09 Janeiro 2006
ENTREVISTA COM SATÃ
Nos dias que passaram, recebi este livro de um site espanhol, livre para
tradução, uso e edição. Trata-se de uma entrevista de um padre exorcista –
padre Domênico Mondrone, conforme dados logo abaixo – feita com satanás. Mal
passei um visão sobre os textos e não parei mais de ler. E cheguei até mesmo
a chorar quando percebi a exatidão que havia entre tudo aquilo que sempre temos
tentado dizer para as pessoas, e aquilo que o próprio satanás, por força de
Nossa Senhora, era obrigado a dizer.
De fato ele se obriga a falar a verdade, mesmo contra a sua furiosa vontade, e este simples fato de não poder nem com Nossa Senhora, que é simples criatura, já deveria fazer com que eles desistissem de seu intento de suplantar a Deus. Imaginem, se não podem nem com ela, como poderão lutar com o Todo Poderoso. Deus apenas dá cordas para que eles mais se enforquem, mais se autodestruam, mais se esmaguem em sua eterna solidão odiosa. Na realidade, eles não ganham nada em lutar contra Deus, só perdem, mas mesmo assim continuam. Vamos ao livro, e que o Espírito Santos vos ilumine a todos.
UM
EXORCISTA ENTREVISTA
AO
DIABO
Edizioni
PRO SANCTITATE
DOMENICO
MONDRONE S.I,
UM
EXORCISTA ENTREVISTA AO DIABO
1ª
Edição Espanhola 2004 (traduzido da 31a. edição italiana 1976)
Editorial
PRO SANCTITATE
Roma
Quem
é Satanás? Que quer? Como atua?
PRÓLOGO
O
Autor não está entre os que se envergonham de crer na existência do Diabo e
de sua nefasta atividade no mundo e, às vezes, prejudicando a infelizes indivíduos.
Ele aceita totalmente o ensinamento de Paulo VI, exposto no discurso de 15 de
novembro de 1972.
Bem
como demonstra haver tido alguma experiência direta com o Maligno na prática
real dos exorcismos; adiciono ainda que tive troca de impressões e de idéias
com outros sacerdotes melhor treinados na mesma experiência. Com certeza li o
livro de C. S. Lewis Le Lettere de
Berlicche; mas é outra coisa. Sobretudo
tive presente a apreciável obra de Corrado Balducci Os
endemoniados, e ainda Era de diabo de A.Bohm
e outros textos.
Em
particular parece que o Autor aprofundou na famosa meditação de As duas
Bandeiras,
onde o santo dos Exercícios Espirituais, com uma grande eficácia
representativa, faz-nos ver o chefe de todos os demônios enquanto, «na
figura horrível», expõe aos seus seu programa de ação e a tática que
utiliza para apanhar em suas redes as almas e as massas inteiras de homens.
Nas
páginas que seguem, o Autor quis oferecer-nos simplesmente uma rápida idéia
do ser e do comportamento deste anjo tenebroso que trabalha incansavelmente para
causar-nos dano.
O
Diabo é o maior mestre dos enganos, é um trapaceiro de astúcia incomparável,
que não atua descoberto, mas às escondidas; trabalha na sombra, e sempre
considera como inteligentes aos que não crêem em suas artimanhas, e inclusive
negam sua existência. Assim, os primeiros em cair em suas redes são
precisamente os sabichões, os chamados "espíritos fortes", os
grandes iluminados da ciência deste mundo.
«A
astúcia mais perfeita do Demônio, escreveu Charles Baudelaire, consiste em
persuadir-nos de que ele não existe». Negar, por isso, a existência e a ação
do Maligno é começar a assegurar-lhe já sua vitória sobre nós.
O
Autor, com base em sua experiência, crê que Deus pode talvez permitir - como
no caso dos exorcismos - que o Maligno seja interlocutor com quem o exorciza…
Este último, com a autoridade de Cristo e da Igreja, pode obrigar o Maligno a
responder a perguntas precisas propostas a ele e, às vezes, ainda que é o pai
da mentira, arrancar-lhe algumas verdades... O Autor se serve deste poder de
maneira mais abundante… Se recorre à fantasia sobre o modo de preparar e de
desenvolver os encontros, com isto não pretende dizer que são fantásticas
tantas verdades justificadas pela realidade das coisas. O que aqui ameaça, vai
realizando-a. De resto: «Para quem crê, nenhuma explicação é necessária;
enquanto para os que não crêem, nenhuma explicação é possível»
PAI
NOSSO... LIVRAI-NOS DO MAL > Discurso
de Paulo VI - 15-XI-1872)
Quais
são hoje as maiores necessidades da Igreja? Não lhe pareça simplista, ou
inclusive supersticiosa ou irreal, nossa resposta: Uma das necessidades maiores
é a defesa desse mal que se chama Demônio.
Antes
de esclarecer nosso pensamento, convidamos o seu a abrir-se à luz da fé sobre
a visão da vida humana, visão que desde este observatório se abre imensamente
e penetra em profundidades singulares... E, na verdade, o quadro que estamos
convidando a contemplar com realismo global é muito belo... É o quadro da criação,
a obra de Deus, que o próprio Deus, como espelho exterior de sua sabedoria e de
sua potência, admirou em sua beleza substancial (Gen 1,10).
Depois
é muito interessante o quadro dramático da humanidade, de cuja história
emergem a da redenção, a de Cristo, a de nossa salvação com seus
maravilhosos tesouros de revelação, da profecia, da santidade, da vida elevada
ao nível sobrenatural, das promessas eternas" (Ef. 1,10).
Sabendo
olhar este quadro, não pode um não permanecer encantado (Santo Agustinho,
Solilóquios): Tudo tem um sentido, tudo tem um fim e tudo deixa entrever uma
Presença-Transcendência, um Pensamento, uma Vida e finalmente um Amor, pelo
qual o universo, pelo que é e pelo que não é, apresenta-se a nós como uma
preparação entusiasmante e gozosa de tantas coisas belas e ainda mais
perfeitas do que esperamos (1 Co 2,9; 13,12; Rom 8,19-23).
A
visão cristã do cosmos e da vida é, por tanto, triunfalmente otimista; esta
visão justifica nossa vida e nosso reconhecimento de viver, pelo que nós,
celebrando a glória de Deus, cantamos nossa felicidade (cf. O
Glória da Missa) (NT.: Gloria
cantado em latim).
O
ensinamento bíblico
Mas
é completa esta visão? É exata? Não nos importam em nada as deficiências
que há no mundo? As disfunções do mundo com respeito a nossa existência? A
dor, a morte, a maldade, a crueldade, o pecado: numa palavra, o mal? E não
vemos quanto mal há no mundo? Especialmente quanto mal moral, ou seja,
simultaneamente, se bem diversamente, contra o homem e contra Deus? Não é este
triste espetáculo um mistério inexplicável? E não somos nós, precisamente nós
seguidores do Verbo, os cantores do Bem, nós crentes, os mais sensíveis, os
mais turvados pela observação e a experiência do mal?
Encontramo-lo
no reino da natureza, onde tantas manifestações suas nos parece que denunciam
uma desordem. Depois o encontramos no âmbito humano onde encontramos a
debilidade, a fragilidade, a dor, a morte, e inclusive coisas piores, uma dupla
lei contrastante, uma que quer o bem e a outra pelo contrário voltada para o
mal, tormento que São Paulo coloca em humilhante evidência para demonstrar a
necessidade e a fortuna de uma graça salvadora, da salvação trazida por
Cristo (Rom 7); já o poeta pagão tinha denunciado este conflito interior no próprio
coração do homem: "video meliora, proboque, deteriora sequor» (Ovidio
Met 7,19).
Encontramos
o pecado, perversão da liberdade humana, e causa profunda da morte porque é
separação de Deus, fonte da vida, (Rom 5,12), e depois, a sua vez, ocasião e
efeito de uma intervenção em nós e em nosso mundo de um agente obscuro e
inimigo, o Demônio.
O
mal não é só uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual,
pervertido e pervertedor. Terrível realidade. Misteriosa e pavorosa.
Sai
do quadro dos ensinamentos bíblico e eclesiástico quem recusa reconhecê-la
como existente: e também quem faz disto um princípio em si mesmo, não tendo
ele mesmo, como toda criatura, origem em Deus; inclusive a explica como uma
pseudo-realidade, uma personificação conceitual e fantástica das causas
desconhecidas de nossas más obras.
O
problema do mal, visto em sua complexidade e em seu absurdo com relação a
nossa racionalidade unilateral, torna-se obsessão. Isto constitui a dificuldade
mais forte para nossa inteligência religiosa do cosmos. Por isto Santo
Agostinho sofreu durante anos: "Quaerebam unde malum, et non erat exitus",
Eu buscava de onde proviesse o mal e não encontrava explicação (Confissões
VII, 5,7,11, etc. P L. 32, 736, 739).
Aqui
vemos a importância que tem a advertência do mal para nossa correta compreensão
cristã do mundo, da vida, da salvação. Primeiro no desenvolvimento da história
do Evangelho ao princípio da vida pública: Quem não lembra a página densíssima
de significados da tripla tentação de Cristo? Depois em tantos outros episódios
evangélicos, nos quais o Demônio cruza os passos do Senhor e figura em seus
ensinamentos (Mt 12,43). E como não recordar que Cristo, referindo-se três
vezes ao Demônio, como seu adversário o qualifica como «príncipe deste mundo»
(Jn 12,31; 14,30; 16,11)?
E
a incumbência desta nefasta presença é assinalada em muitíssimos passos do
Novo Testamento. São Paulo o chama “o deus deste mundo" (II Co 4,4) e
nos põe de sobreaviso sobre a luta contra as trevas, que nós os cristãos
devemos sustentar não com um só Demônio, mas com uma temerosa pluralidade: «Revesti-vos,
diz o Apóstolo, da armadura de Deus para poder afrontar as insídias do diabo,
porque nossa luta não é somente com sangue e com a carne, mas contra os
Principados e as Potestades, contra os dominadores das trevas, contra os espíritos
malignos do ar" (Ef. 6,11-12).
Diversas
citações evangélicas nos indicam que não se trata só de um Demônio, e sim
de muitos (Lc11,21; Mc 5,9), mas um é o principal: Satanás, que quer dizer O
Adversário, o inimigo; e com ele muitos, todos criaturas de Deus, mas caídas
porque se rebelaram e estão condenadas (Cf. Denz Sch 800-428); todo um mundo
misterioso desbaratado por um drama desgraçado, do qual conhecemos muito pouco.
O
semeador oculto dos erros
Entretanto
conhecemos muitas coisas deste mundo diabólico, que se relacionam com nossa
vida e com toda a história humana. O Demônio está na origem da primeira
desgraça da humanidade; ele foi o tentador dissimulado e fatal do primeiro
pecado, o pecado original (Gen 3; Sb 1,24). Daquela queda de Adão, o Demônio
adquiriu um certo poder sobre o homem, do qual só a redenção de Cristo nos
pode livrar. É história que perdura; recordemos os exorcismos do batismo e as
freqüentes referências da Sagrada Escritura e da Liturgia à agressiva e
opressora "potestade das trevas" (Lc 22,23; Col 1, 13).
É
o inimigo número um, é o tentador por excelência. Sabemos por isto que este
ser obscuro e perturbador existe verdadeiramente, e que com astúcia traidora
atua; é o inimigo oculto que semeia erros e desventuras na história humana.
Recordemos a parábola evangélica reveladora do grão bom e da cizânia, síntese
e explicação do absurdo que sempre preside nossas vicissitudes contrastantes:
Inimicus homo hoc fecit" (Mt 13,28). É "o homicida desde o princípio...
e pai da mentira", como o define Cristo (Jn 8,44-45); é o instigador do
equilíbrio moral do homem.
É
o pérfido e astuto encantador, que sabe insinuar-se em nós, pela via dos
sentidos, da fantasia, da concupiscência, da lógica utópica, ou de
desordenados contatos sociais no jogo de nosso agir, para introduzir-nos desviações,
tanto mais nocivas quanto conformes à aparência de nossas estruturas físicas
ou psíquicas, ou de nossas instintivas e profundas aspirações.
Este
tema sobre o Demônio e o influxo que ele exerce sobre os indivíduos, sobre as
comunidades, sobre sociedades inteiras, sobre acontecimentos é um capítulo
muito importante da Doutrina Católica que se deve estudar de novo, apesar de
que hoje se lhe dá pouca importância.
Alguns
pensam encontrar nos estudos psicanalíticos e psiquiátricos ou em experiências
espiritistas - hoje por desgraça muito difundidas em alguns países - uma
fundamentação suficiente. Teme-se recair em velhas teorias maniqueístas ou em
pavorosas divagações fantásticas e supersticiosas. Hoje se prefere mostrar-se
fortes e sem preconceitos, positivistas, exceto em dar sua fé a tantas
gratuitas posturas mágicas ou populares, ou pior ainda, abrir a própria alma -
a própria alma batizada, visitada tantas vezes pela presença eucarística e
habitada pelo Espírito Santo! – às experiências licenciosas dos sentidos e
aquelas deletérias dos estupefacientes, como também às seduções ideológicas
dos erros de moda, fissuras estas através das quais o Maligno pode facilmente
penetrar e alterar a mente humana.
Não
está dito que todo pecado seja devido diretamente à ação diabólica (S. Th.
1,104,31) mas também é verdade que quem não vigia com certo rigor sobre si
mesmo (Mt 12,45; Ef 6,11) se expõe ao influxo do "Mysterium iniquitatis",
ao que São Paulo se refere (II Ts 2,3-12) e que faz problemática a alternativa
de nossa salvação.
Nossa
doutrina se torna incerta, obscurecida como está pelas próprias trevas que
circundam ao Demônio. Mas nossa curiosidade, excitada pela certeza de sua existência
múltipla, faz-se legítima com duas perguntas:
Quais
são os sinais da presença diabólica e quais são os meios de defesa contra
este tão insidioso perigo?
A
presença da ação do Maligno
A
resposta à primera pergunta impõe muita cautela, ainda que os sinais do
Maligno parecem tão evidentes (Cf. Tertuliano, Apol 23). Podemos supor sua ação
sinistra ali onde a negação de Deus é radical, sutil e absurda, onde a
mentira se afirma hipócrita e potente, contra a verdade evidente, onde o amor
se apagou devido a um egoísmo frio e cruel, onde o nome de Cristo é impugnado
com ódio consciente e rebelde (1 Co 16,22; 12,3), onde o espírito do Evangelho
é adulterado e desmentido, onde o desespero se afirma como a última palavra,
etc. Mas é um diagnóstico muito amplo e difícil, que nós não nos atrevemos
agora a aprofundar e autenticar, não por isso privado de dramático interesse,
ao qual também a literatura moderna dedicou páginas famosas (cf. As obras de
Bernanos, estudadas por Ch. Moeller
Littér du XX siècle, I, Pag 397 ss; P. Macchi Il volto del male di Bernanos:
satan; Études Carmélitaines, Desclée de Br. 1948)
O
problema do mal aparece como um dos maiores e permanentes problemas para o espírito
humano, inclusive depois da resposta vitoriosa que nos dá Jesus Cristo: "Nós
sabemos que nascemos de Deus, e que todo o mundo foi posto sob o Maligno"(I
João 5,19).
Nossa
defesa
À
outra pergunta: Que defesa, que remédio por à ação do Demônio? A resposta
é mais fácil de formular, mas é difícil levar à prática. Poderemos dizer:
Todo o que nos defende do pecado, nos defende por isso mesmo do inimigo invisível.
A graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza e
depois cada um recorda o que a pedagogia apostólica havia simbolizado na
armadura de um soldado, as virtudes que podem fazer invulnerável ao cristão
(Rom l3,12; Ef 6,11.14.17; 1 Ts 5,8). O cristão deve ser militante, deve ser
vigilante e forte (I Pe 5,8); e às vezes deve recorrer a algum exercício ascético
especial para afastar certas incursões diabólicas; Jesus assim o ensina
indicando o remédio “na oração e no jejum" (Mt 9,29 ). O Apóstolo
sugere a linha mestra a ter em conta: "não os deixeis vencer pelo mal,
antes vencer o mal com o bem" (Rom 12,21; Mt 13,29).
Com
a certeza das adversidades presentes nas que hoje as almas, a Igreja e o mundo
se encontram, nós buscamos dar sentido e eficácia à costumeira invocação de
nossa principal oração: «Pai Nosso... livrai-nos do mal». A tudo isto ajuda
também nossa benção apostólica.
*
* *
N.B.
Referindo-se
a outra reflexão, feita pelo Papa sobre o diabo, Michele Federico Sciacca, num
artigo publicado em 7-fevereiro-1975 no jornal Il Tempo de Roma, com o título
Satanás entre nós, escrevia:
"Mal
foi ao Papa Paulo VI, faz algum tempo, por ter aludido ao diabo no sentido do
Antigo e do Novo testamentos. Abra-se, inferno! Foi acusado de retorno ao
Medieval, de obscurantismo, de superstição, de ofensa em pleno 1974 à ciência
e ao espírito científico racionalista e progressista. Mas, em resumidas
contas, este maldito Satanás vive ou não vive? Se se o considera de uma parte,
seguindo o Evangelho, como o tentador e o acusador que encarna o mal, então
dizem que é um atraso de obscurantistas crer em sua existência e afirmam que não
existe; e por outra parte se se o identifica - e Satanás o repete - com a razão
humana rebelde e triunfante, com a que sorridente e operante vive «na matéria
que nunca dorme», então afirmam profeticamente que é o símbolo sublime de
toda graça verdadeira e vitoriosa... daquele ex-Deus. Superstição obscura
esta que procede da ciência iluminista, e portanto sutilmente mundana... Disto
se deduz que estas afirmações procedem de uma mentalidade radicalmente
perversa, (cf. Michele Federico Sciacca, il magnifico oggi. Roma Città Nuova
1976 P. 283 ss).
QUEBRA-DE-BRAÇO
COM O MALIGNO
A
idéia deste escrito me veio de improviso numa tarde de agosto do ano passado de
graça e de desgraças, 1974.
Foi
assim: Desde há dois meses, talvez antes, quase todos os dias, às três da
tarde em ponto, o Segundo Canal da RAI emitia um programa intitulado
“Entrevistas impossíveis”.
Tratava-se
de encontros entre literários, jornalistas e estudiosos de cultura variada com
homens do passado: com personagens do pensamento, da arte, da política
introduzidos bem ou mal na história, com nome mais ou menos famosos.
O
programa era original e, se bem coincidisse com a hora da sesta, pus-me a
segui-lo com curiosidade assídua.
Eram
encontros - dizia - de homens de hoje com outros de ontem para interrogar-lhes,
como se fossem, por não sei que classe de truque mediático, momentaneamente
revividos, e fazer-lhes falar e dar explicações de alguns de seus atos e
confessar suas intenções secretas, já obrigados a responder às perguntas, já
postos na necessidade de justificar-se das coisas mal feitas de algum histórico.
O
personagem entrevistado normalmente aparecia fielmente centrado no ambiente de
seu tempo. As respostas se referiam à vida e ao pensamento que lhe
caracterizaram. E quando os entrevistadores eram muito inteligentes - não
sempre - em pouco mais de quinze minutos nos davam boas provas de habilidade
mental com esboços de retratos histórico-psicológicos de uma feliz e muito
vivaz finura.
Um
depois do outro vinham interpelados, sem nenhuma ordem cronológica, Atila,
Marat, Casanova, Marco Polo, Pitágoras, Copérnico, Bruto, Diderot, Swift,
Marco Aurélio, Pilatos, Cleopatra, la Beatrice de Dante, etc., ainda que esta
vilmente desfigurada.
Entre
uma e outra audição me veio à mente uma observação muito extravagante:
“Falta
uma entrevista com Satanás!... Seria interessante. Não obstante, hoje, com a
habilidade que alcançou tal mestre para não fazer-nos crer nele..."
O
calor daquela tarde era sufocante e me estirei sobre uma poltrona para
recuperar-me um pouco do sono.
*
* *
Na
manhã seguinte, nada mais despertar-me: "Claro que uma entrevista com
Satanás, ou melhor com o Maligno, seria fantástica! Que importa que tantos não
creiam nele. E lembrei da fundamentação feita pelo Papa num de seus discursos
da quarta-feira. Uma fantasia bem apresentada pelo menos alcançaria chamar a
atenção sobre tal sujeito. Talvez também tirar o sono a mais de um".
Não
pensei nisto durante certo tempo. Mas a idéia se apresentava intermitentemente
e, às vezes, com estranhas linhas de algo factível. Se poderia, por exemplo,
dizer isto... apresentar assim um episódio... introduzir este ou aquele outro
aspecto... Pouco a pouco este se fez um tanto meu sofrimento.
Uma
entrevista com o Maligno. Não pensava precisamente meter-me nela. Vejamos então
a quem confiá-la. Comecei entre mim a dar nomes. Pus em mente a vários.
Enquanto pensava nisto, um depois outro ia descartando.
Meter-se
a dialogar com o diabo, ainda que só seja sobre o plano da fantasia, não é
coisa fácil. Ninguém aceitaria uma idéia tão bizarra, e sobretudo, fora de
época: Coisa da Idade Média!
Entretanto,
o estranho era isto: quando pensava levar a sério esta idéia, sentia meu ânimo
abrir-se à serenidade e a coisa interessante. Pelo contrário quando me
propunha não fazer nada, sentia-me inquieto e caía num estranho nervosismo.
Havia em mim algo que colocar para fora, como uma liberação.
Em
minha vida foi a primeira vez que tive a suspeita de ter necessidade de um neurólogo.
Uma
tarde fui, como que obrigado por não sei que, a uma igreja, onde é venerada
uma Virgem muito querida pelo povo romano, e a encontrei, como coisa rara, muito
cheia de gente.
Aconteceu
algo incrível. Apenas passada a porta, aproximou-se uma mulher de meia idade,
de baixa estatura, com dois olhos luminosíssimos e doces, e de repente me
disse: "Quando se decide a escrever aquelas coisas?..." E me olhava
com insistência.
“Escrever?
Que coisas?”
“Deixa
disso, você sabe melhor que eu".
“Mas
você quem é?”
“Que
interessa dizer-lhe quem sou? Vá ver Aquela - e indicou o quadro da Virgem –
Vá ouvir o que Ela quer dizer-lhe."
Um
numeroso e compacto grupo de turistas invadiu naquele momento a entrada. A
mulher foi envolta na confusão e a perdi de vista. Que coisa tão estranha! Uma
alucinação ou um aviso do céu? Senti-me perdido e ridículo, sobretudo ridículo.
Encontrado
uma posição adequada, antes de por-me aos pés da Virgem para rezar-lhe,
aquela vergonha minha interna desapareceu como se fosse nada. Sem voltar a
pensar no sofrimento que me molestava, experimentei dentro de mim como um empurrão
dulcíssimo e firme a recolher-me no argumento para começar a fazer qualquer
coisa.
Olhando
a querida imagem, não me atrevi a pedir-lhe nada sobre isto, pois já advertia
em mim uma promessa de assistência materna.
"Está bem, disse saindo. Embarcarei neste assunto. Eu mesmo escreverei esta estranhíssima entrevista. Sairá algo que me cobrirá sobretudo do ridículo. Mas terei tirado uma idéia fixa da cabeça".
PRIMEIRO
ENCONTRO
Naquela
mesma tarde, depois de um jantar rápido e sem apetite, retirei-me ao meu quarto
para verificar um pouco a correspondência.
Depois
de meia hora, pus-me a recitar a última parte da "Liturgia das horas».
Fiz devotamente o sinal da Cruz e comecei: 'Jesus,
luz da luz, - sol sem ocaso, -tu iluminas as trevas, - na noite sol mundo,- Em
Ti, Santo Senhor - buscamos descanso- da fadiga humana, - ao fim do dia"...
Notei
desta vez, que quanto mais ia adiante, mais crescia em mim o desejo de atrasar
aquela oração habitual. Sentidos e gostos novos fluíam daquelas palavras
antigas e simples.
Ao
final, beijei o breviário e coloquei-o à parte. E agora que faço? Algumas
vezes tomo notas rápidas em meu diário; tentei fazê-lo mas logo me passou a
vontade.
Voltando-me,
meu olhar se encontrou com a imagem da Virgem, ante a qual aquela tarde havia
ido a orar. Tive desejos de entreter-me com Ela e, apanhado o rosário do bolso,
fiz o sinal da cruz. As Ave Maria me pareciam dulcíssimas como se entrasse em
contato com Ela. Não tinha terminado ainda a primeira dezena, e já me
encontrava sentado e com a caneta na mão. Coisa estranha? Para fazer o quê? Um
bloco de papel estava ali sobre a mesa: Começar a escrever algo sobre aquela
diabrura? Não pensava nisto de maneira alguma. Não tinha nada concreto em
minha cabeça e a imaginação não parecia ajudar-me.
Para
fazer qualquer coisa, peguei o bloco de papel e escrevi no alto: «Entrevista
com Satanás". Não, corrigi. Melhor dizer: «com o Maligno". Este
segundo apelativo é menos comum e de um sentido mais imediato. E permaneci com
a caneta no ar.
Naquele
mesmo instante, senti ao longo da coluna vertebral uma repentina tremedeira de
frio que imediatamente me envolveu por inteiro.
Ao
lado da escrivaninha, à esquerda, a janela estava completamente aberta,
instintivamente me levantei para fechá-la. Senti, entretanto, que de fora vinha
um ar quente. Era a tarde de uma jornada calorosa de setembro.
Enquanto
tocava a face e a testa, olhando se tinha sintomas de febre, um golpe de frio me
atravessou e tive uma estranha sensação de medo. Sentei-me, permaneci um pouco
pensativo, depois tentei deitar na cama. Não consegui mover-me. Sentia-me
pregado à escrivaninha, não porque alguém me forçasse, sim por uma sensação
de inércia total: uma espécie de torpor.
Invoquei
mentalmente a Virgem que me olhava a uns metros de distância da parede e senti
um instante imprevisto de paz.
Enquanto
em meu interior dava graças à Mãe Celestial, a cadeira, a escrivaninha, quase
todo o quarto, sofreram um sobressalto misterioso.
"Você
pediu para entrevistar-me, aqui estou.”
Era
uma voz cavernosa, áspera, metálica. Uma voz que não soube precisar de que
ponto vinha, mas que desencadeou em mim um grande e forte calafrio de medo.
Permaneci alguns minutos sem respiração, depois recuperei as forças.
“Mas
quem é?"
“Não
seja burro, sou eu!"
Não
havia pensado nunca de poder passar com minha entrevista do plano da imaginação
ao de um cara a cara com o Maligno.
Num
ângulo da escrivaninha havia um rosário e instintivamente o peguei como se
fosse uma arma de defesa,
"Joga
fora esta besteira, se quiser falar comigo!”
“Besteira?..."
"Excrementos
de cabra colocados juntos!”
Se
para você é uma besteira, eu o beijo e para seu desprezo o enrolo ao redor do
meu pulso, como defesa. Vejo que lhe dá medo, velhaco!
Isto
para mim é uma guilhotina!...
“Melhor
ainda, e obrigado por ter-me dito!”
Tentei
muitas vezes explicar-me como percebi aquela voz tão próxima, que não vinha
de nenhum ponto preciso do quarto nem saía de meu interior. Entretanto,
compreendia-a claramente, sempre num tom ameaçador, desdenhoso e carregado de
uma raiva especial.
“Como
é que você veio? Quem lhe envia?”
"Fui
obrigado".
“Por
quem?” Seguiu um silêncio tenso.
“Vamos,
obrigado por quem?”
“Por
aquela!”
“Gritou
esta resposta com um desprezo e com um ódio indescritíveis."
“Quem
é ela?" Entretanto, havia compreendido.
“Não
direi seu nome jamais!”
“Te
queima tanto?”
"Odeio-a
infinitamente!"
“Porque
é a criatura mais elevada e mais santa…”
Mastigando
as palavras com raiva: "Ele
quis assim para meu desprezo, para que fosse minha mais esmagadora humilhação!”
Fiquei aturdido. “Como é possível? É o pai da mentira e diz uma verdade tão grande? Não se dá conta que este é um louvor imenso?” Minha pergunta ficou sem resposta. Desta vez foi tudo.
Passaram-se
alguns dias sem que nada de novo acontecesse. Não sabia o que pensar. Não
tinha a coragem de invocar a volta de um interlocutor tão singular. Aquele
primeiro encontro havia deixado mais de uma pergunta no ar. Mas foi cortado no
melhor. Aquela última resposta, entretanto, tão inesperada, deixou-me numa
alegria grande.
Uma
manha, apenas havia terminado de celebrar a Missa, tive um desejo insólito de
ir rapidamente para casa. Empurrava-me o estranho indício de algo não
costumeiro.
«Aquele
mensageiro deve estar já aqui, pensei. Correto, eis aqui os costumeiros
calafrios de frio gelado. Não havia me enganado.
Sentei-me,
invoquei mentalmente a Virgem e esperei.
"Estou
aqui. Que mais você quer perguntar-me?".
Parece
que aquele ser tenebroso houvesse sido posto a minha disposição.
“Antes
de mais nada, devo agradecer-lhe o grande elogio que na última vez você fez à
Virgem.
Impressionou-me muito sua resposta. E ainda não chego a explicar-me como se lhe
pôde escapar”
“É
ela que me obriga a falar assim, entende? Ela me obriga. Fá-lo para
contentar-lhe e para humilhar-me. Mas você – lembre-se - me pagará. Você não
chega a compreender jamais que tortura é para mim ter de obedecê-la
obrigando-me a dizer certas verdades. Eu odeio a verdade, porque a verdade é
Ele, entende? Você permanece horrorizado ante os tormentos aos que tantos
subalternos meus submetem seus condenados políticos, recorrendo à pílula da
verdade, à lavagem cerebral - todos são invenções minhas, para que saiba -
para levá-los à auto-crítica e a arrancar-lhes suas confissões
preestabelecidas. Pior é o suplício ao que sou submetido por aquela para
levar-me a cuspir-lhe na cara certas verdades. Por isto, repito-lhe que você me
pagará”.
"Obrigado
também por isto que me diz; mas se Ela está comigo, você não me dá medo”.
“Disse-lhe
que você me pagará".
"Certo.
Mas continua falando-me dEla".
"É
minha inimiga mais implacável".
“Acredito:
É a Mulher destinada a dar-nos Jesus, nosso Redentor, o reparador de todas suas
maldades, especialmente por haver-nos dado o pecado e a morte. E Ela, por
virtude de seu Filho, para sua humilhação, venceu tudo isto".
Um
grande silêncio de espera.
“Compreendo
que não tenha muito desejo de falar de Maria. Você é infinitamente soberbo e
a recordação dEla é muito humilhante para você. Disseste bem, é sua maior
humilhação. Mas, em nome dEla, responde. Você creu ter obtido uma vitória
plena arrebatando-nos a nossa mãe Eva? Nem sequer suspeitava que Deus lhe teria
vencido com Maria? Uma Mãe infinitamente maior que a que nos arrebataste e com
a qual nos mandaste à ruína. Deus nos deu Maria e a fez Sua Mãe".
"Mas
por que se empenha tanto em falar-me daquela? Pára já!”
Exatamente
porque lhe aborrece tanto...
“É
uma terrível destruidora de meus planos. É uma devastadora de meu reino. Não
me deixa conseguir uma vitória e já me prepara uma derrota. Está sempre em
meu caminho. Sempre ocupada em atravessar em meu caminho, em suscitar fanáticos,
que a ajudem a arrebatar-me almas. Ali onde mais clamorosas são minhas
conquistas, num silêncio capilar ela multiplica as suas. Mas agora chegou o
tempo em que obterei sobre ela vitórias jamais vistas..”.
"Efêmeras
como as demais!”
*
* *
Ainda
um breve silêncio.
“Não serão efêmeras!... Desta vez será uma vitória total. Acreditava
estar seguro numa fortaleza inalcançável. Agora abri-lhes uma brecha que será
pior do que a primeira!...
“Que
brecha? Penso que corre muito. Está muito seguro de si mesmo"
“Tenho
de minha parte também os teólogos. Os meus vaidosíssimos doutores. Se eu
fosse capaz de amar, seriam meus amigos mais queridos. Seus cultivadores do
dogma vão abandonando suas posições uma depois da outra. Induzi-os a
envergonhar-se de certas fórmulas ridículas. A envergonhar-se antes de nada de
crer em minha existência e em meu trabalho no meio de vocês: Coisa para mim
comodíssima"
E
você conta com isto?
«Deste
modo, as fábulas da Imaculada Conceição, da Maternidade Divina, da sempre
Virgem, da onipotente cheia de graça estão sendo desmoronadas como miseráveis
disparates. Dentro de poucos anos ficará só a recordação – vergonhosa
recordação - de lendas tão bobas. Muito tive que esperar mas agora chegou
finalmente meu tempo. Definitivamente chegou minha hora! Se soubesse o bem que
trabalham meus aliados: padres, freis, doutores!... Onde estão agora os fanáticos
de seu culto, seus simpatizantes fervorosos?”
*
* *
Parecia
que tivesse ido embora. Mas estava ali, talvez à espera de minha reação.
“Eu
sei: você conseguiu reunir em torno de tantas verdades do Credo uma poeirada
irrespirável cheia de confusão. Acredita suprimir o sol só porque o escondeu
detrás de muitas nuvens. Mas tudo isto passará. Bastará um sopro do
Onipotente para destruir tudo o que você está construindo. Um sopro só e
Deus, em sua Providência, também de novo tirará o bem do mal. Inclusive
destas confusões saberá fazer brilhar a verdade ainda mais esplêndida”.
"Não
se iluda".
Sei
que não me engano. A fé me diz. Nem você mesmo, eterno mentiroso, crê nesta
vitória final.
Você
se agita porque sabe que Deus tem medido o tempo no qual, para seus desígnios,
deseja-lhe exagerar. Você sabe que o mais poderoso é Ele. Ele tem adiante de
Si a eternidade. Num instante lhe arrebatará da mão suas vitórias momentâneas.
Você é o eterno fanfarrão ridículo. Você se crê onipotente, melhor ainda
quer fazer você mesmo crer, mas basta um sinal da cruz para por-lhe em fuga,
basta um pouco de água benta para paralisar sua onipotência. A parábola do grão
e da cizânia foi dita sobretudo para você. Você é simplesmente ridículo em
suas gabações. Você é um pobre cão atado a sua corrente. Você não pode
nada além do que lhe permite Deus. Permite-lhe para provar aos seus eleitos no
tempo, e derrotar-lhe para toda a eternidade”.
“Que
eloqüente você é! Fez uma bela pregação para os papagaios da paróquia. Você
reúne palavras, eu conto fatos".
“Estou
apenas revelando sua mentira. Sua história terminará como começou. Você tem
a estúpida presunção de crer-se semelhante a Deus. Rebelou-se e Deus naquele
mesmo instante, com um sopro precipitou a você e aos seus nos abismos
infernais. Bastou um movimento de Sua vontade para fulminar-lhes a todos, para
transformar-lhes de anjos em horríveis demônios".
“Ainda
um pouco de pregação.”
"Você
sabe bem que não é pregação. É um fato tremendo. Como tremendo é o inferno
no qual você se precipitou... A propósito: Que é o inferno?..."
Um
silêncio triste como um pesadelo.
“Em
nome dEla, responde, fala-me do inferno".
“Impossível
dizer-lhe".
“Prova”.
“Nem
sequer ela mesma, em Fátima, soube explicá-lo”.
Como?
Aqueles pobres meninos por pouco não morreram de pavor!
"E
que viram... o inferno é bem diferente... Contente-se com isto.”
*
* *
Também
desta vez tive a suspeita de que se tivesse ido. De maneira estranha me advertiu
que se encontrava ali.
“Desgraçado!
Você era um anjo. Deus lhe criou riquíssimo de dons e de belezas divinas.
Tinha a inteligência dos espíritos eleitos. É inconcebível como você e os
seus possam atrever-se a um pecado tão estúpido de rebeldia. Como tentar
apropriar-se do que não era seu? Responde!”.
“Porque
quis submeter-nos a uma prova infinitamente humilhante para nós, espíritos altíssimos.
Uma prova inimaginável, digna só de uma revolta”.
“Que
prova?"
De
novo um silêncio carreado de mistério. "Vamos, em nome dEla que te
obrigou a vir, responde. Que prova?".
"Impôs-nos
um ofício muito humilhante e inaceitável. Pôs-nos em frente ao desenho da
criação do mundo material, de todo o cosmos, por cima do qual criou também a
vocês os homens com o propósito de elevá-los à mesma dignidade a que nos
havia elevado, e para cúmulo de tudo, o que fez desencadear nossa revolta… pôs-nos
diante da encarnação do Filho, feito homem, revestido de uma natureza inferior
à nossa, e impôs-nos adorá-Lo. Nossa inteligência se assombrou. Milhões de
anjos se submeteram vilmente a Ele. Muitíssimos de nós O vimos como uma
afronta a nossa dignidade e nos rebelamos. O castigo explodiu de imediato. Nós
não queremos aceitar nossa condição de criaturas, de ter necessidade dEle, de
estar submetidos a Ele. Acreditamo-nos auto-suficientes - e éramos - de nós
mesmos... Naquela recusa nosso gesto é de revolta... E num momento nos
encontramos como somos. Sua sentença foi sem apelação". Tampouco nos
houvéssemos submetido a Sua vontade.
“E
não era um pecado gravíssimo de rebeldia?”
Um «Nãooo…” tenebroso, longo, cavernoso, de gelar o sangue, ressoou um bom tempo no além. Compreendi que havia desaparecido, deixando atrás um fracasso que parece o estrondo de uma avalanche. Tudo o que estava firme tremeu. Saí ao corredor olhando se alguém tivesse percebido algo. Nada. Não vi ninguém.
Desta
vez não se fez esperar muito. Na noite seguinte, estava para meter-me na cama,
quando ouvi rumores estranhos no quarto. Eram passos fortes, quase surdos que
faziam vibrar o pavimento. Advertida sua presença, agarrei o rosário, fiz o
sinal da cruz, invocando mentalmente a Virgem que estava junto a mim, ao lado da
cama, e esperei.
"Sinto
que você está aqui. Bem, em nome dEla, que te obriga a vir e a responder-me,
diga-me: imediatamente depois de seu grande pecado, você se deu conta de tudo o
que havia perdido para sempre?”
“Que
pergunta tão estúpida!”
"Obrigado,
você é muito gentil. Sei muito bem que minha inteligência não se pode
comparar com a sua. Por isso permita-me uma pergunta ainda mais idiota: Jamais
se arrependeu daquele pecado?”
"Arrependimento?”,
a resposta surgiu de imediato, como um rugido de besta.
"Mas
não sabe que um ato de arrependimento teria sido um ato de amor? E isto é
totalmente inconcebível em nós. Nós fomos imediatamente investidos de um ódio
imenso contra Ele. Um ódio implacável, eterno. Encontramo-nos envoltos, quase
petrificados, numa maldição que chegou a ser nossa segunda natureza.“
Tranqüilamente
tivesse querido concentrar a reflexão sobre a desgraça irreparável de
milhares de criaturas tão excelsas, mas o outro me interrompeu.
“Depois
de haver-nos expulsado de seu paraíso, vingou-se destinando a nosso estado aos
seres mais nauseabundos, vocês os homens, um amassado de espírito e de matéria
suja. Fez de vocês um objeto de seu amor infinito. Vai mendigando de vocês o
amor que nós lhe havíamos recusado. O amor por vocês lhe fez cometer
loucuras, até humilhar ao Filho no ventre de uma mulher. Tem a ambição de
ocupar com vocês os postos que nós deixamos vazios. Mas antes que alcance
isto, encheremos nosso inferno com vocês os homens. A vingança que não
podemos realizar sobre Ele, a faremos com vocês. “
"Isso
é o que você sonha. Mas entre nós e você, sobre o vértice de seu abismo
infernal está Cristo Crucificado, você terá só aqueles que obstinadamente
queiram permanecer ao seu lado. Todos os demais, também os pecadores, também
os pobres infiéis, lhe serão arrancados como presa que não lhe pertence,
porque não são suas. Ele as pagou com o preço de Seu Sangue e são seus.
Nego-me a crer que finalmente você tenha mais que Ele!”
*
* *
Houve
uma pausa mais longa. Tive a sensação de que quisera agredir-me com um
discurso, e de fato, pasSou imediatamente ao ataque.
"Diz
que Ele terá mais que eu?... Mas é que não vê, cego e estúpido como é, que
hoje estou mobilizando tudo para sua ruína? Não vê que seu reino se desmorona
e que o meu se engrandece dia a dia sobre as ruínas do seu? Prova a fazer um
balanço entre seus seguidores e os meus, entre aqueles que crêem em suas
verdades e os que seguem minhas doutrinas, entre os que observam sua lei e os
que abraçam a minha. Pensa somente no progresso que estou fazendo por meio do
materialismo ateu e militante, que é a recusa total a Ele!”
Ainda
um pouco mais de tempo e todo o mundo cairá em adoração diante de mim. O
mundo será completamente meu.
"Pensa
nas devastações que estou levando ao meio de vocês, servindo-me
principalmente de seus ministros. Desencadeei em seu rebanho um espírito de
confusão e de rebelião que jamais até hoje havia alcançado obter. Tens a seu
guardião de ovelhas, vestido de branco, que todos os dias fala, grita, conversa
inutilmente. Quem o escuta? Posso fazê-lo calar imediatamente apenas queira,
num momento posso eliminá-lo; basta que arme a mão de um emissário meu”.
Todo
mundo escuta minhas mensagens, as aplaude e as segue. Tudo está de minha parte.
Tenho as cátedras com as quais pus em cheque a sua filosofia. Tenho comigo a
política que os desagrega. Tenho o ódio de classes que os fere. Tenho os
interesses terrenos, o ideal de um paraíso na terra que os enfrenta uns com
outros. Meti-lhes no corpo uma sede de dinheiro e de prazeres que os faz
enlouquecer e que os está reduzindo a ser um tropel de assassinos.
"Desencadeei
no seu meio, uma sexualidade que está fazendo de vocês um grupo exterminado de
porcos. Tenho a droga que logo os converterá numa massa de miseráveis larvas
de loucos e moribundos. Levei-os a adotar o divórcio para reduzir a fragmentos
suas famílias. Levei-os a praticar o aborto com o que causo matanças de
homens, antes que nasçam”.
"Todos
anjos destinados ao céu!"
"Mas
lhe parece pouco ter convertido as mulheres, as mães, em piores que as bestas;
induzi-as a matar seus filhos, coisa que nem as bestas fazem!”
“Tudo
o que pode destruí-los eu tento, e obtenho o que quero: injustiças a todos os
níveis para tê-los num contínuo estado de desesperação; guerras em cadeia
que destroem tudo e os levam ao sacrifício como as ovelhas; e junto a isto a
desesperação não saber livrá-los das calamidades com as que eu tenho que levá-los
à destruição. Conheço até onde chega a estupidez de vocês os homens e a
aproveito completamente”
“A
redenção Daquele que se fez matar por vocês, bestas, eu a substituí pela dos
governantes assassinos, e vocês se lançam em seu seguimento como ovelhas
estupidíssimas. Com as promessas de bem que lhes fiz e que não obtereis nunca,
alcancei cegá-los, fazê-los perder a cabeça, até levá-los facilmente onde
quero. Lembre que eu os odeio infinitamente, como odeio a Ele que os criou. Sim,
haja favor que lhes fez, enviando seu Filho a desperdiçar seu Sangue pela
ditosa Redenção. Eu os odeio, desprezo-os!”
*
* *
“E
com isto?”
“Que
quer dizer? Não é suficiente? Posso continuar, se crês...”
“Com
tudo isto crê poder cantar vitória contra Deus? Você seria o grande vencedor
e Deus o grande derrotado? Não nego que está trabalhando talvez como nunca,
que agora vai obtendo seguidores mais que no passado, mas em seus desenhos é um
habilíssimo enchedor de balões. Já lhe disse que sua história concluirá
como começou. Nossa atenção vai ao final de tudo isto. Então, teve num
instante muitíssimos seguidores. Mas como terminou seu gesto de rebelião?
Tirou Deus do trono de sua glória?"
“Ainda
se engana? Não compreendeu nada do que lhe mostrei?”
“Você
é o tal! Todas estas fanfarronadas suas podem impressionar a um homem de pouca
fé, não a quem crê firmemente que Deus é Deus e você é um miserável
rebelde, uma criatura sua, que Ele poderia destruir com um sopro, num só
instante, mas que não o fará jamais. Tem podido enganar a milhões de homens
para que não creiam em Deus, mas você sabe que Ele existe, que Ele é o
Onipotente, que tem em sua mão o destino dos homens e da história. Quis travar
a guerra contra Ele e lhe está deixando obter alguns resultados, inclusive
momentaneamente espetaculares Mas sabe bem que seu poder está condicionado a
sua onipotência e a vitória final será só dEle!”
"Ao
contrário, será minha!”
“Mentiroso,
nem você mesmo se crê, porque sabe bem com quem se meteu. Lembra a lição da
Sexta-feira Santa. Trabalhou bem esse dia. Por meio de seus satélites se
apoderou de Jesus e chegou a fazê-lo matar. Mas, na cegueira de seu ódio, não
se deu conta que aquela morte foi vitória dEle ao querê-la e você foi um
instrumento submetido. Acreditava tê-lo liquidado para sempre. Entretanto, o
vencido foi você. Ele ressuscitou ao terceiro dia, vencedor da morte e do
pecado. Vencedor sobre você e sobre todo seu inferno!”
*
* *
“O
mistério pascal o venceu de uma vez para sempre. Entretanto, renova-se, ao
longo dos séculos na vida da Igreja e das almas, num enfrentamento ininterrupto
de lutas, de morte e de ressurreição. Mas o triunfo do Reino de Deus aqui não
se anuncia com as fanfarronadas, anuncia-se, progride e resiste aos ataques com
o mistério divino do silêncio”.
“Os
costumeiros velhos discursos de oratória…”
“Sabe
que isto não é oratória. Na manhã que ressuscitou, Jesus não teve nenhuma
preocupação por vingar-se de seus inimigos, de seus malfeitores. Não teve
nenhum desejo de humilhá-los, como Ele teria podido fazer e como algum poderia
ter esperado. Com uma demonstração espetacular e fulgurante de seu triunfo
sobre a morte, teria podido aparecer ante o Sinédrio, ante Pilatos, ante
Herodes, ante quantos lhe humilharam e lhe deram a morte... Não foi gritar-lhes
na cara: "Eis aqui vossa vitória!" Pelo contrário, Sua Majestade
infinita está muito por cima desse tipo de satisfação triunfalista, não lhe
preocuparam seus inimigos. Não pensou em refazer sua reputação ante eles”.
"Ele inaugurava um estilo próprio. Dava exemplo de como se realiza seu triunfo nesta terra, de como procede a sua Igreja em meio dos homens e ao longo dos tempos: Um caminho extenuante, d