação divina demonstra a existência do inferno
Não
há verdade tão inculcada na Sagrada Escritura como a da existência do
inferno. Escritores inspirados falam dêle continuamente, para que os homens,
horrorizados com as penas que aí se sofrem abandonem o vício e se dêem à prática
da virtude.
Os
protestantes, que de nossa santa religião negaram quase tôdas as verdades mais
difíceis de crer e praticar não souberam desfazer-se do dogma do inferno, pelo
fato de ser frequentemente recordado nas Sagradas Letras. Por êste motivo, uma
senhora católica, importunada por dois ministros protestantes a passar para a
reforma, saiu-se com esta sensata resposta: – “Senhores, fizestes na verdade
uma bela reforma, suprimistes o jejum, a confissão, o purgatório;
infelizmente, porém, conservastes os inferno. Tirai também êste e eu serei
dos vossos.”
Para
não multiplicarmos as citações, deixaremos o Antigo Testamento e viremos logo
ao Evangelho, para ouvir a palavra de Jesus Cristo, que por bem quinze vezes
proclama êste lugar de tormentas. E para causar em nós um temor salutar e
dar-nos uma idéia justa do inferno, Êle o chama fogo inextinguível,
trevas exteriores, onde haverá pranto e ranger de dentes, lugar de tormentos,
fornalha de fogo, geena de fogo.
A
geena era um vale perto de Jerusalém, onde alguns maldosos hebreus apóstatas
de sua religião, sacrificavam a Moloc os tenros filhos, expondo-os antes ao
fogo. O piedoso rei Josias, para abolir êsse bárbaro costume, fêz aterrar o
vale, ordenando que se lançasse aí a imundície da cidade e os cadáveres aos
quais fosse negada a sepultura; e como medida profilática, conservava-se sempre
aceso o fogo. O nosso Divino Salvador, para tornar mais sensível a idéia do
inferno, tomou a imagem dêsse vale, que os hebreus abominavam, dando-lhe
precisamente o nome de geena.
Na
parábola do rico epulão, tão fecunda de ensinamentos e que é tão importuna
aos ricos gozadores do mundo, Jesus nos ensinou que o mau uso das riquezas
conduz inevitàvelmente ao inferno, enquanto as dificuldades e as privações
suportadas por amor de Deus levam ao lugar de eterna felicidade.
“Havia
um homem rico, que se vestia de púrpura, e de linho e que todos os dias se
banqueteava esplendidamente. Havia também um mendigo, chamado Lázaro, o qual
coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as
migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava; mas os cães vinham
lamber-lhe as chagas.
“Ora,
sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu
também o rico, e foi sepultado no inferno. E, quando
estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro
no seu seio; e, gritando disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda a Lázaro
que molhe em água a ponta do dedo, para refrescar a minha língua, pois sou
atormentado nesta chama. E Abraão disse-lhe: Filho,
lembra-te que recebeste os bens em tua vida e Lázaro, ao contrário, males por
isso êle é agora consolado e tu és atormentado. E, além disso, há entre nós
e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não
podem, nem os de aí passar para cá. E disse: Rogo-te pois, ó pai, que mandes
à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos para que os advirta disto e não
suceda virem também êles para êste lugar de tormentos. E Abraão disse-lhe: Têm
Moisés e os profetas; ouçam-nos. Ele, porém disse-lhe: Não, Pai Abraão, mas
se algum dos mortos for ter com êles, farão penitência. E êle disse-lhe: Se
não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco acreditarão ainda que
ressuscitaste algum dos mortos”. (S. Lucas, XVI, 19-31).
Eis
aí descrito com vivas côres aquêle reino de dor, onde um fogo abrasador e
horrível atormentará sem um instante de trégua o mísero condenado: uma gôta,
só uma gôta de água pedia o epulão para mitigar os ardores insuportáveis da
sêde, e essa gôta foi-lhe negada sem dó! Ai! quem de vós, branda aos ímpios
o Profeta Isaías, cheio de espanto, quem de vós poderá habitar nesse fogo
devorador? nesses ardores sempiternos?
Ao
final da parábola, acena-se à repugnante incredulidade de tantos infelizes que
vivem engolfados nos vícios, não fazendo caso das verdades eternas, nas quais
não creriam nem mesmo se aparecesse algum réprobo para lhes atestar a existência
do inferno. Qual não será o seu desespero ao verem-se um dia sepultados
naquele abismo de tormentos, sem a mínima esperança de saírem de lá?
Alhures,
Jesus Cristo descreve o juízo universal que êle fará no fim do mundo, e a
sentença de eterna condenação que pronunciará contra aqueles que não
praticarem as obras de misericórdia para com os seus irmãos, e que serão
precipitados no fogo inextinguível, preparado para o demônio e seus sequazes.
Quanto temor não causa à alma a consideração dêste trecho do Evangelho! Ah!
se os libertinos, que negam com tanto atrevimento a vida futura, refletissem um
pouco, certamente mudariam de vida! Fruto desta meditação foi aquela poesia tão
sublime do Dies irae, que é o gemido de uma alma tôda
compenetrada do terror do juízo divino e da sorte eterna que a espera depois.
“Quando
vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com Ele, então se
sentará sôbre o trono da sua majestade, e serão tôdas as gentes congregadas
diante dêle, e separará uns dos outros como o pastor separa as ovelhas dos
cabritos. E porá as ovelhas à sua direita, e os cabritos à esquerda.
“Então
o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde benditos de meu Pai, possuí
o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo; porque tive fome, e
destes-me de comer; tive sêde, e destes-me de beber; era peregrino e
recolhestes-me; nu, e me vestistes; enfêrmo, e me visitastes; estava no cárcere
e fostes visitar-me. Então lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando
é que nós te vimos faminto e te demos de comer; sequioso e te demos de beber?
E quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? Ou quando te
vimos enfêrmo, ou no cárcere e fomos visitar-te? E, respondendo o Rei, lhes
dirá: Na verdade vos digo que tôdas as vezes que vós fizestes isto a um dêstes
meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que
estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi
preparado para o demônio e para os seus anjos; porque tive fome, e não me
destes de comer; tive sêde, e não me destes de beber; era peregrino, e não me
recolhestes; nu, e não me vestistes; enfêrmo e no cárcere e não me
visitastes. Então êles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando é
que nós te vimos faminto, ou sequioso, ou peregrino, ou nu, ou enfêrmo, ou no
cárcere, e não te assistimos? Então lhes responderá, dizendo: Na verdade vos
digo: tôdas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim não
o fizestes. E êstes irão para o suplício; e os justos para a vida eterna.”
(S. Mateus, XXV, 31-46).
E
para tornar entre o povo mais familiar, diria quase visível o pensamento do
inferno, usa a comparação dos rebentos e da videira.
“Eu
sou a videira e vós os rebentos. O que permanece em mim e eu nêle, êsse dá
muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em
mim, será lançado fora como o rebento, e secará, e enfeixá-lo-ão, e o lançarão
no fogo, e arderá.” (S. João, XV, 5-6).
Falando
depois, dos escândalos, o nosso bendito Salvador, de ordinário cheio de doçura
e mansidão toma um tom terrível e os ameaça de condenação eterna.
“Ai
do mundo por causa dos escândalos! Porque é necessário que sucedem escândalos;
mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo! E, se a tua mão te
escandalizar, corta-a; melhor te é entrar na vida manco, do que, tendo duas mãos,
ir para o Inferno, para o fogo inextinguível, onde o seu verme
não morre, e o fogo não se apaga.
E
se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo,
do que, tendo dois pés, ser lançado no inferno, num fogo
inextinguível, onde seu verme não morre, e o fogo não se apaga.
“E
se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de
Deus sem um ôlho, do que tendo dois, ser lançado no fogo do
inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. Porque todo o
homem será salgado pelo fogo, e tôda vítima será salgada
com sal”. (S. Marcos, IX, 42-48).
Santo
Tomaz explica que êsse verme que não morre é o remorso da
consciência, que para sempre há de atormentar o condenado no inferno; remorso
pelo grande bem que perdeu, êle que tinha tantos meios de se salvar.
A
expressão será salgado pelo fogo significa que, assim,
como o sal conserva as coisas, assim o fogo, no qual os condenados serão
imersos, aos mesmo tempo que crucia atrozmente os conserva sempre em vida. Aí o
fogo consome, diz S. Bernardo, para conservar sempre. Neste trecho faz-se alusão
manifesta aos sacrifícios legais que os hebreus tinham sempre diante dos olhos,
e onde estava prescrito que se aspergisse com sal a vítima que era oferecida a
Deus: na verdade, os condenados são como vítimas da divina justiça.
Eis
como Jesus Cristo, prevendo os assaltos que os incrédulos e libertinos dariam
ao dogma do inferno, o proclama continuamente no Evangelho. Quanto a nós,
permaneçamos inabaláveis em nossa crença, certos da existência do inferno,
como da existência do sol, da lua e das outras coisas que nos rodeiam. Deus nô-lo
revelou e ensina por meio da Igreja, e a palavra de Deus não falha.
CAPÍTULO
II
A
razão humana confirma a existência do inferno
Quem
são afinal, os que negam a existência do inferno? Talvez pessoas honestas? Ao
contrário! São os libertinos que espezinham todo o ditame da consciência para
viverem à solta, aqueles aos quais repugna crer em um Deus vingador, por bem
saberem que merecem seus castigos. Mas, conseguem êles persuadir-se de que não
há uma justiça que vela sôbre os homens, e que punirá seus pecados? Jamais!
Enquanto negam com os lábios a existência do inferno, sentem no âmago da
consciência o remorso e uma voz que lhes anuncia terrível vingança.
O
próprio Voltaire, o corifeu da impiedade, não conseguiu convencer-se de que não
há nada depois do túmulo; tanto assim que, quando adoecia gravemente,
apressava-se para em chamar o padre para se retratar de suas máximas tão ímpias!
Deus
imprimiu em nosso coração noções imutáveis de justiça, e a idéia de um prêmio
à virtude, de um castigo ao vício. Certo ímpio se vangloriava, numa roda, de
não acreditar no inferno; entre os que ouviam estava um homem de bom senso e
modesto, mas que julgou seu dever tapar a bôca ao estulto interlocutor, e o fez
com êste simplicíssimo argumento:
–
“Senhor, disse-lhe, os reis da terra têm cárceres para punir rebeldes; o
Deus, Rei do universo, não há de ter cárceres para os que ultrajam a sua
majestade?” O ímpio não soube que responder, pois o mesmo lume da razão lhe
fazia ver que se os reis têm prisões, Deus deve ter um inferno.
Da
negação do castigo e do prêmio ia outra vida, seguir-se-ia que Deus não
existe, ou se existe, não cuida dos homens; e não haveria nenhuma diferença
entre virtude e vício, entre justiça e injustiça. Morre um ladrão, carregado
de delitos, e morre um inocente que durante a vida praticou virtude e fez o bem
ao próximo; quereis que tenham a mesma sorte? Deus, infinitamente justo, não há
de punir os crimes do primeiro e recompensar as boas obras do segundo? Morre São
Paulo no deserto, depois de ter vivido quase um século no jejum, na penitência,
louvando e servindo a Deus; e morre Nero, depois de ter cometido tôda espécie
de crueldade; quereis que tenham igual sorte? Portanto, a mesma razão, o bom
senso nos fala de um lugar onde serão castigadas as transgressões da lei
divina.
Nem
mesmo a eternidade das penas repugna aos ditames da reta razão.
Um
dia, uma alma santa meditava no inferno, e considerando a eternidade dos suplícios,
aquêle terrível nunca e o terrível sempre,
ficou bastante impressionada, porque não compreendia como se pudesse conciliar
esta severidade sem medida com a bondade e outras perfeições divinas.
–
Senhor, dizia ela, eu me submeto aos vossos juízos, mas, permití-me, não
sejais demasiado rigoroso.
–
Compreendes, foi a resposta, o que seja o pecado? Pecar é dizer a Deus: não
Vos obedecerei; pouco se me dá da vossa lei; rio-me das vossas ameaças!
–
Vejo, Senhor, como o pecado é um monstruoso ultraja à vossa divina majestade.
–
Pois bem, mede, se podes a grandeza dêsse ultraje.
–
Compreendo, Senhor, que êsse ultraje é infinito, porque vai contra a majestade
infinita.
–
Não se exige então um castigo infinito? quanto à intensidade, sendo a
criatura limitada, requer a justiça que seja infinito ao menos quanto à duração:
portanto, é a mesma justiça divina que exige o terrível sempre
e o terrível nunca. Os próprios condenados serão
obrigados a prestar homenagens, mau grado seu, a esta justiça e exclamar em
meio aos tormentos: “Vós sois justo, Senhor, e retos os vossos juízos.” (1)
Mas,
replicam os incrédulos, Deus é tão misericordioso que não castigará
eternamente um pecado mortal só, o qual às vezes dura um instante. Que proporção
há entre a breve duração da culpa e a eternidade da pena?
A
isto responderemos, que a misericórdia não é nada contrária à justiça, a
qual exige seja eternamente castigado o pecado de uma pessoa que tenha morrido
impenitente; visto que o pecado de tal pessoa é de certo modo eterno, segundo a
sua voluntária disposição presente, querendo morrer no pecado: o que merece
uma pena eterna. Até a justiça humana, imagem da justiça divina, castiga por
vezes a falta passageira com a pena, a seu modo, eterna, como é o exílio perpétuo;
de modo que, se o exilado vivesse sempre, para sempre seria banido da sua pátria.
E por que a divina justiça não poderá banir eternamente da pátria celeste um
pecador impenitente, que por si mesmo se exclui dessa pátria, morrendo voluntàriamente
na impenitência final? De resto, eterno é o prêmio que Deus prepara a quem o
serve, e por isso eterno deve ser também o castigo para aqueles que se rebelam
contra sua santa lei.
Afinal,
quem somos nós que ousamos levantar a fronte e pedir a Deus a razão de seus
justos decretos?
CAPÍTULO
III
Testemunhas
de Além-túmulo
Em
sua infinita misericórdia, Deus, depois de haver revelado o dogma do inferno,
tem permitido, de onde em onde, que alguma alma venha da eternidade para
confirmar-nos a existência daquele lugar de penas. Tais aparições são mais
frequentes do que comumente se crê; e quando são atestadas por pessoas idôneas
e fidedignas, tornam-se fatos inegáveis, que se admitem como todos os outros
fatos da história. Apresso-me, porém, a declarar que não entendo trazer êsses
fatos como argumento principal e básico com que se demonstre e se estabeleça o
dogma do inferno, porque êste nos é demonstrado pela palavra infalível de
Deus; narro tais aparições sòmente para confirmar e elucidar essa verdade, e
como argumento de salutar meditação.
Monsenhor
Ségur, no seu áureo opúsculo sôbre o inferno narra três fatos, cada qual
mais autêntico, acontecidos não faz muito tempo.
*
*
*
O
primeiro, diz ele, sucedeu quase em minha família, pouco antes da terrível
campanha de 1812, na Rússia. Meu avô materno, o Conde Rostopkine, governador
militar de Moscou, era intimamente relacionado com o general Conde Orloff, tão
valoroso quanto ímpio.
Um
dia, após a ceia, o conde Orloff e um seu amigo, o general V…, volteriano
como êle, puseram-se a ridicularizar a religião e sobretudo o inferno:
–
Mas…, disse Orloff, e se houvesse alguma coisa além do túmulo?
–
Neste caso…, diz o general V…, o primeiro que morrer virá avisar o outro;
de acôrdo?
–
Pois não, responde Orloff.
E
ambos prometeram seriamente não faltar à palavra.
Algumas
semanas após, desencadeou-se um daquelas guerras que Napoleão sabia suscitar;
o exército russo foi chamado às armas, e o general V… recebeu ordem de
partir incontinenti para um pôsto de comando.
Duas
ou três semanas depois da partida de Moscou, quando meu avô se levantara, bem
cedo, viu abrir-se bruscamente a porto do quarto e entrar o conde Orloff, com
roupa de dormir, de chinelos, cabelo em desalinho, olhos esbugalhados, pálido
como cera.
–
Oh! Orloff vós aqui a esta hora? Neste traje? Que aconteceu?
–
Meu caro, responde Orloff, eu perco a cabeça; vi o general V…
–
Oh! Ele já voltou?
–
Não, continua Orloff, atirando-se a um divã, não, não voltou, e é isto que
me espanta.
Meu
avô nada compreendia e procurava acalmá-lo.
–
Contai-me, então, lhe disse, o que aconteceu e o que significa tudo isto.
Fazendo
grande sefôrço para se acalmar, o conde Orloff contou o seguinte:
–
Meu caro Rostopckine, não faz muito, o general V… e eu, juramos que o
primeiro que morresse, viria avisar o outro se há de fato alguma coisa além do
túmulo. Ora, pela madrugada, enquanto estava tranqüilo na cama, acordado, sem
pensar no amigo nem no juramento, abre-se de repente o cortinado do meu leito e
vejo, a dois passos de mim, o general V… de pé, desfigurado, com a mão
direita no peito, e me fala: “Existe um inferno, e eu lá
estou…” e desapareceu. Na mesma hora corri até cá; eu perco a cabeça!
Que coisa estranha! não sei o que pensar!
Meu
avô tranqüilizou-o como pôde: falou-lhe de alucinação, fantasia… que êle
talvez estivesse dormindo… que às vêzes dão-se casos extraordinários,
inexplicáveis… E procurava persuadí-lo com outros meios termos, que apesar
de nada valerem, servem para consolar os céticos. Mandou preparar o coche e
acompanhou o conde à sua casa.
Dez
ou doze dias depois deste estranho acontecimento, um estafeta do exército
comunicava ao meu avô, entre outras coisas, a morte do general V…
Naquela
madrugada em que o conde Orloff o tinha visto e ouvido, o infeliz general,
saindo a estudar a posição do inimigo, foi varado por uma bala e caiu morto.
“Existe
um inferno, e eu lá estou…”
Eis
as palavras de um que veio do outro mundo!
*
*
*
O segundo fato é referido pelo mesmo autor, que o tem por indubitável, como o
precedente, pois o ouviu da bôca de um repeitabilíssimo eclesiástico,
superior de importante comunidade, o qual por sua vez, soube os pormenores
mediante um parente da senhora, com a qual se deu tal fato. Naquele tempo, isto
é, por ocasião do Natal de 1859, ela ainda vivia e contava pouco mais de
quarenta anos.
Achava-se
essa dama em Londres no inverno de 1847 e 1848; enviuvara aos 29 anos, era muito
rica e muito amiga dos divertimentos mundanos. Entre as pessoas elegantes que
freqüentavam a sua casa, notava-se especialmente um moço, cujas contínuas
visitas a comprometiam não pouco e cuja vida estava longe de ser edificante.
Uma
noite, a senhora lia não sei que romance para conciliar o sono. Ouvindo bater o
relógio, apagou a vela e dispunha-se para deitar, quando percebeu, com grande
assombro, que uma luz estranha e pálida vinha da porta do salão contiguo e
espalhava-se a pouco e pouco no quarto, aumentando sempre. Não sabendo o que
era, do pasmo passou ao mêdo; eis senão quando, viu abrir-se lentamente a
porta do salão e entrar no quarto o jovem desregrado, o qual, antes que ela
pudesse pronunciar palavra, aproximou-se, tomando-a pelo braço esquerdo,
apertando-lhe fortemente o pulso, e com aceno desesperado, lhe falou em inglês:
–
Existe o inferno!
Foi
tão grande o susto que a senhora perdeu os sentidos. Voltando a si, tocou
nervosamente a campainha para chamar a criada, que a tendeu; entrando no quarto,
esta sentiu logo um cheiro de queimado e chegando-se à ama, que com dificuldade
articulava umas palavras pôde ver que tinha ao redor do pulso uma queimadura tão
profunda que a carne desaparecera e ficava à mostra o osso. Observou além
disso, que da porta do salão até o leito e do leito à porta do salão estava
impressa a pegada de um homem, que tinha queimado o pano de parte a parte. Por
ordem da ama, abriu a porta do salão, e notou que lá terminavam as pegadas no
tapete.
No
dia seguinte, a desditosa senhora soube com aquele mêdo que bem se compreende,
que alta noite, o tal moço se embriagara com excesso, e transportado para casa,
veio a morrer pouco depois.
Ignoro,
acrescenta o superior, se esta terrível lição tenha convertido a infeliz
dama; o que sei é que ela ainda vive e para esconder aos olhares curiosos o
sinal daquela sinistra queimadura, leva no pulso, à guisa de bracelete, um
largo enfeite de ouro, que não deixa nem de dia nem de noite. Repito que os
particulares eu os tive da bôca de um seu parente próximo, católico sincero,
a cuja palavra presto fé. Os parentes não falam do ocorrido e é por isso que
tenho o cuidado de ocultar o nome da família.
Apesar
do véu, no qual esta aparição foi e deveu ser envolvida, não me parece,
acrescenta Monsenhor Ségur, que se possa pôr em dúvida a formidável
autenticidade.
*
*
*
O terceiro fato aconteceu na Itália.
Em
1873, em Roma, alguns dias antes da Assunção, uma moça, bastante má,
machucou uma das mãos. Levaram-na para o Hospital da Consolação. Ou porque o
sangue estivesse muito deteriorado ou porque sobreviesse grave complicação, a
infeliz morreu naquela noite.
No
mesmo instante uma de suas companheiras, que não sabia o que acontecera no
hospital, pôs-se a gritar desesperadamente, a tal ponto que acordou tôda a
vizinhança e provocou a intervenção da polícia.
A
companheira que morrera no hospital apareceu envolvida em chamas e lhe disse:
–“Estou condenada, e se não queres
condenar-te também, sai deste lugar infame e volta a Deus.”
Nada
consegui acalmar a agitação da jovem, que bem cedo abandonou aquela casa,
deixando a todos atônitos, especialmente depois de divulgada a notícia da
morte da companheira, no hospital.
Aconteceu
que, logo depois, a proprietária da casa, uma garibaldina exaltada, caiu
doente, mandou logo chamar um padre, dizendo que queria receber os sacramentos.
A Autoridade Eclesiástica delegou para êsse fim um digno sacerdote, Monsenhor
Piroli, pároco de S. Salvador em Laura. Munido de especiais instruções, êle
se apresentou e exigiu, antes de tudo, que a doente fizesse, perante
testemunhas, plena retratação de suas blasfêmias e insultos contra o Sumo
Pontífice e declarasse que afastaria as ocasiões de pecado. Sem a menor hesitação,
a infeliz promete e então se confessa e recebe o Sagrado Viático com grandes
sentimentos de penitência e humildade.
Pressentindo
o seu fim, a pobre mulher, com lágrimas nos olhos suplicou ao padre que não a
abandonasse, amedrontada como estava por aquela aparição. Assim, teve a grande
graça de ser assistida nos últimos momentos pelo ministro de Deus.
Tôda
a Roma conheceu logo os particulares desta tragédia.
Como
sempre, os ímpios e os libertinos fizeram dela objeto de chacota, abstendo-se,
à aposta, de obter oportunas informações; mas, de sua parte, os bons
aproveitaram para se tornarem melhores e mais exatos no cumprimento de seus
deveres.
CAPÍTULO
IV
Horrendos
suplícios do inferno
Nenhuma
língua humana é capaz de exprimir os tormentos atrozes daquele lugar de desespêro.
Como descrever aquêle fogo medonho aceso pela ira de Deus? os remorsos cruéis
que dilaceram o mísero preceito? a eternidade sem fim, com o terrível sempre e
o terrível nunca?
Diz
Santo Agostinho que o fogo da terra comparado com o do inferno, parece um fogo
pintado; e S. Vicente Ferrer diz que em confronto com aquêle, o nosso é frio.
Gastemos
embora páginas e livros inteiros falando do inferno, acumulemos males sôbre
males, sofrimentos sôbre sofrimentos, desgraças sôbre desgraças, chamemos em
nosso auxílio as fantasias fecundas dos poetas, para idear penas atrozes, peçamos
aos tiranos da História as torturas que inventaram para seviciar as suas vítimas
e, apesar de tudo isso, chegaremos à conclusão de que infinitamente maiores são
os suplícios do inferno.
*
*
*
Santa
Tereza foi um dia arrebatada em êxtase e levada ao inferno para ver o seu
lugar, caso não se emendasse de certo defeito.
Ela
mesma conta em sua autobiografia:
“Estando
um dia em oração, fui transportada, sem saber como, em corpo e alma, ao
inferno. Compreendi que Deus queria mostrar-me o lugar que ocuparia, se não
mudasse de vida. Não tenho palavras que possam dar uma pequena idéia desse
tormento incompreensível. Sentia em minha alma um fogo que me devorava e o
corpo sofria dores insuportáveis. Dúrante minha vida passei por duros
sofrimentos, mas, nem se comparavam com os que tive naquela ocasião; e ainda êsses
subiam de ponto, ao pensar que seriam eternos e sem o menor alívio. Mas, apesar
de as torturas do corpo serem atrozes, não tinham comparação com as agonias
da alma. Ao mesmo tempo, sentia-me queimar e partir em pedaços, sofria tôdas
as angústias da morte e os horrores do desespêro.
Num
raio de esperança e de consolação naquela moradia, aí se respira um odor
pestilencial, que sufoca; nem um raio de luz, mas tudo são trevas da mais densa
escuridão; contudo, oh! mistério, mesmo naquele escuro se distingue o que de
mais penoso há para a vista.
Em
suma, tudo o que ouvi dizer ou li sôbre as penas do inferno é insignificante
em confronto com a realidade; entre aquelas penas e estas há a mesma diferença
entre uma pessoa e o seu retrato. Ai! o fogo dêste mundo por mais ardente que
seja, é como o fogo pintado, comparado com aquêle que atormenta os réprobos
no inferno.
Há
dez anos que tive esta visão, mas estou ainda agora tão espantada, que,
enquanto escrevo, o mêdo gela-me o sangue nas veias. Em meio às provocações
e dores que tenho, trago à mente esta visão e de aí tiro fôrça para tudo
suportar”.
Até
aqui a santa.
*
*
*
Vicente
de Beauvais, no livro 25 de sua História, refere o seguinte fato, acontecido
pleno ano 1000.
Dois
libertinos fizeram uma combinação: o primeiro a morrer viria à terra
participar ao companheiro em que estado se achava. Morreu um deles, e Deus
permitiu aparecesse ao amigo: era horrendo, parecia sofrer duramente e suava em
bicas. Enxugou a fronte com a mão e deixou cair uma gota de suor no braço do
companheiro, dizendo-lhe:
–
Eis qual é o suor do inferno; dêle terás um vestígio até à morte.
E
assim foi, pois aquêle suor infernal queimou-lhe o braço, penetrando na carne
com dores inauditas.
Bom
para êle que soube aproveitar-se de tão terrível lição e retirou-se para o
convento.
*
*
*
Em
1873, Nova Iorque foi teatro de um incêndio, cujas circunstâncias apresentam a
imagem do inferno.
O
Circo Baunum foi assaltado pelo fogo; tigres, ursos, leões e outras feras foram
queimadas vivas nas suas jaulas. À medida que o fogo se propagava, crescia o
desespêro das feras, sobretudo os tigres e ursos tornavam-se cada vez mais
furiosos. Atiraram-se com supremo esfôrço contra as grades, já
incandescentes, da prisão, e eram rechaçados quais massas inertes, para de
novo se arrojarem contra o insuportável obstáculo que os aprisionava.
Os
rugidos dos leões, os urros dos tigres e o aulidos das outras feras se
misturavam formando um som pavoroso, que parecia reproduzirem aquêle que devem
ouvir os condenados no inferno.
Mas
as notas deste tétrico concêrto aos poucos foram-se enfraquecendo, até que,
quando o leão soltou o último urro, ao medonho alarido sucedeu o silencio da
morte.
Imaginemos,
agora, nestas jaulas de ferro candente, não as feras, mas homens; e homens que
em vez de morrerem no fogo continuam a viver, e teremos uma idéia do inferno,
idéia, aliás, muito imperfeita.
*
*
*
A
história registrou, para perpétua execração, as truculências de alguns
tiranos, que mais do que homens pareciam monstros.
Fálaris,
tirano de Siracusa, confeccionou um touro de bronze para prender dentro os
rebeldes e fazê-los morrer a fogo lento, aceso ao redor. Quem pode descrever os
espasmos do supliciado? Gritava, debatia-se naquelas estreitas paredes, que se
tornavam candentes e tormentos indescritíveis!… Todavia, essas penas
terminavam; o condenado terá suplícios infinitamente maiores e por tôda a
eternidade.
Nero
mandava que se cobrissem os corpos dos cristãos com pixe e outros combustíveis,
e depois, colocados nos postes, ao longo das alamedas, eram acendidos à tarde,
para iluminar, enquanto êle passeava no coche, insultando-os bàrbaramente nos
padecimentos.
Maxêncio
amarrava as suas vítima a cadáveres, rosto com rosto, tronco com tronco,
membros com membros, e as deixava nesse horrível estado até que o mau cheiro
das carnes corrompidas lhes acabasse com a vida.
Astiáges,
rei da Armênia, condenou S. Bartolomeu Apóstolo a ser esfolado vivo.
Não
menos horrível o suplício a que foi submetido o diácono S. Lourenço.
Estenderam-no sôbre uma grelha e por baixo espalharam brasas, de maneira que
aos poucos fosse sentindo os ardores e mais longa e vivamente durasse o
tormento. Cozida uma parte do corpo, voltaram-no do outro lado, para que cada
membro tivesse seu sofrimento; e assim neste lento e atroz martírio, rendeu a
alma a Deus.
São
talvez êsses os suplícios do inferno? Qual! apenas a sombra, uma pálida idéia.
*
*
*
Fala-nos
o Padre Nierenberg de um jovem que levava uma vida aparentemente cristã, mas
odiava a um inimigo; e conquanto frequentasse os Sacramentos, nutria para com êle
sentimentos de vingança, que Jesus Cristo obrigava depor.
Morrendo,
apareceu ao pai, todo envolvido em chamas, e disse-lhe que se condenara por não
ter perdoado ao seu inimigo, e chorando exclamou:
–
Ah! se tôdas as estrêlas do céu fossem como línguas de fogo, não
traduziriam os tormentos que sofro.
*
*
*
Os
dois fatos seguintes se referem pròpriamente ao fogo do purgatório, mas não vêem
fora de propósito, já que os teólogos afirmam que o mesmo fogo que atormenta
os condenados no inferno, purifica também as santas almas do purgatório, e que
o purgatório é um inferno temporário.
Na
vida de Frei Estanislau Chosca, dominicano polonês, lê-se que um dia, quando
estava rezando pelos finados, viu uma alma tôda devorada pelas chamas.
Compreendeu que se tratava de uma alma do purgatório que implorava suflágios,
e a interrogou se aquêle fogo era mais penetrante que o nosso.
–
Ai de mim! respondeu a mísera, todo o fogo da terra, comparado com o do purgatório
é como um sôpro de ar fresquíssimo.
–
Mas, isto é impossível! exclamou o frade. Desejaria mesmo experimentar, com a
condição de que isto aproveite para me fazer descontar aqui uma parte das
penas que terei de sofrer, um dia, no purgatório.
–
Nenhum mortal, replicou então aquela alma, poderia suportar-lhe a mínima
parte, sem morrer no mesmo instante, se Deus não o sustentasse. Se queres
converter-te, estende a tua mão.
O
dominicano, em vez de intimidar-se ofereceu a mão: e o defunto deixou cair sôbre
ela uma gota de suor. Estanislau desmaiou no mesmo instante, soltando gritos
agudos. Acudiram logo os frades assustados e o encontraram desfalecido e com a mão
chagada. Levado para cama e medicado, recobrou os sentidos; mas não se levantou
mais, sempre atormentado por terríveis dores causadas pela chaga na mão; e
morreu depois de um ano, durante o qual não cessou de exortar os irmãos à
penitência para evitarem os rigores da justiça divina.
*
*
*
A
aparição que estou para referir é narrada na vida de S. Domingos, escrita por
Fernando de Castelha, e comprovada por um profundo sinal deixado numa mesa.
Em
Zamorra, cidade da província de Leão, na Espanha, vivia num convento de
Dominicanos um bom religioso, ligado em santa amizade com um Franciscano, homem
como êle, de grande virtude.
Um
dia que se entretinha sôbre coisas espirituais, prometeram recìprocamente que
o primeiro a morrer, se Deus lho permitisse, apareceria ao outro, para informá-lo
da sorte alcançada no outro mundo. (*Julgo
prudente observar que não convém fazer tais acordos; ou pelo menos é preciso
consultar o confessor.)
Morreu
o Franciscano e, fiel à sua promessa, apareceu ao Dominicano, quando êste
arrumava a mesa. Depois de tê-lo cumprimentado com extraordinária benevolência
disse-lhe que estava salvo, mas, tinha, outrossim, ainda muito que sofrer por
algumas pequenas faltas das quais não se tinha arrependido bastante em vida. Em
seguida ajuntou: – “Nada existe sôbre a terra, que possa dar uma idéia das
minhas penas”. E para que o Dominicano tivesse disto uma prova, estendeu a mão
sôbre a mesa do refeitório, deixando na madeira a queimadura como se a mão fôra
um ferro em brasa, tirado então da forja.
Imagine-se
a comoção do Dominicano a este espetáculo!
A
mesa guardou-se religiosamente em Zamora, até o fim do século XVIII, no qual
as revoluções políticas a fizeram desaparecer, como a outras muitas relíquias
piedosas de que era rica a Europa.
*
*
*
Até
agora temos falado das penas do sentido; e que dizer das penas do dano? Que
dizer da privação de Deus?
A
privação da vista de Deus é o que pròpriamente constitui o inferno. Não
fazem o inferno as trevas, o mau cheiro, o alarido, o fogo; a pena que faz o
inferno é a pena de ter perdido a Deus. Se Deus mostrasse a face aos
condenados, êles não sentiriam mais nenhuma dôr, e o inferno seria um paraíso.
Apenas
a alma rompe os vínculos do corpo, sente imediatamente que foi criada para Deus
e se atira a Êle como uma flecha vôa para sua meta, como a agulha imantada
livre do empecilho volta-se para o solo; mas, estando manchada com o pecado, será
repelida e precipitada no inferno.
Um
caçador fez uma vez esta experiência: amarrou o seu galgo com uma grande
corrente, dentro do jardim murado, e depois soltou uma lebre. Apenas a viu, o cão
avançou para adentá-la mas é impedido pela corrente. Que raiva, vê-la correr
pelo jardim e não poder apanhá-la! Ladra, gane, dana-se, morde a corrente para
despedaçá-la, atira-se contra o animalejo que foge dum lado para outro. Fez
tanto esfôrço que pouco depois caiu morto.
A
alma tentará contínuamente lançar-se para Deus, para o qual foi criada, mas o
pecado é aquela corrente que não a deixará sair das chamas cruéis.
*
*
*
Um
virtuoso sacerdote, enquanto estava exorcizando um energúmeno, perguntou ao demônio
que penas sofria no inferno. A resposta foi esta:
–
Um fogo eterno, uma maldição eterna, uma raiva eterna e um desespêro cruel
por não poder mais ver Aquele que me criou.
–
Que farias para que te fosse concedido ver a Deus?
–
Para vê-lo, mesmo por um instante, estaria pronto a sofrer num minuto tôdas as
penas que devo sofrer em dez mil anos… Mas, vãos desejos, hei de sofrer
sempre e não O tornarei mais a ver.
E
foi tal o tormento e o desespêro com que pronunciou estas palavras, que deixou
funda impressão naquelas que assistiam aos exorcismos.
CAPÍTULO
V
Eu
não creio em nada
–
Eu não creio em nada, dizia-me duma feita um dêsses doutores da impiedade, com
empáfia.
–
Como? Vós não credes em nada? repliquei. Então não credes na existência da
América, da Oceania…
–
Oh! Certamente que sim; queria dizer, não creio em nenhuma coisa sobrenatural.
–
Mas, porque credes na existência da América e da Oceania, que nunca vistes?
–
Tem graça! Creio porque o afirmam os geógrafos e muitas pessoas que
perlustraram essas regiões.
–
E se credes na existência de coisas que nunca vistes, só porque o dizem os
homens, porque não credes na existência do inferno, do juízo, revelada pela
palavra infalível de Deus, confirmada pela razão e proclamada pela voz de
todos os povos?
O
livre pensador deu de ombros e não soube responder; mas, nem por isso se
converteu. Custava-lhe tanto deixar sua vida desregrada e praticar a virtude!
Como
são dignos de compaixão êsses libertinos! Pretendem destruir o inferno,
negando-lhe a existência; mas, quem nega uma coisa não consegue eliminá-la.
Se eu negasse a existência da América ou da África, não conseguiria riscá-las
da face do globo, mas subsistiriam, não obstante minha negação. Negai, negai
quanto quiserdes a existência do inferno, que apesar disso o inferno continuará
a existir e a queimar as suas vítimas, e um dia se abrirá para vós e vos
sepultará naquelas chamas, se vos não corrigirdes de vossas desordens. A vossa
fanfarrice e a vossa negação estulta não apagarão certamente aqueles ardores
sempiternos, ao contrário, servirão para os aumentar e fazer-vos afundar mais
naquele abismo. Quanto mais vos obstinardes na infidelidade e na negação do
inferno, tanto mais acumulareis pecados e culpas para expiar na eterna prisão.
*
*
*
Uma
ocasião, um infeliz, a quem se meteu na cabeça que não havia mais cárcere,
nem tribunal, começou a roubar e praticar iniquidades. Avisado várias vezes
pelos parentes e amigos, e ameaçado de prisão, replicava sempre que não havia
mais cárcere nem tribunal.
Sabeis
o que aconteceu? o que já se esperava: dois policiais o prendem; é processado
e condenado às galés por tôda a vida.
Eis
aí a história de todos os ímpios; abandonam-se aos vícios, acariciam as paixões,
cometem pecados e mais pecados, dizendo que tudo acaba com a morte e, no
entanto, caem no eterno abismo. E Santa Tereza viu que caíam em grande número,
como flócos de neve em dias de inverno!
*
*
*
Monsenhor
Ségur conta um fato bastante curioso, acontecido na escola militar de S. Ciro,
nos últimos anos da Restauração.
O
Padre Rigolot, capelão do estabelecimento, prègava um retiro espiritual aos
alunos, que se reuniam por isso tôdas as tardes na capela, antes de subir ao
dormitório. Uma das tardes, em que o bom do padre falara do inferno, terminada
a função, tomou a lanterna e se retirou para o seu aposento; e quando abria a
porta do quarto, percebeu que o chamava alguém que o seguia pela escada. Era um
velho capitão de bigode grisalho e de maneiras pouco gentis.
–
Desculpe, sr. Padre, lhe falou com ar de zombaria; V. R. fez-nos agora pouco um
magnífico discurso sôbre o inferno. Mas se esqueceu de nos dizer se lá nós
seremos cozidos, assados ou fritos. Poderia dizer-me?
O
capelão, percebendo que se tratava de um zoilo, fitou-o sériamente, e depois
enfiando-lhe sob o nariz a lanterna que trazia, respondeu com tôda a calma:
–
Haveis de ver, sr. capitão.
Dito
isto, fechou a porta; sem poder refrear o riso pela figura ridícula daquele
estróina.
Não
pensou mais nisso, mas daí por diante notou que o capitão fugia dêle.
Entretanto,
veio a revolução de julho e extintas as capelanias militares, o Arcebispo de
París nomeou o Padre Rigolot para outro cargo, não menos importante.
Passados
quase vinte anos, o venerando sacerdote entretinha-se com os amigos numa tertúlia,
quando um velho de bigode, branco, fazendo-se encontradiço, cumprimentou-o e
perguntou se era o Padre Rigolot, ex-capelão da escola de S. Ciro. Obtida
resposta afirmativa:
–
Oh! senhor padre, diz-lhe comovido o velho militar, permita-me que lhe aperte a
mão e que exprima o meu reconhecimento; o senhor me salvou.
–
Eu?! de que modo?
–
Oh! não me conhece mais? Não se lembra do ocorrido naquela noite, que um capitão,
instrutor da escola, a propósito de seu discurso sôbre o inferno, lhe fez uma
pergunta estúpida e V. R., pondo-lhe a lanterna sob o nariz respondeu: –
“Haveis de ver, capitão?”
Aquele
capitão sou eu; sabia que desde aquela ocasião suas palavras não me saíram
mais da mente, como não me abandonou mais o pensamento que eu devia ir para o
inferno. Lutei contra mim mesmo por dez anos; ao cabo dos quais, rendi-me a
Deus, confessei-me e agora tornei-me cristão e cristão à militar, isto é,
franco, sem respeito humano. A V. R. sou devedor de tanta ventura e folgo muito
de poder encontrá-lo para manifestar-lhe o meu reconhecimento.
*
*
*
O
Padre Bach, na vida de S. Francisco de Jerônimo, narra a triste sorte duma
mulher incrédula que zombava do inferno e dos novíssimos. O fato não deixa
nenhuma dúvida, pois foi juridicamente provado no processo de canonização do
santo, e atestado com juramento por muitas testemunhas oculares.
No
ano de 1707, S. Francisco de Jerônimo prègava, como de costume, nos arrabaldes
de Nápoles, falando sôbre o inferno e os terríveis castigos reservados aos
pecadores obstinados. Uma mulher insolente, morava na redondeza, aborrecida com
aqueles sermões, que lhe acordavam no coração amargos remorsos, procurou
molestá-lo com chascos e gritos, desde a janela de sua casa; uma vez, o santo
lhe disse: – Ai de ti, filha, se resistes à graça! não passarão oito dias,
sem que Deus te castigue.
A
desaforada mulher não se perturbou por aquela ameaça e continuou a com suas más
intenções. Passaram-se oito dias, e o santo foi prègar de novo perto daquela
casa, mas desta vez as janelas estavam fachadas e ninguém o importunava. Os
vizinhos que ouviam consternados lhe disseram que Catarina (tal era o nome
daquela péssima mulher) tinha morrido de improviso, pouco antes.
–
Morreu? disse o servo de Deus; pois bem, agora nos diga de que valeu zombar do
inferno; vamos perguntar-lhe.
Os
ouvintes sentiram que essas palavras o santo as pronunciara com inspiração, e
por isso todos esperaram um milagre. Acompanhado da multidão subiu à sala,
convertida em câmara ardente, e após breve oração, descobriu o rosto da
morta e:
–
Catarina, gritou, diz-nos onde estás!
A
esta ordem, a defunta ergue a cabeça, abre os olhos, toma côr o seu rosto, e
em atitude de horrível desespêro, profere com voz lúgubre estas palavras:
–
No inferno! eu estou no inferno!
Imediatamente
cai e volta ao estado de frio cadáver.
Eu
estava presente ao fato, afirma uma das testemunhas que depuseram no tribunal
apostólico, mas não saberia explicar a impressão que causou em mim e nos
circunstantes; ainda hoje, passando perto daquela casa e olhando a tal janela,
fico muito impressionado. Quando vejo aquela funesta moradia, parece-me ouvir a
lúgubre voz: – No inferno! eu estou no inferno!
CAPÍTULO
VI
Não
voltou ninguém do outro mundo para nos dizer que existe a eternidade
Não
há tal. Se consultardes a História, vereis como frequentes vezes Deus
permitiu, em todos os tempos viesse alguém dizer-nos da existência das
verdades que Ele revelou. Muito de indústria êsses doutores da impiedade
omitem o estudo dos fatos; e depois sentenciam do alto de suas cátedras que
nunca ninguém levantou a cabeça da sepultura para nos dizer que existe algo
depois da morte.
A
história da Igreja na Polônia registra um fato importantíssimo, sucedido em
1070, com Santo Estanislau, bispo de Cracóvia. Trata-se duma prodigiosa
ressurreição, perante muita gente, numeroso clero e magistrados.
Boleslau,
rei ímpio e cruel, movera contra o santo bispo Estanislau uma feroz perseguição;
entre outras coisas, acirrou de ódio contra o Bispo os herdeiros de um Pedro
Miles, que tinha morrido três anos antes, deixando para a Igreja uma de suas
terras. Os herdeiros, certos do apoio do rei, processaram o santo, e tendo
subornado ou intimidado as testemunhas, conseguiram que Estanislau fosse
condenado à restituição do terreno.
O
santo, vendo que falhava a justiça dos homens, apelou confiantemente para a de
Deus e conseguiu suspender a condenação, prometeu chamaria como testemunha o
próprio testador que jazia havia três anos na sepultura. Com efeito, depois de
três dias de jejum e orações, o santo Bispo se dirige com todo o clero à
sepultura de Pedro Miles.
Aberto
o túmulo, encontraram, como se previa, poucos ossos num monte de pó, e já os
adversários se alegravam, certos da vitória.
Mas
o santo com voz majestosa ordena ao cadáver que ressuscite, em nome d’Aquele
que é ressurreição e vida; e num pronto aquêles ossos se aproximam,
cobrem-se de carne, na presença de uma imensa multidão possuída de grande
terror.
O
Bispo tomou-o pela mão e o levou diante de Boleslau para certificar a verdade
da doação feita, confundindo destarte o rei e os herdeiros.
Perguntou-lhe
depois se preferia voltar à sepultura ou viver ainda alguns anos na terra; êle
respondeu que, conquanto pelos seus inúmeros pecados estivesse no purgatório,
onde sofria muito, preferia tornar a morrer do que ficar nesta terra tão miserável
em que poderia sempre ocorrer o perigo de se condenar eternamente.
Suplicando
as orações do santo bispo para se libertar logo do purgatório, foi levado
processionalmente ao seu sepulcro, aí entrou e ficou no estado de antes.
*
*
*
Na
vida de S. Bruno, fundador dos Cartuxos, lê-se a ressurreição momentânea de
uma personagem respeitável para atestar diante de muita gente a própria
condenação. París e tôda a França ficaram horrorizados com êsse
acontecimento; foi, então, que Bruno temendo os juízos divinos retirou-se para
a Cartuxa a fim de lavar vida austerríssima.
Morreu
Raimundo Diocres, doutor de Sorbona, homem conceituadíssimo pela sua vasta ciência,
não menos por uma aparência de virtude. Depois de três dias, o seu corpo,
revestido das insígnias doutorais, foi transportado solenemente para ser
sepultado; acompanhavam-no o colégio dos professores, grande número de
estudantes e teoria de clero.
As
exéquias celebraram-se na catedral, revestida de luto, entre luzes e muitas
inscrições que lembravam a insígne ciência e as virtudes do ilustre extinto.
Mas quando o coro dos cantores chegou àquele trecho do ofício: Responde
mihi: quantas habeo iniquitates et peccata; scélera mea et delicta ostende mihi;
onde o santo Job roga a Deus lhe faça conhecer as suas culpas, o cadáver
levantou a cabeça e féretro e com voz lastimosa exclamou: Por justo juízo de
Deus sou acusado: dito isto, tornou a repousar a cabeça, como dantes.
Apoderou-se
dos assistentes um terror geral, e resolveram deixar para o outro dia os
funerais. Neste dia foi muito maior a concorrência; recomeçou-se o ofício, e
ao chegar às mesmas palavras, tornou o cadáver a erguer a cabaça e a exclamar
com voz esforçada e mais lastimosa: Por justo juízo de Deus estou julgado.
Subiu
de ponto o pasmo e o espanto. Resolveram diferir a inumação para o terceiro
dia. Nesta foi imenso o concurso; deu-se princípio ao ofício, como nos
precedentes; quando se cantavam as mesmas palavras, levantou o defunto a cabeça,
e em voz horrível e espantosa exclamou: Não careço de orações; por justo juízo
de Deus estou condenado ao fogo eterno.
É
fácil compreender a impressão que faria nos ânimos um acontecimento tão
extraordinário. Achava-se Bruno presente a êste espetáculo; tão fortemente
se emocionou com êle que, retirando-se horrorizado, resolveu deixar quanto
tinha e enterrar-se em algum espantoso deserto para ali passar a vida entregue
unicamente aos rigores da mortificação e da penitência. Parecia necessário
um sucesso tão trágico para uma resolução tão generosa.
*
*
*
O
nosso século foi também fecundo de aparições de além-túmulo e já narramos
algumas. A que vamos agora narrar com as palavras de Monsenhor Ségur, foi
confirmada por um sinal deixado numa porta, sinal êsse que até ora se conserva
religiosamente. Quem não crê, pode ir ao lugar onde o fato se deu e interrogar
as testemunhas oculares que ainda vivem. (*Aqui
e em outros lugares o Autor fala de testemunhas ainda vivas, as quais podem ser
consultadas: é bom notar que o Servo de Deus André Beltrami viveu no século
XIX e o presente opúsculo foi escrito em 1897).
Parece que Deus na sua bondade, como crescer da incredulidade e da libertinagem,
aumenta os testemunhos das verdades terríveis do juízo e do inferno, para
confirmar na fé os cristãos e preservá-los da impiedade.
A
4 de novembro de 1859, morreu de apoplexia fulminante no convento da
Franciscanas de Foligno uma boa irmã, camada Teresa Gestas, que por muitos anos
fôra mestra das noviças e ao mesmo tempo encarregada de superintender à pobre
rouparia do convento. Nascera na Córsega em 1797 e entrara na Ordem em
fevereiro de 1826; fôra supérfulo dizer que estava convenientemente preparada
para a morte.
Doze
dias depois, precisamente aos 16 de novembro, uma irmã, de nome Ana Felicidade,
que a substituiria no cargo, subiu à rouparia e estava para entrar quando ouviu
gemidos que pareciam vir do interior do quarto. Um tanto assustada, abriu a
porta, ninguém! mas, ouviu novos gemidos e tão distintos que apesar de sua
coragem comum, a irmã ficou com mêdo.
“Jesus!
Maria! Gritou ela, que é isso?”
Não
acabou de falar quando ouviu uma voz que dizia: – “Ó meu Deus, quanto
sofro!”
A
irmã, atônita, reconheceu a vos da irmã Teresa.
Então
o quarto se encheu de fumaça densa, e a sombra da irmã Teresa apareceu em ato
de se dirigir para a porta arrastando-se ao logo da parede; e chagando à porta
disse: – “Eis um sinal da misericórdia de Deus”; e assim falando, tocou
com a palma da mão a porta e a deixou impressa em traço carbonizado; e
desapareceu.
Irmã
Ana Felicidade, toda nervosa, morrendo de mêdo, começou a gritar e pedir
socorro. Correu uma de suas irmãs de hábito, outra, depois tôda a comunidade;
fizeram-lhe roda, incomodadas, com os gritos e com o tresandar de madeira
queimada. Irmã Ana contou o que tinha sucedido e mostrou a forma da mão da irmã
Teresa, que era bem pequena; então aterrorizadas, mais que depressa foram a
igreja para rezarem pela defunta, e pela mesma intenção passaram a noite na
oração e na penitência, e na manhã seguinte receberam a Comunhão.
A
notícia espalhou-se fora de casa e diversas comunidades religiosas daquela
cidade uniram suas orações às das Franciscanas.
No
dia seguinte, 18 de novembro, irmã Ana Felicidade, entrando na cela para o
repouso, ouviu que a chamavam pelo nome e reconheceu a voz de irmã Teresa; viu
então aparecer um globo de luz, iluminando o quarto como se fôra meio-dia, e
ouviu distintamente a voz de irmã Teresa, que jubilosa lhe falou: – “Morri
numa sexta-feira, dia dedicado à paixão e numa sexta-feira vou para a glória:
sêde forte no levar a vossa cruz, sêde corajosa no suportá-la; amai a
pobreza; e com muito afeto ajuntou: – “adeus! adeus! adeus!” Dito isto,
transfigura-se em uma nuvem leve, branca, deslumbrante, alteia-se para o céu e
desaparece.
O
bispo de Foligno e os magistrados da cidade procederam a um inquérito canônico
para averiguar o fato, e no dia 23 de novembro, na presença de muitas
testemunhas, aberto o túmulo de irmã Teresa reconheceram que o sinal gravado
com o fogo na porta era plenamente conforme a mão da defunta. O resultado dêsse
inquérito foi uma declaração oficial, a qual atestava a certeza e a
autenticidade do que referimos. A porta com o sinal se conserva com veneração
no convento para testemunhar a aparição.
CAPÍTULO
VII
A
vida futura é um programa insolúvel, um programa talvez invencível
São
as fórmulas estereotipadas que a impiedade põe na bôca dos que seguem a
estrada do vício. No entanto, como se enganam! O problema da vida futura foi
plenamente resolvido pela revelação divina e não nos deixa a menor dúvida. Não
um homem sujeito a erros, mas o mesmo Deus nos deu a conhecer o que nos espera
depois da morte, Deus, a verdade por essência, que não pode enganar-se, nem
enganar.
Mas
suponhamos por um instante que haja alguma dúvida, e que a existência dos
eternos suplícios seja tão sòmente provável; eu pergunto a quem tem um
pouquinho de juízo, se alguém apoiando-se num talvez,
pode expôr-se ao perigo de cair naquele fogo terrível. Não é verdadeira
loucura arriscar a salvação eterna? Não conviria até neste caso fazer penitência
para evitar o perigo provável de ser infeliz para sempre? Não seria prudente o
caminho mais seguro?
Dois
incréus entraram um dia na cela dum anacoreta e vendo uns instrumentos de penitência,
perguntaram-lhe porque vivia assim tão austeramente.
–
Para merecer o paraíso, respondeu o anacoreta.
–
Bom Padre, lhe disseram êles sorrindo, V. R. sairá logrado se depois da morte
não houver mais nada.
E
o santo homem olhando-os com ar de compaixão:
–
Maior o logro de vossas senhorias, se depois da morte houver alguma coisa!
*
*
*
Narra
o Padre Schouppe, que um jovem, pertencente a uma família católica da Holanda,
por causa de leituras perigosas, teve a desgraça de perder o tesouro da fé e
cair em completa indiferença; pelo que seus pais, e especialmente sua mãe,
mulher de grande piedade, estavam tristíssimos. Debalde lhe repetia, qual nova
Mônica, as mais graves verdades da nossa Fé, em vão o exortava com as lágrimas
nos olhos a volta a Deus; êle se torna surdo e insensível a tudo.
Mas,
só para agradar a mãe, resolveu passar uns dias numa casa religiosa para fazer
retiro espiritual, ou, como êle mesmo dizia, retirar-se um pouco para fumar
mais sossegado. Ouvia muito distraidamente os sermões que se faziam aos
retirantes; logo depois ia fumar, pouco se importando de meditar no que ouvira.
Veio a meditação sôbre o inferno, que parecia ter êle ouvido como as outras,
mas voltando para a cela, enquanto fumava como de costume, surgiu-lhe na mente,
mau grado seu, essa reflexão:
–
“Se de fato existe evidentemente será para mim… e afinal de contas, como
sei que não existe? Devo confessar que não tenho nenhuma certeza a êsse
respeito, que para estribar as minhas idéias não tenho senão um talvez.
Isso de expôr-se por um talvez ao
perigo de sofrer por tôda a eternidade é mesmo uma extravagância sem limites;
se há tais néscios, não quero imitar.”
Dessas
reflexões passa à oração; a graça penetra na sua alma, dissipam-se-lhe as dúvidas
e levanta-se convertido.
CAPÍTULO
VIII
Se
eu for para o inferno não estarei só
Não
há dúvidas se tivesse a desgraça de cair no inferno (que Deus tal não
permita!), não ficarás sozinho. Terás a companhia de milhares e milhões de
outras almas desventuradas que trilharam o caminho do vício, terás a companhia
dos perseguidores da Igreja, dos hereges, dos apóstatas, terás a companhia de
Lúcifer e de uma turba imensa de demônios. Mas esta miserável sociedade
diminuirá talvez o sofrimento, ou ao menos dar-te-á algum conforto? Como te
enganas!
Na
terra, quando somos golpeados pela infelicidade ou pela doença, é um alívio
saber que outros são visitados pela mesma desgraça: o seu exemplo nos dá fôrça
para tolerar com paciência os nossos males, e dizemos: – “Coragem! há
outros mais infelizes do que eu: a cruz é a companheira inseparável da nossa
peregrinação”.
Mas
êste alívio não o terão os condenados: uns serão de tormentos aos outros,
como os espinhos amontoados num grande feixe se ferem mùtuamente, como os tições
numa enorme fornalha se acendem e se queimam uns aos outros.
Diz
S. Boaventura que os homens morreriam de medo se vissem a um condenado com tôda
a sua hediondez. O que não será, então, encontrarem-se juntos tantos réprobos
que servirão de algozes uns aos outros!
Lá
se encontrarão misturadas a impureza, a intemperança, a blasfêmia, a soberba,
a injustiça e todos os pecados que são a corrupção das almas; a tôda essas
imundícies morais, acrescentam-se o mau cheiro e os miasmas dos corpos que serão
como cadáveres em decomposição. E se tiveres tido a desgraça de dar escândalo
com o teu mau exemplo, ah! então essas almas te rodearão como fúrias para te
atormentar, exprobrando-te por tôda a eternidade a sua condenação, da qual tu
foste a causa.
“Pai
desnaturado, dirá o filho, tu me deste a vida, mas em vez de me educares na
virtude, me ensinaste o vício e a irreligião: sê maldito para sempre. Por tua
causa sofro nestas chamas. – Filho desgraçado, dirá o pai, para te
enriquecer e legar muito, traí a justiça; o amor desordenado para contigo foi
a causa de minha condenação. – Companheiro traidor, dirá o amigo, tu me
roubaste a inocência, ensinando-me a malícia.
Se te não tivesse conhecido, não estaria condenado.”
E
assim dizendo se atirarão uns sobre os outros para se vingarem e desabafarem a
raiva que os devora. E os demônios tomarão formas horríveis para os
atormentar e não lhes darão um instante de trégua.
Eis
aí pra que servirá a companhia de muitos!
Se
eu for para o inferno, não estarei só! dizes. Então, tu crês no inferno, crês
naquele fogo eterno, nos sofrimentos indizíveis, nos remorsos cruéis, naquele sempre
e naquele nunca terríveis, e queres
ir para lá só porque outros vão? Pode haver maior estultícia, demência mais
extravagante?
Irias
para a cadeia, só porque outros estão encarcerados? Queres adoecer, porque há
muitos doentes? Quem fala dêsse modo, certamente não reflete no que diz.
Condenar-se porque outros se condenam!
E
então, porque não ir para o paraíso para gozar aquelas delícias inefáveis
que nenhum homem jamais experimentou, para contemplar aquelas belezas que nenhum
mortal jamais viu, para ouvir aquelas harmonias que nenhuma criatura jamais
ouviu? Também no paraíso não estaremos sòzinhos. Teremos a companhia de Deus
e dos Anjos, de Maria SS. E dos Santos.
Se
no inferno se sofrem todos os tormentos que a justiça de Deus irritada soube
inventar, no paraíso gozam-se tôdas as delícias que a sua misericórdia pôde
encontrar, ou melhor, é o mesmo Deus que se manifesta aos eleitos para arrebatá-los
num êxtase de louvor e admiração eterna. Mas, para ir para o céu, é preciso
deixar o pecado, praticar a virtude e frequentar os santos sacramentos.
CAPÍTULO
IX
Lembrança
salutar do inferno
O
pensamento do inferno é fecundo de magnânimas resoluções. Quantos se
santificaram meditando naquele terrível sempre e naquele terrível nunca!
Quantos deixaram o pecado e se entregaram à virtude ouvindo um sermão sôbre o
inferno! A lembrança daquelas chamas eternas dava fôrça aos mártires para
suportarem os mais cruéis tormentos e caminharem alegres para a morte. Quem
pensa no inferno suportará com paciência os males dêste mundo, reputando-os
insignificantes em comparação com os da eternidade.
O
Padre João Eusébio Nierenberg, glória da Igreja de Espanha pela doutrina,
pela santidade, pela direção esclarecida de muitas almas, teve dez anos antes
de morrer tantos sofrimentos e tão excessivos que passava por certo envenenado
da Babilónia! Ele trilha a passos agigantados a caminho da perdição; e como
é difícil deter-se e voltar atrás!
E
êste pecado traz muita vez consigo o sacrilégio, mormente nos jovens.
Confessam-se sem dificuldade das culpas cometidas contra a obediência, a
caridade as outras virtudes; mas têm vergonha de revelar ao confessor as faltas
cometidas contra a bela virtude. O demônio tira-lhes a vergonha no ato de
cometer o pecado e depois lhes restitue no momento da confissão. E então
comentem um sacrilégio, depois outro e mais outro, até que a justiça divina
cansada, abre para êsses infelizes a porta do inferno.
Sirvam
os seguintes exemplos para causar salutar temor e preservar-nos de impureza e de
sacrilégio.
*
*
*
Santo
Antônio de Florença refere nos seus escritos um fato terrível, que pela
metade do século XV encheu de pavor todo o norte da Itália.
Um
rapaz de boa família, que na idade de 16 para 17 anos tivera a desgraça de
calar na confissão um pecado mortal e de comungar nesse estado, ia adiando, de
semana em semana, de um mês para outro, a confissão para êle tão penosa dos
seus sacrilégios. O santo arcebispo não menciona qual fôsse o pecado oculto,
mas parece que tenha sido uma culpa grave contra a bela virtude. Atormentado
pelos remorsos, em vez de descobrir com sinceridade a sua miserável condição,
procurava a paz fazendo grandes penitências; mas inutilmente.
Não
agüentando mais os contínuos assaltos da consciência entrou num convento,
pensando: – Lá, ao menos, confessar-me-ei bem e farei penitência dos meus
pecados: Por sua desgraça foi recebido como um moço de vida exemplar, pois os
superiores sabiam da boa reputação de que gozava; e por isso, também aqui a
voz da consciência para outra ocasião, e dois, três anos passou-se em tal
deplorável estado, sem ter a coragem de se confessar.
Afinal
uma doença parecia-lhe trouxesse oportunidade: – Desta vez, dizia consigo o
infeliz, manifesto tudo e faço uma confissão geral antes de morrer.
Mas,
também desta vez não foi sincero na acusação; fez tantos rodeios que o
confessor não compreendeu nada; esperava confessar-se melhor no dia seguinte,
mas surpreendido por uma crise, expirou miseràvelmente nesse estado.
Na
comunidade, ignorando todos o seu triste fim, cercaram de veneração o defunto;
o corpo foi transportado para a igreja do convento, onde ficou exposto no côro
até as matinas do dia seguinte, quando se fariam as exéquias.
Uns
minutos antes da hora marcada para a cerimônia, a um dos frades que fora tocar
o sino aparece o morto amarrado de correntes afogueadas com não sei que de
incandescente que lhe transparecia em tôda a pessoa. O frade caíu de mêdo,
mas cravou o olhar naquela terrível aparição; então o réprobo lhe falou:
– “Não rezeis por mim, que estou no inferno para sempre.” E contou-lhe a
lamentável história de sua maldita vergonha e dos seus sacrilégios. Depois
desapareceu, deixando na igreja um odor pestífero que se espalhou por todo o
convento, como para atestar a verdade do que o frade tinha visto e ouvido.
Advertidos
os superiores fizeram remover de aí o cadáver, julgando-o indigno de sepultura
eclesiástica.
*
*
*
Narram
as crónicas de S. Bento de um solitário de nome Pelágio, que encarregado pelo
pai da guarda do rebanho, levava vida exemplar, tanto assim que todos lhe
chamavam santo. Assim viveu muitos anos. Mortos os pais, vendeu as poucas coisas
que lhe deixaram, e se retirou para o ermo.
Uma
ocasião teve a desgraça de consentir num pensamento desonesto. Cometido o
pecado, caiu em profunda melancolia porque não queria confessá-lo, para não
perder a fama em que era tido. Resolveu fazer penitência, sem confessar o
pecado, iludindo-se a si mesmo que Deus talvez lhe perdoasse sem confissão.
Entrou num convento, onde foi recebido pela sua boa fama, e aí viveu vida
austera. Chegou a hora da morte e êle se confessou pela última vez; mas como
por vergonha ocultara o pecado durante a vida, assim deixou de o contar na hora
da morte. Depois de receber o viático morreu e foi sepultado como o mesmo
conceito de santo.
Na
noite seguinte o sacristão encontrou o corpo de Pelágio em cima da sepultura e
o enterrou outra vez; como, porém, o encontrasse desenterrado três noites
consecutivas, avisou o abade, o qual foi ao sepulcro com outros frades, e:
–
Pelágio, disse, tu foste sempre obediente durante a vida, obedece-me também
agora depois de morto; dize-me: é talvez vontade divina que o teu corpo tenha
lugar reservado?
O
infeliz defunto dando um formidável grito respondeu:
–
Ai! eu estou condenado por um pecado que não confessei; olhe, snr. abade, para
meu corpo.
E
o seu corpo, nêsse instante, apareceu como um ferro em brasa, que mandava
chispas. Todos fugiam espavoridos; mas Pelágio chamou o abade para que lhe
tirasse da bôca a partícula consagrada que ainda se achava aí. Depois disto,
Pelágio disse que o tirassem da igreja e o lançassem no monturo, e a ordem foi
executada.
*
*
*
Conta
o Padre João Batista Manni, jesuita, que houve uma pessoa que por muitos anos
calou na confissão um pecado de desonestidade.
Passaram
por aquêle lugar dois frades dominicanos; ela, que sempre esperava um confessor
estranho, pediu a um dêles que a ouvisse em confissão. Saindo da igreja, o
companheiro contou ao confessor, que observara que, enquanto aquela senhora se
confessava, saiam de sua bôca muitas serpentes; mas, que uma enorme serpente
apenas pôs para fora a cabeça e entrou de novo; e então voltaram tôdas as
outras.
O
confessor, suspeitando o que isso pudesse ser, correu à casa daquela senhora;
na porta lhe disseram que ela ao chegar à sala caira morta.
Depois
disto, apareceu-lhe, durante a oração, a pobre mulher vestida de fogo e disse:
– Eu sou aquela mulher que me confessei contigo, cometendo um sacrilégio; eu
tinha um pecado que não queria confessar aos sacerdotes da cidade; Deus mandou
um confessor de fora, e foste tu, mas também nessa ocasião deixei-me vencer
pela vergonha e logo a justiça divina me castigou, tirando-me a vida apenas
cheguei à casa, e justamente me condenou ao inferno.
Tendo
assim falado, abriu-se a terra onde se precipitou e desapareceu para sempre.
*
*
*
O
Padre Martinengo, no seu livro da Primeira Comunhão, conta também um fato que
aqui reproduzo com as próprias palavras.
Numa
paróquia de França celebrava-se a festa de Primeira Comunhão das crianças.
Estava já o celebrante distribuindo a comunhão, quando, de repente, um menino,
apenas recebeu a sagrada Partícula, caíu no chão. O socorro não se fez
esperar. O menino estava frio como cadáver, sem conhecimento e sem fala. Levado
nos braços para uma casa próxima e deitado numa cama, procuram reanimá-lo.
Vem o médico, que tudo faz para que o menino volta a si. Debalde!
Entretanto,
terminada a função, chega o padre que tanto o amava, senta-se à cabeceira,
chama-o pelo nome, sacode-o até. Nenhum sinal de vida.
–
Ah! coitadinho! Que teria acontecido? Estará mesmo morto? eram as perguntas que
então se faziam.
Não;
não tinha morrido, mas era moribundo. Depois de convenientemente medicado, o
menino se mexeu, abriu os olhos e olhou estonteado os circunstantes. Momentânea
alegria se difundiu no semblante de todos. O bom padre deu um grande suspiro de
esperança e consolação, e começou a acariciar o menino e a confortá-lo com
santas e afetuosas palavras.
–
Filho, te sentes mal, não é? Coragem! sofre com paciência. Jesus a quem
recebeste te ajudará com certeza.
Ouvindo
êsse nome, o menino torna-se lívido, olha assustado para o padre e prorrompe
nestas palavras de desespêro: – Ai de mim! cometi um sacrilégio!
Assim
dizendo, vira sinistramente os olhos, cerra os dentes, range-os, e fazendo
esgares volta-se para o lado da parede e expira.
*
*
*
Conta
o Padre Francisco Rodrigues, e o traz também Santo Afonso, um fato acontecido
na Inglaterra, quando aí dominava a religião católica.
O
rei Anguberto tinha uma filha que por sua airosidade fôra pedida em casamento
por muitos príncipes. Mas a princesa recusou terminantemente, pois fizera voto
de castidade. O pai pediu para ela dispensa de Roma, mas a filha ficou firme no
propósito de não se casar dizendo que não queria outro esposo senão Jesus
Cristo; e ao mesmo tempo pedia ao pai permissão de viver afastada do mundo; o
pai, que a estimava muito, condescendeu dando-lhe uma casa e côrte
convenientes. Começou então uma vida santa de oração, jejum e penitências;
frequentava os sacramentos e muitas vezes ia prestar serviços aos doentes dum
hospital vizinho. Nêsse teor de vida morreu, apesar dos seus verdes anos.
Certa
vez uma senhora, que tinha sido sua criada, ouviu, durante a oração da noite,
um rumor estranho e depois viu aparecer subitamente uma alma em figura de
mulher, no meio do fogo e acorrentada entre muitos demônios, que se apresentou
assim:
–
Eu sou a infeliz filha de Anguberto.
–
Como? perguntou assustada a aia; vós, condenada após uma vida tão santa?
Replicou
a alma; – Fui justamente condenada por minha culpa.
–
Sendo ainda criança tive a desgraça de cair num pecado desonesto. Fui
confessar-me, mas a vergonha fechou-me a bôca e em vez de revelar candidamente
o meu pecado, eu o cobri de jeito que o confessor nada compreendeu, e cometi um
sacrilégio. Depois comecei a fazer penitências, a das esmolas, para que Deus
me perdoasse, mas sem confissão. Em artigo de morte disse ao confessor que tu
tinha sido uma grande pecadora. O padre ignorando o meu estado respondeu-me que
devia repelir êsse pensamento como uma tentação; logo depois expirei e fui
condenada para sempre, às chamas do inferno.
E,
dizendo isto, desapareceu, mas com tanto estrépito que parecia derrubar a casa,
deixando no quarto um mau cheiro insuportável, que durou por muitos dias.
*
*
*
O
terceiro pecado que arruína tantos cristãos é a blasfêmia. E como se tornou
comum no dia de hoje!
Se
um carroceiro não consegue fazer o seu animal andar vomita blasfêmia contra
Deus e contra os santos. Se um comerciante vai mal nos seus negócios dirige
imprecações contra os céus. Um jogador perde e então se ira fortemente
contra Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima. Não se pode sair de casa, sem que
os ouvidos e o coração se firam por blasfêmias. Mas, que mal nos fez Nosso
Senhor para o maldizermos? Não é Ele o nosso Criador, o nosso Redentor que
morreu na cruz para nos salvar, e que está pronto a derramar sôbre nós as
suas bênçãos celestes, se o amamos? Por que usamos mal dessa língua que nos
foi dada para cantar os seus louvores, profanando o seu santo nome?
A
blasfêmia é a linguagem do inferno. Os santos padres justamente indignados
pelos gravíssimos excessos que ela encerra chamam os blasfemos demônios em
carne. Ai de quem se habitua a blasfemar! Ele se encaminha a largos passos para
o inferno, pois multiplica pecados sôbre pecados, escândalos sôbre escândalos.
Em
alguns países católicos fundaram-se pias uniões que têm por escopo impedir
as blasfêmias, ou, pelo menos, fazer a reparação, bendizendo o santo nome de
Deus. Quando encontram algum infeliz que não sabe observar o segundo mandamento
da lei de Deus, o advertem caridosamente por si ou por meio de seus conhecidos,
mostram o mal que faz à própria alma, o escândalo que dá ao próximo e o
castigo que o espera, se não se corrige. São admiráveis os resultados que
conseguem tais pias uniões ou ligas e muito fôra para desejar que florescessem
em todos os países, em tôdas as cidades.
*
*
*
Reuniram-se
alguns soldados numa taberna de Voviano, na Lorena, e depois de terem bebido
demais, começaram a jogar. Um dêles tendo perdido muito levantou-se raivoso da
mesa e vendo por acaso uma imagem de Maria SS., pôs-se a desabafar a sua raiva
vomitando as mais nefandas blasfêmias contra a Mãe de Deus.
Mas
no mesmo instante, caiu no chão, com um horrível tremor em todos os membros e
com tão violentos espasmos nas vísceras que se contorcia e bramia como um leão
ferido. Três dias êle passou nesse estado, sem poder engolir nem alimentos,
nem remédio para acalmar um tanto aquelas dores horríveis, até que no quarto
dia, espumando de raiva e mordendo nervosamente a poeira morreu na presença de
seus companheiros, estarrecidos por êsse lutuoso espetáculo.
*
*
*
Sabendo
S. Leonardo de Porto Maurício que em Suzze, onde pregava as santas missões,
estava enraizado o vício da blasfêmia começou a falar com veemência contra
êsse enorme pecado.
Um
jovem devasso e grande blasfemo, riu-se das ameaças que Deus fazia por meio de
seu ministro; aconteceu que no dia seguinte, precisamente na hora do sermão, êle
passeava a cavalo pelas ruas da cidade; num dado momento levou uma forte quéda
e teve morte instantânea, ficando com a língua fora da boca.
Todos
conheceram o fato como castigo manifesto de Deus, o que serviu para incutir no
povo um grande horror à blasfêmia.
*
*
*
Lê-se
na Sagrada Escritura, que o soberbo e perverso Nicanor foi ferido de morte numa
batalha. Judas Macabeu, vendo-o tombar, mandou que o degolassem e arrancassem a
língua sacrílega que tantas blasfêmias proferira, atirou-a às aves, para
incutir temor nos blasfemos.
CAPÍTULO
X
Três
amplos caminhos que conduzem ao inferno: a desonestidade, o sacrilégio e a
blasfêmia
Todos
os pecados mortais são caminhos que vão dar no abismo eterno; há, porém,
alguns que fazem mais estragos e causa a morte a um maior número de almas. O
pecado de desonestidade é talvez o que mais povoa o inferno, porque é um
pecado muito grave, fácil de cometer, pela corrupção de nossa natureza, e
depois difícil de abandonar.
Santo
Agostinho diz que a soberba povoou o inferno de anjos e a desonestidade o enche
de homens. E Santo Afonso não receia afirmar que todos os cristãos que se
condenam, se condenam pela impureza, ou, pelo menos, não sem ela. Ai do jovem
que chega os seus lábio a êste cálice que êle os pedira a Deus para fazer
com merecimento o purgatório nesta vida. No auge da dor, todo encolhido pela
contração dos nervos, dizia; – “Dói muito, mas não é fogo, não é
fogo”. Crescia a tortura e aumentava a dor, “mas não era fogo”; à contração
dos nervos juntava-se a gota, “mas ainda não era fogo”. Por estar de cama
dez anos seguidos, dolorosas chagas cobriam-lhe o corpo aumentando o seu
sofrimento, contudo êle repetia sempre: – “não é fogo, não é fogo, e
acabará”. E assim se animava a suportar tudo com paciência por amor de Deus.
*
*
*
Um
santo solitário, assaltado por violenta tentação, temendo ser vencido,
acendeu o lume e para se compenetrar vivamente do pensamento do inferno, pôs os
dedos na chama e os deixou queimar, dizendo de si para consigo: – Uma vez que
tu queres pecar e merecer o inferno que será o castigo de teu pecado,
experimenta antes se és capaz de suportar o tormento de um fogo eterno.
*
*
*
Um
rico dissoluto, ainda que pelos seus inúmeros pecados vivesse em contínuo
temor do inferno, todavia não tinha coragem de romper com os seus maus hábitos
e de penitenciar-se. Recorreu, pois, a Santa Ludovina que então edificava o
mundo com a sua paciência e lhe pediu que fizesse penitência por êle.
–
De boa mente, respondeu a santa, oferecerei por vós os meus sofrimentos, com a
condição, porém, que uma noite inteira vós conserveis na cama a mesa posição,
sem vos moverdes de nenhum modo.
Aceitou
fàcilmente a condição, mas passada apenas meia hora, sentiu enfado e já
queria mover-se. Todavia não o fez; aumentando, porém, o mal-estar daquela
posição que lhe ia parecendo insuportável, cedeu. Então uma impressão
salutar se despertou no seu coração: – Se é tão molesto ficar imóvel num
leito cômodo por uma noite, oh! o que não será ficar deitado num leito de
fogo pelo espaço de uma eternidade? E terei ainda dúvida de me livrar dêsse
suplício com um pouco de penitência?
*
*
*
No
ano 285, duas matronas cristãs, Donvina e Teonila, foram levadas ao prefeito
Lisias que as intimou a renegarem a fé e abraçarem o culto dos ídolos. Elas
recusaram terminantemente. Então o prefeito mandou acender o fogo e erguer um
altar dos ídolos.
–
Escolhei, disse; ou queimar incenso aos nossos deuses, ou ser vós mesmas
queimadas nesta fogueira.
As
duas mártires responderam sem hesitar:
–
Nós não tememos êste fogo que daqui a pouco se apaga; tememos, sim, o fogo do
inferno que não se apaga nunca. Para não cair no inferno é que detestamos os
vossos ídolos e adoramos a Jesus Cristo.
E
assim sofreram o martírio.
*
*
*
Tomaz
Moor, o grande chanceler da Inglaterra, foi perseguido e ameaçado de morte por
ter recusado um juramento iníquo exigido pelo ímpio rei Henrique VIII.
Empregaram todos os meios para o seduzir, e, não valendo as promessas,
recorreu-se à violência. Foi atirado à prisão para que definhasse. Os amigos
o importunavam para ceder; a espôsa o conjurava a dobrar-se à vontade do rei,
e conservar assim a vida para o bem dêles e dos filhos.
–
Quantos anos, lhe disse êle, te parece que poderia ainda viver?
–
Mais de vinte, respondeu ela.
Tornou
o preso, mostrando-lhe severo semblante:
–
Pois, por vinte anos e tanto queres que venda uma eternidade?
Ele
foi, por isso condenado à morte. Este homem generoso, assim como tinha sabido
viver entre as grandezas da côrte sem fausto, soube também morrer no patíbulo
sem fraqueza. Antes de ser executado rezou o Miserére, e morrendo como forte
ensinou a todos que é preciso salvar a alma, a todo custo, porque perdida a
alma, tudo está perdido.
*
*
*
Apresentou-se
uma ocasião ao Papa Bento XI o embaixador de um grande soberano, pedindo em
nome do rei um favor, mas de tal natureza que não se podia conceder lìcitamente.
–
Deus sabe, respondeu o Pontífice, como desejo ardentemente contentar o vosso
imperador. E tão vivo é êsse desejo, que se tivesse duas almas, sacrificaria
de boamente uma para lhe conceder o favor que pede. Mas, dizei ao vosso soberano
que tanto só uma alma, e absolutamente não posso, não devo, não quero perdê-la
para agradar a êle.
Belas
palavras, que todo cristão deveria ter sempre presentes à memória e pronta na
bôca para semelhantes circunstâncias!
*
*
*
É
célebre a invenção usada por um rei piíssimo para fazer pensar mais
retamente a um cavalheiro de má vida. Convidou-o para uma soberba caçada.
Imediatamente depois da caça um jôgo de muitas horas. Acabando o jôgo,
convite para assistir a uma representação. O cortesão estava cansado; mas era
convite do rei e precisava aceitar. Depois do teatro que durou quatro horas, uma
embaixada anunciava uma sessão de músicos estrangeiros, e pedia ao cavalheiro
quisesse honrá-la com a sua presença. O pobre homem murmurou: – Parece que o
rei quer matar-me com tanta diversão; se vier mais um convite morro de verdade.
E
o quinto convite veio mesmo; no salão da côrte havia um baile e aí também o
rei o esperava.
–
Pobre de mim! ainda um baile? não posso mais ficar em pé!
E
excusou-se com o rei:
–
A bondade de Vossa Majestade me confunde. Mas, por amor de Deus, um pouco de
descanso; dezoito horas ininterruptas de diversão…
–
E vos parece muito? replicou ou rei. Não podeis então, aguentar dezoito horas
de divertimento e aguentareis a longa eternidade de contínuos sofrimentos não
variados, para os quais vos leva vossa vida?
*
*
*
O
Padre Cattaneo narra um fato para nos fazer compreender o mêdo que devemos ter
de nossa sorte futura. E todavia de nós depende a escolha!
Maomé
II, senhor dos turcos, aquêle que anexou mais de duzentas cidades ao grande império
de Constantinopla e invadiria a Itália se a morte lhe não frustrasse a realização
dos planos, foi homem crudelíssimo e sanguinário; de uma feita, achando falta
de um fruto no seu jardim, mandou reunir os criados para saber qual tinha sido o
delinquente, e porque nenhum dêles ousou confessar aquêle pequeno furto,
mandou abrir o ventre de todos para saber onde estava o corpo de delito; e foi
providência de Deus ter-se encontrado o fruto depois de mortos três servos;
senão, todos o outros seriam sacrificados.
Ora,
êste bárbaro rei fez um parque de caça reservado para si, num lugar onde
havia abundância de animais e aves; decretou pena de morte a quem ousasse caçar
nesse parque.
–
Para suceder no reino basta um; portanto, um se sacrifique para escarnamento de
todos e o outro se conserve para segurança da corôa. Mas qual dos dois merece
graça? O mais velho? Não! O menor? Não! Tirem a sorte.
Tirou-se
a sorte fatal com um majestoso e tremendo aparato. Na grande sala da côrte,
achava-se o rei, sentado no trono, rodeado pelos vizires, agás e pachás;
diante do trono duas mesinhas, uma fúnebre com o baraço, a outra coberta com
uma rica toalha, onde se viam o turbante, o colar e a espada. Um taboeiro com os
dados; aí foram conduzidos os príncipes para tirarem a sorte: quem obtivesse o
menor ponto cingiria a espada e colar; quem obtivesse maior, daria o pescoço ao
baraço.
Diante
daquele aparato os dois jovens desmaiaram; depois, com o fritilo na mão,
dirigiam tristes olhares para a corda e para a coroa; o coração de ambos batia
tão forte que levantava as vestes sôbre o peito, com afanosos e profundos
suspiros, com ânsias de moribundos, por causa da escolha fatídica – a corda
ou a coroa – que dependia de um ponto de jôgo e do lançar de um dado.
Quem
sente compaixão pela situação crítica em que se acharam êsses pobres príncipes,
dirija a compaixão sôbre si mesmo, e diga: – “Na hora da morte, na mesma
ou em pior situação me acharei eu. Duas infinitas eternidades terei diante de
mim; numa verei cetros, coroas, riquezas, alegrias, prosperidades, tudo para
sempre; noutra verei grilhões, infâmias, morte, e não passageiros, mas que
duram sempre. E o que caberá em sorte?
De
nós depende inteiramente a escolha: se vivermos bem teremos eternidade feliz,
se ao contrário, levamos vida má, caber-nos-á o fogo eterno, e desespêro
eterno e tôdas as outras penas de que já falamos.
CAPÍTULO
XI > Outras provas da existência do
demônio e do inferno
O
espiritismo, em suas várias manifestações, é também uma prova evidente da
existência do cárcere eterno. Se existe o espírito maligno e se êle se
manifesta por meio de mesas que falam ou giram e por meio de outros médiuns,
deve também existir o lugar de sua morada, isto é, o inferno com suas penas
atrozes.
Estranha
contradição! Os ímpios não prestam fé a Deus e à sua Igreja e crêem nas
imposturas do demônio, pai da mentira, que os engana nas sessões espíritas;
zombam do inferno e dos novíssimos e têm medo do número treze, ou do sal
derramado na mesa, como de um mau agouro; desprezam a Sagrada Escritura e
veneram os livrecos eu tratam de magia ou de sortilégio, não querem saber dos
santos ensinamentos da Igreja e dos seus ministros e vão consultar uma
cartomante ou um cigano para lhes revelar o futuro ou para curá-los. Assim é:
quando o homem fecha voluntariamente os olhos à verdade, abre-os ao êrro e à
mentira; enquanto espezinha a religião e ao seu Criador, nega o culto devido,
torna-se supersticioso e presta homenagem ao diabo e às coisas insensatas.
*
*
*
Outra
prova evidente da existência da prisão eterna e dos demônios, são as obsessões.
Satanaz,
em nossos dias, se incarna nos livros ímpios que ridicularizam a nossa santa
religião e difamam as religiões, os padres e os bispos; nos romances que
ensinam descaradamente o vício e espezinham a virtude; nas estátuas, nos
monumentos e nos quadros obscenos trabalhados sob o ridículo pretexto da arte,
como se arte não devesse respeitar a honestidade dos costumes e não fôsse
feita para civilizar e nobilitar o homem.
As
tipografias e as livrarias que publicam maus livros, a oficina dum artista que
reproduz nudez na tela, no mármore, ou no papel, as reuniões tenebrosas da maçonaria,
são querenças de Lúcifer.
Certos
escritores e certos propagadores de doutrinas anárquicas ou socialistas ou
ateus, parecem possuídos do espírito da mentira, tanta é a constância, a
imprudência, a ousadia com que espalham a baba dos seus erros. A sua pena é
molhada em veneno violento e torna-se na sua mão o punhal do assassino que mata
a alma e o corpo dos leitores.
Mas,
além dessas incarnações de Satanaz nos homens ímpios que servem a sua causa
e agem sob sua influência, houve, mesmo ùltimamente, verdadeiras obsessões.
Cito
um fato, do qual foi testemunha uma cidade inteira, fato extraído dum opúsculo
do advogado Feliz Sonelli; (*Teresa
Strigini ou “A famosa endemoninhada de Briga Novarense, publicada em Milão,
em 1877”.)
quem não crê pode ir interrogar as testemunhas oculares.
Teresa
Strigni nasceu em Briga, vilório de Novara, Itália, aos 20 de maio de 1832, e
a certa idade começou apresentar sinais de obsessão diabólica. Fechada em
casa, desaparecia e depois de muito tempo voltava e entrava sem abrir a porta.
Passava dias sem tomar alimento ou bebia e via o que acontecia em lugares
distantes; seu rosto tomava formas horríveis a ponto de amedrontar os mais
corajosos. Rumores misteriosos se ouviam em seu quarto; e muita vez tôda a casa
era sacudida como por um terremoto, derrubando as mobílias como se fôssem
palhas.
A
coitadinha ora parecia agonizante e prestes a exalar o último respiro; ora,
tinha tanta força que ninguém a dominava e até punha em fuga homens robustos
que acorriam para refrear-lhe a veneta, ou socorrê-la nas frequentes convulsões
de que era toada. Apesar de analfabeta, e sem nenhuma instrução, compreendia línguas
desconhecidas e demonstrava saber extraordinário.
Os
exorcismos produziam nela grande efeito e via-se claramente que o demônio
sentia o poder que Deus concedeu à sua Igreja. Quando os parentes e os vizinhos
não sabiam o que inventar para acalmá-la, chamavam o pároco para que
ordenasse a Satanaz com as fórmulas do Ritual que deixasse em paz a infeliz moça.
Sentia
também a influência e, às vezes terror das coisas benzidas, terços, imagens,
medalhas, água benta, como se fôsse tocada por um ferro em brasa.
Um
dia o sacerdote a interrogou:
–
Quem és tu? és um demônio?
–
Não, respondeu a voz terrível.
–
Em nome de Deus, quem és?
–
Um demônio.
–
És um daqueles soberbos precipitados do céu?
–
Sim.
–
Não é verdade, que apesar de tua arrogância sofres também aqui as penas do
inferno?
–
Sim.
Outras
vezes respondia que era uma legião. E na verdade, os fenômenos extraordinários
que sucediam em sua pessoa, no quarto, na casa, mostravam que devia haver mesmo
uma multidão de demônios.
Alguns
libertinos que zombavam do inferno e dos demônios foram examinar o fato e o
sarcasmo morreu-lhes nos lábios. Alguns até foram horrìvelmente maltratados e
outros ficaram gelados de medo quando viram pintado naquele rosto o desespêro
dos réprobos.
Repito:
Quem não quiser acreditar, consulte as testemunhas oculares. Mas, vêde a
estultícia: os ímpios não querem averiguar os fatos e continuam a escarnecer
dos dogmas da fé, até que, vindo a morte, as chamas devoradoras do inferno os
convençam da existência de um Deus que castiga o pecado e a iniquidade.
*
*
*
Na
vida de S. João Maria Vianney, mais conhecido pela expressiva alcunha de Santo
Cura d’Ars, lê-se a luta terrível que deveu sustentar contra satanaz,
furioso por causa das inúmeras almas que o santo sacerdote arrancava da eterna
perdição. A povoação de Ars foi testemunha do ocorrido e vivem ainda muitas
pessoas que poderiam confirmar o que relatamos.
O
demônio lhe aparecia sob formas horríveis para perturbar-lhe o breve repouso
que tomava num pobre catre. Às vezes a casa parecia invadida por uma turba de
leões, tigres e serpentes e pelos quartos e corredores ressoavam rugidos,
assobios e urros; outras vezes aparecia no meio das chamas; corriam os
paroquianos para salvar do incêndio o seu querido pastor, mas o fogo de súbito
se apagava. Os mais robustos e os mais corajosos experimentaram dormir na casa
paroquial, mas de noite fugiam de mêdo, enquanto o santo sacerdote, bem sabendo
que o demônio não pode fazer nenhum mal sem a permissão do céu, descansava
tranqüilo sob as asas da proteção divina.
Quando
operava uma conversão prodigiosa, a raiva da antiga serpente não tinha limites
e redobrava os esforços para vingar-se da presa perdida. Uma noite o demônio
ateou fogo no seu pobre leito, outra vez o atirou no chão com violência, sem
porém o machucar, e muitas vezes o chamava com voz rouca, reprovando a guerra
que lhe movia.
*
*
*
Na
vida de S. José Cottolengo se encontra também a aparição do nosso eterno
inimigo e vivem ainda muitas testemunhas. Geralmente todos os santos tiveram
lutas corporais e visíveis contra o príncipe das trevas, pelo zêlo que
mostraram na salvação do próximo e pelas vitórias que alcançaram do próximo
e pelas vitórias que alcançaram contra o mundo, a carne e o inferno. Portanto,
veio alguém do outro mundo a provar-nos a existência das verdades eternas:
veio até o chefe dos anjos rebeldes.
*
*
*
Na
história de S. João Batista de La Salle, benemérito fundador dêsses anjos da
juventude que se chamam Irmãos das Escolas Cristãs, narra-se que um cavalheiro
de nobre família levava vida mundana, pouco se lhe dando da salvação da alma.
Alistou-se
no exército, onde subiu fàcilmente de pôsto e obteve condecorações pelo seu
valor. Duma feita, foi ferido num combate; curaram-no remédios secretos, com
auxílio diabólico. Entrando uma vez numa igreja no momento preciso em que se
exorcizava um possesso, por curiosidade e para zombar da credulidade das pessoas
presentes, inesperadamente o demônio lhe dirigiu a palavra e disse:
–
Tu não crês no inferno e no demônio! Infeliz! sentirás um dia o seu poder.
Assustado
por essas ameaças e por ver que o espírito infernal tinha penetrado seus íntimos
pensamentos, que êle não revelara, caíu em si, voltou crente e decidido a
abandonar o mundo para ingressar no Instituto de São João de La Salle e fazer
penitência.
Naquele
santo retiro o esperava Satã. Abriram-se-lhe denovo as feridas, foi tomado de
dores atrozes e misteriosas, de frenesí e convulsões horríveis, de jeito que
nenhuma fôrça humana podia contê-lo. A comunidade vivia em sobressaltos. O
Santo notou no infeliz os sinais da obsessão; e exorcizando-o, intimou ao espírito
das trevas que saisse daquele corpo. O demônio ouviu a voz potente do ministro
de Deus e escabujando e urrando, abandonou o infeliz cavalheiro.
Na
vida do mesmo Santo se encontra o seguinte fato. Vivia em Ruão uma senhora de
nome Maillefer, tôda entregue às vaidades e aos prazeres do mundo, sem mesmo
pensar nos seus deveres de cristã. Gastava suas grandes riquezas em vestidos,
banquetes e teatros, caminhando a passos ligeiros pela estrada da perdição.
Aprouve,
porém, à bondade divina detê-la à beira do abismo e fazê-la instrumento das
suas misericórdias.
Um
dia, bateu à porte do palácio um pobre, doente e faminto.
Os
criados, embora conhecessem o coração duro da ama, deixaram-no entrar;
julgando que o seu mísero estado movesse à compaixão. Assim não foi, porém!
A cruel senhora o expulsou de sua casa, com asco, atirando-lhe em rosto estas
palavras: – Poltrão, vai trabalhar.
O
mendigo abaixou a cabeça e saiu cambaleando de fome e de fraqueza. À porta,
deu com o cocheiro, que sentiu doer-lhe o coração à vista de seus
padecimentos e levando-o à estrebaria, o socorreu como pôde.
Mas
o novo Lázaro morreu durante a noite, e na manhã seguinte os criados
encontraram o frio cadáver, em cujo semblante se percebiam as angústias e as
dores que padecera nos últimos momentos. A ama tendo notícia do acontecido
exasperou-se, despediu logo o compreensivo cocheiro e atirou aos criados o
primeiro lençol encontrado para que amortalhassem o defunto e sem mais o
sepultassem.
Passou
o resto do dia debaixo duma triste impressão, humilhada pela sua crueldade e
pelo que correria a seu respeito na cidade.
Qual
não foi a sua admiração quando, pondo-se à mesa, encontrou dobrado em sua
cadeira o lençol que tinha dado pela manhã. Julgou, de princípio, que não fôra
obedecida e ameaçou despedir os criados; mas êstes asseguraram que tinham
executado a ordem recebida e que êles mesmos depuseram na sepultura o cadáver
amortalhado com aquêle lençol.
Que
mão misteriosa teria colocado aí o véu fúnebre? É claro: o defunto recusou
depois da morte uma esmola daquela que lhe negou barbaramente em vida um auxílio,
e Deus tal permitiu para comover a infeliz pecadora. Realmente, ela compreendeu
a lição, mudou de vida, penitenciou-se e expirou placidamente no ósculo do
Senhor, cheia de confiança na misericórdia divina que acolhe um coração
contrito e humilhado.
*
*
*
S.
Felipe Néri ressuscitou momentaneamente um menino para dar-lhe azo de se
confessar.
Ele
amava ternamente Paulo Máximo, filho do príncipe romano Fabrício Máximo. O
menino tinha 14 anos quando adoeceu gravemente; o santo tendo revelação de sua
morte próxima, pediu à família que o chamasse à cabeceira do menino quando
estivesse no extremo da vida, porque desejava confortá-lo e prepará-lo para a
luta suprema.
A
doença se agravou e o pai mandou chamar a S. Felipe para que corresse a abençoar
o seu filho espiritual. Como, porém, estivesse celebrando a Santa Missa, a
criada deu o recado a um dos Padres do Oratório.
Nesse
ínterim o menino morreu e o santo, quando chegou ao palácio, encontrou-o cadáver.
Ajoelhou-se ao pé da cama e rogou com devoção por um quarto de hora, depois
aspergiu o rosto do menino com água benta, deitando-lhe umas gotas na boca.
Soprou-lhe o rosto, colocou-lhe a mão na fronte, chamado duas vezes em voz alta
e sonora: – Paulo! Paulo!
O
morto acorda como de um profundo sono, abre os olhos es exclama: – Padre,
Padre, tenho um pecado e quero confessá-lo.
S.
Felipe pede aos presentes que se retirem, dá ao menino um crucifixo e ouve a
sua confissão; terminada a qual, chama os parentes e põe-se a falar sôbre o
paraíso e a felicidade dos eleitos; o menino se entretem em santa conversação,
como quando gozava perfeita saúde; após meia hora, o santo obtido resposta
afirmativa, disse: – Vai, sê feliz e roga a Deus por mim.
E
Paulo com rosto plácido, sem nenhum movimento, torna a morrer docemente nos braços
do santo. Estavam presentes àquela cena, entre outras pessoas, o pai, duas irmãs
e a criada.
O
quarto foi convertido em capela e é visitado ainda hoje com veneração e os
romanos chamam o palácio Máximo “a casa do milagre”.
Todo
ano, depois de três séculos, a família Máximo comemora o prodigioso
acontecimento.
CAPÍTULO
XII
O
inferno é invenção dos padres
Nada
mais falso. O inferno já existia antes que existissem os padres e mesmo antes
do primeiro homem, tendo sido criado pela eterna justiça para os anjos
rebeldes. Os sacerdotes outra coisa não fazem senão prègar uma verdade terrível,
ensinada por Deus na Sagrada Escritura e que se acha em tôdas as religiões dos
vários povos que passaram pela terra.
Perlustrai
o mundo, do álgido pólo ao ardente equador, do oceano Atlântico ao Pacífico;
entrai nas florestas dos selvagens, interrogai as tribos bárbaras e haveis de
ver que todos admitem depois da morte um lugar de castigo. Não estão de acôrdo
sôbre a natureza dos sofrimentos; mas todos concordam em acreditar na existência
do inferno.
Os
gregos tinham o seu tártaro, no qual punham penas horríveis para os maus. Os
romanos chamavam inferno ou arco e Virgílio na Eneida descreve com côres bem
vivas os tormentos dos condenados, dizendo-os eternos. Os egípcios criam
firmemente na vida futura e no prêmio ou castigo eterno, e dos mortos faziam um
julgamento para ver se eram dignos da sepultura e das honras fúnebres. Os hidús
chamam o lugar dos réprobos Palatán e nos livros sagrados dos Vedas se
encontra uma longa descrição dos atrozes tormentos a que serão submetidos os
condenados. Os escandinavos e outros povos setentrionais lêem no Edda a existência
do cárcere infernal. Os hebreus o denominavam sheol ou geena, e o santo profeta
Daniel, tomado de espanto ao meditar naquelas chamas terríveis, rogava a Deus
que o livrasse do profundo abismo e não permitisse fechar-se sôbre sua cabeça
aquêle poço de fogo.
Os
Missionários Salesianos encontraram esta crença nas pampas da Patagônia e nas
florestas da Terra do Fogo; e aquêles selvagens falavam com pavor do castigo
que receberão os maus. Maomé, o mais solene impostor da História, gastou
muitas laudas do Corão para descrever o lugar dos tormentos acumulando tôdas
as penas que uma fantasia oriental pode imaginar. Zoroastro imprimiu também nos
persas uma idéia terrível da punição além tumba.
Deixo
de citar outros povos, porque, do contrário, não acabaria mais.
Os
padres, portanto, não inventaram esta crença, mas acharam-na bem impressa em
todos os povos e a encontraram ainda agora esculpida no fundo da consciência
humana, a qual brada que o pecado não passará sem castigo, como a virtude não
ficará sem prêmio.
*
*
*
Outra
extravagância que os “espíritos fortes” vão assoalhando é esta: “o
inferno é coisa da Idade Média”.
Só
mesmo quem perdeu o juízo fala dêsse modo. O que era verdade na Idade Média o
é também hoje e o será sempre, porque o tempo não pode destruir a verdade.
Os séculos não conseguem apagar aquelas chamas vorazes, alimentadas, pela
divina justiça e nas portas tenebrosas daquele cárcere continuarão as terríveis
palavras: sempre, nunca.
Deus
tratará os homens do século XIX como os da Idade Média, premiando os bons com
o paraíso e castigando os maus com o fogo. A justiça eterna é invariável e
incorruptível e não muda com o correr dos tempos e das opiniões do mundo.
Ouvindo
falar a certas pessoas, parece que hoje em dia foram abolidos os mandamentos de
Deus e da Igreja, foram suprimidos os deveres religiosos, soltou-se o freio às
paixões e ao homem foi dada plena liberdade de viver segundo os seus caprichos.
Ilusões estultas, que se pagam depois com uma eternidade infeliz! As leis de
Deus e da Igreja estão sempre em vigor, e todo cristão é obrigado a observá-las
se quiser ter uma sentença favorável no grande dia do juízo.
Os
heróis dos bares e clubes, quando se vêem apertados de tôda a parte por
argumentos fortes e não podem mais negar a existência do inferno, saem-se com
um dislate sem igual: “O acostuma com tudo. Eu me acostumarei no inferno.”
Falam
assim para não se darem por vencidos e não abandonar a vida dissoluta. Pròpriamente
não têm dificuldade em admitir o cárcere eterno, porque a razão prega a
existência dêle; o difícil e o repugnante para êles é corrigirem os
costumes, praticarem o bem, abandonarem os maus hábitos e viverem como bons
cristãos. E em vez de fazerem violência sôbre si mesmos, preferem perder-se
para sempre.
De
resto, se não são capazes de habituar-se a vencer as próprias paixões, como
se acostumarão com aquelas penas cruciantes? Quem, jamais, pode acostumar-se
com a dor que é contrária à natureza? Fomos feitos para a felicidade e o coração
foge sempre da desventura e é impossível que se dê bem nos sofrimentos. E os
santos respondem que os tormentos se sucedem aos tormentos; e do mesmo modo que
os bem-aventurados compreensores experimentarão sempre novos gáudios, os
infelizes condenados sentirão sempre novos e mais terríveis tormentos.
*
*
*
Divulgou-se
o provérbio que “o demo não é tão feito como o pintam”, e costumam citá-lo
para demonstrar que a fama e a opinião popular muitas vezes são superiores à
realidade das coisas, porque a fantasia sói exagerar as dificuldades e as
penas.
Mas,
se aplicamos ao inferno êsse adágio andamos em errados. Por mais que
procuremos calcar as côres e as tintas pintando as penas do demônio e dos réprobos,
estaremos sempre aquém da realidade e não chegaremos nunca a exagerar. Um cadáver
em decomposição não nos dá nem idéia de como Satanaz é sórdido, é horrível;
e uma santa informou que, se êle saisse da sua prisão tal mal é, faria morrer
pela sua hediondez todos os homens e animais.
No
opúsculo citado da possessa de Briga lê-se que muitas vezes quando invadida
pelo demônio tinha o aspecto tão medonho que punha tôda a povoação em
polvorosa. Dado o sinal de alarme, todos corriam para a igreja para implorar
misericórdia de Nosso Senhor.
Eis
as palavras textuais. “A filha tornou-se furiosa e ameaçadora. Horrível à
vista, cabeleira desgrenhada e hirta como um penacho, olhos de fogo, assobios
nunca ouvidos e incessantes, hálito quentíssimo, contrações de nervos,
engrossamento muscular de fazer mêdo, sem um membro que ficasse calmo. Nenhuma
fôrça era capaz de a dominar. Os mais robustos são juncos flexíveis. Acorrem
outros e o quarto fica cheio de homens fortes e corajosos. Sete dêles
seguram-na ao mesmo tempo nos pés, no pescoço, nos braços e na cintura; mas não
resistem, porque à guisa de turbilhão impetuoso vence a todos e os põe em
fuga”.
Então
o povo corre ao pároco para que a exorcize.
“Não
há palavras suficientes para dar uma idéia do que viu e o mêdo que teve
entrando naquela casa. Todavia, confiando em Nosso Senhor, a quem sempre tinha
eficazmente invocado, entra e ordena: – ‘Olá! satanaz, pára em nome de
Deus’. A essas palavras, Teresa como fulminada cai no leito”.
Na
manhã de 11 de maio 1849, desapareceu improvisadamente de casa e durante todo o
dia ouviram-se pelos ares lamentos, gritos, rumores misteriosos. O povo pensando
que aquilo fôsse o fim do mundo se recolheu na igreja para rezar.
À
tarde, durante a Bênção do Santíssimo Sacramento, ouviu-se, sob um céu
sereno e estrelado, estrépito medonho como de um furacão que se aproximava. A
povoação se alarma; ecoam gritos prolongados e suspiros dolorosos; e
finalmente distinguem-se a voz da moça possessa no teto de uma casa. À
meia-noite pede auxílio para descer; e um destemido sobe uma escada e a desce,
sem a menor dificuldade, como se fôsse um feixe de palha. Estava fria
petrificada, descalça, e tinha um bastãozinho na mão. Homens fortes
experimentaram tirar-lhe o bastão, mas não o conseguiram, como se fôsse de
ferro os seus braços.
“Se,
além disso, observas o seu rosto, és obrigado a desviar o teu olhar; é o
mesmo que ver um espectro, isto é, o demônio em forma humana. De qualquer lado
que se a observes ficas horrorizado: parece mesmo satanaz, horrível, ameaçador,
feral. O ôlho, principalmente, sanguíneo e irrequieto, sob imóvel e
entreaberta pupila fere de modo cruel. O inferno nela se esconde”.
Deitada
no chão, ninguém mais ousava aproximar-se-lhe, quando, após incessantes
pedidos dos parentes, quatro homens mais fortes a suspendem e a levam, como um
tronco, para casa, onde o pároco exorcizando-a, fá-la voltar a si e largar o
bastão não sem grande resistência e agitações do demônio.
*
*
*
Todos
esses fatos que narramos confirmam o dogma terrível revelado por Deus da existência
do inferno; e eu faço os melhores votos para que os meus leitores o evitem e
mereçam o Paraíso, para o qual o Senhor nos criou. A.
M. D. G.
Imprimatur
Por
comissão especial do Exmo. e Revmo. Snr. Bispo de Niterói D.
José Pereira Alves. Niterói, 1.º de janeiro
de 1945. Pe. Francisco X.
Lanna, SS.
ADENDO
DE ARNALDO:
A
bem da verdade, devo dizer aos leitores que durante mais de uma semana não
consegui formatar estes textos em meu computador. Foi preciso que eu retornasse
a Ricardo, a pedir que fizesse a
separação dos cinco capítulos porque aqui não dava.
Quando
comecei a coloca-los na internet, telefonou-me aquela pessoa do livro dos demônios
estando em verdadeiro desespero, porque os ataques na casa dela estavam impossíveis
de suportar. Seu menino gritava desde ontem sem parar e eu podia ouvir seus
berros de desespero ao telefone. Há muito tempo que não conseguem dormir.
Por
favor, mais pessoas ajudem a rezar por aquela casa. Eles imploram ajuda, os
padres não acreditam e seu bispo acredita, mas diz que não tem forças para
ajudar. Se o Bispo não pode quem o conseguirá?
Fonte: Recados do Aarão
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