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Falsos
caminhos para Deus
Ao
longo da história, a humanidade tem procurado relacionar-se com Deus.
E este, por sua vez, tem tido sempre o cuidado de se comunicar com os
seres humanos. As religiões são caminhos dos homens a Deus e dele
aos homens. Todas conservam, em seu interior, as belezas da revelação
divina, além das experiências religiosas de seus profetas, líderes,
fundadores e fiéis.
Se só existisse essa face positiva e nobre das religiões, o diálogo
entre elas e a percepção de seu papel na salvação seriam
evidentes. Muitos de seus fundadores, entretanto - ministros
credenciados, sacerdotes, pajés, gurus, mestres e outros funcionários
-, têm percepções limitadas de Deus e cedem aos desejos e
imperativos contrários à grandeza e pureza divinas.
Sem considerar os níveis mais graves de degradação, em todas as
religiões infiltram-se atitudes humanas menos condizentes com a sua
natureza.
Refletir sobre Deus exige, logo de início, purificar os caminhos que
nos conduzem a ele. No decorrer da história da relação com Deus, os
seres humanos criaram uma série muito grande de atitudes e práticas
espirituais, uma santas e conformes à dignidade divina, outras falsas
e ofensivas a ela. Toda revelando o grau de compreensão ou
incompreensão que se tem de Deus. Só alcançando sua raiz teológica
é que se consegue distinguir e separar o joio do trigo.
Vejamos, a seguir, as posturas e práticas, em desacordo coma
santidade de Deus, mais comuns na história religiosa da humanidade:
magia, astrologia, superstição e neopaganismo.
O termo magia vem da palavra mago, de origem persa. O Evangelho do
nascimento menciona os magos que vieram do Oriente para adorar o
Menino Jesus (cf. Mt 2,1-12). Eles eram pessoas dotadas de qualidades
que, hoje, chamaríamos de parapsicologia ou paranormalidade. Os magos
praticavam o culto solar, a adivinhação, a astrologia e a interpretação
dos sonhos, além de, em alguns países, assegurar o monopólio
sacerdotal. Como se vê, o termo já vem carregado de religiosidade e
de práticas, as mais diversas, envoltas em mistério, na relação
com o mundo divino.
A magia é uma das práticas religiosas mais antigas da história das
religiões e persiste até hoje, explícita ou camuflada, mesmo na
religião cristã. Baseia-se na convicção de que a natureza,
determinados objetos e certos ritos têm forças espirituais e
divinas, que podem ser captadas e direcionadas para o bem (magia
branca) ou para o mal (magia negra). Ela revela um movimento primitivo
da criatura na busca da vida religiosa. Deus, o mundo divino e os
santos estão aí, com suas forças disponíveis. A magia consiste em
manipular essas forças, ora por astúcia, ora por habilidade, em
benefício ou malefício das pessoas.
É inegável, nos grupos humanos, o poder das pessoas que manejam as
forças espirituais. Mesmo que isso pareça de extremo primitivismo
religioso e, por conseguinte, distante da consciência moderna, é
espantoso verificar como até pessoas cultas recorrem ao uso de práticas
mágicas em situações e decisões importantes da vida. Hegel, filósofo
alemão, dizia que a magia se encontra em todos os povos e tempos.
O comportamento mágico- religioso é espontâneo. Por isso, sem
aprofundar a concepção de Deus e a relação pessoal com ele, é fácil
assumir certas práticas de caráter mágico da vida religiosa comum.
Para cortar pela raiz a tentação da magia, é preciso cultivar a
compreensão de Deus como pai bondoso e cheio de misericórdia, que só
quer o nosso bem. Não existem forças espirituais ou divinas que
sejam neutras e, pois, disponíveis para manipulação na direção do
bem e do mal das pessoas. Existe um Deus que criou o cosmos e suas
leis, que visam, em primeiro lugar, ao bem de todos, mas que podem,
algumas vezes, causar malefícios.
O movimento dos mares, os fenômenos atmosféricos e a lei da
gravidade, por exemplo, existem como um conjunto que tornou possível
a vida humana. Sem uma inteligência e amor infinito, não se entende
como milhões de fatores de associaram para que a vida humana surgisse
e se desenvolvesse. De nossa parte, não é preciso manipular
magicamente nenhum desses elementos para nosso bem e, eventualmente,
para o mal de algum inimigo. Eles foram criados e continuam sendo
sustentados por Deus para a vida.
Cai, assim, o pressuposto fundamental da magia, que desconhece um Deus
pai de bondade e imagina que as energias espirituais e divinas são
ambivalentes. Ora, se elas não realizam sempre nosso bem, é pela
limitação inerente ao fato se sermos criaturas imperfeitas e essa
barreira nenhuma prática mágica conseguirá romper.
Além do mais, a magia expressa certas tendências, desejos e sonhos
pretensiosos do ser humano. Este, porque foi criado por e para Deus,
tem em si a marca divina. Em vez de reconhecê-la como fonte de sua
dignidade e em espírito de gratidão, é tentado a prevalecer-se dela
e igualar-se ao Criador. O autor sagrado via aí a tentação
primordial. "Vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem
e do mal" (Gn 3,5). Neste simbolismo, aparece a pretensão do ser
humano de dominar o mundo divino com suas artimanhas. O oposto à
magia é a adoração, a contemplação gratuita de Deus na certeza de
ser amor infinito, sem precisar, de modo algum, atrair as forças
divinas, muito menos de maneira ardilosa.
Embora mais sofisticada, a astrologia pode revelar a mesma mentalidade
mágica. Por meio dos horóscopos, ela se tornou alimento diário de
milhões de nossos contemporâneos. Ainda que ocorra numa sociedade
científica secularizada e sem menção direta e explícita a Deus, o
fenômeno remonta à categoria do religioso. O horóscopo associa o
nascimento da pessoa ao céu de sua conjuntura astral para assim
conhecer e determinar fatores eventuais da vida, sobretudo nos campos
da afetividade, saúde, dinheiro, poder e empreendimentos, entre
outros.
A astrologia não participa do aspecto mágico de querer manipular as
forças celestes em benefício ou malefício de alguém, numa
verdadeira negociação com o céu, mas pretende conhecer e levar em
consideração as advertências dos astros para defender-se de um
destino já traçado.
Independentemente de suas previsões bastante genéricas e fluidas - a
ponto de as pessoas interpretarem como mensagens pessoais o que não
passa de projeção de seus desejos -, recorrer a horóscopos reflete
uma atitude religiosa de submissão ao poder "sagrado" dos
astros.
À luz da compreensão de Deus Pai, essa atitude é ambígua. Aceitar
que os astros, em suas diferentes conjunturas, possam influir sobre
nosso psiquismo não reflete um comportamento religioso. Sabe-se que
as fases da Lua influenciam no crescimento do cabelo e comportamento
dos animais. Esse fenômeno deve ser tratado, estudado e controlado
pela ciência. Para sair do campo mágico, é necessário um mínimo
de experimentação científica. Por outro lado, há pessoas dotadas
de qualidades sensitivas, que captam intuitivamente, mesmo que não
consigam demonstrá-la em termos científicos, efeitos das conjunturas
astrais mas pessoas. Estamos, de novo, no campo das experiências
humanas psicossomáticas.
Contraria radicalmente a concepção e o proceder de Deus Pai,
revelados na tradição bíblica, acreditar que nosso destino humano
na história e, mais grave ainda, ma salvação, esteja inscrito de
antemão no movimento dos astros. A essência da revelação bíblica
é o diálogo de liberdades - a de Deus e a do ser humano. Só nesse
jogo livre cabem as realidades fundamentais de nossa existência: graça,
responsabilidade ética, pecado e conversão.
A superstição é muito popular porque responde a dimensões do viver
humano em toda a sua ambigüidade. De fato, tanto no nível científico
como rotineiro, observamos os fenômenos que nos cercam com uma
interrogação persistente, para encontrar a conexão entre causa e
efeito.
A ciência descobre e estabelece leis, princípios e teses, que
vigoram até ser inválidos e substituídos por outros. Conhecemos,
dessa forma, os sistemas ptolomaico, newtoniano, einsteiniano e assim
por diante. Idêntico proceder ocorre no dia-a-dia, e as pessoas vão
formulando suas associações, ora sem nenhum fundamento objetivo e
simplesmente por casualidade, ora com alguma base objetiva, ainda que
não científica. A superstição se ancora nessa experiência humana.
Vamos imaginar, por exemplo, que, por pura coincidência, em várias
sextas-feiras 13, aconteceram infortúnios. Desconfia-se, então, que
esse dia é de mau agouro. E toda vez que, de fato, acontecer algo
ruim nessa data, a suspeita de confirma. Depois, entende-se a
desconfiança para o número 13. Quando o procedimento atinge o nível
religioso de destino ou fatalidade, já estamos no campo da superstição.
Logo surgirão os antídotos espirituais. E, assim, se forma o círculo
supersticioso.
A superstição também pode nascer de um fato em que houve em nexo
objetivo. Suponhamos uma situação de guerra, em que o inimigo esteja
escondido e camuflado a certa distância. Alguém acende três
cigarros com o mesmo palito de fósforo, denunciando sua presença ao
inimigo. Em seguida, é atingido por uma granada. Conclusão: acender
três cigarros com um só palito de fósforo traz mau agouro.
Esquece-se a experiência de origem e brota a superstição.
Na análise à luz de Deus Pai, encontramos, de novo, a imagem
deturpada da sabedoria e bondade divinas. A superstição se aproxima
da concepção mágica de que forças físicas e espirituais estão
direcionadas - de maneira determinista e à revelia do próprio Deus -
contra a vida humana, e, para nos defender precisamos conhecê-las e
nos prevenir contra elas.
O melhor remédio para essa deficiência religiosa é crer no Deus
criador e salvador, que quer, de fato, exclusivamente nosso bem. Mesmo
nos infortúnios, ele está ao nosso lado. Esta é a mais
reconfortante certeza.
O neopaganismo é um fenômeno novo que se estende cada vez mais neste
fim de milênio e sobre o qual convém refletir. Não se trata aqui do
sentido bíblico-cristão de paganismo, que indica todos os povos que
não fazem parte da aliança judaica (Antigo Testamento) ou que não
foram alcançados pela pregação cristã (Novo Testamento). Numa
palavra, todos os povos que não pertencem a nenhuma das três religiões
monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo.
O paganismo surge como uma religião pós-cristã, praticada por
antigos batizados no cristianismo, mas que defendem valores religiosos
em contraste com a Revelação bíblica, remontando às religiões pagãs
da Antigüidade ou a outras formas atuais não tocadas pelo
cristianismo. O surto neopagão só se entende no presente contexto
por suas aspirações religiosas, em contraste com as opções históricas
do cristianismo. Há um cansaço da ideologia capitalista de consumo,
que transformou o ser humano num ser de necessidade, cuja realização
se encontra no jogo de produtividade máxima, para usufruir, também
intensamente, dos bens materiais. Produziu-se uma degradação do
desejo humano, transformado em necessidade de possuir ou aproveitar
dos produtos do sistema. Nessa âmbito, se entende o fenômeno neopagão.
Cansadas de tanto materialismo, as pessoas vão em busca de manifestações
espirituais.
O neopaganismo reage negativamente à ação histórica do
cristianismo, julgando que este destruiu as raízes mais profundas das
culturas dos povos primitivos, fazendo-os perder sua inocência, e
impondo a religião única e uma só moral. Que, pelo seu
igualitarismo, destruiu energias e o gosto da vida. Estabeleceu rígido
corte entre Deus e o mundo, introduzindo um dualismo pernicioso. E
defende o retorno às formas religiosas anteriores à presença cristã
no Ocidente: tolerância religiosa, diversidade de caminhos religiosos
e morais e pluralidade de deuses.
O movimento neopagão vem ao encontro do desejo religioso presente,
que se exprime na busca de uma religião que seja consolo, prazer,
realização de si e desenvolvimento das potencialidades humanas,
especialmente pela expansão da consciência. O neopaganismo crê que
assim se corrigem as deformações causadas pela tradição
judaico-cristã.
No contexto europeu, esse movimento ressuscita formas religiosas
indo-européias. Na realidade latino-americana, motiva o aparecimento
de novas expressões religiosas sincréticas, que se inspiram em ritos
sagrados xamânicos, indígenas e africanos. No íntimo, respondem aos
anseios e desejos de uma religião que seja mais sentimento experiência
e liturgia do que fé, doutrina e moral.
Mais sutis ainda são as inúmeras formas neopagãs secularizadas. O
aspecto cultural e sagrado de disfarça sob as mais diversas expressões,
algumas moderadas, outras beirando a exaltação. No centro, está a
aspiração fundamental à harmonia consigo, com a natureza e com os
outros. Ora se desenvolve um cultivo esmerado do corpo e espírito,
com técnicas físicas e psicoespirituais, hidromassagens e meditação
transcendental e exercícios de respiração e expansão da consciência.
Ora as pessoas se entregam a exaltações ecológicas, com celebrações
da natureza revestida de qualidades divinas. Em todos esse casos, o
transcendente perde a identidade própria para dilui-se na criatura,
sacralizando-a, de modo camuflado ou ostensivo.
Provavelmente, é a corrente religiosa mais insubmissa e difícil de
responder do ponto de vista de Deus. Ela se contrapõe, precisamente,
ao judaísmo e ao cristianismo, que vê como malfeitores da cultura
ocidental. Deus, que cria, transcende infinitamente o mundo e é mistério
absoluto, está sob terrível suspeita. O neopaganismo se coloca na
margem oposta ao monismo, enquanto o Deus de Israel, de Jesus Cristo e
da Trindade não se deixa diluir em nenhuma criatura.
A reflexão mais profunda, tanto da criação como do chamado de Deus
Pai a todas as pessoas para uma comunhão de amor com ele, pode
oferecer, no entanto, nova compreensão da radical dualidade - Deus e
criatura -, sem cair no dualismo, que o neopaganismo combate com
justeza.
À medida que vamos excluindo os caminhos impenetráveis para nos
acercar de Deus, adquirimos também melhor entendimento do mistério
infinito. Sempre continuará válida a afirmação de Paulo de que
"agora vemos como em espelho e de maneira confusa". E só na
vida eterna "veremos face a face. Agora o meu conhecimento é
limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido" (1Cor 13,12).
A pretensão de possuir o divino e identificar-se com ele na vida
presente revela um desejo profundo do ser humano. No entanto, na
Terra, a experiência de Deus será sempre mediada por criaturas,
enquanto nos está reservado um encontro definitivo com ele na
transparência da vida eterna.

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