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A cera e o fogo
Um dos pontos mais indispensáveis para uma alma conseguir guardar perfeitamente a castidade é a fuga das ocasiões próximas de pecado. Já foi dito que “em matéria de castidade não há fortes nem fracos. Há prudentes ou imprudentes.”
Com o pecado original
ocorreu uma desordem nas paixões do homem, desordem esta que o
inclina constantemente ao mal e que, com o auxílio da graça, pode
ser domada, mas não extinta durante esta vida, sendo preciso estar
sempre alerta com relação a ela, não lhe dando qualquer
ocasião de nos dominar.
Ocasião próxima de
pecado é a pessoa, coisa, lugar ou circunstância que atiça as
paixões humanas, seduzindo a pessoa a pecar.
Em virtude da fraqueza
da natureza humana e da força de atração que o pecado exerce
sobre nós depois da culpa original, expor a própria alma a uma
ocasião perigosa, é praticamente como expor cera ao fogo.
Se pudesse pensar, de
nada a cera fugiria tanto quanto do fogo.
O fogo é de tal forma
nocivo à cera, e a cera de tal maneira fraca diante do fogo, que
basta que aquela fique próxima deste, ainda que este nem a toque,
para que ela seja derretida.
A natureza da cera não resiste ao calor do fogo. Derrete-se. É consumida. Evapora-se. Aniquila-se.
Para a pobre
"cera" --(que simbolicamente somos nós)-- não há outra
alternativa: ou foge do fogo ou nele acha o seu fim.
E se resolve não
fugir, à medida em que for se derretendo, o cruel fogo saberá
alimentar-se dela, tornando-se ainda mais forte, sempre à espreita
de uma nova "cera" imprudente para devorar...
Ora, tanto quanto a
cera diante do fogo, assim o homem é fraco, extremamente fraco,
diante das ocasiões de pecado, de modo que expor-se a elas
imprudentemente e, portanto, sem o auxílio da Graça, é sinônimo
de nelas cair.
E, de fato, segundo a
clássica doutrina dos moralistas, sob a égide de Santo Afonso de
Ligório, expor-se a uma ocasião próxima de pecado mortal, que se
poderia evitar, já é pecado mortal de imprudência.
Logo não há outra
alternativa para o homem: ou a fuga das más ocasiões, ou a morte
espiritual.
E justamente da podridão
das almas que assim vão tombando é que as más ocasiões ganham
mais e mais força, infestando a sociedade com uma imoralidade que
nada parece poder deter...
E assim a cristandade
vai derretendo-se, desintegrando-se, aniquilando-se. Como cera ao
fogo...
A reforma da
cristandade requer necessariamente que se restitua às almas o
horror pelas ocasiões próximas de pecado.
Não é possível
querer ser cristão e continuar brincando com a própria salvação
eterna, expondo-se aos sutis laços do inferno, que são as ocasiões
próximas de pecado.
“Pode alguém
caminhar sobre brasas sem queimar os próprios pés?” (Prov
VI,28).
Como já dizia um
velho e experiente diretor de almas: “Em fugir ou não fugir da
ocasião consiste o cair ou não cair no pecado” (Pe. Manuel
Bernardes, Sermões e Práticas, II).
E o mesmo autor faz
uma curiosa observação: “Nós somos muitas vezes os que
tentamos ao diabo. Por quê? Porque nós somos os que buscamos a
ocasião, os que chamamos por ela; e buscar a ocasião em vez de ela
nos buscar a nós é, em vez de o diabo nos tentar a nós, tentarmos
nós ao diabo” (Idem).
Nada auxilia tanto os
planos do demônio quanto as ocasiões de pecado. São estas como
que as emboscadas onde a toda hora aquela antiga serpente prepara o
bote...
Santo Afonso nos conta
que “constrangido pelos exorcismos, confessou certa vez o demônio
que, entre todos os sermões, o que mais detesta é aquele em que se
exortam os fiéis a fugirem das más ocasiões”. E o Santo
Doutor comenta que, “com efeito, o demônio se ri de todas as
promessas e propósitos que formule o pecador arrependido, se este não
evitar tais ocasiões” (Preparação para a morte, c. XXXI, p.
III).
Muitas pessoas, após
certo tempo de vida espiritual, imaginam-se já fortes o suficiente
para resistir a qualquer tentação, e lá vão elas permitindo-se já
certas liberdades... É o primeiro passo para o precipício.
“Aquele que julga
estar de pé, tome cuidado para não cair” (I Cor X, 12).
A este propósito,
Santo Afonso recorda “o que se conta de certa espécie de ursos
da Mauritânia, que vão à caça de macacos. Estes, ao verem o
inimigo, sobem para o alto das árvores. O urso estende-se, então,
junto ao tronco, fingindo-se morto, e quando os macacos, confiados,
descem ao solo, levanta-se, apanha-os e os devora. Tal é a astúcia
do demônio: persuade que as tentações estão mortas e quando os
homens condescendem com as ocasiões perigosas, apresenta-lhes de súbito
a tentação que os faz sucumbir. Quantas almas infelizes, que
praticavam a oração, que freqüentavam a Comunhão e que se podiam
chamar santas, deixaram-se prender nos tentáculos do inferno,
porque não evitaram as más ocasiões” (ob. cit., idem).
E confirma-o relatando
o fato de que “uma senhora virtuosa, no tempo da perseguição
aos cristãos, dedicava-se à piedosa obra de recolher e enterrar os
corpos dos Mártires. Entre eles encontrou um que ainda respirava.
Levou-o para casa, tratou-o e chegou a curá-lo. Aconteceu, porém,
que pela ocasião próxima, essas duas pessoas, que se podiam chamar
santas, perderam primeiramente a graça de Deus e, depois, até a Fé
cristã” (ob. cit., ibidem).
E diz ainda: “Em
matéria de prazeres sensuais, a ocasião é como uma venda posta
diante dos olhos e que não permite ver nem propósitos, nem instruções,
nem verdades eternas; numa palavra, cega o homem e o faz esquecer-se
de tudo. (...) Quem quiser salvar-se, precisa renunciar não somente
ao pecado, mas também às ocasiões de pecado, isto é, deve
afastar-se deste companheiro, daquela casa, de certas relações de
amizade...” (ob. cit., ibidem).
Dois foram os remédios
que Nosso Senhor nos recomendou explicitamente contra as tentações:
oração e vigilância. “Vigiai e orai, diz Ele, para não
cairdes em tentação” (Mt XXVI, 41). Esta vigilância
consiste precisamente na cautela em evitar as más ocasiões.
“A vigilância é
uma conseqüência da humilde desconfiança de nós mesmos e do
conhecimento dos perigos a que estamos expostos. Um homem prudente,
obrigado a seguir um caminho resvaladio, orlado de precipícios, não
avança às cegas; repara onde põe o pé. (...) Uma surpresa, uma
falta de atenção pode lançar-nos no fundo do abismo” (Pe.
Chaignon, S. J., Meditações Sacerdotais, vol. II, m. XXII).
Qualquer um que
entenda que “levamos este tesouro (da Graça) em vasos de
barro” (II Cor IV, 7), compreenderá o quanto precisamos nos
cercar de vigilância contra as ocasiões próximas de pecado.
E não será
zombar de Deus alguém rezar: “não nos deixeis cair em tentação”,
e depois ir por si mesmo expor-se ao perigo? Ora, “lançar-nos
por própria vontade num mar agitado, esperando que Deus, para nos
livrar da morte, o acalmará e nos estenderá a mão para nos trazer
ao porto do salvamento, é querermos que Ele anime a nossa
temeridade e recompense a nossa presunção” (Pe. Chaignon, S.
J., ob. cit.).
O ódio de Nosso
Senhor às más ocasiões e a radicalidade com que exige que delas
nos apartemos, Ele bem o expressou ao dizer:
“Se tua mão ou
teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti:
é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés
e duas mãos seres lançado no fogo eterno. Se teu olho te leva ao
pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares
na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo
da geena” (Mt XVIII, 8-9).
Evidentemente não se
trata de uma ordem para mutilar-nos, mas para ficarmos longe das
ocasiões próximas de pecado, tanto quanto possível.
Importa
distinguir, porém, entre as ocasiões próximas de pecado voluntárias
e as necessárias, entre as ocasiões próximas absolutas
e as relativas (Cf. Ad. Tanquerey, Brevior Synopsis
Theologiae Moralis et Pastoralis, n. 1170).
Uma ocasião próxima
de pecado é voluntária quando a pessoa tem como evitá-la,
e, mesmo assim, se expõem a ela, sem grave necessidade. Assim, por
exemplo, divertir-se assistindo a um programa imoral de televisão.
Evidentemente é essa categoria de más ocasiões que combatemos no
presente artigo.
Uma ocasião próxima
de pecado torna-se necessária quando a pessoa não tem como
evitá-la, ou existe uma razão grave para expor-se a ela. Assim,
por exemplo, o médico que para fins de exame ou tratamento precisa
ver suas pacientes despidas. Nesses casos cessa a obrigação grave
de evitar a ocasião próxima, restando o dever de cercar-se das
precauções que forem possíveis e fortificar a vontade mediante a
oração e demais recursos da vida espiritual.
E devem
considerar-se ocasiões próximas de pecado absolutas aquelas
que habitualmente atentam contra a fragilidade humana comum, que são
pedras de tropeço em si mesmas. Por exemplo, participar de danças
imorais. Como estas ocasiões são um laço para qualquer pessoa, o
dever grave de fugir delas subsiste para todos.
Por sua vez,
existem as ocasiões próximas de pecado relativas: aquelas
que não o são para o comum dos homens, mas apenas para o indivíduo
que, por alguma razão especial, encontra nela um perigo próximo de
pecado. Assim o entrar em um simples bar, algo indiferente para uma
pessoa normal, torna-se ocasião próxima de pecado para um alcoólatra.
O dever de evitar ocasiões como estas, existe apenas para aqueles
que prevêem que encontrariam nelas um risco próximo de ceder ao
mal.
Feitos esses
esclarecimentos, o que na prática cada um deve fazer é procurar
fugir de tudo que ele saiba ser ocasião próxima de pecado, tanto
quanto lhe seja possível.
Os próprios Santos
sempre fizeram da fuga das ocasiões de pecado um dos pilares de sua
vida espiritual. E levaram isso até o extremo. São Luís Gonzaga,
por exemplo, guardava o olhar ao ponto de nem saber a cor do teto
sob o qual habitava, nem reparar o rosto daqueles com quem convivia.
E por saber que não
apenas a santidade, mas a própria salvação eterna é impossível
sem a renúncia às más ocasiões, os Santos sempre lutaram
ardentemente para destruir essas pedras de tropeço no caminho
espiritual de seus irmãos. Por isso a guerra que São João Maria
Vianney abriu contra as danças em sua paróquia de Ars, ao ponto de
chegar a pagar a organizadores de bailes para que não realizassem
tais eventos. Por isso São Luís de Montfort comprava livros
imorais e os rasgava na frente de seus vendedores. Por isso São
Domingos Sávio tratou de destruir imediatamente as figuras
imodestas que encontrou com um colega. E inúmeros exemplos como
esses poderíamos citar.
Nas missões populares
então, missionários como São Luís de Montfort, Santo Afonso
Maria de Ligório, Santo Antônio Maria Claret, pregavam
ardentemente contra as más ocasiões, e a esses ardentes sermões
correspondiam, por exemplo, ardentes fogueiras de livros maus, por
parte do povo.
Veja-se o testemunho
do padre Mateus Testa, companheiro de Santo Afonso, a respeito das
missões por este conduzidas em Nápoles: “Já não se viram
irreverências nas igrejas; as mulheres renunciaram àqueles modos
de vestir que causavam a ruína dos fracos; as moças, que haviam
desaprendido o pudor, reencontraram o senso da modéstia; as
tabernas perderam a sua clientela; e, por toda parte, foi o fim,
nestas terras e vilarejos, de certas danças e divertimentos entre
homens e mulheres e, sobretudo, entre rapazes e moças. Cânticos
cristãos substituíram as canções licenciosas que essas
senhoritas tinham nos lábios...” (Th. Rey-Mermet, Afonso de
Ligório, Ed. Santuário, 1984).
Nos confessionários,
a doutrina clássica e unânime entre os moralistas, encabeçados
por Santo Afonso, sempre ensinou que o confessor não pode absolver
jamais uma pessoa que não esteja plenamente decidida a romper com
todas as ocasiões próximas de pecado mortal que possa evitar.
Lástima incomparável,
porém, é que nestes nossos tempos os pastores das almas, adeptos
de uma “Nova Evangelização” que já não convertem ninguém,
tenham abandonado a luta contra as ocasiões de pecado.
Quem ainda prega
contra as modas indecentes ou contra os banhos públicos nas praias
e piscinas?
Quem ataca a televisão,
orientando as famílias a não darem abrigo a essa corruptora eletrônica
em seus lares?
Quantas vozes ainda
condenam os bailes, discotecas, rodeios, etc, lugares onde
simplesmente se respira imoralidade, como todos sabem?
Quem ainda ensina os
jovens que no namoro e noivado, não apenas as relações sexuais,
mas também o beijo na boca e os abraços indiscretos são pecado
mortal? Quem lhes ensina que é dever dos namorados e noivos evitar
as ocasiões propícias à fornicação?
E não só as ocasiões
de pecado não são mais combatidas, como nas próprias paróquias,
hoje, se proporcionam novas ocasiões más, através de certas
festas, “cristotecas”, certos encontros de jovens...
Quem, no entanto,
proporciona uma ocasião próxima de pecado às almas, lembre-se bem
de que terá de responder, no último dia, por todos os pecados que
tiverem decorrido dessa má ocasião.
E como exemplo do quanto o Céu detesta as más ocasiões, citemos aqui o caso referido por Santo Afonso em um de seus mais conhecidos livros: “No ano de 1611, no célebre santuário de Maria em Monte-Virgem, aconteceu que, na vigília de Pentecostes, tendo a multidão que aí concorrera profanado a festa com bailes, desregramentos e imodéstia, se ateou de repente um incêndio na casa de tábuas em que estavam os romeiros, e em menos de hora e meia reduziu-a a cinzas, morrendo mais de 400 pessoas. Só sobreviveram cinco que depuseram, com juramento, terem visto a Mãe de Deus com duas tochas acesas pondo fogo no edifício” (Glórias de Maria, trat. IV, n.V).
A virtude da castidade
não admite o que os moralistas chamam de “parvitas materiae”,
ou seja, não há matéria leve contra a castidade: todo pecado
contra ela, mesmo os pensamentos e olhares, se consentidos
deliberadamente, são pecados mortais. Entenda-se isso, e se
entenderá a necessidade e obrigação grave de se fugir de toda
ocasião de sensualidade, como são as músicas e danças
provocantes, as festas mundanas, as más companhias, os livros maus,
os espetáculos onde hajam cenas impudicas, etc.
São Filipe Néri já
dizia: “Na luta pela pureza, vence quem foge”.
" O sagaz
vê o perigo e se esconde, o incauto segue em frente e paga por
isso” (Prov XXVII, 12).
Foge, pois, meu irmão,
“foge do pecado como de uma serpente, porque, se te
aproximares, morder-te-á; seus dentes são dentes de leões que aos
homens tiram a vida” (Eclo XXI, 2).
“Fuja, e quão
longe puder, fuja (...). Fuja como de ar pestilento, corte-lhe o
passo como a incêndio; creia que a fragilidade humana, e a astúcia
diabólica, é maior do que ponderação alguma pode declarar”
(Pe. Manuel Bernardes).
Fuja, porque “quem
ama o perigo, nele perecerá” (Eclo III, 27).
Como cera ao fogo.
Miguel
Maria Claret |
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