|
|
|
|
|
Perfeição e frustrações
Vivemos
numa época, onde a dor não pode existir. Quando ela aparece, já está
sendo anestesiada. Vivemos numa cultura de anestésicos
Ser perfeito, no sentido
que Jesus Propõe, é amar a mim mesmo como sou e a outras pessoas
como são. Alguém movido pela pressão da perfeição poderia me
retrucar imediatamente: mas, nós devemos melhorar, e não aceitarmos
como nós somos agora. Eu concordo com isso. Nós podemos e devemos
tentar ser melhores e melhorar o mundo, mas não podemos negar a nossa
condição humana. Isto é, devemos lutar contra a situação em que
está a minha vida e a nossa sociedade, mas não contra a nossa condição
humana. E a noção de perfeição dominante na nossa cultura
ocidental é uma proposta que vai contra a condição humana. Os próprios
mitos e tragédias gregas alertavam contra a tentação de querermos
superar a condição humana para chegarmos à perfeição, como os
deuses.
A nossa libertação do
sistema começa por um caminho que, à primeira vista, parece
paradoxal. Ela começa com a confissão de que há em nós desejos e
anseios, aos quais a indústria de consumo não pode responder. Aos
quais, aliás, nenhuma indústria de prazer conseguirá responder. Ela
continua com a afirmação, diante de si mesmo, de que ter anseios e
desejos não satisfeitos é legítimo e normal. Tais desejos não
satisfeitos e as suas conseqüentes frustrações fazem parte do ser
humano. Eles constituem o seu modo de ser.
Para quem aprendeu esse
dado fundamental, a libertação, num terceiro passo, se realiza pela
conscientização de que muitos dos desejos e anseios da pessoa humana
não podem ser satisfeitos e nunca poderão ser satisfeitos. O homem,
por natureza, é marcado por um profundo anseio de felicidade; por
natureza, sonha com algo que o transcende, que vai além de todas as
suas limitações. Por causa dessa sua tendência rumo ao
transcendente, sempre ficará insatisfeito.
Descobrimos, assim, o fato
paradoxal: o estado de frustração faz parte do estado natural de
cada um de nós. Se quisermos ser felizes, primeiro, devemos
reconhecer que a felicidade plena não pode ser alcançada. Por causa
disso, devemos aprender a ser frustrados. Devemos aprender a viver com
as nossas frustrações. Vou até mais longe ainda: devemos aprender a
compreender as nossas frustrações como algo positivo, natural, que
faz parte de nossa condição de vida como seres humanos.
Reconhecer tal fato já é
o primeiro passo, por meio do qual nos libertamos da ditadura da busca
constante pelo prazer. Não precisamos de prazer ininterrupto. Somos
capazes de viver sem prazer. Somos capazes de suportar uma dose
bastante alta de dor e de frustrações. E suportando tais situações,
não quebraremos, mas, pelo contrário, cresceremos em nossa estrutura
pessoal. Cresceremos como pessoas e como indivíduos. Estamos assim
confrontados com a verdade incômoda e paradoxal de que, suportando
dor e passando por frustrações, nos tornamos pessoas mais
desenvolvidas e indivíduos mais ricos. Seu
Irmão: Eduardo Rocha Quintella
Bacharel em Teologia pelo Centro de
Ensino Superior de Juiz de Fora Minas Gerais
Website: www.eduardoquintella.org
E-mail: eduardoquintella@uol.com.br
|
|
Copyright © Pai de Amor - Todos os direitos reservados. |