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Evangelho
segundo Judas: outro apócrifo qualquer...
09.04.2006
- “Dito isso, Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou
abertamente: ‘Em verdade, em verdade vos digo: um de vós me há de
trair!...’ Interrogaram-lhe: ‘Senhor, quem é?’ Jesus respondeu:
‘É aquele a quem eu der o pão embebido.’ Em seguida, molhou o
pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.” (João
13,21.25-26)
Na última quinta-feira, 06 de abril de 2006, foi anunciada a
publicação da tradução do Evangelho de Jesus Cristo segundo Judas
Iscariotes. O escrito demorou cinco anos para ser traduzido, sob a
coordenação do tradutor Rodolphe Kasser, trazendo uma inusitada
versão da Paixão de Cristo.
Descoberto na década de 70, no Egito, perto de El-Minya, em pleno
deserto, este manuscrito estava redigido em um antigo dialeto daquela
região, o copta. Possui 26 páginas de papiro: 13 pranchas escritas
frente e verso. Traria a visão de Judas Iscariotes, o lendário
traidor de Jesus, sobre a Paixão de Nosso Senhor, iniciando da
seguinte forma: “O relato secreto da revelação que Jesus fez a
Judas Iscariotes durante uma semana, três dias antes de celebrar a
Páscoa...” Tal evangelho, que pertence à categoria dos apócrifos,
apresenta Judas Iscariotes não como um inimigo traidor, mas como o
discípulo predileto de Jesus, o mais iluminado e sábio do grupo dos
Apóstolos, a quem Cristo, demonstrando sua imensa confiança, teria
confiado a missão de entregá-Lo ao Sinédrio para que fosse
crucificado. Teria, portanto, um papel importantíssimo na
consolidação do sacrifício e da tarefa salvífica do Filho de Deus.
O apócrifo afirma que Jesus teria dito: “... irás superá-los a
todos. Pois irás sacrificar o corpo que me reveste” ou ainda
“Afasta-te dos outros e contar-te-ei os mistérios do reino. Irás
alcançá-los, mas sofrerás muito” “... serás maldito pelas
outras gerações, e mandarás nelas.”
O Evangelho apócrifo de Judas Iscariotes, como o próprio nome diz,
é um “apócrifo”, o que significa ser uma “obra de legitimidade
duvidosa”, ou seja, sem credibilidade histórica ou veracidade
factual. Ademais, os pesquisadores concordam que a obra foi escrito
por volta dos anos 300, isto é, no início do século IV. Quanto a
este dado é preciso ressaltar duas observações.
Em primeiro lugar, um escrito evangélico só possui credibilidade no
meio histórico quando sua datação histórica o situa na época
apostólica, que corresponde ao primeiro século de nossa era. Por
esta época, como se percebe a partir do nome, os Apóstolos ainda
estavam vivos, de forma que as obras que circulavam só possuíam
crédito se por eles fossem escritas e por eles legitimadas. È o caso
dos Evangelhos Canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Na época
pós-apostólica (após o século I), entretanto, já estando os
Apóstolos mortos, sabia-se que os documentos que circulavam e que
eram atribuídos a eles, na verdade, em momento algum haviam sido por
eles redigidos, por dois motivos: 1- os Apóstolos já haviam morrido;
2- os escritos difundiam idéias incondizentes com o que os Apóstolos
tinham ensinado quando
em vida. A Igreja
primitiva e os primeiros cristãos (que desde o século I professavam
sua fé nos quatro Evangelhos, mais tarde ditos Canônicos)
imediatamente desprezavam estes outros escritos, creditando-lhes o
caráter de documento falso. È o caso de inúmeros apócrifos
escritos a partir do século III (Tomé, Pedro, Maria Madalena,
Felipe, Paulo, Pseudo-Mateus, Secreto de Marcos...) que não foram
redigidos pelas pessoas a quem são atribuídos; ou ainda o caso do
mencionado Evangelho apócrifo de Judas Iscariotes, do século IV,
época pós-apostólica.
Em segundo lugar, não há muita dificuldade em raciocinar que Judas
Iscariotes já morrera no século IV, tendo ele se suicidado logo
após entregar Jesus, conforme a narração canônica; e mesmo
rejeitando este pormenor dos Evangelhos Canônicos, não é custoso
deduzir que o discípulo traidor não poderia viver três séculos,
vindo a redigir sua obra somente no século IV. Algumas correntes
defendem que o escrito teria sido redigido originalmente em grego por
grupos de gnósticos no ano 180, mas ainda assim a falsidade fica
comprovada: ano 180, século II, era época pós-apostólica; a
redação coube a grupos de heresiarcas gnósticos, e não ao próprio
Judas Iscariotes. Nada nos garante que a história não tenha sido
inventada.
Isto significa com todas as letras que é impossível ter sido Judas
Iscariotes o autor da obra, fato que pesa bastante no julgamento do
escrito como falso, além de ser um abalo sem precedentes na suposta
autenticidade do documento.
Aliás, os historiadores concordam que o escrito é de caráter
gnóstico, ou seja, baseado na heresia dos séculos II e III dita
Gnosticismo. Esta heresia, que pregava ser preciso eliminar o corpo
para libertar o espírito (fazendo inclusive apologia ao suicídio),
é a base de todos os apócrifos e foi desprezada pela Igreja e pelos
primeiros cristãos desde sempre, por não estar de acordo com a reta
Doutrina Cristã ensinada pelos Apóstolos e Pedro. O Gnosticismo
deriva do pitagorismo, do platonismo, do mitraísmo e do zoroastrismo,
sendo, portanto, de origem pagã, e não cristã. É mais um ponto que
pesa no julgamento do Evangelho apócrifo de Judas Iscariotes: seu
caráter gnóstico, isto é, herético e, conseqüentemente, pagão.
Essa era uma estratégia bem comum entre os hereges gnósticos para a
propagação de sua heresia: os heresiarcas redigiam evangelhos de
doutrina gnóstica visando difundir a mesma, e, para dar mais
credibilidade às suas obras, atribuíam-nas aos Apóstolos. É
visível a desonestidade e a falta de escrúpulos do ato. Nada mais
próprio para um herege e por isso tanto admiravam aquele que também
agira com desonestidade e traíra o Senhor Jesus...
A própria personalidade de Judas Iscariotes nos dá garantia da
falsidade deste escrito. Judas era um zelota, um grupo de judeus
nacionalistas e fundamentalistas, que partiam para a luta armada com
os romanos. Para os zelotas, o Messias deveria ser um Salvador
político, comandante dos exércitos que expulsariam os dominadores
romanos. Judas se viu frustrado diante da atitude pacífica de Jesus,
uma Messias de argumentos, obras e amor. Não seguia o script dos
zelotas. Judas entregou Jesus com o objetivo de fazê-lo revidar a
prisão e se rebelar contra os soldados e a dominação romana, o que
não aconteceu, pois o Cristo deixou-se prender e crucificar sem
revidar em momento algum.
A libertação estava na Cruz, e não na espada.
Vê-se que a entrega de Jesus foi mais um motivo político que uma
tarefa confiada pelo Salvador. Uma frase do evangelho de João mostra
bem isso. Jesus diz a Iscariotes: “O que queres fazer, faze-o
depressa” (João 13,27). Jesus utiliza o verbo querer, e não o
verbo ter, isso porquê a entrega de Cristo ao Sinédrio era mais algo
que Judas, movido por intenções políticas, queria fazer, do que
algo que ele tinha (verbo ter) a missão de fazer. Caso Judas tivesse
de trair Jesus as palavras seriam outras: “O que tens de fazer,
faze-o depressa.”
Judas Iscariotes foi, sim, o traidor, “o filho da perdição”
(João 17,12), nas palavras do próprio Jesus. Aquele em quem
“Satanás entrou” (João 13,27) e de quem se apossou para destruir
o Filho de deus, sem ter consciência de que esta destruição
acarretaria na Salvação da humanidade. O feitiço se virou contra o
feiticeiro...
Não nos resta dúvida da falsidade do Evangelho apócrifo de Judas
Iscariotes, escrito que não merece nenhuma credibilidade histórica,
embora a Mídia lhe esteja dando muita atenção. Ficamos na espera de
mais provas de sua falsidade (e pode apostar que surgirão
muitíssimas...).
É bom que os católicos fiquem avisados que a Igreja já se
manifestou a respeito do Evangelho apócrifo de Judas Iscariotes,
rejeitando-o categoricamente. Para nós, cristãos católicos, fica,
então, fora de cogitação acreditar em qualquer idéia difundida por
este apócrifo.
A Santa Mãe Igreja nunca deixará de professar sua fé nos Quatro
Evangelhos Canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João, cuja
historicidade é comprovada por historiadores e pesquisadores
renomados do mundo inteiro. Cabe-nos desenvolver um pouco de bom senso
e ouvir a voz da razão em questões como esta.
O Evangelho apócrifo de Judas Iscariotes é um escrito falso e deve
ser rejeitado, em favor do zelo pela Verdade.
Piscadela do destino: 25 anos após a redação do Evangelho apócrifo
de Judas Iscariotes, no ano de 325 d.C., a Igreja Católica de Cristo
proclamaria solenemente sua fé nos Quatro Evangelhos Canônicos,
durante o Concílio de Nicéia I, inserindo-os no Cânon dos Livros
Sagrados e desprezando qualquer outro escrito apócrifo e mentiroso
sobre Cristo. É mais um sinal de Deus, no apelo pelo bom sensos em
prol da Verdade, “porque nenhum poder temos contra a Verdade, só o
temos a favor da Verdade” (II Cor 13,8).
Taiguara Fernandes de Sousa
Fonte:
Portal Anjo
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