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Como
conquistar a santidade?
Sentimos
em nossa carne, que a conquista da santidade é algo que supera as
nossas forças humanas, por isso os santos parecem aos nossos olhos
como sobre-humanos. Na verdade, foi com o auxílio da graça de Deus
que chegaram ao estado da bem -aventurança.
"O que é impossível à natureza, é possível à graça de
Deus", disse Santo Agostinho. Ele ensina que a graça não anula
e nem dispensa a natureza, a enriquece. Como Deus nos vocacionou para
sermos santos, Ele dirige a nossa vida e os nossos passos sempre nessa
direção. Na medida que a nossa liberdade o consente Ele dirige os
nossos passos para esse fim. É por isso que nos acontecimentos de
nossa vida muitas vezes não entendemos o que nos sucede.
Na verdade é a mão de Deus a nos conduzir. O médico
não prescreve o medicamento que agrada ao paciente, mas aquele que o
cura. Assim também, como o Médico das almas, Deus nos apresenta
muitas vezes remédios amargos, mas é para a nossa santificação.
Assim, as provações e as tentações que Deus permite que nos
atinjam são para o nosso bem espiritual. A Bíblia nos dá essa
certeza. Àqueles que querem ser seus discípulos o Senhor exige:
"Tome a sua cruz cada dia e siga-me" (Lc 9,23).
Após a disposição interior de "renunciar a
si mesmo", é preciso a mesma disposição para "tomar a
cruz cada dia". Foi com a cruz que o Cordeiro de Deus tirou o
pecado do mundo, e é também com a cruz que Ele tira o pecado
enraizado em cada um de nós. Sabemos que o sofrimento não é obra de
Deus, é a consequência do pecado. "O salário do pecado é a
morte" (Rom 6,23). Para dar um sentido ao sofrimento, Jesus o
transformou em "matéria prima" da nossa salvação. Quem
quer chegar à santidade não deve ter medo da cruz e deve tomá-la,
resolutamente, "a cada dia", como disse Jesus, porque é ela
que nos santificará.
Para entender essa pedagogia divina vamos examinar
o que nos ensina a Carta aos hebreus, no capítulo 12, sobre as provações.
Começa dizendo que assim como fizeram os santos, devemos nos "desvinciliar
das cadeias do pecado" (v.1), enfrentando o "combate que nos
é proposto", como Jesus, que "suportou a cruz" (v.2),
sem se deixar "abater pelo desânimo"(v 3). Em seguida
mostra-nos que tudo é válido na luta contra o pecado. "Ainda não
tendes resistido até ao sangue, na luta contra o pecado"(v.4).
Nesta luta vale a pena derramar até o próprio sangue, a própria
vida. Em seguida a Carta recorda a citação dos Provérbios que diz:
"Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não
desanimes,quando repreendido por ele, pois o Senhor corrige a quem ama
e castiga todo aquele que reconhece por seu filho" (Prov. 3,11).
Assim como nós pais terrenos, corrigimos os nossos
filhos, porque os amamos, Deus também o faz conosco. Quantas vezes eu
precisei segurar no colo os meus filhos, quando ainda pequenos, para
que o farmacêutico os aplicasse uma injeção. Só o amor por eles me
obrigaria a tal ato, mesmo com o seu choro nos meus ouvidos. Assim
também Deus faz conosco; por amor, permite que as provações
arranquem as ervas daninhas do jardim precioso de nossa alma. A
palavra de Deus diz: "não desprezes a correção do Senhor"
(v.5), portanto devemos acolhê-la, amá-la, mesmo que nos incomode. E
ela continua: "Estais sendo provados para a vossa correção: é
Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não
corrige ?" (v. 7).
Somos filhos legítimos de Deus, e não bastardos,
por isso Ele nos corrige (V.8). E a palavra de Deus nos diz que Ele
nos corrige "para nos comunicar a sua santidade" (v.10). Aí
está a razão pela qual Jesus nos manda abraçar a cruz de cada dia.
É pelas pequenas e numerosas cruzinhas de cada dia que o Artista
Divino vai moldando a nossa alma, à sua própria imagem. A nós cabe
ter paciência e aceitar cada sofrimento, cada revés, cada humilhação,
cada doença, enfim, cada golpe do Artista, com resignação e ação
de graças. A nossa natureza sempre se revolta, se impacienta e se
agita desesperada, e com isso, só faz aumentar ainda mais o
sofrimento e agrava a situação. O segredo para se sofrer com paciência
é não olhar nem para o passado e nem para o futuro, mas viver, na fé,
o presente.
Um dos grandes conselhos que Jesus nos deixou no
Sermão da Montanha foi este: "Não vos preocupeis pois com o dia
de amanhã (...). A cada dia basta o seu mal" (Mt 6,34). Deus
sempre nos dará a graça necessária para carregar, com determinação,
a cruz de cada dia que nos santifica.
Cada um de nós têm a sua própria cruz, única e
exclusiva, pois para cada tipo de doença há um remédio próprio.
A nossa cruz "de cada dia" é formada de
tudo o que fazemos e sofremos: o trabalho diário, as preocupações,
a falta de dinheiro, a doença, o acidente, a contrariedade, as calúnias,
os mal entendidos, enfim, tudo, o que nos desagrada. Tudo isto se
torna sagrado quando abraçado na fé e colocado no cálice do sangue
do Senhor celebrado a cada dia no altar.
Certa vez, andando no Cemitério, por entre as
sepulturas, em dado momento deparei-me com essa frase em uma delas:
"A melhor oração é o sofrimento". É verdade, pensei, mas
desde que seja abraçado na fé e na paciência, e oferecido ao Pai
junto com o sangue de Jesus.
A cruz se torna mais suave quando é aceita por
amor a Deus. Jesus mesmo ensinou à confidente do seu Coração, Soror
Benigna Consolata, como se deve sofrer: "Quando sofres, quer
interna quer externamente, não percas o merecimento da dor. Sofre
unicamente por Mim". Sofrer tudo por amor a Jesus, eis o segredo
de sofrer bem . Santo Agostinho tem uma frase que nos ensina bem tudo
isso: "Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o
sofrimento". Quanto mais calados sofrermos, sem ficarmos buscando
o consolo das pessoas que nos cercam, choramingando as nossas dores,
tanto mais cresceremos na santidade, e tanto mais teremos méritos
diante de Deus. A maior vitória sobre o sofrimento, qualquer que ele
seja, será sempre o nosso silêncio e aceitação.
Muitas vezes nos impomos uma série de mortificações,
mas os santos ensinam que as melhores cruzes são aquelas que Deus
permite que cheguem a nós. São Francisco de Sales dizia que:
"As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e que mais
o são ainda - e tanto mais quanto mais importunas - as que se nos
deparam em casa". Valem mais as cruzes do que as disciplinas e os
jejuns. De que adianta a penitência que voluntariamente nos impomos,
se não aceitamos aquelas que diariamente Deus nos impõe, na medida
exata da nossa correção? De nada valeria o sacrifício de um enfermo
que quissesse tomar muitos remédios amargos que não fosse aquele
receitado pelo médico. De forma alguma devemos desprezar as mortificações
que nos impomos, contudo, mais importante do que elas são as que a
divina providência nos manda.
São Paulo dizia aos romanos que "tudo
concorre para o bem daqueles que amam a Deus" (Rom 8,28). Deus
sabe aproveitar todos os acontecimentos da nossa vida para o nosso
bem. Aceitar isso é ter fé, é saber abandonar-se nas mãos divinas,
como o enfermo se entrega nas mãos do médico em que confia.
Tudo o que podemos passar nesta vida é pouco em
vista da grande obra de santificação que Deus quer fazer em nós. Não
podemos perder de vista o objetivo de Deus Pai que nos
"predestinou para sermos conforme à imagem de seu Filho"
(Rom 8,29). São Paulo tinha isto tão certo que disse aos romanos:
"Tenho para mim que os sofrimentos da presente
vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve
ser manifestada" (Rom 8,18).
É grande demais a obra que Deus está fazendo em nós.
Santo Agostinho nos ensina que Deus "não permitiria o mal se não
soubesse tirar dele um bem maior". E que muitas vezes Deus
permite que o mal nos atinja para evitar um mal maior.
As provações nos fortalecem para o combate
espiritual; por isso, os Apóstolos sempre estimularam os fiéis a
enfrentá-las com coragem. São Pedro diz:
"Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da
provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo
contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de
Cristo..."(1 Pe 4,12).
E ele ensina que a provação nos levará à perfeição:
"O Deus de toda graça, que vos chamou em
Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco,
vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vós fortificará"
(1 Pe 5,10).
É importante notar que o Apóstolo ensina-nos que
a provação nos "aperfeiçoará"e nos tornará "inabaláveis".
É importante não se deixar perturbar no fogo da provação. Não se
exasperar, não perder a paz e a calma, pois é exatamente isto que o
tentador deseja. Uma alma agitada fica a seu bel-prazer. Não consegue
rezar, fica irritada, mal humorada, triste, indelicada com os outros,
etc. O antídoto contra tudo isso é a humilde aceitação da vontade
de Deus no exato momento em que algo desagradável nos ocorre, dando,
de imediato, glória a Deus, como São Paulo ensina: "Em todas as
circunstâncias dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo
Jesus" (1 Tes 5,16). É preciso fazer esse grande e difícil
exercício de dar glória a Deus na adversidade. Nesses momentos gosto
de ficar glorificando a Deus, rezando muitas vezes o "Glória ao
Pai, ao Filho e ao Espírito Santo ..." até que minha alma se
acalme e se abandone aos cuidados de Deus. Essa atitude muito agrada a
Deus, pois é a expressão da fé pura de quem se abandona aos seus
cuidados. É como a fé de Maria e de Abraão que "esperaram
contra toda a esperança" (Hb 11,17-19), e assim, agradaram a
Deus sobremaneira.
Jó agradou muito a Deus porque no meio de todas as
provações, tendo perdido todos os seus bens e todos os seus filhos,
ainda assim soube dizer com fé :
"Nu sai do ventre da minha mãe, nu voltarei.
O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! " (Jo
1,21).
Afirmam os santos que vale mais um "bendito
seja Deus!" pronunciado com o coração, no meio do fogo da provação,
do que mil atos de ação de graças quando tudo vai bem.
O pecado original corrompeu tão intensamente o
estado de santidade e de justiça original, em que Deus nos criou que,
só mesmo com as provações Ele retira as "ervas daninhas"
que se entranharam no jardim da nossa alma, que é propriedade de
Deus. O Jardineiro divino da nossa alma sabe os métodos que deve
empregar para limpar cada alma. Santa Teresa diz que sentiu Jesus
dizer-lhe:
"Fica sabendo que as pessoas mais queridas de
meu Pai são as que são mais afligidas com os maiores
sofrimentos". E por isso afirmava que não trocaria os seus
sofrimentos por todos os tesouros do mundo. Tinha a certeza de que
Deus a santificava pelas provações. A santa chega a dizer que
"quando alguém faz algum bem a Deus, o Senhor lhe paga com
alguma cruz". Para nós essas palavras parecem até um absurdo,
mas não para os santos, que conheceram todo o poder salvífico e
santificador do sofrimento.
São Paulo ensina que:
"As nossas tribulações de momento são leves
e nos preparam um peso de glória eterna" (2Cor 4,17).
Quando São Francisco de Assis passava um dia sem
nada sofrer por Deus, temia que Deus tivesse se esquecido dele. São
João Crisóstomo, doutor da Igreja, diz que "é melhor sofrer do
que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor
de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem".
Só aceitaremos e amaremos o sofrimento quando
enterdermos, como os santos, que por meio dele, Deus destrói em nós
as más inclinações interiores e exteriores, que impedem a nossa
santificação. As ofensas, as injúrias, os desprezos, os cinismos
irritantes, as doenças, as dores, as lágrimas, as tentações, a
humilhação do pecado próprio, etc., nos são necessários pois dão-nos
a oportunidade de lutarmos contra as nossas misérias. Isto não quer
dizer que Deus seja o autor do mal, ou que Ele se alegre com o nosso
sofrimento, não. O que Deus faz, de maneira até amável, é
transformar o sofrimento, que é o salário do próprio pecado do
homem, em matéria prima de sua própria salvação, dando assim, um
sentido à dor. A partir daí, sob à luz da fé, podemos sofrer com
esperança. É o enorme abismo que nos separa dos ateus, para quem a
dor e a morte, continuam a ser o mais terrível dos absurdos da vida
humana.
A paciência na dor é a grande arma do santo. São
Tiago afirma que a paciência produz uma obra perfeita. Veja o que ele
diz:
"Meus irmãos, tende por motivo de grande
alegria o serdes submetidos a múltiplas provações, pois sabeis que
a vossa fé, bem provada, leva à perseverança, mas é preciso que a
perseverança produza uma obra perfeita, a fim de serdes perfeitos e
íntegros sem nenhuma deficiência" (Tg 1,2-4).
A provação produz a perseverança, e por ela,
passo a passo, chegaremos à perfeição, é o que nos ensina com
essas palavras são Tiago.
O capítulo dois do Livro do Eclesiástico é o
"hino da paciência". Deveríamos decorar suas palavras:
"Meu filho, se entrares para o serviço de
Deus (...) prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração,
espera com paciência (...) não te perturbes no tempo da
infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com
paciência" (Eclo 2,1-3).
"Aceita tudo o que te acontecer; na dor,
permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo
que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus,
pelo cadinho da humilhação" (4-6).
Essas palavras precisam ser muito bem assimiladas,
amadas e vividas. É a paciência que nos levará ao céu. São Gregório
Magno afirma que todos os santos foram mártires ou pela espada ou
pela paciência. São Paulo gloriava-se nas provações:
"Nós nos gloriamos também nas tribulações,
sabendo que a tribulação produz a perseverança..." (Rom
5,3-5).
Sofrer com paciência é sabedoria, pois assim se
vive com paz. Quem sofre sem paciência e sem fé, revolta-se,
desespera-se, e sofre em dobro, além de fazer os outros sofrerem também.
Santo Afonso diz que "neste vale de lágrimas não pode ter a paz
interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo
em vista agradar a Deus". Segundo ele "essa é a condição
a que estamos reduzidos em consequência da corupção do
pecado".
É preciso aqui, ressaltar ainda uma vez mais, que
as mortificações que aparecem contra a nossa vontade são as mais
agradáveis a Deus, quando as abraçamos com fé e paciência. Diz o
livro dos Provérbios que:
"Mais vale o homem paciente do que
corajoso"(Pr 16,32).
Quando eu tinha vinte e dois anos de idade, recém
formado na Faculdade, fui aprovado em concurso para Professor de uma
Faculdade Federal de Engenharia. Casei-me no mesmo ano e nosso
primeiro filho nasceu no ano seguinte. Sentia-me como um rei; tudo
estava perfeito na minha vida. De repente, em poucos dias comecei a
sentir a minha vista enfraquecer. Fui ao médico e ele constatou uma
doença incurável, ceratrocone, deformação da córnea. Eu teria que
usar lentes de contato, de vidro, para sempre, até quem sabe, me
submeter um dia a transplante das córneas.
Tudo aquilo, tão rápido, despencou sobre a minha
cabeça como uma tempestade; e eu fiquei peguntando a Deus o que tudo
aquilo significava. Isto já faz vinte e quatro anos. Lembro-me que
naqueles dias, perguntei ao Pe Jonas Abib, que era o nosso diretor
espiritual, sobre aquilo que eu sofria. Ele me disse:
"Eu não sei o que Deus quer com isso, mas
certamente ele tem um plano atrás desses acontecimentos".
Hoje, 24 anos depois, posso avaliar o quanto esta
enfermidade ajudou-me a crescer espiritualmente. Talvez eu não
estivesse hoje escrevendo essas páginas sobre o valor do sofrimento,
se tudo isso não tivesse ocorrido. Aprendi a ser mais paciente
comigo, com a doença, com os outros. Tive que fazer três
transplantes das córneas, e atrás de tudo isto sempre vi a vontade
de Deus na minha vida.
O homem de fé é aquele que está pronto a dizer
sempre, em qualquer circunstância da vida: "Bendito seja
Deus!"
Fonte:
www.cleofas.com.br
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