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Apesar de o papa João Paulo II ter mostrado uma deferência ao Brasil ao
canonizar a primeira santa brasileira, a Santa Paulina, e fazer três visitas ao
país, isso não impediu um declínio considerável no número de católicos no
país durante o papado de Karol Wojtyla. Além disso, não impediu o aumento no
índice de evangélicos pentecostais e de agnósticos.
Dados do censo de 1971 mostraram que 91,8% dos brasileiros na época se diziam
católicos. No mesmo período, o índice de evangélicos no Brasil era de apenas
5,2%.
No
censo seguinte, realizado em 1980, dois anos depois do início da gestão de João
Paulo II, o número de católicos seguia forte, com 89% se identificando como
seguidores da religião. A pesquisa já mostrava, no entanto, um avanço do número
de evangélicos.
O
censo revelou que os evangélicos de missão (como é identificada a tradição
protestante histórica, seguida por luteranos e metodistas, entre outros)
representavam 3,4%. Os evangélicos pentecostais atendiam por apenas 3,2%.
O
censo de 1991 mostrou a primeira queda expressiva no número de católicos:
83,3% se diziam seguidores. Os evangélicos de missão atendiam por 3%, sendo
superados pelos pentecostais, que representavam 6%.
No
mais recente censo, feito em 2000, o número de católicos já havia caído para
73,8%, e os evangélicos de missão representavam 5%, contra 10,6% de
pentecostais.
A
mesma pesquisa registrou um aumento do índice de pessoas que se identificam
como não tendo religão: 7,4%, contra 1,6% de 1981.
Culpa do papa?
A socióloga Silvia Fernandes, do
Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Socias (Ceris), diz não
ser possível condicionar o declínio do catolicismo com o suposto
conservadorismo da gestão de João Paulo II.
"Não podemos afirmar isso. O que pudemos ver em nossas pesquisas é que há
uma rejeição às questões morais defendidas pela Igreja, como sua condenação
a métodos anticoncepcionais e sua visão sobre o divórcio", afirma.
De
acordo com a socióloga, trata-se mais de uma "tendência de época que do
que de pontificado. Muitos buscam uma religiosidade mais fluida, sem o necessário
vínculo institucional".
Segundo Silvia Fernandes, o avanço do pentecostalismo praticado por instituições
como a Igreja Universal do Reino de Deus estaria ligado ao uso que esta faz da mídia
e suas técnicas arrojadas de comunicação e de recrutamento de fiéis.
"Pluralização"
De acordo com o professor Antônio
Flavio Pierucci, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo
(USP), a relação entre o declínio do catolicismo, o aumento do agnosticismo e
do pentecostalismo e o papado de João Paulo II não é uma "relação mecânica".
"Há um declínio das religiões majoritárias no mundo todo. Seja do hinduísmo
na Índia ou do luteranismo nos países luteranos. Há uma tendência mundial à
pluralização e as religiões majoritárias são as primeiras a sofrer",
afirma.
Mas,
diz Pierucci, "não há como dissociar esse fenômeno do pontificado de João
Paulo 2º". O sociólogo afirma que ao reprimir as facções de esquerda da
Igreja, o papa cometeu um erro de estratégia que se voltou contra o próprio
catolicismo no Brasil.
"Houve um período em que Dom Paulo Evaristo Arns (cardeal-arcebispo de São
Paulo, considerado progressista) vendeu o palácio arquiepiscopal da
Arquidiocese de São Paulo para comprar pequenos terrenos na periferia para
inserir o catolicismo. Era uma idéia muito parecida com a dos pentecostais, a
de criar galpões para pessoas se reunirem em pequenas comunidades", conta
o sociólogo.
De
acordo com Pierucci, o papa avaliou mal ao achar que criar comunidades de base
era necessariamente uma prática de esquerda. "Não era, era uma tentativa
de criar um acesso maior às lideranças", acredita o especialista.
No
entender do sociólogo, ao reprimir a esquerda na Igreja Católica, João Paulo
II fez com que figuras carismáticas e de destaque caíssem no ostracismo.
"Não se faz decaptação impunemente. Os bispos católicos sumiram da cena
brasileira. Ele pôs liderenças importantes em dioceses inexpressivas. Houve
uma desintelectualização do clero brasileiro. Surgiram líderes religiosos,
mas que não são figuras de importância na sociedade."