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Bento
XVI, o Papa que diz não às mudanças na Igreja
18.03.2007
- A poucos dias de completar seu segundo ano de pontificado, Bento XVI
se mostra um Papa conservador, que diz não ao casamento dos
sacerdotes, à comunhão dos divorciados, à Teologia da Libertação,
à eutanásia, aos casais que não se casam, à música moderna na
missa e à tolerância.
Dois gestos importantes, como a divulgação nesta semana de sua
primeira exortação apostólica, intitulada Sacramentum Caritatis (O
Sacramento da Caridade) e a condenação, no dia seguinte, de um dos
''padres'' da Teologia da Libertação, o salvadorenho de origem
espanhola Jon Sobrino, refletem claramente o caráter e os objetivos
do pontificado de Bento XVI.
"Nem mesmo Pio XII (1939-1958) chegou ao extremo de tomar medidas
tão restritivas e agredidas. Apagou meio século de história",
destacou o jornal do Partido Comunista italiano Liberazione, ao
comentar o novo documento papal.
"É uma volta ao passado, quando a Igreja estava aferrada à
tradição e aos rituais e não via os sofrimentos do mundo onde
vivemos", comentou, por sua vez, o presidente da Federação de
Igrejas Evangélicas italianas, Domenico Maselli.
A exortação papal, que na teoria resume as posições dos bispos de
todo o mundo após o sínodo celebrado em outubro de 2005, é na
verdade um chamado direto do pontífice a "cerrar fileiras",
segundo vários teólogos e historiadores consultados pela imprensa
italiana.
Em seu documento, o novo Papa, um refinado filósofo e teólogo de
formação, insta os bispos à luta ideológica, a um catolicismo
militante, tanto "no testemunho da própria fé" quanto na
defesa dos "valores inegociáveis", como a oposição à
eutanásia, ao aborto, ao divórcio, à união entre homossexuais.
Seu texto, cheio de reflexões doutrinárias, "reflete a
dificuldade que a Igreja tem de acompanhar o ritmo da cultura
contemporânea", destacou o professor emérito de História da
Igreja da Universidade de Bolonha, Giuseppe Alberigo.
Com ânimo combativo, de menos diálogo ou tolerante com respeito às
posições adotadas pela Igreja após a revolução modernizadora do
Concílio Vaticano II (1962-1965), Bento XVI exige dos católicos que
se oponham às leis que não se ajustam à sua doutrina. Junto com as
linhas conceituais traçadas, o Papa alemão reiterou sua orientação
intransigente em temas como o celibato sacerdotal e manteve a proibição
da comunhão aos católicos divorciados.
Do ponto de vista prático, as mudanças serão evidentes quando os
religiosos celebrarem a missa em latim e entoarem canto gregoriano.
Estes instrumentos deverão primar a partir de agora na missa contra o
uso popular de guitarras elétricas, danças e cantos modernos
adotados em vários países, sobretudo da África e da América
Latina.
O endurecimento frente às mudanças da sociedade veio acompanhado da
primeira medida punitiva adotada por Bento XVI desde que foi eleito
pontífice em abril de 2005 Em uma "notificação", a
Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) condenou a
obra do teólogo Sobrino, de 68 anos, residente desde 1957 em El
Salvador por esconder a divindade de Cristo, exaltando o Jesus histórico,
humano.
"As obras de Sobrino apresentam em alguns pontos discrepâncias
notáveis com a fé da Igreja", sentenciou a Congregação, que
decidiu há seis anos submeter os textos do teólogo a exame.
A condenação de um dos mais qualificados estudiosos
latino-americanos reabre a luta contra a Teologia da Libertação, o
movimento católico de defesa dos sem-terra, indígenas e proletários.
O novo Papa, que como cardeal puniu durante os anos 80 importantes teólogos,
do brasileiro Leonardo Boff ao suíço-alemão Hans Kung, e que quis
suprimir quase com regozijo o Concílio Vaticano II, continua se
apresentando como o símbolo da polarização conservadora.
Fonte: Terra notícias
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