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Papa
agradece a Deus por grandes feitos na América Latina
24.05.2007
- Caríssimos irmãos e irmãs,
Nesta Audiência Geral desejo parar um pouco sobre a Viagem
apostólica que realizei no Brasil durante os dias 09 a 14 deste mês.
Após dois anos de Pontificado, tive finalmente a alegria de estar na
América Latina, que tanto amo e onde vive, de fato, uma grande parte
dos católicos do mundo.
A meta foi estar no Brasil, mas tive a intenção de abraçar todo o
grande subcontinente latino-americano, ainda porque o evento eclesial
que me conduziu até lá foi a V Conferência Geral do Episcopado da
América Latina e do Caribe. Desejo renovar a expressão da minha
profunda gratidão pela acolhida recebida dos queridos irmãos bispos,
em particular os de São Paulo e de Aparecida.
Agradeço ao Presidente do Brasil e outras autoridades civis, por sua
cordial e generosa colaboração; com grande afeto agradeço ao povo
brasileiro pelo calor com que cada um me acolheu – foi
verdadeiramente grande e comovente – e pela atenção dada às
minhas palavras.
Minha viagem teve, antes de tudo, o valor de um ato de louvor a Deus
pelas “maravilhas” operadas nos povos da América Latina, pela fé
que anima suas vidas e culturas durante mais de quinhentos anos. Neste
sentido, foi uma peregrinação que teve seu ápice no Santuário de
Nossa Senhora Aparecida, padroeira principal do Brasil. O tema da
relação entre fé e cultura esteve sempre muito presente no
coração de meus venerados Predecessores Paulo VI e João Paulo II.
Quis fazer uma retomada, confirmando a Igreja que está na América
Latina e no Caribe no caminho de uma fé que se é feita e se faz
história vista, piedade popular, arte, em diálogo com as ricas
tradições pré-colombianas e depois com múltiplas influências
européias e de outros continentes. Certo, a recordação de um
passado glorioso não pode ignorar os homens que acompanharam a obra
de evangelização do continente latino-americano: não é possível,
de fato, esquecer os sofrimentos e as injustiças feitas pelos
colonizadores às populações indígenas, frequentemente esmagadas em
seus direitos humanos fundamentais. Mas a necessária menção de tais
crimes injustificáveis – crimes não obstante ainda condenáveis de
missionários como Bartolomeu de Las Casas e de teólogos como
Francesco da Vitória, da Universidade de Salamanca – não deve
impedir de pegar esses atos com gratidão pela obra maravilhosa
realizada pela graça divina entre aquelas populações, ao longo
destes séculos.
O Evangelho é transformado, assim no Continente, o elemento portador
de uma síntese dinâmica que, com várias facetas, a segunda das
diversas nações, exprime seja como for, a identidade dos povos
latino-americanos. Hoje, na época da globalização, esta identidade
católica se apresenta ainda como a resposta mais adequada, desde que
animada por uma séria formação espiritual e dos princípios da
doutrina social da Igreja.
O Brasil é um grande país que guarda valores cristãos profundamente
radicais, mas vive também enormes problemas sociais e econômicos.
Para contribuir com essa solução, a Igreja deve mobilizar todas as
forças espirituais e morais de sua comunidade, buscando oportunas
convergências com outras forças sadias do País. Entre os elementos
positivos, estão certos em indicar a criatividade e a fecundidade
daquela Igreja, na qual nascem continuamente Novos Movimentos e novos
Institutos de Vida consagrada. Não menos merecida é a dedicação
generosa de tantos fiéis leigos, que demonstram-se muito ativos nas
várias iniciativas promovidas pela Igreja.
O Brasil é também um país que pode oferecer ao mundo o testemunho
de um novo modelo de desenvolvimento: a cultura cristã, de fato, pode
animar uma “reconciliação” entre os homens e o criador, a partir
da recuperação da dignidade pessoal na relação com Deus Pai. Neste
sentido, um exemplo eloqüente é a “Fazenda da Esperança”, uma
rede de comunidade de recuperação para jovens que querem sair do
túnel tenebroso das drogas. Na casa que visitei, trouxe-me uma
profunda impressão da qual conservo viva a recordação no coração:
é significativa a presença de um mosteiro de Irmãs Clarissas. Isso
pareceu-me simbólico para o mundo de hoje, que procura por uma
“recuperação” certamente psicológica e social, mas ainda mais
profundamente espiritual. E significativa foi ainda a canonização,
celebrada na alegria, do primeiro Santo nascido no país: Frei Antonio
de Sant’Anna Galvão. Este sacerdote franciscano do século 18,
devotíssimo da Virgem Maria, apóstolo da Eucaristia e da Confissão,
foi considerado, ainda vivo, como o “homem da paz e da caridade”.
Seu testemunho é uma outra confirmação que a santidade é a
verdadeira revolução, que pode promover a autêntica reforma da
Igreja e da Sociedade.
Na catedral de São Paulo encontrei-me com os Bispos do Brasil, a
Conferência Episcopal mais numerosa do mundo. Testemunhar a eles o
sustento do sucessor de Pedro era um dos “estalos” principais da
minha missão, porque conheço a grande desafio que o anuncio do
Evangelho deve enfrentar naquele país. Encorajei os meus irmãos a
andar em frente e reforçar o empenho da nova evangelização,
exortando-os a desenvolver no mundo complexo e metódico, a difusão
da Palavra de Deus, afim de que a religiosidade nata e difusa da
população possa aprofundar-se e tornar-se uma fé madura, adesão
pessoal e comunitária a Deus de Jesus Cristo. Animei-os a recuperar
onde quer que seja o estilo da primeira comunidade cristã, descrita
no livro dos Atos dos Apóstolos: "Assíduos na catequese, na
vida sacramental e na caridade operante".
Conheço a dedicação destes fiéis servidores do Evangelho, que
desejo apresentar sem redução e confusão, vigiando sob o depósito
da fé com discernimento; é também vossa constante preocupação
aquela de promover o desenvolvimento social principalmente mediante a
formação dos leigos, chamados a assumir responsabilidades no campo
da política e da economia. Agradeço a Deus de me haver permitido de
aprofundar a comunhão com os bispos brasileiros, e continuo a leva-os
sempre nas minhas orações.
Outro momento qualitativo da Viagem foi, sem dúvida, o encontro com
os jovens, esperança não somente para o futuro, mas força vital
para o presente da Igreja e da sociedade. Por isso a vigília animada
por eles em São Paulo no Brasil foi uma festa da esperança,
iluminada das palavras de Cristo que se voltou ao “jovem rico”,
que lhe havia dito: “Mestre, que devo fazer de bom para obter a vida
eterna?” (Mt 19,16). Jesus lhe indicou antes de tudo “os
mandamentos” como o caminho da vida, e em seguida o convidou a
deixar tudo para segui-lo.
Ainda hoje a Igreja faz o mesmo: antes de tudo repropõe os
mandamentos, verdadeiro caminho de educação da liberdade ao bem
pessoal e social; e sobretudo propõe o “primeiro mandamento”,
aquele do amor, porque sem o amor os mandamentos também não podem
dar pleno sentido à vida e encontrar a verdadeira felicidade. Somente
quem encontra em Jesus, o amor de Deus e se põe sobre esta via para
praticá-lo entre os homens, torna-se seu discípulo e missionário.
Convidei os jovens a serem apóstolos da atualidade; e por isso a
buscar sempre a formação humana e espiritual; a terem grande estima
pelo matrimônio e pelo caminho que conduz a ele, na castidade e na
responsabilidade; a estarem abertos também ao chamado à vida
consagrada para o Reino de Deus. Em síntese, os encorajei a dar
frutos a partir da “grande riqueza” de sua juventude, para serem o
rosto jovem da Igreja.
O ápice da Viagem foi a inauguração da V Conferência Geral do
Episcopado da América Latina e do Caribe, no Santuário de Nossa
Senhora Aparecida. O tema desta grande e importante assembléia, que
se concluirá no final do mês é “Discípulos e missionários de
Jesus Cristo, para que nossos povos Nele tenha vida – eu sou o
Caminho, a Verdade e a Vida”. O duplo nome “discípulos e
missionários” corresponde aquele que o Evangelho de Marcos disse a
propósito, ao chamado dos Apóstolos: “(Jesus) constitui Doze para
que estivessem com ele e também para enviar-lhes a pregar” (Mc
3,14-15).
A palavra “discípulos” quer dizer, ainda, a dimensão formativa e
na seqüência, da comunhão e da amizade com Jesus; o termo
“missionário” exprime o fruto do discipulado, que é o testemunho
e a comunicação da experiência vivida, da verdade e do amor
conhecido e assimilado. Ser discípulo e missionário comporta um
vínculo estreito com a Palavra de Deus, com a Eucaristia e com os
outros Sacramentos, o viver na Igreja em escuta obediente de seus
ensinamentos. Renovar com alegria a vontade de ser discípulos de
Jesus, de “estar com Ele”, é a condição fundamental para ser
missionários “partindo de Cristo”, segundo a entrega do Papa
João Paulo II a toda a Igreja após o Jubileu de 2000.
O meu venerado Predecessor sempre insistiu sobre uma evangelização
“nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão”, como
propriamente falando na Assembléia do CELAM, em 9 de março de 1983,
no Haiti (cfr Insegnamenti VI/1 [1983], 698). Com a minha viagem
apostólica, quis exortar a prosseguir sobre esta estrada, oferecendo
como perspectiva unificante à da Encíclica Deus Caritas Est, uma
perspectiva inseparavelmente teológica e social, reassumível nesta
expressão: é o amor que dá vida. “A presença de Deus, a amizade
com o Filho de Deus encarnado, a luz da sua Palavra, são sempre
condições fundamentais pela presença e eficácia da justiça e do
amor na nossa sociedade” (Discurso inaugural da V Conferência Geral
do Episcopado da América Latina e do Caribe, 4: L’Osservatore
Romano, 14-15, maio 2007, p. 14).
À materna intercessão da Virgem Maria, venerada com o título de
Nossa Senhora de Guadalupe que é patrona da América Latina, e ao
novo santo brasileiro, Frei Antonio de Santana Galvão, confio os
frutos dessa inesquecível viagem apostólica.
Papa Bento XVI
Fonte: Vaticano
Tradução: Canção Nova
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