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13
Março 2005
Continuamos
com a disposição de apresentar o leitor os escritos de Fanny
Moisseieva, resultantes de suas visões havidas durante o sonho letárgico
de nove dias pelo qual ela passou. Aqui apresentamos o inferno com
toda a sua horripilancia. Muitas pessoas, santos e profetas, também
leigos, já tiveram pela graça de Deus estas visões de horror. Cada
um a descreve de seu modo, uns num ambiente mais amplo, outros em mais
restritos, o certo é que o inferno inteiro é uma câmara de
horrores, com bilhões de departamentos de tortura.
As visões de Fanny são mais uma tentativa de dar ao leitor uma idéia
do que significa aquele lugar. Cada homem pagará de acordo com o
volume e a intensidade de seus pecados e com seus atos de maldade,
ninguém menos, ninguém mais do que deve. Há muitos milhares de níveis
de sofrimento, porque a Justiça Eterna de Deus, até ali se faz
presente e é obedecida em seus limites. Ou seja: o poder de Deus é tão
imenso, que até mesmo naquele Lugar onde nunca mais se poderá saber
Dele, ainda assim ali se cumpre a vontade Eterna do Criador. Eis
porque ela vai descrever o tormento de alguns grandes pecadores, e
como servirão de repasto ao inferno. Ao longo do texto iremos fazendo
alguns comentários, explicando os números de ordem. Fanny
Moisseieva MEU
SONO LETÁRGICO DE NOVE DIAS PARTE
IV – O INFERNO Advertências
da autora Há
homens que dizem: se Deus é verdadeiramente misericordioso, não pode
martirizar as almas humanas no inferno, quanto mais eternamente.
Talvez, querido leitor, você mesmo terá pronunciado estas amargas
palavras muitas vezes, ou bem teve tal pensamento, sem pensar que Deus
havia descido do Céu à terra precisamente para redimir os homens do
inferno. Ele havia descido para aliviar-nos o caminho até o luminoso
reino dos Céus e armar-nos do sinal da Cruz contra Satanás. Mas
a isto se pode contrapor: “– Porém, por quê, então, o Senhor
permite a existência de Satanás e por que Ele o criou?” Deve se
lembrar que Satanás tinha sido criado como anjo puro e que só mais
tarde se afastou de Deus com todos os seus sequazes. Sendo
um espírito incorpóreo, ele, por isto só é imortal, conseqüentemente
eterno. Assim
é o homem. Nasce
um menino puro, sem pecados (Sim com o pecado original), porém mais
tarde se afasta tantas vezes de Deus, não reconhece Sua Vontade,
rebela-se contra Ele e atua mal. Tal
homem, depois de sua morte inevitável, certamente vai ao inferno,
como havia dito Nosso Senhor: “Ao fogo eterno, preparado para o
diabo e para seus anjos” (São Mateus 25, 41). Entretanto, não
obstante estas santas palavras, há homens que decididamente refutam a
doutrina do inferno, contrariamente aos ensinamentos de Jesus Cristo,
o qual prevenia os homens para que não fossem parar neste lugar de
martírio. Segundo
alguns sábios, este martírio não seria eterno; entretanto, deve-se
advertir que na Epístola aos Hebreus (1, 8) diz-se: “Pelos séculos
dos séculos, o cetro de seu reino é um cetro de retidão”. As
mesmas palavras estão no Apocalipse (20, 10), onde se diz claramente:
“e serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos”. O
inferno é terrível! É terrível porque já significa a separação
eterna de Deus e esta separação não é a simples inconsciência,
muito mais é o sofrimento físico neste lugar: “... onde seu
verme não morre e o fogo não se apaga.” (São
Marcos 9, 48) No Evangelho de São Mateus (8, 12), diz-se: “ali
haverá pranto e ranger de dentes.” Também o Santo Evangelho
ensina: “E além de tudo isto, entre nós e vocês
há um grande abismo, de maneira que aqueles que queiram passar daqui
para vocês não podem nem daí passar para nós” (São Lucas
16, 26). Serve
de exemplo para todos os pecadores a sorte de um rico que ouvia tudo
e, encontrando-se no inferno, ouvia chegar desde o paraíso as
palavras de Abraão: “estava em plena consciência, mas
atormentado terrivelmente” (São Lucas 16, 19-23). Não há
escrito sagrado no qual se mencione qualquer transformação no
inferno depois da ressurreição de Cristo. I Desta
vez fomos separados do planeta rígido e gélido, de novo voamos para
cima. Dirigimo-nos
para um novo planeta, todo reluzente, e à medida que nos aproximávamos,
encontrávamos uma atmosfera cada vez mais incandescente.
Evidentemente, uma força desconhecida, que emanava do próprio
planeta, produzia este fenômeno. Não
sei porque, mas eu sentia uma estranha turvação na alma, à medida
que diminuía a distancia que nos separava dele; a vivísima luz que
dele emanava me cegava os olhos e todo o corpo sentia um calor
insuportável. Finalmente,
chegamos ao alto de uma montanha que se erguia sobre todo o planeta. Desde
este topo, podia-se alcançar um amplo horizonte. À direita e à
esquerda, entre cadeias de montes, via-se vulcões ativos, que lançavam
fogo em grande quantidade. Nuvens
de fumaça negra e torrentes de fogo saíam
de suas crateras, como de gigantescas bocas abertas e envolviam tudo
com uma neblina espessa, com pedras candentes e a lava que saíam das
entranhas da terra. Canais
sinuosos de metal fundido desciam lentamente, com uma cintilação
estranha, desde os cumes dos vulcões até os vales. Tudo
ao redor estava imerso na escuridão. Por
algumas horas apareceu o disco de um astro, semelhante ao nosso sol,
mas que aparecia coberto por um denso véu, emanava uma luz fraca,
crepuscular; passado este breve período, caía de novo a longa e
triste noite, durante a qual se viam saltar aqui e ali as pequenas
luzes errantes de chama maléfica, as quais apareciam com intermitência
extraordinária, sempre crescente e depois desapareciam completamente. Cada
vez eu me sentia mais angustiada e triste. Não
consegui descobrir nenhuma vegetação, exceto alguns arbustos sem
folhas de uma cor cinzenta e de uma forma estranha trepando aqui e ali
pelas planícies e os vales. Virando-me para trás pude descobrir
algum rio. Suas
águas lodosas seguiam lentamente, como apáticas. Por toda parte
reinava a desolação e a escuridão. E tudo me parecia deserto, mas
meu companheiro, de repente estendeu-me o braço, indicando-me um dos
profundos precipícios e disse: “– Olha!” Fixando
a vista naquela direção, vi algumas figuras que se moviam
rapidamente em meio a luzes imperceptíveis. Desde a altura onde eu
observava tudo, pareciam-me pequenas como formigas. Começamos
a descer, sempre nos aproximando àquele precipício, e quando estávamos
próximos paramos diante de uma rocha escarpada. “–
Todos estes são pecadores”, disse meu companheiro. “–
Agora você ficará só entre eles, sem mim, mas se acontecer qualquer
coisa a você, mesmo que você se assuste, não deve rezar, porque
aqui é severamente castigado quem dirige uma oração a Deus. Eu
não estou certo disso, mas creio que lhe acontecerá algo também se
você rezasse. Não esqueça que este é o reino dos espíritos do
mal. Não deve rezar nunca, porque a oração deste reino não chega a
Deus.” “–
Por quê? Por que nunca?” Eu não consigo compreender como é possível
que a oração possa ter obstáculos.” E o companheiro me respondeu:
“– O obstáculo consiste na graça de Deus que não chega até as
almas dos pecadores. Assim como os homens não podem falar à distância
sem o rádio, assim também a oração sem a graça do Espírito Santo
não pode chegar a Deus.” E desapareceu. Então, ainda mais de
perto, eu vi como os pecadores dançavam loucamente uma dança
selvagem; dançavam desesperadamente e parecia que sua dança não
devesse nunca ter fim. Os demônios arrastavam homens, mulheres e
idosos aos lugares mais abertos para atormentá-los ali e quando
estes, esgotados, caíam ao chão proferindo horríveis imprecações
eram agarrados pelos pés e atirados a um turbilhão. Deixei
aquele desfiladeiro e comecei a descer até a planície. Mas
aqui vi um tórrido e vastíssimo deserto e aqui também a terrível
dança dos miseráveis pecadores, que não parava um instante enquanto
eles derramavam lágrimas dilacerantes. Observando-os mais
atentamente, vi que junto a eles dançavam também espíritos malignos
rindo selvagemente sem nunca se cansar. Eles
obrigavam as infelizes almas a girar cada vez mais velozmente,
gritando sem interrupção: “– Alegres, todos alegres!” Alguns,
dando saltos, se elevavam sobre a multidão dos pecadores e gozavam
com a visão da gente nua e martirizada, com os cabelos revoltos, sem
lavar nem pentear há séculos, nos quais havia cravados espinhos. Que
terríveis e poderosos eram aqueles espíritos malignos! Faziam
os pecadores se desesperar. Atando-os com ramos espinhosos e
fazendo-os dar voltas assim sobre as areias ardentes, cuspindo-lhes
nos olhos, agarrando-os pelos cabelos, abrindo-lhes a boca à força
até rasgá-la, golpeando-lhes violentamente com pedras, cegando-lhes
e fazendo-lhes caminhar, depois destas e outras torturas inauditas,
com aquele sofrimento, por precipícios cujo fundo estava cheio de
pedras afiadas como navalhas. E enquanto eles caminhavam, os demônios
montavam ao pescoço de cada pecador, pegando-os pelos cabelos e
guiando-os assim pelo doloroso caminho. Se alguém conseguia soltar-se
do espírito maligno, imediatamente lhe pegava outro e os sofrimentos
recomeçavam, ainda mais penosos e intoleráveis. Alguma
vez também, aqueles demônios horríveis mostravam ao pecador os
rostos de seus parentes e de outras pessoas queridas que se encontrava
sofrendo junto a ele no inferno, ou começavam a analisar o passado
terrestre de suas vítimas, mas limitadamente aos pecadores e às más
ações. Faziam o pecador ter as visões de todos os seus pecados
terrestres pelos quais haviam sido condenados, de modo que a estância
infernal se tornava ainda mais intolerável. Eu
proseguia meu caminho, deixando atrás o horrível, tórrido infinito
deserto e os pecadores dançantes ao som das risadas sarcásticas dos
demônios. E
cheguei logo a um vale cheio de pedras onde, de vez em quando, passava
um formidável furacão que levantava nuvens de poeira e lançava ao
ar as próprias pedras. Os
espíritos infernais perseguiam aqui a uma multidão de seres cujos
semblantes conservavam já bem pouco da natureza humana: estavam
extremamente magros e seus braços pendiam inertes; todo seu aspecto
denotava sofrimentos inimagináveis. Torturados pela sede,
arrastavam-se com dificuldade, em silêncio, com a boca cheia de
poeira. Ao redor reinava um cheiro horrível e nuvens de fumaça negra
envolviam tudo. Entre estes pecadores, alguns lutavam violentamente a
pesar de saberem dos terríveis castigos que os esperavam; porém eram
já indiferentes a tudo porque estavam habituados a ser atormentados
continuamente e porque haviam compreendido que, ali no inferno, já não
podiam ter esperança alguma, assim já não reclamavam mais. Não
podendo suportar mais aquele terrível furacão de poeira, segui
adiante, caminhei longo tempo e, finalmente, deparei-me à beira de um
charco lodoso. E pareceu-me que nele chafurdavam seres de aspecto
repugnante. Vi
depois como os pecadores, torturados pela sede, corriam até aquele
tanque pestilento e bebiam daquela água fétida. Dava-me
horror olhar aqueles pecadores tão continuamente torturados e sempre
rodeados dos demônios, furiosos, perversos e trapaceiros. Com grande
medo e quase parando a cada passo, avancei até as rochas que se
perfilavam à distância e decidi esperar sobre elas o retorno do meu
companheiro. Ali
escolhi um lugar, o mais tranqüilo, e cansada das impressões
sofridas, sentei-me sobre as pedras. De
repente, um misterioso alvoroço sobressaltou-me. Vinha
de um lugar pouco distante. Aguçando o ouvido, percebi suspiros
profundos e penosos. Voltei-me e olhei: a poucos passos, aos pés de
uma enorme rocha cinza, jaziam pecadores esgotados, tristemente com o
olhar fixo na noite impenetrável. “– Sempre a noite, somente a
noite, e nunca a luz! É possível que não chegue nunca o
amanhecer?”, perguntou um deles, lembrando do sol e da primavera...
e, ante sua mente, passaram as visões da vida vivida; também os
outros começaram a lembrar o tempo passado na terra enquanto viviam,
sentiam e amavam e cada um deles tentava aliviar, ainda que fosse um só
minuto, com as lembranças da vida passada, sua alma sofredora. De
suas conversas se deduzia que o passado estava sempre vivo neles, mas
que os espíritos do mal não lhes permitiam sonhar nem esquecer os
sofrimentos. Rapidamente,
de trás das rochas altas e escuras, apareceu um fogo vermelho e
queimou terrivelmente as almas, chegadas aqui para descansar. No
Inferno, não pode haver paz. E eu, estava desejosa de silêncio
e queria fugir de todos aqueles horrores, decidi transportar-me a
outro lugar. Diante
de mim se estendia uma planície. Encaminhei-me por ela, passando as
trevas que por todos os lados me rodeavam. Os espíritos malignos
observavam àqueles que passavam diante deles e perseguia-lhes
selvagemente com açoites que levavam nas mãos. De vez em quando, da
terra saíam línguas de fogo de todas as cores, que por um instante
iluminavam sinistramente as silhuetas. E ouvi um canto, triste e
melancólico, no qual tremiam as lágrimas e ouvia-se um sofrimento
abafado e uma dor inconsolável. Aproximando-me
mais, vi sob a proteção de uma rocha os que cantavam com tanta
tristeza. Suas
faces eram de cor cinzenta e eles mesmos sem força, ofegantes,
empurravam com seus braços esqueléticos uma enorme rocha de grande
peso. Este trabalho seu era perfeitamente inútil em si mesmo e isto
aumentava ainda mais seus sofrimentos. Sobre suas cabeças caíam
nuvens ardentes, atravessadas de flechas de fogo e nuvens de fumaça,
misturadas com faíscas. Eu me senti mais aterrorizada e senti um
desejo enorme de sair o quanto antes daquele lugar tenebroso. Enquanto
isso ouvia um ruído que procedia do fundo da terra. Ante mim,
abriu-se uma inclinada encosta, que comecei a descer com muito
cuidado. No ar, sentia-se um intenso cheiro de enxofre e redemoinhos
de poeira ardente tornavam difícil a respiração. A muralha cinza
rochosa se elevava quase verticalmente sobre minha cabeça e, do alto,
caíam como chuva faíscas incandescentes. O vento seco e turvo não
refrescava nada e vi um espetáculo novo e horrível. Os miseráveis
pecadores, arrastados pelos demônios, fugiam velozmente diante de nós
com o ruído infernal que os perseguia e, gritando de terror,
protegiam a cabeça enquanto alguns deles caíam por terra, esgotados
pela sede, com o rosto na poeira. Estariam dispostos a suportar
qualquer martírio, com tanto de obter uma gota de água, com a qual
refrescar a boca queimada pelo terrível calor. Mas não há para eles
nem sequer uma gota de água e isto continuamente aumentava seu
sofrimento sem um final possível. Os
espíritos infernais os vigiavam e, ao cair um, estavam prontos para
golpeá-lo cruelmente com seus pés achatados até que se levantava e
recomeçava a corrida, docilmente. E eis aqui que, enquanto eu
observava aquele espetáculo horripilante, apareceu diante de mim meu
companheiro com sua voz maravilhosa e fascinante: “– Você teve
medo?”, perguntou-me e eu, a sua pergunta, não soube responder
outra coisa senão: “– É terrível!” E
ele: “– Agora deixaremos este lugar e voaremos a outros
planetas!” Começamos
a subir a uma velocidade ainda maior do que a do vôo anterior. O ar
se tornou cada vez mais agoviante e o calor se tornou insuportável em
certo momento. De longe apareceu um astro incandescente que foi pouco
a pouco ficando maior. Sem interromper para nada nosso vôo,
atravessamos uma zona iluminada por uma luz violácea, e cada vez sentíamos
mais que nos queimava o fogo que emanava daquele gigantesco planeta.
Dirigimo-nos até ele. Um pouco mais e o alcançaríamos. E pareceu-me
que o céu oscilava e se agitava como se respirasse; o próprio
planeta não me pareceu denso como nossa terra, e sim composto de gás
denso, extremamente incandescente. Contudo,
quando descemos sobre o planeta, convenci-me que em parte minhas
suposições estavam erradas: de fato, aqui e ali havia também terra
firme sobre a qual vagavam luzes estranhas; do alto chovia uma
estranha claridade Láctea, ao redor reinava a tristeza e do solo
ardente saía um calor indizível que sufocava. “–
Nem sequer aqui existe a felicidade - disse meu companheiro. A
felicidade aqui não existe. Os espíritos do mal trazem aqui as almas
dos pecadores para fazer-lhes sofrer novas e mais refinadas torturas,
mais dignas de seus pecados.” Por
todos os arredores reinava o caos e, entre o rumor dos elementos
enfurecidos, ouvia-se um gemido triste semelhante ao lamento de muitas
vozes. E
apareceu diante dos meus olhos uma ladeira plana que descia até um
lago, que parecia de estanho fundido. Por todos os arredores voavam
insetos venenosos de aspecto repugnante, de cujas picadas os pecadores
buscavam refúgio escapando pelas rochas ao redor.
Alguns
pecadores eram seguidos de demônios que, providos de poderosos açoites
os açoitavam, entravam nas cavernas, mas em seguida se viam obrigados
a sair delas e corriam maltratados e famintos em direção ao lago
ardente, onde se precipitavam chorando e gritando: “–
Onde estás, ó morte? Ó
morte, amiga desconhecida!” Mas
a morte não existe, só a vida existe, vida eterna de alegria para os
homens piedosos, vida eterna de tormento para os pecadores. E aqueles
miseráveis continuavam retorcendo desesperadamente as mãos,
invocando em sua loucura a morte inexistente. II Depois
de ter observado tudo isto, começamos a descer. Aos pés da margem
escarpada, descobrimos enormes cavernas, escavadas entre as rochas. Duas
das mais amplas tinham a entrada obstruídas por penhascos, e delas saíam
um ruído ensurdecedor, gritos selvagens, uivos bestiais e assobios
estridentes. Que
agitado era aquele recinto infernal! Aqui e ali, vi espalhados
arbustos cobertos de espinhos, de lodo viscoso e tufo negro; também
havia alguma árvore sem folhas. Sobre nossas cabeças passavam voando
horríveis monstros, que contribuíam a tornar o panorama mais
sinistro. “–
Hoje – disse-me o companheiro - Satanás celebra no inferno seu
banquete anual. Guarde bem o que você vir”. E
vi como as entradas das cavernas começaram a abrir-se lentamente.
Delas surgiam línguas de fogo. Alguns
espíritos malignos entraram para tirar aos pecadores mais ferozes,
conhecidos em todo o mundo. “–
Por um compreensível desejo de Satanás – explicou-me o companheiro
– alguns pecadores esperam séculos e séculos antes de poderem
participar nesta festa; outros pelo contrário
são admitidos em seguida. Esta festa se celebra uma vez ao ano e
precisamente no dia em que o Senhor expulsou os anjos maus. Naquele
dia, Satanás, que foi anjo bom até ter a temeridade de rebelar-se
contra Deus, volta a sentir com particular agudeza todo o horror de
sua queda. Nesse dia, ele busca distrair-se como pode, organizando uma
festa em seu tétrico reino. Mas nada pode aliviar seu afã e ele
sofre naquele dia por ter recusado as alegrias do Paraíso e por não
ter domado seu orgulho ante o Senhor.” Logo,
por uma desconhecida força foi lançada para fora da entrada da
caverna uma bela mulher, com os braços estendidos para a frente e seu
cabelo em chamas. Em
seus olhos, de um azul-escuro, parecidos a safiras, ardia uma maldade
inumana; seu cabelo, de um vermelho vivo, estava solto. Toda
recolhida feito um novelo sobre si mesma, desenrolou-se como uma
serpente e escondeu-se, com a cabeça inclinada, próximo à porta. Entre
as chamas, apareceu então outra mulher (1), de cabelo mais negro do
que a noite, como dois enormes carvões brilhavam seus olhos. Lenta
e majestosamente, dirigiu-se à outra mulher que, chorando e tremendo,
havia se escondido em uma sinuosidade da rocha junto à entrada
infernal e, colocando uma mão na cabeça, ficou imóvel naquela
postura. (1)
Este mulher pode ser identificada como uma rainha da Rússia, mulher
devassa e depravada, verdadeira Messalina, que era capaz de enfileirar
20 soldados por dia, todos os dias, para manter relações com ela.
Chegava a fazer isso por até 36 horas ininterruptas, apenas para se
considerar com mais furor uterino que as mais terríveis prostitutas
dos arredores de Moscou. E
desde a caverna vizinha saiu um velho alto, todo encurvado com uma
grande barba branca e sobrancelhas espessas(2). Caminhava
sem pressa, dirigindo-se até a parte oposta onde se encontravam as
duas mulheres. Chegando a certo ponto, deteve-se. Sua aparição não
despertou surpresa alguma entre os espíritos infernais, mas não se
aproximaram dele. E ele, levantando a cabeça, olhou ao redor. Tudo
nele mostrava uma forte determinação; seus olhos expressavam uma
inteligência incomum, mas ao mesmo tempo uma tristeza resignada em
uma profunda pena. Inclinou a cabeça no silêncio e a barba branca
cobriu todo o seu peito. Depois
dele, arrastado pelas mãos por uma manada enfurecida de demônios e
com sinais de golpes nas costas, apareceu um homem mais velho, de
estatura baixa, era robusto, tinha a cabeça calva e grande (3). Os
espíritos malignos o golpeavam furiosamente sobre o rosto,
gritando-lhe nos ouvidos: “– Você que não
acreditava em nada? Você que pensava que a vida só existia na terra
e arruinava sua pátria, atormentava e matava seu próximo sem temor
de um dia prestar contas disso! Agora verá que não é assim! O próprio
Satanás inventará para você os sofrimentos mais atrozes; agora pelo
contrário, te levarão a inclinar-se ante ele!” (2)
Pelas descrições a seguir ele será indicado como o ateu Karl
Marx. (3)
Este é mais facilmente identificado com Lênin. E
ele, todo curvado sobre si mesmo e sem opor resistência alguma,
apertava o passo detrás deles. Os
demônios não o arrastaram até os pecadores que o haviam precedido,
sim em direção à abertura de uma caverna situada em frente às
outras. Naquele mesmo instante, do interior da caverna,
elevou-se um terrível rumor, um espantoso grito misturado com risos
selvagens e assobios estridentes. De vez em quando, entre todo aquele
bulício, elevava-se um gemido longo e piedoso. Eu
olhei atentamente naquela direção, também os pecadores tinham o
olhar fixo sobre aquela entrada. E
dela saiu uma multidão de certos seres horríveis que se contorciam;
pouco tinha de aparência humana, acuados pelos golpes. Assim
se aproximaram ao pecador calvo e lançaram-no aos pés ao recém-chegado;
este se levantou olhando ao seu redor com ar aturdido e sempre
tremendo, pôs-se ao lado do homem calvo. Tinha a cara estreita, com
cavidades e pômulos salientes, um nariz muito fino, era de estatura
um pouco mais alta que a média. O
velho levantou a vista e o olhou com arrepios enquanto os dois
pecadores, com indescritível desdém, voltaram-lhes as costas. Naquele
momento, escutei aproximar-se de cada lado um ruído, primeiro apenas
perceptível, depois cada vez mais forte. O
ruído mudou depois para um bater de asas. Uma
multidão de espíritos horríveis voadores se aproximaram lentamente
dos pecadores, e diante de mim se formou um emaranhado vivente que se
levantou e logo se precipitou vertiginosamente para baixo,
desaparecendo entre as trevas. Diante
das cavernas ficou tudo deserto, as horríveis portas estavam
fechadas, já nem se via um pecador ou um demônio. Caminhamos
ainda mais, e de repente surgiu ante nós uma coluna alta de fogo, da
qual nos aproximamos. Parecia-me
que aquela coluna, como um farol luminoso, dissiparia também a
lembrança dos horrores vistos, e que encontraríamos lugares mais pacíficos,
porém eu esquecia que no inferno não pode haver
paz nem tranqüilidade. E, de fato, a coluna de fogo dissipou minhas
esperanças, não vimos paz nem felicidade, e sim um espetáculo ainda
mais horrendo nos foi apresentado. Quando
estivemos perto, vi que o negro e horrível abismo
estava agitado como por um violento temporal, nuvens acesas exalavam
vapores de enxofre, e pouco depois nos encontramos entre as chamas de
um lago de fogo onde se moviam sombras. Ó
que grande era seu desespero, que grande e terrível seu tormento! Os
demônios íam aos milhares daqui para lá entre elas, como se
chegassem desde longe para contemplar avidamente as linhas sinuosas e
retorcidas das imagens incorpóreas entre os rubros da chama púrpura.
Mas nós, sem nos determos, passávamos voando mais longe, encontrando
sempre novas sombras. “–
Agora – disse-me o companheiro - você deve ficar novamente só.
Seja corajosa e não tenha medo ainda que lhe ocorresse algo
incomprensible. No mais se qualquer perigo lhe ameaçar, eu virei
sempre a tempo.” Dito isto, desapareceu. III Observando
as torturas dos pecadores que se encontravam entre as chamas e
sentindo um calor quase insuportável, sentia-me assombrada que o fogo
infernal não queimasse tudo e a todos. Era evidente que o fogo não
podia destruir e queimar os pecadores que se encontravam entre as
chamas, como tivera feito com homens comuns, ou mesmo o próprio fogo
era de tal natureza que, ainda procurando tormentos inenarráveis, era
impotente para destruir tudo. Ao
instante me chegou ao ouvido o eco de um coro montanhês. Escutei com
maior atenção e pareceu-me que aquele canto vinha de algum lugar
debaixo da terra. Diante de mim começava uma baixada. Em todos os
arredores nas rochas havia fissuras muito profundas. A dois passos de
distância não se via, porém abaixo brilhavam luzes e quanto mais
descia mais se ouvia o canto de um coro que, ao julgar pelas vozes,
devia ser muito numeroso, mas muito desafinado. E cada vez se faziam
mais vivos os fogos. Finalmente, depois de uma descida que parecia não
ter fim, encontrei-me em uma planicie imensa e completamente deserta,
rodeada de montes que se erguiam assumindo as mais estranhas e fantásticas
silhuetas que mente humana jamais tenha podido imaginar. Na
base dos montes cresciam estranhíssimas plantas espinhosas, que
agitavam os ramos como se fossem tentáculos. Pela
esquerda apareceu um charco rodeado de uma zona de musgo negro, que se
movia também, parecia suspirar. Pouco
depois cheguei a outro charco mais, não longe de mim observei um
estreito feixe luminoso e, aproximando-me, descobri uma grande greta e
uma nova baixada que conduzia à misteriosa luz. Segui por aquele novo
caminho e comecei a descida por aquele abismo, cheio de mistérios e
incertezas, e que parecia não ter fim. À
medida que caminhava, dava-me conta de que o sendeiro se convertia em
um longo caminho ao final do qual havia uma porta que dava acesso a um
lugar desconhecido para mim. Daí saía um oceano de luz ofuscante e
ouvia-se ainda mais forte o canto que se fazia cada vez mais ressoante
e que, de vez em quando, era interrompido por gritos ensurdecedores. Recorri
depressa aquela zona e encontrei-me na entrada, onde fui cegada por inúmeras
luzes. Vi
uma sala imensa na qual se entrava por milhares de portas. No
meio havia uma grande extensão livre, semelhante à arena de um
circo. No centro daquele espaço se levantava um magnífico trono, mas
extremamente tétrico. Um teto negríssimo, em forma de cúpula, com
reflexos metálicos, completava a uma grande altura, aquela sala. Ao
redor do trono se moviam, sem fazer ruído algum, sombras negras de
formas terríveis e horripilantes. Em todo os arredores havia um
grande anfiteatro para os pecadores dos quais ali havia uma grande
multidão. Parecia
que todo o anfiteatro havia sido um grande formigueiro e de todas as
partes se podia ver com toda claridade o trono que se elevava no
centro da arena. Ao
redor elevavam-se gigantescas colunas luminosas que iluminavam todo o
ambiente com uma luz sinistra. À
esquerda do trono, meio caída por terra, estava uma belíssima
mulher, e o negro do trono fazia um esplêndido contraste de cores com
o vermelho-cobre de seu cabelo, excitante como a seda. Delicada e
graciosíssima, assemelhava-se a uma estatueta saída das mãos de um
escultor genial. À
direita do trono estava, pelo contrário, uma
mulher de olhos negros e de porte soberbo; seu cabelo harmonizava
perfeitamente com o trono escuro, enquanto que seus olhos ardentes
brilhavam de ódio e de maldade e pareciam lançar chamas. Estava
radiante em sua atitude altiva e em seu desprezo pelos milhares de
olhos que estavam dirigidos a ela. E
não se parecia nem sequer a uma estatueta qualquer, podia-se dizer
que era a esfínge de uma mulher de sangue real, plasmada por um
artista imortal. Eu
reconheci sem esforço algum as mulheres que havia visto retiradas das
cavernas para a festa de Satanás. Quase
toda a arena em frente do trono estava agitada com os pecadores. Não
eram, entretanto, pecadores normais nem para eles estava reservado o
anfiteatro, sim aqueles que haviam manchado sua existência terrestre
com os pecados mais infames. Encontravam-se todos reunidos em um
lugar, sem distinção de posição ou de fortuna. O pecado havia
igualado a todos. Vi
também o repugnante velho calvo e seu discípulo, aquele de tipo
polonês, uma verdadeira besta humana. Um
pouco separado estava o velho grisalho cujo rosto denotava uma
tristeza invencível e uma dor infinita, parecia que recordasse as
palavras do Evangelho: “Porém quem escandalizar a um destes
pequenos que crêem em mim, melhor seria que pendurasse uma pedra de
moinho ao redor do pescoço e fosse atirado ao mar”, e parecia
que só agora tivesse compreendido o significado daquelas palavras. De
repente, sentiu-se uma grande sacudida subterrânea, a terra tremeu,
tudo balançou e as colunas iluminadas ainda mais resplandecentes.
Depois se desencadeou um furacão, ao que seguiu um coro de lamentos e
de gemidos. E
entre numerosos aplausos dos demônios e entre gritos irracionais
apareceu subitamente Satanás, todo envolto em nuvens de fumaça muito
densa. Iluminado
por uma luz sinistra, com o olhar fixo, perdido no espaço, riu forte
e maldosamente e naquela risada havia algo terrível, de tal modo que
todos os pecadores se voltaram para ele e olharam-no com terror,
privados já de vontade, sem força e sem qualquer esperança de salvação.
O trono de Satanás estava rodeado de uma multidão de espíritos
malvados cujos olhares ferozes aterrorizavam. Entoaram seu canto
infernal, em cada palavra do qual havia o eco de uma ameaça e en cada
frase a promessa de novas e inenarráveis torturas. Este canto enchia
as almas dos pecadores de terror sem limites, mas os demônios
cantavam cada vez mais forte e Satanás parecia se satisfazer com este
canto porque sorria maldosamente. Diante
do trono, entre as filas de pecadores, havia muitos que na terra
tinham sido famosos por sua sabedoria e erudição, mas que no inferno
já não havia necessidade de tudo isto, eles não se distinguiam em
nada dos outros, e pelo contrário, como eles, tremiam ao escutar o
canto infernal, ao mesmo tempo não perdiam de vista a Satanás. Satanás
parou de rir. Mas, parecia-se a um homem? Sim, ele se parecia e, ao
mesmo tempo, era um ser completamente diferente,
misterioso e insensível. Toda sua figura mostrava uma incrível
auto-confiança e uma consciência da própria força, mas seu rosto não
mostrava alegria. De
gigantesca estatura, esbelto, bronzeado, tinha um nariz afilado entre
dois grandes olhos negros e profundos, que brilhavam como fogos sob o
arco das sobrancelhas oblíquas e estreitas. Severo
e rogado, sentava-se silenciosamente em seu trono, sobre o qual luzia
uma estrela vermelha de cinco pontas. Mantinha-se
imóvel, como esculpido em bronze, com suas duas asas abertas
semelhantes a tecidos de veludo negro, que se separavam ameaçadoras
por detrás das costas. Suas
belas pálpebras curvadas escondiam a expressão precisa de seus
olhos, mas seu rosto de perfil clássico escondia um pensamento
atormentado. Parecia que naquele dia, aniversário daquele outro em
que há milhares de anos atrás foi expulso por Deus, Satanás
recordasse seu passado, quando também ele era um anjo bom alheio a
todo mal. Seu rosto expresaba um secreto tormento enquanto uma ruga de
longas datass lhe Francia a testa e as gigantescas asas negras
abaixavam cada vez mais até dobrarem detrás dele, como ocorre com
uma bandeira golpeada pela tempestade. Então Satanás levantou as pálpebras e vi seu olhar ameaçador que continha em si um oceano de maldade e de ódio. A multidão de espectadores a fixou: que olhar era aquele! Quanta perfídia e quanto ódio! Assim se ergueu em toda sua estatura gigantesca, em toda sua misteriosa essência o príncipe do mal e do pecado. Interrompemos aqui a narrativa por questão de espaço. O resto segue em outro texto. Não deixe de ler, a festa de Lucifer. Um horror! Fonte: Recados do Aarão
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