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Artigos/Profecias
Profecias - O Papa e
a profecia
Milhares de "teólogos"e sacerdotes nao acreditam na
profecia atual, isso quando a Escritura diz claramente que Deus jamais
deixará de manifestar-se ao seu povo através deles. E como poderão
ver no artigo que segue, o Santo Padre o Papa Bento XVI acredita
nelas.
O Problema da Profecia Cristã - 30
Dias, Nr. 1 - 1999
O Cristianismo traz sempre consigo uma estrutura de esperança. "Faz-se
cada vez mais urgente apresentar de modo compreensível e vivível a
verdadeira estrutura de promessa e de cumprimento presente na fé
cristã"
Entrevista com o Cardeal Joseph Ratzinger
por Niels Christian Hvidt
Quando se ouve pronunciar a palavra "profecia", a maior
parte dos teólogos pensa, de imediato, nos profetas do Antigo
Testamento, em João Baptista, ou na dimensão profética do Magistério.
E deste modo, na Igreja cristã, o tema dos profetas raramente é
abordado e constitui um domínio particularmente pouco conhecido, em
que muitas questões ficam ainda em aberto. E, no entanto, o decurso
da história da Igreja está marcadamente sulcado de figuras proféticas,
que ela própria tantas vezes não canonizará senão bem mais tarde e
que, durante a sua vida, transmitiram mensagens que essas mesmas
figuras proféticas compreenderam como Palavra de Deus, e não como
simples palavras de homens ou como uma sua pessoal mensagem.
Uma vez que quase se não tem refletido, de forma sistemática, na
especificidade dos profetas, naquilo que os distingue da Igreja
Institucional, nas relações entre a mensagem que lhes é revelada e
aquela que é revelada em Cristo ou a Palavra transmitida pelos Apóstolos,
acontece que, praticamente, jamais foi desenvolvida uma verdadeira e
própria teologia da profecia cristã. De fato, existem poucos estudos
sobre este problema 1.
Na sua atividade teológica, o Cardeal Ratzinger, há tempos,
ocupou-se já, de uma forma aprofundada, do conceito de Revelação.
Nesse tempo, a sua tese de doutoramento 2 sobre a 'Teologia da História
de São Boaventura" tinha tido um tal impacto inovador, que o seu
trabalho acabou por ser rejeitado de início 3. Nesse tempo, a Revelação
era ainda concebida como uma recolha ou conjunto de propostas
diversas; era considerada, sobretudo e acima de tudo como uma questão
de conhecimentos racionais. Mas Ratzinger, pelo contrário, nas suas
investigações, viu em São Boaventura que o conceito de revelação
se referia à ação de Deus na História, na qual a Verdade se revela
pouco a pouco, se bem que é necessário compreender a Revelação
como uma contínua crescente da Igreja, que se desenrola na plenitude
do Verbo de Deus, o Logos 4.
Quanto à sua tese, foi finalmente aceite, mas apenas depois de
algumas passagens terem sido de novo elaboradas e outras mais
desenvolvidas. A partir de então, o Cardeal Ratzinger defende uma
compreensão dinâmica da Revelação, à luz da qual Cristo, como
Palavra de Deus, é sempre maior que qualquer outra palavra de homem,
que jamais poderá estar em condições de A exprimir plenamente. E
assim se conclui que é a Palavra de Deus que confere um sentido, um
significado às palavras humanas e não o inverso. Com efeito, estas
últimas participam na natureza viva e inesgotável da Palavra divina
que é Cristo, enquanto é à luz da Palavra de Deus que elas se
compreendem, evoluem no decurso da História, passando de geração em
geração, e assim se revestem de significados sempre novos 5.
Dito isto, é apenas no quadro de um conceito dinâmico da Revelação
que é possível saber exatamente o que é a profecia cristã. Já em
1993, o Cardeal Ratzinger emitia a seguinte averiguação: "A fim
de compreender o que é ser profeta no sentido cristão do termo,
assim como aquilo que o não é, impõe-se uma aprofundada discussão
a este respeito" 6.
E é isto mesmo que explica a razão pela qual uma entrevista sobre o
tema da profecia cristã foi pedida ao Cardeal, que logo se declarou
amavelmente disposto a dá-la, no dia 16 de Março de 1998 7.
1 - Na história da Revelação do Antigo Testamento, os
profetas, assim como a sua mensagem fazem essencialmente parte dele. E
que, pela sua crítica, abrem o caminho a Israel e acompanham-no
sempre ao longo de toda a sua história. A seu ver, que se passa com a
profecia, na vida da Igreja?
- Detenhamo-nos, por instante, na profecia, no sentido veterotestamentário
do termo. Convém esclarecer com precisão o que é no fundo um
profeta, para dissipar, de vez, todo o mal entendido possível. Um
profeta não é um adivinho do futuro. A característica essencial do
profeta não consiste em predizer os acontecimentos futuros. O profeta
é aquele que diz a verdade, em virtude do seu contacto com Deus e,
tratando-se da verdade válida para hoje, acaba por iluminar também,
naturalmente, o futuro. Todavia, não se trata de predizer o futuro em
todos os seus pormenores. Pelo contrário, trata-se de tornar
presente, num determinado momento, a Verdade divina, o que permite
indicar o bom caminho a seguir.
No que se refere ao Povo de Israel, a palavra do profeta possui uma
função particular, no sentido em que a fé judaica é orientada
essencialmente para o futuro, isto é, para aquilo que está para vir.
Conclui-se que a palavra do profeta apresenta um duplo caráter:
apoia-se na Fé do Povo de Israel, por um lado e, pelo outro, pede que
se ouça e se cumpra. Por outras palavras, a palavra do profeta, que
será sempre uma palavra humana, inscreve-se, antes de mais, na própria
estrutura da esperança do Povo de Israel, notoriamente, naquilo que
ele espera, naquilo para o qual está orientado.
Dito isto, o que faz o profeta, é guardar viva a esperança do Povo
eleito, fazendo-a seguir sempre em frente. Depois, importa sublinhar
que o profeta não é um apocalíptico, se bem que tantas vezes o pareça.
A sua missão principal não é descrever realidades últimas do
mundo, mas fazer compreender a fé em Deus, no momento em que fala,
como uma esperança.
Do mesmo modo, embora o profeta deva intervir na história,
proclamando a Palavra de Deus, comparada como esta é a uma espada
cortante, ele não é alguém que procure essencialmente exercer críticas
ao culto e à instituição. É verdade que o profeta deve sempre
lembrar aos chefes de Israel, como instituição que não deixam de
ser, a exigência vital posta por Deus; e isto, apesar do mal
entendido e abuso que se faz da Palavra divina. Mas é falso conceber
o Antigo Testamento como uma dialética puramente antagonista entre o
profeta e a Lei. Pelo fato de ambos terem a sua origem em Deus, ambos
possuem igualmente uma função profética. É um ponto que me parece
muito importante, porque ele mesmo nos deve acompanhar na leitura do
Novo Testamento. Sabemos como no fim do livro do Deuteronômio
(18,15), Moisés nos é apresentado como profeta e é ele mesmo que se
nos apresenta como tal. Moisés anuncia a Israel o seguinte: "O
Senhor, teu Deus, suscitará em teu favor um profeta saído das tuas
fileiras, um dos teus irmãos, como eu" (Dt 18,15). Ora, põe-se-nos
uma questão: que quer dizer "um profeta como eu"? O ponto
decisivo aqui, creio eu, é que sempre, segundo o livro do Deuteronômio,
a característica de Moisés consiste em que ele fala com Deus como a
um amigo 8. E é aí mesmo que eu vejo o núcleo, a quinta essência
do ser profético, que é justamente esse "face a face" com
Deus: conversar com Ele como um amigo. No Antigo Testamento, o profeta
não pode falar na história de Israel senão em virtude deste
encontro direto entre ele mesmo e Deus.
2- Como se deve então conceber este termo "profecia" em
relação a Cristo? Poderemos chamar a Cristo um profeta?
- Na verdade, os
Padres da Igreja compreenderam a profecia do Deuteronômio que acaba
de ser mencionada como uma promessa feita relacionada com Cristo. E eu
penso que eles têm razão. Moisés diz bem claramente: "um
profeta como eu". E ele mesmo transmitiu a Israel uma mensagem da
parte de Deus, que faz de Israel um povo. E verdade é que, pelo seu
próprio "face a face" com Deus, ele cumpriu a sua missão;
ele próprio conduziu os Israelitas ao seu encontro com Deus. E ao
serviço da profecia desse modelo que todos os demais profetas
ulteriores são chamados, pois o seu dever é libertar constantemente
a Lei mosaica do seu aspecto rígido e transformá-la numa via que se
abra à vida.
-
Por conseguinte, o verdadeiro Moisés, que é também maior, é
Cristo, que vive realmente num "face a face" com Deus, na
medida em que é o Filho de Deus. Neste contexto, constituído por um
lado pelo Deuteronômio e pelo outro, pela própria Vinda de Cristo,
percebe-se um ponto muito importante para compreender a unidade dos
dois Testamentos: Cristo é o novo Moisés, perfeito e insuperável
porque, como Filho de Deus que é, vive face a face com Deus. Não só
nos conduz a Deus pela palavra e pelas leis, mas também nos assume a
todos n'Ele pela Sua vida e pela Sua paixão, Ele cuja Encarnação
faz de nós o Seu Corpo Místico. Isto significa que o ser profético
se enraíza igualmente no Novo Testamento, graças a Cristo, que nele
é revelado como o profeta mais perfeito, porque Ele Mesmo é o Filho
de Deus. De tudo isto resulta que, pelo que se refere ao Novo
Testamento, é da comunhão com Cristo que provém a dimensão cristológica
e profética da vocação de um cristão.
3-A seu ver, como se deve considerar tudo isto, concretamente,
no Novo Testamento? A morte do último Apóstolo, São João, não porá
um freio a toda a profecia ulterior? Acaso não será verdade que
exclui mesmo a sua simples possibilidade?
- Sim, que a
redação final do livro do Apocalipse põe fim a toda a profecia, é
uma tese que existe, mas que, a meu ver, procede de um duplo desprezo.
-
Primeiro, esta tese pode dar a impressão de que, do fato de Cristo
ter vindo, a Sua própria vinda nos autorizaria a pensar que não há
nada mais a esperar e que o profeta já não tem a sua razão de ser,
precisamente porque a missão do profeta é essencialmente uma missão
de esperança. Ora, é um erro porque Cristo veio em carne e, bem
mais, Ele Próprio ressuscitou "no Espírito Santo". Esta
nova presença de Cristo na história da humanidade, a saber, nos
Sacramentos, na Sua Palavra, assim como no coração de cada homem, é
a expressão mas também o princípio do Advento definitivo de Cristo,
que tomará posse de tudo e em tudo (cf. Ef 1,23; 4,10). Isto leva-nos
a dizer que o Cristianismo é por natureza, em si mesmo, um movimento
porque vai ao encontro do Senhor, que voltará a vir, uma vez mais. E
o encontro com Cristo, pela segunda vez, não será já o mesmo que
pela primeira, muito simplesmente porque já veio uma vez, mas subiu
ao Céu. E esta é a razão pela qual a esperança continua a ser algo
de inerente ao Cristianismo como estrutura, porque é orientada para o
Senhor ressuscitado e subido ao Céu, e que prometeu regressar em glória.
A este propósito, a Eucaristia foi sempre compreendida como um
movimento da nossa parte para o Senhor, para O encontrar na fé. É um
sacramento que incorpora a Igreja.
Por conseguinte, é um desprezo pensar que pelo fato de o maior
profeta, Cristo, cuja presença pode cumular tudo, ter já vindo uma
vez, essa dimensão de esperança que encontramos no tempo dos
profetas do Antigo Testamento já não existe no Cristianismo,
inaugurado pelo Novo Testamento. É um mal entendido que se deve
evitar. Pelo contrário, é necessário dizer que mesmo o Novo
Testamento contém necessariamente nele próprio uma dimensão de
esperança, como espécie de estrutura que lhe é inerente. É sempre
necessário, acreditar primeiro, e a seguir esperar. E ser servidor da
esperança cristã faz parte essencial da fé do novo Povo de Deus que
todos nós somos.
O segundo desprezo é uma compreensão reducionista e intelectualista
da Revelação, que pretende considerá-la como um tesouro, verdades
reveladas a conhecer que são tão completas, que nada mais se lhes
pode já acrescentar. Ora, a verdadeira Revelação é um
acontecimento em que todos nós somos convidados a encontrar Deus face
a face. No fundo, a Revelação quer dizer que Deus Se dá a todos nós,
participa na nossa história, associa-Se e une-Se a nós. Na medida em
que a Revelação se define como o encontro entre dois seres, um
humano e o outro divino, ela tem também um caráter comunicativo,
cognitivo. E é neste sentido que ela implica e mesmo necessita do
conhecimento das verdades reveladas.
Compreendendo a Revelação desta forma, pode agora dizer-se que, com
Cristo, a Revelação atingiu o seu fim. De fato, segundo a bela
expressão de São João da Cruz: "Se Deus falou pessoalmente, não
há nada mais a completar". Do mesmo modo, já ninguém pode
deixar de dizer que o Verbo de Deus está presente, no meio de nós.
Deus já não pode dar ou dizer algo maior que Ele Mesmo. Quanto a nós,
não nos resta mais do que penetrar dia-a-dia neste mistério da Fé,
justamente porque nós, os Cristãos, recebemos esse dom total de Si,
que Deus nos fez pelo Seu Verbo feito carne. Isto, lembremo-nos, não
é senão um ponto, nesta nossa compreensão da "profecia"
isto é, como ligação com o ato de esperar do crente. Mas este ponto
da nossa reflexão dá lugar a um outro ponto.
É que a primeira vinda de Cristo restabeleceu, entre Deus e o homem,
uma ligação nova que é sempre de reforçar. Assim, graças à sua
própria ligação com o Verbo feito carne, o homem descobre o que
Este lhe ofereceu. É precisamente esta nova relação que irá
introduzir o homem na verdade total, mas também de uma forma nova,
como o próprio Jesus o diz no Evangelho de São João, em que fala da
descida do Espírito Santo 9. A cristologia pneumatológica que provém
do último discurso, no Evangelho de São João, constitui, a meu ver,
um ponto pertinente, nesta nossa reflexão, na medida em que o próprio
Cristo explica que a Sua vida terrestre, em carne, não é senão um
primeiro passo. A verdadeira vinda de Cristo realiza-se no momento em
que Cristo já não está ligado a um lugar fixo ou a um corpo físico,
mas em Espírito, depois da Sua Ressurreição, até aos nossos dias,
capaz, pois, de vir a todos os homens de todas as gerações, para os
introduzir na Verdade, de uma forma cada vez mais profunda. Importa
lembrar este dado teológico, pois ele esclarece o tempo da Igreja em
que nós estamos em vias de viver e que é também o tempo do Espírito
Santo, pois é em Espírito que Cristo vem a nós e ao meio de nós,
numa vinda espiritual. Compreende-se que, num tal contexto, o elemento
profético que, por natureza, torna presente o que Deus deu aos
homens, a saber, a Esperança que é o próprio Deus, não só não
pode desaparecer, mas jamais poderá tão pouco diminuir.
4 - Se assim é, a questão não será antes saber como é
necessário ver este elemento profético no tempo da Igreja, a começar
por São Paulo?
- No que se
refere a São Paulo, cuja missão se desempenha entre os pagãos, é
claro que o seu apostolado universal tem também um alcance profético.
Graças ao seu encontro com Cristo ressuscitado, São.Paulo pôde
penetrar no mistério da Ressurreição, compreendendo em profundidade
a Boa Nova de Jesus. Do mesmo modo, graças ao seu encontro com Cristo
Ressuscitado, aprendeu a compreender a Sua Palavra de uma forma nova,
e tão bem que lhe revela o caráter, o aspecto de esperança, fazendo
valer de repente a sua capacidade de discernimento.
-
Ser um apóstolo como São Paulo é um fenômeno único. Podemos
interrogar-nos sobre o que se passa na Igreja, depois do tempo dos Apóstolos.
Para responder a esta pergunta, é necessário referirmo-nos a uma
passagem do capítulo II da Epístola de São Paulo aos Efésios, em
que ele escreveu: "A Igreja é fundada nos Apóstolos e nos
profetas" 10. Ao tempo, pensava-se que se tratava apenas dos doze
Apóstolos e dos profetas do Antigo Testamento, enquanto os exegetas
modernos nos dizem que o termo "apóstolo" tem uma acepção
muito mais larga, tal como o termo "profeta", que inclui
também os profetas do tempo da Igreja.
Ora, segundo o capítulo 12 da primeira Epístola aos Coríntios, os
profetas de outrora organizavam-se como membros de um colégio. O colégio
dos profetas é também mencionado na Didakhé, o que quer dizer que
existia ainda, quando a obra foi escrita.
Com o tempo, o colégio dos profetas foi dissolvido. A dissolução do
colégio dos profetas não é certamente um acaso. De fato, como no-lo
mostra o Antigo Testamento, a função de um profeta não é algo que
se possa institucionalizar, na medida em que os profetas dirigiam a
sua crítica, não apenas aos sacerdotes, mas também aos profetas
institucionalizados. Isto parece bem claro no livro do Profeta Amós,
em que este fala contra os profetas do Reino de Israel. Acontece mesmo
muitas vezes que os profetas livres e independentes falam contra os
que pertencem a um colégio. É que, entre os primeiros, Deus
encontra, por assim dizer, mais margem de manobra, mais liberdade de
agir por si mesmos, no momento em que é necessário que eles
intervenham ou tomem iniciativas. Visto que os dois tipos de profetas
que embelezam a história da Igreja têm a sua razão de ser,
parece-me que se não pode falar de uma reforma do colégio dos
profetas.
No que respeita aos profetas do tipo dito institucional, importa
confessar que o colégio dos Apóstolos, a exemplo de São Paulo que
também foi um profeta a seu jeito, se reconhece ter não menos o seu
caráter profético. E é assim que a Igreja se vê perante desafios
que lhe são próprios, na medida em que o Espírito Santo encontra,
no momento crucial, uma porta de entrada para intervir. A história da
Igreja fornece-nos bem muitas provas de que o apóstolo e o profeta
podem ser uma só e mesma pessoa. Basta ver grandes figuras, tais como
Gregório Magno e Santo Agostinho. Há muitos e bons apóstolos proféticos:
foram proféticos na medida em que souberam abrir a porta ao Espírito
Santo com a ajuda do seu poder. E foi como profetas desse modo que
conseguiram exercer o seu poder, como muito bem no-lo descreve a Didákhé.
Quanto aos profetas ditos livres ou independentes, é bom lembrar que
Deus Se reserva a liberdade de intervir diretamente na Sua Igreja para
a despertar, para a avisar, para a promover e santificar, justamente
pelos carismas que lhe dá. Sempre na história da Igreja existiram
personagens carismáticos e proféticos. E eles surgiram sobretudo
numa reviravolta, num momento decisivo da história da Igreja.
Pensemos, por exemplo, no nascimento do movimento dos monges, num
Santo Antão, no impacto que teve este Padre do deserto. Foram os
monges que protegeram a cristologia do arianismo e do nestorianismo. E
o mesmo acontece com São Basílio, um grande bispo, mas também um
verdadeiro profeta do seu tempo. Depois, não podemos deixar de
constatar que o movimento das Ordens mendicantes foi igualmente um fenômeno
novo, mas cuja origem era carismática. Nem São Domingos nem São
Francisco fizeram profecia sobre o futuro, mas souberam ler os sinais
dos tempos e reconhecer que, para a Igreja, chegara o momento de se
libertar do sistema feudal; que chegara a hora de pôr em evidência a
universalidade e a pobreza evangélica, assim como a "vida apostólica".
E fazendo-o, devolveram à Igreja o seu verdadeiro rosto, uma Igreja
conduzida por Cristo e animada pelo Espírito Santo. E foi assim que
eles contribuíram para a reforma da hierarquia da Igreja, criando no
interior desta última um estilo de vida religiosa inteiramente novo.
Ou ainda outros grandes personagens, semelhantes mas femininos, como
por exemplo Catarina de Sena ou Brígida da Suécia.
Dito isto, creio que é importante sublinhar que cada vez que a Igreja
atravessava um momento particularmente difícil, tal como a crise de
Avinhão e o cisma que se lhe seguiu, houve mulheres que se ergueram
para anunciar que Cristo vivo é também Cristo sofredor, na Sua
Igreja.
5 - Quando se lê de perto a história da Igreja,
apercebemo-nos de que a maior parte dos místicos proféticos são
mulheres. É um fato muito interessante que, com toda a evidência,
poderia contribuir para a discussão sobre o sacerdócio das mulheres.
Que pensa disto?
- Há uma antiga
tradição patrística que chama a Maria, não "sacerdotisa"
mas "profetisa", de sorte que o título de profetisa é na
patrística o título de Maria por excelência: é em Maria que a
"profecia", no sentido cristão do termo, se define melhor,
a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua
capacidade de percepção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe
permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo,
assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo
imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode
dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o
princípio mariano que encarna o caráter profético da Igreja. Ora,
se os Padres da Igreja sempre viram Maria como o arquétipo dos
profetas cristãos, é porque Ela colocou, por assim dizer, os marcos
da tradição profética da Igreja, a ponto de esta linha profética
ser concomitante ao tempo da Igreja.
-
Dito isto, convém pensar agora nas irmãs dos Santos, tanto no
sentido próprio como no sentido espiritual do termo. É sobretudo a
sua irmã que Santo Ambrósio deve o caminho espiritual que havia
podido percorrer. O mesmo acontece com São Basílio e São Gregório
de Nissa, como também com São Bento. Mais tarde, na segunda metade
da Idade Média, vemos outras grandes figuras místicas, entre as
quais se deve também mencionar Francisca Romana. Seguidamente, no século
XVI, vem Teresa d'Ávila, que exerceu um papel muito importante na
evolução espiritual e doutrinária de São João da Cruz.
A linha profética ligada às mulheres tem, pois, uma enorme importância
na história da Igreja. Catarina de Sena e Brígida da Suécia podem
servir de paradigma, de grelha de leitura. Ambas falaram a uma Igreja
em que existia ainda o colégio apostólico e onde os sacramentos eram
administrados. Por conseguinte, o essencial existia ainda; todavia,
devido a lutas internas, estava em risco de cair. Essa Igreja,
reavivaram-na elas mesmas, restaurando nela o carisma da Unidade,
reinstalando nela a humildade e a coragem evangélicas e pondo em evidência
o seu dever de evangelização.
6 - Acaba de dizer que a revelação em Cristo se fez de uma
forma "definitiva" - que se não deve confundir com "última",
que quer dizer "aquilo depois do qual nada mais se seguirá - não
se identifica com a última palavra das doutrinas reveladas, como um
ponto de chegada". Esta pertinente afirmação apresenta um
grande interesse a esta nossa tese sobre a profecia cristã. De
improviso, põe-se-nos uma delicada pergunta: em que medida os
profetas, num dado momento da história da Igreja, terão algo de
radicalmente novo a dizer em matéria de teologia? De fato, a história
dos dogmas parece confirmar uma coisa: os últimos grandes dogmas
remontam, na verdade, às revelações dos grandes santos de caráter
profético, como por exemplo as de Catarina Labouré, no que se refere
ao dogma da Imaculada Conceição. É ainda um tema pouco explorado
nas obras teológicas.
- Absolutamente.
Importa tratar esse problema como deve ser. Parece-me que nas suas
investigações, Balthasar descobriu que por detrás de cada grande teólogo,
há primeiro a influência de um profeta: não se pode conceber um
Santo Agostinho que não tenha conhecido os monges do deserto,
particularmente Santo Antão. E o mesmo acontece com Atanásio, Padre
da Igreja. Paralelamente, sem um São Domingos e o carisma da
evangelização que lhe era própria, não teria havido certamente um
São Tomás de Aquino. Lendo os escritos de São Tomás, vê-se como
ele tinha bem a peito a missão, mais claramente no conflito entre as
Ordens mendicantes e o clero da época, único a ter, até então, a
prerrogativa de ensinar, como professor, a teologia, na Universidade
de Paris. A própria necessidade de evangelização é, pois, inerente
à missão da Igreja, que levou São Tomás de Aquino a repensar o
estatuto da Ordem dominicana e a justificar o apostolado de evangelização
pela via do ensino, afirmando que, na origem da Regra da sua Ordem,
estão as Sagradas Escrituras, e que ela é composta pelo quarto capítulo
dos Atos dos Apóstolos ("num só coração e numa só
alma") por um lado e, pelo outro, do décimo capítulo do
Evangelho de São Mateus ("anunciar o Evangelho sem possuir
nada"). Isto, aos olhos de São Tomás, é a Regra de todas as
regras religiosas. Toda a forma de vida monástica não é outra coisa
senão a realização deste modelo do tempo da Igreja primitiva, de
caráter apostólico, naturalmente, mas também em que foi São
Domingos quem o fez redescobrir e o avaliou pela sua vida e pela sua
pessoa. Quanto a São Tomás, transpôs, tanto a vida como o carisma
de São Domingos para um plano intelectual e acadêmico, concebendo
uma teologia da evangelização, a sua. Para o fazer, respeitava e
seguia de bem perto o preceito bíblico de tudo abandonar por amor do
Evangelho, mas também com amor, a fim de que uma comunidade cristã
"de um só coração e de uma só alma" possa ver a luz do
dia. Ainda outros casos mostram como uma figura profética pode ser
importante para o teólogo, tais como São Francisco de Assis, para São
Boaventura, ou Adriana von Speyr, para Hans Urs von Balthasar.
-
Os grandes teólogos confirmam de certo modo pelo seu trabalho, esta lógica
na relação entre a profecia e a teologia: antes que a teologia possa
evoluir ou dar um salto qualitativo, é necessária primeiro a entrada
em cena de um personagem profético, a um dado momento da história da
Igreja. Enquanto o teólogo trabalha de uma forma puramente racional,
nada de novo acontecerá; conseguirá talvez sistematizar melhor as
verdades conhecidas, revelar-lhes aspectos mais subtis. No entanto,
verdadeiros progressos no plano doutrinário, descobertas teológicas
tão novas que revolucionem a própria teologia, não é o teólogo
que os pode fazer com o seu trabalho puramente racional, mas muito
mais depressa o faz um personagem profético, pelo carisma que recebeu
de Deus. E é nesse sentido que a profecia e a teologia caminham
sempre a par. Como ciência, estritamente falando, a teologia não é
profética; apesar disso, torna-se viva, quando alimentada e iluminada
por uma inspiração profética.
7 - No Credo de Niceia, diz-se do Espírito Santo: "falou
pelos profetas". Pode saber-se se os profetas em questão são
apenas os do Antigo Testamento ou também os do Novo Testamento?
- Para responder
a esta pergunta, seria necessário lembrar primeiro a história do
Credo de Nicéia. Segundo os termos e o tempo utilizado, os profetas
de que aqui se fala são os profetas do Antigo Testamento (cf. o
passado composto: Ele tem falado). De uma vez só, é sublinhada e
posta em evidência a dimensão pneumatológica da Revelação. Na
economia da salvação, o Espírito Santo precede Cristo, primeiro
para Lhe preparar o caminho, depois para o fazer compreender,
conduzindo assim todos os homens à Verdade. Há diferentes
simbolismos que põem o acento sobre este aspecto. A Tradição da
Igreja oriental considera a obra do Espírito Santo como uma obra de
preparação, na economia da salvação. Aquele que fala pelos
profetas, é o Espírito Santo, que fala, acima de tudo, de Cristo; eu
estou persuadido de que, na temática desta nossa questão, se trata
sobretudo de afirmar que é o Espírito Santo que aplaina o caminho
para que Cristo possa ser concebido "ex Spiritu Sancto". Por
outras palavras, o que aconteceu em Maria "ex Spiritu Sancto",
é um evento cuidadosa e longamente preparado. Do mesmo modo que Maria
traz consigo toda a profecia do Antigo Testamento, assim também
assume em si toda a economia do Espírito Santo, concebendo Cristo
"ex Spiritu Sancto".
-
Eu creio que se pode mesmo ir ainda mais longe, nesta nossa
perspectiva: até dizer que Cristo não cessa de ser concebido
"ex Spiritu Sancto". Parece manifesto que o Evangelista São
Lucas pôs conscientemente em paralelo o relato da infância de Jesus
no seu evangelho e o nascimento da Igreja, no segundo capítulo dos
Atos dos Apóstolos, em que Maria se encontra rodeada pelos doze Apóstolos,
todos cheios do Espírito Santo. Num caso como no outro, assiste-se a
uma "conceptio ex Spiritu Sancto", uma concepção
sobrenatural, cujo autor é sempre o Espírito Santo e que se atualiza
de novo, para oferecer ao mundo um outro Cristo que é a Igreja. Em
resumo, mesmo que o artigo de Fé, no credo de Nicéia, se refira
apenas aos profetas do Antigo Testamento, isso não quer dizer que a
economia ou ação do Espírito Santo se dê com isso por concluída.
8 - São João Baptista é muitas vezes designado como o último
dos profetas. A seu ver, como deverá compreender-se esta afirmação?
- Há várias
razões que fazem que São João Baptista seja chamado o último dos
profetas. E uma delas é que o próprio Jesus disse: "Porque
todos os profetas e a Lei vaticinaram até João" (Mt 11, 13).
Dizendo isto, Jesus declara que a Antiga Aliança terminou em João e
que, depois dele, vem alguém que é mais pequenino na aparência, mas
maior no Reino de Deus: o próprio Jesus 11. O fato de ser João a
preceder imediatamente Jesus significa que João põe termo a uma época,
inaugurando ao mesmo tempo uma era nova, a da Nova Aliança. E é
nesse mesmo sentido que João é o último profeta: contemporâneo de
Jesus, João Baptista é o profeta em que se concentra todo o
movimento profético do Antigo Testamento, como a chama de uma só
tocha de que João é o portador e que ele mesmo devolve a Jesus.
Deste modo, João Baptista completa a obra dos profetas no sentido
veterotestamentário do termo, porque indica a esperança do Povo de
Israel: o Messias, Jesus. Importa notar igualmente que João Baptista
não anuncia nada que se relacione com o futuro, mas apenas a urgência
de se converter, uma vez presente o Messias, atualizando e renovando
ao mesmo tempo a promessa da Antiga Aliança. E é assim que ele fala
de Jesus: "Ele está já no meio de vós, mas vós não O
conheceis" 12. Muito embora este apelo se pareça com uma predição,
João Baptista acabou por ser fiel à linha profética: em lugar de
predizer o futuro, João não faz senão anunciar que "é tempo
de se converter". A mensagem de João Baptista tem, pois, por fim
convidar o Povo de Israel a examinar-se, interrogar-se e
arrepender-se, a fim de poder acolher essa salvação que acreditou e
aguardou desde sempre. E essa mesma salvação está já presente: é
Jesus, de quem João Baptista é o precursor, que personifica neste
sentido a expectativa de todo o Povo de lsrael. O acerto de chamá-lo
o "último profeta" está, pois, em ser o último da era pré-messiânica.
Em contra partida, a partir da Nova Aliança, da era comumente chamada
messiânica, a profecia será completamente diferente, isto é, de um
outro tipo, assim como o são também os profetas da era messiânica.
-
Por conseguinte, a razão de considerar João Baptista como o último
profeta deve agora ser bem clara: outros profetas o precederam, ao
serviço de uma esperança que se aguardava, a salvação prometida
por Deus. Entretanto, isso não quer dizer que já não haverá
profecia depois de João Baptista; ver-nos-íamos assim em contradição
com o ensinamento de São Paulo, que diz na sua primeira Epístola aos
Tessalonicenses: "Não extingais o espírito. Não desprezeis os
dons da profecia" (1 Ts 5, 19-20) 13.
9 - Dado que Cristo entrou na história, deve por isso haver uma
diferença entre a profecia do Antigo Testamento e a do Novo
Testamento. Ora, compreendendo a profecia como uma mensagem recebida
de Deus e dirigida à Igreja, a profecia do Antigo Testamento e a do
Novo Testamento não parecem, no fundo, diferençar-se
consideravelmente uma da outra.
- Há efetivamente uma diferença entre os dois tipos de profecias,
que reside na sua estrutura interna. No que se refere à estrutura
interna da profecia do Antigo Testamento, Cristo é a salvação
prometida, que está para vir, enquanto na estrutura interna da
profecia do Novo Testamento, Cristo é a salvação que já veio e que
virá ainda uma vez mais. Esta questão teológica merece ser mais
estudada e aprofundada. O cerne desta questão é saber, por um lado,
a razão pela qual o tempo da Igreja, no seu plano estrutural, tem
muito mais afinidade com o Antigo Testamento ou, pelo menos, se
assemelha mais com ele e, por outro, que novidade nos foi trazida pela
primeira vinda de Cristo, que novidade há no tempo da Igreja.
10 - Muitas vezes, vê-se em certas reflexões teológicas, a
tendência para querer diferençar absolutamente a Nova Aliança da
Antiga, levando as suas diferenças ao ponto de as duas Alianças com
Deus se verem praticamente em ruptura uma com a outra. Ora, uma tal
dedução de considerar as duas Alianças como diferentes parece muitíssimas
vezes artificial, quando a verdade é que elas constituem antes um só
facto, uma única realidade...
- É certamente
falso não querer ver senão diferenças entre as duas Alianças, não
querer senão confrontá-las uma com a outra, numa aposta de comparação
- o que os Padres da Igreja aliás jamais fizeram - de tal modo que se
perde de vista a continuidade, na história da salvação, isto é,
esta fidelidade absoluta de Deus para com o homem. Pelo contrário,
para melhor compreender a história da salvação, os Padres da Igreja
propõem o tríplice esquema: "umbra, imago, veritas".
Segundo este esquema, o Novo Testamento é "imago", isto é,
a imagem, enquanto o Antigo Testamento é "umbra", isto é,
a sombra.
-
Uma vez que os dois Testamentos estão ambos orientados e
condicionados pela "veritas", a verdade, no sentido em que
estas duas eras, uma pré-messiânica e a outra messiânica aguardam
ambas o seu comprimento definitivo, não há oposição entre si. A
diferença entre as duas eras é, pois, uma questão de degrau ou decálogo:
o Novo Testamento, enquanto é o tempo da Igreja, situa-se em relação
ao Antigo Testamento, num nível por assim dizer mais avançado, na
história da salvação, em razão daquilo que aguarda. É um ponto
que, até ao presente, me parece pouquíssimo considerado. Os Padres
da Igreja, pelo contrário, sublinham com muita insistência que mesmo
o Novo Testamento contém certas promessas, na expectativa do seu
cumprimento. É verdade que Cristo veio em carne; no entanto, a Igreja
espera sempre o regresso de Cristo, que prometeu revelar a Sua glória
em toda a plenitude.
11 - Será talvez esta, uma das razões que explicam o fato da
espiritualidade de muitas figuras proféticas ser de caráter
fortemente escatológico?
- Eu penso que o aspecto escatológico, que nada tem a ver com a
exaltação apocalíptica, pertence essencialmente à natureza da
profecia. Com efeito, a missão dos profetas é lembrar a dimensão de
esperança da fé cristã, se bem que eles se assemelhem a
instrumentos capazes de transcender o tempo, no sentido em que eles próprios
tornam presente o cumprimento de uma promessa que ainda se não
realizou, mas que um dia se realizará definitivamente. De onde essa
tensão entre promessa e cumprimento, esse vaivém entre presente e
futuro. Este caráter escatológico faz certamente parte da
espiritualidade dos profetas.
12 - Colocando a profecia no seu justo contexto, um contexto de
esperança escatológica, apercebemo-nos de que um quadro
completamente diferente se desenha nesta nossa discussão. É que uma
mensagem profética não é uma mensagem que mete medo, mas uma
mensagem que alarga os horizontes daquele a quem Cristo prometeu
cumprir a Sua promessa feita no momento da sua própria criação.
- O que é determinante na Fé cristã é que ela não inspira, antes
vence o medo. É necessário que este princípio fundamental seja o
leit-motiv do nosso testemunho, a quinta essência da nossa
espiritualidade. Voltemos uma vez mais àquilo de que falamos agora:
é extremamente importante precisar em que sentido o Cristianismo é o
cumprimento da promessa feita por Deus e em que sentido o não é. Eu
sou da opinião de que a crise de Fé que atravessamos atualmente está
intimamente ligada a esta pergunta, cuja resposta continua a ser
confusa para muitos. À falta de uma resposta clara e precisa, surgem
três perigos. O primeiro é que se interprete de uma forma puramente
imanente e horizontal a promessa feita por Deus no Antigo Testamento,
assim como a expectativa da salvação, pelos homens, em termos de
estruturas, de experiências e de contributos cada vez melhores.
Confinando o Cristianismo a este mundo, a um mundo que um dia irá
desaparecer, não se conhece senão um Cristianismo encalhado,
falhado. Com efeito, houve tentativas neste sentido, que queriam
substituir o Cristianismo por ideologias prometedoras, de que surgiu o
marxismo e suas diferentes variantes, identificando-o pura e
simplesmente com o progresso humano em que se depositou toda a confiança.
O segundo perigo é projetar o Cristianismo inteiramente no além,
compreendê-lo e vivê-lo de uma forma puramente espiritual e
individualista, negando assim a totalidade da realidade humana. O
terceiro perigo, que é particularmente agudo nos momentos de crise e
nas reviravoltas históricas, é refugiar-se numa exaltação apocalíptica.
Face a estes três perigos, que deformam o verdadeiro rosto do
Cristianismo, é tão urgente como imperativo apresentar a Fé cristã
na sua pureza, particularmente o que ela promete, o que ela vai
cumprir e aquilo que no fundo ela exige.
13 - Entre o misticismo sem palavra, puramente contemplativo e
o misticismo profético com palavras, vê-se que existe uma grande
tensão. Karl Rahner fez também alusão a esta tensão entre as duas
formas de misticismo 14. Apoiando-se no ensinamento místico de São
João da Cruz, alguns pretendem que o misticismo sem palavra ou
contemplativo é mais elevado, mais puro e mais espiritual, enquanto
outros pensam que esta forma de misticismo sem palavra é
completamente estranho ao Cristianismo, porque a Fé cristã se liga a
uma religião da palavra 15.
- A dizer a verdade, o misticismo cristão tem também uma dimensão
missionária. Ele não tem por fim suprimir o indivíduo, mas sim
confiar-lhe uma missão, pondo-o em contacto com o Verbo, Cristo, que
fala através do Espírito Santo. É um ponto que São Tomás de
Aquino sublinha com muita insistência. Antes de São Tomás, era o
"ou monge e depois místico, ou clérigo e depois teólogo".
São Tomás não aceitava isto, pela simples razão de que todo o dom
místico leva a uma missão; e ele mesmo se recusava a considerar a
missão como algo inferior à contemplação, uma espécie de vida de
segunda classe, a despeito de Aristóteles, para quem a contemplação
pura e sem nenhum compromisso prático está no cimo da escala dos
valores humanos. São Tomás diz que não e afirma que a mais perfeita
forma de vida é uma vida "mista", isto é, primeiro mística
e contemplativa e, depois disso, apostólica e ativa, ao serviço do
Evangelho. Esta afirmação ouve-se também clarissimamente em Santa
Teresa d'Ávila, que liga o misticismo à cristologia. É ela que
confere a dimensão missionária à espiritualidade contemplativa
carmelita. Com isto, não tenho de modo algum a intenção de excluir
o fato de o Senhor poder suscitar místicos autenticamente cristãos
que não tenham nem uma missão particular no seio da Igreja. Mas
desejaria simplesmente precisar que, na medida em que ela constitui,
no plano doutrinário, o critério de discernimento e o fundamento
espirituais de todos os místicos cristãos, a cristologia mostra,
nesta nossa discussão, uma outra relação entre misticismo e missão
ou entre contemplação e ação: Cristo e o Espírito Santo serão
verdadeiramente dissociáveis? O "face-a-face" com Deus
inclui por natureza o ser-para-os-outros. Se é verdade que o
misticismo, no sentido cristão do termo, é uma entrada na intimidade
com Deus, na união com Ele, escusado será dizer que este será um
Cristo que vem para os outros, que aliás se irá de imediato
encontrar e descobrir, depois de se estar unido a Ele.
14 - Muitos profetas, na Igreja, tais como Catarina de Sena,
Brígida da Suécia e Sor Faustina Kowalska, atribuíram as suas
mensagens proféticas a Cristo, que lhas revelou. Contudo, em
Teologia, estas mensagens proféticas são correntemente chamadas
"revelações privadas", termo que se presta a mal
entendidos, porque toda a profecia autêntica é dirigida ao Povo de
Deus enquanto Igreja, e não pode ser privada, propriamente falando.
- Em matéria de teologia, o termo "privado" não quer dizer
que uma só pessoa está implicada, e não as outras. É um termo que
significa o grau e que determina o contexto. Encontramo-lo, por
exemplo, na expressão "missa privada". O que importa fixar
aqui, é pura e simplesmente que as "revelações" dos místicos
cristãos ou dos profetas do tempo da Igreja jamais terão o mesmo
lugar que ocupa a revelação bíblica, e que elas se subordinam a
esta, nos enviam para ela e por ela se explicam. Por conseguinte, não
se pode dizer que tais revelações não têm importância para a
Igreja. Basta citar as aparições de Lourdes ou de Fátima, para
provar o contrário. Estas aparições são, afinal, uma memória da
revelação bíblica. E é justamente porque elas o são que têm uma
autêntica importância.
15 - A história da Igreja testemunha um fato particular a respeito
da profecia: É que a profecia provoca sempre ofensas, tanto da parte
do profeta como da parte do destinatário. Como explica este dilema?
- Que uma profecia se não possa fazer ouvir sem provocar sofrimentos
tanto no profeta como no destinatário, não é nada de novo. O
profeta é chamado a sofrer de uma forma específica: a pedra-de-toque
que verifica a autenticidade de um profeta é saber se sim ou não ele
está disposto a sofrer, a partilhar a Cruz de Cristo. O profeta não
procura nunca impor-se, e será a Cruz de Cristo que irá verificar e
confirmar a autenticidade da sua mensagem.
16 - A frustração é, pois, quase inevitável, sempre que se vê
como a maior parte das figuras proféticas o foram, enquanto vivos,
rejeitados pela Igreja, pelos seus críticos e pelas suas tomadas de
posição negativas. Uma grande parte dos profetas cristãos, tanto
homens como mulheres, confirmam-no.
- Justamente. Santo Inácio de Loiola foi preso, tal como São João
da Cruz. Santa Brígida da Suécia esteve quase a ponto de ser
condenada pelo Concílio de Bale. A este respeito, a prática
tradicional da Congregação para a Doutrina da Fé é dizer-nos que
nos mantenhamos, num primeiro tempo, muito reservados, face às afirmações
dos místicos. Justifica-se esta atitude, no sentido em que também
existe muito falso misticismo, de casos patológicos. E esta a razão
pela qual levamos um certo tempo a "ver a temperatura", a
fim de reconhecer se, no determinado caso, se não trata de
sensacionalismo, de invenção ou de superstição. Um místico prova
a sua autenticidade pelo sofrimento, pela submissão, pela sua paciência
e persistência. E é assim que ele se impõe à audiência. Quanto à
Igreja, deve evitar emitir prematuramente um juizo definitivo, a fim
de evitar esta acusação: "matastes os profetas".
17 - A última pergunta é talvez, embaraçosa. Relaciona-se com
uma figura profética contemporânea, a greco-ortodoxa Vassula Ryden.
É considerada como mensageira de Cristo por muitos teólogos,
sacerdotes e bispos da Igreja Católica. As suas mensagens que, desde
1991, estão traduzidas em 34 línguas, foram difundidas em todo o
mundo. A Congregação para a Doutrina da Fé pronunciou-se
negativamente a seu respeito. A Notificação de 1995, muito embora
reconheça nos escritos de Vassula certos aspectos positivos, foi
interpretada, por muitos comentadores, como uma condenação. É esse
o caso?
- Abordou um tema muito delicado. Não; a Notificação é apenas um
aviso; não é uma condenação. Sob ponto de vista jurídico, ninguém
pode ser condenado sem ter sido ouvido e sem que primeiro se lhe tenha
organizado um processo. O que diz o documento é que, nos escritos em
questão, muitas coisas estão ainda por esclarecer. Encontram-se
neles elementos apocalípticos e aspectos eclesiológicos
aparentemente equívocos. Há muito de bom nestes escritos, mas a cizânia
pode vir misturada com a boa semente. E é este o motivo pelo qual
convidamos os cristãos Católicos a manter-se prudentes no caso
destes escritos e a deixar-se orientar pela Fé, transmitida pela
Igreja.
18 - Isso quererá então dizer que, para esclarecer o
assunto, está em vias de se organizar um processo?
- Sim. E, enquanto esse processo estiver em curso, será necessário
que os fiéis se mantenham prudentes e vigilantes, num espírito de
discernimento. Sem dúvida que se pode também ver nesses escritos uma
evolução, que parece não estar ainda concluída.
E é necessário não esquecer que, mesmo num místico oficialmente
reconhecido e autenticado, as palavras e as imagens inspiradas por
Deus, no momento da revelação, dependem sempre das possibilidades de
uma alma e formam-se segundo as suas limitadas capacidades.
Nós não temos confiança, de um modo incondicional, senão na
Palavra da Revelação, que encontramos na Fé transmitida pela
Igreja.
NOTA: Quanto as perguntas 17 e 18: Vassula pediu permissão para
esclarecer os pontos duvidosos das Mensagens e o esclarecimento foi
plenamente aceito pela Santa Sé após um amigável diálogo entre a
Sagrada Congregação e Vassula.
1 Cf. Karl Rabner, "Vision und Prophezeiung", Friburg, 1958,
p. 21 e segs.: "Nunca uma teologia ortodoxa estudou os profetas,
se bem que nos interroguemos sobre se verdadeiramente existem profetas
na Igreja depois do tempo dos apóstolos, como discernir e reconhecer
o seu carisma, que função ocupam na Igreja, qual a sua relação com
a Igreja institucional, que significa a sua missão na Igreja, tanto
no interior como fora desta mesma Igreja".
2 Cf. Joseph Ratzinger, "Die Geschichtstheologie des hl.
Bonaventura (A teologia da história de São Boaventura), Munich,
1959.
3 Cf. Joseph Ratzinger, "La mia vita-Ricordi" (1927-1977),
"A Minha vida - Memórias" (1927-1977), Roma, 1997, págs.
70 e segs.
4 Cf. Joseph Ratzinger, "La mia vita-Ricordi" (1927-1977)
"A minha Vida - Memórias" (1927-1977), Roma, págs. 68 e
segs.; Joseph Cardinal Ratzinger, Auf Christus schauen -Voruberlegungen
zum Sinn des Jubiaumsjahres 2000, (Erguer o olhar para Cristo - reflexões
preliminares sobre o sentido do jubileu do ano 2000), em Deutsche
Tagespot, n. 31, 11 de Março de 1997, 5.
5 Cf. Joseph Cardinal Ratzinger, op. cit. em Deutsche Tagespot, n. 31,
11 de Março de 1997, 5.
6 Cf. Joseph Cardinal Ratzinger, "Wesenunid Auftrag der Theologie
(A Essência e tarefa da Teologia)", Freiburg 1993, p. 106.
7 Desde 1994 que Niels Christian Hvidt realiza um trabalho de teologia
sobre "a profecia cristã". Foi este o tema do seu trabalho
de licenciatura em teologia, intitulado "Prophecy and Revelation"
(Profecia e Revelação) que ainda não está publicado, mas foi já
apresentado à faculdade de teologia da Universidade de Copenhague, em
Janeiro de 1997. A Universidade atribuiu uma medalha de ouro a este
trabalho, cujo resumo apareceu em "Studia Theologiae - Journal of
Scandinavion Theology", n. 2, 1998, sob o título "Prophecy
and Revelation - a Theological Survey on the Problem of Christian
Prophecy" (Estudo teológico do problema da profecia cristã). A
este propósito, um muito obrigado a Dr. Yvonne Maria Werner, do
Instituto da História da Universidade Lund, que estava presente,
nesta entrevista.
8 Cf. Dt 34,10
9 Cf. Jo 16,13
10 Cf. Ef 2,20: Ef 4,11
11 Vgl. Mt 11,11
12 Jo 1,26 e segs.
13 1 Ts 5,19 e segs.
14 Cf. Karl Rahner, op. cit., p. 21: "Sim, pode talvez dizer-se -
um pouco exageradamente - que a história da teologia mística, do
misticismo, é uma história da discriminação teórica da profecia,
do ser profético, em detrimento da contemplação pura, inspirada e
sem palavra".
15 Cf. Karl Rahner, op. cit., p. 15: "Pode dizer-se, em certo
sentido, que as visões dos videntes, de que Deus e imaginária são
os dois componentes principais, correspondem na sua maioria, ao
aspecto incarnado da religião cristã, justamente em razão das
concretas imagens de tais visões, muito mais que as visões por assim
dizer puras, que levantam um velho problema, o saber se a piedade
suscitada por semelhantes visões, isto é, sem nenhuma referência a
qualquer objecto, que seja, puramente transcendente e desincarnado, é
própria do cristianismo".
Fonte: Recados do Aarão
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