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O CORDEIRO DE DEUS -
Parte 11
Embora já tenhamos lido a parte relativa ao início da vitória de
Cristo, com a Sua descida aos infernos, porque ela de fato aconteceu
antes mesmo da sepultura Dele, faltam ainda as revelações relativas
ao descimento da cruz, e outras mais correlatas, que não constam dos
Santos Evangelhos, mas que podem nos edificar, e melhor proclamar a
dimensão inaudita da vitória do Senhor.
Restam também revelações relativas às artimanhas dos judeus
daquele tempo, em sua bestialidade e ódio extremos contra Jesus
Cristo. Eles, de fato, em sua grande maioria, jamais se conformaram
com a visão redentora de Jesus Messias. E ainda hoje partes
expressivas deles, pugnam – agora talvez mais diabolicamente que
naquele tempo – para conseguirem implantar no mundo um reino
guerreiro que falsamente imaginaram, onde possam comandar a humanidade
inteira como escravos, manobrá-los como bestas ordinárias, tratando
a todos com desprezo e ódio extremos. Sim, eles conseguirão isso,
por alguns poucos dias, é profecia e se cumprirá. Mas a maioria
deles se converterá em tempo, antes que se complete este último
tempo da redenção que estamos vivendo. Deus os ama demais, e não
descansará enquanto eles também não entrarem em Seu repouso.
O jardim e o sepulcro de José de Arimatéia
Esse jardim está situado a cerca de sete minutos do monte Calvário,
perto da porta de Belém, na encosta que vai subindo até os muros da
cidade; é um belo jardim, com grandes árvores e bancos, em lugares
com sombra; de um lado se estende até o muro da cidade, no alto da
encosta. Quem vem da porta ao norte do vale, entrando no jardim, tem
à esquerda o terreno do jardim, que sobe até o muro da cidade; e vê
no fundo do mesmo, à direita, um rochedo isolado, onde é o sepulcro.
Essa porta é de metal, que parece ser cobre e abre em dois batentes
que, abertos, se encostam à parede em ambos os lados; não fica
perpendicular, mas um pouco inclinada para o nicho e quase tocando o
solo, de modo que uma pedra colocada em frente impede de abri-la. A
pedra destinada a esse fim ainda estava fora da gruta e foi colocada
à porta fechada, só depois de depositado o corpo de Nosso Senhor no
sepulcro.
É grande e um pouco arredondada para o lado da porta, porque as
paredes laterais também não estão em ângulo reto. Para abrir os
batentes da porta não é necessário rolar a pedra para fora da
gruta, o que seria bastante difícil, por causa da falta de espaço;
mas passa-se uma corrente, que pende da abobada, através de algumas
argolas, fixas para esse fim na pedra; puxando pela corrente,
levanta-se a pedra, mas mesmo assim, só com esforço de vários
homens se a desloca, encostando-a à parede lateral.
Em frente à entrada da gruta, há no jardim um banco de pedra.
Pode-se subir o rochedo do sepulcro e andar sobre a relva de que é
coberto; de lá se avista justamente o muro da cidade e também o
ponto mais alto de Sião e algumas torres; vê-se também de lá a
porta de Belém, um aqueduto e a fonte de Gion. A rocha no interior da
gruta é branca, com veios vermelhos e pardos. Toda a obra da gruta
foi feita com muito capricho.
O descimento da cruz
Enquanto a cruz ficou abandonada, cercada apenas de alguns guardas,
vi cerca de cinco homens, que, vindo de Betânia, desceram pelos
vales, aproximaram-se do lugar do suplício, olharam para a cruz e
afastaram-se furtivamente; creio que eram discípulos. Havia, porém,
dois homens, José de Arimatéia e Nicodemos, que vi três vezes nos
arredores, examinando e deliberando; uma vez, durante a crucificação,
estavam perto, (talvez quando mandaram comprar as vestes de Jesus da mão
dos soldados).
Mais tarde estavam lá para ver se o povo já se tinha afastado, indo
depois ao sepulcro, para fazer alguns preparativos; do sepulcro
voltaram à cruz, olhando para cima e em redor, como se estudassem as
condições. Fizeram o plano para o descendimento e voltaram à
cidade.
Começaram então a juntar todas as coisas necessárias para o
embalsamamento do corpo. Fizeram os servos levar as ferramentas para
descer o santo corpo da cruz e, além disso, duas escadas, que tiraram
de uma granja, perto da casa grande de Nicodemos; cada uma dessas
escadas constava apenas de uma estaca, atravessada, de distância em
distância, por paus, que serviam de degraus; havia nessas escadas
ganchos, que se podiam fixar mais alto ou baixo, seja para prendê-las
em qualquer parte, seja para pendurar neles algum objeto necessário,
durante o trabalho.
A boa mulher em cuja casa receberam as especiarias para o
embalsamamento tinha-lhes empacotado tudo muito bem, para poderem
transportá-las comodamente. Nicodemos comprara 100 arráteis de
especiarias, que, segundo o nosso peso, equivale aproximadamente a 16
quilos, como me foi revelado várias vezes. Transportavam parte dessas
especiarias em pequenos barris de cortiça, que lhes pendiam do pescoço
sobre o peito. Um desses barrizinhos continha um pó.
Em bolsas de pergaminho ou de couro levaram pequenos molhos de ervas.
José levou também um vaso de ungüento, feito não sei de que
material; era vermelho e tinha um aro azul. Os servos, como acima já
mencionamos, tinham levado numa padiola: vasos, odres, esponjas e
ferramentas. Levaram também fogo, numa lanterna fechada.
Esses servos saíram para o Calvário antes dos senhores e por uma
outra porta, creio que pela de Belém. No caminho pela cidade,
passaram pela casa à qual tinha ido a Santíssima Virgem, com outras
mulheres e com João, afim de buscar algumas coisas necessárias para
o embalsamamento do corpo do Senhor e donde saíram, seguindo os
servos à pouca distância. Eram talvez cinco mulheres, algumas das
quais transportavam grandes fardos de panos sob os mantos. (...)
José de Arimatéia e Nicodemos também tinham se vestido de luto: as
mangas, estolas e cinta larga eram pretas; os mantos, que traziam
puxados sobre a cabeça, eram longos e largos e de cor cinzenta.
Cobriram tudo que transportavam com esses mantos. Ambos se dirigiram
à porta do Calvário.
As ruas estavam desertas e silenciosas; no terror geral todo o povo se
conservava em casa, com as portas fechadas. Muitos estavam prostrados
por terra, fazendo penitência; só poucos celebraram as cerimônias
prescritas para a festa. Quando José e Nicodemos chegaram à porta,
encontraram-na fechada e as ruas vizinhas, como os muros da cidade,
ocupados por numerosos soldados; eram aqueles que os fariseus tinham
requerido, depois de duas horas da tarde, porque temiam uma insurreição.
Os soldados ainda não tinham recebido ordem de retirar-se. José
apresentou-lhes uma ordem escrita de Pilatos para os deixar passar; os
soldados mostraram-se prontos a obedecer à essa ordem, mas
disseram-lhes que já haviam experimentado em vão abrir a porta, que
provavelmente se deslocara em conseqüência do terremoto; por isso
foram também os carrascos obrigados a entrar pela porta Angular,
depois de quebrar as pernas dos crucificados. Mas, quando José e
Nicodemos puseram as mãos nos ferrolhos, abriu-se a porta com toda a
facilidade, com assombro de todos.
O dia ainda estava sombrio, escuro e nebuloso, quando chegaram ao Calvário,
onde encontraram os servos que tinham mandado adiante, como também as
santas mulheres, que estavam sentadas em frente à cruz, chorando. Cássio
e vários soldados que se tinham convertido, estavam como
transformados e mantinham-se à alguma distância, tímidos e
respeitosos. José e Nicodemos falaram com a Santíssima Virgem e João
a respeito de tudo que tinham feito, para salvar Jesus da morte
ignominiosa e souberam que só com dificuldade se havia impedido que
as pernas de Nosso Senhor fossem quebradas e que assim se tinha
cumprido a profecia. Falaram também do golpe da lança, com a qual Cássio
abrira o peito de Jesus. Depois de ter chegado também o centurião
Abenadar, começaram, com muita tristeza e respeito, a obra piedosa do
descendimento e embalsamamento do santo corpo do Senhor, Mestre e
Redentor.
A santíssima Virgem e Madalena estavam sentadas ao pé da cruz, à
direita, entre a cruz de Dimas e a de Jesus; as outras mulheres
estavam ocupadas em arrumar as especiarias e os panos, a água, as
esponjas e os vasos. Cássio também se aproximou, quando viu Abenadar
chegar e contou-lhe a miraculosa cura de seus olhos. Todos estavam
comovidos, cheios de tristeza e amor, mas graves e silenciosos. Às
vezes, quando a pressa e atenção à obra santa o permitiam, se ouvia
cá e lá, um gemido abafado ou soluço. Sobretudo Madalena, muito
exaltada, abandonava-se inteiramente à dor e não se lembrava dos
presentes, nem se moderava por qualquer consideração.
Nicodemos e José encostaram as escadas por detrás da cruz, levando,
ao subir, um pano largo, no qual estavam presas três largas correias,
prenderam o corpo de Jesus, sob os braços e joelhos, ao lenho e
seguraram os braços de Nosso Senhor, atando-os pelos pulsos aos
madeiros transversais.
Depois tiraram os cravos, batendo-os por detrás com ponteiros
colocados sobre as pontas. As mãos do Senhor não foram muito
abaladas pelos golpes do martelo e os cravos caíram facilmente das
chagas, que estavam muito alargadas pelo peso do corpo e esse, seguro
por meio dos panos, não pendia mais dos cravos. A parte Inferior do
corpo que, com a morte, tombara sobre os joelhos, repousava então, em
posição natural, sobre um pano, que estava seguro no alto, aos braços
da cruz.
Enquanto José tirava o cravo e deixava cair cuidadosamente o braço
esquerdo sobre o corpo, atou Nicodemos o braço direito do mesmo modo
ao da cruz, segurando também a cabeça coroada de espinhos em posição
natural, pois caíra sobre o ombro direito; tirou o cravo da mão
direita e fez descer o braço, com as respectivas ataduras, ao longo
do corpo. Ao mesmo tempo o centurião Abenadar tirou, com grande esforço,
o longo cravo dos pés.
Cássio apanhou respeitosamente os cravos e depositou-os aos pés da
Santíssima Virgem. José e Nicodemos colocaram então as escadas no
lado da frente, próximo do santo corpo, desataram a correia superior
do tronco da cruz e sucessivamente as correias, pendurando-as nos
ganchos da escada. Descendo então devagar das escadas e passando as
correias de gancho em gancho, cada vez mais para baixo, vinha também
o santo corpo descendo gradualmente para os braços do centurião
Abenadar, que de pé sobre um escabelo, segurou o corpo sobre os
joelhos e desceu depois com ele enquanto Nicodemos e José, segurando
a parte superior pelos braços, desciam degrau por degrau das escadas,
devagar e com todo cuidado, como se transportassem um amigo querido,
gravemente ferido. Assim desceu o santo e desfigurado corpo do
Salvador da cruz à terra.
O descendimento do corpo da cruz foi um espetáculo indizivelmente
tocante. Faziam todos os movimentos com tanto cuidado e carinho, como
se receassem causar sofrimento ao Senhor; manifestavam ao santo corpo
o mesmo amor e respeito que tinham sentido para com o Santo dos
santos, durante a vida. Todos que estavam presentes, não desviavam os
olhos do corpo do Senhor e acompanhavam todos os movimentos e
manifestavam solicitude, estendendo os braços, derramando lágrimas
ou por outros gestos de dor.
Mas todos guardavam silêncio; os homens que trabalhavam, penetrados
de um respeito involuntário, como quem toma parte num ato religioso,
só falavam à meia voz, para chamar a atenção ou pedir qualquer
objeto. Quando ressoaram as marteladas que fizeram sair os pregos,
Maria Santíssima, Madalena e todos que tinham assistido à crucificação
sentiram de novo as dores dilacerantes daquela hora; pois esses golpes
lhes lembravam as dores cruéis de Jesus causadas pelas marteladas e
todos estremeceram, pensando ouvir-Lhe novamente os gemidos
penetrantes e, contudo se afligiam de que a santa boca Lhe houvesse
emudecido, no silêncio da morte. Depois de descer o santo corpo, os
homens o envolveram dos joelhos até os quadris e depositaram-no sobre
um pano, nos braços da Mãe Santíssima, que lhos estendeu, cheio de
dor e saudade.
O corpo de Jesus é preparado para a sepultura
A Santíssima Virgem estava sentada sobre uma coberta, estendida
sobre a terra; o joelho direito, um pouco elevado, como também as
costas, apoiavam-se-lhe sobre uma almofada, feita de mantos enrolados;
fizeram esse arranjo para facilitar à Mãe, exausta de dor e cansaço,
a triste obra de caridade que ia fazer, para com o santo corpo do
Filho querido, cruelmente assassinado.
A santa cabeça de Jesus, um pouco curvada, estava encostada ao joelho
de Maria; o corpo jazia estendido sobre o pano. Igualavam-se a dor e o
amor da Virgem Santíssima. Tinha de novo nos braços o corpo do Filho
adorado, a quem durante tão longo martírio não pudera testemunhar
seu amor; via quanto estava desfigurado o santo corpo, pelas horríveis
crueldades, via-lhe de perto as feridas, beijava-lhe as faces
sangrentas, enquanto Madalena jazia prostrada por terra, com o rosto
sobre os pés de Jesus.
Os homens retiraram-se então para um pequeno vale, situado a
sudoeste, na encosta do Calvário, onde tencionavam terminar o
embalsamamento e arrumaram tudo quanto era necessário para esse fim.
Cássio, com um grupo de soldados que se tinham convertido,
mantinha-se a respeitosa distância; toda a gente inimiga do Mestre
tinha já voltado para a cidade e os soldados ainda presentes ficaram
para servir de guarda e impedir que alguém viesse perturbar as últimas
honras prestadas a Jesus. Alguns ajudavam, comovidos e humildes,
prestando pequenos serviços, quando lhes pediam.
Todas as santas mulheres ajudavam, onde era preciso, passando os vasos
com água, esponjas, panos, ungüentos e especiarias ou mantinham-se
atentas a certa distância. Entre elas se achavam Maria, filha de
Cleofas, Salomé e Verônica; Madalena estava sempre ocupada com o
santo corpo; Maria Helí, a irmã mais velha da Santíssima Virgem,
senhora já idosa, estava sentada silenciosa, João estava sempre ao
lado da Santíssima Virgem, pronto a prestar-lhe qualquer auxílio;
era o mensageiro entre as mulheres e os homens; ajudava àquelas e
depois prestou também muitos serviços aos homens, durante o
embalsamamento.
Estava tudo muito bem preparado; as mulheres trouxeram odres de couro,
que se podiam abrir e dobrar e um vaso com água, que estava sobre uma
fogueira de carvão. Trouxeram à Maria e à Madalena tigelas com água
e esponjas limpas, espremendo as usadas e despejavam a água usada nos
odres de couro. Creio, pelo menos, que os chumaços redondos que as vi
espremerem, eram esponjas.
A Santíssima Virgem conservava um ânimo forte, em toda a sua indizível
dor; mesmo em sua tristeza não podia deixar o santo corpo no horrendo
estado em que o pusera o ignominioso suplício e assim começou, com
atividade infatigável, a lavá-lo cuidadosamente. Abrindo a coroa de
espinhos pelo lado posterior, tirou-a cuidadosamente da cabeça de
Jesus, com auxílio dos outros.
Para que os espinhos que entraram na cabeça, não alargassem as
feridas, foi preciso cortá-los um a um da coroa. Colocaram depois a
coroa junto aos cravos, ao lado, e Maria tirou alguns espinhos
compridos e fragmentos que tinham ficado na cabeça do Salvador, com
uma espécie de pinças curvas e elásticas, de cor amarela e
mostrou-os tristemente aos amigos compassivos. Puseram os espinhos
junto à coroa; mas é possível que alguns fossem guardados como
lembrança.
Quase não se podia mais reconhecer o rosto do Senhor, tão
desfigurado estava pelas feridas e pelo sangue. O cabelo e a barba, em
desalinho, estavam completamente colados pelo sangue. Maria lavou-lhe
o rosto e a cabeça, passando esponjas molhadas sobre o cabelo, para
tirar o sangue que secara.
À medida que lavava, tornavam-se mais visíveis os efeitos do cruel
suplício, causando cada vez novas manifestações de compaixão,
novos cuidados, de ferida em ferida. Maria limpou-lhe as feridas da
cabeça, lavou o sangue dos olhos, das narinas e dos ouvidos, com uma
esponja e um pequeno lenço, estendidos sobre os dedos da mão
direita; com esse limpou também a boca entreaberta, a língua, os
dentes e os lábios de Nosso Senhor.
Dispôs o pouco que restava da cabeleira de Jesus em três partes, uma
para cada lado e uma para o lado posterior da cabeça e depois de
alisar os cabelos de ambos os lados, fê-los passar por trás das
orelhas. Quando acabou de limpar a cabeça, deu-Lhe um beijo na face e
cobriu o santo rosto. Dirigiu então os cuidados ao pescoço, aos
ombros, ao peito e às costas do santo corpo, aos braços e às mãos
laceradas e sangrentas.
Ai! Então se viu toda a horrenda dilaceração do santo corpo. Todos
os ossos do peito e todas as articulações estavam deslocadas e
tornaram-se inflexíveis; o ombro sobre o qual Jesus transportou a
pesada cruz, era uma grande chaga; toda a parte superior do corpo
estava coberta de feridas e pisaduras, causadas pela flagelação; no
lado esquerdo se via uma ferida pequenina, onde saíra a ponta da lança
e no lado direito se abria a larga chaga feita pela mesma lança, que
também lhe traspassou o coração de lado a lado.
Maria Santíssima lavou e limpou todas essas feridas. Madalena,
prostrada de joelhos, ficava-lhe às vezes em frente, para a ajudar,
mas quase sempre estava aos pés de Jesus, os quais lavou então pela
última vez, mais com as lágrimas do que com água, enxugando-os com
o cabelo.
A cabeça, o peito e os pés do Senhor foram assim limpos do sangue e
de toda a imundície; o corpo, de um branco azulado, com o brilho de
carne exangue, coberto de manchas pardas e de outros lugares
vermelhos, onde a pele fora arrancada repousava sobre os joelhos de
Maria, que lhe envolvia os membros lavados e se pôs a embalsamar
todas as feridas, começando novamente pela cabeça.
As santas mulheres ajoelhavam-se alternadamente diante dela,
apresentando-lhe um vaso, do qual, com o indicador e o polegar da mão
direita, tirava um bálsamo ou ungüento precioso, com que ungia e
untava todas as feridas. Derramou também ungüento sobre o cabelo; vi
que, segurando as mãos de Jesus com a mão esquerda, as beijou
respeitosamente e encheu as largas chagas dos cravos com o mesmo ungüento
ou as mesmas especiarias de que enchera os ouvidos as narinas e a
chaga do lado. Madalena estava quase todo o tempo ocupada com os pés
de Jesus, ora enxugando e untando-os, ora banhando-os novamente com as
lágrimas; muitas vezes apoiava neles o rosto.
Vi que não despejavam fora a água usada, mas guardavam-na nos odres
de couro, nos quais também espremiam as esponjas. Vi diversas vezes
que Cássio e outros soldados foram buscar água à fonte de Gion, em
odres e jarros, que as mulheres tinham trazido; essa fonte de Gion
estava tão perto, que se podia enxergá-la do jardim do sepulcro.
Quando a Santíssima Virgem acabou de untar todas as feridas, envolveu
a santa cabeça em faixas; mas ainda não pôs o lenço que devia
cobrir-lhe o rosto. Fechou-lhe os olhos entreabertos, pousando sobre
eles a mão por algum tempo; fechou também a boca do Senhor, abraçou
o santo corpo do Filho e, chorando, deixou cair o rosto sobre o de
Jesus. Madalena, pelo grande respeito que tinha ao Senhor, não lhe
tocou no semblante, mas apenas descansou o rosto sobre os pés do
santo corpo.
José e Nicodemos já tinham estado por algum tempo perto, esperando,
quando João se aproximou da Santíssima Virgem, pedindo que se
separasse do corpo de Jesus, para que o pudessem preparar para a
sepultura, porque o sábado já estava perto. Maria abraçou mais uma
vez, com o maior fervor, o corpo do Filho adorado, despedindo-se dele
com palavras comoventes.
Então levantaram os homens o santo corpo no pano em que jazia, sobre
os joelhos da Mãe Santíssima e levaram-no para o lugar do
embalsamamento. A Virgem Santíssima, novamente entregue à dor, para
a qual tinha achado alguma consolação nos piedosos cuidados, caiu,
com a cabeça velada, nos braços das mulheres; Madalena, porém,
seguiu os homens, correndo-lhes alguns passos atrás, com os braços
estendidos, como se lhe quisessem raptar o Amado, mas voltou depois
para junto da SS. Virgem.
Levando o santo corpo, os homens desceram um pouco do alto do Gólgota,
para um lugar, numa dobra da encosta, onde havia uma pedra chata e
lisa, própria para esse fim. Ali já tinham feito todos os
preparativos para o embalsamamento. Vi primeiro, ali estendido, um
pano trabalhado a crivo, semelhante à uma rede, como que feita de
rendas; parecia-se com o grande pano de fome, que se pendura em nossas
igrejas.
Quando criança pensava eu sempre, ao ver esse pano, que era o mesmo
que vi no embalsamamento do Senhor. Provavelmente tinha o feitio de
uma rede, para deixar escorrer a água, ao lavar. Vi mais um pano
grande, estendido sobre a pedra. Deitaram o corpo do Senhor sobre o
primeiro e alguns seguravam o outro por cima. Nicodemos e José de
Arimatéia ajoelharam-se e desataram, sob essa coberta, o lençol em
que tinham envolvido o ventre do Senhor, ao descê-Lo da cruz.
Depois tiraram também do santo corpo a cinta que Jonadab, sobrinho do
pai nutrício do Salvador, lhe trouxera antes da crucifixão. Lavaram
então o ventre do Senhor com esponjas, sob o pano com que o cobriam,
com piedoso recato e que o tornava invisível aos seus olhos. Coberto
ainda com o pano, levantaram-nO depois, por meio de outros panos,
passados sob os braços e joelhos e assim lhe lavaram também as
costas, sem virar o corpo.
Continuavam a lavar, até que a água espremida das esponjas
escorria clara e limpa. Depois o lavaram ainda com água de mirra e vi
que depuseram o santo corpo sobre a pedra, estendendo-o
respeitosamente com as mãos, dando-lhe uma posição reta, pois o
meio do corpo e as pernas estavam ainda um pouco curvas, entesadas, na
posição em que se encolhera, morrendo.
Puseram-Lhe então sob os lombos um pano da largura de um côvado
e cerca de três côvados de comprimento, enchendo-lhe o seio de
molhos de ervas, - como vejo às vezes em banquetes celestes, ervas
verdes em pratos de couro, com borda azul, - e de fibras finas e
crespas de plantas parecidas com açafrão e sobre tudo isso
espalharam um pó fino, que Nicodemos trouxera num vaso.
Envolveram depois o ventre, com todas essas especiarias, no pano,
puxaram uma parte deste, por entre as pernas, para cima e fixaram-na
sobre o ventre, fazendo entrar a extremidade do pano por baixo do
cinto. Depois de O ter deste modo envolvido, ungiram todas as chagas
das coxas, cobriram-nas de especiarias, puseram molhos de ervas entre
as pernas, até os pés e enrolaram as pernas junto com as ervas, de
baixo para cima.
Então foi João chamar a Santíssima Virgem e as outras santas
mulheres. Maria ajoelhou-se ao lado da cabeça, colocando sob essa um
lenço fino, que recebera de Cláudia Prócula, mulher de Pilatos e
que trouxera ao pescoço, sob o manto. Ela e as outras santas mulheres
encheram então os espaços entre a cabeça e os ombros, em redor do
pescoço, até às faces de Jesus, com molhos de ervas, com as fibras
e o pó fino e feito isso, a Santíssima Virgem atou tudo com aquele
pano, envolvendo cabeça e ombros.
Madalena derramou ainda um frasco inteiro de um líquido aromático na
ferida do lado de Jesus e as santas mulheres puseram-lhe ainda ervas e
especiarias nas mãos e em redor dos pés. Os homens puseram
especiarias nas axilas, na cova estomacal, enchendo todo o espaço em
redor do corpo, cruzaram sobre o seio os santos braços entorpecidos e
envolveram finalmente todo o corpo, junto com as especiarias, no
grande pano branco, até o peito, como se enfaixa uma criança; depois
fizeram entrar sob um dos braços já enfaixados a extremidade de uma
faixa, com a qual enrolaram todo o corpo, levantando-o e começando
pela cabeça.
Feito isto, puseram-no sobre o pano grande, de seis côvados de
comprimento, o qual José de Arimatéia comprara e nele o envolveram.
O corpo jazia obliquamente sobre o pano, do qual dobraram uma
extremidade dos pés até o peito, a outra, de cima, sobre a cabeça e
ombros; com as partes salientes dos lados envolveram o meio do corpo.
Todos se ajoelharam então em redor do corpo, para se despedirem,
chorando e eis que um milagre comovente se lhes deparou ante os olhos:
Toda a figura do santo corpo, com todas as feridas, apareceu na superfície
do pano que o cobria, desenhado em cor vermelho-escura, como se Jesus
quisesse recompensar-lhes os cuidados carinhosos e a tristeza,
deixando-lhes o retrato, através de todo o invólucro.
Chorando alto, abraçaram o santo corpo, beijando e venerando a
milagrosa imagem. A admiração de que estavam possuídos, era tão
grande, que de novo abriram o pano e tornou-se ainda maior, quando
acharam todas as faixas e ataduras do corpo brancas como dantes; só o
pano exterior trazia a imagem da figura do Senhor.
A parte do pano sobre a qual jazia o corpo, mostrava o desenho do
dorso do Senhor e os lados do pano que o cobriam, sobrepostos,
apresentavam a imagem da frente, porque na frente estava o pano
dobrado sobre Ele, com vários cantos. A imagem não dava a impressão
de feridas sangrentas, pois todo o corpo estava envolto espessamente
em especiarias, com muitas ataduras; era, porém, uma imagem
milagrosa, testemunho da divindade criadora, que permanecera unida ao
corpo de Jesus.
Vi também muitos fatos da história posterior dessa santa mortalha,
os quais, porém, não sei mais contar na devida ordem. Ela estava,
junto com outros panos, na posse dos amigos de Jesus, depois da
ressurreição. Uma vez vi que foi arrancada à uma pessoa, que a
levava sob o braço. Vi-a duas vezes nas mãos de judeus, mas também
muito tempo em diversos lugares, venerada pelos cristãos. Uma vez
houve uma questão por causa dela e para a terminar, jogaram a
mortalha no fogo, mas foi milagrosamente levada pelos ares e caiu nas
mãos de um cristão.
Foram feitas três cópias da santa imagem, por santos homens, que
puseram outros panos em cima, com fervorosa oração, reproduzindo
assim tanto a figura do dorso, como também a imagem composta da
frente. Essas cópias foram consagradas pelo contato na intenção
solene da Igreja e em todos os tempos têm sido instrumento de muitos
milagres.
O original, eu vi uma vez, um pouco estragado, com alguns rasgões, na
Ásia, venerado por cristãos não católicos. Esqueci o nome da
cidade, que fica situada num vasto país, vizinho da terra dos Reis
Magos. Vi nessas visões também certas coisas de Turim e da França,
do Papa Clemente I e do imperador Tibério, que morreu cinco anos
depois da morte de Cristo; mas esqueci-as.
O enterro
Os homens colocaram o santo corpo sobre a padiola de couro,
cobriram-no com uma coberta parda e enfiaram em cada lado um varal, o
qual me causou uma viva recordação da Arca da Aliança. Nicodemos e
José carregavam as extremidades anteriores dos varais sobre os
ombros; atrás seguravam Abenadar e João. Depois se seguiam a Santíssima
Virgem, sua irmã mais velha, Maria Helí, Madalena e Maria de Cleofas
e após elas, o grupo das mulheres que dantes estavam um pouco mais
afastadas: Verônica, Joana Cuza, Maria Marcos (mãe de Marcos), Salomé
Zebedaei, Maria Salomé, Salomé de Jerusalém, Susana e Ana, sobrinha
de S. José, educada em Jerusalém. Encerravam o séquito Cássio e os
soldados. As outras mulheres, por exemplo Maroni, de Naim, Dina, a
Samaritana e Mara, a Sufamita, estavam então em Betânia, em casa de
Marta e Lázaro.
Dois soldados, com fachos torcidos, iam na frente, pois precisavam de
luz na gruta do sepulcro. Cantando salmos, em tom triste e baixo,
caminharam cerca de sete minutos, através do vale, em direção ao
jardim do sepulcro. Vi na encosta, além do vale, Tiago o Maior, irmão
de João, olhar o cortejo e voltar depois, para o anunciar aos outros
discípulos, refugiados nas cavernas.
O jardim irregular, coberto de relva, que ficava diante do rochedo da
gruta, na extremidade do jardim, era cercado de uma sebe e além desta
tinha na entrada uma cancela, cujas trancas, com gonzos de ferro,
estavam fixas em estacas. Defronte da entrada do jardim, diante do
rochedo do sepulcro, à direita, há várias palmeiras. A maior parte
das outras plantas são arbustos, flores e ervas aromáticas.
Vi o cortejo parar na entrada do jardim e abrir a cancela, tirando
algumas trancas, das quais se serviram depois, como alavancas, para
fazer rolar para dentro da gruta a grande pedra que devia fechar o
sepulcro. Chegando ao pé do rochedo, abriram a padiola e tiraram o
santo corpo, deitando-o sobre uma tábua estreita, coberta de um largo
pano. Nicodemos e José carregaram as duas extremidades da tábua,
enquanto os outros dois seguravam o pano.
A nova gruta sepulcral fora limpa e perfumada pelos criados de
Nicodemos; era bem graciosa e no alto das paredes interiores tinha um
friso esculpido. A cova mortuária era, no lugar da cabeça, um pouco
mais larga do que no lugar dos pés e havia sido escavada na forma côncava
de um cadáver amortalhado, com pequenas elevações no lugar da cabeça
e dos pés.
As santas mulheres assentaram-se em frente à entrada da gruta. Os
quatro homens desceram com o santo corpo do Senhor à gruta, onde o
depuseram no chão; encheram ainda parte do leito sepulcral de
especiarias, estenderam sobre ele um pano, colocando sobre este o
santo corpo. O pano pendia ainda dos lados do sepulcro.
Manifestando ao santo corpo o seu amor com lágrimas e abraços, saíram
da gruta. Entrou então a Santíssima Virgem. Sentou-se à cabeceira
de Jesus, à beira do sepulcro, que tinha cerca de dois pés de altura
e inclinou-se, chorando, sobre o cadáver do Filho. Depois de Maria
Santíssima sair, entrou Madalena, com ramos e flores, que colhera no
jardim e que espalhou sobre o santo corpo.
Torcendo as mãos e chorando alto, abraçou os pés de Jesus. Como,
porém, os homens lá fora insistissem em fechar o sepulcro, voltou
para junto das mulheres. Os homens dobraram sobre o santo corpo a
parte pendente do pano, cobriram tudo com uma coberta parda e fecharam
as portas. Puseram uma barra transversal e uma perpendicular; parecia
uma cruz.
A grande pedra destinada a fechar as portas do sepulcro e que ainda
estava fora da gruta, tinha uma forma semelhante a uma arca ou um
monumento sepulcral; um homem podia deitar-se sobre ela. Era muito
pesada e os homens rolaram-na para dentro da gruta, com auxílio das
trancas tiradas da cancela do jardim e encostaram-na às portas
fechadas do sepulcro. A entrada exterior da gruta foi fechada com uma
porta de ramos entrelaçados.
Todos os trabalhos dentro da gruta foram feitos à luz de fachos,
porque dentro estava muito escuro. Durante o enterro do Senhor, vi vários
homens na proximidade do jardim e do Monte Calvário, que, tímidos e
tristes, andavam de um lado para outro; creio que eram discípulos,
que receberam de Abenadar notícias e, saindo das cavernas,
aproximaram-se através do vale e àquela hora estavam voltando.
A volta para casa, depois do enterro; o sábado; prisão de José
de Arimatéia
Já era a hora em que começava o sábado. Nicodemos e José
voltaram à cidade, passando por uma pequena porta que havia no muro
da cidade, perto do jardim e que, se bem me lembro, lhes era concedida
por favor particular. Disseram à Santíssima Virgem, a João,
Madalena e algumas mulheres que ainda queriam ir ao Monte Calvário,
para rezar e buscar algumas coisas ali deixadas, que essa porta, como
também o portão para o Cenáculo, lhes seriam abertos, se batessem.
Maria Helí, a irmã já idosa da Santíssima Virgem, foi conduzida à
cidade por Maria Marcos e outras mulheres. Os criados de Nicodemos e
José voltaram ao Monte Calvário, para buscar os utensílios que lá
tinham deixado.
Os soldados reuniram-se àqueles que ocupavam a porta que dava para o
Monte Calvário; Cássio seguiu para o palácio de Pilatos, levando a
lança e relatou-lhe tudo que acontecera, prometendo também lhe dar
notícias exatas de tudo quanto ainda sucedesse, se o mandasse
acompanhar a guarda do sepulcro, a qual os judeus, segundo fora
informado, viriam requerer-lhe. Pilatos escutou todas as informações
com um oculto terror, tratou-o, porém, como fanático e com nojo e
medo supersticioso da lança que Cássio trouxera consigo, mandou-lhe
que a levasse para fora da sala.
Quando a Santíssima Virgem e os amigos voltavam com os utensílios do
Monte Calvário, onde ainda tinham rezado e chorado, viram um
destacamento de soldados que lhes vinha ao encontro; retiraram-se então
para os dois lados do caminho, para deixar passar a tropa. Esta se
dirigiu ao Monte Calvário, provavelmente para tirar, ainda antes do sábado,
as cruzes e enterrá-las. Depois de terem passado, as santas mulheres
continuaram o caminho em direção à pequena porta da cidade.
José e Nicodemos encontraram-se na cidade com Pedro, Tiago o Maior e
Tiago o Menor. Todos estavam chorando. Pedro especialmente estava
muito triste, preso de violenta dor; abraçou-os soluçando, acusou-se
a si mesmo, lastimando não ter estado presente à morte do Senhor e
agradeceu-lhes terem dado sepultura ao corpo sagrado. Todos estavam
desvairados de dor. Pediram ainda para serem recebidos no Cenáculo,
quando batessem e despediram-se, para procurar ainda outros discípulos
dispersos.
Vi mais tarde a Santíssima Virgem e as amigas baterem à porta do Cenáculo
e serem recebidas, como também Abenadar e, pouco a pouco, os demais
Apóstolos e vários discípulos. As santas mulheres retiraram-se para
a parte onde habitava a Santíssima Virgem; tomaram um pouco de
alimento e passaram ainda alguns minutos, recordando com tristeza e
dor tudo o que se tinha passado. Os homens revestiram-se de outras
vestes e vi-os começarem o sábado de pé, sob um candeeiro.
Depois comeram ainda carne de cordeiros, em diversas mesas, no Cenáculo,
mas sem cerimônias; pois não era o cordeiro pascal, que já tinham
comido na véspera. Reinava tristeza e desânimo geral. Também as
santas mulheres rezavam com Maria, à luz de um candeeiro. Mais tarde,
quando já escurecera totalmente, foram ainda recebidos Lázaro,
Marta, Maroni, a viúva de Naim, Dina Sumarites e Maria Sufanites, que
depois de começar o sábado, vieram da Betânia e a dor renovou-se
pela narração de tudo que se passara.
Mais tarde saíram José de Arimatéia e alguns discípulos e diversas
mulheres do Cenáculo, voltando para casa; iam tímidos e tristes
pelas ruas de Sião, quando de repente um grupo de homens armados saiu
de uma emboscada, arremessando-se sobre eles e prendendo José de
Arimatéia, enquanto os outros fugiram com gritos de terror. Vi
encarcerarem o bom José numa torre do muro da cidade, não muito
longe do tribunal. Caifás mandara soldados pagãos executarem essa
prisão, porque não eram obrigados a guardar o sábado. Os inimigos
tinham a intenção de deixar José morrer de fome e não falar nesse
desaparecimento.
A guarda no túmulo de Jesus
Na noite de sexta-feira para sábado vi Caifás e os príncipes dos
judeus reunirem-se em conselho, para decidir o que deviam fazer,
diante dos acontecimentos milagrosos e da excitação do povo. Depois
foram ainda durante a noite, procurar Pilatos e disseram-lhe que se
tinham lembrado de que aquele impostor tinha dito, quando ainda vivia,
que no terceiro dia após a morte ressuscitaria; pediam-lhe que por
isso mandasse guardar o sepulcro até o terceiro dia, para que os discípulos
de Jesus não lhe roubassem o corpo, divulgando em seguida que tinha
ressuscitado dos mortos, pois dessa forma seria a segunda impostura
pior do que a primeira.
Pilatos, porém, não quis intrometer-se mais nessa questão e
disse-lhes: “Tendes uma guarda; ide guardar o túmulo como
entenderdes”. Mandou, porém, Cássio acompanhar a guarda e observar
e relatar-lhe depois tudo. Vi os doze fariseus saírem da cidade,
antes do pôr do sol. Os doze soldados que os acompanhavam, não
estavam vestidos à forma romana: eram soldados do Templo e
pareciam-me uma espécie de guarda de corpo. Levaram braseiros, fixos
sobre hastes, para poder ver tudo durante a noite e para ter luz na
escuridão do sepulcro.
Ao chegar, certificaram-se da presença do corpo, amarraram uma corda
à porta do túmulo, dessa corda fizeram passar uma segunda à pedra,
selando essas cordas com um selo semilunar. Depois voltaram à cidade
e os guardas sentaram-se defronte da porta exterior do sepulcro.
Ficavam alternadamente cinco ou seis homens, indo de vez em quando
alguns à cidade, para buscar víveres. Cássio, porém, não deixou o
posto; permanecia em pé ou sentado, no fosso em frente à entrada da
gruta, de modo que podia ver o lado do túmulo fechado, onde
repousavam os pés do Senhor.
Recebeu grandes graças interiores e a inteligência intuitiva de
muitos mistérios; como não estivesse acostumado a tais estados
sobrenaturais, ficava, a maior parte do tempo dessa iluminação
espiritual, como que embriagado, inconsciente das coisas exteriores.
Foi nesse tempo que se converteu inteiramente, tornando-se novo homem;
passou o dia em atos de arrependimento, ação de graças e adoração.
Os amigos de Jesus no Sábado santo
Vi à noite, como já mencionei, os homens reunidos no Cenáculo,
cerca de vinte, de vestes longas, brancas e cingidos, celebrando o sábado,
à luz de um candeeiro e depois de comer, separaram-se para dormir.
Diversos foram para casa. Também hoje os vi reunidos no Cenáculo, na
maior parte do tempo em silêncio, rezando e lendo alternadamente e de
vez em quando deixando entrar alguns que chegavam.
No local onde ficava a Santíssima Virgem, havia uma grande sala e
nessa alguns recantos separados por biombos ou tapetes, para servirem
de quartos de dormir. Depois que as santas mulheres, voltando do
sepulcro, tinham posto todos os utensílios nos respectivos lugares,
acendeu uma delas um candeeiro, que pendia no centro da sala.
Reuniram-se sob este candeeiro, em roda da Santíssima Virgem, rezando
alternadamente, com grande devoção e tristeza.
Depois tomaram algum alimento. Entraram na sala Marta, Maroni,
Dina e Mara, que depois de começar o sábado, tinham vindo de Betânia,
com Lázaro, que se juntou aos homens reunidos no Cenáculo. Contaram
chorando aos recém-chegados a morte e a sepultura do Senhor e como já
era tarde, alguns dos homens, entre os quais José de Arimatéia,
mandaram chamar as mulheres que queriam voltar para suas casas na
cidade e despediram-se. Ao voltar este grupo para casa, José foi
preso, perto do tribunal de Caifás, como já contei e encarcerado
numa torre.
As mulheres que ficaram no Cenáculo, separaram-se então, indo para
as mencionadas celas de dormir; puseram panos compridos sobre a cabeça
e por algum tempo ali permaneceram sentadas no chão, em triste silêncio,
encostadas às cobertas, que estavam enroladas ao pé da parede.
Depois se levantaram, desenrolaram as cobertas, tiraram as sandálias,
cintas e parte do vestuário, velaram-se da cabeça aos pés, como
costumam fazer para dormir e deitaram-se para um curto descanso, sobre
as cobertas estendidas; pois logo depois de meia noite se levantaram
de novo, arrumaram a roupa, enrolaram os leitos e reuniram-se sob o
candeeiro, em roda da Santíssima Virgem, para rezarem alternadamente.
Tenho visto muitas vezes filhos fiéis de Deus e homens santos, desde
que se reza neste mundo, observarem esse costume de orações
noturnas, seja inspirados por uma graça pessoal, seja incitados por
preceitos divinos e eclesiásticos.
Depois da Mãe de Jesus e as amigas terem cumprido esse dever de oração
noturna, apesar dos grandes sofrimentos e depois de terem também os
homens rezado no Cenáculo, à luz do candeeiro, bateu João, com
alguns outros discípulos, à porta da sala das mulheres, que se
envolveram imediatamente nos mantos e os seguiram, junto com a Santíssima
Virgem, ao Templo.
Vi a Santíssima Virgem, as santas mulheres, João e outros discípulos
chegarem ao Templo, quase ao mesmo tempo em que o sepulcro era selado:
cerca de três horas da manhã. Era costume de muitos judeus, de
madrugada, depois de ter comido o cordeiro pascal, irem ao Templo, que
nessa ocasião já era aberto à meia noite, porque começavam os
sacrifícios de manhã muito cedo.
Naquele dia, porém, estava tudo em desordem, pela interrupção da
festa e pela profanação do Templo. Parecia-me que a Santíssima
Virgem, com as amigas, queria somente se despedir do Templo, no qual
tinha sido educada, adorando o Santíssimo, até trazer no seio o próprio
Santíssimo, que agora fora tão cruelmente imolado, como verdadeiro
Cordeiro pascal.
O Templo estava aberto, segundo o hábito desse dia e iluminado por
lampiões e até o átrio dos sacerdotes era acessível ao povo, fora
os guardas e empregados, como de costume nessa manhã. Mas, lá não
havia nenhum fiel. Tudo estava ainda em desordem e devastado pelas
terríveis destruições do dia precedente. O Templo estava profanado
pela aparição de mortos e eu não podia deixar de perguntar a mim
mesma: “Como poderão reparar tudo isto?”
Os filhos de Simeão e os sobrinhos de José de Arimatéia, que
estavam muito tristes com a notícia da prisão do tio, encontraram-se
com a Santíssima Virgem e os companheiros e conduziram-nos por todas
as partes do Templo, do qual eram guardas. Viram silenciosos e
assustados toda a destruição, adorando o testemunho divino; só de
vez em quando os guias descreviam acontecimentos do dia anterior.
Vi em muitos lugares prejuízos causados pelo terremoto da véspera,
que ainda não haviam sido consertados. No ponto onde se juntam o átrio
e o Santo do Templo, havia tão larga fenda no muro, que um homem
podia passar através e havia perigo dos muros caírem. A verga por
cima da cortina, diante do Santo, abaixara, as colunas que a
suportavam, cederam para os lados e a cortina pendia de ambos os
lados, rasgada de cima a baixo, em duas partes.
Pela grossa pedra caída do muro norte do Templo, perto da cela de oração
de Simeão, também destruída, formara-se tão grande abertura, no
lugar onde aparecera Zacarias, que as santas mulheres puderam passar
sem dificuldade e do outro lado, perto da cátedra em que o Menino
Jesus ensinara, ver, através da cortina rasgada, o Santo, o que em
outros tempos era proibido. Também se fenderam aqui e acolá os
muros, afundaram-se partes do solo, umbrais e colunas saíram do
lugar.
A SS. Virgem visitou, com os amigos, todos os lugares que lhe eram
sagrados, pela lembrança de Jesus. Prostrando-se por terra, beijava
os santos lugares, chorando e contava as suas reminiscências, em
poucas palavras comovedoras. Também as companheiras faziam o mesmo.
Os judeus têm grande veneração por todos os lugares onde aconteceu
alguma coisa que lhes parece sobrenatural; tocam e beijam esses
lugares e deitam-se por terra, tocando-a com o rosto. Nunca achei
nisso coisa de admirar. Se sabemos, cremos e sentimos que o Deus de
Abraão, Isaac e Jacó é Deus vivo e mora no meio do seu povo, no
Templo, na sua casa em Jerusalém, devíamos admirar-nos antes, se não
o fizessem. Quem crê em Deus vivo, Pai e Redentor e Santificador dos
homens, seus filhos, não se admira que Ele esteja com amor vivo entre
os vivos e que estes lhe prestem amor, honra e adoração, bem como a
tudo quanto se lhe refere, mais do que aos pais terrestres, amigos,
mestres, superiores e príncipes.
Os judeus sentiam no Templo e nos lugares sagrados o que sentimos
diante do SS. Sacramento. Mas também entre os judeus havia cegos e
“iluminados”, como há também entre nós, que não adoram o Deus
vivo e realmente presente, mas se entregam ao culto supersticioso dos
ídolos deste mundo. Não se lembram das palavras de Jesus: “Quem me
negar diante dos homens, também o negarei diante de meu Pai
Celestial”.
Tais homens, que servem ao espírito e à mentira do mundo, em
pensamentos, palavras e obras, sem interrupção, mas rejeitam todo o
culto externo de Deus, dizem às vezes, se por ventura ainda não
rejeitaram o próprio Deus, como demasiadamente exterior: “Adoramos
a Deus em espírito e verdade”; mas não sabem o que isso significa:
no Espírito Santo e no Filho, que nasceu de Maria Virgem, que deu
testemunho da verdade e viveu entre nós, que morreu por nós neste
mundo e quer ficar presente na sua Igreja, no SS. Sacramento, até o
fim dos séculos.
A SS. Virgem visitou assim muitos lugares do Templo, venerando-os
religiosamente. Mostrou-lhes onde entrara a primeira vez no Templo,
quando menina e onde fora educada, na parte sul do edifício, até o
casamento. Mostrou-lhes onde desposara São José, onde apresentara
Jesus, onde Simeão e Ana proferiram a profecia; nesse lugar chorou
amargamente, pois a profecia estava cumprida; a espada
transpassara-lhe o coração.
Mostrou-lhes onde achara o Menino Jesus ensinando no Templo e beijou
respeitosamente a cátedra. Visitaram também a caixa de esmolas, onde
a viúva depositara a esmola e o lugar onde o Senhor perdoara à adúltera.
Depois de ter deste modo venerado todos os lugares santificados pela
presença de Jesus, com recordações, beijos, lágrimas e orações,
voltaram a Sião.
De volta, ao amanhecer, no Cenáculo de Sião, Maria e as companheiras
se dirigiram à sua habitação separada, situada à direita do pátio
da casa. Na entrada se separaram delas João e outros discípulos e
foram juntar-se aos homens que, em número de cerca de vinte,
permaneciam reunidos, de luto, no Cenáculo, durante todo o sábado,
rezando alternadamente, sob a luz do candeeiro. Vi-os também de vez
em quando receberem timidamente alguns recém-chegados, conversando
com eles e chorando.
Todos mostravam íntimo respeito e certa vergonha diante de João, que
ficara com Jesus até à morte. João, porém, era benévolo e
afetuoso para com todos e simples como uma criança, tratava a todos
com humildade. Vi-os também uma vez tomar uma refeição. Fora disso
estavam silenciosos e a casa permanecia fechada. Também não podiam
ser inquietados ali, pois a casa pertencia a Nicodemos e haviam-na
alugado para a refeição pascal.
Vi depois as santas mulheres reunidas na sala escura, iluminada apenas
pela luz do candeeiro, pois as portas e janelas estavam fechadas. Ora
se juntavam em roda da SS. Virgem, para a oração, ora se retiravam
para suas celas separadas, cobrindo a cabeça com o véu de luto e
sentavam-se sobre caixas chatas, cobertas de cinza, em sinal de luto,
ou rezavam, com o rosto voltado para a parede. Sempre que se reuniam
para rezar, deixavam o véu de luto nas respectivas celas. Vi também
as mais fracas tomarem algum alimento, as outras, porém, jejuavam.
Contemplei-as diversas vezes e sempre as vi rezando ou de luto, do
modo por que descrevi. Unindo minha contemplação aos pensamentos da
SS. Virgem, que estava mergulhada na recordação de Nosso Salvador,
vi várias vezes o santo sepulcro e cerca de sete guardas, que
permaneciam em frente à entrada, em pé ou sentados. Perto da porta
da gruta, no fosso que ali havia, estava Cássio em silêncio e
profunda meditação.
Vi as portas do sepulcro fechadas e a pedra
encostada. Através das portas, porém, vi o corpo do Senhor, jazendo
ainda como fora depositado, cercado de luz, entre dois Anjos em adoração.
Vimos assim, os detalhes da descida do
Corpo Santo de Jesus, e do embalsamamento e a preparação para a
colocação no sepulcro. Devemos entender que este embalsamamento não
foi interno, assim como se costumava fazer no antigo Egito e outros
locais da terra, mas apenas externo, com a impregnação com produtos
aromáticos e óleos perfumados.
O que nos emociona foi o carinho
extremo que Nossa Senhora, as pessoas presentes e também os próprios
soldados tiveram com o divino Corpo. Deve ter sido um sofrimento sem
conta para Nossa Senhora, o fato de ter que limpar aquele corpo
coberto de chagas, de hematomas, além do Sangue e dos escarros e
poeiras que nele se impregnaram.
Isso nos faz um contraponto, em relação
ao modo cruel que nós próprios tratamos ao mesmo Corpo Santo, no
momento em que nos aproximamos da Eucaristia sem o devido respeito, além
do que, com a alma cheia de pecados. Também nos lembra da forma pouco
devota como assistimos ao Santo Sacrifício da Missa. De fato, depois
de ler revelações tão terríveis, não sei como alguém ainda poderá
exigir gritos, palmas, abraços e cânticos de festa durante a celebração,
pois tudo parece nos exigir devoção extrema e a mais profunda compunção
interior.
Até o capítulo final, no próximo texto, meditemos nisto!
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Fonte: Recados do Aarão
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