FRANÇA        

 

Situação do catolicismo na França

        A principal característica do cenário religioso francês é indiscutivelmente a presença dominante do catolicismo na história e na cultura nacionais. Mas esta primeira observação é imediatamente seguida de uma outra: a França é também um dos países menos religiosos numa Europa por sua vez mais secularizada que qualquer outra região do mundo. Mais recentemente, essa descrição veio a ser enriquecida por um novo elemento: a França abriga a maior população muçulmana da Europa, cerca de 5 milhões de pessoas que hoje reivindicam sua plena integração no espaço nacional. À parte essas "tendências gerais" delineia-se uma paisagem religiosa em plena recomposição: uma recomposição que transforma profundamente os termos do compromisso laico que há um século enquadra a gestão da religião nos limites da República.


Catolicismo: o fim de um mundo
           
Os franceses ainda seriam católicos? A pergunta se justifica, ante a contínua erosão das práticas, o definhamento demográfico do clero e a desestabilização de uma civilização paroquial que modelou nossas paisagens, nosso patrimônio arquitetônico e nossa cultura. Após as fissuras reveladas pela Primeira Guerra Mundial, o nítido declínio esboçado no período de 1945-1950 acelerou-se bruscamente a partir da década de 70. Em 1981, 71% dos franceses declaravam-se católicos. Em 1999, são 53% os que o fazem. A prática mensal do culto era de 18% em 1981; hoje, ela é de 12%, caindo para menos de 8% no caso da prática semanal, o que equivale a uma queda de 35%. Esta queda chega a 53% entre os franceses de 18 a 29 anos, apenas 2% dos quais vão à igreja toda semana. Em 1965 havia 41.000 padres; em 1975, 35.000. Em 2000 eles eram 20.000, um terço dos quais com menos de 66 anos. Acredita-se que em 2020 a França terá, no máximo, 6.000 a 7.000 padres. Em 1983, contavam-se 37.500 paróquias, das quais 14.200 tinham um padre residente. Já em 1996 elas eram 30.700, das quais apenas 8.800 com um padre residente. Desde o início dos anos 80 o número de batismos e casamentos na igreja, que por muito tempo manteve-se estável, sofre uma nítida retração: no fim da década de 60, 4 crianças em 5 eram batizadas durante seu primeiro ano de vida; já em 2000 é o caso de uma criança em duas, proporção que em 2020 será apenas de uma em três.
        Diante desses números, o catolicismo francês parece sem forças. Mas há indícios de que não perdeu sua vitalidade, parecendo inclusive capaz, nesse contexto de extrema secularização, de suscitar formas originais de mobilização. Amplas operações de reestruturação do tecido comunitário estão em andamento em todas as dioceses. O envolvimento ativo dos leigos, que se tornou indispensável ante o déficit do clero, é notável. 600.000 leigos, dos quais a esmagadora maioria é de mulheres, incumbem-se da catequese, animam a vida litúrgica e preparam os fiéis para receber os sacramentos. Uma parte deles está oficialmente encarregada das esmolarias (hospitais, estabelecimentos escolares, prisões) e mesmo de paróquias (845 em 2001, contra 28 em 1983). O número de diáconos aumenta rapidamente: de 1.500 atualmente, passará a 3.500 em 2020, mantendo-se o ritmo atual das ordenações. Finalmente, o sucesso de fórmulas pastorais novas ou renovadas, como os grandes encontros de jovens e as peregrinações, parece demonstrar que a Igreja continua dispondo, independentemente do definhamento das observâncias, de uma capacidade ainda respeitável de mobilização.
        Mas esse dinamismo é frágil. Considerando-se a atual pirâmide etária e o escasso envolvimento das gerações mais jovens, o número de leigos que mantêm viva a instituição deverá inevitavelmente estagnar. A diminuição do número de clérigos acentua seu confinamento a tarefas rituais de que só eles podem desincumbir-se: à frustração que experimentam faz eco o mal-estar dos leigos freqüentemente em situação precária no exercício das responsabilidades pastorais que lhes são confiadas. E a capacidade de mobilização da Igreja em relação à juventude mantém-se limitada basicamente às camadas sociais que constituem seu viveiro tradicional: à parte a minoria de jovens que ainda desfrutam de uma socialização católica em família, "o efeito JMJ" (a mobilização associada às Jornadas Mundiais da Juventude lideradas pelo Papa, que sempre têm ampla repercussão nos meios de comunicação) é extremamente precário e volátil, ou pelo menos pouco capaz de renovar, a curto ou médio prazo, formas estáveis de envolvimento católico.

Desregulamentação institucional e individualização das crenças
       
Estas primeiras considerações sobre a situação das grandes confissões evidenciam, numa espécie de convergência, a desregulamentação das instituições que caracteriza mais que tudo a cena religiosa. O traço dominante da modernidade religiosa, na França e em outros países, não é, como se pensou por muito tempo, a perda das crenças e a ascensão irresistível da indiferença espiritual. O percentual de franceses (14%) que declaram firmemente não terem qualquer crença religiosa aumentou ligeiramente nos últimos vinte anos, mas vem aumentando muito menos rapidamente que o número dos que declaram acreditar num "poder" ou "força sobrenatural" que não identificam com precisão. Em contrapartida, a crença num Deus pessoal (com os atributos do Deus judaico e cristão) vem regularmente sofrendo uma erosão. O fato mais marcante não é o recuo do crer, mas sua disseminação individualista, à margem dos grandes "códigos do crer" definidos pelas instituições religiosas. Numa sociedade em que a autonomia dos indivíduos afirma-se em todos os setores, a crença religiosa não constitui exceção. Os indivíduos voltam-se menos para a conformidade às "verdades" codificadas por instituições do que para a autenticidade de uma busca espiritual pessoal. Vão cada vez mais livremente "montando" os pequenos relatos de crença que lhes permitem conferir um sentido subjetivo a sua experiência do mundo. E a ampliação dos recursos culturais disponíveis contribui para a proliferação dessas composições de crença "à la carte". O sucesso das espiritualidades orientais, a moda de um budismo aclimatado às expectativas de realização pessoal dos indivíduos (600.000 franceses declaram-se próximos dessa fé) e a disseminação da crença na reencarnação (declarada por 20% dos franceses) constituem indícios significativos desse maciço desenvolvimento de uma espiritualidade da auto-realização, que dá absoluta prioridade aos direitos da subjetividade.

por Danièle Hervieu-Léger*

         Voltar