CONTINENTE EUROPEU

 

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    Europa sem Deus


    Basta entrar numa catedral para perceber que há mais turistas fascinados pela arquitetura do que fervor religioso. Enquanto os teólogos debatem as causas da debandada do rebanho cristão, os números comprovam que, se os europeus ainda rezam, o fazem longe da instituição.


    Durante os últimos dez séculos, um fluxo caudaloso de peregrinos manteve agitadas as grandes catedrais da Europa Ocidental. É irônico que no momento em que o cristianismo celebra seu segundo milênio o coração da civilização cristã esteja passando por um fenômeno bem diferente: a ausência de fiéis nos cultos, sejam católicos ou protestantes. Basta entrar numa catedral para perceber que há mais turistas fascinados pela arquitetura do que fervor religioso. Enquanto os teólogos debatem as causas da debandada do rebanho cristão, os números comprovam que, se os europeus ainda rezam, o fazem longe da instituição. Sessenta e sete por cento dos jovens espanhóis jamais vão a uma missa. Na França, na Bélgica e na Alemanha, apenas 10% dos católicos freqüentam a igreja. A cada ano, diminui em 50.000 a quantidade de ingleses que assistem às missas de domingo. Em vários países faltam padres por causa da queda no número de ordenações.

        Entre os protestantes, o cenário é igualmente desolador. Somente 3% da população comparecem aos cultos nos países escandinavos. A cúpula da Igreja Reformada Holandesa está transformando parte de seus complexos religiosos em hotel para pagar as despesas de manutenção. A catedral de Canterbury, de importância central para a fé anglicana, fica vazia na manhã de domingo, o dia mais movimentado para qualquer templo cristão.O sínodo dos bispos europeus convocado pelo Vaticano para discutir o assunto, em 1999, observou, com alarme, que são batizados menos da metade dos recém-nascidos nas grandes cidades da Europa. “Os europeus são agora uma das populações menos religiosas do mundo”, diz o reverendo anglicano Timothy Bradshaw, professor de teologia da Universidade de Oxford.

        O fenômeno é exclusivo da Europa Ocidental. A religião católica está em expansão na América Latina e na África. As igrejas protestantes e pentecostais estão conquistando multidões não apenas nos países pobres, mas também nos Estados Unidos. Mas o que surpreende é que os europeus deixam de ir aos cultos cristãos, mas não mudam de religião nem viram ateus, o que explica o fato de o número de pessoas que acreditam em Deus (50% da população) ser muito maior que o das que freqüentam uma igreja. Só 4% se declaram completamente ateus. Da mesma forma, a ética ainda orienta a moralidade pessoal da maioria das pessoas. Sessenta por cento dos holandeses deram adeus à igreja, mas continuam reservando uma enorme quantidade de dinheiro para a caridade.

        Durante 1.000 anos, o cristianismo foi um elemento central na identidade européia. A tradição é forte demais para ser dissolvida de uma hora para a outra. Impressiona a continuidade das aulas de religião nas escolas da maior parte dos países, com o apoio dos pais. Na Suíça, é comum freiras lecionarem nas escolas públicas. O clero anglicano ainda tem cadeiras com direito a voto no Parlamento inglês. Uma parte da justificativa para a educação religiosa – o que na maioria da Europa significa educar para o cristianismo – é a inseparável conexão entre a fé cristã e a cultura européia. “Não se pode entender a arte, a literatura ou a arquitetura ocidental sem conhecer a religião cristã”, diz Jean-François Mayer, professor de religião na Universidade de Fribourg, na Suíça.

        Enquanto isso, os muçulmanos somam 3% da população do continente, mas representam 9% dos europeus que efetivamente professam uma religião. Ainda assim, já se vêem sinais de que estão aderindo aos costumes locais. Na Alemanha, na Espanha e na França, entre 30% e 50% dos muçulmanos freqüentam as mesquitas, inseridos em um ambiente menos religioso que em seus países de origem.

        Muitas causas foram apresentadas para o esvaziamento das igrejas: secularismo, consumismo, opulência financeira, etc. Entretanto, uma razão mais do que todas poderia explicar por quê um crente abandona a igreja institucional e não a fé cristã: liberalismo teológico. Muitos pastores e padres europeus pregam uma mensagem humanista. Falam de política, economia, sociedade, questões internacionais, mas não expõem o ensino bíblico. Quando pregam um tema bíblico, muitas vezes esvaziam os conteúdos espirituais, doutrinários e teológicos que a Igreja sempre encontrou ali e os substituem por conceitos da psicologia, do evolucionismo, do racionalismo, etc. Para ouvir uma mensagem dessas só para dizer que foi à igreja, é melhor ficar em casa. Provavelmente o europeu já tenha percebido isso.

(Fonte: Revista Veja)

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