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09/11/2007
"Cur faciem
tuam abscondit?...”
(“Por que me
ocultais Vossa Face?” – Jô, 13,24).
Por que motivo
vela-se Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento sob as Espécies
Santas? Sendo difícil habituar-nos ao estado oculto de
Nosso Senhor, precisamos continuamente tornar a esta verdade, pois
devemos crer firme, de forma prática, que Nosso Senhor Jesus
Cristo, embora velado, se encontra real, verdadeira e
substancialmente presente na Santa Eucaristia.
E se assim é, por
que presença tão silenciosa, véu tão impenetrável que
nos levam a exclamar: “Mostrai-nos, Senhor, vossa
Face!”. E, apesar de não ver, de não lhe ouvir as
palavras doces e boas, Nosso Senhor faz-nos sentir sua força,
atrai-nos, conserva-nos respeitosos em sua presença. Se Ele se
mostrasse, e só se mostraria à pessoa amada, que consolação para
nós, que certeza de gozar sua amizade!
II
Pois bem, Nosso
Senhor oculto é mais amável do que se se mostrasse; silencioso,
mais eloqüente do que se falasse, e o que julgamos
ser um castigo, é tão-somente um efeito do seu
Amor e de sua Bondade.
Ah! Vê-lo
seria nossa desgraça. O contraste de suas virtudes e
de sua glória, humilhando-nos, nos faria exclamar: “Que
bom pai e que miseráveis filhos!”. Não
ousaríamos sequer aproximar-nos Dele, a Ele nos mostrar,
enquanto agora, conhecendo apenas sua Bondade, chegamos a Ele sem
receio.
E assim todos
podem vir. Presumindo que Nosso Senhor só aos bons se
patenteasse – pois ressuscitado não se pode deixar ver pelos
pecadores – quem se julgaria bom? Quem não recearia
vir à Igreja, temendo que Jesus cristo, por não o achar bastante
bom, a ele se ocultasse? E então surgiriam as invejas. E só os
orgulhosos, cheios de confiança de si, se chegariam a Nosso Senhor.
Agora, no entanto, todos gozam dos mesmos direitos, todos podem
considerar-se amigos.
III
Não nos havia de
converter a vista da glória? A glória amedronta e
ensoberbece, mas não converte. Os judeus não
ousaram aproximar-se de Moisés iluminado pelo raio divino e, aos pés
do Monte Sinai em fogo, tornaram-se idólatras. Os próprios
Apóstolos, no Tabor, desarrazoaram.
Ah! Jesus,
permanecei velado, melhor é assim. Poderei então aproximar-me
de Vós e, já que não me repelis, poderei
contar com o Vosso amor. Mas sua Palavra, por ser tão
poderosa, não nos havia de converter? Os judeus que, durante três
anos, ouviram a Nosso Senhor, por acaso se converteram? Alguns
poucos. Não é a palavra humana de Nosso Senhor, a que nos é dado
ouvir, que converte, mas sim a palavra da Graça. Ora, Nosso Senhor,
no Santíssimo Sacramento, fala-nos ao coração. Não nos deve isto
bastar, por ser uma palavra verdadeira?
IV
Pudesse eu ao menos
sentir palpitar o Coração de Nosso Senhor, sentir o calor de suas
chamas ardentes que, modificando meu coração,
aumentando-lhe o amor, acabaria por abrasá-lo!
Quando, confundindo
o amor com o sentimento, pedimos a Nosso Senhor para amá-lo,
queremos que Ele nos faça sentir que, de fato o amamos. Quão
triste se assim fosse! Não, o amor é sacrifício, é o dom da
vontade, é a submissão ao bel-prazer divino.
Ora, a virtude
característica da contemplação da Eucaristia e da Comunhão
– união perfeita a Jesus – é a força. A
doçura, sendo passageira, só aquela permanece. E do que carecemos
para lutar contra nós mesmos e contra o mundo, senão de força? A
força é paz.
Não vos sentis
tranqüilos em presença de Nosso Senhor? Prova
cabal de que o amais. Que mais quereis? Se
dois amigos se reúnem e ficam a se olharem um ao outro, dizendo
e redizendo seu amor, perdem seu tempo, pois isso de modo
algum lhes aviva a amizade. Mas, uma vez separados, se
pensarem um no outro, imprimir-se-á reciprocamente na lembrança a
imagem do amigo despertando saudades.
Assim também com Nosso
Senhor. Em três anos de convivência diária com ele, que
fizeram os Apóstolos? Jesus oculta-se para que
ruminemos sua Bondade e suas Virtudes e que o nosso amor,
tornando-se sério, livre dos sentidos, se contente com a força e a
paz de Deus.
(A divina Eucaristia,
extratos dos escritos e sermões de São Pedro Julião
Eymard, edições Loyola, 2002)
Fonte: Recados do Aarão
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