Carnaval
O
cristão, que vive na esperança, não pode ser triste
Na
próxima semana, já antecipado nestes dias, celebraremos o Carnaval.
É bom, portanto, fazermos, desde já, uma reflexão sobre a alegria,
este dom maravilhoso de Deus que restaura nossas forças,
lembrando-nos da dignidade de nossa criação e de nossa redenção.
A tristeza leva-nos às profundezas da terra, a um lugar inóspito,
como lamentava Jó, onde não há ordem e habita o eterno horror. (Cf.
Jó 10,22)
O coração do homem, do cristão, deve sempre transbordar de alegria
pelo reatamento da união entre a humanidade e Deus, que nos criou à
sua imagem e semelhança e pela salvação que nos foi dada em Cristo
Jesus.
A alegria e a festa devem ser pessoal e coletiva. Pessoal, enquanto
sabemos que Deus nos ama e sempre nos acolhe, mesmo quando deixamos de
lhe ser fiéis. Mas também coletiva, enquanto povo santo pela redenção
realizada por Cristo.
Já os profetas proclamavam para abrir nosso coração ao júbilo. E
mesmo para o povo que jazia na escravidão e fora deportado para longe
de sua terra, apontavam a alegria do retorno, porque o Senhor vira a
sua aflição e o alimentava na esperança. Isaías clamava: "Rejubila,
Jerusalém, e vós todos que a amais. Uni-vos para partilhar do seu júbilo"
(Cf. Is. 66,10).
O cristão, que vive na esperança, não pode ser triste. São
Francisco de Sales já falava isso: "Um santo triste é um triste
santo" condenando àqueles que não se rejubilavam com a graça.
São Paulo, igualmente, concitava os evangelizados à alegria:
"Alegrai-vos sempre no Senhor, de novo vos digo alegrai-vos"
(Cf. Fl. 4,4).
Os dias de Carnaval deveriam nos conduzir à alegria do corpo e do espírito,
pois se fomos criados do limo da terra, temos também em nós
insuflado o Espírito de Deus e recebemos este mesmo Espírito pelo
qual podemos chamar a Deus de Pai.
Quando o povo hebreu foi reconduzido do cativeiro da Babilônia, o
sacerdote Esdras, depois de lhe ter exposto a lei, convida-o à festa:
"Hoje é dia consagrado a Javé vosso Deus (...). Não vos
entristeçais nem choreis... Ide e comei carnes gordas, tomai bebidas
doces e mandai porções a quem não a preparou, porque hoje é um dia
consagrado a nosso Senhor" (Cf. Neem.8,10).
Esse é o espírito que nos deveria animar nos dias de Carnaval: a
alegria que se traduz nas festas e danças a que todos são
convidados, ricos e pobres, porque nossa salvação está próxima,
como confirma São Paulo na complementação do texto acima.
Estes dias não nos deveriam afastar de Deus, com excessos, que
deturpam nossa própria natureza e nos levam àqueles extremos aos
quais o mesmo Apóstolo Paulo se refere na sua Carta aos Romanos e que
atraem a ira de Deus (Cf. Rm. 1,1 e ss).
Infelizmente, o Carnaval se tornou uma festa pagã, na qual o que vale
é o luxo e a luxúria, no incitamento ao pecado e no completo
esquecimento da miséria que se abate sobre grande parte do povo, até
mesmo daqueles que, à falta de opções, só lhes oferecem o
"circo".
Os dias de Carnaval deveriam e poderiam ser dias de alegria, de dança
e festas, mas também de partilha com os que nada têm, e com aqueles
que têm o coração vazio. Repartir o pão sabendo conter os gastos
excessivos e repartir a esperança para todos aqueles que, perdida a fé,
se entregam aos excessos das bebidas e das drogas e à dissolução
moral.
Por esta razão, voltamos a dizer com o Apóstolo: "Alegrai-vos.
Mais uma vez vos digo, alegrai-vos". E que a vossa alegria seja
completa, extravasando de vossos corações, celebrando nossa completa
libertação.
Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora (MG)
Fonte:cancaonova.com
|