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Namorando numa ilha... Namorando numa ilha...

Romance inédito, original e autêntico!

A "praga" dos questionários se alastra cada vez mais! Há pouco tempo, me mandaram mais um, por e-mail; só respondi, porque a pessoa que mandou era muito "gente fina" e não quis desapontá-la; mas sinceramente, não curto muito esta coisa de questionário. Já basta a enorme lista de perguntas que a gente responde nas provas, trabalhos da escola, cursinho e faculdade. Parece que virou mania.

Não sou contra conhecer o outro, mas, geralmente, as perguntas enviadas não são nada originais e extremamente fúteis, envolvidas no mais alto nível de "besteirol". Além disso, volta e meia o mesmo questionário ressurge como Fênix, e o pior: enviado pela mesma pessoa, e com as mesmas perguntas."Tipo assim: você tem monstro no armário?" "Qual sabonete usa?" E por aí vai... e a coisa fica cada vez mais fútil e ridícula! Fala sério! (acho que desabafei, o nó preso na garganta não existe mais. Ufa! Obrigado!)

Contudo, de tudo isso é possível extrair alguma coisa. Algo como esta pergunta que me chamou a atenção: "Quem você levaria para uma ilha deserta?"

Olhando as respostas das pessoas que receberam o questionário antes de mim, quase todos levariam a namorada ou o namorado. É um sonho coletivo de longa data. Lembro que a galera já dizia isto na época do meu colegial, mas, na verdade, poucos realizaram esse sonho que, dependendo da maneira como foi realizado, tornou-se um pesadelo, você compreende?

Mas, pense comigo:mesmo que os namorados não se isolem numa ilha deserta, acabam, por vezes, se isolando, se fechando, criando uma ilha pela imaginação e pelas atitudes exclusivistas. O namorado que busca exclusivamente a namorada e se fecha neste relacionamento, não demora a cair inocentemente na polêmica afirmação de Sartre: "Os outros, são o inferno" e segue completando: "minha namorada é o céu". As amizades são cortadas e para esses, o amor torna-se mais forte à medida que dedicam atenção unicamente ao(à) namorado(a). Relacionamentos assim são marcados pelo ciúme; e este é tão grande que asfixia, poderia até ser simbolizado por uma mão gigante que aperta a garganta do outro, o que você acha?

Nem pai, nem mãe, nem irmão, nem primo, nem a melhor amiga de infância escapam. Qualquer manifestação de amor para com outra pessoa é considerada uma ameaça. Há quem diga que o ciúme é sempre doentio e é assim que acontece nesses "namoros-ilhas". Mas como diria o poeta inglês John Donne: "Homem algum é uma ilha" e, de fato nós dependemos uns dos outros.

São cada vez mais freqüentes os casos de namoros entre "meninas superpoderosas" e "meninos superpoderosos", entre "super-homens" e "mulheres-maravilha", que rejeitam outras personagens que poderiam enriquecer a relação. O amor que tenho pelo(a) meu(minha) parceiro(a) deve me fazer cada vez mais realizado(a), levando-me a repartir esse amor, de forma diferente é claro, com os outros. Como diz Erich Fromm:

"Se verdadeiramente amo alguém, então amo todos, amo o mundo, amo a vida. Se posso dizer a outrem 'Eu te amo', devo ser capaz de dizer: 'Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti'" (FROMM, Erich. A Arte de Amar. Belo Horizonte, Itatiaia, 1980, p.71)

Quem busca viver assim, consegue construir um romance inédito, original, autêntico; porque ultimamente os namoros estão sendo puro repeteco das tramas de novela e dos seriados de TV, principalmente no que se diz respeito às expressões de carinho e amor. Para ser sincero, nem mais se diz, respeito! Essa é uma palavra que anda sumida do vocabulário da galera. Acumulam-se relacionamentos epidérmicos, que valorizam somente as sensações, os "foguinhos" e os "gelinhos" na barriga, supervaloriza-se o erotismo, ou melhor, o pseudo-erotismo. Nesse tipo de relacionamento, qualquer desentendimento é o suficiente para ocasionar desilusões, frustrações e separações.

Chega o momento em que, de tão enfastiados pela busca do prazer pelo prazer, esquecemos que sem amor o sexo se esvazia. Talvez seja por isso que tantos autores têm falado de redimir o eros, reinventar o amor, resgatar o sentido do amor sexual.

"Mas uma idéia me ocorre que me parece mais acertada. A de que os jovens estejam, de forma inconsciente, fugindo do amor justamente porque podem ter o sexo. Explico melhor: o amor é uma emoção importante, o sexo também; mas só o amor somado ao sexo constitui a emoção fundamental do ser humano. Ora, nem todos os jovens têm um mesmo grau de amadurecimento. E nem todos se sentem prontos para chegar ao topo do seu universo emocional. Antes, todos podiam ter amor, e só os mais maduros- ou os mais inconscientes - se lançavam na completude amor/sexo. Agora, acontece exatamente o oposto; tendo o sexo, evitam somá-lo ao amor, adiando a sobrecarga emocional que não se sentem capazes de enfrentar." (COLASSANTI, Marina. E por falar em amor. Rio de Janeiro, Salamandra, 1984. p.301)

É preciso encontrar-se com o amor e não com qualquer caricatura de amor. O amor é necessário em nossas relações. A ausência de amor destrói, corrói o coração, já que ele não nasceu para bater sozinho. O amor constrói o outro como pessoa, mas é ingenuidade pensar que minha namorada vai crescer e amadurecer tanto quanto for necessário se relacionando exclusivamente comigo. O amor exclusivista é defeituoso porque exclui as outras tantas possibilidades de amor que minha namorada pode ter: amor dos amigos, amigas, família etc. Quando não se está seguro do sentimento, qualquer outra manifestação de amor é tida como ameaça.

Amor é complemento, é suplemento. O outro completa o que me falta e continua se dando, adicionando cada vez mais à minha vida a riqueza do amor e de suas conseqüências. O amor só é real, se amar o outro pelo que ele for, eu o amo justamente por ser diferente. Se eu o amasse somente nas semelhanças, isso seria qualquer outra coisa, menos amor. Quem não consegue amar o diferente é porque busca nos outros o seu próprio "EU", o seu reflexo narcisista! Quando não se vê no outro, despreza-o, ignora-o, anula-o. Muitos até medem o amor pelo grau de exclusividade que ele possui. Roberto Freire e Fausto Brito no livro "Utopia e paixão", falam que "é dos mais neuróticos e parasitários o amor que leva uma pessoa a achar a outra um pedaço de si mesma. (...) o amor não deve servir para coisa alguma, a não ser apenas para se amar". (FREIRE, Roberto e BRITO, Fausto. Utopia e paixão. Rio de Janeiro, Rocco, 1988. p.100)


Ame, simplesmente ame, e você verá que o amor é algo que aumenta na medida em que é repartido. Não tenha medo de dar amor, de ser amor para os outros.

Diego Fernandes
E-mail:
diego@cancaonova.com

Fonte:cancaonova.com

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