Quem sou eu?
Alguém
se preocupa comigo?
Sinto uma sensação tão gostosa: um sopro suave, terno, meiguice
envolvente e irresistível. Pareço a mim mesmo algo tão pequeno, não
insignificante, mas minúsculo e ao mesmo tempo grande. Invade-me a
sensação de que posso crescer, crescer, mesmo lentamente e me tornar
um ser considerável em tamanho e porte.
Ah, esse sopro, que não sei de onde vem ou como chega até mim, tão
delicado e sensível, magnificente e parece me transformar
profundamente ou seria me formar intensamente? Pouco importa as
palavras. Importa a força que invade e faz de mim uma existência,
alimentada e se alimentando de um nutriente doce, invisível e
saboroso. Sinto-me inundado por uma luz repleta de nuanças enquanto
sorvo vorazmente um néctar invisível, bebida vital e sublime. Onde
estará o manancial, a fonte que me sustenta? Parece tão próximo e tão
distante, generosa simultaneidade.
Neste instante começo a sentir que me multiplico, sem tensão ou
esforço algum. Sou eu em várias outras partes de mim mesmo, como a música
sendo composta de notas deleitosas numa harmonia melodiosa e pura.
Pouco tempo se passou e me sinto como um pequeno-imenso quebra-cabeças
perfeito, sendo montado lentamente. Como será a figura, a imagem
final deste mosaico? Quantas perguntas me invadem, pouco entendo, mas
sei que existem milhares de respostas.
Do sopro essencial e único que me envolve sinto ainda que me falta
algo, uma sensação inexprimível, como a de pássaro sem ninho. Ninho?
O que será um ninho? Ah! entendi. É um lugar onde se alojam pequenas
criaturas como os passarinhos. Mas eu não sou um passarinho, tenho
certeza, mas sinto que me falta uma espécie de ninho. Vou esperar
por esta dádiva, um lugarzinho acolhedor onde eu não precise intuir
o que sou ou serei, um lugar onde eu possa repousar em segurança.
Ali, eu sinto, serei acalentado e amado. Nesse refúgio afável ninguém
vai me perguntar o que eu sou, porque ou como sou. Posso sentir que
ali serei muito amado. Vou esperar por esse abrigo...
Começo então a sentir certa mudança. Não sinto mais o fluido cálido
do princípio, sinto um vazio que me envolve e me entorpece. Agora que
me sentia prestes a ser aconchegado, a solidão me envolve
brutalmente. O frio cresce e sinto dor, sinto abandono.
Precisamente no momento em que eu começava a sentir alegria, a ser
feliz... sim felicidade, doce abrigo, sonhos de novos dias, a me
multiplicar e tomar feitio. Mas congelaram-me. Aquilo que se tornava
agradável cor agora é bruma, um matiz cinza triste e arrasador. A
luz não gera mais calor e não mais flui em mim o terno e ardente
alimento. O que era movimento se transformou em rigor, o que era
brandura tornou-se impiedade . Por quê? É o meu grito. Como resposta
escuto somente o eco ressoando nas paredes da dura e imensa geleira
que me envolve.
O amanhã sonhado e esperado se desfaz entre as nuvens de um gás
desconhecido a me envolver em seu abraço gélido e cruel...
Algo em mim, porém, se faz certeza, aquele delicado sopro, aquela
beleza do início, a suavidade, ternura e carinho, a luz refulgente,
é o Amor Absoluto, Deus, Sopro Divino. O que em mim se derramou se
chama VIDA e eu sou ALGUÉM, uma PESSOA!
Esta é a resposta: sou alguém e existo. Eu existo e há vida em mim!
Qual o meu futuro não sei. Meu universo, antes escancarado e
ilimitado agora está fechado. Trancaram-me em lugar seguro, seguro
para algo ou alguém, não para mim a quem foi concedido o dom da
liberdade. Privaram-me do direito de ser formado e de me tornar
criatura inteira, um ser em plenitude. Tornaram nulo o meu direito
de sorrir, de amar e ser amado; romperam os liames com o mundo que me
esperava. Revogaram, em nome da ciência, de um experimento, a
oportunidade de ser gente e hoje fazem de mim um depósito de
componentes de reposição, um estoque de peças sobressalentes.
Afinal o homem, em seu papel de demiurgo, pouco se importa
comigo um microscópico aglomerado de células denominado embrião.
Para a ciência sou coisa viva e sem vida ao mesmo tempo. Em seu nome
não sou nada, não sou gente. Daqui por diante vão me fazer um
simples espécime, um mero dígito.
- Enfermeira, retire do botijão o número 357Y8 - diz o pesquisador
apressado.
É. O mundo não precisa mais de novos Einstein, Platão,
Beethoven, Shakespeare, Da Vinci, Ghandi, Agostinho, Tomás de
Aquino... nem de mim.
É imoral produzir embriões humanos destinados a serem explorados
como material biológico disponível (Congregação para a Doutrina da
Fé - Instrução "Donum Vitae" 1,5).
Lício Nepomuceno
Escritor
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Fonte:cancaonova.com
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