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Biólogo
que desvendou o genoma humano diz: Ciência não exclui Deus
Entrevista
da Revista Veja – Janeiro 2007
(artigo adicionado ao Site em 23.01.2007)
Entrevista com Francis Collins, biólogo que desvendou o genoma
humano
O biólogo americano Francis Collins é um dos cientistas mais notáveis
da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo
americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência
moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se
o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças
em todo o mundo. Collins também é conhecido por pertencer a uma
estirpe rara, a dos cientistas cujo compromisso com a investigação
do mundo natural não impede a profissão da fé religiosa. Alvo de críticas
de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins
decidiu reagir. Ele lançou há pouco nos Estados Unidos o livro The
Language of God (A Linguagem de Deus). Nas 300 páginas da obra, o biólogo
conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão aos 27 anos e
narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua
fé. "As sociedades precisam tanto da ciência como da religião.
Elas não são incompatíveis, mas complementares", explica o
cientista em entrevista publicada pela revista Veja, Janeiro 2007.
Eis a entrevista.
No livro A Linguagem de Deus, o senhor conta que era um
"ateu insolente" e, depois, se converteu ao cristianismo.
O que o fez mudar suas convicções?
Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar
em Deus. Eu
era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas
as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era
uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência
não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina.
Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me
contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença,
perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava
em nada. Pareceu-me
uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se
achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e
negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu
tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a
possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais
nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas
superar desafios.
Que questões são essas para as quais não encontramos respostas?
Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem
parte da existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma
visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos
fazemos todos os dias. "O que acontece depois da morte?" ou
"Qual é o motivo de eu estar aqui?". Não é certo negar
aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples
episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido
maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é uma das
facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve
presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações
que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por
meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin
e a China de Mao – falharam. Precisamos da ciência para entender o
mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas.
Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais.
A maioria dos cientistas argumenta que a crença em Deus é irracional
e incompatível com as descobertas científicas. O zoólogo Richard
Dawkins, com quem o senhor trava um embate filosófico sobre o tema,
diz que a religião é a válvula de escape do homem, o vírus da
mente.
Como o senhor responde a isso?
Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o
ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que
acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem
de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos
tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou
que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro
é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência.
Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência
investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está
fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir
religião é uma atitude imprópria e equivocada. No ano passado foram
lançados vários livros de cientistas renomados, como Dawkins, Daniel
Dennett e Sam Harris, que atacam a religião sem nenhum propósito. É
uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de
blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios
que ainda existem. É o que nos cabe.
O senhor afirma que as sociedades precisam da religião, mas como
justificar as barbaridades cometidas em nome de Deus através da história?
Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas
em nome da religião. Pense
em Madre Teresa
de Calcutá ou
em William Wilberforce
, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O
problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias
defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna
turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas
que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada
para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé –
essa, sim, imprescindível para a humanidade.
O senhor diz que a ciência e a religião convergem, mas devem
ser tratadas separadamente. Como vê o movimento do "design
inteligente", em que cientistas usam a religião para explicar
fatos da natureza que permanecem um mistério para a ciência?
Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na
armadilha a que chamo de "lacuna divina". Lamento que o
movimento do design inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o
argumento de que a evolução não explica estruturas tão complicadas
como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas,
inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais
para tudo o que existe. Todos os sistemas complexos citados pelo
design inteligente – o mais citado é o "bacterial flagellum",
um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos líquidos
– são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar
artificialmente essas trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso
porque esses mecanismos se formaram gradualmente através do
recrutamento de outros componentes. No curso de longos períodos de
tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo
que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução.
Qual a sua leitura da Bíblia?
Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se achar que a
interpretação que cada um de nós dá à Bíblia é a única
correta, mas a advertência foi logo esquecida. Agostinho já dizia
que não há como saber exatamente o que significam os seis dias da
criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia
é equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do
Gênesis 1 e 2 – e elas são discordantes. Isso deixa claro que
esses textos não foram concebidos como um livro científico, mas para
nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas
pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não
levarmos ao pé da letra todas as passagens da Bíblia, perderemos
nossa fé e deixaremos de acreditar que Cristo morreu e ressuscitou.
Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10 000 anos a não
ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da
cosmologia, da física, da química e da biologia.
O senhor acredita na Ressurreição?
Sim. Também acredito na Virgem Maria e em milagres.
Não é uma contradição que um cientista acredite em dogmas e
milagres?
A questão dos milagres está relacionada à forma como se acredita
em Deus. Se
uma pessoa crê e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e
está pelo menos em parte fora dessa natureza, então é totalmente
aceitável que esse Deus seja capaz de intervir no mundo natural. Isso
pode aparecer como um milagre, que seria uma suspensão temporária ou
um adiamento das leis que Deus criou. Eu não acredito que Deus faça
isso com freqüência – nunca testemunhei algo que possa classificar
como um milagre. Se Deus quis mandar uma mensagem para este mundo na
figura de seu filho, por meio da Ressurreição e da Virgem Maria, e a
isso chamam milagre, não vejo motivo para colocar esses dogmas como
um desafio para a ciência. Quem é cristão acredita nesses dogmas
– ou então não é cristão. Faz parte do jogo.
É possível acreditar nas teorias de Darwin e em Deus ao mesmo
tempo?
Com certeza. Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo
da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta,
para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma
e capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para
dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?
Alguns cientistas afirmam que a religião e certas características
ligadas à crença em Deus, como o altruísmo, são ferramentas
inerentes ao ser humano para garantir a evolução e a sobrevivência.
O senhor concorda?
Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que
o altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua
sobrevivência e seu progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles
querem justificar tudo por meio da ciência, e isso acaba sendo usado
para difundir o ateísmo.
Mas o altruísmo é visto hoje pela genética do comportamento como
uma característica herdada pelos genes, assim como a inteligência. O
senhor, como geneticista, discorda da genética comportamental?
Há muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes
para explicar os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da
evolução para cada um de nós é propagar o nosso DNA e tudo o que
está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas não é assim,
de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo e
a religiosidade. Penso
em Oskar Schindler
, que se sacrificou por um longo período para salvar judeus, e não
pessoas de sua própria fé. Por que coisas desse tipo acontecem? Se
estou caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogar e
decido ajudá-la mesmo pondo em risco a minha vida, de onde vem esse
impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de certo
e errado, a moral, que parece ser exclusiva da espécie humana.
Muitas religiões são contrárias ao uso de técnicas científicas
que poderiam salvar vidas, como a do uso de células-tronco. Como o
senhor se posiciona nessa polêmica?
Temos de ser sensíveis e respeitar as diferentes religiões no que
diz respeito aos avanços científicos. Mas interromper as pesquisas
científicas ou impedir que uma pessoa com uma doença terrível tenha
uma vida melhor só porque a religião não aceita determinado
tratamento é antiético. Por outro lado, existem fronteiras que a ciência
não deve transpor, como a clonagem humana, que além de tudo não
serviria para nada a não ser para nos repugnar. Cada caso tem de ser
avaliado isoladamente.
Os geneticistas são muitas vezes acusados de brincar de Deus. Como
o senhor encara essas críticas?
Se todos brincássemos de Deus como Deus gostaria, com esperança e
amor, ninguém se abateria muito com comentários do gênero. Mas
somos seres humanos e temos propensão ao egoísmo e aos julgamentos
equivocados. O importante é não reagir de forma exagerada à
perspectiva de que as pessoas possam vir a fazer mau uso das
descobertas da genética, mas sim focar o lado bom dessa
"brincadeira". A maior parte das pesquisas genéticas busca
a cura de doenças como câncer, problemas cardíacos, esquizofrenia.
São objetivos louváveis. Para evitar o uso impróprio da ciência, o
Projeto Genoma Humano apóia um programa que visa a preservar a ética
nas pesquisas genéticas e certificar-se de que todas as nossas
descobertas beneficiarão as pessoas e a sociedade.
O que esperar das pesquisas genéticas no futuro?
Nos próximos dois ou três anos vamos descobrir os fatores genéticos
que criam a propensão ao câncer, ao diabetes e às doenças
cardiovasculares. Isso possibilitará que as pessoas saibam que
provavelmente vão desenvolver esses males e tomem medidas preventivas
contra eles, com a ajuda do médico. Mais à frente, as descobertas
das relações entre o genoma e as doenças farão com que os
tratamentos e os remédios sejam personalizados, tornando-os mais
eficientes e com menos efeitos colaterais.
O senhor acredita que Deus ouve suas preces e as atende?
Eu nunca ouvi Deus falar. Algumas pessoas ouviram. Não acredito que
rezar seja um caminho para manipular as intenções de Deus. Rezar é
uma forma de entrarmos em contato com Ele. Nesse processo, aprendemos
coisas sobre nós mesmos e sobre nossas motivações.
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