Saber
calar...
O
ato de calar, faz ouvir melhor...
Alguns
calam por timidez, outros por lhe faltarem as palavras, há ainda os
que calam para ouvir melhor ou para admirar uma obra de arte... há
também os que calam por reconhecerem-se diante de um mistério.
Enfim, há sempre um ou outro motivo que oriente o ato de calar, no
entanto, mais do que se possa imaginar, o silêncio é pleno de
significado e está sempre comunicando algo e enviando uma mensagem.
O ato de "calar" é um comportamento que comunica, pois, ao
contrário do que se possa pensar, é impossível ao indivíduo não
comunicar, inclusive no silêncio. Tanto um grande e eloqüente
discurso, como uma greve de silêncio, passam uma mensagem. O ato de
falar e o de calar precisam um do outro, pois quem fala quer ser
ouvido, e para ouvir é preciso calar.
Alguém que se cala diante de um outro que fala, pode assumir este
comportamento por diferentes razões, como: "interesse pelo
assunto", "timidez", "fuga de conflitos",
"rouquidão", "falta de disposição para a
conversa" etc. Se o locutor for perspicaz e atento a esta
mensagem que lhe passa o ouvinte, poderá assumir um novo
comportamento, se perceber que isso convém.
A atitude de calar é essencial para um bom nível de
relacionamento e compreensão do outro, porém, quando não se
reconhece esta importância, pode-se cair em sérias dificuldades,
dentre as quais destacamos: a rejeição da comunicação (pode se dar
a partir da impaciência demonstrada diante do outro que fala:
bocejos, inquietude, suspiros etc.; ou da interrupção do discurso do
mesmo: abandono da conversa, olhar dirigido para outra direção
etc.); a aceitação da comunicação (quando alguém aceita que o
outro fale apenas para evitar conflitos ou separações - este
comportamento está longe de ser uma escuta amorosa do que o outro tem
para revelar); e a desqualificação da comunicação (a não confirmação
do outro: as mudanças bruscas de assunto, o "sair pela
tangente", as frases incompletas, o fazer de conta que não
ouviu, as interpretações errôneas, as respostas monossilábicas, a
atitude de nada dizer dizendo alguma coisa etc).
Para alcançarmos uma boa interpretação do silêncio, não vejo
outra saída senão amar! Parece que estamos sempre voltando ao
princípio, não é mesmo?! Tudo o que é bom, nos conduz ao amor,
como numa escadinha de vários degraus...
"O silêncio, para todos os místicos e contemplativos, não
é ausência, mas plenitude de comunicação. (...) Evitemos o silêncio
negativo do mau-humor, da agressividade, do desgosto, da raiva. É um
silêncio que não agrada nem a Deus, nem às pessoas. O silêncio só
é válido quando é adoração, escuta, amor. (...) Quando é
amor, o silêncio fala. Quando é desamor, o silêncio agride"
(Frei Patrício Sciadini, OCD).
Lembro-me com muita propriedade de Madre Teresa de Calcutá que, nos
seus cuidados aos moribundos, evangelizava mais do que com pregações
sobre o Evangelho. Quantas pessoas encontraram Jesus através de Madre
Teresa sem que ela lhes tivesse dito o nome dele!!! O calar é também
uma atitude de respeito diante do outro e do mistério de sua existência.
É um reconhecer-se pequeno e limitado diante de alguém que lhe
ultrapassa, seja na sua dor ou na sua alegria... Nossas experiências,
nossos conhecimentos nunca serão suficientes para compreender a outra
pessoa na sua totalidade e no seu mistério pessoal.
O mesmo se dá no relacionamento com Deus, quando a última coisa que
nos resta a dizer é: "Eis o mistério da nossa fé!" E, nas
pegadas e a exemplo de Maria, guardar todas as coisas que Ele nos diz
no coração. O ato de calar, se realmente é movido pelo amor, faz
ouvir melhor (à nossa própria consciência, ao outro e a Deus),
compreender o que se ouviu, meditar e amadurecer as idéias, para então
viver melhor.
Arrisquemo-nos, pois, nesta arte de calar por amor. Mesmo se até hoje
demos motivos não muito positivos ao ato de calar, é sempre tempo de
recomeçar!
Juliana Lemos
Fonte:Comunidade
Shalom

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