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A experiência dos discípulos de Emaús
Ao
longo de nossa vida vamos cultivando amizade pessoal com Cristo. Encontramo-lo
na palavra do Evangelho, no pão da Eucaristia, no rosto do irmão que
sofre, na contemplação orante. Ruminando
as palavras do Evangelho, deixando que o corpo vivo e ressuscitado de
Jesus fortaleça nossa vida nova, acolhemos a clara bondade que chega
até nosso ser mais intimo. Percorrendo
o caminho que conduzia à aldeia de Emaús, dois dos discípulos
partilhavam a decepção pela morte de Jesus. As esperanças foram
frustradas. Enquanto
o faziam, Jesus cruzou-se no caminho, interveio no diálogo e, ainda
antes de o reconhecerem, interpelou-os: Ó homens sem inteligência e
lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não
tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória? (Jo
24, 25-26). Depois,
abriu-os para o significado
do que acontecera, a partir das Escrituras. A
Palavra de Deus transformou aquele encontro em acontecimento,
desvendou o que a fragilidade humana não conseguia entender. No seu
caminhar, os discípulos de Emaús encontraram, então, um novo
sentido. A
vida cristã é uma peregrinação constante.
É preciso acertar com o caminho verdadeiro que nos conduz à
meta, a plenitude de vida em Cristo. No
nosso longo e duro caminhar de peregrino, se confiarmos unicamente nas
nossas forças, poderemos perder o rumo e as nobres aspirações que
nos animam, sujeitando-nos a condições de mera sobrevivência a
troco de qualquer tipo de recompensa ou remuneração. A
Palavra de Deus é a luz indispensável que dá resposta às questões
fundamentais da existência: quem somos, de onde vimos, para onde
caminhamos? É uma palavra viva, reveladora da verdade, que interpela,
orienta e molda a existência, tornando-a digna de filhos de Deus. Numa
sociedade como a nossa, marcada pelo pragmatismo materialista, que
coloca os interesses económicos acima da satisfação das
necessidades fundamentais dos seus membros. A
Palavra de Deus denuncia essa dignidade humana ameaçada e obriga ao
empenhamento pessoal e social para a repor, uma vez que os
empobrecidos hão-de ser sempre tratados com o respeito devido à
dignidade de cada pessoa humana. O
diálogo dos dois discípulos com o ressuscitado teria chegado ao fim
se estes não o tivessem convidado para ficar com eles.
Sentou-se à mesa, benzeu o pão, partiu-o e entregou-o aos
discípulos. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no. Santo
Agostinho (Sermão 235) comenta, a este propósito: Eles caminhavam
mortos com um vivo, caminhavam mortos com a vida. Com
eles caminhava a vida. Mas no seu coração nenhuma vida tinha
renascido. E
tu, desejas a vida? Imita os discípulos e reencontrarás o Senhor.
Eles ofereceram-lhe
hospitalidade. O Senhor parecia resolvido a prosseguir o seu
caminho, mas eles retiveram-no. Retém o empobrecido se queres
reencontrar o teu Senhor. O Senhor manifestou-se no partir do pão. Se
a Palavra abre horizontes e indica o rumo do nosso peregrinar, a
Eucaristia é o alimento do nosso caminhar. Fonte
e cume da vida cristã, na Eucaristia verificamos como o Senhor não
falha ao que promete: Eu estarei convosco até ao fim do mundo (Mt 28,
20). Ele
vem ao nosso encontro. Então, a nossa vida ganha um novo sentido,
porque fazemos a experiência de que não caminhamos sozinhos: Ele é
o guia que nos conduz por caminhos exigentes, o alento para
ultrapassarmos dificuldades, a plenitude do amor, dom prometido para
os que o seguem até ao fim. É
na Eucaristia, particularmente celebrada ao Domingo, que os cristãos
quebram o isolamento, exprimem e alimentam a comunhão na fé,
integradora das diferenças de língua, cultura, tradição e condição
social. Mas,
a experiência da ressurreição, os discípulos de Emaús não a
guardaram só para si. Imediatamente se dirigiram para Jerusalém, ao
encontro dos Onze, para lhes comunicarem: Realmente o Senhor
ressuscitou e apareceu a Simão!. E,
nisso, foram acompanhados por muitos outros que, por causa desse
testemunho enfrentaram críticas e perseguições, numa fidelidade
que, em muitas circunstâncias, os conduziu até ao martírio.
Celebrar
a Páscoa implica projetar à nossa volta a luz da ressurreição,
fermento da nova criação, empenhando-nos no acolhimento e
solidariedade para com os empobrecidos, na procura das soluções mais
justas para os seus problemas pessoais e familiares, na busca dos
meios que, de forma justa e equilibrada, salvaguardem
os direitos e deveres de quem acolhe e de quem é acolhido.
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