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Breve relato das experiências de um estudante brasileiro em Córdoba -Argentina.
Resolvi escrever este tópico, pois uma das coisas que me chamou bastante atenção é a relação que têm os Argentinos com a religião católica, e também a força que deteve e ainda detém a instituição Católica na Argentina.
A história do catolicismo tem algumas particularidades nos países hispano-americanos em relação ao Brasil. Justamente pela política adotada pelas duas coroas - espanhola e portuguesa - para a implementação do Catolicismo em ambas colônias (meu objetivo não é aprofundar estas questões). Porém, o que realmente se pode notar de imediato, é que mesmo proibindo outros cultos, até ser promulgada a liberdade de culto no Brasil, o catolicismo, de certa forma, ao longo dos anos, teve de conviver com estes outros cultos. Também por isto existe hoje o sincretismo religioso que vemos presente na realidade brasileira. Estes "outros cultos" resistiram, pois principalmente os negros, mas também as comunidades indígenas sobreviveram a anos de exploração. Diferente do que aconteceu na Argentina, onde a comunidade negra e indígena foi praticamente dizimada, restando somente os espanhóis descendentes, e mais tarde aos italianos imigrantes a construção do catolicismo na Argentina. Este catolicismo por sua vez sempre teve forte influencia sobre as decisões político-estatais, e ainda hoje possuiu grande poder decisório junto a algumas instituições de poder político.
Algo que também me despertou curiosidade é que até início do século XX todas as escolas da Argentina eram Católicas, e foi grande a briga comprada com a Igreja pelo então presidente Sarmiento 1868-1874 - o primeiro a criar instituições de ensino estatais na Argentina. Tanto é que ele teve de criar as instituições para as contrapor aos Colégios Católicos. Ele nem sequer tentou estatizar estes colégios, tamanho era o poder da Igreja. Depois disto, foi necessário mais meio século para as escolas estatais superarem as Católicas em número de estudantes. Ainda hoje, muitas famílias se recusam a colocar seus filhos para estudar em instituições de ensino que não as Católicas.
Outro dado que consta é que durante o regime militar praticamente não existiram por parte da Igreja contestações ao regime. Sempre que surgiam eram abafadas pelo próprio clero. Tal como foi o caso da Teologia da Libertação: quando começou a nascer foi rapidamente eliminada pela ala conservadora da instituição.
Acredito ser o conservadorismo a chave para explicar algumas nuances desta realidade. A sociedade argentina, depois da guerra de independência, atravessou ainda quarenta anos de disputas pela consolidação de um Estado nacional. Estes quarenta anos foram vividos sem um mínimo acordo entre as elites locais, sequer havia constituição. Não existia qualquer unidade política. O que havia eram diversos "terratenenientes", senhores de terras, ou coronéis (tal como conhecemos no Brasil), que lutavam entre si e com Buenos Ayres pelo controle político do país. Vários agentes sociais que neste momento ocupavam o que é hoje o território argentino, tiveram sua sorte posta à mercê do lançamento dos dados da política destes senhores de terras que disputavam pela consolidação e pelo controle do Estado argentino. Los gauchos, são um exemplo desta violenta realidade, pois até aquele momento eram, de certa maneira "homens livres". Sucedeu-lhes que foram praticamente aprisionados e mesmo depois da constiuição de 1852 não possuíam direitos civis. Eram caçados como cachorros e levados a frente de batalha sem armas, para servirem de mira às flechas dos indígenas.
Dentro deste quadro a instituição igreja católica se consolidava como uma grande fonte poder, principalmente intelectual, e se omitia de toda a violência que estava sendo empreendida para a consolidação do estado Argentino. O conservadorismo, vejo que apresenta-se quando pensamos que esta mesma igreja é a que estava a educar os filhos destes argentinos.