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O CORDEIRO DE DEUS -
Parte 9
Os queridos leitores não imaginam o
quanto apenas reler estes textos me deixa angustiado. É como reabrir
uma ferida que sangra. Não que eu seja criatura especial, mas me
oprime sentir da abissal cegueira que me guiou durante tantos anos, não
sendo capaz de penetrar melhor neste mistério da Cruz. Agora, porém,
é tarde para lamentos e tudo o que posso fazer, é tentar levar para
mais pessoas o que foi na realidade o verdadeiro Calvário de Cristo,
e o terror assombroso que é morrer pregado numa Cruz. Sigamos com
Jesus, agora subindo o Calvário!
Jesus toma a cruz aos ombros
Quando Pilatos desceu do tribunal do Gábata, seguiram-no uma
parte dos soldados e formaram diante do palácio, para acompanhar o séqüito.
Um pequeno destacamento ficou com os condenados. Vinte e oito fariseus
armados, entre os quais os seis inimigos furiosos de Jesus que estavam
presentes quando foi preso no horto das Oliveiras, vieram a cavalo ao
fórum, para acompanhar o séqüito.
Os carrascos conduziram Jesus ao meio do fórum; alguns escravos
entraram pela porta ocidental, trazendo o patíbulo da cruz e
jogaram-no ruidosamente aos pés do Salvador. Os dois braços da cruz,
mais finos, estavam amarrados com cordas ao tronco largo e pesado; as
cunhas, o cepo para sustentar os pés e a peça ajustada ao tronco
para a inscrição, junto com outras ferramentas, eram carregados por
alguns meninos a serviço dos carrascos.
Quando jogaram a cruz no chão, aos pés de Jesus, Ele se ajoelhou
junto à mesma e, abraçando-a, beijou-a três vezes, dirigindo ao Pai
celestial, em voz baixa, uma oração comovente de ação de graças
pela redenção do gênero humano, a qual ia realizar. Como os
sacerdotes, entre os pagãos, abraçam um altar novo, assim abraçou
Jesus a cruz, o eterno altar do sacrifício cruento de expiação.
Os carrascos, porém, com um arranco nas cordas, fizeram Jesus ficar
ereto, de joelhos, obrigando-O a carregar penosamente o pesado madeiro
ao ombro direito e com o braço direito segurá-lo, com pouco e cruel
auxílio dos carrascos. Vi anjos ajudando-O invisivelmente, pois
sozinho não teria conseguido suspendê-lo; ajoelhava-se, curvado sob
o pesado fardo.
Enquanto Jesus estava rezando, outros carrascos puseram sobre os pescoços
dos ladrões os madeiros transversais das respectivas cruzes,
amarrando-lhes os braços erguidos de ambos os lados. Essas travessas
não eram inteiramente retas, mas um pouco curvas e na hora da
crucifixão eram ajustadas na extremidade superior dos troncos, que
eram transportados atrás deles por escravos, junto com outros utensílios.
Ressoou um toque de trombeta da cavalaria de Pilatos e um dos fariseus
a cavalo aproximou-se de Jesus, que estava de joelhos, sob o fardo e
disse-Lhe: “Acabou agora o tempo dos belos discursos”; e aos
carrascos: “Apressai-vos, para que fiquemos livres dEle. Vamos
avante!” Fizeram-nO levantar-se então aos arrancos e caiu-Lhe assim
sobre o ombro todo o peso da cruz, que nós devemos também carregar
para seguí-Lo, segundo as suas santas palavras, que são a verdade
eterna. Então começou a marcha triunfal do Rei dos reis, tão
ignominiosa na terra, tão gloriosa no Céu.
Tinham atado duas cordas à extremidade posterior da cruz e dois
carrascos levantaram-na por meio delas, de modo que ficava suspensa e
não se arrastava pelo chão. Um pouco afastados de Jesus seguiam
quatro carrascos, segurando as quatro cordas que saiam do cinturão
novo, com que O tinham cingido. O manto, arregaçado, fora-Lhe atado
em redor do peito. Jesus, carregando ao ombro os madeiros da cruz,
ligados num feixe, lembrava-me vivamente Isaac, levando a lenha para a
sua própria imolação ao monte Mória.
O trombeteiro de Pilatos deu então o sinal de partir, porque Pilatos
também queria sair com um destacamento de soldados, para impedir
qualquer movimento revoltoso na cidade. Estava a cavalo, vestido da
armadura e rodeado de oficiais e de um destacamento de cavalaria;
seguia depois um batalhão de infantaria, de cerca de 300 soldados,
todos oriundos da fronteira da Itália e Suíça.
Em frente do cortejo em que ia Jesus, seguia um corneteiro, que tocava
nas esquinas das ruas, proclamando a sentença e a execução. Alguns
passos atrás, marchava um grupo de meninos e homens das camadas mais
baixas do povo, transportando bebidas, cordas, pregos, cunhas e
cestos, com diversas ferramentas; escravos mais robustos carregavam as
estacas, escadas e os troncos das cruzes dos ladrões. As escadas
constavam apenas de um pau comprido, com buracos, nos quais fincavam
cavilhas.
Seguiam-se depois alguns fariseus a cavalo e atrás deles um
rapazinho, segurando sobre os ombros, suspensa numa vara, a coroa de
espinhos, que não puseram na cabeça de Jesus, porque parecia
impedi-Lo de carregar a cruz. Esse rapazinho não era muito ruim.
Seguia então Nosso Senhor e Salvador, curvado sob o pesado fardo da
cruz, cambaleando sobre os pés descalços e feridos, dilacerado e
contundido pela flagelação e as outras brutalidades, exausto de forças,
por estar sem comer, sem beber, nem dormir desde a Ceia, na véspera,
enfraquecido pela perda de sangue, pela febre e sede, atormentado por
indizíveis angústias e sofrimentos da alma.
Com a mão segurava o pesado lenho sobre o ombro direito; a esquerda
procurava penosamente levantar a larga e longa veste, para desembaraçar
os passos, já pouco seguros. Tinha as mãos inchadas e feridas pelas
cordas, com que haviam estado antes fortemente amarradas. O rosto
estava coberto de pisaduras e sangue; cabelo e barba em desalinho e
colados pelo sangue; o pesado fardo e o cinturão apertavam-Lhe a
roupa pesada de lã de encontro ao corpo ferido e a lã pegava-se-Lhe
às feridas reabertas.
Em redor só havia ódio e insultos. Mas também nessa imensa miséria
e em todos esses martírios se manifestava o amor do Divino Mártir: a
boca movia-se-Lhe em oração e o olhar suplicante e humilde prometia
perdão. Os dois carrascos que suspendiam a cruz, pelas cordas fixadas
na extremidade posterior, aumentavam ainda o martírio de Jesus,
deslocando o pesado fardo, que alternadamente levantavam e deixavam
cair.
Em ambos os lados do cortejo marchavam vários soldados, armados de
lanças. Depois de Jesus, vinham os dois ladrões, cada um conduzido
por dois carrascos, que lhes seguravam as cordas, presas ao cinturão;
transportavam sobre a nuca os madeiros transversais das respectivas
cruzes, separados do tronco; tinham os braços amarrados às
extremidades dos madeiros. Andavam meio embriagados por uma bebida que
lhes tinham dado. Contudo o bom ladrão estava muito calmo; o mau, porém,
impertinente, praguejava furioso.
A maior parte da multidão já se pusera a caminho, logo depois de
pronunciada a sentença; os demais judeus dirigiram-se às respectivas
casas ou ao Templo; pois haviam perdido muito tempo durante a manhã e
apressavam-se em continuar os preparativos para a imolação do
cordeiro pascal. Contudo era ainda muito numerosa a multidão,
composta de gente de todas as classes: forasteiros, escravos, operários,
meninos, mulheres e a ralé da cidade; corriam pelas ruas laterais e
por atalhos para a frente, para ver mais uma ou outra vez o triste séqüito.
O destacamento de soldados romanos que seguia, impedia o povo de
juntar-se atrás do séqüito, assim era preciso correr sempre para a
frente, pelas ruas laterais. A maior parte da multidão dirigiu-se
diretamente ao Gólgota.
A rua estreita pela qual Jesus foi conduzido primeiro tinha apenas a
largura de alguns passos, e passava pelos fundos das casas, onde havia
muita imundície. Jesus teve que sofrer muito ali; os carrascos
andavam mais perto dEle; das janelas e dos buracos dos muros O vaiava
a gentalha; escravos que lá trabalhavam, atiravam-Lhe lama e restos
imundos da cozinha; patifes perversos derramavam-Lhe em cima água
suja e fétida dos esgotos; até crianças, instigadas pelos velhos,
juntavam pedras nas roupinhas e saindo das casas e atravessando o séqüito
a correr, jogavam-nas no caminho, aos pés de Jesus. Assim foi Jesus
tratado pelas crianças, que tanto amava, abençoava e chamava,
bem-aventuradas.
A primeira queda de Jesus sob a cruz
A rua estreita dirige-se no fim para a esquerda, torna-se mais
larga e começa a subir. Passa ali um aqueduto subterrâneo, que vem
do Monte Sião (...) Quando Jesus, carregado do pesado fardo, chegou a
esse lugar, não tinha mais força para ir adiante; os carrascos
arrastavam e empurravam-nO sem piedade; então Jesus, nosso Deus,
tropeçando sobre a pedra, caiu por terra e a cruz tombou-Lhe ao lado.
Os carrascos praguejaram, puxaram-nO pelas cordas, deram-Lhe pontapés;
o séqüito parou, formou-se um grupo tumultuoso em redor do Divino
Mestre. Debalde estendia a mão, para que alguém O ajudasse a
levantar-se. (...) Os fariseus gritaram: “Vamos! Fazei-O
levantar-se, senão nos morre nas mãos!”. Aqui e acolá, dos lados
da rua, se viam mulheres a chorar, com crianças, que também
choramingavam assustadas.
Com auxílio sobrenatural (1), conseguiu Jesus afinal levantar a cabeça
e esses homens abomináveis e diabólicos, em vez de O ajudarem e
aliviarem, ainda Lhe impuseram novamente a coroa de espinhos.
Levantaram-nO depois brutalmente e puseram-Lhe a cruz de novo ao
ombro. Com isso era obrigado a pender para o outro lado a cabeça,
torturada pelos espinhos, para assim poder carregar o pesado patíbulo.
Com novo e maior martírio subiu então pela rua, que dali em diante
se tornava mais larga.
(1) Devemos aqui deixar claro uma coisa! Jamais
criatura alguma seria capaz de sofrer tais tormentos, sem morrer
antes. Ninguém suportaria tamanha saraiva de golpes, sem sucumbir. E
por diversas vezes, ficou claro que os anjos o ajudavam no
estritamente necessário, para que ele suportasse a nova saraiva. Dois
casos se poderia citar aqui: No riacho do Cedron, por duas vezes o
puxaram para fora, pela corda do pescoço. Em ambos os casos, se os
anjos não o suspendessem, ele morreria. Quando ele foi amarrado no
poste para flagelação diante de Pilatos, levou duas pauladas na cabeça.
Se os anjos não lhe tivessem dado um alimento celeste, ambos golpes o
teriam matado. Acho que, depois de tanto pensar nisso, creio que no
total, pelo menos 100 vezes Jesus teria morrido. Ou seja: se os
carrascos fossem aplicar os mesmos golpes que deram em Jesus, e ao
matarem o primeiro fossem ao segundo, depois ao terceiro, etc. eles
matariam 100 homens um atrás do outro em série até terem chegado ao
golpe de lança na cruz.
O encontro de Jesus com a Sua Mãe. Segunda queda de Jesus debaixo
da cruz
A Mãe de Jesus, transpassada de dor, tinha se retirado do fórum,
com João e algumas mulheres, depois de ouvir a sentença que lhe
condenara injustamente o Filho. Tinham visitado muitos dos lugares
sagrados pela Paixão de Jesus, mas quando o correr do povo e o toque
dos clarins e o séqüito de Pilatos, com os soldados, anunciaram a
partida para o Calvário, Maria não pôde conter-se mais: o amor
impelia-a a ver o divino Filho, no seu sofrimento e pediu a João que
a conduzisse a um lugar onde Jesus tivesse de passar.
Eles tinham vindo dos lados de Sião; passaram ao lado do tribunal
donde Jesus havia pouco, fora levado por portas e alamedas que noutros
tempos estavam fechadas, mas nessa ocasião abertas, para dar passagem
à multidão. Passaram depois pela parte ocidental de um palácio, que
do outro lado dá, por um portão, para a rua larga, na qual o séqüito
entrou depois da primeira queda de Jesus. Não sei mais com certeza se
esse palácio era uma ala da casa de Pilatos, com a qual parece estar
ligada por pátios e alamedas ou se é, como me lembro agora, a própria
habitação do Sumo Sacerdote Caifás; pois a casa em Sião era apenas
o tribunal. - João conseguiu de um criado ou porteiro compassivo a
licença de passar, com Maria e as companheiras, para o outro lado e o
mesmo empregado abriu-lhes o portão para a rua larga. - Estava com
eles um sobrinho de José de Arimatéia; Suzana, Joana Chusa e Salomé
de Jerusalém seguira a Santíssima Virgem.
Quando vi a dolorosa Mãe de Deus, pálida, olhos vermelhos de chorar,
tremendo e gemendo, envolta da cabeça aos pés num manto
azul-cinzento, passando com as companheiras por aquela casa, senti-me
presa de dor e susto. Já se ouviam por sobre as casas o tumulto e os
gritos do séqüito, que se aproximava, o toque da trombeta e a voz do
arauto, anunciando nas esquinas das ruas a execução de um condenado
à cruz. O criado abriu o portão; o ruído tornou-se mais distinto e
assustador.
Maria rezava e disse a João: “Que devo fazer, ficar para vê-Lo ou
fugir? Como poderei suportar vê-Lo neste estado?” João disse:
“Se não ficardes, arrepender-vos-eis amargamente toda a vida”.
Então saíram da casa, ficando à espera, sob a arcada do portão;
olhavam para a direita, rua abaixo, que até lá subia, mas continuava
plana, do lugar onde estava Maria.
Ai! Como o som da trombeta lhe penetrou no coração! O séqüito
aproximava-se, ainda estaria distante uns 80 passos, quando saíram do
portão. Ali o povo não andava na frente, mas aos lados e atrás
havia alguns grupos; grande parte da gentalha, que saíra por último
do tribunal, corria por atalhos para a frente, para ocupar outros
lugares, donde pudesse ver passar o séqüito.
Quando os servos dos carrascos, que transportavam os instrumentos do
suplício, se aproximaram, impertinentes e triunfantes, começou a Mãe
de Jesus a tremer e chorar e torcer as mãos de aflição. Um dos
miseráveis perguntou aos que iam ao lado: “Quem é essa mulher, que
está ali lamentando?”. Um deles respondeu: “É a mãe do
Galileu”. Ouvindo isso os perversos insultaram-na com palavras de
zombaria, apontaram-na com os dedos e um desses homens perversos tomou
os cravos, com os quais Jesus devia ser pregado na cruz e mostrou-o à
Santíssima Virgem, com ar de escárnio.
Ela, porém, torcendo as mãos, olhava na direção de seu Filho e
esmagada pela dor, encostou-se ao pilar do portão. Tinha a palidez de
um cadáver e os lábios roxos. Passaram os fariseus a cavalo; depois
veio o menino, com o título da cruz e, ai! alguns passos atrás,
Jesus, o Filho de Deus, seu próprio Filho querido, o Santo, o
Redentor: lá ia cambaleando e curvado, afastando penosamente a cabeça,
com a coroa de espinhos, do pesado fardo da cruz.
Os carrascos arrastavam-nO pelas cordas para a frente; tinha o rosto pálido,
coberto de sangue e pisaduras, a barba toda junta e colada sob o
queixo pelo sangue. Os olhos encovados e sangrentos do Salvador, sob o
horrível enredo da coroa de espinhos, lançaram um olhar grave e
cheio de piedade à Mãe dolorosa e depois, tropeçando, Ele caiu pela
segunda vez, sob o peso da cruz, sobre os joelhos e as mãos. A Mãe,
na veemência da dor, não via mais nem soldados nem carrascos, via só
o Filho querido em estado tão lastimoso e tão maltratado. Estendendo
os braços, correu os poucos passos do portão até Jesus, através
dos carrascos e abraçando-O, caiu-Lhe ao lado de joelhos. Ouvi as
palavras: “Meu Filho!” - “Minha Mãe!” - não sei se foram
pronunciadas pelos lábios ou só no coração.
Houve um tumulto: João e as mulheres tentavam afastar Maria, os
carrascos praguejavam e insultavam-na; um deles gritou: “Mulher, que
queres aqui? Se O tivesses educado melhor, não estaria agora em
nossas mãos”. Vi que alguns dos soldados estavam comovidos; eles
afastaram a Santíssima Virgem, nenhum, porém, a tocou.
João e as mulheres levaram-na e ela caiu de joelhos, como morta de
dor, sobre a pedra angular do portão, a qual suportava o muro;
estavam de costas viradas para o séqüito, apoiando-se com as mãos
na parte superior da pedra inclinada, sobre a qual caíra. Era uma
pedra com veias verdes; onde os joelhos de Nossa Senhora tocaram,
ficaram cavidades e onde as mãos se lhe apoiaram, deixaram marcas
menos profundas. Eram impressões chatas, com contornos pouco claros,
semelhantes à impressões causadas por uma pancada sobre massa de
farinha. Era uma pedra muito dura. Vi que no tempo do bispo Tiago o
Menor essa pedra foi colocada na primeira Igreja católica, que foi
construída ao lado da piscina de Betesda.
Já o tenho dito várias vezes e digo-o mais uma vez, que vi em
diversas ocasiões tais impressões causadas pelo contato de pessoas
santas em acontecimentos de grande importância. Isso é tão certo,
que há até a expressão: “Uma pedra sentir-se-ia comovida”, ou a
outra: “Isso faz impressão”. A eterna Sabedoria não tinha precisão
da arte da imprensa, para transmitir à posteridade testemunhos dos
santos.
Como os soldados, armados de lanças, que marchavam aos lados do séqüito,
impeliam o povo para diante, os dois discípulos que estavam com a Mãe
de Jesus, reconduziram-na pelo portão, que foi fechado atrás deles.
Os carrascos tinham, no entanto, levantado Jesus aos arrancos e
puseram-Lhe a cruz de novo ao ombro, mas de outra maneira. Os braços
da cruz, amarrados ao tronco haviam ficado um pouco soltos e um deles
descera um pouco ao lado do tronco; foi esse que Jesus abraçou então,
de modo que o tronco da cruz pendia atrás, mais no chão.
Terceira queda de Jesus sob a cruz. Simão de Cirene.
O séqüito continuou nessa rua larga, até chegar à porta de um
antigo muro da cidade interior. Diante dessa porta há uma praça, em
que desembocam três ruas. Ali Jesus tinha de passar sobre outra pedra
grande, mas tropeçou e caiu. A cruz tombou para o lado e Jesus,
apoiando-se sobre a pedra, caiu por terra e tão enfraquecido estava,
que não pôde levantar-se mais. Passaram grupos de gente bem vestida,
que iam ao Templo e vendo-O, exclamaram: “Coitado, o pobre homem
morre!”
Deu-se um tumulto; não conseguiram mais levantar Jesus e os fariseus
que conduziam o cortejo, disseram aos soldados: “Não chegamos lá
com Ele vivo; deveis procurar um homem que Lhe ajude a levar a
cruz”. Vinha justamente descendo pela rua do meio Simão de Cirene,
um pagão, acompanhado pelos três filhinhos; transportava um feixe de
ramos secos debaixo do braço. Era jardineiro e vinha dos jardins
situados perto do muro oriental da cidade, onde trabalhava. Todos os
anos vinha, com mulher e filhos, para a festa em Jerusalém, como
muitos outros da mesma profissão, para podar as sebes.
Não pôde sair do caminho, porque a multidão se apinhava na rua. Os
soldados, que pela roupa viam que era pagão e pobre jardineiro,
apoderaram-se dele e, levando-o para onde estava Jesus, mandaram-lhe
que ajudasse o Galileu a transportar a cruz. Simão resistiu e mostrou
muita repugnância, mas obrigaram-no à força.
Os filhinhos choravam alto e algumas mulheres que conheciam o homem,
levaram-nos consigo. Simão sentiu muito nojo e repugnância, vendo
Jesus tão miserável e desfigurado e com a roupa tão suja e cheia de
imundície. Mas Jesus, com os olhos cheios de lágrimas, olhou para
Simão com olhar tão desamparado, que causava dó.
Simão foi obrigado a ajudá-Lo a levantar-se; os carrascos amarraram
o braço da cruz mais para trás e penduraram-no, com uma volta da
corda, sobre o ombro de Simão, que andava muito perto, atrás de
Jesus, que deste modo não tinha mais de carregar tanto peso.
Finalmente o lúgubre séqüito se pôs em movimento.
Simão era homem robusto, de 40 anos. Andava com a cabeça descoberta;
vestia uma túnica curta, apertada e na cintura uma faixa de pano
roto; as sandálias, atadas aos pés e pernas com correias, terminavam
na frente em bico agudo. Os filhos vestiam túnicas listadas de várias
cores; dois já eram quase moços, chamavam-se Rufo e Alexandre e
juntaram-se mais tarde aos discípulos. O terceiro era ainda pequeno;
vi-o ainda menino, em companhia de Santo Estevão. Simão ainda não
tinha seguido muito tempo Jesus, carregando o patíbulo e já se
sentia profundamente comovido.
Verônica e o Sudário
A rua em que se movia nessa hora o séqüito, era longa, com uma
leve curva para a esquerda e nela desembocavam várias ruas laterais.
De todos os lados vinha gente bem vestida, que se dirigia ao Templo;
ao ver o séqüito, uns se afastavam, com o receio farisaico de se
contaminarem, outros manifestavam certa compaixão.
Havia cerca de duzentos passos que Simão ajudava Jesus a carregar a
cruz, quando uma mulher de figura alta e imponente, segurando uma
menina pela mão, saiu de uma casa bonita, ao lado esquerdo da rua e
que tinha um átrio cercado de muros e de um belo gradil brilhante,
onde se penetrava por um terraço, com escadaria. Ela correu, com a
menina, ao encontro do cortejo. Era Seráfia, mulher de Sirac, membro
do Conselho do Templo, a qual, pela boa ação praticada nesse dia,
recebeu o nome de Verônica (de “vera icon”: verdadeira imagem).
Seráfia tinha preparado em casa um delicioso vinho aromático, com o
piedoso desejo de oferecê-lo como refresco a Jesus, no caminho
doloroso para o suplício. Já tinha ido uma vez ao encontro do séqüito,
em expectativa dolorosa; vi-a velada, segurando pela mão uma mocinha
que adotara, passar ao lado do séqüito, quando Jesus se encontrou
com a Santíssima Virgem. Mas, com o tumulto, não achou ocasião de
aproximar-se e voltou às pressas para casa, para lá esperar o
Senhor.
Saiu, pois, velada de casa para a rua; um pano pendia-lhe do ombro; a
menina, que podia ter nove anos, estava-lhe ao lado, ocultando sob o
manto o cântaro com o vinho, quando o séqüito se aproximou. Os que
o precediam, tentaram em vão retê-la; ela estava fora de si de amor
e compaixão. Com a menina, que se lhe segurava, pegando-lhe o
vestido, atravessou a gentalha, que ia dos lados e por entre soldados
e carrascos, avançou para a frente de Jesus e, caindo de joelhos,
levantou para Ele o pano, estendido de um lado, suplicando:
“Permiti-me enxugar o rosto de meu Senhor”. Jesus tomou o pano com
a mão esquerda e apertou-o, com a palma da mão de encontro ao rosto
ensangüentado; movendo depois a mão esquerda, com o pano, para junto
da mão direita, que segurava a cruz, apertou-o entre as duas mãos e
restituiu-lho, agradecendo; ela o beijou, escondendo-o sobre o coração,
debaixo do manto e levantou-se.
Então a menina ofereceu timidamente o cântaro com o vinho; mas
os soldados e carrascos, praguejando, impediram-na de confortar Jesus.
A audácia e rapidez dessa ação provocou um ajuntamento curioso do
povo e causou assim uma pausa de dois minutos apenas na marcha, o que
permitiu a Seráfia oferecer o sudário a Jesus. Os fariseus a cavalo
e os carrascos irritaram-se com essa demora e mais ainda com a veneração
pública manifestada ao Senhor e começaram a maltratá-Lo e empurrá-Lo.
Verônica, porém, fugiu com a menina para dentro de casa.
Apenas entrara no aposento, estendeu o sudário sobre a mesa e caiu
por terra desmaiada; a menina, com o cântaro de vinho,
ajoelhou-se-lhe ao lado, chorando. Assim as encontrou um amigo da
casa, que entrara para a visitar e a viu como morta, sem sentidos, ao
lado do sudário estendido, no qual o rosto ensangüentado do Senhor
estava impresso de um modo maravilhosamente distinto, mas também horrível.
Muito assustado, fê-la voltar a si e mostrou-lhe o rosto do Senhor.
Cheia de dor, mas também de consolação, Seráfia ajoelhou-se diante
do sudário, exclamando: “Agora vou abandonar tudo, o Senhor deu-me
uma lembrança”.
Esse sudário era de lã fina, cerca de três vezes mais longo do que
largo. Costumava-se usar em volta do pescoço; às vezes usavam ainda
outro em torno dos ombros. Era uso ir ao encontro de pessoas aflitas,
cansadas, tristes ou doentes e enxugar-lhes o rosto; era sinal de luto
e compaixão; nas regiões quentes também usavam dá-lo de presente.
Verônica guardava esse sudário sempre à cabeceira da cama. Depois
de sua morte veio ter, por intermédio das santas mulheres, às mãos
da Santíssima Mãe de Deus e dos Apóstolos e depois à Igreja.
A quarta e quinta queda de Jesus sob a cruz. As compassivas filhas
de Jerusalém
O séqüito estava ainda à boa distância da porta; a rua descia
um pouco até lá. A porta era uma construção extensa e fortificada;
passava-se primeiro por uma arcada abobadada, depois sobre uma ponte e
finalmente por outra arcada. A porta ficava em direção sudoeste; ao
sair dela, se via o muro da cidade estender-se para o sul, a uma distância
como, por exemplo, da minha casa até a Matriz, (cerca de dois minutos
de caminho); depois virava, à uma boa distância, para oeste e
voltava novamente à direção do sul, fazendo a volta do Monte Sião.
A direita se estendia o muro para o norte, até à porta do Angulo,
dirigindo-se depois ao longo da parte setentrional de Jerusalém, para
leste.
Quando o séqüito se aproximou da porta, impeliam-nO os carrascos com
mais violência. Justamente diante da porta, havia no caminho desigual
e arruinado uma grande poça: os carrascos arrastavam Jesus para
frente, apertavam-se uns aos outros; Simão Cireneu procurou passar ao
lado da poça, pelo caminho mais cômodo; com isso deslocou-se a cruz
e Jesus caiu pela quarta vez sob a cruz e tão duramente, no meio do
lodaçal, que Simão quase não pôde segurar a cruz, Jesus exclamou
em voz fina, fraca e contudo alto: “Ai de ti! Ai de ti! Jerusalém!
Quanto te tenho amado! Como uma galinha, que esconde os pintinhos sob
as asas, assim queria reunir os teus filhos e tu me arrastas tão
cruelmente para fora das tuas portas”.
O Senhor disse essas palavras com profunda tristeza, mas os
fariseus, virando-se para Ele, insultaram-nO, dizendo: “Este
perturbador do sossego público ainda não acabou; ainda tem a língua
solta?” e outras zombarias semelhantes. Espancaram e empurraram
Jesus, arrastando-O para fora do lodaçal, para o levantar. Simão
Cireneu ficou tão indignado com as crueldades dos carrascos, que
gritou: “Se não acabardes com essa infâmia, jogarei a cruz no chão
e não a carregarei mais, mesmo que me mateis também”. (...)
Jesus não caiu ali inteiramente por terra; ia caindo como quem
desmaia, de modo que Simão pôs a extremidade da cruz no chão e,
aproximando-se de Jesus, segurou-O. O Senhor encostou-se em Simão.
Essa foi a quinta queda do Salvador sob a cruz. As mulheres e moças,
ao verem Jesus tão desfigurado e ensangüentado, começaram a chorar
e lamentar alto, oferecendo-lhe os sudários, segundo o costume entre
os judeus, para que enxugasse o rosto.
Jesus virou-se-lhes e disse: “Filhas de Jerusalém, (isso significa
também: filhas de Jerusalém e cidades vizinhas), não choreis por
mim, mas chorai por vós e vossos filhos; porque sabei que virá tempo
em que se dirá: “Ditosas as que são estéreis e ditosos os ventres
que não geraram e ditosos os peitos que não deram de mamar”. - Então
começarão os homens a dizer aos montes: “Caí sobre nós!” e aos
outeiros: “Cobri-nos”. “Porque, se isto se faz no lenho verde,
que se fará no seco?”. Ainda lhes disse outras belas palavras, as
quais, porém, esqueci; entre outras disse que aquelas lágrimas lhes
seriam recompensadas, que doravante deviam seguir outros caminhos,
etc.
Houve ali uma pausa, pois o séqüito parou por algum tempo. Aqueles
que levavam os instrumentos do suplício, continuaram o caminho para o
Calvário; seguiam-se depois cem soldados do destacamento de Pilatos,
o qual tinha acompanhado o cortejo até ali, mas chegado à porta da
cidade, voltara para o palácio.
Jesus no Monte Gólgota. Sexta e sétima queda de Jesus e seu
encarceramento
O séqüito pôs-se novamente em caminho. Jesus, curvado sob a
cruz, impelido a empurrões e golpes, arrastado pelas cordas, subiu
penosamente o áspero caminho que segue para o norte, entre o monte
Calvário e os muros da cidade; depois, no alto, se volta o caminho
tortuoso outra vez para o sul. Lá caiu Jesus, tão enfraquecido, pela
sexta vez; foi uma queda dura e a cruz, ao cair, ainda mais o feriu.
Os carrascos, porém, espancaram e impeliram-nO com mais brutalidade
do que antes, até que Jesus chegou ao cume, no penedo do Gólgota e
ali caiu novamente com a cruz por terra, pela sétima vez.
Simão Cireneu, também maltratado e cansado, estava cheio de indignação
e compaixão; quis ajudar Jesus a levantar-se, mas os carrascos, aos
empurrões e insultos, fizeram-no voltar pelo caminho, morro abaixo;
pouco depois se associou aos discípulos do Mestre Divino. Também os
outros que trouxeram os instrumentos ou seguiram o cortejo e de que os
carrascos não precisavam mais, foram enxotados do cume. Os fariseus a
cavalo subiram o monte Calvário por outros caminhos, mais cômodos,
do lado oeste. Do cume se avistam justamente os muros da cidade.
A face superior, o lugar do suplício, tem a forma circular e caberia
bem no largo diante da nossa Matriz; é do tamanho de um bom picadeiro
e cercado de um aterro baixo, cortado por cinco caminhos. Essa disposição
de cinco caminhos encontra-se em quase todos os lugares do país, em
lugares de banhos públicos ou de batismo, como na piscina Betesda;
muitas cidades também têm cinco portas. Essa disposição acha-se em
todas as construções dos tempos antigos e também em mais modernos e
assim foram feitas em atenção às antigas tradições. Como em todas
as coisas da Terra Santa, há também nisso um profundo sentido profético,
cumprido nesse dia, em que se abriram os cinco caminhos de toda a
salvação, as cinco sagradas Chagas de Jesus.(...)
Eram cerca de onze horas e três quartos, quando Jesus, arrastado com
a cruz para o lugar do suplício, caiu por terra e Simão foi expulso
de lá. Os carrascos levantaram o Salvador aos arrancos das cordas e
desligaram os madeiros da cruz, jogando-os no chão, um em cima do
outro. Ai! que aspecto terrível apresentava Jesus, em pé no lugar do
suplício, abatido, triste, coberto de feridas, ensangüentado, pálido.
Os carrascos deitaram-nO brutalmente por terra, dizendo em tom de
mofa: “Ó rei dos judeus, devemos tomar medida de teu trono?”. Mas
Jesus deitou-se de livre vontade sobre a cruz e se a fraqueza lhO
tivesse permitido, os carrascos não teriam tido necessidade de jogá-Lo
por terra. Estenderam-nO sobre a cruz e marcaram nesta os lugares das
mãos e dos pés, enquanto os fariseus em redor riam e insultavam o
Divino Salvador.
Levantando-O novamente, conduziram-nO amarrado uns setenta passos ao
norte, descendo a encosta do monte Calvário, a uma fossa cavada na
rocha, que parecia uma cisterna ou adega; levantando o alçapão,
empurraram-nO para dentro tão brutalmente, que se não fosse por auxílio
divino, teria chegado ao fundo duro da rocha com os joelhos esmagados.
Ouvi-Lhe os gemidos altos e agudos. Fecharam o alçapão e deixaram
uma guarda. Segui-O nesses setenta passos; parece-me lembrar ainda de
uma revelação sobrenatural de que os Anjos o socorreram, para que não
esmagasse os joelhos; mas a pobre Vítima gemia e chorava de modo que
cortava o coração. A rocha amoleceu, ao contato dos joelhos sagrados
do Redentor.
Os carrascos começaram então os preparativos. Havia no centro do
largo do suplício uma elevação circular, de talvez dois pés de
altura, para a qual se tinham de subir alguns degraus: era o ponto
mais alto do penedo do Calvário. Nesse cume estavam cavando a cinzel
os buracos nos quais as três cruzes deviam ser plantadas; já tinham
tomado medida para isso na extremidade inferior das cruzes. Colocaram
os troncos das cruzes dos ladrões à direita e à esquerda, sobre
essa elevação; esses lenhos eram toscamente aparados e mais baixos
do que a cruz de Jesus; em cima haviam sido cortados obliquamente. Os
madeiros transversais, aos quais os ladrões ainda estavam amarrados,
foram depois ajustados um pouco abaixo da extremidade superior dos
troncos.
Os carrascos colocaram então a cruz de Nosso Senhor no lugar onde O
queriam pregar, de modo que a pudessem comodamente levantar e fazer
entrar na escavação. Encaixaram os dois braços da cruz no tronco,
pregaram a peça de madeira para os pés, abriram com uma verruma os
furos para os cravos e para o prego do título, fincaram a martelo as
cunhas sob os braços da cruz e fizeram cá e lá algumas cavidades no
tronco da cruz, para dar espaço para a coroa de espinhos e as costas,
de modo que o corpo ficasse mais suportado pelos pés do que pendurado
pelas mãos, que podiam rasgar-se com o peso do corpo e para que Jesus
sofresse maior martírio. Ainda fincaram em cima por um madeiro
transversal, para servir de apoio às cordas, com as quais queriam
puxar e elevar a cruz e fizeram ainda outros preparativos semelhantes.
Maria e as amigas vão ao Calvário
Depois do doloroso encontro da SS. Virgem com o Divino Filho,
carregando a cruz, quando Maria caiu sem sentidos sobre a pedra
angular, Joana Chusa, Suzana e Salomé de Jerusalém, com auxílio de
João e do sobrinho de José de Arimatéia, conduziram-na para dentro
da casa, impelidos pelos soldados e o portão foi fechado, separando-a
do Filho bem-amado, carregado do peso da cruz e cruelmente maltratado.
O amor e o ardente desejo de estar com o Filho, de sofrer tudo com Ele
e de não O abandonar até o fim, davam-lhe uma força sobrenatural.
As companheiras foram com ela à casa de Lázaro, na proximidade da
porta Angular, onde estavam reunidas as outras santas mulheres, com
Madalena e Marta, chorando e lamentando-se; com elas estavam também
algumas crianças. De lá saíram em número de 17, seguindo o caminho
doloroso de Jesus.
Vi-as todas, sérias e decididas; não se importavam com os insultos
da gentalha, mas impunham respeito pela sua tristeza; passaram pelo fórum,
a cabeça coberta pelos véus; no ponto onde Jesus tomara ao ombro a
cruz, beijaram a terra; depois seguiram todo o caminho da Paixão de
Jesus, venerando todos os lugares onde Ele mais sofrera. Maria e as
que eram mais inspiradas, procuravam seguir as pegadas de Jesus e a
SS. Virgem, sentindo e vendo-lhes tudo na alma, guiava-as, onde deviam
parar e quando deviam prosseguir nessa via sacra. Todos esses lugares
se lhe imprimiram vivamente na alma; ela contava até os passos e
mostrava às companheiras os santos lugares.
Desse modo a primeira e mais tocante devoção da Igreja foi escrita
no coração amoroso de Maria, Mãe de Deus; escrita pela espada
profetizada por Simeão; os santos lábios da Virgem transmitiram-na
aos companheiros do sofrimento e por esses a nós. Esta é a santa
tradição vinda de Deus ao coração da Mãe Santíssima e do coração
da Mãe aos corações dos filhos; assim continua sempre a tradição
na Igreja.
Quando se vêm as coisas como as vejo, parece este modo de transmissão
mais vivo e mais santo. Os judeus de todos os tempos sempre veneraram
os lugares consagrados por uma ação santa ou por um acontecimento de
saudosa memória. Eles não esquecem um lugar onde se deu uma coisa
sobrenatural: marcam-no com monumento de pedras e vão em peregrinação,
para rezar. Assim também nasceu a devoção da Via Sacra, não por
uma intenção premeditada, mas da natureza dos homens e das intenções
de Deus para com seu povo, do fiel amor de uma mãe, e, por assim
dizer, sob os pés de Jesus, que foi o primeiro que a trilhou.
Chegou então esse piedoso grupo à casa de Verônica, onde entraram,
porque Pilatos com os cavaleiros e os duzentos soldados, voltando da
porta da cidade, lhes vinham ao encontro. Ali Maria e os companheiros
viram o sudário, com a imagem do rosto de Jesus e entre lágrimas e
suspiros, exaltaram a misericórdia de Jesus para com sua fiel amiga.
Levaram o cântaro com o vinho aromático, com que Verônica não
conseguira confortar Jesus e dirigiram-se todos, com Verônica, à
porta do Gólgota. No caminho se lhes juntaram ainda muitas pessoas
bem intencionadas e outras comovidas pelos acontecimentos, entre as
quais também certo número de homens, formando um cortejo que, pela
ordem e seriedade com que passou pelas ruas, me fez uma singular
impressão. Esse cortejo era quase maior do que aquele que conduziu a
Jesus, não contando o povo que o acompanhou.
As angústias e dores aflitivas de Maria nesse caminho, ao ver o lugar
do suplício, com as cruzes no alto, não se podem exprimir em
palavras; a alma amantíssima da Virgem sentia os sofrimentos de Jesus
e era ainda torturada pelo sentimento de não poder seguí-Lo na
morte. Madalena, toda transtornada e como embriagada de dor, andava
cambaleando, como que arremessada de angústia em angústia; passava
do silêncio às lamentações, do estupor ao desespero, das lamentações
às ameaças. Os companheiros eram obrigados a sustê-la, a protegê-la,
a exortá-la e a escondê-la da vista dos curiosos.
Subiram o monte Calvário pelo lado mais suave, ao oeste e
aproximaram-se em três grupos do aterro circular do cume, a certa
distância, um atrás do outro. A Mãe de Jesus, a sobrinha desta,
Maria de Cleofas, Salomé e João avançaram até o lugar do suplício;
Marta, Maria Helí, Verônica, Joana Chusa, Suzana e Maria, mãe de
Marcos, ficaram um pouco afastadas, rodeando Maria Madalena, que não
podia conter a dor. Um pouco mais atrás estavam ainda sete pessoas e
entre os três grupos havia gente boa, que mantinha uma certa comunicação
entre eles.
Os fariseus a cavalo estavam em diversos lugares em redor do local do
suplício, enquanto os soldados romanos ocupavam as cinco entradas.
Que espetáculo doloroso para Maria: o lugar do suplício, o cume com
as cruzes, a terrível cruz do Filho adorado e diante dela, no chão,
os martelos, as cordas, os horrendos pregos e os repelentes carrascos,
meio nus, quase embriagados, fazendo o horroroso trabalho entre
imprecações. Os troncos das cruzes dos ladrões já estavam
arvorados, munidos de paus encaixados para subir. A ausência de Jesus
ainda prolongava o martírio da Mãe Santíssima; ela sabia que ainda
estava vivo; desejava vê-lo, tremia ao pensar em que estado O veria;
ia vê-Lo em indizíveis tormentos.
Desde a madrugada até às dez horas, quando
foi pronunciada a sentença, caíra várias vezes chuva de pedra;
durante o caminho de Jesus ao Calvário clareou o céu e brilhava o
sol; mas pelas doze horas começou uma neblina avermelhada a velar o
sol.
Temos assim, chegado ao topo do Calvário,
junto com Jesus. Quando contemplamos as estações da Via Sacra,
falamos em apenas três quedas, quando aqui as revelações falam em
sete quedas. Devemos crer que estas três quedas contempladas foram as
principais, pois houve inúmeras, uma vez que o peso da Cruz era
enorme e a fraqueza imensa, pelo cansaço, pela perda de sangue, pelas
dores pelos safanões que davam na corda que Ele tinha amarrada ao
pescoço. Faziam tudo isso para O atormentar ao extremo.
De fato, é impossível imaginar que os
homens pudessem ser tão maus, tão covardes para bater num homem
quase morto, amarrado e despedaçado por golpes, afrontas e ultrajes.
Ana Catarina chega a dizer que até as pedras se comoveriam,
entretanto os homens não foram capazes disso. Tanto ódio, só se
pode imputar à pessoas completamente dominadas pelos demônios, que
descarregavam em Jesus toda a sua fúria infernal.
Devemos esclarecer um fato. Lúcifer e sua
camarilha, até aqui não tinham a certeza de 100% de que Jesus era de
fato o Messias. A Sabedoria Divina só lhes permitiu saber disso, no
momento em que Jesus deu o último suspiro. Ora, o inferno não queria
jamais que se completasse a redenção. Eles não queriam jamais que
os homens fossem libertados. E aconteceu que quando Judas traiu a
Jesus, eles viram uma oportunidade de sustar o processo, pois estavam
desconfiados que Jesus era o Messias. Assim, o próprio Lúcifer
tentou tirar da cabeça de Judas a idéia de trair o mestre.
Entretanto, para ódio seu – e para surpresa dele e de todo o
inferno – ele descobriu que era incapaz de fazer o bem, ou seja,
fazer alguém deixar de pecar. Isso os colocou em verdadeira fúria
contra Deus, pois se descobriram impotentes para mais uma coisa que
desconheciam até ali.
Pois foi justamente este ódio, que o
inferno descarregou sobre nosso querido Jesus. Ou seja, não somente a
terra estava naquele momento num ápice extremo de maldade, como também
o inferno estava num ápice tremendo de fúria. Terra e infernos
juntos, para matar ao Filho de Deus e redentor do Mundo. Juntos para
esmagar apenas a um homem! Juntos para afrontar a Deus, até o extremo
limite, do inaudito extremo.
Mas para nossa dor, nem tudo passou! Faltam os cravos e a Cruz!
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Fonte: Recados do Aarão
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