09 Janeiro 2006
ENTREVISTA COM SATÃ
Nos dias que passaram, recebi este livro de um site espanhol, livre para
tradução, uso e edição. Trata-se de uma entrevista de um padre exorcista –
padre Domênico Mondrone, conforme dados logo abaixo – feita com satanás. Mal
passei um visão sobre os textos e não parei mais de ler. E cheguei até mesmo
a chorar quando percebi a exatidão que havia entre tudo aquilo que sempre temos
tentado dizer para as pessoas, e aquilo que o próprio satanás, por força de
Nossa Senhora, era obrigado a dizer.
De fato ele se obriga a falar a verdade, mesmo contra a sua furiosa vontade, e este simples fato de não poder nem com Nossa Senhora, que é simples criatura, já deveria fazer com que eles desistissem de seu intento de suplantar a Deus. Imaginem, se não podem nem com ela, como poderão lutar com o Todo Poderoso. Deus apenas dá cordas para que eles mais se enforquem, mais se autodestruam, mais se esmaguem em sua eterna solidão odiosa. Na realidade, eles não ganham nada em lutar contra Deus, só perdem, mas mesmo assim continuam. Vamos ao livro, e que o Espírito Santos vos ilumine a todos.
UM
EXORCISTA ENTREVISTA
AO
DIABO
Edizioni
PRO SANCTITATE
DOMENICO
MONDRONE S.I,
UM
EXORCISTA ENTREVISTA AO DIABO
1ª
Edição Espanhola 2004 (traduzido da 31a. edição italiana 1976)
Editorial
PRO SANCTITATE
Roma
Quem
é Satanás? Que quer? Como atua?
PRÓLOGO
O
Autor não está entre os que se envergonham de crer na existência do Diabo e
de sua nefasta atividade no mundo e, às vezes, prejudicando a infelizes indivíduos.
Ele aceita totalmente o ensinamento de Paulo VI, exposto no discurso de 15 de
novembro de 1972.
Bem
como demonstra haver tido alguma experiência direta com o Maligno na prática
real dos exorcismos; adiciono ainda que tive troca de impressões e de idéias
com outros sacerdotes melhor treinados na mesma experiência. Com certeza li o
livro de C. S. Lewis Le Lettere de
Berlicche; mas é outra coisa. Sobretudo
tive presente a apreciável obra de Corrado Balducci Os
endemoniados, e ainda Era de diabo de A.Bohm
e outros textos.
Em
particular parece que o Autor aprofundou na famosa meditação de As duas
Bandeiras,
onde o santo dos Exercícios Espirituais, com uma grande eficácia
representativa, faz-nos ver o chefe de todos os demônios enquanto, «na
figura horrível», expõe aos seus seu programa de ação e a tática que
utiliza para apanhar em suas redes as almas e as massas inteiras de homens.
Nas
páginas que seguem, o Autor quis oferecer-nos simplesmente uma rápida idéia
do ser e do comportamento deste anjo tenebroso que trabalha incansavelmente para
causar-nos dano.
O
Diabo é o maior mestre dos enganos, é um trapaceiro de astúcia incomparável,
que não atua descoberto, mas às escondidas; trabalha na sombra, e sempre
considera como inteligentes aos que não crêem em suas artimanhas, e inclusive
negam sua existência. Assim, os primeiros em cair em suas redes são
precisamente os sabichões, os chamados "espíritos fortes", os
grandes iluminados da ciência deste mundo.
«A
astúcia mais perfeita do Demônio, escreveu Charles Baudelaire, consiste em
persuadir-nos de que ele não existe». Negar, por isso, a existência e a ação
do Maligno é começar a assegurar-lhe já sua vitória sobre nós.
O
Autor, com base em sua experiência, crê que Deus pode talvez permitir - como
no caso dos exorcismos - que o Maligno seja interlocutor com quem o exorciza…
Este último, com a autoridade de Cristo e da Igreja, pode obrigar o Maligno a
responder a perguntas precisas propostas a ele e, às vezes, ainda que é o pai
da mentira, arrancar-lhe algumas verdades... O Autor se serve deste poder de
maneira mais abundante… Se recorre à fantasia sobre o modo de preparar e de
desenvolver os encontros, com isto não pretende dizer que são fantásticas
tantas verdades justificadas pela realidade das coisas. O que aqui ameaça, vai
realizando-a. De resto: «Para quem crê, nenhuma explicação é necessária;
enquanto para os que não crêem, nenhuma explicação é possível»
PAI
NOSSO... LIVRAI-NOS DO MAL > Discurso
de Paulo VI - 15-XI-1872)
Quais
são hoje as maiores necessidades da Igreja? Não lhe pareça simplista, ou
inclusive supersticiosa ou irreal, nossa resposta: Uma das necessidades maiores
é a defesa desse mal que se chama Demônio.
Antes
de esclarecer nosso pensamento, convidamos o seu a abrir-se à luz da fé sobre
a visão da vida humana, visão que desde este observatório se abre imensamente
e penetra em profundidades singulares... E, na verdade, o quadro que estamos
convidando a contemplar com realismo global é muito belo... É o quadro da criação,
a obra de Deus, que o próprio Deus, como espelho exterior de sua sabedoria e de
sua potência, admirou em sua beleza substancial (Gen 1,10).
Depois
é muito interessante o quadro dramático da humanidade, de cuja história
emergem a da redenção, a de Cristo, a de nossa salvação com seus
maravilhosos tesouros de revelação, da profecia, da santidade, da vida elevada
ao nível sobrenatural, das promessas eternas" (Ef. 1,10).
Sabendo
olhar este quadro, não pode um não permanecer encantado (Santo Agustinho,
Solilóquios): Tudo tem um sentido, tudo tem um fim e tudo deixa entrever uma
Presença-Transcendência, um Pensamento, uma Vida e finalmente um Amor, pelo
qual o universo, pelo que é e pelo que não é, apresenta-se a nós como uma
preparação entusiasmante e gozosa de tantas coisas belas e ainda mais
perfeitas do que esperamos (1 Co 2,9; 13,12; Rom 8,19-23).
A
visão cristã do cosmos e da vida é, por tanto, triunfalmente otimista; esta
visão justifica nossa vida e nosso reconhecimento de viver, pelo que nós,
celebrando a glória de Deus, cantamos nossa felicidade (cf. O
Glória da Missa) (NT.: Gloria
cantado em latim).
O
ensinamento bíblico
Mas
é completa esta visão? É exata? Não nos importam em nada as deficiências
que há no mundo? As disfunções do mundo com respeito a nossa existência? A
dor, a morte, a maldade, a crueldade, o pecado: numa palavra, o mal? E não
vemos quanto mal há no mundo? Especialmente quanto mal moral, ou seja,
simultaneamente, se bem diversamente, contra o homem e contra Deus? Não é este
triste espetáculo um mistério inexplicável? E não somos nós, precisamente nós
seguidores do Verbo, os cantores do Bem, nós crentes, os mais sensíveis, os
mais turvados pela observação e a experiência do mal?
Encontramo-lo
no reino da natureza, onde tantas manifestações suas nos parece que denunciam
uma desordem. Depois o encontramos no âmbito humano onde encontramos a
debilidade, a fragilidade, a dor, a morte, e inclusive coisas piores, uma dupla
lei contrastante, uma que quer o bem e a outra pelo contrário voltada para o
mal, tormento que São Paulo coloca em humilhante evidência para demonstrar a
necessidade e a fortuna de uma graça salvadora, da salvação trazida por
Cristo (Rom 7); já o poeta pagão tinha denunciado este conflito interior no próprio
coração do homem: "video meliora, proboque, deteriora sequor» (Ovidio
Met 7,19).
Encontramos
o pecado, perversão da liberdade humana, e causa profunda da morte porque é
separação de Deus, fonte da vida, (Rom 5,12), e depois, a sua vez, ocasião e
efeito de uma intervenção em nós e em nosso mundo de um agente obscuro e
inimigo, o Demônio.
O
mal não é só uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual,
pervertido e pervertedor. Terrível realidade. Misteriosa e pavorosa.
Sai
do quadro dos ensinamentos bíblico e eclesiástico quem recusa reconhecê-la
como existente: e também quem faz disto um princípio em si mesmo, não tendo
ele mesmo, como toda criatura, origem em Deus; inclusive a explica como uma
pseudo-realidade, uma personificação conceitual e fantástica das causas
desconhecidas de nossas más obras.
O
problema do mal, visto em sua complexidade e em seu absurdo com relação a
nossa racionalidade unilateral, torna-se obsessão. Isto constitui a dificuldade
mais forte para nossa inteligência religiosa do cosmos. Por isto Santo
Agostinho sofreu durante anos: "Quaerebam unde malum, et non erat exitus",
Eu buscava de onde proviesse o mal e não encontrava explicação (Confissões
VII, 5,7,11, etc. P L. 32, 736, 739).
Aqui
vemos a importância que tem a advertência do mal para nossa correta compreensão
cristã do mundo, da vida, da salvação. Primeiro no desenvolvimento da história
do Evangelho ao princípio da vida pública: Quem não lembra a página densíssima
de significados da tripla tentação de Cristo? Depois em tantos outros episódios
evangélicos, nos quais o Demônio cruza os passos do Senhor e figura em seus
ensinamentos (Mt 12,43). E como não recordar que Cristo, referindo-se três
vezes ao Demônio, como seu adversário o qualifica como «príncipe deste mundo»
(Jn 12,31; 14,30; 16,11)?
E
a incumbência desta nefasta presença é assinalada em muitíssimos passos do
Novo Testamento. São Paulo o chama “o deus deste mundo" (II Co 4,4) e
nos põe de sobreaviso sobre a luta contra as trevas, que nós os cristãos
devemos sustentar não com um só Demônio, mas com uma temerosa pluralidade: «Revesti-vos,
diz o Apóstolo, da armadura de Deus para poder afrontar as insídias do diabo,
porque nossa luta não é somente com sangue e com a carne, mas contra os
Principados e as Potestades, contra os dominadores das trevas, contra os espíritos
malignos do ar" (Ef. 6,11-12).
Diversas
citações evangélicas nos indicam que não se trata só de um Demônio, e sim
de muitos (Lc11,21; Mc 5,9), mas um é o principal: Satanás, que quer dizer O
Adversário, o inimigo; e com ele muitos, todos criaturas de Deus, mas caídas
porque se rebelaram e estão condenadas (Cf. Denz Sch 800-428); todo um mundo
misterioso desbaratado por um drama desgraçado, do qual conhecemos muito pouco.
O
semeador oculto dos erros
Entretanto
conhecemos muitas coisas deste mundo diabólico, que se relacionam com nossa
vida e com toda a história humana. O Demônio está na origem da primeira
desgraça da humanidade; ele foi o tentador dissimulado e fatal do primeiro
pecado, o pecado original (Gen 3; Sb 1,24). Daquela queda de Adão, o Demônio
adquiriu um certo poder sobre o homem, do qual só a redenção de Cristo nos
pode livrar. É história que perdura; recordemos os exorcismos do batismo e as
freqüentes referências da Sagrada Escritura e da Liturgia à agressiva e
opressora "potestade das trevas" (Lc 22,23; Col 1, 13).
É
o inimigo número um, é o tentador por excelência. Sabemos por isto que este
ser obscuro e perturbador existe verdadeiramente, e que com astúcia traidora
atua; é o inimigo oculto que semeia erros e desventuras na história humana.
Recordemos a parábola evangélica reveladora do grão bom e da cizânia, síntese
e explicação do absurdo que sempre preside nossas vicissitudes contrastantes:
Inimicus homo hoc fecit" (Mt 13,28). É "o homicida desde o princípio...
e pai da mentira", como o define Cristo (Jn 8,44-45); é o instigador do
equilíbrio moral do homem.
É
o pérfido e astuto encantador, que sabe insinuar-se em nós, pela via dos
sentidos, da fantasia, da concupiscência, da lógica utópica, ou de
desordenados contatos sociais no jogo de nosso agir, para introduzir-nos desviações,
tanto mais nocivas quanto conformes à aparência de nossas estruturas físicas
ou psíquicas, ou de nossas instintivas e profundas aspirações.
Este
tema sobre o Demônio e o influxo que ele exerce sobre os indivíduos, sobre as
comunidades, sobre sociedades inteiras, sobre acontecimentos é um capítulo
muito importante da Doutrina Católica que se deve estudar de novo, apesar de
que hoje se lhe dá pouca importância.
Alguns
pensam encontrar nos estudos psicanalíticos e psiquiátricos ou em experiências
espiritistas - hoje por desgraça muito difundidas em alguns países - uma
fundamentação suficiente. Teme-se recair em velhas teorias maniqueístas ou em
pavorosas divagações fantásticas e supersticiosas. Hoje se prefere mostrar-se
fortes e sem preconceitos, positivistas, exceto em dar sua fé a tantas
gratuitas posturas mágicas ou populares, ou pior ainda, abrir a própria alma -
a própria alma batizada, visitada tantas vezes pela presença eucarística e
habitada pelo Espírito Santo! – às experiências licenciosas dos sentidos e
aquelas deletérias dos estupefacientes, como também às seduções ideológicas
dos erros de moda, fissuras estas através das quais o Maligno pode facilmente
penetrar e alterar a mente humana.
Não
está dito que todo pecado seja devido diretamente à ação diabólica (S. Th.
1,104,31) mas também é verdade que quem não vigia com certo rigor sobre si
mesmo (Mt 12,45; Ef 6,11) se expõe ao influxo do "Mysterium iniquitatis",
ao que São Paulo se refere (II Ts 2,3-12) e que faz problemática a alternativa
de nossa salvação.
Nossa
doutrina se torna incerta, obscurecida como está pelas próprias trevas que
circundam ao Demônio. Mas nossa curiosidade, excitada pela certeza de sua existência
múltipla, faz-se legítima com duas perguntas:
Quais
são os sinais da presença diabólica e quais são os meios de defesa contra
este tão insidioso perigo?
A
presença da ação do Maligno
A
resposta à primera pergunta impõe muita cautela, ainda que os sinais do
Maligno parecem tão evidentes (Cf. Tertuliano, Apol 23). Podemos supor sua ação
sinistra ali onde a negação de Deus é radical, sutil e absurda, onde a
mentira se afirma hipócrita e potente, contra a verdade evidente, onde o amor
se apagou devido a um egoísmo frio e cruel, onde o nome de Cristo é impugnado
com ódio consciente e rebelde (1 Co 16,22; 12,3), onde o espírito do Evangelho
é adulterado e desmentido, onde o desespero se afirma como a última palavra,
etc. Mas é um diagnóstico muito amplo e difícil, que nós não nos atrevemos
agora a aprofundar e autenticar, não por isso privado de dramático interesse,
ao qual também a literatura moderna dedicou páginas famosas (cf. As obras de
Bernanos, estudadas por Ch. Moeller
Littér du XX siècle, I, Pag 397 ss; P. Macchi Il volto del male di Bernanos:
satan; Études Carmélitaines, Desclée de Br. 1948)
O
problema do mal aparece como um dos maiores e permanentes problemas para o espírito
humano, inclusive depois da resposta vitoriosa que nos dá Jesus Cristo: "Nós
sabemos que nascemos de Deus, e que todo o mundo foi posto sob o Maligno"(I
João 5,19).
Nossa
defesa
À
outra pergunta: Que defesa, que remédio por à ação do Demônio? A resposta
é mais fácil de formular, mas é difícil levar à prática. Poderemos dizer:
Todo o que nos defende do pecado, nos defende por isso mesmo do inimigo invisível.
A graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza e
depois cada um recorda o que a pedagogia apostólica havia simbolizado na
armadura de um soldado, as virtudes que podem fazer invulnerável ao cristão
(Rom l3,12; Ef 6,11.14.17; 1 Ts 5,8). O cristão deve ser militante, deve ser
vigilante e forte (I Pe 5,8); e às vezes deve recorrer a algum exercício ascético
especial para afastar certas incursões diabólicas; Jesus assim o ensina
indicando o remédio “na oração e no jejum" (Mt 9,29 ). O Apóstolo
sugere a linha mestra a ter em conta: "não os deixeis vencer pelo mal,
antes vencer o mal com o bem" (Rom 12,21; Mt 13,29).
Com
a certeza das adversidades presentes nas que hoje as almas, a Igreja e o mundo
se encontram, nós buscamos dar sentido e eficácia à costumeira invocação de
nossa principal oração: «Pai Nosso... livrai-nos do mal». A tudo isto ajuda
também nossa benção apostólica.
*
* *
N.B.
Referindo-se
a outra reflexão, feita pelo Papa sobre o diabo, Michele Federico Sciacca, num
artigo publicado em 7-fevereiro-1975 no jornal Il Tempo de Roma, com o título
Satanás entre nós, escrevia:
"Mal
foi ao Papa Paulo VI, faz algum tempo, por ter aludido ao diabo no sentido do
Antigo e do Novo testamentos. Abra-se, inferno! Foi acusado de retorno ao
Medieval, de obscurantismo, de superstição, de ofensa em pleno 1974 à ciência
e ao espírito científico racionalista e progressista. Mas, em resumidas
contas, este maldito Satanás vive ou não vive? Se se o considera de uma parte,
seguindo o Evangelho, como o tentador e o acusador que encarna o mal, então
dizem que é um atraso de obscurantistas crer em sua existência e afirmam que não
existe; e por outra parte se se o identifica - e Satanás o repete - com a razão
humana rebelde e triunfante, com a que sorridente e operante vive «na matéria
que nunca dorme», então afirmam profeticamente que é o símbolo sublime de
toda graça verdadeira e vitoriosa... daquele ex-Deus. Superstição obscura
esta que procede da ciência iluminista, e portanto sutilmente mundana... Disto
se deduz que estas afirmações procedem de uma mentalidade radicalmente
perversa, (cf. Michele Federico Sciacca, il magnifico oggi. Roma Città Nuova
1976 P. 283 ss).
QUEBRA-DE-BRAÇO
COM O MALIGNO
A
idéia deste escrito me veio de improviso numa tarde de agosto do ano passado de
graça e de desgraças, 1974.
Foi
assim: Desde há dois meses, talvez antes, quase todos os dias, às três da
tarde em ponto, o Segundo Canal da RAI emitia um programa intitulado
“Entrevistas impossíveis”.
Tratava-se
de encontros entre literários, jornalistas e estudiosos de cultura variada com
homens do passado: com personagens do pensamento, da arte, da política
introduzidos bem ou mal na história, com nome mais ou menos famosos.
O
programa era original e, se bem coincidisse com a hora da sesta, pus-me a
segui-lo com curiosidade assídua.
Eram
encontros - dizia - de homens de hoje com outros de ontem para interrogar-lhes,
como se fossem, por não sei que classe de truque mediático, momentaneamente
revividos, e fazer-lhes falar e dar explicações de alguns de seus atos e
confessar suas intenções secretas, já obrigados a responder às perguntas, já
postos na necessidade de justificar-se das coisas mal feitas de algum histórico.
O
personagem entrevistado normalmente aparecia fielmente centrado no ambiente de
seu tempo. As respostas se referiam à vida e ao pensamento que lhe
caracterizaram. E quando os entrevistadores eram muito inteligentes - não
sempre - em pouco mais de quinze minutos nos davam boas provas de habilidade
mental com esboços de retratos histórico-psicológicos de uma feliz e muito
vivaz finura.
Um
depois do outro vinham interpelados, sem nenhuma ordem cronológica, Atila,
Marat, Casanova, Marco Polo, Pitágoras, Copérnico, Bruto, Diderot, Swift,
Marco Aurélio, Pilatos, Cleopatra, la Beatrice de Dante, etc., ainda que esta
vilmente desfigurada.
Entre
uma e outra audição me veio à mente uma observação muito extravagante:
“Falta
uma entrevista com Satanás!... Seria interessante. Não obstante, hoje, com a
habilidade que alcançou tal mestre para não fazer-nos crer nele..."
O
calor daquela tarde era sufocante e me estirei sobre uma poltrona para
recuperar-me um pouco do sono.
*
* *
Na
manhã seguinte, nada mais despertar-me: "Claro que uma entrevista com
Satanás, ou melhor com o Maligno, seria fantástica! Que importa que tantos não
creiam nele. E lembrei da fundamentação feita pelo Papa num de seus discursos
da quarta-feira. Uma fantasia bem apresentada pelo menos alcançaria chamar a
atenção sobre tal sujeito. Talvez também tirar o sono a mais de um".
Não
pensei nisto durante certo tempo. Mas a idéia se apresentava intermitentemente
e, às vezes, com estranhas linhas de algo factível. Se poderia, por exemplo,
dizer isto... apresentar assim um episódio... introduzir este ou aquele outro
aspecto... Pouco a pouco este se fez um tanto meu sofrimento.
Uma
entrevista com o Maligno. Não pensava precisamente meter-me nela. Vejamos então
a quem confiá-la. Comecei entre mim a dar nomes. Pus em mente a vários.
Enquanto pensava nisto, um depois outro ia descartando.
Meter-se
a dialogar com o diabo, ainda que só seja sobre o plano da fantasia, não é
coisa fácil. Ninguém aceitaria uma idéia tão bizarra, e sobretudo, fora de
época: Coisa da Idade Média!
Entretanto,
o estranho era isto: quando pensava levar a sério esta idéia, sentia meu ânimo
abrir-se à serenidade e a coisa interessante. Pelo contrário quando me
propunha não fazer nada, sentia-me inquieto e caía num estranho nervosismo.
Havia em mim algo que colocar para fora, como uma liberação.
Em
minha vida foi a primeira vez que tive a suspeita de ter necessidade de um neurólogo.
Uma
tarde fui, como que obrigado por não sei que, a uma igreja, onde é venerada
uma Virgem muito querida pelo povo romano, e a encontrei, como coisa rara, muito
cheia de gente.
Aconteceu
algo incrível. Apenas passada a porta, aproximou-se uma mulher de meia idade,
de baixa estatura, com dois olhos luminosíssimos e doces, e de repente me
disse: "Quando se decide a escrever aquelas coisas?..." E me olhava
com insistência.
“Escrever?
Que coisas?”
“Deixa
disso, você sabe melhor que eu".
“Mas
você quem é?”
“Que
interessa dizer-lhe quem sou? Vá ver Aquela - e indicou o quadro da Virgem –
Vá ouvir o que Ela quer dizer-lhe."
Um
numeroso e compacto grupo de turistas invadiu naquele momento a entrada. A
mulher foi envolta na confusão e a perdi de vista. Que coisa tão estranha! Uma
alucinação ou um aviso do céu? Senti-me perdido e ridículo, sobretudo ridículo.
Encontrado
uma posição adequada, antes de por-me aos pés da Virgem para rezar-lhe,
aquela vergonha minha interna desapareceu como se fosse nada. Sem voltar a
pensar no sofrimento que me molestava, experimentei dentro de mim como um empurrão
dulcíssimo e firme a recolher-me no argumento para começar a fazer qualquer
coisa.
Olhando
a querida imagem, não me atrevi a pedir-lhe nada sobre isto, pois já advertia
em mim uma promessa de assistência materna.
"Está bem, disse saindo. Embarcarei neste assunto. Eu mesmo escreverei esta estranhíssima entrevista. Sairá algo que me cobrirá sobretudo do ridículo. Mas terei tirado uma idéia fixa da cabeça".
PRIMEIRO
ENCONTRO
Naquela
mesma tarde, depois de um jantar rápido e sem apetite, retirei-me ao meu quarto
para verificar um pouco a correspondência.
Depois
de meia hora, pus-me a recitar a última parte da "Liturgia das horas».
Fiz devotamente o sinal da Cruz e comecei: 'Jesus,
luz da luz, - sol sem ocaso, -tu iluminas as trevas, - na noite sol mundo,- Em
Ti, Santo Senhor - buscamos descanso- da fadiga humana, - ao fim do dia"...
Notei
desta vez, que quanto mais ia adiante, mais crescia em mim o desejo de atrasar
aquela oração habitual. Sentidos e gostos novos fluíam daquelas palavras
antigas e simples.
Ao
final, beijei o breviário e coloquei-o à parte. E agora que faço? Algumas
vezes tomo notas rápidas em meu diário; tentei fazê-lo mas logo me passou a
vontade.
Voltando-me,
meu olhar se encontrou com a imagem da Virgem, ante a qual aquela tarde havia
ido a orar. Tive desejos de entreter-me com Ela e, apanhado o rosário do bolso,
fiz o sinal da cruz. As Ave Maria me pareciam dulcíssimas como se entrasse em
contato com Ela. Não tinha terminado ainda a primeira dezena, e já me
encontrava sentado e com a caneta na mão. Coisa estranha? Para fazer o quê? Um
bloco de papel estava ali sobre a mesa: Começar a escrever algo sobre aquela
diabrura? Não pensava nisto de maneira alguma. Não tinha nada concreto em
minha cabeça e a imaginação não parecia ajudar-me.
Para
fazer qualquer coisa, peguei o bloco de papel e escrevi no alto: «Entrevista
com Satanás". Não, corrigi. Melhor dizer: «com o Maligno". Este
segundo apelativo é menos comum e de um sentido mais imediato. E permaneci com
a caneta no ar.
Naquele
mesmo instante, senti ao longo da coluna vertebral uma repentina tremedeira de
frio que imediatamente me envolveu por inteiro.
Ao
lado da escrivaninha, à esquerda, a janela estava completamente aberta,
instintivamente me levantei para fechá-la. Senti, entretanto, que de fora vinha
um ar quente. Era a tarde de uma jornada calorosa de setembro.
Enquanto
tocava a face e a testa, olhando se tinha sintomas de febre, um golpe de frio me
atravessou e tive uma estranha sensação de medo. Sentei-me, permaneci um pouco
pensativo, depois tentei deitar na cama. Não consegui mover-me. Sentia-me
pregado à escrivaninha, não porque alguém me forçasse, sim por uma sensação
de inércia total: uma espécie de torpor.
Invoquei
mentalmente a Virgem que me olhava a uns metros de distância da parede e senti
um instante imprevisto de paz.
Enquanto
em meu interior dava graças à Mãe Celestial, a cadeira, a escrivaninha, quase
todo o quarto, sofreram um sobressalto misterioso.
"Você
pediu para entrevistar-me, aqui estou.”
Era
uma voz cavernosa, áspera, metálica. Uma voz que não soube precisar de que
ponto vinha, mas que desencadeou em mim um grande e forte calafrio de medo.
Permaneci alguns minutos sem respiração, depois recuperei as forças.
“Mas
quem é?"
“Não
seja burro, sou eu!"
Não
havia pensado nunca de poder passar com minha entrevista do plano da imaginação
ao de um cara a cara com o Maligno.
Num
ângulo da escrivaninha havia um rosário e instintivamente o peguei como se
fosse uma arma de defesa,
"Joga
fora esta besteira, se quiser falar comigo!”
“Besteira?..."
"Excrementos
de cabra colocados juntos!”
Se
para você é uma besteira, eu o beijo e para seu desprezo o enrolo ao redor do
meu pulso, como defesa. Vejo que lhe dá medo, velhaco!
Isto
para mim é uma guilhotina!...
“Melhor
ainda, e obrigado por ter-me dito!”
Tentei
muitas vezes explicar-me como percebi aquela voz tão próxima, que não vinha
de nenhum ponto preciso do quarto nem saía de meu interior. Entretanto,
compreendia-a claramente, sempre num tom ameaçador, desdenhoso e carregado de
uma raiva especial.
“Como
é que você veio? Quem lhe envia?”
"Fui
obrigado".
“Por
quem?” Seguiu um silêncio tenso.
“Vamos,
obrigado por quem?”
“Por
aquela!”
“Gritou
esta resposta com um desprezo e com um ódio indescritíveis."
“Quem
é ela?" Entretanto, havia compreendido.
“Não
direi seu nome jamais!”
“Te
queima tanto?”
"Odeio-a
infinitamente!"
“Porque
é a criatura mais elevada e mais santa…”
Mastigando
as palavras com raiva: "Ele
quis assim para meu desprezo, para que fosse minha mais esmagadora humilhação!”
Fiquei aturdido. “Como é possível? É o pai da mentira e diz uma verdade tão grande? Não se dá conta que este é um louvor imenso?” Minha pergunta ficou sem resposta. Desta vez foi tudo.
Passaram-se
alguns dias sem que nada de novo acontecesse. Não sabia o que pensar. Não
tinha a coragem de invocar a volta de um interlocutor tão singular. Aquele
primeiro encontro havia deixado mais de uma pergunta no ar. Mas foi cortado no
melhor. Aquela última resposta, entretanto, tão inesperada, deixou-me numa
alegria grande.
Uma
manha, apenas havia terminado de celebrar a Missa, tive um desejo insólito de
ir rapidamente para casa. Empurrava-me o estranho indício de algo não
costumeiro.
«Aquele
mensageiro deve estar já aqui, pensei. Correto, eis aqui os costumeiros
calafrios de frio gelado. Não havia me enganado.
Sentei-me,
invoquei mentalmente a Virgem e esperei.
"Estou
aqui. Que mais você quer perguntar-me?".
Parece
que aquele ser tenebroso houvesse sido posto a minha disposição.
“Antes
de mais nada, devo agradecer-lhe o grande elogio que na última vez você fez à
Virgem.
Impressionou-me muito sua resposta. E ainda não chego a explicar-me como se lhe
pôde escapar”
“É
ela que me obriga a falar assim, entende? Ela me obriga. Fá-lo para
contentar-lhe e para humilhar-me. Mas você – lembre-se - me pagará. Você não
chega a compreender jamais que tortura é para mim ter de obedecê-la
obrigando-me a dizer certas verdades. Eu odeio a verdade, porque a verdade é
Ele, entende? Você permanece horrorizado ante os tormentos aos que tantos
subalternos meus submetem seus condenados políticos, recorrendo à pílula da
verdade, à lavagem cerebral - todos são invenções minhas, para que saiba -
para levá-los à auto-crítica e a arrancar-lhes suas confissões
preestabelecidas. Pior é o suplício ao que sou submetido por aquela para
levar-me a cuspir-lhe na cara certas verdades. Por isto, repito-lhe que você me
pagará”.
"Obrigado
também por isto que me diz; mas se Ela está comigo, você não me dá medo”.
“Disse-lhe
que você me pagará".
"Certo.
Mas continua falando-me dEla".
"É
minha inimiga mais implacável".
“Acredito:
É a Mulher destinada a dar-nos Jesus, nosso Redentor, o reparador de todas suas
maldades, especialmente por haver-nos dado o pecado e a morte. E Ela, por
virtude de seu Filho, para sua humilhação, venceu tudo isto".
Um
grande silêncio de espera.
“Compreendo
que não tenha muito desejo de falar de Maria. Você é infinitamente soberbo e
a recordação dEla é muito humilhante para você. Disseste bem, é sua maior
humilhação. Mas, em nome dEla, responde. Você creu ter obtido uma vitória
plena arrebatando-nos a nossa mãe Eva? Nem sequer suspeitava que Deus lhe teria
vencido com Maria? Uma Mãe infinitamente maior que a que nos arrebataste e com
a qual nos mandaste à ruína. Deus nos deu Maria e a fez Sua Mãe".
"Mas
por que se empenha tanto em falar-me daquela? Pára já!”
Exatamente
porque lhe aborrece tanto...
“É
uma terrível destruidora de meus planos. É uma devastadora de meu reino. Não
me deixa conseguir uma vitória e já me prepara uma derrota. Está sempre em
meu caminho. Sempre ocupada em atravessar em meu caminho, em suscitar fanáticos,
que a ajudem a arrebatar-me almas. Ali onde mais clamorosas são minhas
conquistas, num silêncio capilar ela multiplica as suas. Mas agora chegou o
tempo em que obterei sobre ela vitórias jamais vistas..”.
"Efêmeras
como as demais!”
*
* *
Ainda
um breve silêncio.
“Não serão efêmeras!... Desta vez será uma vitória total. Acreditava
estar seguro numa fortaleza inalcançável. Agora abri-lhes uma brecha que será
pior do que a primeira!...
“Que
brecha? Penso que corre muito. Está muito seguro de si mesmo"
“Tenho
de minha parte também os teólogos. Os meus vaidosíssimos doutores. Se eu
fosse capaz de amar, seriam meus amigos mais queridos. Seus cultivadores do
dogma vão abandonando suas posições uma depois da outra. Induzi-os a
envergonhar-se de certas fórmulas ridículas. A envergonhar-se antes de nada de
crer em minha existência e em meu trabalho no meio de vocês: Coisa para mim
comodíssima"
E
você conta com isto?
«Deste
modo, as fábulas da Imaculada Conceição, da Maternidade Divina, da sempre
Virgem, da onipotente cheia de graça estão sendo desmoronadas como miseráveis
disparates. Dentro de poucos anos ficará só a recordação – vergonhosa
recordação - de lendas tão bobas. Muito tive que esperar mas agora chegou
finalmente meu tempo. Definitivamente chegou minha hora! Se soubesse o bem que
trabalham meus aliados: padres, freis, doutores!... Onde estão agora os fanáticos
de seu culto, seus simpatizantes fervorosos?”
*
* *
Parecia
que tivesse ido embora. Mas estava ali, talvez à espera de minha reação.
“Eu
sei: você conseguiu reunir em torno de tantas verdades do Credo uma poeirada
irrespirável cheia de confusão. Acredita suprimir o sol só porque o escondeu
detrás de muitas nuvens. Mas tudo isto passará. Bastará um sopro do
Onipotente para destruir tudo o que você está construindo. Um sopro só e
Deus, em sua Providência, também de novo tirará o bem do mal. Inclusive
destas confusões saberá fazer brilhar a verdade ainda mais esplêndida”.
"Não
se iluda".
Sei
que não me engano. A fé me diz. Nem você mesmo, eterno mentiroso, crê nesta
vitória final.
Você
se agita porque sabe que Deus tem medido o tempo no qual, para seus desígnios,
deseja-lhe exagerar. Você sabe que o mais poderoso é Ele. Ele tem adiante de
Si a eternidade. Num instante lhe arrebatará da mão suas vitórias momentâneas.
Você é o eterno fanfarrão ridículo. Você se crê onipotente, melhor ainda
quer fazer você mesmo crer, mas basta um sinal da cruz para por-lhe em fuga,
basta um pouco de água benta para paralisar sua onipotência. A parábola do grão
e da cizânia foi dita sobretudo para você. Você é simplesmente ridículo em
suas gabações. Você é um pobre cão atado a sua corrente. Você não pode
nada além do que lhe permite Deus. Permite-lhe para provar aos seus eleitos no
tempo, e derrotar-lhe para toda a eternidade”.
“Que
eloqüente você é! Fez uma bela pregação para os papagaios da paróquia. Você
reúne palavras, eu conto fatos".
“Estou
apenas revelando sua mentira. Sua história terminará como começou. Você tem
a estúpida presunção de crer-se semelhante a Deus. Rebelou-se e Deus naquele
mesmo instante, com um sopro precipitou a você e aos seus nos abismos
infernais. Bastou um movimento de Sua vontade para fulminar-lhes a todos, para
transformar-lhes de anjos em horríveis demônios".
“Ainda
um pouco de pregação.”
"Você
sabe bem que não é pregação. É um fato tremendo. Como tremendo é o inferno
no qual você se precipitou... A propósito: Que é o inferno?..."
Um
silêncio triste como um pesadelo.
“Em
nome dEla, responde, fala-me do inferno".
“Impossível
dizer-lhe".
“Prova”.
“Nem
sequer ela mesma, em Fátima, soube explicá-lo”.
Como?
Aqueles pobres meninos por pouco não morreram de pavor!
"E
que viram... o inferno é bem diferente... Contente-se com isto.”
*
* *
Também
desta vez tive a suspeita de que se tivesse ido. De maneira estranha me advertiu
que se encontrava ali.
“Desgraçado!
Você era um anjo. Deus lhe criou riquíssimo de dons e de belezas divinas.
Tinha a inteligência dos espíritos eleitos. É inconcebível como você e os
seus possam atrever-se a um pecado tão estúpido de rebeldia. Como tentar
apropriar-se do que não era seu? Responde!”.
“Porque
quis submeter-nos a uma prova infinitamente humilhante para nós, espíritos altíssimos.
Uma prova inimaginável, digna só de uma revolta”.
“Que
prova?"
De
novo um silêncio carreado de mistério. "Vamos, em nome dEla que te
obrigou a vir, responde. Que prova?".
"Impôs-nos
um ofício muito humilhante e inaceitável. Pôs-nos em frente ao desenho da
criação do mundo material, de todo o cosmos, por cima do qual criou também a
vocês os homens com o propósito de elevá-los à mesma dignidade a que nos
havia elevado, e para cúmulo de tudo, o que fez desencadear nossa revolta… pôs-nos
diante da encarnação do Filho, feito homem, revestido de uma natureza inferior
à nossa, e impôs-nos adorá-Lo. Nossa inteligência se assombrou. Milhões de
anjos se submeteram vilmente a Ele. Muitíssimos de nós O vimos como uma
afronta a nossa dignidade e nos rebelamos. O castigo explodiu de imediato. Nós
não queremos aceitar nossa condição de criaturas, de ter necessidade dEle, de
estar submetidos a Ele. Acreditamo-nos auto-suficientes - e éramos - de nós
mesmos... Naquela recusa nosso gesto é de revolta... E num momento nos
encontramos como somos. Sua sentença foi sem apelação". Tampouco nos
houvéssemos submetido a Sua vontade.
“E
não era um pecado gravíssimo de rebeldia?”
Um «Nãooo…” tenebroso, longo, cavernoso, de gelar o sangue, ressoou um bom tempo no além. Compreendi que havia desaparecido, deixando atrás um fracasso que parece o estrondo de uma avalanche. Tudo o que estava firme tremeu. Saí ao corredor olhando se alguém tivesse percebido algo. Nada. Não vi ninguém.
Desta
vez não se fez esperar muito. Na noite seguinte, estava para meter-me na cama,
quando ouvi rumores estranhos no quarto. Eram passos fortes, quase surdos que
faziam vibrar o pavimento. Advertida sua presença, agarrei o rosário, fiz o
sinal da cruz, invocando mentalmente a Virgem que estava junto a mim, ao lado da
cama, e esperei.
"Sinto
que você está aqui. Bem, em nome dEla, que te obriga a vir e a responder-me,
diga-me: imediatamente depois de seu grande pecado, você se deu conta de tudo o
que havia perdido para sempre?”
“Que
pergunta tão estúpida!”
"Obrigado,
você é muito gentil. Sei muito bem que minha inteligência não se pode
comparar com a sua. Por isso permita-me uma pergunta ainda mais idiota: Jamais
se arrependeu daquele pecado?”
"Arrependimento?”,
a resposta surgiu de imediato, como um rugido de besta.
"Mas
não sabe que um ato de arrependimento teria sido um ato de amor? E isto é
totalmente inconcebível em nós. Nós fomos imediatamente investidos de um ódio
imenso contra Ele. Um ódio implacável, eterno. Encontramo-nos envoltos, quase
petrificados, numa maldição que chegou a ser nossa segunda natureza.“
Tranqüilamente
tivesse querido concentrar a reflexão sobre a desgraça irreparável de
milhares de criaturas tão excelsas, mas o outro me interrompeu.
“Depois
de haver-nos expulsado de seu paraíso, vingou-se destinando a nosso estado aos
seres mais nauseabundos, vocês os homens, um amassado de espírito e de matéria
suja. Fez de vocês um objeto de seu amor infinito. Vai mendigando de vocês o
amor que nós lhe havíamos recusado. O amor por vocês lhe fez cometer
loucuras, até humilhar ao Filho no ventre de uma mulher. Tem a ambição de
ocupar com vocês os postos que nós deixamos vazios. Mas antes que alcance
isto, encheremos nosso inferno com vocês os homens. A vingança que não
podemos realizar sobre Ele, a faremos com vocês. “
"Isso
é o que você sonha. Mas entre nós e você, sobre o vértice de seu abismo
infernal está Cristo Crucificado, você terá só aqueles que obstinadamente
queiram permanecer ao seu lado. Todos os demais, também os pecadores, também
os pobres infiéis, lhe serão arrancados como presa que não lhe pertence,
porque não são suas. Ele as pagou com o preço de Seu Sangue e são seus.
Nego-me a crer que finalmente você tenha mais que Ele!”
*
* *
Houve
uma pausa mais longa. Tive a sensação de que quisera agredir-me com um
discurso, e de fato, pasSou imediatamente ao ataque.
"Diz
que Ele terá mais que eu?... Mas é que não vê, cego e estúpido como é, que
hoje estou mobilizando tudo para sua ruína? Não vê que seu reino se desmorona
e que o meu se engrandece dia a dia sobre as ruínas do seu? Prova a fazer um
balanço entre seus seguidores e os meus, entre aqueles que crêem em suas
verdades e os que seguem minhas doutrinas, entre os que observam sua lei e os
que abraçam a minha. Pensa somente no progresso que estou fazendo por meio do
materialismo ateu e militante, que é a recusa total a Ele!”
Ainda
um pouco mais de tempo e todo o mundo cairá em adoração diante de mim. O
mundo será completamente meu.
"Pensa
nas devastações que estou levando ao meio de vocês, servindo-me
principalmente de seus ministros. Desencadeei em seu rebanho um espírito de
confusão e de rebelião que jamais até hoje havia alcançado obter. Tens a seu
guardião de ovelhas, vestido de branco, que todos os dias fala, grita, conversa
inutilmente. Quem o escuta? Posso fazê-lo calar imediatamente apenas queira,
num momento posso eliminá-lo; basta que arme a mão de um emissário meu”.
Todo
mundo escuta minhas mensagens, as aplaude e as segue. Tudo está de minha parte.
Tenho as cátedras com as quais pus em cheque a sua filosofia. Tenho comigo a
política que os desagrega. Tenho o ódio de classes que os fere. Tenho os
interesses terrenos, o ideal de um paraíso na terra que os enfrenta uns com
outros. Meti-lhes no corpo uma sede de dinheiro e de prazeres que os faz
enlouquecer e que os está reduzindo a ser um tropel de assassinos.
"Desencadeei
no seu meio, uma sexualidade que está fazendo de vocês um grupo exterminado de
porcos. Tenho a droga que logo os converterá numa massa de miseráveis larvas
de loucos e moribundos. Levei-os a adotar o divórcio para reduzir a fragmentos
suas famílias. Levei-os a praticar o aborto com o que causo matanças de
homens, antes que nasçam”.
"Todos
anjos destinados ao céu!"
"Mas
lhe parece pouco ter convertido as mulheres, as mães, em piores que as bestas;
induzi-as a matar seus filhos, coisa que nem as bestas fazem!”
“Tudo
o que pode destruí-los eu tento, e obtenho o que quero: injustiças a todos os
níveis para tê-los num contínuo estado de desesperação; guerras em cadeia
que destroem tudo e os levam ao sacrifício como as ovelhas; e junto a isto a
desesperação não saber livrá-los das calamidades com as que eu tenho que levá-los
à destruição. Conheço até onde chega a estupidez de vocês os homens e a
aproveito completamente”
“A
redenção Daquele que se fez matar por vocês, bestas, eu a substituí pela dos
governantes assassinos, e vocês se lançam em seu seguimento como ovelhas
estupidíssimas. Com as promessas de bem que lhes fiz e que não obtereis nunca,
alcancei cegá-los, fazê-los perder a cabeça, até levá-los facilmente onde
quero. Lembre que eu os odeio infinitamente, como odeio a Ele que os criou. Sim,
haja favor que lhes fez, enviando seu Filho a desperdiçar seu Sangue pela
ditosa Redenção. Eu os odeio, desprezo-os!”
*
* *
“E
com isto?”
“Que
quer dizer? Não é suficiente? Posso continuar, se crês...”
“Com
tudo isto crê poder cantar vitória contra Deus? Você seria o grande vencedor
e Deus o grande derrotado? Não nego que está trabalhando talvez como nunca,
que agora vai obtendo seguidores mais que no passado, mas em seus desenhos é um
habilíssimo enchedor de balões. Já lhe disse que sua história concluirá
como começou. Nossa atenção vai ao final de tudo isto. Então, teve num
instante muitíssimos seguidores. Mas como terminou seu gesto de rebelião?
Tirou Deus do trono de sua glória?"
“Ainda
se engana? Não compreendeu nada do que lhe mostrei?”
“Você
é o tal! Todas estas fanfarronadas suas podem impressionar a um homem de pouca
fé, não a quem crê firmemente que Deus é Deus e você é um miserável
rebelde, uma criatura sua, que Ele poderia destruir com um sopro, num só
instante, mas que não o fará jamais. Tem podido enganar a milhões de homens
para que não creiam em Deus, mas você sabe que Ele existe, que Ele é o
Onipotente, que tem em sua mão o destino dos homens e da história. Quis travar
a guerra contra Ele e lhe está deixando obter alguns resultados, inclusive
momentaneamente espetaculares Mas sabe bem que seu poder está condicionado a
sua onipotência e a vitória final será só dEle!”
"Ao
contrário, será minha!”
“Mentiroso,
nem você mesmo se crê, porque sabe bem com quem se meteu. Lembra a lição da
Sexta-feira Santa. Trabalhou bem esse dia. Por meio de seus satélites se
apoderou de Jesus e chegou a fazê-lo matar. Mas, na cegueira de seu ódio, não
se deu conta que aquela morte foi vitória dEle ao querê-la e você foi um
instrumento submetido. Acreditava tê-lo liquidado para sempre. Entretanto, o
vencido foi você. Ele ressuscitou ao terceiro dia, vencedor da morte e do
pecado. Vencedor sobre você e sobre todo seu inferno!”
*
* *
“O
mistério pascal o venceu de uma vez para sempre. Entretanto, renova-se, ao
longo dos séculos na vida da Igreja e das almas, num enfrentamento ininterrupto
de lutas, de morte e de ressurreição. Mas o triunfo do Reino de Deus aqui não
se anuncia com as fanfarronadas, anuncia-se, progride e resiste aos ataques com
o mistério divino do silêncio”.
“Os
costumeiros velhos discursos de oratória…”
“Sabe
que isto não é oratória. Na manhã que ressuscitou, Jesus não teve nenhuma
preocupação por vingar-se de seus inimigos, de seus malfeitores. Não teve
nenhum desejo de humilhá-los, como Ele teria podido fazer e como algum poderia
ter esperado. Com uma demonstração espetacular e fulgurante de seu triunfo
sobre a morte, teria podido aparecer ante o Sinédrio, ante Pilatos, ante
Herodes, ante quantos lhe humilharam e lhe deram a morte... Não foi gritar-lhes
na cara: "Eis aqui vossa vitória!" Pelo contrário, Sua Majestade
infinita está muito por cima desse tipo de satisfação triunfalista, não lhe
preocuparam seus inimigos. Não pensou em refazer sua reputação ante eles”.
"Ele
inaugurava um estilo próprio. Dava exemplo de como se realiza seu triunfo nesta
terra, de como procede a sua Igreja em meio dos homens e ao longo dos tempos: Um
caminho extenuante, duro, sem barulho. Ela vai adiante no silêncio, coberta
continuamente de feridas, rodeada de mártires que são seus testemunhos
incomparáveis. Obrigada muitas vezes a refugiar-se nas catacumbas; mas tudo
isto já se havia anunciado e isso é o que a faz mais semelhante ao seu
Chefe".
“Palavras,
palavras, palavras! Não se dá conta de que tenho em minha mão todas as forças
do mal?... Não vê como as mobilizei compactas contra o reino dEle?... Minha
ofensiva avança já incontível!".
“Até
quando? Você se crê o dono da situação. Apresenta-se como o senhor e o
dominador do mundo. E apenas é o executor dos planos dEle. Você colabora só
para a grandeza de Sua vitória final. Como tantas vezes no passado, também
hoje, a Igreja tem necessidade de ser purificada. Para isto servem as provas.
Ele não arranca sua vinha, poda-a. A atual ação de obstáculo que você e
seus satélites têm desencadeado no seio do povo de Deus serve para isto, para
purificá-lo. Os atuais logros aparentes de sua obra de sedução e de desordem
servem a Ele para seus planos. Ao final, tudo se voltará contra você e estará
definitivamente vencido”.
Aarão observa: definitivamente se pode ver aqui o quanto satanás
é amarrado e quanto sua fraqueza é fragrante. O simples fato de a Mulher,
Maria, o subjugar e mandar que ele fale a verdade para alertar o povo insano, é
prova de que ele não tem poder algum, apenas permissão de Deus para agir. Mas
sua ação pérfida e maligna é sempre canalizada por Deus para uma obra de
salvação, para benefício e crescimento dos homens.
Como ele dirá, não ganha nada com a perda das almas, apenas aumenta sua solidão eterna, seu martírio. Mesmo sabendo que perderá, ele jamais aceita este fato, e entra em desespero quando é lembrado desta circunstância. Seu brutal orgulho não o deixa ver a realidade, então se atira com toda fúria insana contra os filhos de Deus, uma vez que não pode atingir diretamente ao próprio Deus. E sabendo disso – que não pode atingir a Deus – já o deveria fazer entender que jamais o suplantará.
Isso explica o motivo pelo qual os nossos números de perda eterna são tão
baixos. E vai nos dizer claramente no final que, com todo este maldito trabalho
das trevas, jamais satã conseguiu ou conseguirá atrair uma só alma, e
leva-la a perda, porque todos os que se perdem, assim o fariam, sem a presença,
sem a atuação maligna do diabo. Não perdi a nenhum daqueles que me deste,
disse Jesus. Isso explica tudo. Imaginem o desespero dos anjos caídos, imaginem
a fúria, o ódio e o orgulho ferido de Lúcifer em não conseguir nenhum súdito,
nenhum adorador sequer, por causa de seus “belos olhos”.
Porque, na realidade, para que alguém adore, é preciso que antes AME. E
Amor é uma palavra que não entra no inferno. Lá o amor é impossível, por
isso também a adoração se torna impossível, e somente se submeterão à fera
maldita, aqueles que são réprobos por natureza – como os anjos o foram –
aqueles que decidiram desde a centelha de sua criação ser inimigos de Deus.
A estes o reino maldito, o reino do ódio. Lá adorar impossível. Lúcifer
não terá um só adorador na eternidade. Os que hoje o adoram na terra, é
porque não sabem quem ele é, não sabem o que fazem. Quando souberem só irão
odiá-lo, e assim para sempre. Esta solidão infinita será um tormento para
aquela criatura má e repugnante. Tanto lutou para se fazer adorar, e somente se
fez odiar. Tudo fez para destruir, e apenas construiu para Deus. Tudo fez para
levar os homens a perda, e não conseguiu fazer perder um só.
Isso nos prova em definitivo, que o mal não tem espaço no universo. O
mal é uma realidade que jamais poderá ser eterna, porque ele age apenas para a
ruína. Eis porquê o reino de Lúcifer definha em si mesmo, e morre sem ter
nascido. Ele próprio o destrói! Eis o “motu perpétuo” do ódio, que se
destrói na malignidade, e terminará quando Lúcifer e os seus forem
encarcerados numa prisão eterna, o lago de fogo e enxofre, e para sempre.
Não
foi propriamente um encontro como os anteriores nem como os que seguirão. Desta
vez, exceto um rápido retorno do Maligno ao final, quase tudo se desenvolveu
num longo e muito agitado sonho. Tudo aconteceu de um modo que pudera jurar que
estava completamente desperto. Os sonhos, dizem, costumam ser breves mas este me
pareceu longuíssimo, a julgar pelas coisas que vi e que entendi. Era um sonho
que chamarei adivinhador.
Tive
a sensação de ser despertado de sobressalto, ao som ensurdecedor de milhares
de buzinas de carro, de tambores batendo ao ritmo de marcha, que martelavam um
potentíssimo canto marcial. Aproximando-me, encontrei-me diante de uma grandíssima
praça, jamais vista por mim, cheia de gente, especialmente de jovens, que com
bandeiras vermelhas na cabeça, continuavam chegando de todas as partes, como
rios em cheia que vinham desembocar naquele mar de gente.
Um
tiro de canhão foi o sinal para um silêncio imediato. Todos estavam às minhas
costas e olhando para um palco altíssimo que surgia longe sobre o fundo da praça.
Nada mais ver ali um homem com uma longa faixa vermelha caindo pelos lados,
gritos frenéticos de "viva" lhe saudaram durante longo tempo. Feito
silêncio a um sinal seu, começou a falar numa língua da qual não compreendi
nem uma palavra.
Enquanto
assistia a esta reunião espetacular, aconteceu um fenômeno estranho. À medida
que o orador falava e os alto-falantes difundiam a voz a todas as direções, a
superfície da praça se dilatava, alongava-se até não poder mais enxergar com
os olhos os confins. Só conseguia captar um confuso flutuar de gente à distância
cada vez mais esfumada.
Foi
aqui que, no assombro daquela estranha visão, interveio a voz alta e soberba do
Maligno:
“Olha,
olha que espetáculo tão maravilhoso!... Toda a juventude se colocou do meu
lado. É minha juventude. A muitos seduzi com a luxúria, com a droga, com o espírito
revolucionário. Mas a maior parte ganhei com o laço do marxismo materialista.
Quase todos têm vindo aqui sem os costumeiros esquis batismais. Estes jovens
passaram por escolas programadas sobre um ateísmo radical. Ali aprenderam que não
foi aquele de lá de cima quem criou o homem, sim que o homem criou
estupidamente a si mesmo. Agora obstinadamente lutam contra Ele, que resiste a
desaparecer. Mas desaparecerá. É fatal!
Estes
jovens meus aprenderam a desfazer-se de todas as verdades assim chamadas metafísicas.
Para eles existe só o mundo material e sensível. Foi uma lavagem cerebral
universal, e nos serviremos destes para todos os que se atrevam a manter-se
ainda agarrados às velhas crenças. Ele deve desaparecer de modo absoluto. Logo
virá o dia em que nem sequer será lembrado seu Nome. As poucas áreas de
resistência que não alcançamos eliminar com nossa filosofia, faremos com o
terror. Existe para os que sobrem, dezenas e dezenas de hospitais psiquiátricos
e centenas de campos de concentração onde os enviaremos para morrer. Assim será
em todos os países da terra. Um depois do outro, debem cair aos meus pés, abraçar
meu culto, reconhecer que o único senhor do mundo sou eu...”
*
* *
Neste
ponto, enquanto o Maligno se exaltava e se acalorava falando com tanta segurança,
a praça de imprevisto desapareceu, e toda aquela multidão desapareceu, de toda
aquela multidão exterminada não sobrava nem o menor vestígio, e o discurso do
orador parou como por uma inesperada interrupção de corrente. Num instante me
encontrei num profundo subterrâneo iluminado escassamente, que me fez lembrar
os passos das catacumbas romanas, dominadas por um ar de calma e de paz.
Vejo
lá, distante, um ponto mais luminoso, dirigi-me com ânimo e passo seguro até
aquele lugar. Apresentando-me, senti vir ao meu encontro o eco de uma oração
em coral. Detive-me, esperando captar o significado. Impossível; ainda que se
tratasse de uma língua desconhecida por mim, compreendi por certos motivos que
era o Pai Nosso. Uma força interior me animou a seguir caminhando. Um do grupo
vestido de sacerdote copta (N.T.: sacerdote do rito grego), deu-se conta
de minha presença, veio inseguro e excitado ao meu encontro. "Seja louvado
Jesus”, disse-lhe. Ante aquela saudação, abriu os braços e sorrindo me
perguntou: "Você é um irmão nosso?”.
"Sim,
sou um irmão seu” e nos abraçamos calorosamente.
“Em
nome de Deus”, pedi-lhe, “explique-me onde me encontro e quem são vocês?".
“Você
se encontra num subterrâneo do país dos sem Deus. Duas vezes na semana, de
noite, nos reunimos aqui para nossas orações comuns, para assistir à
liturgia, e dar testemunho de Deus o melhor que possamos". Sorriu vendo
minha surpresa e continuou: "Olha, aqui somos apenas uma centena, mas em
outros lugares se reúnem inclusive mais para orar por nós, pela pátria, pelo
mundo inteiro".
“Como
nos tempos das catacumbas?”
“Exato,
como nos tempos das catacumbas; esta é nossa catacumba."
“Mas
é verdade que Deus foi eliminado deste grande país?”
“A
Deus não se pode eliminar, querido irmão! Expulso da porta, entra por todas as
vias misteriosas que só Ele sabe abrir”.
Meu
interlocutor se deu conta de que estava comovido e calou.
*
* *
"Vejo
que também há jovens".
"Aquí,
quase a metade dos que recolhemos são jovens. Em outros refúgios ainda são
mais. Jovens que não vêem só a orar, sim a trabalhar. Pensa, querido irmão,
depois de uma jornada de trabalho bastante extenuante, estes filhinhos
sacrificam por turnos, horas inteiras, para vir aqui a prestar seu trabalho”.
“Que
fazem?"
"Venha,
lhe mostrarei”.
Depois
numa pequena curva à direita, descidos poucos degraus, nos encontramos num átrio
com algumas saídas de segurança e transformado num escritório tipográfico
rudimentar: algumas máquinas de escrever; uma copiadora que ia rapidamente a
pedaladas, uma atadora e outros utensílios.
“Que
estão imprimindo?”
«Antes
de tudo parte da Bíblia, Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, pequenos missais,
catecismos, livros de oração e também romances, poesias de escritores não
aliados e condenados ou expulsos da pátria. Creio que em nosso país uma grande
parte leu já as obras de Pasternak, de Sinjavskij, de SoIzenitzin; o exemplo
destes homens é enorme sobre nossa juventude.
Apenas
esta se deu conta de ter estado anos e anos enganada e insensibilizada por
mentiras nos discursos das praças, pelos livros, nas escolas, foi pega por uma
fome insaciável pela verdade: querem saber a verdade sobre tudo. Não lhe digo
a comoção que nos passa quando não conseguimos escutar a liturgia transmitida
em nossa língua pela Rádio Vaticano".
*
* *
Dei-me
conta que meu interlocutor, enquanto me falava, continuava me observando. Mas se
deu conta que comigo podia falar livremente, e continuou até acabar. Afastou-me
um pouco para um lado e, aproximando-se um pouco mais, pegou minhas mãos nas
suas e continuou: "Olha, eu sou um sacerdote copta mas faz anos que
descordo do meu superior local, bastante politizado pelo regime e colocado a
serviço do partido. Fui obrigado, por tanto, a viver escondido. Estes jovens o
sabem; a notícia correu pelos refúgios e assim tenho de ir de um a outro para
o serviço religioso. Que jovens tão queridos! Deram-me toda sua confiança.
Tratam-me como a um pai. Abrem-me sua alma, e se visse que almas! Sobretudo são
heróis!
“E
isto no país dos sem Deus!”
"Ó,
não, não diga isto! Aqui Deus existe, e trabalha com sua graça e recolhe!
Creia-me, nestes 60 anos de prova infernal o povo russo deu a Deus exércitos de
Santos e de mártires como nunca na história passada. Tudo o que este povo
sofreu e está sofrendo não é algo perdido. Eu penso que seja o longo inverno
que prepara em nosso país uma primavera jamais vista, um renascimento religioso
que será a inveja de tantos países livres. Olha, eu sou bastante acusado de
fazer cristãos: estes jovens o sabem e daí sua confiança. Pensa: entre eles há
os que sabem de memória o evangelho de São João, alguma carta dos apóstolos,
a Pacem in terris, a Lumen gentium, o Credo de Paulo VI. E editam
e difundem tudo isto. Rússia está cheia destes livros.
“Deus,
meu Deus! Que coisas tão grandes você me diz, meu irmão!"
“Também
você é sacerdote?”
“Sim.”
Abraçou-me
e beijou-me: "E vem da Itália?... De Roma?... Aqui dizem que a Itália é
toda comunista, é isto possível?”
“Toda
não, mas uma parte sim."
É
incrível! Mas sabem que significa viver sob o comunismo? Aqui na Rússia não há
nenhum que creia neles. Aqui foi suficiente que nossos jovens tivessem aprendido
a fazer a comparação entre a propaganda oficial e a realidade da vida de nosso
país para perder a fé na ideologia do partido".
"Exatamente
o que na Itália não conseguimos fazer crer especialmente aos jovens. É um fenômeno
de monstruosa cegueira!"
Levou-me
ainda um pouco mais a um lado e continuou: "Olha, aqui o materialismo nos
colocou num beco sem saída. A alma russa não sabe prescindir de uma explicação
do homem e do mundo, e como o materialismo nisto falhou, nos lança com uma sede
instintiva aos valores espirituais, à igreja, a Deus. A ideologia marxista nos
leva à morte e ao nada, e nosso povo tem enraizado na alma a fé no além túmulo.
Você não pode crer que acrobacias de prudência realiza esta pobre gente para
poder dizer um De profundis na tumba de algum familiar sepultado
recentemente. Quantos despenhadeiros são necessários para obter na Páscoa um
pouco de pão bento para distribuir na mesa, depois da saudação familiar
"Cristo verdadeiramente ressuscitou"
“Tudo
isto, querido irmão, o sabemos e nos comove imensamente.”
“Então
por que os italianos querem caminhar sob o comunismo ateu?”
"Porque
muitíssimos crêem mais no demônio que em Deus: Esta é a verdade."
“Estes
jovens compreenderam que só o cristianismo põe o máximo acento sobre o valor
dos direitos da pessoa humana: o socialismo fala só de coletivismo, de massa,
para ele o indivíduo não existe."
“A
este passo, há que esperar que o maior estado comunista do mundo, pela lógica
das coisas, possa desenvolver-se na maior força anticomunista.”
“Pensamo-lo
todos, irmão, ainda que sejamos poucos a dizê-lo, porque é horrível o terror
que se tem dos julgamentos, da lavagem cerebral, dos campos de concentração
disseminados por todo o território russo. Aqui, entretanto, a ideologia
marxista se rege unicamente pela força. Mas o dia em que esta caia – só Deus
sabe quando – a Rússia se apresentará com uma cara completamente nova,
religiosamente provada, graças à experiência do martírio que nenhum povo
sofreu até agora.”
"Nós
confiamos muito nas promessas da Virgem de Fátima.”
"Ó,
a Santa Mãe de Deus! Se soubesse como a venera nosso povo! E é Ela quem
conservou – ainda que em certos momentos muito reduzida – nossa fé. Suas
imagens desapareceram de quase todas as casas, mas muitíssimos as conservam
escondidas, e sobretudo a invocam.”
“Crê
que logo a oposição dos jovens, dos intelectuais, da classe que reflexiona
poderá aumentar?”
"Para
mim é uma coisa muito certa. E isto acontecerá pouco a pouco à medida que
progrida o descobrimento alegre da fé cristã e a persuasão em muitos já
radicada de que o cristianismo é a única força capaz de mudar o mundo. Se
entre nós se recolhessem as vozes de nossos convertidos do materialismo,
pensaria no milagre de um novo Pentecostes."
“Posso
dizer-lhe que muitas destas vozes chegam a nosso país. Existem também
antologias que as recolhem, mas, por desgraça, nem todos as lêem".
"Conservamos
cartas que nos chegam dos campos de concentração. São de homens, mulheres, de
jovens ali condenados que nos animam a conservar intacta nossa fé em Deus:
impossível lê-las sem estremecer-se de comoção e sem chorar.”
Na
Itália, lê-se muito O Doutor Givago de Pasternák, a outra literatura de
Molicev, Padre Dimitrij Dunko, Pároco em Moscou.
Um
golpe de gongo anunciou a recitação em comum do Pai Nosso.
*
* *
Aqui
me despertei. Mas me dei conta de que foi um grande golpe na porta do quarto a
despertar-me do sonho. Olhei o relógio, era ainda muito cedo. Um novo golpe me
fez saltar e gritei: “Quem é?" A resposta foi uma risada de chacota
louca e sem sentido que me advertiu de imediato da presença dele.
"Que
belo sonho, hein? Você terá gostado muito, penso. Talvez inclusive lhe terá
deixado a boca doce. Pensando de novo, seria capaz de crer todas aquelas belas
notícias?”
“É
uma terrível destruidora de meus planos. É uma devastadora de meu reino. Não
me deixa conseguir uma vitória e já me prepara uma derrota. Está sempre em
meu caminho. Sempre ocupada em atravessar-se em meu caminho, a suscitar fanáticos
que a ajudam a arrebatar-me almas. Ali onde mais clamorosas são minhas
conquistas, num silêncio capilar ela multiplica as suas. Mas agora chegou o
tempo em que obterei sobre ela vitórias jamais vistas...”
"Efêmeras
como as demais!”
Ainda
um breve silêncio. “Não
serão efêmeras!.. Desta vez será uma vitória total. Cria estar em segurança
numa fortaleza inalcançável. Agora lhes abri uma brecha que será pior que a
primeira!...”
“Que
brecha? Penso que você corre demais. Está muito seguro de si mesmo."
“Tenho
ao meu lado também os teólogos. Os meus vaidosíssimos doutores. Se eu fosse
capaz de amar, seriam meus amigos mais queridos. Seus cultivadores do dogma vão
abandonando suas posições uma depois da outra. Induzi-os a envergonhar-se de
certas fórmulas ridículas. A envergonhar-se antes de nada de crer em minha
existência e em meu trabalho no meio de vocês: Coisa para mim comodíssima."
"E
você conta com isto?”
“Deste
modo, as fábulas da Imaculada Conceição, da Maternidade Divina, da sempre
Virgem, da onipotente cheia de graça estão sendo desmoronadas como miseráveis
disparates. Dentro de poucos anos ficará só a recordação – vergonhosa
recordação - de lendas tão bobas. Muito tive que esperar mas agora chegou
finalmente meu tempo. Definitivamente chegou minha hora! Se soubesse o bem que
trabalham meus aliados: padres, freis, doutores!... Onde estão agora os fanáticos
de seu culto, seus simpatizantes fervorosos?”
“Sim,
creio-as todas como coisas verdadeiras."
"Não
me maravilho, conheço sua credulidade. Crê também nos sonhos."
“Quantos
sonhos têm vindo de Deus!”
"Então
será capaz de provar-me uma só de todas aquelas bobagens, responda a verdade?
Venha, uma prova”.
Fiquei
absorto por um tempo, depois apertando forte entre as mãos a coroa do Rosário,
sentei-me sobre a cama e, com tom imperativo, disse:
Já
que vem a desafiar-me, em nome dEla, que é sua inimiga capital, ordeno-lhe
dizer-me se naquele sonho havia uma só mentira."
“É
tudo uma mentira”.
"Você
deve responder em nome dEla, disse-lhe, em nome dEla."
Ao
invés de responder, o Maligno se enfureceu como não o havia feito nunca.
Parecia que estivesse desencadeando um terremoto.
“Ao
invés de fazer toda esta comédia, ordenou-lhe responder: Deves dizer-me que
aquele sonho era verdade. Vamos, em nome de Maria, lhe ordeno, responde”
Senti-o gritar como um leão ferido de morte e vi-o desaparecer.
Desta
vez passou uma semana inteira na qual o Maligno não manifestou nenhum sinal de
sua presença. Entre nós não se tinha dito tudo e com prazer esperava seu
retorno. Preparava-me para recitar as Vésperas no meio da tarde quando o grande
calendário holandês pendurado na parede da frente começou a balançar suas
folhas como golpeado pelo ar.
“Em
nome de Maria, diga-me de onde vem."
"Sua
pergunta é idiota.”
“Por
que idiota?”
"Porque
eu não estou em nenhum lugar, não sou um corpo, uma carniça como você; sou
espírito.”
“E
o Inferno?”
“O
inferno não é um lugar, não é um campo de concentração ou um tanque de
fogo, como vocês pretenciosos o descrevem. O inferno sou eu. Somos cada um de nós.
É um estado."
“Mas
entre vocês, espíritos condenados, se conhecem?”
“Por
que não? Nos conhecemos, nos odiamos, como odiamos a vocês, marmotas, como
odiamos a Ele, vivemos confinados cada um numa solidão eterna, mas estamos de
acordo em trabalhar para seu dano."
“Não
vive para nada mais além disto.”
“Nossa
essência é o mal, é a rejeição a Ele, é odiar a tudo e a todos.”
“A
única satisfação miserável que lhe resta!”
“Não
é nenhuma satisfação!“
"Não
entendo, explique-se!"
“Vocês
imaginam que odiar para nós, fazer o mal, destruir as obras dEle, seja uma satisfação,
uma espécie de consolo, uma alegria. Também isto nos negou nosso inimigo. Nós
fazemos o mal pelo mal. Atravessar o desenho dEle, arrancar-Lhe almas,
especialmente aquelas que são mais queridas para Ele, não nos proporciona
nenhuma satisfação, inclusive Ele nos faz pesar como se fora um castigo; mas
exercitar nosso ódio, nossa natureza maligna é uma necessidade, ainda que
atuemos por despeito, para fazer o mal a suas criaturas”.
“Todas
estas belas coisas já sabíamos. Quem primeiro definiu quem é você foi Jesus.
E a Igreja nos repete em seus ensinamentos. Os Santos nos põem em alerta.
Sabemos que você é o Maligno, que é o inimigo por excelência, que é
homicida desde o princípio, que é o pai da mentira, que é um mistério de
iniqüidade, que é o príncipe deste mundo, até que Deus o consinta. Basta
para descrever-lhe?”
"Talvez,
mas com isto...?”
"Quer
dizer que os homens, apesar disto, se deixam apanhar em suas redes... sei... Se
refletissem sobre o que você é e sobre o que trama contra eles, estariam
vigilantes... Por isso, de pai da mentira e de espírito das trevas, você se
transfigura em anjo de luz; apresenta-se a eles como um refinado mestre de seduções
e estende-lhes estas insídias de conselheiro galante. E ensinou, muito bem,
esta arte também a todos os colaboradores, inclusive a certos eclesiásticos.”
*
* *
“Você
falou de almas muito queridas a Ele: Quem são?"
“Deverias
sabe-lo! Aquelas mais unidas a Sua amizade. Aquelas que Ele consegue conservar
sempre suas. Aquelas que trabalham e se consomem por seus interesses. As que
buscam sua Glória, um doente que sofre por anos e se oferece pelos demais. Um
sacerdote que se conserva fiel, que reza muito, ao qual não conseguimos jamais
contaminar, que se serve da Missa - dessa tremenda e muito maldita Missa - para
fazer-nos um mal imenso e arrancar-nos multidão de almas. Estes são para nós
os seres mais odiosos, aqueles que principalmente prejudicam os assuntos de
nosso reino”.
“Sabê-lo
de sua boca é para mim um anúncio precioso.”
“É
aquela que me obriga a dizer, que me faz responder a suas estúpidas
perguntas.” (Note
aqui a fraqueza de Lúcifer antes Maria: ele não diz, é Deus que me obriga a
falar, mas sim é “aquela” que me obriga a dizer.)
“Continua
ainda sobre estas revelações. Para seu despeito, não pode fazer-me senão o
bem. As almas que você odeia mais...”
“São
aquelas que nós pegamos mais fortemente de assalto. Fazer cair a um sacerdote
nos recompensa mais que mil almas que nos arrancou outro. Envolver a um
sacerdote na podridão da luxúria, fazer-lhe passar uma noite com uma
prostituta e pela manhã mandá-lo celebrar Missa, mandá-lo ao confessionário,
a sujar mais que a purificar, é um dos maiores desprezos que procuramos
infligir a nosso grande inimigo. E conseguimos mais do que se crê”.
“Por
desgraça. Mas junto a estas almas eleitas caídas, sei que Ele, no silêncio e
no oculto, suscita muitíssimas outras que se imolam, que reparam e Lhe dão uma
glória maior do que a que você crê ter-Lhe arrebatado."
"Não
importa. Preocupa-me aumentar o número dos sacerdotes que passam para meu lado.
São os melhores colaboradores de meu reino. Muitos ou já não rezam Missa ou não
crêem no que estão fazendo no altar. Atraí muitos deles aos meus templos, ao
serviço de meus altares, a celebrar minhas missas. Se visse que liturgias tão
maravilhosas eu soube impor-lhes como ofensa grave contra a que celebram em suas
igrejas. Minhas missas negras: celebrações de luxúria, profanação de hóstias
e de vasos sagrados, profanados de tal modo que aquela não me permite descrevê-lo”.
Que
imundícies tão belas! Leia meus rituais, estão impressos!”
*
* *
“Você
é o eterno macaco de Deus...”
"Esperei
até estes últimos tempos para fazer as maiores conquistas entre os sacerdotes,
os freis, as virgens consagradas a Ele… E seu número cresce de tal modo que
se eu fosse capaz de alegrar-me, seria meu deleite maior.”
O
que você diz é triste. Mas sei que uma só Missa oferecida a Deus em reparação
de todas estas coisas horríveis Lhe dará uma satisfação infinitamente maior.
O sacrifício infinito de Cristo repara suas profanações!
“Fala
sempre de almas reparadoras; mas também estas eu sei como tratá-las; como
desafogar sobre elas meu furor. Descarrego sobre elas um ódio que me recompensa
de todo o dano que fazem a meus interesses."
“Sei:
a história da santidade está cheia - na medida em que Deus o permite - destas
intervenções malignas suas. Mas com que resultado? Que obtém disto?”
“Que
posso cansá-las, abater sua resistência, levá-las à quebra.”
“Que
você alcança? Deus o consente? Pelo simples feito de que Ele o deixa desafogar
sua raiva contra estas almas, é sinal de que as fez invencíveis. E você –
com suas vexações – colabora somente ao crescimento de seus méritos,
trabalha contra si mesmo... Terá feito-as só mais santas, mais ricas de eficácia
reparadora e conquistadora no mundo das almas. Quantas almas lhe arrebataram
Catarina de Sena, Teresa d’Ávila, o Cura d’Ars, São Bosco, Padre
Pio?"
“Ao
menos me vingo e lhes faço pagar caro o dano que me fazem."
“Você
é um péssimo calculador! Deus lhe permite porque colabora para demonstrar a
potência de sua graça e para sua maior humilhação, porque todas as vezes que
ataca estas almas, o vencido é você."
“Você,
entretanto, denunciando estas minhas intervenções, somente alcançará fazer
rir aos teólogos e doutores."
“Sobre
isto eles não me preocupam em nada.”
*
* *
Pausa.
Parecia que tivesse ido. Enganei-me, porque começou a falar-me com uma nova
carga de ódio e de desprezo.
“Você
nunca poderá compreender quanto odeio a vocês os homens. Quanto os detesto e
quanto são detestáveis. Gozam de um primado de dignidade sobre as bestas e são
as bestas mais abomináveis. Seu ser me dá nojo. Considero-os piores que seus
porcos. Crêem ser inteligentes e são muito estúpidos. Bastaria que visse o
que os faço tragar por meio de tantos catedráticos postos ao meu serviço e
que os presenteio, ocos de vã palavreado doutíssimo. Pensa no que os faço
beber e digerir com minha prensa! Vocês, a mais nobre criatura Dele? São
suficientes umas poucas porcarias para comprá-los. Vocês se rendem por nada
aos elogios de meus mensageiros. Valorizam tanto sua liberdade e se deixam
apanhar por meus mais ferozes negreiros. Ó, as fraudes que lhes estou fazendo
em nome desta liberdade! Mostram horror pelo que é sujo e, dominados por suas
paixões, revolvem-se em suas imundícies como porcos na lama. Por uma mulher e
por um punhado de ouro se desunem que é uma maravilha”
Ganhou-os,
muitos, Aquele que derramou seu sangue para redimi-los. Redimi-los
de quê? Do
pecado? Mas se mergulham tanto nele que se afogam! E que dizer quando
desencadeio contra vocês o espírito da inveja, da maledicência, do ódio, da
rivalidade, da vingança!"
"Cale-se,
que está exagerando. Você generaliza muito. É a raiva invejosa que lhe tem
cravado a sua condenação para toda a eternidade. Baste-lhe isto: Deus nos ama
com todos os nossos pecados, Cristo nos redimiu e uma só gota de seu sangue nos
purifica de tudo. E nós podemos amá-lo. Conta, se pode, as almas que O amam.
Por uma só delas voltaria a dar Sua vida voluntariamente de novo. Enquanto você,
maldito, se enfurece em seu ódio por toda a eternidade. Mas diga-me, que é a
eternidade?"
"A
eternidade? Agora... um agora sempre detido!...
E desapareceu.
SEXTO
ENCONTRO[1]
Uma
tarde nada mais entrar no quarto, fui pego de surpresa pelo imprevisto estrondo
de um galope que manteve minha respiração suspensa e me fez compreender que se
tratava dele.
“Desta
vez veio com o propósito de assustar-me.”
"Se
pudesse fazê-lo, saberia muito bem como fazê-lo tremer de medo. Você não
sabe que tenho a força de fazer tremer toda a terra, se quiser. Tenho a força
de agarrar esta bola do globo onde habitam e lançá-la contra os demais astros
ou inclusive atirá-la numa das bolsas solares e reduzi-la a cinzas."
“Você
disse: se quiser, mas exatamente é isto o que você não pode fazer. O mundo
está nas mãos dAquele que o criou, não nas suas mãos, bufão! Sei muito bem
que seria capaz de fazê-lo; mas, encadeado como está, não pode dar medo nem
sequer a um menino. Uma vez mais, você é um cão atado a uma corrente. A inocência
de um menino lhe dá medo como a espada flamejante de um arcanjo."
*
* *
"Goza
de sua segurança. Agora lhe digo que logo chegarão dias nos quais todo o mundo
tremerá com meu avanço. Estou preparando uma desordem universal que você não
pode imaginar."
“A
bomba atômica?”
“Muito
pior. Antes, e mais do que tudo isto, me importa o desconcerto da humanidade
inteira, começando pela Igreja, que deve ser a primeira em desaparecer, esta
duríssima Igreja Católica., que agora farei desaparecer num banho de
sangue.”
"Se
Deus lhe permitisse..."
“Sei:
refugiam-se no velho versículo “não prevalecerão". Entretanto,
prevaleceremos. Metê-la-emos no desconcerto, combatendo-a desde dentro.”
"Será
talvez uma prova mais forte do que outras sofridas no passado. Uma nova grande
maré. Depois o Senhor lhe dirá: «basta» e sobre suas ruínas resplandecerá
de novo o sol de seu triunfo. Purificada, a Igreja florescerá como na
primavera.”
“Entretanto,
o golpe que estou preparando não será como os outros. Até agora, na Igreja, a
qual apanhava de assalto, havia um ponto invencível de resistência que me fez
perder muitíssimos ataques. Agora verá!"
“Faz
poucas décadas inspirei a Lenin, um de meus melhores colaboradores, que para
acabar com a religião era mais importante introduzir a luta de classes no seio
da Igreja do que atacar de frente a religião. Trata-se de atuar dissolvendo, de
formar focos de divisão entre os fiéis, mas sobretudo nos ambientes eclesiásticos
e religiosos. Dividir aos bispos em dois blocos: os integristas e os
progressistas. Rebelar os sacerdotes contra os bispos com milhares de pretextos.
Atacar de frente a igreja como combatendo, para seu bem, suas estruturas
antiquadas e os abusos que a desfiguram. Com hábeis golpes formar, nos
ambientes eclesiásticos, núcleos insatisfeitos para atraí-los pouco a pouco
ao clima fecundo da luta de classes. Adaptação lenta e paciente, com infiltração
de novos conteúdos nas idéias tradicionais. Trata-se não de liquidar, num
primeiro momento, a Igreja, senão de pô-la no dique seco, incorporando-a ao
serviço da revolução comunista. O resto virá depois.”
*
* *
Uma
pausa alongada durante a qual olhava a minha Virgenzinha e mentalmente a
invocava. A voz voltou com um tom rouco, raivoso como rugido de besta. O maligno
sublinhava assim seus propósitos catastróficos.
“Agora
estou preparando um assalto tático sobretudo contra aquele vestido de branco.
Ele tem seus ativistas fanáticos. Faz-me rir. Que se atrevam a encontrar-se com
os meus! Os meus escolherei sobretudo entre os seus. Serão as melhores
alavancas. Começarei a fechá-lo pouco a pouco num isolamento completo.
Induzirei setores inteiros da cristandade a abandoná-lo. Depois virá o assalto
que o eliminará!"
"Fala
com tal segurança que simplesmente lhe torna ridículo.”
“Com
uma segurança, como pode ver, que não tenho nem o menor medo de revelar-lhe
meus planos. Além do mais, que poderia você contra eles?"
"Orar
ao Senhor para que lhe fulmine e para que a Virgem tenha bem guardado aquele
vestido de branco, que é seu filho predileto.”
Ele
respondeu com um palavrão e imediatamente voltou ao ataque:
“Num
segundo momento, trabalharei um a um todos os párocos com respeito a seu
pastor. Hoje o conceito de autoridade não funciona como antes. Consegui dar-lhe
um golpe imprevisto e irreparável. O mito da obediência está já superado.
Por esta via a Igreja será levada à pulverização. Enquanto isso vou adiante
dizimando continuamente os sacerdotes, os freis até chegar a esvaziar
totalmente os seminários e os conventos. Retirados do meio os assim chamados
‘operários da vinha’, se introduzirão os meus e terão via livre em seu
trabalho definitivo.”
*
* *
"Parece
um estrategista rico em imaginação, não há nada que dizer. Exceto que
programa tudo como se Cristo, o verdadeiro Chefe da Igreja, a tivesse abandonado
para sempre e Ele estivesse novamente morto sem esperança de ressurreição.
Você, bufão eloqüente, não ignora que a Igreja é Ele. Ela é seu Corpo místico.
E sabe bem que atrás do pastor visível está Ele invisível e Ele é fiel à
palavra dada: «Não tenham medo, disse, Eu estou com vocês até a consumação
dos séculos». Prova e verá, terá que se encontrar com Ele e fugirá ante sua
presença. Além disso, está Maria, Ela é a Mãe da Igreja e basta um sinal
seu para ter paralisado a todos os exércitos infernais.”
“As
costumeiras velhas intrigas. Todas estão postas em frases feitas. Todos estão
adestrados no uso destes temas comuns. Hoje, os primeiros a rir-se destas frases
feitas são seus sacerdotes, seus doutores, aos que eu inchei com o espírito do
orgulho e com o espírito da rebelião. Olha como souberam mudar o mofo teológico
pelos grandes ideais da história. Preparei e levei meu bando a sacerdotes
politiqueiros, sacerdotes que não rezam Missa alguma, sacerdotes festeiros, que
assiduamente freqüentam certos grupos errados, à caça de encontros galantes,
e quando em torno deles surge o escândalo, em vez de envergonhar-se como antes,
se vangloriam com alegria, e se sentem felizes de ter-se libertado de pesos
insuportáveis. Sem falar dos sacerdotes que só pensam em fazer dinheiro! Todos
estes são meus melhores operários."
Você recorreu já no passado aos mesmos caminhos e Deus lhe deixou obter também algumas conquistas. Entretanto lembre que, quando parecia que a praga ia gangrenar e estender-se a todo o corpo, Ele interveio sem mobilizar contra você exércitos espetaculares, senão trabalhando com uns poucos, no silêncio.
Você
conta com a massa, Ele conta com uns poucos. Quantas vezes Ele nos fez ver que
serve mais à Igreja um pequeno número de autênticos sacerdotes e religiosos,
cheios de espírito evangélico verdadeiramente impregnados de fermento evangélico,
impregnados de Amor e fervor, preparados à renúncia, dispostos ao sacrifício
total, quero dizer: Ele conta com uns poucos santos mais do que com uma massa de
sacerdotes burocráticos, secularizados, embebidos no mundano e mulherengos.
Deus lhe presenteia, não sabe que fazer com eles, Ele se servirá de uns
poucos, mas serão seus, e com estes restaurará sua Igreja”.
“Estou
certo de que se dará conta de que hoje na Igreja se encontra trabalhando uma
boa frente de almas silenciosas, não importa de que condição nem raça,
especialmente sacerdotes e religiosos, que se preparam para combater-lhe. Muitos
deles se unem em nome de Maria, procedem de ninhos de oração e de amor à
Igreja, e de obediência ao Papa. Trabalham por uma Igreja consolidada em sua
unidade e aceitam toda renovação legítima, mas rejeitam as inovações arbitrárias,
e estão persuadidos do serviço insubstituível do Pontífice romano e se
agarram ao seu entorno como ao único princípio verdadeiramente sólido de sua
unidade. Esta persuasão também vai fazendo caminho secretamente entre alguns
irmãos separados."
“São
almas silenciosas que, ao invés de agitar-se, trabalham ao invés de proclamar
discursos eloqüentes, oram; ao invés de pedir reformas continuamente, se
reformam. São almas escondidas, das que seria difícil fazer uma estatística,
mas se sabe que existem, realmente se encontram por todas as partes, e se reúnem
em grupos de oração e fraternidade. Talvez nunca como hoje florescem tantos
Santos na Igreja. Quantos grupos de almas fervorosas vemos surgir ao serviço da
Igreja! Ela conta com estes grupos, em sua capacidade de fermentar a massa. São
as revanches da generosidade divina a favor da igreja. Almas que trabalham num
apostolado capilar, que vão descobrindo a face de Cristo no exercício da
Caridade aos seus irmãos, os pobres, os marginalizados, os mais
necessitados."
“Não,
espírito rebelde! O balanço da ação de Deus no mundo e na Igreja não é um
fracasso. O curso de sua ação não está paralisado por suas sabotagens. A
Igreja tem direções e brotos que são invisíveis e distantes; mas Ele está
atuando sempre nela. Invencível é Ele! Invencível é Ela! E você o sabe, você
o crê e você somente pode aproveitar ao máximo o tempo que contudo lhe resta
para fazer o mal. O dia em que novamente escute com pavor "Quem como
Deus?", será o dia de sua derrota definitiva. Para sempre!"
A
esta altura meu interlocutor já se tinha ido.
SÉTIMO
ENCONTRO
"É
só questão de tempo!…"
Esta imprevista e terminante afirmação interrompeu minha leitura de um livro que estava me interessando muito. Um grito de pavor conteve minha respiração. Mas minha Protetora veio imediatamente em minha ajuda e me pôs tranqüilo à escuta. Desta vez o maligno se pôs a falar-me com uma solenidade insólita, quase declamatória: revelou-se como o costumeiro fanfarrão.
“É
questão só de tempo! O processo de destruição da Igreja já está a caminho,
uma destruição radical e imparável. Meus planos se cumprirão com uma precisão
e uma pontualidade que lhes deixarão assombrados. Logo esta velha e apodrecida
carcaça seguirá a sorte de tantas outras instituições que resistiram um
certo tempo e depois desapareceram... "
“Mas
não vê, bufão, que sempre volta com a mesma canção? Falta-lhe sempre toda
originalidade e imaginação, inclusive para organizar o mal e assim em vão
tenta dar-me medo."
"Por
que não me deixa continuar?"
Porque
você é tremendamente chato. Parece-me um comediante que na praça repete
sempre as mesmas palhaçadas. Convença-se de que, com sua insistência na ameaça
de destruir à Igreja, não só não me impressiona, sim que inclusive me faz
rir. A Igreja, ainda que esteja constituída por homens que têm suas misérias,
é instituição de Cristo, pertence a Ele e só Ele a governa em seus
acontecimentos. Em seus desígnios misteriosos Deus faz com que a Igreja obtenha
vantagens inclusive das perseguições e das heresias. No passado, graças ao
surgimento de erros heréticos, muitos pontos da doutrina Católica foram
aprofundados e precisados. Por isto a Igreja olha com serenidade também aos teólogos
contestadores e confusos que hoje abundam. Com relação a certos problemas
ainda não amadurecidos, estes teólogos podem ter uma indisciplinada
sensibilidade, mas isto inclusive pode ser estímulo para estudar algumas questões
propostas por eles mais atentamente e descobrir no fundo os elementos de verdade
e de claridade úteis para o crescimento de seu depósito doutrinal.”
"E
você não está repetindo as mesmas declamações?"
"Faz
mais de meio século que está combatendo contra Deus para fazer-Lhe desaparecer
da Rússia, conseguiu? Sei, fez um mal imenso àquelas almas, mas a necessidade
de Deus não alcançou arrancá-la ainda de milhões delas. Prometeu àquele
povo um paraíso na terra e o fez tão encantador e desejável que muitos fogem
dele enquanto podem.”
*
* *
“Corre
demais e em suas loucuras lhe atarão as mãos."
Hoje
lhe quero dizer algo novo. Algo do que talvez não se tenha dado conta. Hoje se
uniu decisivamente a nós a Mãe de Deus, a Mãe da Igreja, da qual somente o
nome – você não quer nem ouvi-lo, por isso lhe repito - lhe faz tremer. Ela
que deu a primeira vez ao mundo a Jesus, está agora trabalhando silenciosamente
para colocá-Lo de novo nas almas que se afastaram dEle, quer servir-Se de nós
os sacerdotes: um grupo escolhido de fidelíssimos, preparados para imolar-se
por Sua causa. Está recolhendo-os de todas as partes do mundo, sem nenhum
aparelho organizado, é Ela mesma quem os chama docemente a recrutar-se em Seu
Movimento Sacerdotal.
Chama-os
Seus prediletos. Esta Mãe os está trabalhando com coração de Mestra, para
treiná-los na oração, no amor a Jesus Eucarístico, na fidelidade total ao
Papa.”
"Ela
nos advertiu de uma grande tribulação que está chegando, que logo você nos
dará grande batalha. Na luta, você se enfrentará com um grupo de sacerdotes
assistidos e sustentados por Ela. Contra tantos que se deixaram seduzir por suas
artimanhas e que você afastou dEla, Maria oporá seus sacerdotes, revesti-los-á
de Sua potência. Fa-los-á intrépidos na hora da grande purificação. A eles
confia a tarefa de defender a honra e a causa de Jesus e de sua Igreja; serão
os que acompanharão ao Santo Padre no caminho do Calvário para vê-lo vencer
por meio da Cruz. Esta segurança nos vem dEla e nós a vivemos com
alegria."
“Compreendo,
tudo sobre a falsa linha das cenas absurdas de Fátima!...”
“Precisamente,
aqui em Fátima, quando nossa Mãe bendita preanunciou momentos terríveis para
o Papa, prometeu-lhe ainda Sua proteção especial. Ela o defenderá por meio de
seus sacerdotes, homens forjados na oração e muito amantes de Seu Rosário: a
arma que lhe cheira tão mal e lhe dá tanto medo. Tem um terror invencível a
todo sacerdote que ora. Continuamente o experimenta, por isso recorre a todas as
suas artimanhas para distraí-lo na oração. Agora Maria está preparando não
só a um, sim a um exército de sacerdotes que oram, e que são amantes do Rosário.”
“Esta
Mãe Divina não nos engana. Advertiu-nos muito bem que a hora da prova virá e
que será dura. Mas nos assegura que no momento em que você creia ser o senhor
do mundo e se sinta seguro vencedor, Ela mesma intervirá para arrebatar-lhe da
mão a presa. Você será destronado e, ao final, a vitória só será de Jesus.
Jesus quer obtê-la assim para sua maior humilhação, por meio de uma mulher. E
a vitória dEla será o triunfo do Coração Imaculado nos países sem Deus e em
todo o resto do mundo.”
*
* *
“Que
rápido você é para desdramatizar! Espera que lance contra vocês os meus
homens transformados em verdadeiros endemoniados. Estou preparando-os e
treinando para o ataque, que será logo, imprevisto e inenarrável.”
"Nós
nos armaremos de nossa fé e estaremos à espera… Deus não nos deixará
sozinhos. Contaremos com a proteção de Sua Mãe."
“Obtive
já (de
Deus)
de fazer-lhes trabalhar descobertos. Não crerão que são manipulados por mim.
Hoje já ninguém crê em minha presença no mundo. Experimente falar de minha ação
no meio de vocês. Chamá-lo-ão de ridículo.”
“Sim,
nisto você é muito hábil. Mas não todos se deixaram apanhar por suas
artimanhas. Existe quem crê e adverte este seu nefasto trabalho no meio do povo
de Deus. Temos ainda a oração da Igreja contra você, e recorremos a
ela!"
"Crê
que os meus se deterão ante quatro cães que latem?"
“São
sacerdotes de Cristo, não cães! Você sabe: Quem durante sua vida terrena, lhe
expulsou de tantos pobres homens possuídos, continua expulsando-lhe por meio de
seus sacerdotes. As derrotas que vai conseguindo você as conhece muito bem.
Conhecemos a raiva que lhe assalta quando um sacerdote lhe varre e lhe ordena
abandonar as criaturas que você destruiu para satisfazer seu instinto maléfico.
É um poder comunicado por Cristo a seus ministros, incluindo o mandato de
exercitá-lo: “Em meu Nome expulsareis demônios”. E nós os sacerdotes o
fazemos. Nestes choques entre seu poder e o da Igreja a nós comunicado, o balanço
para você é absolutamente um fracasso. É uma experiência que lhe
esmaga."
“Retórica!...
Retórica!... Não vê como todo o horizonte se escurece? Espera ainda um pouco
e verá como eu desencadeio um furacão... Todos tremerão como pobres folhas, e
todas serão arrancadas da árvore.”
“Vejo
que conhece muito bem, a força do medo, a potência do terror no dobrar os
homens aos seus desejos. A escravidão impiedosa com que domina regiões destruídas
é invenção de seu gênio maléfico. Deus nos conquista com o amor e nos impõe
um fardo leve, você tem aos seus sujeitos com punho de aço e com o assombro.
Para que não se lhe escapem, recorre às cárceres de ferros. Não opera assim
nosso Deus! O terror é a força de seu governo, que é governo de opressão e
de ódio: Você mesmo o disse! Nós não temos nenhum motivo para temer seus
argumentos catastróficos de fim do mundo..."
"Está
muito seguro de si mesmo; mas verá!”
“Podemos
temer tudo de nossa debilidade! Mas é precisamente esta debilidade a que nos
faz recorrer a Quem é nossa força! Nós sabemos que no céu há um Pai
Onipotente que nos ama: e é a revelação mais terna e exultante de Jesus. Com
a fé neste amor nós desafiamos todos os pessimismos que pode inspirar-nos a
visão de um mundo tão horrivelmente descomposto por você. Desafiamos todos os
medos que tenta insinuar-nos com suas ameaças para desabar nossa resistência
para o mal. Espírito mesquinho e malvado, Deus está conosco! Enquanto que você
é um maldito de Deus. Nós temos fé no amor, é esta fé a que lhe faz tremer,
por isso recorre a todas as suas artimanhas para arrancá-la às almas. Para
vencê-las tem necessidade de desarmá-las."
"Quando
veja meus milagres terroríficos...!”
“Você
não pode fazer nada mais que simulações de milagres. Os verdadeiros são o
selo exclusivo de Deus. Contra Ele, que é o Autor da vida, você organizou
hecatombes de mortes; se compráz fazendo milhões de vítimas com as guerras atômicas,
com as execuções em massa realizadas pelos policiais de estado, com os abortos
que levam a uma escala ascendente que supera todos os extermínios registrados
na história. Mas esquece que a morte foi vencida pelo Autor da vida. Ao final
dos tempos se fará o balanço entre os ganhos feitos por Deus e suas perdas.”
Aqui
o maligno se enfureceu. Veio-me à mente a oração do exorcismo já usada,
privadamente, outras vezes com êxito para liberar as almas horrivelmente
vexadas pelo maligno. É uma oração para meu uso privado, mas que sempre
experimentei como eficaz.
É
esta: Senhor Jesus, durante Sua vida mortal, sempre teve uma
imensa piedade pelas almas possuídas e atormentadas por Satanás, e jamais
deixou de livrá-las com o poder de suas palavras. Deu este mesmo poder a seus
discípulos e ordenou que o exercitassem, dizendo-lhes: “Em meu Nome
expulsareis demônios”. Armados por este Divino mandato, confiando na potência
de Seu Nome e na intercessão de Maria, vencedora do inimigo infernal:
Eu
lhe digo, Espírito imundo, que deixe em paz a esta criatura de Deus: portanto,
lhe exorcizo em nome do Pai + que a criou e do Filho + que a redimiu e + do Espírito
Santo + que a santificou. Exorcizo-lhe em nome da Bendita Virgem Maria + que a pôs
sob sua proteção; em nome de São Miguel Arcanjo + triunfador de todos os Espíritos
rebeldes, e em nome de todos os Santos e Santas + que esta alma invoca com
confiança.
Ordeno-lhe,
Espírito maldito, não eu pobre pecador, sim como sacerdote de Cristo; não por
virtude minha, sim pela de Jesus vencedor de todos os inimigos infernais, não
com meu poder, sim com o que me foi dado pela Igreja; ordeno-lhe sair desta
criatura de Deus e ir-se ao inferno, preparado para você e para seus
seguidores, em nome do Pai + e do Filho + e do Espírito Santo +. Amém.
Ao
finalizar esta oração esperei que o Maligno desse algum sinal de reação mas
não se fez ouvir mais. Pareceu-me sair de um sonho atormentado. Estava banhado
em suor, e a alma recobrou logo docemente a serenidade.
OITAVO
ENCONTRO
Apenas
havia dormido um pouco na sesta quando o quarto foi inundado de um fedor que me
fez conter a respiração. Olhei ao meu redor: a porta e as janelas estavam
fechadas. Era um ar fétido que se movia como agitado por um ventilador. Que
ocorre? Logo me dei conta de que isto significava uma nova visita do Maligno e
invoquei a assistência dEla.
"Será
acaso seu cartão de visita?”
“Sim!”
“Não
sabia que um espírito puro se anunciasse com tanto fedor."
“Apenas
soprei sobre o fedor de suas miseráveis carniças."
"Penso
pelo contrário que seja a exalação de sua essência de pecado.”
"Não
disse você mesmo que um espírito não pode cheirar mal?"
"Não
é bem assim mas basta: em nome de sua grande inimiga, que quer?”
"Interrogue-me."
Recolhi-me
um instante em mim mesmo:
“Fale-me
das artimanhas que utiliza para seduzir as almas."
“Tem
necessidade de que lhe revele eu? Você é mestre em Israel.”
"Mas
prefiro que me fale você disto, mestre da sedução.”
*
* *
Parecia
que não se decidia a responder: mas advertia que estava ali.
“Vamos,
imponho-lhe que me responda!"
"Não
se necessita de muita habilidade para apanhar no laço vocês, miseráveis. São
tão estúpidos e tão frágeis que dá vergonha a quem lhes moldou.
Normalmente, postos diante do que Ele os proíbe, basta um pequeno empurrão.”
Isto
pode ocorrer com almas desprevenidas, que não têm suficiente temor de Deus,
que não recorrem aos meios para vencer suas tentações, sobretudo se não oram
e se não têm contato com o Senhor... Mas as outras?
“Estas
são iguais; necessita-se só um pouco mais de tempo e de paciência. Basta
conhecer os gostos, as tendências, os inumeráveis ganchos que todos levam
consigo e com os quais se apegam: a luxúria, a ira, a ambição, a inveja, o
orgulho, a sede de dinheiro, de bens terrenos, a maledicência... Se soubessem
os serviços que nos faz uma língua maléfica semeadora de discórdias... Às
almas que mostram maior resistência não me aproximo jamais delas com um
assalto frontal. Conquisto-as com manobras e dou voltas ao redor, ou escavando o
terreno sob seus pés, provocando as paixões até cansá-las, e levando-as também
ao desespero. Persuadindo-as pouco a pouco de que certos mandamentos são impossíveis:
que seu amo é um tirano; que tal coisa não pode ser pecado...”
"É
a artimanha que hoje está utilizando mais, demolir o sentido do pecado...”
"Também
aqui meus melhores colaboradores são os sacerdotes... Se soubesse quanto me
custou cansá-los de estar naquelas casinhas para escutar cantilenas!... Assim
finalmente consegui que se pregue que a confissão não é necessária, consegui
despovoar os confessionários e enviar um montão de gente, que é minha, a
fazer grandes comilanças de comunhões. Se soubesse a quantas prostitutas, a
quantos comilões e profanadores, ladrões e violentos lhes mando recebê-la.”
"Estou
convencido de que generaliza demais e que contra tantos que caem nesta
armadilha, há tantos que fogem de você, especialmente se são almas que oram e
se esforçam por viver em Graça".
Uma
pausa muito longa: “Não é verdade que a arma da oração lhe dá medo e que
em seus assaltos lhe faz retirar-se envergonhado?"
"Devo
admiti-lo: mas contra aqueles que usam a oração não os ataco jamais de
frente. Busco pouco a pouco e de todas as maneiras possíveis, incomodar sua oração,
distraí-los com mil bobagens, levá-los lentamente à náusea. Enquanto isso eu
intensifico contra eles minhas tentações. Ainda procuro convencê-las que Ele
não as escuta, que é inútil a oração, porque ainda não perdoou certos
pecados, passados, porque se abusou demais de sua Misericórdia...“
“A
velha armadilha: primeiro faz cair às almas no pecado, persuadindo-as de que não
é pecado, e que Deus perdoa tudo; depois de tê-las feito cair, devolve-lhes a
vergonha para não se confessar pelo que fizeram, faz reviver o sentido do
pecado e o aumenta até fazer crer que para elas não há perdão. Primeiro a
presunção, depois o desespero: duas vias ótimas para prejudicar as
almas."
“É
um truque que funciona...”
“Entretanto,
a Misericórdia de Deus é infinitamente maior que suas artimanhas e que suas
conquistas momentâneas. As almas lhe custaram o sangue de Seu Filho e conhece
infinitos caminhos para direcioná-las ao seu domínio!"
*
* *
"Há
que ver quanto exagera pensando nisso da Misericórdia.”
Neste
momento foi eu quem dei uma pausa de tempo.
"Esta
é uma de suas insinuações mais diabólicas e a mais mentirosa. Sabe que Deus
nos ama infinitamente, que uma só gota do sangue de Jesus basta para lavar
todos os pecados do mundo, que nós podemos pecar por falta de confiança em Sua
Misericórdia, mas jamais por ter acreditado em sua indulgentíssima bondade.
Para você não houve nem haverá jamais perdão; para nós sempre; basta que não
O rejeitemos tenazmente, conscientemente, até o último instante. Ele, antes de
deixar uma alma em suas mãos, usa todos os recursos de Seu Amor, que são
infinitos. Tudo isto você sabe, experimenta em todo momento e a Onipotência
deste amor gratuito e redentor que Ele tem por nós é o inferno de seu
inferno!"
“Você
é o advogado de uma causa muito mal apresentada. Você diz que Ele é
Onisciente, olha aonde chega sua perfídia, sua cínica crueldade... sabe que
muitos de vocês serão meus, prevê-lo, entretanto os cria. Por que os cria?
Para quem? Para mim!"
“Eis
aqui outra artimanha com a que busca enganar as almas. Basta-me crer firmemente
no Amor para rejeitar estas insinuações. Deus nos criou por Amor. Nosso
destino é o de Viver o Amor em Deus ocupando os postos dos quais você e os
seus foram expulsos. Para isso nos redimiu e nos oferece todos os meios para
alcançar sua redenção. Entretanto, Deus respeita sempre nossa liberdade, por
isso não coage ninguém para que aceite sua salvação... Mas em suas mãos
dispõe, com Sua Bondade, inimagináveis caminhos para induzir também as almas
rebeldes à dócil aceitação de Sua Graça."
"Agora
é você quem está filosofando.”
"Deixe-me
dizer: o dom da liberdade confere ao homem um valor e uma dignidade invioláveis,
tanto é, que se algum abusasse deles... Deus quis antes correr o risco de deixá-lo
livre e ainda que voluntariamente quiser se perder, Ele nunca o privaria de sua
liberdade. É o homem que não quer dar a Deus seu amor, não é que seja Deus
que não queira Amar ao homem, como você quer apresentar. Deus é puro Amor em
todos Seus atos, senão, não seria Deus”.
*
* *
“Você
não quer responder a minha objeção!...”
“É
você quem não quer compreender! A liberdade, a Misericórdia, o sofrimento,
especialmente a morte de Seu Filho, a comunhão dos Santos, Sua Glória eterna são
tais bens que justificam por si mesmos o permitir a possibilidade da perda
voluntária e obstinada de alguns malvados que livremente decidam meter-se e
colocar-se em seu bando.”
“Você
delira e não me deixa falar… Você disse que Ele preferiu correr o risco da
perda...“
"Sim,
disse-o. Mas Ele fez tudo o que era possível para atenuar, para afastar este
risco. Ele podia, é verdade, recorrer a Sua Onipotência, eliminando também o
argumento de tal risco. Mas Deus não se comporta como seus tiranos, que quando
não podem dobrar uma vontade, matam-na. Ele não é o Deus de mortos, sim de
Vivos. Ele não quis privar aos obstinados de sua liberdade de escolha. Teve
para eles um respeito infinito. Mas, repito, para impedir a trágica
possibilidade de sua ruína, fez tudo o que Divinamente era possível."
"Você
se comporta em seus delírios como um velho escolástico...”
“Aceito!
Desde o momento em que Deus nos amou a ponto de dar-nos o Sangue e a Vida de Seu
Filho, não há objeção alguma possível contra a imensidade e a
universalidade de Seu Amor. É verdade que ao mesmo tempo em que nos concedia tão
grande dom, via aqueles que haviam recusado Sua salvação. E, entretanto, os
criou igualmente; operou em Sua Onipotência atuando a Criação, conhecendo
aquela parte dos que, apesar de Seu Amor, o rejeitariam obstinada e
voluntariamente. Mistério adorável! Contudo, basta-lhe saber, mistério de
iniqüidade, que se não houvesse vertido sobre a humanidade a catarata do mal e
do pecado, nós os homens não teríamos podido ser capazes de conhecer até que
ponto nos ama Deus. A Igreja - repito – paradoxalmente nos faz cantar: "Ó
feliz culpa a de Adão!"
“E
ainda assim ganharei a maior parte das criaturas tão amorosamente redimidas por
Ele.”
“A
maior parte? Mente! O sangue de Cristo tem tal eficácia Salvífica que você não
pode nem poderá lançar desafio semelhante ao Amor de Deus. Este sangue foi
derramado sobre todos os filhos de Adão, sem exceção alguma. Ele tem o poder
de chegar, por caminhos misteriosos, a todas as almas criadas. Deus - repito -
lhe deixa só àqueles que voluntariamente escolheram estar com você. É para
seu maior castigo. Porque sua companhia não atenua, sim que aumenta imensamente
o peso de sua condena. Para toda a eternidade!"
Desde
então meu interlocutor - durante bastante tempo - não deu sinal de vida.
NONO
ENCONTRO
A
ocasião, mais rara que única, de encontrar-me com semelhante personagem
iniciou em mim a curiosidade por conhecer cada vez mais sua maneira de ser. Várias
coisas haviam sido já ditas, mas tinham sido tiradas em cada ocasião com a
habilidade do embusteiro, especialmente quando se tratava de arrancar-lhe uma
verdade, e isto se tinha feito sempre recorrendo à Onipotente intervenção
dEla, que lhe obrigava a responder-me.
Compreendia
que não era tão fácil preparar uma série de perguntas e provocar as
respostas. Contudo, um dia depois de ter orado muito, à primeira percepção de
sua presença, tentei comportar-me como se fosse um juiz inquisidor.
Com
esta intenção, antes que ele introduzisse seus discursos, expus-lhe esta
pergunta a queima-roupa:
“Que
pensa daqueles que são ou parecem muito inteligentes e, entretanto, negam a
existência de Deus e a de vocês, os anjos rebeldes?"
Com
grande surpresa para mim, respondeu:
“São
só uns insensatos.”
Imediatamente
o peguei com a pergunta: “Que pensa daqueles que negam tributo a Deus com a
vontade?”
Compreendeu
imediatamente que aludia especialmente ao fato de sua negação demoníaca, e
respondeu:
"Tínhamos
querido reivindicar nossa liberdade em relação a Ele.”
“Explique-me
que significa isto! Seres como vocês, que diante dEle são nada, que vantagens
poderiam tirar com estas reivindicações."
Ao
invés de responder, escutei-lhe emitir sons como os de uma besta cruelmente
torturada. Claramente me fez compreender que não insistisse sobre este
argumento. Compreendi que sua resposta não poderia ser senão tragicamente
negativa e representava uma tortura que rejeitava manifestar.
*
* *
Depois,
passando aos sofrimentos que inflige a tantas pobres criaturas, também inocentíssimas,
das quais em ocasiões toma posse, perguntei-lhe:
“Como
se atreve, com almas que são exemplo de Deus, tabernáculos de Cristo, habitação
de toda a Trindade? São seres que Deus criou para Si, e habitando neles se faz
uma só coisa com eles... Como pode fazer isto?"
Respondeu
de imediato:
“Você
se enternece ante os tormentos que inflijo a estes seres; mas não reflexiona no
que sofro eu... E ao próprio fato de que atormento a estas criaturas."
“Que
satisfações consegue?"
“Já
lhe disse: Nenhuma!... Nós não ganhamos nada ao infligir o mal... Nós nos
encontramos como sobre uma areia movediça: quanto mais operamos o mal, mais nos
afundamos.”
"Então,
deixa de atormentar estas pobres criaturas e vá para sua morada... Olha como
também para você Deus lhe preparou uma casa...”
"Não
é uma morada; é um estado que nós mesmos buscamos.”
“Tem
razão. Deus em Sua bondade, criando-lhe, não podia predestinar-lhe a um estado
semelhante. Bom dizer que o tem feito vocês mesmos. Por culpa sua chegou a ser
vasos da ira e da justiça de Deus. Desta maneira, enquanto nós louvaremos sua
Misericórdia por toda a eternidade; com o mesmo Hosana, Hosana, Hosana
cantaremos a Justiça usada com vocês."
“Que
sádico você é!”
Foi
uma resposta imensamente reveladora, que me gelou, deixando-me profundamente
pensativo.
Que
grande deve ter sido a malícia do pecado dos Anjos, se Deus, que é tão
infinitamente Bom, golpeou-lhes com tanta Justiça!
*
* *
Neste
momento, veio-me à mente voltar à pergunta sobre as relações que os demônios
e os condenados têm entre si no inferno: Conhecem-se, falam-se conforme nosso
modo de entender-nos, fazem-se companhia?
Também
esta resposta foi tremenda:
"Cada
um de nós é um solitário... Concentrado somente na amargura de sua própria
condenação... Numa angústia sem fim... Cada um tem seu inferno, e é seu
inferno para a eternidade.”
Repetia
a resposta já dada em outra ocasião. Eu rebati:
“Não
compreendo como pode dizer que são solitários quando são tantos anjos caídos
que estão juntos."
"É
assim, porque cada um se separou da união com nosso inimigo. A completa separação
dEle comporta nosso completo e recíproco isolamento das criaturas que giram em
torno dEle. Nós sentimos esta atração, mas somos excluídos de seu fim com
uma violência irreversível. A atração a Ele é regulada por uma lei de amor
da qual fomos excluídos e assim permanecemos encerrados na solidão do ódio...
O ódio é nosso elemento, nossa força e procuramos reparti-lo por todas as
partes. Queremos introduzir a todos vocês nele, marmotas humanas. Hoje nos
servimos do ódio de raças, do ódio de classes, do ódio de ideologias. E
desencadeamos com isto ciclones de catástrofes, fazemos verter rios de sangue.
Todos os instrumentos de comunicação estão em nosso poder para a destruição...”
“Bem
vejo que vive disto... Mas quando Deus ponha fim à história?... Quando o
retorno de Cristo traga seu triunfo final?..”
A pergunta ficou sem resposta.
DÉCIMO
ENCONTRO
"Este
é o último encontro ao qual sou obrigado a ter com você... Mas isto não quer
dizer que não possa haver qualquer outro decidido por minha própria iniciativa
e sem certas cautelas impostas por aquela odiosa tirana... Poderei sempre lhe
pegar de surpresa e quando menos o espere... Você já tem muitas coisas que me
pagar... Não pense que esqueci as borrifadas de água benta que me jogou em
cima para afastar-me daquele tal...”
Este
discurso explodiu de improviso e ameaçante, sem os costumeiros sinais premonitórios,
enquanto - nem que tivesse feito de propósito - estava lendo um pequeno livro
chamado A Era do diabo, de um autor alemão, Antônio Bohn.
O
tom de meu interlocutor era, como sempre, forte e arrogante; também desta vez
falava com ar de grande senhor que dispõe de tudo, ainda que é apenas o miserável
executor de quanto lhe é permitido.
“É
o último encontro, você disse, e espero que seja de verdade assim. Enquanto
agradeço a Ela que tenha estado sempre próxima a mim, como estará também nos
encontros por surpresa com que ameaça preparar-me. Para lhe dizer a verdade,
tinha já o bastante com suas fanfarronadas e com todas as suas fanfarras com as
que pretende fazer tremer o mundo... também creio, e já lhe disse, que o
Senhor poderá permitir um tempo grande de prova para Sua Igreja... Mas
acontecerá tudo sob Sua direção e para livrar-nos da sujeira que você
acumulou nela... Você será, também desta vez, seu encarregado de limpeza...
Se houver vítimas, como é previsível, servirão para fazer mais bela e mais
santa a Sua Igreja."
"Você
é muito irônico e confiante, você... espere que ocorram os fatos. Estou
preparando coisas terríveis! Cenas de destruição, e de sangue, jamais vistas!
Sobre os altos de suas Igrejas, em vez da cruz, ondeará meu estandarte."
“Almas
inspiradas já nos predisseram também isto. Mas talvez será seu último
desfile como "príncipe deste mundo". Depois intervirá Ele e tudo se
derrubará sobre você e sobre seus sequazes.”
"Engana-se.
Contudo, começa minha época. Triunfará meu poder de destruição.
Apresentar-me-ei aos homens sem máscara; apresentar-me-ei tal como sou, para
que todos tremam ante minha presença.”
“Que
nada, bufão! Nem sequer você, como tantas outras vezes, crê no que está
dizendo. Você sabe bem quem é Deus. Você sabe que Ele não abandonará jamais
a humanidade a seus projetos grandiosos de destruição. Ele lhe permitirá
somente aquilo que servirá para castigá-la por suas traições, e purificá-la
de suas culpas nas que você a meteu, mas não mais do que isto..."
“Iluda-se,
iluda-se... A humanidade está se preparando por si mesma, graças aos meus
inventos e a minhas iniciativas, para este suicídio universal. A bomba de
cobalto, a de urânio, os produtos radioativos da energia atômica, pulverizarão
tudo, em poucos instantes; todo gérmen de vida será destruído...”
“Assim
você reinará sobre um imenso cemitério, será o rei dos mortos; enquanto o
nosso é o Deus dos vivos; por isso deixa também vocês viverem, anjos
rebeldes... Deixa-lhes porque devem ser as testemunhas de seu triunfo sobre sua
louca rebelião... Deixa-lhes para que nos contemplem durante toda a eternidade
a nós os homens - uma natureza inferior a sua mas Divinamente transfigurada
pela graça de Cristo - gozando da bem-aventurança que vocês perderam para
sempre."
“Esta
mudança lhes queima pela eternidade. Expulsos da Civitas Dei,
trabalharam duro para construir a civitas diaboli, uma efêmera construção
de papel pisoteado. Postos em fuga por Cristo, vocês se deram um Anticristo,
uma caricatura do Filho de Deus para destruir suas obras e imitar de maneira ridícula
Sua potencia.”
“Por
que não diz antagonista?"...
“Eu
lhe daria muita honra! Antagonista é aquele que luta com seu adversário
combatendo com a cara descoberta. Você, com Ele, nem sequer lhe ocorre, porque
sabe que é infinitamente mais forte. Entretanto, conosco tem que recorrer ao
engano, à mentira; com os ingênuos se apresenta como uma superpotência; com
os inteligentes tenta apagar suas pegadas, necessita trabalhar de incógnito,
recorre à astúcia de não nos fazer crer no ser maléfico que em verdade é.
Tudo o que consegue fazer passar despercebido, põe em marcha recorrendo a mil
astúcias. Também conseguiu persuadir as inteligências mais vigilantes para
que não vejam nada de mau em tudo o que o homem pode fazer. O delito se
manifesta mediante um dinamismo progressivo. A psicanálise apresenta o pecado
como uma doença, livrando aparentemente o homem de toda responsabilidade. Os
escrúpulos de uma consciência turvada pelas culpas tentam se camuflar como resíduos
de tabu, provenientes de velhas proibições não motivadas. Por outro lado,
para convencer aos homens de seu poder absoluto utiliza a propaganda do
terror.”
*
* *
"Eu
me dou conta, em todo este seu discurso, que você se crê um especialista de
bagatelas demonológicas e estou convencido de que nem sequer se dá conta das
bobagens que sua presunção lhe faz dizer.”
"Talvez
não alcanço dizer tudo sobre seu ser e sua natureza; mas você sabe que lhe
conheço bastante. Sei que para compreender seu operar maligno, eu tenho que
recorrer a sua origem e a sua natureza, tal como nos são apresentadas na
Sagrada Escritura, especialmente no Evangelho, e na tradição cristã. Estas são
para mim as únicas fontes fidedignas: as únicas para compreender a origem do
mal; você era uma criatura predileta de Deus e chegou a ser um rebelde; era um
ser de luz e agora é espírito das trevas. Isto é você. Pode se camuflar com
todas as artimanhas. Suas características são estas: uma criatura condenada
para sempre, um ser sem redenção."
“Você
disse tudo?”
"Creio,
entretanto, ter dito muito pouco. Nem me importa saber mais. Tenho suficiente
para lhe odiar e estar em guarda contra todas as suas tretas. E sobretudo para
orar, orar muito por todos os que cedem aos seus enganos. Mas nisto sei que não
estou só. Estão comigo milhões de almas que lutam contra você. Está conosco
Jesus. Está também Sua Mãe Bendita."
“Temos,
sobretudo, em nossa mão a faculdade de renovar cada dia o sacrifício redentor
de Cristo: basta isto só para destruir totalmente sua efêmera potência. Basta
uma Missa para lhe arrebatar milhões de almas."
“Sempre
as mesmas bobagens. Não me permitiu lhe dizer tudo o que queria. Falarão os
fatos, repito-lhe."
Já
lhe disse: não lhe tenho medo. Está conosco Ele, que é mais forte do que você,
e só para seu maior castigo não lhe destrói totalmente. Se tivermos de
sofrer, O louvaremos. Em troca dos sofrimentos daqui, Ele nos prepara um prêmio
que lhe fará tremer de inveja. Para você será só o peso de sua condenação,
o fogo inextinguível de seu orgulho e, ao final dos tempos, a trágica
impossibilidade de poder continuar nos fazendo o mal e a inveja torturadora ao
saber que somos bem-aventurados para sempre no paraíso, que você perdeu."
CONCLUSÃO
DO ACONTECIMENTO
Na
conclusão deste acontecimento ocorreu um fato insólito. Levava já vários
dias com meu ânimo na necessidade de ir dar graças à Virgem ante Sua imagem
na que havia experimentado o impulso para escrever estes "encontros” e
por tê-los podido realizar com Sua proteção, que me pôs a salvo de qualquer
possível superioridade do Inimigo. Assim que numa tarde fui à igreja onde
aquela querida imagem é venerada em Roma e ajoelhado a Seus pés comecei a
dar-Lhe graças.
Aos
poucos minutos, proveniente da primeira fila dos bancos, onde estava também ela
orando, aproximou-se a jovem da vez passada. Impressionaram-me também agora
seus olhos luminosíssimos e doces e seu sorriso excepcionalmente encantador.
“Ei,
ficou feliz por ter obedecido?”
“Desculpe,
senhora...”
"Não,
senhorita.”
"Poderia
me dizer, senhorita, quem é você?”
“Meu
nome não importa, deixe assim, peço-lhe que não o procure. Digo-lhe que estou
feliz de que você tenha obedecido."
Vê-se
que você está muito interessada neste assunto."
“Sim,
muitíssimo. Agora o direi." Então peguei uma cadeira que tinha perto e
sentei-me ao seu lado, num ângulo afastado, e ela começou a falar com voz
baixa e calmamente me disse:
Queria
lhe dizer que fez muito bem ao escrever essa entrevista.
Compreendo
que poucos lhe crerão, mas é necessário não calar. O inimigo recorre a todo
tipo de sutilezas para não se deixar descobrir. Quer trabalhar escondido. E
consegue.
Vocês,
os sacerdotes, devem desmascará-lo. O Senhor lhes concedeu contra o demônio um
poder especial do qual não são conscientes…
Ele tem um medo terrível de vocês, sacerdotes. Por isso os odeia mais
que aos outros, rodeia-os, tenta-os e os faz cair. São muitas as vítimas que
vai fazendo entre vocês.
E
pensar que são muitos os sacerdotes que não crêem em sua presença nem em
suas obras. Falam dele por diversão, por burla, e não pensam que se trata de
seu inimigo mortal.
É
uma situação triste! Você não se preocupe do que digam sobre o que escreveu.
Deixe-os rir. Muitos são instrumentos seus e não se dão conta. Obedecem a
suas ordens mas Deus os observa. Se vissem que horror, que repugnância dão
certas almas de sacerdotes, cheios
de orgulho, de impureza, de rebeldia e semeadores de escândalos! Se Deus
lhes concedesse ver sua alma, ainda que fosse só por um instante e olhar-se ao
espelho! Se deixaram arruinar por seu inimigo e não crêem nele! Meu Deus, que
horror!
Confie
seu escrito às mãos dEla e não se preocupe. A graça de Deus poderá se
servir destas páginas para iluminar tantas almas. E isto tem um grande mérito.
Deus lhe abençoe.”
"Muitos
me ridicularizarão."
"Não
se preocupe.”
Aqui
a jovem, com o rosto de novo sorridente, levantou-se, fez uma genuflexão ao
altar, saudou-me e se foi.
Fiquei com a impressão de ter-me encontrado com uma daquelas almas escondidas, mas muito queridas por Deus. Não é uma pessoa criada por minha imaginação. Está viva e é verdadeira.
Fonte: Recados do Aarão
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