ALEMANHA        

 

Quando a Alemanha experimentará uma nova revolução religiosa? 

        

        Na Alemanha a fé na existência de Deus varia de acordo com a geografia, com o sexo e com a idade: 75% dos alemães ocidentais acreditam em Deus contra 30% dos alemães orientais; 70% das mulheres acreditam em Deus contra 58% dos homens; 60% das pessoas de 60 anos para cima acreditam em Deus contra 29% dos jovens de 14 a 28 anos.

        

        A situação é pior entre os alemães que moram no lado oriental do país porque eles viveram sob o regime comunista desde a partilha da Alemanha entre as potências vencedoras até a queda do muro de Berlim, em 1989. Todo cidadão alemão de 50 anos para baixo nasceu e cresceu num ambiente contrário à prática religiosa. Curiosamente quase todos os lugares históricos da Reforma estavam dentro dos limites da zona soviética.

 

        Dos 82 milhões de habitantes, pouco mais de 55 milhões de alemães pertencem a uma confissão cristã, o que significa que 33% não têm religião ou praticam outros credos.

 

        Os cristãos estão divididos em partes iguais: 27,4 milhões são evangélicos e 27,4 milhões são católicos romanos. Por ocasião da Paz de Augsburgo, em setembro de 1555, 80% da Alemanha era protestante.

 

        A maior religião não cristã da Alemanha é o islamismo, possivelmente com 3 milhões de adeptos, todos de origem estrangeira, principalmente turcos. Os judeus eram mais de meio milhão antes do genocídio nazista. Hoje são menos de 100 mil, a maior parte de Berlim, Munique e Frankfurt, muitos deles procedentes da antiga União Soviética.

 

        Enquanto, há menos de um século, o Brasil e quase todos os países da América Latina, da África e da Ásia eram campos missionários, e a Europa era de onde saíam os missionários, hoje está acontecendo o contrário. A igreja é muito mais viva e cresce muito mais em certos países da América, da África e da Ásia do que na Europa. E para o Velho Continente começam a ir missionários de países em desenvolvimento, para alegria de alguns alemães e europeus e para aborrecimento de muitos outros, como aquele professor alemão que ridicularizou em público a filha de um missionário brasileiro em Aachen, na fronteira da Alemanha com Bélgica e Holanda.

 

        Pastores estrangeiros que vivem na Alemanha ou passam por lá ficam chocados com a situação da igreja naquele país. A pastora brasileira Clair Cristina Mezinger declarou no jornal luterano Rothenburger Sonntagsblatt (Folha Dominical de Rothenburg): “Às vezes tenho a impressão de que as igrejas protestantes da Alemanha dependem somente da sua estrutura financeira estável, mas não da fé de seus membros”. O teólogo Frederik Shoo, da Tanzânia, se diz surpreso com os templos vazios da Alemanha: “No meu país milhares de crentes assistem a todo culto”. (Segundo a agência de notícia Idea, menos de 5% dos protestantes assistem aos cultos dominicais.)

 

        A situação da igreja católica alemã é muito incômoda para o Vaticano: segundo uma pesquisa do Instituto Forsa, de abril de 2000, 90% dos fiéis não consideram pecado a anticoncepção, 81% não aceitam a doutrina oficial do papa como a autoridade última, 85% questionam a infalibilidade papal e 77,8% são a favor da ordenação feminina. Em 20 anos, de 1979 a 1999, o número de ordenações sacerdotais caiu de 744 para 181 (um declínio de 75,7%).

 

        Tanto os protestantes como os católicos estão muito preocupados com a crescente secularização da Alemanha. Os protestantes criaram em dezembro do ano passado a Coalizão para a Evangelização, auspiciada pelo Comitê de Lausanne e sob a presidência de Ulrich Parzanay, secretário geral da Associação Cristã de Jovens da Alemanha e porta-voz do movimento missionário europeu Pró-Cristo. Pensando não só na Alemanha, mas em toda a Europa, os católicos lançaram, em maio do ano passado, em Viena, o ambicioso Congresso Internacional de Evangelização. Trata-se de um evento móvel, programado para Viena (já realizado), Paris (em 2004), Lisboa (2005) e Bruxelas (2006). Segundo o arcebispo Christoph Schönborn, da Áustria, “cada geração tem necessidade de um novo anúncio do evangelho”. Para ele, “a fé, ainda que transmitida dos pais para os filhos, não é produzida por esse ato, mas deve ser assumida”. Assim, “a conversão é uma passagem, um trânsito necessário para cada geração”.

 

        Em 1805, o missionário inglês Henry Martin, de 24 anos, formado em matemática em Cambridge, quando estava a caminho da Índia, aportou na Bahia por 15 dias. Aproveitou a oportunidade para conhecer Salvador. Ficou impressionado com a quantidade enorme de cruzes na cidade e registrou em seu diário: “Há cruzes em abundância, mas quando será levantada a doutrina da cruz?”

 

        Na Alemanha não há um monumento sequer em memória de Hitler, o que é absolutamente óbvio. Mas, apesar dos cinco séculos que separam o nascimento de Lutero dos dias de hoje, em várias cidades — como Berlim, Döbeln, Dresden, Eisenach, Eisleben, Erfurt, Görlitz, Magdeburgo, Prenzlau, Steinbach, Torgau, Wittenberg e Worms —, a memória do reformador é conservada por meio de belos monumentos. Coloca-se a palavra Lutherstadt antes de Wittenberg, Eisleben e outras cidades intimamente ligadas à vida do reformador. Lutherstadt Wittenberg, por exemplo, significa Cidade de Lutero Wittenberg.

 

        A pergunta de um Henry Martin moderno seria: “Há monumentos de Lutero em abundância, mas quando a Alemanha crerá outra vez e com o mesmo vigor na Sola Scriptura (só a Bíblia), Sola Gratia (só a graça de Deus) e Sola Fide (só a fé) e experimentará uma nova reforma religiosa?”

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