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| Ciborgue:
o implante que fiscaliza o estoque é o mesmo que
controla quem bebe mais numa noitada |
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| Consumo |
| Vigilância
em rede |
Nas prateleiras, nas
baladas ou nos carros,
as etiquetas inteligentes revelam segredos
dos clientes e evitam as fraudes |
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| Mariana
Barros |
Barcelona, na Espanha, sempre
foi a metrópole das novidades. Dessa vez, uma de suas casas
noturnas, a Baja Beach Club, criou um sistema ousado para
acabar com a dor de cabeça de quem costuma perder o cartão
de consumo do bar depois de tomar a segunda dose. Para entrar
na boate, cada cliente recebe um implante de chip, inserido na
pele com uma seringa. Do tamanho de um grão de arroz, o
microprocessador Verichip emite sinais de rádio e tem um código
único, como se fosse um RG. Em troca de trânsito livre a
informações valiosas, como suas preferências e movimentação
financeira, o consumidor pode entrar e sair da balada,
consumir à vontade e acessar as áreas vip. De quebra, não
enfrenta mais filas no caixa. Basta passar diante de um
leitor, que ele calcula sua conta. Ganha-se praticidade,
perde-se privacidade.
Chamada de RFID, abreviação
em inglês para identificação via radiofrequência,
a tecnologia instiga a imaginação dos comerciantes e provoca
arrepios nos defensores dos direitos civis. A emissão
constante do sinal de rádio permite
saber, a qualquer momento, onde está a pessoa “chipada”.
Esse monitora-
mento em tempo real é a febre na indústria da segurança e
uma arma contra sequestros. E será usado pela fábrica de
armas FN Manufacturing para controlar
o uso de seu arsenal. Implantado sob a pele da mão do
policial, o chip emitirá
ondas capazes de desbloquear o gatilho da arma. Nas mãos de
bandidos e crianças, ela não funcionaria.
Por oferecer grau elevado de
controle e fiscalização, as etiquetas inteligentes devem
estampar quase tudo, desde roupas, carro e tevê até
embalagem de xampu. Por enquanto, a superetiqueta está
restrita ao controle de estoque, onde evita erros na contagem
e desvio de mercadorias. Dentro de 20 anos, ela ganhará as
prateleiras. Será o fim das filas no caixa do supermercado.
Quando atravessar um portal, tudo o que estiver no carrinho
será computado, sem que se remova um único produto. Por fim,
o valor será debitado na conta corrente do cliente.
Monitoramento –
Informações como data de validade, local de fabricação e
garantia estarão contidas no chip estampado na embalagem do
produto. Será possível até monitorar epidemias como o mal
da vaca louca ou a gripe do frango. Mercadorias vindas de
local sob risco de contaminação serão isoladas facilmente.
A tecnologia RFID deve substituir o código de barras, padrão
mundial usado para identificar mercadorias. Há duas razões
que justificam essa migração. A primeira é que, com um
leitor que capta ondas a distância, evita-se o manuseio do
produto. A segunda é que um chip de radiofrequência tem 96
campos para se preencher com letras, números e símbolos. No
código de barras há apenas 14 disponíveis. Mais campos
significam mais combinações para identificar cada produto.
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| Promessa:
no supermercado, o substituto do código de barras
vaieliminar as filas no caixa |
O primeiro projeto para
utilizar RFID em mercadorias foi da grife italiana Benetton. O
chip seria aplicado a algumas roupas e conteria instruções
para lavar e passar as peças. Mas pressões jurídicas
levaram ao cancelamento do projeto. Temia-se que o consumidor
fosse monitorado por empresas interessadas em lucrar com
acesso a seus hábitos de consumo. Hoje a pressão pelo uso do
RFID vem da rede de supermercados americana Wal-Mart, que
limitou até janeiro o prazo para seus fornecedores de Dallas,
no Texas, entregarem produtos etiquetados com RFID. Depois,
será a vez dos EUA como um todo. A última fase será o
carimbo das etiquetas em todos os produtos. Com mais de 3,5
mil lojas nos EUA, o Wal-Mart compra US$ 178 bilhões em
mercadorias por ano. Um bom motivo para os fornecedores
correrem atrás da implantação do sistema.
Pirataria –
“Cerca de 70 companhias brasileiras fornecem para o Wal-Mart
nos EUA. O RFID virou pauta nacional”, explica Eduardo
Santos, da consultoria Accenture. A implantação foi abraçada
pela concorrência, que não quer ficar para trás.
“Competimos com empresas estrangeiras, precisamos estar
preparados”, diz Sílvio Laban, diretor de tecnologia do
Grupo Pão de Açúcar. A empresa é a única brasileira com
cadeira cativa no grupo de discussão sobre RFID do Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT). No segundo semestre, ela
implantará o primeiro projeto piloto do Hemisfério Sul.
Grifes como a francesa Louis
Vuitton mostram interesse pela etiqueta inteligente por seu
potencial em combater a pirataria. O chip comprovaria a
legitimidade do produto, evitando falsificações. Com a mesma
preocupação, a butique Daslu anunciou que vai testar o
sistema a partir de 2005, em sua nova loja. Conglomerados como
a Procter & Gamble estudam o uso do RFID no combate a
furtos, que causam prejuízo de US$ 50 bilhões ao ano. A única
fábrica no Brasil adepta do chip é a Daimler-Chrysler. Seus
Mercedes-Benz Classe A produzidos aqui já têm etiqueta
inteligente. “O chip fica sobre a roda dianteira direita”,
conta Vladimir Wuerges de Souza, supervisor de tecnologia.
“Ali fica armazenado um código que informa a cor do carro,
o tipo de estofamento, a situação do combustível e dos
fluidos.”
A limitação do alcance das
ondas é o principal entrave das superetiquetas e, portanto, o
maior aliado contra a invasão de privacidade. O mercado de
serviços
para o RFID movimenta US$ 1 bilhão. Espera-se que em 2008 ele
renda US$ 3,2 bilhões, uma amostra do fôlego da tecnologia
que, em breve, entrará em todas as casas. Ou, quem sabe,
dentro de nós.
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