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25/08/2007
Sacramento
da Vida
A
Instituição da Eucaristia (Gentileza Áureo)
“Cum dilexisset suos qui erant in mundo in finem dilext eos”.
“Jesus, tendo amado aos seus que estavam no mundo, amou-os até ao
fim”. (Jo 13,1)
Quão bom e amoroso é Jesus! Não contente de se ter feito Irmão
pela Encarnação, nosso Salvador pela Paixão – não contente de
ser entregue por nós, seu amor levou-o ao ponto de tornar-se
Sacramento de Vida para nossas almas. E com a alegria preparou Ele
este dom, grande e supremo, de sua dileção. Com que júbilo
instituiu Ele a Eucaristia e no-la legou por testamento!
Sigamos a Sabedoria divina na preparação eucarística. Adoremos seu
Poder que a esgotou a si mesma nesse ato de Amor.
I
Vem de longe a revelação da Eucaristia feita por Jesus. É em Belém
– a morada do Pão, “domus panis” – que nasce. É sobre a
palha que repousa e esta parece sustentar na verdade a espiga do trigo
verdadeiro. É ainda a Eucaristia que revela que promete – promessa
pública e formal – em Caná, e quando, no deserto, multiplica os pães.
Afirma por juramento que há de dar sua carne a comer e seu sangue a
beber. É a preparação remota.
Chega, porém, o momento da preparação próxima. E Jesus quer tudo
preparar sozinho. O Amor não deixa a outrem o cuidado de cumprir suas
obrigações, mas tudo faz por si. E nisso consiste sua glória. Ora,
Jesus designa a cidade, Jerusalém, sede do sacrifício da Lei Antiga.
Designa a casa, o Cenáculo. Escolhe os ministros da obra, Pedro –
discípulo da fé –, e João – discípulo do Amor. Indica a hora,
a derradeira de que, em Vida, poderá dispor. Finalmente vem de Betânia
ao Cenáculo, alegre, apressando o passo, ansioso por lá chegar. É o
Amor que voa ao encontro do sacrifício.
II
Eis agora a instituição do augusto sacrifício. Momento solene! Soou
a hora do amor. É a páscoa mosaica que se consome; é Cordeiro real
que substitui o figurativo; é o Pão da Vida, o Pão do Céu, que
toma o lugar do maná do deserto. Tudo está preparado. Os Apóstolos,
a quem o Mestre acaba de lavar os pés, estão puros. Jesus senta-se
modestamente á mesa, pois era mister participar da nova Páscoa
sentado, repousando em Deus.
Faz-se, em torno, grande silêncio. Os Apóstolos, atentos, observam
tudo. Jesus recolhe-se em si mesmo, toma o Pão em suas Mãos santas e
veneráveis, eleva os Olhos ao Céu e, dando graças a seu Pai por ter
chegado a hora ansiosamente esperada, estende a Mão e benze o Pão...
E, enquanto os Apóstolos, penetrados de profundo respeito, não ousam
perguntar a significação desses símbolos tão misteriosos, Jesus
pronuncia estas palavras arrebatadoras, tão poderás como a palavra
criadora: “Tomai e comei, isto é meu Corpo. Tomai e bebei, isto é
meu Sangue”. É o mistério de Amor que se consuma. È Jesus que
cumpre com sua palavra. E nada mais lhe restando a dar que sua Vida
mortal na Cruz, Ele a dará, para depois ressuscitar e tornar-se nossa
Hóstia perpétua de propiciação, Hóstia de Comunhão, Hóstia de
adoração.
O Céu extasia-se à vista desse mistério. A Santíssima Trindade
contempla-o com amor.
Os Anjos o adoram. Tomados de admiração. Os demônios têm frêmitos
de raiva nos infernos.
Sim, Jesus, tudo está consumado! Nada mais tendes a dar ao homem para
lhe provar vosso amor. Agora podeis morrer, e, na própria Morte, não
nos deixareis. Vosso Amor eternizou-se na terra. Voltai ao Céu de
vossa Glória; a eucaristia será o Céu de vosso Amor.
Ò Cenáculo, onde estás tu? Ò Mesa Sagrada que trazes o Corpo
consagrado de Jesus! Ó Lume Divino acendido por Jesus no monte Sião,
arde, alastra tua chama e abrasa o mundo!
Ó meu Deus, haveis sempre de amar aos homens, porque estes hão de
possuir sempre a Jesus Cristo, e não mandareis mais o raio ou o dilúvio
devastar a terra. A Eucaristia é nosso arco-íris, e Jesus Cristo
vosso Filho tendo amado aos homens aos homens, vós também amareis.
Ah! nosso doce Salvador nos amou de fato. Não bastará para granjear
nosso reconhecimento? Precisa mais para que lhe consagremos, em troca,
nossa afeição e nossa Vida? Temos ainda algum desejo novo? Ai de nós!
se o Amor de Jesus no Santíssimo Sacramento não conseguir ganhar
nosso coração, Jesus fica vencido.
Nossa ingratidão excede à sua Bondade, nossa malícia sobrepuja sua
caridade. Ah! não, dulcíssimo redentor, vossa Caridade me insta, me
atormenta, me enlaça! Quero consagrar-me ao serviço e à glória de
vosso Sacramento; quero, pelo meu amor, fazer-vos esquecer minha
ingratidão passada, e por minha dedicação presente alcançar perdão
por vos ter tão tardiamente amado.
***
O melhor método de assistir frutuosamente a Santa Missa é unirmo-nos
à Augusta Vítima. Façamos o que Ela faz; ofereçamo-nos com Ela e
na mesma intenção Nossa oferenda, assim unida a de Jesus Cristo,
tornar-se-á nobre, pura, digna dos olhares de Deus.
Acompanhemos Nosso Senhor ao Calvário, meditando as circunstâncias
de sua Paixão e Morte, mas principalmente unindo-nos ao sacrifício
pela participação da Vítima com o Sacerdote. É assim que a santa
missa tem a sua plena eficácia e corresponde integralmente aos desígnios
de Nosso Senhor.
Jesus cristo, na santa Missa, não sofre e não morre mais, é
verdade. Em que consiste pois o sacrifício? Afastai, por meio da fé,
o véu do mistério, e vereis Jesus cheio de majestade num estado de
aniquilamento; Jesus onipotente, feito cativo; Jesus impassível, num
estado de vítima; numa palavra, Jesus que na realidade não pode mais
morrer, assumindo o estado de morte para continuar o sacrifício.
Ah! se as almas do Purgatório pudessem voltar a este mundo, o que não
fariam para assistir uma única Missa!
***
Oferecei a Santa Missa segundo estes quatro fins:
1. Homenagem de adoração suprema, apresentação ao Pai Eterno as
adorações de seu Filho Encarnado, e unido as vossas às dEle e às
de toda a Igreja. Oferecei-vos, com Jesus Cristo, para amá-lO e
servi-lO.
2. Preito de ação de graças ao Pai Celeste, a fim de agradecer-Lhe
os méritos e a glória da Santíssima Virgem e de todos os santos,
como também os benefícios que tendes recebido e ainda recebereis
pelos merecimentos de seu Filho.
3. Como Hóstia satisfatória (propiciação), por todos os vossos
pecados e expiação de tantos crimes que se cometem no mundo; lembrai
ao Pai Eterno que Ele nada nos pode recusar visto que nos deu seu
Filho, que mantém na sua presença nesse estado de sacrifício e de vítima
pelos nossos pecados e os de todos os homens.
4. Como sacrifício impetratório ou hóstia de oração, oferendo-o
ao Pai como o penhor que Ele nos deu de seu amor a fim de que pudéssemos
esperar confiantes todos os bens espirituais e temporais.
Apresentai-Lhe vossas necessidades pessoais e pedi-Lhe em particular a
graça de corrigirdes o vosso defeito dominante.
***
Considerai a hora de adoração que vos cabe como uma hora celestial;
ide a ela como iríeis ao Céu, ou ao banquete divino, e então será
desejada e acolhida com alegria. E que vosso coração suspire
suavemente por ela, dizendo: “Daqui a quatro horas, a duas horas, a
uma hora apresentar-me-ei à audiência de graça e de amor de Nosso
Senhor; Ele convida-me, espera-me, deseja-me.
***
O que mais tristemente contraria o desenvolvimento da graça do amor
em nós é que, apenas chegados aos pés do bom Mestre, logo falamos
de nós mesmos, de nossos pecados, de nossos defeitos, de nossa
pobreza espiritual. E cansamo-nos o espírito contemplando nossas misérias,
contristamos nosso coração pensando em nossa ingratidão e
infidelidade. A tristeza traz consigo mesmo o pesar, e o pesar, o desânimo.
Só a custo de humildade, de dor, de sofrimento, poder-se-á sair
desse labirinto, para recobrar a liberdade, perante Deus.
Peço-vos proceder de outra maneira, e já que o primeiro movimento da
alma determina, em geral, a obra inteira, quero que este seja para
Deus. Dizei-lhe: “Ó meu bom Jesus, como estou feliz e contente de
vir visitar-vos, de passar convosco uma hora inteira e dizer-vos meu
amor. Que Bondade, a Vossa, de me terdes chamado, e como sois amável
de amar uma criatura tão pobre como eu. Ah” sim, desejo
ardentemente amar-vos”. O amor, então, abre-vos a porta do Coração
de Jesus: entrai, amai, adorai.
São Pedro Julião Eymard – A Divina Eucaristia
Este santo é considerado pela Igreja como o Maior devoto da
Eucaristia entre todos os santos. Seu corpo continua incorrupto,
apesar de séculos passados de sua morte. Constará do nosso próximo
livro.
Fonte:
Recados do Aarão
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