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O CORDEIRO DE DEUS -
Parte 10
Chegamos ao topo do Calvário, mas não ao topo do sofrimento de
Jesus. Sempre tenho me perguntando, o que aconteceria com Jesus se
tivesse nascido em nossa época e hoje tivesse 33 anos. Sim, não
existe hoje pena de morte por crucificação, entretanto, podem os
leitores ter certeza, algum país do mundo, algum povo qualquer, cedo
ou tarde acabaria por reinstituí-la, apenas para matar o Divino
Cordeiro. Ou seja, podem ter toda a certeza de que, também hoje, o
crucificaríamos mais uma vez.
As visões de Ana Catarina, entretanto, não só nos vem mostrar o
grau da maldade humana, mas ainda mostrar um pouco da face horrenda do
pecado. Porque de fato, não há linguagem humana para traduzir em
palavras todos os efeitos e todos os sentimentos, desta suprema prova
da bestialidade humana. É que, além do efeito externo que foi
mostrado à esta mística singular, seria preciso traduzir em fortes
verbos, todas as dores de Nosso Senhor Jesus Cristo. E isso é impossível.
Entretanto, sem dúvida, as palavras que você lerá a seguir,
produzem uma imagem de poderoso impacto, às quais, até as pedras, se
tivessem almas, fariam chorar, e sofrer, junto com Jesus. Quanto a
muitos homens, porque tem alma de pedra, estes jamais compreenderão
algo sobre estes sofrimentos. Estes preferirão, com plena consciência
de sua insensatez, buscar as trevas, rejeitando os méritos infinitos
desta Paixão Redentora. Vamos aos textos.
Os carrascos despem Jesus para a crucificação e oferecem-Lhe
vinagre
Dirigiram-se então quatro carrascos à masmorra subterrânea,
situada a setenta passos ao norte; Jesus rezava todo o tempo a Deus,
pedindo força e paciência e oferecendo-se mais uma vez em sacrifício
expiatório, pelos pecados dos inimigos. Os carrascos arrancaram-nO
para fora e, empurrando, batendo e insultando-O, levaram-nO para o
suplício. O povo olhava e insultava; os soldados, frios e altivos,
mantinham a ordem, dando-se ares de importância; os carrascos, cheios
de raiva sanguinária, arrastaram Jesus brutalmente para o largo do
suplício.(...)
Estavam no lugar do suplício dezoito
carrascos; os seis que O tinham açoitado, quatro que O conduziram,
dois que suspenderam a extremidade da cruz pelas cordas e seis que O
deviam crucificar. Parte deles estavam ocupados com Jesus, outros com
os ladrões, trabalhando e bebendo alternadamente. Eram homens baixos,
robustos, sujos e meio nus, de feições estranhas, cabelo eriçado,
barba rala: homens abomináveis e bestiais. Serviam a judeus e romanos
por dinheiro.
O aspecto de tudo isso era mais terrível ainda, porque eu via o mal,
em figuras visíveis para mim e invisíveis para os outros. Via
grandes e hediondas figuras de demônios, agindo entre todos esses
homens cruéis; era como se auxiliassem em tudo, aconselhando,
passando as ferramentas; havia inúmeras aparições de figuras
pequenas e medonhas, de sapos, serpentes e dragões de muitas garras,
vi todas as espécies de insetos venenosos voarem em redor e
escurecerem o ar.
Entravam na boca e no coração dos assistentes ou pousavam-lhes nos
ombros; eram homens cujos corações estavam cheios de pensamentos de
ódio e maldade ou que proferiam palavras de maldição e escárnio.
Acima do Senhor, porém, vi várias vezes, durante a crucifixão,
aparecerem grandes figuras angélicas, que choravam e aparições
luminosas, nas quais distingui apenas pequenos rostos. Vi aparecer
tais Anjos de compaixão e consolo também sobre a Santíssima Virgem
e todos os bons, confortando e animando-os.
Os carrascos tiraram então o manto do Senhor, que lhe tinham antes
enrolado em redor do peito; tiraram-Lhe o cinturão, com as cordas e o
próprio cinto. Despiram-nO da longa veste de lã branca, passando-a
pela cabeça, pois estava aberta no peito, ligada com correias. Depois
lhe tiraram a longa faixa estreita, que caia do pescoço sobre os
ombros e como não Lhe podiam tirar a túnica sem costuras, por causa
da coroa de espinhos, arrancaram-Lhe a coroa da cabeça, reabrindo
assim todas as feridas; arregaçando depois a túnica, puxaram-lha,
com vis gracejos, pela cabeça ferida e sangrenta.
Lá estava o Filho do Homem, coberto de sangue, de contusões, de
feridas fechadas ou outras ainda sangrentas, de pisaduras e manchas
escuras. Estava apenas vestido ainda do curto escapulário de lã
sobre o peito e costas e da faixa que cingia os rins. O escapulário
de lã aderira às feridas secas e estava colado com sangue na nova
ferida profunda, que o peso da cruz Lhe fizera no ombro e que Lhe
causava um sofrimento indizível. Os carrascos arrancaram-lhe o
escapulário impiedosamente do peito e assim ficou Jesus em sangrenta
nudez, horrivelmente dilacerado e inchado, coberto de chagas. No ombro
e nas costas se Lhe viam os ossos, através das feridas e a lã branca
do escapulário ainda estava colada em algumas feridas e no sangue
ressecado do peito.
Arrancaram-Lhe então a última faixa de pano da cintura e eis que
ficou de todo nu e curvou-se, cheio de confusão e vergonha; e como
estava a ponto de cair, sob as mãos dos carrascos, sentaram-nO sobre
uma pedra, pondo-Lhe novamente a coroa de espinhos sobre a cabeça e
ofereceram-Lhe a beber do outro vaso, que continha vinagre com fel;
mas Jesus desviou a cabeça em silêncio.
Quando, porém, os carrascos O pegaram pelos braços, com que cobria a
nudez e O levantaram, para estendê-Lo sobre a cruz, ouviram-se gritos
de indignação e descontentamento e os lamentos dos amigos por essa
vergonha e ignomínia. A Mãe Santíssima suplicou a Deus com ardor; já
estava a ponto de tirar o véu da cabeça e, abrindo caminho por entre
os carrascos, oferecê-lo ao Divino Filho. Mas Deus ouvira-lhe a oração;
pois nesse momento um homem, vindo da porta e correndo todo o caminho
com as vestes arregaçadas, atravessou o povo e precipitou-se ofegante
entre os carrascos e entregou um pano a Jesus que, agradecendo-lhe, o
aceitou e cobriu a nudez, cingindo-O à moda dos orientais, passando a
parte mais comprida por entre as pernas e ligando-a com a outra em
redor da cintura.
Esse benfeitor do Divino Redentor, enviado para atender à súplica da
SS. Virgem, tinha na sua impetuosidade algo de imperioso; ameaçou os
carrascos com o punho e disse apenas: “Tomem cuidado de não impedir
este homem de cobrir-se”. Não falou com ninguém mais e retirou-se
tão rapidamente como tinha vindo. Era Jonadab, sobrinho de São José,
da região de Belém, filho daquele irmão a quem José, depois do
nascimento de Jesus, empenhara o jumento. (...)
Sentia na alma uma viva indignação contra o ato ignominioso de
Cam, que rira da nudez de Noé, embriagado pelo vinho e sentiu-se
impelido a correr, como um novo Sem, para cobrir a nudez do lagareiro.
Os crucificadores eram os Camitas e Jesus pisava as uvas no lagar,
para o vinho novo, quando Jonadab veio cobri-Lo. Essa ação foi o
cumprimento de uma figura simbólica do Antigo Testamento e foi mais
tarde recompensada, como vi e hei de contar.
Jesus é pregado na cruz
Jesus, imagem viva da dor, foi estendido pelos carrascos sobre a
cruz; Ele próprio se sentou sobre ela e eles brutalmente O deitaram
de costas. Colocaram-Lhe a mão direita sobre o orifício do prego, no
braço direito da cruz e aí lhe amarraram o braço. Um deles se
ajoelhou sobre o santo peito, enquanto outro lhe segurava a mão, que
se estava contraindo e um terceiro colocou o cravo grosso e comprido,
com a ponta limada, sobre essa mão cheia de bênção e cravou-o
nela, com violentas pancadas de um martelo de ferro. Doces, e claros
gemidos ouviram-se da boca do Senhor; o sangue sagrado salpicou os braços
dos carrascos; rasgaram-Lhe os tendões da mão, os quais foram
arrastados, com o prego triangular, para dentro do estreito orifício.
Contei as marteladas, mas esqueci, na minha dor, esse número. A Santíssima
Virgem gemia baixinho e parecia estar sem sentidos exteriormente;
Madalena estava desnorteada.
As verrumas eram grandes peças de ferro, da forma de um T; não havia
nelas nada de madeira. Também os pesados martelos eram, como os
cabos, de ferro e todos de uma peça inteiriça; tinham quase a forma
dos martelos de pau que os marceneiros usam entre nós, trabalhando
com formão.
Os cravos, cujo aspecto fizera tremer Jesus, eram de tal tamanho que,
seguros pelo punho, excediam em baixo e em cima cerca de uma polegada.
Tinham cabeça chata, da largura de uma moeda de cobre, com uma elevação
cônica no meio. Tinham três gumes; na parte superior tinham a
grossura de um polegar e na parte inferior a de um dedo pequeno; a
ponta fora aguçada com uma lima; cravados na cruz, vi-lhes a ponta
sair um pouco do outro lado dos braços da cruz.
Depois de terem pregado a mão direita de Nosso Senhor, viram os
crucificadores que a mão esquerda, que tinham também amarrado ao braço
da cruz, não chegava até o orifício do cravo, que tinham perfurado
a duas polegadas distante das pontas dos dedos. Por isso ataram uma
corda ao braço esquerdo do Salvador e, apoiando os pés sobre a cruz,
puxaram a toda força, até que a mão chegou ao orifício do cravo.
Jesus dava gemidos tocantes, pois deslocaram-Lhe inteiramente os braços
das articulações; os ombros, violentamente distendidos, formavam
grandes cavidades axilares, nos cotovelos se viam as junturas dos
ossos.
O peito levantou-se-Lhe e as pernas encolheram-se sobre o corpo. Os
carrascos ajoelharam-se sobre os braços e o peito, amarraram-lhe
fortemente os braços e cravaram-Lhe então cruelmente o segundo prego
na mão esquerda; jorrou alto o sangue e ouviram-se os agudos gemidos
de Jesus, por entre as pancadas do pesado martelo. Os braços do
Senhor estavam tão distendidos, que formavam uma linha reta e não
cobriam mais os braços da cruz, que subiam em linha oblíqua; ficava
um espaço livre entre esses e as axilas do Divino Mártir.(...)
Todo o corpo de nosso Salvador tinha-se contraído para o alto da
cruz, pela violenta extensão dos braços e os joelhos tinham-se-Lhe
dobrados. Os carrascos lançaram-se então sobre esses e, por meio de
cordas, amarraram-nos ao tronco da cruz; mas pela posição errada dos
orifícios dos cravos, os pés ficavam longe da peça de madeira que
os devia suportar. Então começaram os carrascos a praguejar e
insultar. Alguns julgavam que se deviam furar outros orifícios para
os pregos das mãos; pois mudar o suporte dos pés era difícil.
Outros fizeram horrível troça de Jesus: “Ele não quer
estender-se, disseram, mas nós Lhe ajudaremos”. Atando cordas à
perna direita, puxaram-na com horrível violência, até o pé tocar
no suporte e amarraram-na à cruz. Foi uma deslocação tão horrível,
que se ouvia estalar o peito de Jesus, que gemia alto: “Ó meu Deus!
Meu Deus!” Tinham-Lhe amarrado também o peito e os braços, para os
pregos não rasgarem as mãos; o ventre encolheu-se-Lhe inteiramente,
as costelas pareciam a ponto de destacar-se do esterno. Foi uma
tortura horrorosa.
Amarraram depois o pé esquerdo com a mesma brutal violência,
colocando-o sobre o pé direito e como os pés não repousavam com
bastante firmeza sobre o suporte, para serem pregados juntos,
perfuraram primeiro o peito do pé esquerdo com um prego mais fino e
de cabeça mais chata do que os cravos, como se fura a sovela. Feito
isso, tomaram o cravo mais comprido que o das mãos, o mais horrível
de todos e, passando-o brutalmente pelo furo feito no pé esquerdo,
atravessaram-lhe a marteladas o direito, cujos ossos estalavam, até o
cravo entrar no orifício do suporte e, através desse, no tronco da
cruz. Olhando de lado a cruz, vi como o prego atravessou os dois pés.
Essa tortura era a mais dolorosa de todas, por causa da distensão de
todo o corpo. Contei 36 golpes de martelo, no meio dos gemidos claros
e penetrantes do pobre Salvador; as vozes em redor, que proferiam
insultos e maldições, pareciam-me sombrias e sinistras.
(...) Os gemidos que a dor arrancava de Jesus, misturavam-se com contínua
oração; recitava trechos dos salmos e dos profetas, cujas predições
nessa hora cumpria; em todo o caminho da cruz, até à morte, não
cessava de rezar assim e de cumprir as profecias. Ouvi e rezei com Ele
todas essas passagens e às vezes me lembro delas, quando rezo os
salmos; mas fiquei tão acabrunhada com o martírio de meu Esposo
celeste, que não sei mais juntá-las. - Durante esse horrível suplício,
vi Anjos a chorar aparecerem acima de Jesus.
O comandante da guarda romana fizera pregar no alto da cruz a tábua,
com o título que Pilatos escrevera. Os fariseus estavam indignados
porque os romanos se riam alto do título “Rei dos judeus”. Por
isso voltaram alguns fariseus à cidade, depois de ter tomado medida
para uma outra inscrição, para pedir a Pilatos novamente outro título.
(...) Pela posição do sol era cerca de doze horas e um quarto,
quando Jesus foi crucificado. No momento em que elevaram a cruz,
ouviu-se do Templo o soar de muitas trombetas: Era a hora em que
imolavam o cordeiro pascal.
Elevação da cruz
Depois de terem pregado Nosso Senhor à cruz, ataram cordas na
parte superior da mesma, por meio de argolas, lançaram as cordas
sobre o cavalete antes erigido no lado oposto e puxaram a cruz pelas
cordas, de modo que a parte superior se lhe ergueu; alguns se
dirigiram com paus munidos de ganchos, que fincaram no tronco e
fizeram o pé da cruz entrar na cova. Quando o madeiro chegou à posição
vertical, entrou na escavação com todo o peso e tocou no fundo com
um terrível choque.
A cruz tremeu do abalo e Jesus soltou um grito de dor; pelo peso
vertical desceu-lhe o corpo, as feridas alargaram-se-Lhe, o sangue
corria mais abundantemente e os ossos deslocados entrechocaram-se. Os
carrascos ainda sacudiram a cruz, para a por mais firme e fincaram
cinco cunhas na cova, em redor da cruz: uma na frente, uma do lado
direito, outra à esquerda e duas atrás, onde o madeiro estava um
pouco arredondado.
(...) Quando, porém, o madeiro erguido com estrondo, entrou na
respectiva cova, houve um momento de silêncio solene; todo o mundo
parecia experimentar uma sensação nova, nunca até então sentida. O
próprio inferno sentiu assustado o choque do lenho sobre a rocha e
levantou-se contra ele, redobrando nos seus instrumentos humanos o seu
furor e os insultos. Nas almas do purgatório e do limbo, porém,
causou alegria e esperança: soava-lhes como o bater do triunfador às
portas da Redenção. A santa Cruz estava pela primeira vez plantada
no meio da terra, como aquela árvore da vida no Paraíso, e das
chagas dilatadas do Cristo corriam quatro rios santos sobre a terra,
para expiar a maldição, que pesava sobre ela e para fertilizar e a
tornar um paraíso do novo Adão.
Quando nosso Salvador foi elevado na cruz e os gritos de insulto foram
interrompidos por alguns minutos de silencioso espanto, ouvia-se do
Templo o som de muitas trombetas, que anunciavam o começo da imolação
do cordeiro pascal, do símbolo, interrompendo de um modo solene e
significativo os gritos de furor e de dor, em redor do verdadeiro
Cordeiro de Deus, imolado na cruz. Muitos corações endurecidos foram
abalados e pensaram nas palavras do precursor, João Batista: “Eis aí
o Cordeiro de Deus, que tomou sobre si os pecados do mundo”.
O lugar onde fora plantada a cruz (1), estava elevado cerca de dois pés
acima do terreno em redor. Quando a cruz ainda se achava fora da cova,
estavam os pés de Jesus à altura de um homem, mas depois de
introduzida na respectiva escavação, podiam os amigos chegar aos pés
do Mestre, para os abraçar e beijar. Havia um caminho para essa elevação.
O rosto de Jesus estava virado para nordeste.
(1) Aqui cabe uma outra explicação interessante, consta no Livro
Mística Cidade de Deus de Madre Maria D’Agreda. Este exato local do
buraco da Cruz foi exatamente o mesmo onde, há quase dois mil anos
antes, Abraão havia erguido o altar para oferecer Isaac, em sacrifício,
por obediência a Deus, conforme está em Gênesis 22,9.
A crucificação dos ladrões
Durante a crucifixão do Senhor jaziam os ladrões, de costas, com
as mãos ainda amarradas aos madeiros transversais das cruzes, que
tinham sobre a nuca, ao lado do caminho, na encosta oriental do Calvário;
estava com eles uma guarda. (...) O ladrão do lado esquerdo era o
mais velho e grande criminoso, o sedutor e mestre do outro. Geralmente
são chamados Dimas e Gesmas; esqueci-lhes os nomes verdadeiros; vou
chamar, por isso, ao bom Dimas e ao mau Gesmas.
Ambos pertenciam à quadrilha de salteadores que, nas fronteiras do
Egito, tinham dado agasalho à Sagrada Família, com o menino Jesus,
na fuga para o Egito. Dimas fora o menino morfético que, a conselho
de Maria, fora lavado pela mãe na água em que o menino Jesus se
tinha banhado e que ficara curado no mesmo instante. A caridade e a
proteção que a mãe proporcionara à Sagrada Família, fora
recompensada naquela ocasião pela cura simbólica, que se realizou na
cruz, quando foi limpo pelo sangue de Jesus. Dimas caíra em muitos
crimes, mas não era perverso; não conhecia Jesus, a paciência do
Senhor comoveu-o. (...)
Os braços dos condenados foram amarrados aos madeiros transversais;
ataram-lhes os pulsos e cotovelos, como também os joelhos e os pés
à cruz e apertaram-nos com tanta violência, torcendo as cordas por
meio de paus, que os ossos estalavam e o sangue lhes esguichou dos músculos.
Os infelizes soltaram gritos horríveis e Dimas, o bom ladrão, disse:
“Se nos tivésseis tratado como a este Galileu, não teríeis mais o
trabalho de puxar-nos aqui para cima”.
Os carrascos tiram à sorte as vestes de Jesus
Os carrascos juntaram as vestes de Jesus no lugar onde tinham
jazido os ladrões e fizeram delas vários lotes, para tirar à sorte.
O manto era mais largo em baixo do que em cima e tinha várias pregas;
sobre o peito estava dobrado e formava assim bolsos. Rasgaram-no em várias
tiras, como também a longa veste branca, aberta no peito, onde havia
correias para atá-la e distribuíram-nas pelos lotes; assim fizeram
também várias partes da faixa de pano que vestia em volta do pescoço,
do cinto, do escapulário e do pano com que cobria o corpo; todas
essas vestes estavam ensopadas do sangue de Nosso Senhor.
Como, porém, não chegaram a um acordo a respeito da túnica sem
costuras, que, rasgada em partes, não serviria mais para nada,
tomaram uma tabuleta com algarismos e dados em forma de favas, com
marcas, que trouxeram consigo e jogando esses dados, tiraram à sorte
a túnica. Viu-lhes, porém, um mensageiro de Nicodemos e José de
Arimatéia, dizendo-lhe que ao pé do Calvário havia quem quisesse
comprar as vestes de Jesus; juntaram então depressa todas as vestes
e, correndo para baixo, venderam-nas; assim ficaram essas relíquias
com os cristãos.
Jesus crucificado e os ladrões
Depois do violento choque da cruz, a cabeça de Jesus, coroada de
espinhos, foi fortemente abalada e derramou grande abundância de
sangue; também das chagas das mãos e dos pés correu o sangue em
torrentes. Os carrascos subiram então pelas escadas e desataram as
cordas com que tinham amarrado o santo corpo, para que o abalo não o
fizesse cair. O sangue, cuja circulação fora quase impedida pela
forte pressão das cordas e pela posição horizontal, afluiu-Lhe então
de novo por todo o corpo e as chagas, renovando todas as dores e
causando-Lhe um forte atordoamento. Jesus deixou cair a cabeça sobre
o peito e ficou suspenso como morto, cerca de sete minutos.
Houve um momento de calma. Os carrascos estavam ocupados em repartir
as vestes de Jesus; o som das trombetas perdia-se no ar, todos os
assistentes estavam exaustos de raiva ou de dor. Olhei, cheia de susto
e compaixão, para meu Jesus, meu Salvador, a Salvação do mundo;
vi-O imóvel, desfalecido de dor, como morto e eu também estava à
morte; pensava antes morrer do que viver. (...)
A cabeça de Jesus, com a horrível coroa, com o sangue que Lhe enchia
os olhos, os cabelos, a barba e a boca ardente, meio entreaberta,
tinha caído sobre o peito e também mais tarde só podia levantar-se
com indizível tortura, por causa da larga coroa de espinhos.
O peito do Divino Mártir estava violentamente dilatado e alçado;
os ombros, os cotovelos e os pulsos distendidos até saírem fora das
articulações; o sangue corria-Lhe das largas feridas das mãos sobre
os braços; o peito levantado deixava em baixo uma cavidade profunda;
o ventre estava encolhido e diminuído; como os braços, estavam também
as coxas e pernas horrivelmente deslocadas.
Os membros estavam tão horrivelmente distendidos e os músculos e a
pele a tal ponto esticados, que se podiam contar os ossos. O sangue
escorria-Lhe em redor do enorme prego que Lhe traspassava os pés
sagrados, regando a árvore da cruz.
O santo corpo estava todo coberto de chagas, pisaduras vermelhas,
manchas amarelas, pardas e roxas, inchaços e lugares escoriados.
As feridas reabriram-se, pela violenta distensão dos músculos e
sangravam em vários lugares; o sangue que corria, era a princípio
ainda vermelho, mas pouco a pouco se tornou pálido e aquoso e o santo
corpo cada vez mais branco; por fim. tomou a cor de carne sem sangue.
Mas, apesar de toda essa cruel desfiguração, o corpo de Nosso Senhor
na cruz tinha um aspecto extremamente nobre e comovedor; na verdade, o
Filho de Deus, o Amor Eterno, que se sacrificou no tempo, permaneceu
belo, puro e santo nesse corpo do Cordeiro pascal moribundo, esmagado
pelo peso dos pecados de toda a humanidade.
(...) Agora, porém, o cabelo fora arrancado em grande parte, o
resto colado com sangue; o corpo era uma só chaga, o peito estava
como que despedaçado, o ventre escavado e encolhido; em vários
lugares se viam as costelas, através da pele lacerada; todo o corpo
estava de tal modo distendido e alongado, que não cobria mais
inteiramente o tronco da cruz.
(...) Um dos ladrões rezava, o outro insultava Jesus que, olhando
para baixo, disse algo a Dimas. O aspecto dos ladrões na cruz era
horrendo, especialmente o do que ficava à esquerda, criminoso
enraivecido, embriagado, de cuja boca só saiam insultos e maldições.
Os corpos, pendentes da cruz, estavam horrivelmente deslocados,
inchados e cruelmente amarrados. Os rostos tornaram-se-lhes roxos e
pardos, os lábios escuros, tanto da bebida, como da pressão do
sangue; os olhos inchados e vermelhos, quase a sair das órbitas.
Soltavam gritos e uivos de dor, que lhes causavam as cordas; Gesmas
praguejava e blasfemava. (...)
Primeira palavra de Jesus na cruz
Depois de crucificar os ladrões e de repartir as vestes do Senhor,
juntaram os carrascos todos os instrumentos e ferramentas e,
insultando e escarnecendo mais uma vez a Jesus, foram-se embora. Também
os fariseus, que ainda estavam, montaram nos cavalos e passando diante
de Jesus, dirigiram-lhe muitas palavras insultuosas e seguiram para a
cidade. (...)
Quando Jesus ainda pendia desmaiado, disse Gesmas, o ladrão à
esquerda: “O demônio abandonou-O”. Um soldado fincou então uma
esponja embebida em vinagre sobre a ponta de uma vara e chegou-a aos lábios
de Jesus, que pareceu chupar um pouco. As zombarias continuavam. O
soldado disse: “Se és o rei dos judeus, salva-te”. Tudo isso se
deu enquanto o destacamento anterior era substituído pelo de
Abenadar.
Jesus levantou um pouco a cabeça e disse: “Meu Pai, perdoai-lhes,
porque não sabem o que fazem”; depois continuou a rezar em silêncio.
Então gritou Gesmas: “Se és o Cristo, salva-te a ti e a nós”.
Escarneciam-nO sem cessar; mas Dimas, o ladrão da direita, ficou
muito comovido, ouvindo Jesus rezar pelos inimigos. (...)
Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma Iluminação
Interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou.
Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado, quando
era criança e exclamou em voz forte e distinta: “O que? É possível
que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência,
reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é
nosso rei, é o Filho de Deus”. A essa inesperada repreensão da
boca de um miserável assassino, suspenso na cruz, deu-se um tumulto
entre os escarnecedores; apanhando pedras, quiseram apedrejá-lo ali
mesmo. Mas o centurião Abenadar não o permitiu; mandou dispersá-los
e restabeleceu a ordem.
(...) Tudo que acabo de contar agora, se deu pela maior parte ao mesmo
tempo ou sucessivamente, entre as doze horas e doze e meia, pelo sol,
alguns minutos depois da exaltação da cruz. Mas daí a pouco mudaram
rapidamente os sentimentos nos corações da maior parte dos
assistentes; pois enquanto o bom ladrão ainda estava falando, eis que
se deu na natureza um fenômeno extraordinário, que encheu de pavor
todos os corações.
Eclipse do sol. Segunda e terceira palavra de Jesus na cruz
Até pelas 10 horas, quando Pilatos pronunciou a sentença, caíra
várias vezes chuva de pedra; depois, até às 12 horas, o céu estava
claro e havia sol; mas depois do meio dia, apareceu uma neblina
vermelha, sombria, diante do sol. Pela sexta hora, porém, ou como vi
pelo sol, mais ou menos às doze e meia, (a maneira dos judeus de
contar as horas é diferente da nossa) houve um eclipse milagroso do
sol.
Vi como isso se deu, mas infelizmente não pude guardá-lo na memória
e não tenho palavras para o exprimir. A princípio fui transportada
como para fora da terra; vi muitas divisões no firmamento e os
caminhos dos astros, que se cruzavam de modo maravilhoso. Vi a lua do
outro lado da terra; vi-a voar rapidamente ou dar um salto, como um
globo de fogo; depois me achei novamente em Jerusalém e vi a lua
aparecer sobre o monte das Oliveiras, cheia e pálida, - o sol estava
velado pelo nevoeiro, - e ela se moveu rapidamente do oriente, para se
colocar diante do sol.
No começo vi, no lado oriental do sol, uma lista escura, que tomou em
pouco tempo a forma de uma montanha, cobrindo-o depois inteiramente. O
disco do sol parecia cinzento escuro, rodeado de um círculo vermelho,
como uma argola de ferro em brasa. O céu tornou-se escuro; as
estrelas tinham um brilho vermelho.
Um pavor geral apoderou-se dos homens e dos animais, o gado fugiu
mugindo, as aves procuravam um esconderijo e caiam em bandos sobre as
colinas em redor do Calvário; podiam-se apanhá-las com as mãos. Os
zombadores começaram a calar-se; os fariseus tentavam explicar tudo
como fenômeno natural, mas não conseguiram acalmar o povo e eles
mesmos ficaram interiormente apavorados. Todo o mundo olhava para o céu;
muitos batiam no peito e, torcendo as mãos, exclamavam: “Que o seu
sangue caia sobre os seus assassinos”. Muitos, de perto e de longe,
caíram de joelhos, pedindo perdão a Jesus, que no meio das dores
volvia os olhos para eles.
A escuridão aumentava, todos olhavam para o céu e o Calvário estava
deserto; ali permaneciam apenas a Mãe de Jesus e os mais íntimos
amigos; Dimas, que estivera mergulhado em profundo arrependimento,
levantou com humilde esperança o rosto para o Salvador e disse:
“Senhor, fazei-me entrar num lugar onde me possais salvar;
lembrai-vos de mim, quando estiverdes no vosso reino”. Jesus
respondeu-lhe: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”.
A Mãe de Jesus, Madalena, Maria de Cléofas, Maria Helí e João
estavam entre as cruzes dos ladrões, em redor da cruz de Jesus,
olhando para Nosso Senhor. A Santíssima Virgem, em seu amor de mãe,
suplicava interiormente a Jesus que a deixasse morrer com Ele. Então
olhou o Senhor com inefável ternura para a Mãe querida e, volvendo
os olhos para João, disse à Maria: “Mulher, eis aí o teu filho;
será mais teu filho do que se tivesse nascido de ti”. Elogiou ainda
João, dizendo: “Ele teve sempre uma fé sincera e nunca se
escandalizou, a não ser quando a mãe quis que fosse elevado acima
dos outros”. A João, porém, disse: “Eis aí tua Mãe!” João
abraçou com muito respeito, como um filho piedoso, a Mãe de Jesus,
que se tinha tornado também sua Mãe, sob a cruz do Redentor
moribundo. (...)
Não sei se Jesus pronunciou alto todas essas palavras; percebi-as
interiormente, quando, antes de morrer, entregou Maria Santíssima,
como Mãe, ao Apóstolo querido e este, como filho, a sua Mãe. Em
tais contemplações se percebem muitas coisas, que não foram
escritas; é pouco apenas o que pode exprimir a língua humana. (...)
Estado da cidade e do Templo durante o eclipse do sol
Eram mais ou menos duas horas e meia, quando fui conduzida à
cidade, para ver o que lá se passava. Encontrei-a cheia de pavor e
consternação; as ruas em trevas, cobertas de nevoeiro; os homens
erravam cá e lá, às apalpadelas; muitos estavam prostrados por
terra, nos cantos, com a cabeça coberta, batendo no peito; outros
olhavam para o céu ou estavam sobre os telhados, lamentando-se.
Os animais mugiam e escondiam-se, os pássaros voavam baixo e caiam.
Vi que Pilatos fizera uma visita a Herodes e que estavam consternados,
no mesmo terraço do qual Herodes, de manhã, assistira ao escárnio
de que Jesus fora alvo. “Isto não é natural”, disseram,
“excederam-se nos maus tratos infligidos ao Nazareno”. Vi-os
depois irem juntos ao palácio de Pilatos, atravessando o fórum;
ambos estavam muito assustados, indo a passos apressados e cercados de
soldados.
Pilatos não ousou olhar para o lado do Gábata, o tribunal donde
tinha pronunciado a sentença contra Jesus. O fórum estava deserto;
aqui e acolá alguns homens voltavam apressadamente para casa, outros
passavam chorando.
Juntavam-se também alguns grupos de povo nas praças públicas.
Pilatos mandou chamar os anciãos do povo ao palácio e perguntou-lhes
o que significavam aquelas trevas; disse-lhes que as tomava por um
sinal de desgraça iminente; o Deus dos judeus parecia estar irado
porque haviam exigido à força a morte do galileu, que certamente era
profeta e rei dos judeus; enquanto ele, Pilatos, não tinha culpa,
lavara, as mãos, etc.
Os judeus, porém, ficaram endurecidos, queriam explicar tudo como fenômeno
comum e não se converteram. Converteu-se, contudo, muita gente, entre
outros também todos os soldados que, na véspera, tinham caído por
terra e se levantado, quando prenderam Jesus no monte das Oliveiras.
No entanto juntou-se uma multidão de povo diante do palácio de
Pilatos e onde de manhã tinham gritado: “Crucifica-o!
crucifica-o!”, gritavam agora: “Fora o juiz injusto! Que o sangue
do Crucificado caia sobre os seus assassinos!”. Pilatos viu-se
obrigado a rodear-se de guardas. Zodóc, que, de manhã, quando Jesus
fora conduzido ao pretório, lhe proclamara alto a inocência,
agitou-se e falou com tal energia diante do palácio, que Pilatos
esteve a ponto de mandá-lo prender. Pilatos, o miserável desalmado,
atribuiu toda a culpa aos judeus: disse que não tinha nada com isso,
que Jesus era o rei, o profeta, o Santo dos judeus, a quem estes
tinham levado à morte e nada tinha com Ele, nem lhe cabia culpa; os
próprios judeus é que lhe tinham exigido a morte, etc”..
No Templo reinava extremo susto e terror. Estavam ocupados na imolação
do cordeiro pascal, quando veio de repente a escuridão. Tudo estava
em confusão e aqui e acolá se ouviam gritos angustiantes. Os príncipes
dos sacerdotes fizeram tudo para conservar a calma e a ordem: fizeram
acender todas as lâmpadas, apesar de ser meio dia, mas a confusão
crescia cada vez mais.
Vi Anás preso de susto e terror; corria de um canto a outro, para se
esconder. Quando tornei a sair da cidade, ouvi as grades das janelas
das casas tremerem, sem haver tempestade. A escuridão crescia cada
vez mais. Na parte exterior da cidade, ao noroeste, perto do muro,
onde havia muitos jardins e sepulturas, desabaram algumas entradas de
sepulcros, como se houvesse um tremor de terra.
Abandono de Jesus. A quarta palavra de Jesus na cruz
Sobre o Gólgota fizeram as trevas uma impressão terrível. A
horrorosa fúria dos carrascos, os gritos e maldições na elevação
da cruz, os uivos dos ladrões ao serem amarrados ao madeiro, os
insultos dos fariseus a cavalo, o revezar dos soldados, a barulhenta
partida dos carrascos embriagados, tudo isso diminuíra a princípio
um pouco o efeito das trevas. (...)
Os fariseus, ocultando o terror, ainda procuravam explicar tudo
pelas leis naturais, mas baixavam cada vez mais a voz e afinal quase não
ousavam mais falar; de vez em quando ainda proferiam uma palavra
insolente, mas soava um tanto forçada. O disco do sol estava meio
escuro, como uma montanha ao luar; estava rodeado de um anel vermelho.
As estrelas tinham um brilho rubro; os pássaros caiam sobre o Calvário
e nas vinhas vizinhas entre os homens e deixavam-se pegar com a mão;
os animais dos arredores mugiam e tremiam; os cavalos e jumentos dos
fariseus apertavam-se uns de encontro aos outros, baixando as cabeças.
O nevoeiro úmido envolvia tudo.
Em redor da cruz reinava silêncio; todos se tinham afastado, muitos
fugiram para a cidade. O Salvador, naquele infinito martírio,
mergulhado no mais profundo abandono, dirigindo-se ao Pai celestial,
rezava pelos inimigos, impelido pelo amor. Rezava, como durante toda a
Paixão, recitando versos de salmos que nEle se cumpriam. Vi figuras
de Anjos em redor dEle.
Quando, porém, a escuridão cresceu e o terror pesava sobre todas as
consciências e todo o povo estava em sombrio silêncio, ficou Jesus
abandonado de todos e privado de toda a consolação. Sofria tudo
quanto sofre um pobre homem, aflito e esmagado pelo absoluto abandono,
sem consolação divina ou humana, quando a fé, a esperança e a
caridade, privadas de iluminação e consolo, de visível assistência,
ficam sozinhas no deserto da provação, vivendo de si mesmas, num
infinito martírio. Tal sofrimento não se pode exprimir.
Nessa tortura moral, Jesus nos alcançou a força de resistirmos na
extrema miséria do abandono, quando se rompem todos os laços e relações
com a existência e a vida terrena com o mundo e a natureza em que
vivemos, quando se desfazem também as perspectivas que esta vida em
si nos abre, para outra existência; nessa provação venceremos, se
unirmos nosso abandono com os merecimentos do abandono de Jesus na
cruz. (...)
Jesus, inteiramente desamparado e abandonado, ofereceu-se, como faz o
amor, a si mesmo por nós, fez até do abandono um riquíssimo
tesouro; pois se ofereceu, com toda sua vida, seus trabalhos, amor e
sofrimento e a dolorosa experiência de nossa ingratidão, ao Pai
celestial, por nossa fraqueza e pobreza. Fez testamento diante de Deus
e ofereceu todos os seus merecimentos à Igreja e aos pecadores. (...)
E testemunhou por um grito a dor do abandono, dando assim a todos os
aflitos, que reconhecem a Deus por Pai, a liberdade de uma queixa
cheia de confiança filial. Pelas três horas, Jesus exclamou em alta
voz: “Eli, Eli, lama Sabachtani!”, o que quer dizer: “Meu Deus,
meu Deus, porque me abandonastes?”
Quando esse grito de Nosso Senhor interrompeu o angustiante silêncio
que reinava em redor da cruz, os escarnecedores se voltaram novamente
para Ele e um deles disse: “Ele chama Elias”, e outro: “Vamos
ver, se Elias vem ajudá-Lo a descer da cruz”. Quando, porém, Maria
ouviu a voz do Filho, nada mais pôde retê-la; voltou para junto da
cruz, seguida por João, Maria, filha de Cleofas, Madalena e Salomé.
Enquanto o povo tremia e gemia, vinha passando perto um grupo de cerca
de trinta homens a cavalo, notáveis da Judéia e da região de Jope,
que tinham vindo para a festa; e quando viram Jesus tão horrivelmente
tratado e os sinais ameaçadores que se mostravam na natureza,
exprimiram em alta voz o horror que sentiam, exclamando: “Ai! desta
cidade abominável! Se nela não estivesse o Templo, devia-se destruí-la
a fogo, por se ter tornado culpada de tanta iniqüidade”. (...)
Logo depois das três horas, o céu começou a clarear-se; a lua
afastou-se gradualmente do sol, para o lado oposto àquele de que
viera. O sol reapareceu, sem brilho, ainda vedado pelo nevoeiro
vermelho e a lua ia descendo rapidamente para o outro lado, como se caísse.
Pouco a pouco o sol readquiriu mais claridade e as estrelas
desapareceram; contudo o dia ainda permanecia sombrio. A medida que
reaparecia a luz, tornavam-se os inimigos escarnecedores mais
arrogantes; foi nessa ocasião que disseram: “Ele chama Elias”.
Abenadar, porém, impôs-lhes silêncio e manteve a ordem.
Quinta, Sexta e Sétima palavras de Jesus na cruz. Morte de Jesus
Quando a luz voltou, surgiu o corpo de Nosso Senhor, pálido,
extenuado, como que inteiramente desfalecido, mais branco do que
antes, por causa da grande perda de sangue. Jesus disse ainda, não
sei se o percebi só interiormente ou se Ele o disse a meia voz:
“Sou espremido como as uvas, que foram pisadas aqui pela primeira
vez; devo dar todo o meu sangue, até sair água e o bagaço ficar
branco; mas não se fará mais vinho neste lugar”.
Mais tarde vi, numa visão a respeito dessas palavras, que foi nesse
lugar que Jafé pela primeira vez pisou as uvas, para fazer vinho,
como hei de contar mais tarde.
Jesus consumia-se de sede e disse com a língua seca: “Tenho
sede”. E como os amigos o olhassem com tristeza,disse-lhes: “Não
me podíeis dar um gole de água?” Queria dizer que durante a
escuridão ninguém os teria impedido. João, muito incomodado,
respondeu: “Senhor, esquecemo-lo mesmo”. Jesus disse ainda algumas
palavras, cujo sentido era: “Também os amigos mais íntimos deviam
esquecer-se e não me dar a beber, para que se cumprisse a
Escritura”. Mas esse esquecimento Lhe doeu amargamente. (...)
Nosso Senhor ainda disse algumas palavras de exortação ao povo;
lembro-me apenas que disse: “Quando minha voz não se fizer mais
ouvir, falará a boca dos mortos”; ao que alguns gritaram: “Ainda
continua blasfemando”. Abenadar, porém, os mandou calar.
Tendo chegado a hora da agonia, Nosso Senhor lutou com a morte e um
suor frio cobriu-lhe os membros. João estava sob a cruz e enxugou-Lhe
os pés com o sudário. (...)
Então disse Jesus: “Tudo está consumado!” e, levantando a cabeça,
exclamou em alta voz: “Meu Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”.
Foi um grito doce e forte, que penetrou o Céu e a terra; depois
inclinou a cabeça e expirou. Vi a alma de Jesus, em forma luminosa,
entrar na terra, ao pé da cruz e descer ao Limbo. João e as santas
mulheres prostraram-se com a face na terra.
O centurião Abenadar, árabe de nascimento, depois, como discípulo,
batizado com o nome de Ctesifon, desde que oferecera o vinagre a
Jesus, ficara a cavalo junto à elevação onde estavam erigidas as
cruzes, de modo que o cavalo tinha as patas dianteiras mais no alto.
Profundamente abalado, entregue à sérias reflexões, contemplava
incessantemente o semblante de Nosso Senhor, coroado de espinhos. O
cavalo baixara assustado a cabeça e Abenadar, cujo orgulho estava
domado, não puxava mais as rédeas.
Nesse momento pronunciou o Senhor as últimas palavras, em voz alta e
forte e morreu dando um grito, que penetrou o Céu, a terra e o
inferno. A terra tremeu e o rochedo fendeu-se, deixando uma larga
abertura entre a cruz do Senhor e a do ladrão à esquerda. O
testemunho que Deus deu de seu Filho, abalou com susto e terror a
natureza enlutada. Estava consumado! A alma de Nosso Senhor separou-se
do corpo e ao grito de morte do Redentor moribundo estremeceram todos
que O ouviram, junto com a terra que, tremendo, reconheceu o Salvador;
os corações amigos, porém, foram transpassados pela espada da dor.
Foi então que a graça desceu à alma de Abenadar; estremeceu
emocionado, cederam-lhe as paixões e o coração orgulhoso e duro,
fendeu-se-lhe como o rochedo do Calvário. Lançou longe de si a lança,
bateu no peito com força e exclamou alto, com a voz de um homem novo:
“Louvado seja Deus, Todo-poderoso, o Deus de Abraão e Jacó! Este
era um homem justo; em verdade, Ele é o Filho de Deus!”. E muitos
dos soldados, tocados pela palavra do centurião, fizeram o mesmo.
(...) Grande espanto apoderou-se dos assistentes, ante o grito
de morte de Jesus, quando a terra tremeu e o rochedo do Calvário se
fendeu. - Esse terror fez-se sentir em toda a natureza; pois rasgou-se
o véu do Templo, muitos mortos saíram das sepulturas, desabaram
algumas paredes do Templo, ruíram muitos edifícios e desmoronaram
montes em muitas regiões da terra.
(...) Quando Jesus, cheio de amor, Senhor de toda a vida, pagou pelos
pecadores a dolorosa dívida da morte; quando entregou, como homem, a
alma a Deus seu Pai e abandonou o corpo, tomou esse santo vaso
esmagado a fria e pálida cor da morte; o corpo tremeu-Lhe
convulsivamente nas últimas dores e tornou-se lívido e os vestígios
do sangue derramado das chagas ficaram mais escuros e distintos. O
rosto alongou-se, as faces encolheram-se, o nariz ficou mais delgado e
pontiagudo, o queixo caiu, os olhos, cheios de sangue e fechados,
abriram-se, meio envidraçados.
O Senhor levantou pela última vez e por poucos momentos a cabeça,
coroada de espinhos e deixou-a depois cair sobre o peito, sob o peso
dos sofrimentos. Os lábios lívidos e contraídos entreabriram-se,
deixando ver a língua ensangüentada. As mãos, antes fechadas sobre
a cabeça dos cravos, abriram-se; estenderam-se os braços, as costas
entesaram-se ao longo da cruz e todo o peso do santo corpo desceu
sobre os pés. Os joelhos curvaram-se, tornando para um lado e os pés
viraram-se um pouco em redor do prego que os trespassara. (...)
A luz do sol ainda era sombria e nebulosa. O tremor de terra foi
acompanhado de calor sufocante; mas seguiu-se-lhe depois um frio sensível.
O corpo de Nosso Senhor morto, na cruz, causava um sentimento de
respeito e estranha comoção. Os ladrões pendiam em horríveis
contorções, como embriagados. Ambos estavam no fim calados; Dimas
rezava.
Era pouco depois das três horas, quando Jesus expirou. Passado o
primeiro terror causado pelo tremor de terra, alguns dos fariseus
recobraram a anterior arrogância. Aproximando-se da fenda no rochedo
do Calvário, jogaram-lhe pedras e atando várias cordas, amarraram
uma pedra, fizeram-na entrar na fenda, para medir-lhe a profundidade;
quando, porém, não tocaram no fundo, tornaram-se mais pensativos.
(...)
O tremor de terra, aparição de mortos em Jerusalém
Quando Jesus, com um grito forte, entregou o espírito nas mãos do
Pai celestial, a alma do Salvador, qual forma luminosa, acompanhada de
brilhante cortejo de Anjos, entrou na terra, ao pé da cruz; entre os
Anjos estava também S. Gabriel. Vi esses Anjos expulsarem grande número
de espíritos maus da terra para o abismo. Jesus, porém, mandou
muitas almas do limbo para que, retomando os corpos, assustassem os
impenitentes, os exortassem a converter-se e dessem testemunho dEle.
O tremor de terra, na hora da morte do Redentor, quando o rochedo do
Calvário se fendeu, causou muitos desmoronamentos e desabamentos em
todo o mundo, especialmente na Palestina e em Jerusalém. Mal o povo
na cidade e no Templo sossegara um pouco, ao desaparecer a escuridão,
eis que os abalos do solo e o estrondo do desabamento dos edifícios,
em muitos lugares, espalharam um terror geral e ainda maior do que
dantes. O pavor chegou ao extremo, quando apareceram os mortos
ressuscitados, andando pelas ruas e admoestando com voz rouca o povo,
que fugia, chorando, em todas as direções.
No Templo, os príncipes dos sacerdotes acabavam justamente de
restabelecer a ordem e recomeçar os sacrifícios, suspensos pelo
terror das trevas e triunfavam com a volta da luz, quando de repente
tremeu o solo, ouvindo-se um estrondo de muros a desabar, acompanhado
de ruído sibilante do véu do Templo, que se rasgou de alto a baixo,
causando um momento de mudo terror na imensa multidão, interrompido
em diversos lugares por gritos e lamentos. (...)
Pode-se fazer uma idéia da desordem e confusão que reinava,
imaginando um grande formigueiro, de tranqüilo movimento, em que se
jogam pedras ou se remexe com um pau; enquanto reina confusão num
ponto, em outro ainda continua o movimento e a atividade toda regular
e mesmo no lugar onde houve desarranjo, logo começa a restabelecer-se
a ordem.
O sumo sacerdote Caifás e seu partido, com audácia desesperada, não
perderam a cabeça. Como um hábil governador de uma cidade revoltada,
afastou a confusão, ameaçando aqui, exortando ali, desunindo os
partidos, atraindo outros com muitas promessas. Devido ao seu
endurecimento diabólico e aparente calma, conseguiu impedir uma
perigosa perturbação geral, fazendo com que a massa do povo não
visse nesses acontecimentos assustadores um testemunho da morte
inocente de Jesus.
A guarnição do forte Antônia também fez tudo para conservar
a ordem; deste modo era o terror e a confusão grande, é verdade, mas
cessou a celebração da festa, sem que houvesse tumulto. O povo
dispersou-se, ficando ainda com um oculto pavor, que também foi pouco
a pouco abafado pela ação dos fariseus.
Essa era a situação geral da cidade; seguem-se agora alguns
incidentes particulares, de que ainda me lembro: As duas grandes
colunas situadas à entrada do Santuário do Templo e entre as quais
estava suspensa a magnífica cortina, afastaram-se no alto, a da
esquerda para o sul, a da direita para o norte; a verga que
suportavam, abaixou-se e a grande cortina partiu-se em duas, de alto a
baixo, com um som sibilante e, caindo as duas partes para os lados,
abriu-se o santuário.
Essa cortina era vermelha, azul, branca e amarela; trazia o desenho de
muitas constelações dos astros e também figuras, como, por exemplo,
a da serpente de bronze. O santuário estava aberto a todos os
olhares. Perto da cela onde Simeão costumava rezar, no muro ao norte,
ao lado do santuário, tombou uma pedra grande e a abóbada da cela
desabou; em várias salas se afundou o solo, umbrais deslocaram-se e
colunas cederam para os lados.
No santuário apareceu, proferindo palavras de ameaça, o Sumo
Sacerdote Zacarias, que fora assassinado entre o Templo e o altar;
falou também da morte do outro Zacarias e de João Batista, como em
geral da morte dos profetas. Ele saiu pela abertura que ficara, onde
caiu a pedra na cela de Simeão e falou aos sacerdotes que estavam no
Santo.
Dois filhos do piedoso Sumo Sacerdote Simão o Justo, bisavô do velho
sacerdote Simeão que profetizara na apresentação de Jesus no
Templo, apareceram como espíritos grandes, perto da grande cátedra
(cadeira dos doutores), proferindo palavras severas sobre a morte dos
profetas e sobre o sacrifício que ia cessar; exortaram a todos a que
seguissem a doutrina de Jesus crucificado.
Perto do altar apareceu o profeta Jeremias, proclamando em voz ameaçadora
o fim do sacrifício antigo e o começo do novo. Essas aparições e
palavras, em lugares onde só Caifás e os sacerdotes as ouviram,
foram negadas ou ocultadas e foi proibido falar nisso, sob pena de
grande excomunhão. Mas ouviu-se ainda um grande ruído; abriram-se as
portas do santo e uma voz gritou: “Saiamos daqui!”. Vi então
Anjos, que se retiraram do Templo. O altar do incenso tremeu e caiu um
dos vasos de incenso; o armário que continha os rolos da Escritura
tombou e os rolos caíram fora, em desordem; a confusão aumentou, não
sabiam mais que hora do dia era.
Nicodemos, José de Arimatéia e muitos outros abandonaram o Templo e
foram-se embora. Jaziam corpos de mortos, em vários lugares; outros
mortos ressuscitados andavam no meio do povo, exortando-o com palavras
severas; à voz dos Anjos que se afastaram do Templo, também eles
voltaram às sepulturas. A grande cátedra, no átrio do Templo, caiu.
Vários dos 32 fariseus que tinham ido ao Calvário, mais tarde
voltaram, durante essa confusão e, como se tinham convertido ao pé
da cruz, ficaram ainda mais comovidos com esses sinais, de modo que
censuraram com grande energia a Anás e Caifás, retirando-se depois
do Templo.
Anás, o verdadeiro chefe dos inimigos de Jesus, que desde muito tempo
dirigira todas as intrigas secretas contra o Salvador e os discípulos
e que também instruíra os acusadores, estava quase doido de terror;
fugia de um canto para outro das salas secretas do Templo; vi-o
gritando e torcendo-se em convulsões; levaram-no a um quarto secreto,
rodeado de alguns dos partidários. Caifás deu-lhe uma vez um forte
abraço, para o reanimar; mas em vão; a aparição dos mortos tinha-o
levado ao desespero.
Caifás, apesar de estar também cheio de pavor, estava de tal modo
possesso do demônio do orgulho e da obstinação, que não deixava
perceber nada do susto que sentia. Cheio de raiva e orgulho, ocultava
o medo e mostrava uma testa de bronze aos sinais ameaçadores da cólera
divina. (...)
O túmulo de Zacarias, sob o muro do Templo, desabara, arrastando
consigo as pedras do muro; Zacarias saiu do túmulo, mas não voltou
mais para lá, não sei onde depositou de novo os restos mortais. Os
filhos ressuscitados de Simeão o Justo, depositaram os corpos
novamente, no túmulo, ao pé do monte do Templo, na hora em que o
corpo de Jesus foi preparado para a sepultura.
Enquanto tudo isso se passava no Templo, reinava o mesmo espanto em
muitas partes de Jerusalém. Logo depois das três horas, ruíram
muitos túmulos, particularmente na região dos jardins, ao noroeste,
dentro da cidade. Vi lá, nos túmulos, mortos ainda envoltos em
panos; em outros jaziam esqueletos, com farrapos apodrecidos, de
muitos saia um mau cheiro insuportável.
No tribunal de Caifás desabaram as escadas em que Jesus fora
escarnecido, também parte do fogão do átrio, onde Pedro começara a
negar Jesus. A destruição era tal, que era preciso procurar outra
entrada. Ali apareceu o corpo do Sumo Sacerdote Simão o Justo, a cuja
descendência pertencia Simeão, que proferiu a profecia, na apresentação
do Menino Jesus no Templo. Esse falou algumas palavras ameaçadoras, a
respeito do julgamento injusto que se fizera ali. (...)
No palácio de Pilatos se fendeu a pedra e afundou-se o solo onde
Jesus fora apresentado ao povo por Pilatos. Todo o edifício tremeu e
vacilou; no pátio do tribunal vizinho se afundou todo o lugar onde
estavam sepultados os corpos das inocentes crianças que Herodes
mandara assassinar. Em vários outros lugares da cidade se fenderam
muros, caíram paredes; mas nenhum edifício foi totalmente destruído.
Pilatos, supersticioso e confuso, estava preso de terror e incapaz de
desempenhar o cargo; o terremoto abalou-lhe o palácio, o solo
tremia-lhe debaixo dos pés, fugia de uma sala para outra. Os mortos
mostravam-se-lhe no átrio do palácio, lançando-lhe em rosto o
julgamento iníquo e a sentença contraditória. Julgando que fossem
os deuses do profeta Jesus, encerrou-se num quarto secreto do palácio,
onde ofereceu incenso e sacrifícios aos deuses pagãos, fazendo
promessas, para que os ídolos impedissem os deuses do Galileu de
fazer-lhe mal. Herodes estava no palácio, desvairado de pavor e
mandara fechar todas as portas.(...)(1)
(1) Aqui suprimimos um capítulo
inteiro, onde dava conta das imensas destruições que houve em muitos
lugares da terra, especialmente as regiões próximas a Jerusalém e
mais em alguns lugares onde, na sua vida pública, Jesus fora mal
recebido. Prédios desabaram, sinagogas também, o rio Jordão e o
Lago de Genesaré tiveram modificações drásticas. Esta destruição
por toda a parte foi a principal responsável pelo fato de os
perseguidores de Jesus não haverem logo iniciado a caça aos
seguidores dele, pois meditavam estas coisas. A perseguição só
reiniciou após o pentecostes
José de Arimatéia pede a Pilatos o corpo de Jesus
Mal se tinha restabelecido um pouco a calma em Jerusalém, depois
de tantos acontecimentos assustadores, quando Pilatos, tão
consternado, foi importunado de todos os lados com narrativas do que
sucedera. Também o Supremo Conselho lhe mandou, como já resolvera de
manhã, um requerimento, pedindo que mandasse esmagar as pernas dos
sacrificados, para que morressem mais depressa e tirá-los depois da
cruz, para que não ficassem pendurados durante o Sábado. Pilatos
enviou, pois, os carrascos para esse fim ao Calvário.
Pouco depois vi José de Arimatéia entrar no palácio de Pilatos. Já
recebera a notícia da morte de Jesus e resolvera, com Nicodemos,
sepultar o corpo do Senhor no sepulcro novo que escavara na rocha do
seu jardim, não longe do monte Calvário. (...)Nicodemos também foi
a diversos lugares, para comprar panos e especiarias para o
embalsamamento do corpo; depois esperou a volta de José.
Esse encontrou Pilatos muito assustado e incomodado; pediu-lhe
francamente e sem hesitação licença para tirar da cruz o corpo de
Jesus, rei dos judeus, porque queria sepultá-Lo no seu próprio
sepulcro.(...)
Exteriormente parecia Pilatos admirar-se apenas que tivesse
morrido tão cedo, porque os crucificados em geral viviam mais tempo;
mas interiormente estava assustado e amedrontado, pela coincidência
desses sinais com a morte de Jesus. Queria talvez disfarçar um pouco
a crueldade com que procedera; pois despachou imediatamente uma ordem
escrita, entregando a José de Arimatéia o corpo do rei dos judeus,
com a licença de tirá-Lo da cruz e sepultá-Lo.
Estava satisfeito de poder assim pregar uma peça aos príncipes dos
sacerdotes, que teriam visto com prazer Jesus ser enterrado
ignominiosamente com os dois ladrões. Mandou também alguém ao Calvário,
para fazer executar essa ordem. Creio que foi o mesmo Abenadar; pois
que o vi tomar parte no descimento de Jesus da cruz.
Saindo do palácio de Pilatos, foi José de Arimatéia encontrar-se
com Nicodemos, que o estava esperando na casa de uma boa mulher,
situada numa rua larga, próxima do beco em que Jesus, logo no começo
do doloroso caminho da cruz, fora tão vilmente ultrajado. Nicodemos
tinha comprado muitas ervas e especiarias para o embalsamamento, em
parte da mesma mulher, que vendia ervas aromáticas, em parte em
outros negócios, onde a própria mulher fora comprar as especiarias
que não tinha, como também vários panos e faixas, necessárias para
o embalsamamento. De todos esses objetos fez-lhe um pacote que pudesse
comodamente transportar. José de Arimatéia também foi ainda a outro
lugar, para comprar um pano grande de algodão, muito bonito e fino,
com seis côvados de comprimento e vários côvados de largura. (...)
O coração de Jesus trespassado por uma lança. Esmagamento das
pernas e morte dos ladrões
Durante todo esse tempo reinava silêncio e tristeza sobre o Gólgota.
O povo assustado dispersara-se, indo esconder-se em casa. A Mãe de
Jesus e João, Madalena, Maria, filha de Cleofas e Salomé estavam, em
pé ou sentados, em frente à cruz, com as cabeças veladas, chorando.
Alguns soldados estavam sentados no barranco, com as lanças fincadas
no chão. Cássio, a cavalo, ia de um lado para outro. Os soldados
conversavam do alto do Calvário com outros que estavam mais em baixo.
O céu estava nublado e toda a natureza parecia abatida e de luto.
Vieram então seis carrascos, subindo o monte Calvário; trouxeram
escadas, pás e cordas, como também pesadas maças de ferro de três
gumes, para esmagar as pernas dos executados.
(...) Subiram então pelas escadas nas cruzes dos ladrões; dois
esmagaram, com as maças cortantes, os ossos dos braços acima e
abaixo do cotovelo, um terceiro fez o mesmo acima e nas canelas,
abaixo dos joelhos. Gesmas soltou gritos horríveis. Esmagaram-lhe em
três golpes o peito, para acabar de matá-lo. Dimas gemeu com a
tortura e morreu; foi o primeiro mortal que tornou a ver o Redentor.
Os carrascos desataram então as cordas, deixando cair os corpos no chão
e arrastando-os depois com cordas, para o vale entre o Calvário e o
muro da cidade, onde os enterraram.
Os carrascos ainda pareciam duvidar da morte do Senhor e os parentes
de Jesus estavam ainda mais assustados, pela brutalidade com que
haviam procedido e com medo de que pudessem voltar. Mas Cássio,
oficial subalterno, homem de 25 anos, ativo e um pouco precipitado,
cuja vista curta e cujos olhos tortos, juntamente com os ares de
importância que se dava, provocavam freqüentemente a troça dos
subordinados, recebeu de repente uma inspiração sobrenatural.
A crueldade e vil brutalidade dos carrascos, o medo das santas
mulheres e um impulso repentino, causado por uma graça divina,
fizeram-no cumprir uma profecia. Ajustando a lança, que trazia em
geral dobrada e encurtada, firmou-lhe a ponta e virando o cavalo,
esporeou-o para subir o cume, onde estava a cruz e onde o cavalo quase
não podia virar; vi como o afastou da fenda do rochedo. Parando assim
entre a cruz do bom ladrão e a de Jesus, ao lado direito do corpo de
Nosso Salvador, tomou a lança com ambas as mãos e introduziu-a com
tal força no lado direito do Santo Corpo, através das entranhas e do
coração, que a ponta da lança saiu um pouco do lado esquerdo,
abrindo uma pequena ferida. Quando tirou depois com força a santa lança,
brotou da larga chaga do lado direito do Redentor um rio de sangue e
água que, caindo, banhou o rosto de Cássio, como uma onda de salvação
e graça. Ele saltou do cavalo e, prostrando-se de joelhos, bateu no
peito e confessou a fé em Jesus em alta voz, diante de todos os
presentes.
A Santíssima Virgem e os outros, cujos olhos estavam sempre fixos no
Salvador, viram a súbita ação do oficial com grande angústia e
acompanharam o golpe da lança com um grito de dor, precipitando-se
para a cruz. Maria caiu nos braços das amigas, como se a lança lhe
tivesse transpassado o próprio coração e sentisse o ferro cortante
atravessá-lo de lado a lado.
Cássio, caindo de joelhos, louvava a Deus, pois, iluminado pela graça,
ficou crendo e também os olhos do corpo se lhe curaram e desde então
via tudo claro e distinto. Mas ao mesmo tempo ficaram todos
profundamente comovidos à vista do sangue que, misturado com água,
se juntara, espumante, numa cavidade da rocha, ao pé da cruz; Cássio,
Maria Santíssima, as santas mulheres e João apanharam o sangue e a
água em tigelas, guardando-o depois em frascos e enxugando-o da rocha
com panos.
Cássio estava como que transformado; tinha recobrado a vista perfeita
e profundamente comovido, curvava-se diante de Deus, com coração
humilde. Os soldados presentes, tocados pelo milagre que se operara
nele, prostraram-se de joelhos, batiam no peito e louvavam a Jesus. O
sangue e a água corriam abundantemente da larga chaga do lado direito
do Salvador, sobre a rocha limpa, onde se juntaram; apanharam-no, com
indizível comoção e as lágrimas de Maria e Madalena
misturavam-se-lhe. Os carrascos, que nesse ínterim tinham recebido a
ordem de Pilatos de não tocar no corpo de Jesus, que doara a José de
Arimatéia, para o sepultar, não voltaram mais.(...)
Tudo Isso se passou em redor da cruz de Jesus, logo depois das quatro
horas, quando José de Arimatéia e Nicodemos estavam ocupados em
juntar as coisas necessárias para o enterro. Os criados de José de
Arimatéia foram, enviados para limpar o sepulcro e anunciaram aos
amigos de Jesus no Gólgota que José recebera de Pilatos licença
para tirar da cruz o corpo do Mestre e sepultá-lo no seu sepulcro;
então voltou João, com as santas mulheres, à cidade, dirigindo-se
ao monte Sião, para que a Santíssima Virgem pudesse tomar algum
alimento e também para buscar alguns objetos para o enterro. (...)
A descida de Jesus aos infernos
Quando Jesus, com um grito forte rendeu a santíssima alma, vi-a,
qual figura luminosa, acompanhada de muitos Anjos, entre os quais também
Gabriel, descer pela terra adentro, ao pé da cruz. Vi, porém, que a
divindade lhe ficou unida tanto à alma, como também ao corpo,
pregado à cruz. Não sei explicar o modo porque se passou. Vi o lugar
aonde se dirigiu a alma de Jesus; era dividido em três partes,
parecendo três mundos e eu tinha a sensação de que tinha a forma
redonda e que cada um estava separado do outro por uma esfera.
Antes de chegar ao limbo, havia um lugar claro e, por assim dizer,
mais verdejante e alegre. Era o lugar em que vejo sempre entrarem as
almas remidas do purgatório, antes de serem levadas ao céu. O limbo,
onde se achavam os que esperavam a redenção, estava cercado de uma
esfera cinzenta, nebulosa e dividido em vários círculos. Nosso
Salvador, conduzido pelos Anjos como em triunfo, entrou por entre dois
desses círculos, dos quais o esquerdo encerrava os Patriarcas até
Abraão e o direito as almas de Abraão até João Batista.
Jesus penetrou por entre os dois; eles, porém, ainda não O
conheciam, mas estavam todos cheios de alegria e desejo; foi como se
dilatassem esses páramos da saudade angustiosa, como se ali entrassem
o ar, a luz e o orvalho da Redenção. Tudo se deu rapidamente, como o
sopro do vento. Jesus penetrou através dos dois círculos, até um
lugar cercado de neblina, onde se achavam Adão e Eva, nossos
primeiros pais.
Falou-lhes e adoraram-nO com indizível felicidade. O cortejo do
Senhor, ao qual se juntou o primeiro casal humano, dirigiu-se então
à esquerda, ao limbo dos Patriarcas que tinham vivido antes de Abraão.
Era uma espécie de purgatório; pois entre eles se moviam, cá e lá,
maus espíritos, que atormentavam e inquietavam algumas dessas almas
de muitas maneiras.
Os Anjos bateram e mandaram que abrissem; pois havia lá uma entrada,
uma espécie de porta, que estava fechada; os Anjos anunciaram a vinda
do Senhor, parecia-me ouvi-los exclamar: “Abri as portas!”. Jesus
entrou triunfalmente; os espíritos maus, retirando-se, gritaram:
“Que tens conosco? Que queres fazer de nós? Queres crucificar-nos
também?, etc”. - Os Anjos, porém, amarraram-nos e empurraram-nos
para diante. Essas almas sabiam pouco de Jesus, tinham só uma idéia
obscura do Salvador; Jesus anunciou-lhes a Redenção e eles lhe
cantaram louvores.
Dirigiu-se então a alma do Senhor ao espaço à direita, ao
verdadeiro limbo, em frente ao qual se encontrou com a alma do bom
ladrão, conduzida por Anjos ao seio de Abraão e com a do mau ladrão
que, cercado de espíritos maus, foi precipitada no inferno. A alma de
Jesus dirigiu-lhes algumas palavras e entrou então no seio de Abraão,
acompanhada dos Anjos, das almas remidas e dos demônios expulsos.
Esse lugar parecia-me situado um pouco mais alto; era como se subisse
do subterrâneo de uma igreja à igreja superior. Os demônios
amarrados quiseram resistir, não queriam passar; mas foram levados à
força pelos Anjos. Neste lugar estavam todos os santos Israelitas, à
esquerda os Patriarcas, Moisés, os Juízes, os Reis; à direita os
profetas e todos os antepassados e parentes de Jesus, até Joaquim,
Ana, José, Zacarias, Isabel e João. Nesse lugar não havia nenhum
mau espírito, nem tormento algum, a não ser o desejo ansioso da
Redenção, que se realizara enfim.
Uma indizível delícia e felicidade enchia as almas todas, que
saudavam e adoravam o Salvador; os demônios amarrados foram obrigados
a confessar sua ignomínia diante delas. Muitas dessas almas foram
enviadas à terra, para entrar nos respectivos corpos e dar testemunho
do Senhor. Foi nesse momento que tantos mortos saíram dos sepulcros
em Jerusalém; apareciam como cadáveres ambulantes, depositando
depois novamente os corpos, como um mensageiro da justiça deposita o
manto oficial, depois de ter cumprido as ordens do superior.
Vi depois o cortejo triunfal do Salvador entrar numa esfera mais
baixa, uma espécie de lugar de purificação, onde se achavam
piedosos pagãos que tinham tido um pressentimento da verdade e o
desejo de conhecê-la. Havia entre eles espíritos maus, porque tinham
ídolos; vi os espíritos malignos forçados a confessar o embuste e
as almas adorarem o Senhor com alegria tocante. Os demônios desse
lugar foram também amarrados e levados no cortejo. Assim vi o
Salvador passar triunfalmente, com grande velocidade, por vários
lugares onde estavam almas encerradas, libertando-as e fazendo ainda
muitas outras coisas, mas no meu estado de miséria não posso contar
tudo.
Por fim o vi aproximar-se, com ar severo, do centro do abismo, do
inferno, que me apareceu sob a forma de um imenso edifício horrível,
formado de negros rochedos, de brilho metálico, cuja entrada tinha
enormes portas, terríveis, pretas, fechadas com fechaduras e
ferrolhos que causavam medo. Ouviam-se uivos de desespero e gritos de
tormento, abriram-se as portas e apareceu um mundo hediondo e
tenebroso.
Assim como vi as moradas dos bem-aventurados sob a forma de uma
cidade, a Jerusalém celeste, com muitos palácios e jardins, cheios
de frutas e flores maravilhosas, de várias espécies, conforme as inúmeras
condições e graus de santidade, assim vi também o inferno como um
mundo separado, com muitos edifícios, moradas e campos. Mas tudo
destinado, ao contrário, à tortura e às penas dos condenados.
Como na morada dos bem-aventurados tudo é disposto segundo as causas
e condições da eterna paz, harmonia e alegria, assim no inferno se
manifesta em tudo a eterna ira, discórdia e desespero. Como no céu há
muitíssimos edifícios, indizivelmente belos, transparentes,
destinados à alegria e à adoração, assim há no inferno inúmeros
e variados cárceres e cavernas, cheios de tortura, maldição e
desespero.
No céu há maravilhosos jardins, cheios de frutos de gozo divino; no
inferno horrendos desertos e pântanos, cheios de tormentos e angústias
e de tudo que pode causar horror, medo e nojo. Vi templos, altares,
castelos, tronos, jardins, lagos, rios de maldição, de ódio, de
horror, de desespero, de confusão, de pena e tortura; como há no céu
rios de bênção, de amor, de concórdia, de alegria e felicidade;
aqui a eterna, terrível discórdia dos condenados; lá a união
bem-aventurada dos santos.
Todas as raízes da corrupção e do erro produzem aqui tortura e suplício,
em inumeráveis manifestações e operações; há só um pensamento
reto: a idéia austera da justiça divina, segundo a qual cada
condenado sofre a pena, o suplício, que é o fruto necessário de seu
crime; pois tudo que se passa e se vê de horrível nesse lugar, é a
essência, a forma e a perversidade do pecado desmascarado, da
serpente que atormenta com o veneno maldoso os que o alimentaram no
seio. Vi lá uma colunata horrorosa, em que tudo se referia ao horror
e à angústia, como no reino de Deus à paz e ao repouso. Tudo se
compreende facilmente, ao vê-lo, mas é quase impossível exprimir
tudo em palavras.
Quando os Anjos abriram as portas, viu-se um caos de contradição, de
maldições, de injúrias, de uivos e gritos de dor. Vi Jesus falar à
alma de Judas. Alguns dos Anjos prostraram exércitos inteiros de demônios.
Todos foram obrigados a reconhecer e adorar Jesus, o que foi para eles
o maior suplício. Grande número deles foram amarrados a um círculo,
que cercava muitos outros, que deste modo também ficaram presos. No
centro havia um abismo de trevas, Lúcifer foi amarrado e lançado
nesse abismo, onde vapores negros lhe ferviam em redor. Tudo se fez
segundo os decretos divinos.
Ouvi dizer que Lúcifer, se não me engano, 50 ou 60 anos antes do ano
2.000 de Cristo, seria novamente solto por certo tempo. Muitas outras
datas e números foram indicados, dos quais não me lembro mais.
Deviam ser soltos ainda outros demônios antes desse tempo, para provação
e castigo dos homens. Creio que também em nosso tempo era a vez de
alguns deles e de outros pouco depois do nosso tempo.
É-me impossível contar tudo quanto me foi mostrado; são muitas
coisas e não as posso relatar em boa ordem; também me sinto tão
doente e quando falo dessas coisas, elas se me representam novamente
diante dos olhos e só o aspecto já é suficiente para nos fazer
morrer.
Ainda vi exércitos imensos de almas remidas saírem do purgatório e
do limbo, acompanhando o Senhor, para um lugar de delícias abaixo da
Jerusalém celeste. Foi lá que vi também, há algum tempo, um amigo
falecido. A alma do bom ladrão foi também conduzida para lá e viu
assim o Senhor no Paraíso, conforme a promessa. Vi que nesse lugar
foram preparados banquetes de alegria e conforto, como os tenho visto
já muitas vezes, em visões consoladoras.
Não posso indicar com exatidão o tempo e a duração de tudo que se
passou, como também não posso contar tudo quanto vi e ouvi lá
porque eu mesma não compreendo mais tudo, já porque podia ser mal
compreendida pelos ouvintes. Vi, porém, o Senhor em lugares muito
diferentes, até no mar, parecia santificar e libertar todas as
criaturas; em toda parte fugiam os maus espíritos diante dEle e lançaram-se
no abismo. Vi também a alma do Senhor em muitos lugares da terra.
Vi-O aparecer no sepulcro de Adão e Eva, sob o Gólgota. As almas de
Adão e Eva juntaram-se-lhe novamente; falou-lhes e com elas O vi
passar, como sob a terra, em muitas direções e visitar os túmulos
de muitos profetas, cujas almas se lhe juntaram, próximo das
respectivas ossadas e explicou-lhes o Senhor muitas coisas.
Vi-O depois, com esse séqüito escolhido, em que seguia também Davi,
passar em muitos lugares de sua vida e paixão, explicando-lhes com
indizível amor todos os fatos simbólicos que se tinham dado ali e o
cumprimento dessas figuras em sua pessoa.
Vi-O especialmente explicar às almas tudo quanto se dera de fatos
figurativos no lugar em que foi batizado e contemplei muito comovida a
infinita misericórdia de Jesus, que as fez participar da graça de
seu santo Batismo.
Causou-me inexprimível comoção ver a alma do Senhor, acompanhada
por esses espíritos bem-aventurados e consolados, passar, como um
raio de luz, através da terra escura e dos rochedos, pelas águas e
pelo ar e pairar tão sereno sobre a terra.
É o pouco de que me lembro ainda, de minha contemplação da descida
do Senhor aos infernos e da redenção das almas dos Patriarcas,
depois de sua morte; mas além dessa visão dos tempos passados, vi
nesse dia uma imagem eterna de sua misericórdia para com as pobres
almas do purgatório. Vi que, em cada aniversário desse dia, lança
por meio da Igreja, um olhar de salvação ao purgatório; vi que já
no Sábado Santo remiu algumas almas do purgatório, que tinham pecado
contra Ele na hora da crucificação.
A primeira descida de Jesus ao limbo é o
cumprimento de figuras anteriores e, por sua vez, é a figura da redenção
atual. A descida aos infernos que vi, referia-se ao tempo passado, mas
a salvação de hoje é uma verdade permanente; pois a descida de
Jesus aos infernos é o plantio de uma árvore da graça, destinada a
administrar os seus méritos divinos às almas do purgatório e a
redenção contínua e atual dessas almas é o fruto dessa árvore da
graça no jardim espiritual do ano eclesiástico.
A Igreja militante deve cuidar dessa árvore,
colher-lhe os frutos, para os outorgar à Igreja padecente, porque
essa nada pode fazer em seu próprio proveito. Eis o que se dá em
todos os merecimentos de Nosso Senhor; é preciso cooperar, para ter
parte neles. Devemos comer o pão ganho com o suor de nosso rosto.
Tudo quanto Jesus fez por nós no tempo, dá frutos eternos; mas
devemos cultivá-los e colhê-los no tempo, para poder gozá-los na
eternidade.
A Igreja é como um bom pai de família; o
ano eclesiástico é o jardim mais perfeito, com todos os frutos
eternos no tempo; em um ano tem bastante de tudo para todos. Ai! dos
jardineiros preguiçosos e infiéis, que deixam perder uma graça, que
poderia curar um enfermo, fortalecer um fraco, saciar um faminto: no
dia de juízo terão de dar conta até do menor pezinho de erva.
Terminam aqui as revelações relativas à
descida de Jesus à mansão dos mortos. Mas Jesus ainda está no
madeiro, embora sua alma esteja percorrendo os abismos inferiores,
limbo, purgatório e inferno. Palavra por palavra das escrituras se
cumpriu neste dia, um dos mais terríveis jamais havidos na terra.
Naquele dia, entretanto, foi realizada a mais intensa obra jamais
realizada por um homem, ou seja, a libertação do próprio ser
humano, das cadeias do pecado, das malhas da perdição, da escravidão
do inferno.
Enfim, se não tivesse havido um Calvário
e uma Cruz, não haveria um caminho de salvação. Jesus realizou-a
sozinho, pois o profeta diz claramente: No lagar pisei eu, sozinho, e
ninguém dentre os povos me auxiliou (Is 63,3). Jesus, também, quase
ficou sozinho na Cruz, pois quase todos os seus o abandonaram. Você já
se perguntou, leitor, onde é que estaria naquele momento? Teria
fugido?
Faltam ainda, então, dois capítulos
de vitória. Primeiro a Ressurreição! Depois a também, a Ascensão
de Jesus aos céus. Um pouquinho de paciência e chegamos lá.
Feliz com o triunfo de Cristo!
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Fonte: Recados do Aarão
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