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As
Seitas Evangélicas e as Superstições
O
Brasil é um país supersticioso. Na Bahia há um dito popular que
exemplifica isso de forma jocosa e muito bem humorada: “80% são católicos,
15% são protestantes, 5% pertencem a outras religiões e 100% vestem
branco às sextas-feiras”. A superstição está tão engendrada em
nossa sociedade que chega a independer do nível sócio-econômico ou
cultural, ou seja, infelizmente a superstição está para o
brasileiro como o azul para o céu. Entretanto, há quem se aproveite
do espírito supersticioso do brasileiro de forma torpe e irresponsável,
em questão, diversas seitas evangélicas.
Todos nós já escutamos nos meios de comunicação chamadas como:
“Dia do descarrego”; “Meia-noite da libertação”; “Noite da
quebra de feitiços”, “Dia do óleo santo de Israel”;
“Corrente dos empresários”; “Culto da sexta-feira 13”. E
alguns mais hilários como: “sexta-feira forte, desencapetamento
total” ou “venha receber seu shampoo sagrado”. Este último, por
sinal, quem vos escreve teve oportunidade de escutar. Não raro, em
programas de rádio ou TV dessas seitas, os “pastores” que
apresentam tais programas, quando perguntados por ouvintes sobre as
razões de seus infortúnios, respondem sem pestanejar: “Foi um
feitiço, um trabalho, uma maldição que jogaram em você! Compareça
a nossa igreja...”. Termos como “descarrego” sempre estiveram
tradicionalmente relacionados ao fetichismo e à magia, temas que
sempre foram objeto de repúdio por parte do cristianismo.
Da mesma forma, a comercialização de objetos ditos sagrados nos
recorda da tão comum venda de relíquias por parte da Igreja da idade
média. Prática essa que foi um dos estopins da reforma protestante
(origem dessas seitas), que obrigou a Igreja a abandonar sabiamente
essas práticas. Entretanto, há de se recordar que quando falamos em
relíquias, falamos de um mundo 500 anos atrás, em que a renascença
ainda não havia impregnado a humanidade com seus frutos e a ciência
moderna inexistia. Qual seria então a justificativa para a venda de
falsos objetos sagrados e da utilização de elementos da superstição
popular por parte de seitas evangélicas em pleno século XXI? As
respostas são várias, mas orbitam em torno de uma única motivação:
dinheiro. Soma-se ainda uma tática covarde: a submissão da consciência
dos fiéis a uma ótica atávica. Ou seja, ao invés de libertar
mentes de crenças ancestrais que subjugam a verdadeira
espiritualidade libertária do cristianismo, essas seitas perpetuam e
disseminam a crença em supertições e fetiches, além de escravizar
inexoravelmente seus membros a uma permanente relativização de sua
relação com Deus.
Essa verdadeira escravização de mentes, é em parte responsável
pelo esplêndido crescimento dessas seitas. Não há uma explícita
negação daquilo que pode ser classificado como crendice popular e
superstição. O fiel não precisa rever seus conceitos motivado por
uma doutrina que o conduza a uma reflexão acerca de suas crenças
anteriores, simplesmente não é preciso abandonar nada, não é
preciso modificar sua ótica em relação ao que recebeu como herança
do seu folclore e cultura. O fiel é conduzido a permanecer na ignorância,
a mesma ignorância que escraviza, ao passo que justifica para esse
mesmo fiel que basta ter fé para salvar-se, ou seja, um caminho
religioso pavimentado por aparentes facilidades. O fiel permanece
arraigado a superstições, e é estimulado diuturnamente pela seita a
continuar nessa mesma situação de voluntária escravidão. Afinal,
permanecer dentro da seita é a garantia de “corpo fechado”, de
proteção.
O “pastor”, por sua vez, ocupa uma posição bastante similar a de
um curandeiro, dententor de uma "magia boa”, antídoto que
protege o fiel de toda uma miríade de riscos espirituais aos quais o
mesmo está exposto fora da seita. E a seita ocupa grande parte de sua
pregação em solidificar esses conceitos em seus fiéis. Por mais
absurdo que pareça, a observação comporva essa relação de sujeição
dos fiéis motivada pelo medo e ignorância, da mesma forma que atesta
o comportamento vicioso dos pretensos pastores, o que os coloca no
mesmo calibre dos curandeiros que dizem combater. Em geral, com os fiéis
incentivados a relacionar sua fé cristã a fetichismos e crendices, não
ocorre uma verdadeira conversão, não há um momento de íntima
descoberta e encontro com o Cristo. Muito embora o slogan “encontrei
Jesus” seja o mais repetido pelos adeptos de tais seitas, Jesus
nesse contexto é tão somente um elemento a mais nesse processo de
aprisionamento, e não o motor de uma grande mudança de vida. A
mensagem cristã que lhes chega é bastante distante da real, não
importa QUEM é Jesus, mas o que Ele pode proporcionar.
Sob esse aspecto, inclusive, cabe fazer uma censura peremptória àqueles
que se identificam como católicos e apegam-se a sincretismos,
comportando-se da mesma maneira que os fiéis evangélicos que
mencionamos. O sincretismo é um elemento estranho à fé católica, e
o pretenso católico que o pratica está em grave estado de pecado. Não
se pode ser católico e espíritista ou fetichista ao mesmo tempo, não
se pode servir a dois senhores. Entretanto, cabe lembrar, que ao contrário
das seitas que aqui abordamos, a Igreja Católica condena e reprova de
todas as formas de pensamento e manifestação supersticiosa. Fé católica
e crendice são elementos amplamente dissociados, e não há espaço
para contemporizações a esse respeito. Ao recorrer a símbolos de
magia, a seitas evangélicas contribuem para a solidificação de
princípios amplamente contrários a fé cristã. E para maioria das
pessoas que integram tais seitas, uma sessão de “descarrego” ou
ir ao templo à meia-noite de uma sexta-feira 13 é algo que faz parte
da fé cristã. Idéia que contraria frontalmente os fundamentos do
cristianismo, que em sua origem e doutrina , é completamente avesso
à crendice e ao fetichismo; a qualquer forma de relativização do
poder de Deus. Se nem mesmo uma flor nasce sem a permissão do altíssimo,
é absurdo imaginar então que mal-olhado é suficiente para lançar a
vida de qualquer pessoa à falência, mas é isso que a seita ensina,
mesmo que a biblia, a tradição e a patrística cristã afirme o
contrário. Dessa forma, a seita envangélica distancia-se de tal
forma da fé cristã, que em relação a ela guarda pouca ou nenhuma
consonância.
Ao conduzir o fiel a acreditar que as práticas da seita de “proteção”
contra maldições é suficiente garantia de sua paz e integridade, o
fiel é na verdade conduzido a colocar Deus como mero coadjuvante do
poder da seita, ou seja, Deus apenas não seria suficiente à sua
necessidade de proteção. Uma prova bastante nítida desse processo
de alienação religiosa, é a forma pródiga como essas seitas
exploram pseudo exorcismos e testemunhos de fiéis que livraram-se de
"feitiços, trabalhos e maldições" através da seita. Para
o fiel, Deus, sem a seita "não surte efeito". Em resumo,
para essas seitas e seus pobres e enganados fiéis, sem as correntes,
sem a falsa água do rio Jordão, sem o óleo de Israel fabricado no
porão, sem os descarregos teatrais, e para não deixar de citar, sem
o “fantástico” shampoo sagrado, o cristianismo não acontece.
Entretanto, se tudo isso é necessário, ele não acontecerá jamais.
Autor: Elbson do Carmo
Fonte:
Universo Catolico

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