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O CORDEIRO DE DEUS -
Parte 6
Este texto será certamente um dos mais longos de todos. Não a
cruz, não o Calvário, não a Flagelação – embora tudo – foi
com toda a certeza a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, a parte
do livro de Ana Catarina que mais profundamente me abalou. Não porque
os outros sofrimentos citados não fossem inauditos, mas sim porque
aqui estava eu, e está cada um de nós, diante do tribunal de Deus.
Aqui, no sangue derramado no Horto, está claro o motivo de todo o
imenso sofrimento de Jesus. É aqui que descobriremos – nós dois,
você e eu - miseráveis pecadores, que fomos nós os verdadeiros
autores desta “tragédia”. O Horto foi um verdadeiro palco de
horrores, onde ninguém igual a Jesus, que era Deus, sentiu os efeitos
dos pecados da humanidade. E tais foram, e tantos foram, e tão
horrendos foram, que todos os sofrimentos dos homens juntos, não
passam de uma simples gota de sangue, naquele cálice de horrores.
Esta gota é o símbolo da miséria, e também da tragédia humana.
Por isso, preferimos deixar o texto das revelações na íntegra,
uma vez que se tratam de matéria desconhecida, embora no total este
capítulo contenha matéria de um pequeno livro.
Jesus, com os Apóstolos, a caminho do horto de Getsêmani
Quando Jesus, depois da instituição do SS. Sacramento, saiu do
Cenáculo com os onze Apóstolos, já tinha a alma oprimida de aflição
e crescente tristeza. Conduziu os onze, por um desvio, ao vale de
Josafá, dirigindo-se ao monte das Oliveiras. Ao chegarem ao portão,
vi a lua, ainda não inteiramente cheia, levantar-se por cima da
montanha. Andando com os Apóstolos pelo vale, disse-lhes o Senhor que
lá voltaria um dia, para julgar o mundo, mas não pobre e sem poder
como hoje, e que então muitos, com grande medo, exclamariam:
“Montes, cobri-nos”.
Os discípulos não O compreenderam, pensando, como muitas vezes nessa
noite, que a fraqueza e o esgotamento os faziam delirar. Ora andavam,
ora paravam, conversando com o Mestre. Disse-lhes também Jesus: “Vós
todos haveis de escandalizar-vos em mim esta noite; pois está
escrito: “Tirarei o pastor, e as ovelhas serão dispersas. - Mas,
quando tiver ressuscitado, preceder-vos-ei na Galiléia”.
Os Apóstolos estavam ainda cheios de entusiasmo e amor, pela recepção
do SS. Sacramento e pelas palavras solenes e afetuosas de Jesus.
Comprimiam-se-Lhe em torno, exprimindo-Lhe de vários modos o seu amor
e protestando que não O abandonariam nunca. Mas, como Jesus
continuasse a falar no mesmo sentido, disse-lhe Pedro: “E, se todos
se escandalizarem por vossa causa, eu nunca me escandalizarei”.
Respondeu-lhe o Senhor: “Em verdade te digo, tu mesmo três vezes me
negarás esta noite, antes do galo cantar”. Pedro, porém, não quis
conformar-se de modo algum e disse: “Mesmo que tivesse de morrer
convosco, não vos havia de negar”.
Assim falaram também todos os outros. Continuavam andando e parando
alternadamente e a tristeza de Jesus aumentava cada vez mais. Queriam
os Apóstolos consolá-Lo de modo inteiramente humano, assegurando-lhe
que não aconteceria tal. Nesses vãos esforços se cansaram, começaram
a duvidar e veio-lhes a tentação.
Atravessaram a torrente Cedron, não pela ponte, sobre a qual Jesus
foi depois conduzido preso, mas por outra, porque tinham tomado um
desvio. Getsêmani, situado no monte das Oliveiras, para onde se
dirigiram, fica a meia hora certa do Cenáculo, pois do Cenáculo à
porta que dá para o vale de Josafá, se leva um quarto de hora e dali
a Getsêmani outro tanto.
Este lugar, no qual Jesus ensinou algumas vezes aos discípulos,
passando ali a noite com eles nos últimos dias, consta de algumas
casas de pousada, abertas e desocupadas e de um largo jardim, cercado
de sebe, no qual há somente plantas ornamentais e árvores frutíferas.
Os Apóstolos e diversas outras pessoas tinham a chave desse jardim,
que era um lugar de recreio e de oração. Gente que não tinha jardim
próprio fazia às vezes festas e banquetes ali.
Havia também vários caramanchões de folhagem espessa, num dos quais
ficaram naquele dia oito Apóstolos e alguns outros discípulos, que
se lhes juntaram mais tarde. O horto das Oliveiras é separado do
Jardim de Getsêmani por um caminho e estende-se mais para o alto do
monte. É aberto, cercado apenas de um aterro e menor do que Getsêmani,
um canto cheio de grutas e recantos, em que por toda a parte se vêem
oliveiras. Um lado era mais bem tratado; havia nele assentos, bancos
de relva bem cuidados e grutas espaçosas e sombrias. Quem quisesse,
podia ali facilmente achar um lugar próprio para a oração e meditação.
Era à parte mais sem cuidados que Jesus ia rezar.
Jesus atribulado pelos horrores do pecado
Eram quase 9 horas da noite, quando Jesus chegou, com os discípulos,
a Getsêmani. Ainda reinava a escuridão na terra, mas no céu a lua já
espargia a luz prateada. Jesus estava muito triste e anunciou-lhes a
aproximação do perigo. Os discípulos assustaram-se e Ele disse a
oito dos companheiros que ficassem no Jardim de Getsêmani, num lugar
onde havia um caramanchão. “Ficai aqui, disse, enquanto vou ao meu
lugar rezar”.
Tomando consigo Pedro, João e Tiago o Maior, subiu mais para o alto
e, cruzando um caminho, avançara, numa distância de alguns minutos,
do horto das Oliveiras ao pé do monte. Ele estava numa indizível
tristeza; pressentia a tribulação e tentação, que se aproximavam.
João perguntou-lhe como podia agora estar tão abatido, quando sempre
os tinha consolado. Então Jesus disse: “Minha alma está triste até
a morte” e, olhando em redor de si, viu de todos os lados se
aproximarem angústias e tentações, como nuvens cheias de figuras
assustadoras.
Foi nessa ocasião que disse aos Apóstolos: “Ficai aqui e vigiai
comigo; orai, para não serdes surpreendidos pela tentação”. Eles
ficaram então ali; Jesus, porém, adiantou-se ainda mais; mas as
horrorosas visões assaltavam-no de tal modo, que, cheio de angústia,
desceu um pouco à esquerda dos três Apóstolos, escondendo-se
debaixo de um grande rochedo, numa gruta de talvez 7 pés de
profundidade; os Apóstolos ficaram em cima desse rochedo, numa espécie
de cavidade. O chão da gruta era suavemente inclinado e as plantas
pendentes do rochedo, que sobressaía em frente, formavam uma cortina
diante da entrada, de maneira que quem estivesse dentro da gruta, não
podia ser visto de fora.
Quando Jesus se afastou dos discípulos, vi em redor dele um largo
circulo de imagens horríveis, o qual se apertava mais e mais.
Cresceu-lhe a tristeza e a tribulação e retirou-se tremendo para
dentro da gruta, semelhante ao homem que, fugindo de uma repentina
tempestade, procura abrigo para rezar, vi, porém, que as imagens
assustadoras o perseguiram lá dentro da gruta, tornando-se cada vez
mais distintas.
A estreita caverna parecia encerrar o horrível espetáculo de todos
os pecados cometidos, desde a primeira queda do homem, até ao fim dos
séculos, como também todos os castigos. Foi ali, no monte das
Oliveiras, que Adão e Eva, expulsos do Paraíso, pisaram primeiro a
terra e foi nessa caverna que choraram e gemeram.
Tive a clara impressão de que Jesus, entregando-se às dores da Paixão,
que ia começar e sacrificando-se à justiça divina, em satisfação
de todos os pecados do mundo, de certo modo retirou a sua divindade
para o seio da SS. Trindade; impelido por amor infinito, quis
entregar-se à fúria de todos os sofrimentos e angústias, na sua
humanidade puríssima e inocente, verdadeira e profundamente sensível,
para expiação dos pecados do mundo, armado somente do amor do seu
coração humano.
Querendo satisfazer pela raiz e por todas as excrescências do pecado
e da má concupiscência, tomou o misericordiosíssimo Jesus no coração
a raiz de toda a expiação purificadora e de toda a dor santificante,
por amor de nós, pecadores e, para satisfazer pelos pecados inumeráveis,
deixou esse sofrimento infinito estender-se, como uma árvore de dores
e penetrar-lhe com mil ramos todos os membros do corpo sagrado, todas
as faculdades da alma santa.
Entregue assim inteiramente à sua humanidade, implorando a Deus
com tristeza e angústia indizíveis, prostrou-se por terra. Viu em
inumeráveis imagens todos os pecados do mundo, com toda a sua
atrocidade, tomou todos sobre si, e ofereceu-se na sua oração, para
dar satisfação à justiça do Pai Celestial, pagando com os
sofrimentos toda essa dívida da humanidade para com Deus.
Satanás, porém, que se movia no meio de todos os horrores, em figura
terrível e com um riso furioso, enraivecia-se cada vez mais contra
Jesus e, fazendo passar-lhe diante da alma visões sempre mais
horrorosas, gritou diversas vezes à humanidade de Jesus: “Que?
Tomarás também isto sobre ti? Sofrerás também castigo por este
crime? Como podes satisfazer por tudo isto?”
Veio, porém, um estreito feixe de luz, da região onde o sol está
entre as dez e onze horas, descendo sobre Jesus e nela vi surgir uma
fileira de Anjos, que Lhe transmitiram força e ânimo. A outra parte
da gruta estava cheia de visões horrorosas dos nossos pecados e de
maus espíritos, que O insultavam e agrediam; Jesus aceitou tudo; o
seu Coração, O único que amava perfeitamente a Deus e aos homens,
nesse deserto cheio de horrores, sentia com dilacerante tristeza e
terror a atrocidade e o peso de todos esses pecados. Ai! vi tantas
coisas ali! Nem um ano chegaria para contá-las!
Tentações da parte de Satanás
Quando essa multidão de culpas e pecados acabou de passar diante
da alma de Jesus, como um mar de horrores e após se haver ele
oferecido, como sacrifício de expiação por tudo e chamado sobre si
toda a onda de penas e castigos, suscitou-lhe Satanás inumeráveis
tentações, como outrora no deserto; apresentou até numerosas acusações
contra o puríssimo Salvador. “Que?” disse ele, “Queres tomar
tudo isto sobre ti e não és puro? Vê isto e aquilo e mais isto!”
E então desenrolou, diante dos olhos imaculados da Divina Vítima,
com impertinência infernal, uma multidão de acusações inventadas.
Acusou-O das faltas dos discípulos, dos escândalos que tinham
dado, das perturbações que Ele trouxe ao mundo, renunciando aos
costumes antigos. Satanás procedeu como o mais hábil e astuto
fariseu. Acusou-O de ter sido a causa da matança dos inocentes por
Herodes, dos perigos e sofrimentos de seus pais no Egito; acusou-O de
não ter salvado da morte a João Batista, de ter desunido famílias,
protegido pessoas de má fama, de não ter curado certos doentes, de
ter causado prejuízo aos habitantes de Gergesa, porque permitiu aos
possessos que entornassem a sua dorna de bebidas e porque causou a
morte da manada de porcos no lago.
Imputou-Lhe as faltas de Maria Madalena, por não lhe ter impedido a
recaída no pecado; acusou-O de ter abandonado a família e de ter
dissipado o bem alheio; numa palavra, tudo de que Satanás podia ter
acusado, na hora da morte, um homem comum, que tivesse feito tais ações
externas, sem motivos sobrenaturais: tudo apresentou o tentador à
alma abatida de Jesus, para amedrontá-la e desanimá-la; pois
ignorava que Jesus era o Filho de Deus e tentou-O somente como ao mais
justo dos homens. Nosso Salvador deixou predominar a sua humanidade de
tal modo, que quis sofrer também aquelas tentações, que assaltam
mesmo os homens que têm uma morte santa, pondo em dúvida o valor
interno das suas obras boas.
Jesus permitiu, para esvaziar todo o cálice da agonia, que o
tentador, ignorando-Lhe a divindade, Lhe apresentasse todas as suas
obras de caridade como outras tantas dívidas, ainda não pagas, à
graça divina. O tentador censurou-O de querer expiar as culpas de
outros, Ele, que não tinha méritos e que tinha ainda de satisfazer
à justiça divina, pelas graças de tantas obras que considerava
boas.
A divindade de Jesus permitiu que o inimigo lhe tentasse a humanidade,
como podia tentar um homem que quisesse atribuir às suas obras um
valor próprio, além daquele único que podem ter, da união com os méritos
da morte redentora de nosso Senhor e Salvador.
O tentador apresentou-Lhe assim todas as suas obras de amor como atos
privados de todo mérito, que antes O constituíam devedor de Deus,
porque, segundo o acusador, o seu valor provinha antecipadamente, por
assim dizer, dos méritos da Paixão, ainda não consumada e cujo
valor infinito Satanás ainda não conhecia; portanto, não teria
Jesus ainda satisfeito, na opinião do tentador, pelas graças
recebidas para essas obras.
Apresentou-lhe títulos de dívida por todas essas boas obras e disse,
aludindo à estas: “Ainda deves por esta obra e por aquela”.
Finalmente desenrolou mais um título de dívida diante de Jesus,
afirmando que tinha recebido e gasto o preço da venda da propriedade
de Maria Madalena em Magdalum; disse a Jesus: “Como ousaste desperdiçar
o bem alheio, prejudicando assim aquela família?”.
Vi a apresentação de tudo a cuja expiação Jesus se oferecera e
senti com Ele todo o peso das numerosas acusações que o tentador
levantou contra Ele; pois, entre os pecados do mundo que o Salvador
tomou sobre si, vi também os meus inumeráveis pecados e do círculo
das tentações veio também a mim, um como rio de acusações, nas
quais se me patentearam todos os meus pecados de atos e omissões.
Eu, porém, olhava sempre para o meu Esposo celeste, durante essa
apresentação dos pecados, gemendo e rezando com Ele e virava-me também
com Ele para os Anjos consoladores. Ai! O Senhor torcia-se como um
verme, sob o peso da dor e das angústias!
Durante todas essas acusações de Satanás contra o puríssimo
Salvador, somente com grande esforço consegui conter-me; mas, quando
levantou a acusação da venda da propriedade de Madalena, não pude
mais me conter e gritei-lhe: “Como podes chamar dívida o preço da
venda dessa propriedade? Eu mesma vi o Senhor, com essa quantia, que
lhe foi entregue por Lázaro, para obras de misericórdia, remir 27
pobres desamparados dos cárceres de Tirza.
A princípio estava Jesus de joelhos, rezando tranqüilamente; mais
tarde, porém, se lhe assustou a alma, à vista da atrocidade dos
inumeráveis crimes e da ingratidão dos homens para com Deus;
assaltaram-no angústia e dor tão veementes, que suplicou tremendo:
“Meu Pai, se for possível, passe este cálice longe de mim. Meu
Pai, tudo vos é possível: afastai este cálice de mim”. Depois
sossegou e disse: “Não se faça, porém, a minha vontade, mas a
vossa”. A sua vontade e a do Pai eram uma só; mas entregue à
fragilidade da natureza humana, por amor, Jesus tremia à vista da
morte.
Jesus volta para junto dos três, Apóstolos
Vi a caverna rodeada de formas assustadoras; todos os pecados, toda
a iniqüidade, todos os vícios, todos os tormentos, toda a ingratidão,
que o angustiavam; vi os terrores da morte, o horror que sentia, como
homem, diante do imenso sofrimento expiatório, assaltando-O e
oprimindo-O, sob as formas de espectros hediondos.
Ele caiu por terra, torcendo as mãos; cobria-O o suor da angústia;
tremia e estremecia. Levantou-se, mas os joelhos trementes quase não
O suportavam; estava inteiramente desfigurado e irreconhecível, os lábios
pálidos, o cabelo eriçado. Eram cerca de dez horas e meia, quando se
levantou e se arrastou para junto dos três Apóstolos, cambaleando,
caindo a cada passo, banhado num suor frio. Subiu à esquerda da
caverna, e, passando por cima desta, chegou a um aterro, onde os discípulos
estavam adormecidos, encostados um ao outro, abatidos pela fadiga,
tristeza, inquietação e tentação.
Jesus aproximou-se-lhes, como um homem angustiado a quem o terror
impele para junto dos amigos e como um bom pastor que, transtornado
profundamente, vai para junto do rebanho, que sabe, ameaçado de um
perigo próximo; pois não ignorava que também eles se achavam em angústia
e tentação. Vi as horrorosas visões cercarem-no também nesse curto
caminho.
Encontrando os Apóstolos a dormir, torceu as mãos e caiu por terra
ao lado deles, cheio de tristeza e fraqueza, dizendo: “Simão,
dormes?” Então acordaram e levantaram-se; e Ele disse, no seu
desamparo: “Então não pudestes velar uma hora comigo?”. Quando o
viram tão assustado e desfigurado, pálido, cambaleando, banhado em
suor, tremendo e estremecendo, quando O ouviram queixar-se com voz
quase extinta, não sabiam mais o que pensar; se não lhes tivesse
aparecido cercado de certa luz que bem conheciam, não o teriam
reconhecido.
Disse-lhe João: “Mestre, que tendes? Quereis que chame os
outros Apóstolos? Devemos fugir?”. Jesus, porém, respondeu:
“Ainda que vivesse mais 33 anos, ensinando e curando enfermos, não
chegaria ao que tenho de cumprir até amanhã. Não chames os oito;
deixai-os ali, porque não poderiam ver-me nesta aflição, sem
escandalizar-se; cairiam em tentação, esquecer-se-iam de muitas
coisas e duvidariam de mim. - Vós, porém, que vistes o Filho do
homem transfigurado, podeis vê-lo também no seu desamparo; mas
vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito é pronto,
mas a carne é fraca”.
Disse-o, referindo-se a eles e a si mesmo. Quis induzí-los, com essas
palavras, à perseverança e dar-lhes a saber a luta da sua natureza
humana contra a morte e a causa daquela fraqueza. Falou-lhes ainda
sobre outras coisas, sempre abismado naquela tristeza e ficou cerca de
um quarto de hora com eles. Em angústia mais e mais crescente voltou
à gruta; eles, porém, estenderam para Ele as mãos chorando e caíram
uns nos braços dos outros, perguntando: “Que é isto? Que lhe
aconteceu? Está tão desolado!” Começaram a rezar, com as cabeças
cobertas, cheios de tristeza.
Tudo que acabo de contar, deu-se em mais ou menos uma hora e meia,
depois que entraram no horto das Oliveiras. É verdade que Jesus
disse, segundo o Evangelho: “Não podeis velar uma hora comigo?”
Mas não se o pode entender ao pé da letra, segundo o nosso modo de
falar, os três Apóstolos, que vieram com Jesus, tinham rezado no
começo; mas depois adormeceram; conversando entre si com pouca
confiança, caíram em tentação. Os oito Apóstolos, porém, que
ficaram na entrada do horto, não dormiram. A angústia que se
mostrara nessa noite em todos os discursos de Jesus, tornou-os muito
perturbados e inquietos; erravam pelas vizinhanças do monte das
Oliveiras para procurar um lugar de refúgio, em caso de perigo.
Em Jerusalém houve nessa noite pouco movimento; os judeus estavam nas
suas casas, ocupados com os preparativos para a festa. Os acampamentos
dos forasteiros que tinham vindo para a festa, não estavam nas
vizinhanças do monte das Oliveiras. Enquanto eu ia e voltava nesses
caminhos, vi discípulos e amigos de Jesus, andando e conversando;
pareciam inquietos, à espera de qualquer desgraça.
A Mãe do Senhor, com Madalena, Marta, Maria, mulher de Cleofas, Maria
Salomé e Salomé, assustadas por boatos, foram com amigas para fora
da cidade, a fim de ter notícias de Jesus. Ali as encontraram Lázaro,
Nicodemos, José de Arimatéia e alguns parentes de Hebron e
procuraram sossegá-las; pois, tendo eles mesmos, conhecimento, pelos
discípulos, dos tristes discursos feitos por Jesus no Cenáculo,
foram pedir informações a alguns fariseus conhecidos e destes
souberam que não constava nada sobre tentativas imediatas contra o
Senhor.
Disseram por isso às mulheres que o perigo não podia ser
grande, que tão próximo da festa não poriam as mãos em Jesus. É
que não sabiam da traição de Judas. Maria, porém, contou-lhes o
estado perturbado deste nos últimos dias ao sair do Cenáculo e
advertiu-os de que com certeza fora trair ao Senhor, apesar das
repreensões, pois era um filho da perdição. Depois voltaram as
santas mulheres à casa de Maria, mãe de Marcos.
Anjos mostram a Jesus a enormidade dos seus sofrimentos e
consolam-nO
Voltando à gruta, com toda a tristeza que o acabrunhava, Jesus
prostrou-se por terra, com os braços estendidos e rezou ao Pai
Celeste. Mas passou-lhe na alma nova luta, que durou três quartos de
hora. Anjos vieram apresentar-Lhe em grande número de visões, tudo o
que devia aceitar de sofrimentos, para expiar o pecado.
Mostraram-lhe a beleza do homem antes do primeiro pecado, como imagem
de Deus e quanto o pecado o tinha rebaixado e desfigurado.
Mostraram-lhe como o primeiro pecado fora a origem de todos os
pecados, a significação e essência da concupiscência e seus terríveis
efeitos sobre as faculdades da alma e do corpo do homem, como também
a essência e a significação de todas as penas contrárias à
concupiscência.
Mostraram-lhe os seus sofrimentos expiatórios primeiramente como
sofrimentos de corpo e alma, suficientes para cumprir todas as penas
impostas pela justiça divina à humanidade inteira, por toda a má
concupiscência; e depois como sofrimento, que, para dar verdadeira
satisfação, castigou os pecados de todos os homens na única
natureza humana que era inocente: na humanidade do Filho de Deus, O
qual, para tomar sobre si, por amor, a culpa e o castigo da humanidade
inteira, devia também combater e vencer a repugnância humana contra
o sofrimento e a morte.
Tudo isto lhe mostraram os Anjos, ora em coros inteiros, com séries
de imagens, ora separados, com as imagens principais; vi as figuras
dos Anjos mostrando com o dedo elevado as imagens e percebi o que
disseram, mas sem lhes ouvir as vozes.
Não há língua que possa descrever o horror e a dor que invadiram a
alma de Jesus, ao ver esta terrível expiação; pois não viu somente
a significação das penas expiatórias contrárias à concupiscência
pecaminosa, mas também a significação de todos os instrumentos do
martírio, de modo que O horrorizou, não só a dor causada pelos
instrumentos, mas também o furor pecaminoso daqueles que os
inventaram, a malícia dos que os usavam e a impaciência daqueles que
com eles tinham sido atormentados, pois pesavam sobre Ele todos os
pecados do mundo. O horror desta visão foi tal, que lhe saiu do corpo
um suor de sangue.
Enquanto a humanidade de Jesus sofria e tremia, sob esta terrível
multidão de sofrimentos, notei um movimento de compaixão nos Anjos;
houve uma pequena pausa: parecia-me que desejavam ardentemente consolá-lo
e que apresentavam as súplicas diante do trono de Deus. Era como se
houvesse uma luta instantânea entre a misericórdia e a justiça de
Deus e o amor que se estava sacrificando.
Foi-me mostrada uma imagem de Deus, não como em outras ocasiões, num
trono, mas numa forma luminosa menos determinada; vi a pessoa do Filho
retirar-se na pessoa do Pai, como que lhe entrando no peito; a pessoa
do Espírito Santo saindo do Pai e do Filho e estando entre Eles; e
todos eram um só Deus.
Quem poderá descrever exatamente uma tal visão? Não tive tanto uma
visão com figuras humanas, como uma percepção interna, na qual me
foi mostrado, por imagem, que a vontade divina de Jesus Cristo se
retirava mais para o Pai, para deixar pesar sobre a sua humanidade
todos os sofrimentos, que esta pedia ao Pai que afastasse; de modo que
a vontade divina de Jesus, unida ao Pai, impunha à sua humanidade
todos os sofrimentos que a vontade humana, pelas súplicas, queria
afastar.
Vi-O no momento da compaixão dos Anjos, quando estes desejavam
consolar Jesus que, com efeito, teve neste instante um certo alívio.
Depois desapareceu tudo e os Anjos, com sua compaixão consoladora,
abandonaram o Senhor, cuja alma entrou em novas angústias.
Mais imagens de pecados que atormentam o Senhor
Quando o Redentor, no monte das Oliveiras, se entregou, como homem
verdadeiro e real, ao horror humano, à dor e à morte, quando se
incumbiu de vencer esta repugnância de sofrer, que faz parte de todo
o sofrimento, foi permitido ao tentador que lhe fizesse tudo o que
costuma fazer a todo homem que quer sacrificar-se por uma causa santa.
Na primeira agonia Satanás mostrara a Nosso Senhor, com raivosa
zombaria, a enormidade da culpa do pecado, que quisera tomar a si e
levou a audácia a ponto de afirmar que a vida do mesmo Redentor não
era livre de pecados.
Na segunda agonia viu Jesus a imensidade da Paixão expiatória, em
toda a sua realidade e amargura. Esta apresentação foi feita pelos
Anjos; pois não compete a Satanás mostrar a possibilidade da expiação,
nem convém que o pai da mentira e do desespero mostre as obras da
misericórdia divina. Tendo, porém, Jesus resistido à todas essas
tentações, pelo abandono completo à vontade do Pai Celeste, foi-Lhe
apresentada à alma uma nova série terrível de visões assustadoras;
a dúvida e inquietação que no coração do homem precedem a todo o
sacrifício, a pergunta amarga: Qual será o resultado, o proveito
deste sacrifício? A visão de um futuro assustador atormentou-Lhe então
o Coração amoroso.
Deus mergulhou o primeiro homem, Adão, num profundo sono, abriu-lhe o
lado, tomou-lhe uma das costelas, formou dela Eva, a mulher, a mãe de
todos os vivos e apresentou-a a Adão. Então disse este: “Este é o
osso dos meus ossos e a carne da minha carne; o homem deixará pai e mãe,
para aderir à sua mulher e serão dois numa só carne”. Do matrimônio
foi escrito: “Este sacramento é grande, digo, porém, em Jesus
Cristo e na Igreja”; Pois Jesus Cristo, o novo Adão, quis também
se submeter a um sono, o sono da morte na Cruz; quis também deixar
que lhe abrissem o lado, para que deste fosse feita a nova Eva, sua
esposa imaculada, a Igreja, mãe de todos os vivos; quis dar-lhe o
sangue da redenção, a água da purificação e o Espírito Santo: os
três que dão testemunho na terra; quis dar-lhe os santos
Sacramentos, para que fosse uma esposa pura, santa e imaculada; quis
ser-lhe a cabeça e nós devíamos ser-lhe os membros, sujeitos à
cabeça, devíamos ser os ossos dos seus ossos, carne da sua carne.
Aceitando a natureza humana, para sofrer a morte por nós, tinha
Jesus abandonado pai e mãe e unira-se à sua esposa, a Igreja;
tornou-se uma carne com ela, alimentando-a com o santíssimo
Sacramento do Altar, no qual se une a nós dia após dia; quis
permanecer presente na terra com sua esposa, a Igreja, até nos
unirmos todos a Ele no Céu e disse: “As portas do inferno não
prevalecerão contra ela”. Para praticar esse incomensurável amor
para com os pecadores, tornara-se homem e irmão dos pecadores,
tomando sobre si a pena de toda a culpa.
Tinha visto com grande tristeza a imensidade desta culpa e da paixão
expiatória e, contudo entregara-se voluntariamente à vontade do Pai
celeste, como vítima expiatória. Neste momento, porém, viu Jesus os
sofrimentos, as perseguições, as feridas da futura Igreja, sua
esposa, que estava para remir tão caro, com o seu próprio sangue:
viu a ingratidão dos homens.
Apresentaram-se-Lhe diante da alma todos os futuros sofrimentos dos Apóstolos,
discípulos e amigos, a Igreja primitiva, tão pouco numerosa, depois
também as heresias e cismas, que nasceram à medida que a Igreja
crescia, repetindo a primeira queda do homem pelo orgulho e desobediência,
pelas diversas formas de vaidade e falsa justiça. Viu a tibieza, a
corrupção e malícia de um número infinito de cristãos, as
mentiras e a esperteza enganadora dos mestres orgulhosos, os crimes
sacrílegos de todos os sacerdotes viciosos e todas as horríveis
conseqüências: A abominação e desolação do reino de Deus sobre a
terra, neste santuário da humanidade ingrata, o qual estava: para
fundar e remir com indizíveis sofrimentos, pelo preço de seu sangue
e sua vida.
Vi passar diante da alma do nosso pobre Jesus, em séries imensas de
visões, os escândalos de todos os séculos, até o nosso tempo e
mesmo até o fim do mundo, em todas as formas do erro doentio, da
intriga orgulhosa, do fanatismo furioso, dos falsos profetas, da
obstinação e malícia herética.
Todos os apóstatas, os heresiarcas, os reformadores de aparência
santa, os sedutores e os seduzidos insultavam e torturavam-na, como se
não tivesse sofrido bastante, nem sido bem crucificado a seu ver e
conforme o desejo orgulhoso e presunção vaidosa de cada um; rasgavam
e partiam, disputando, a túnica sem costuras da Igreja; cada um
queria tê-Lo como Redentor de modo diferente do que se tinha mostrado
no seu amor. Muitos O maltratavam, insultavam, negavam-nO. Viu inúmeros
alçarem os ombros e sacudirem a cabeça, afastando-se dos braços que
lhes estendia para salvá-los e precipitar-se no abismo, que os
tragou.
Viu um número infinito de outros, que não ousavam negá-lO em alta
voz, mas que se afastavam, por desgosto das aflições da Igreja, como
o levita que se afastou do pobre viajante que caíra nas mãos dos
salteadores.
Viu-os separar-se de sua esposa ferida, como filhos covardes e infiéis
abandonam as mães de noite, quando a casa é assaltada por ladrões e
assassinos, aos quais por descuido abriram a porta.
Viu-os seguirem os despojos levados ao deserto, os vasos de ouro e os
colares quebrados.
Viu-os separados da videira verdadeira, pousarem sob as videiras
silvestres; viu-os como ovelhas extraviadas, abandonadas aos lobos,
conduzidas a mau pasto por mercenários e não querendo entrar no
aprisco do bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas.
Viu-os errarem, sem pátria, no deserto, não querendo ver a sua
cidade, colocada sobre o monte e que não pode ficar escondida.
Viu-os em discórdia, agitados pelo vento para lá e para cá, nas
areias do deserto, mas sem querer ver a casa de sua esposa, a Igreja
fundada sobre a pedra, com a qual prometeu ficar até o fim do mundo e
contra a qual as portas do inferno não prevalecerão. Não queriam
entrar pela porta estreita, para não baixar a cabeça.
Viu-os seguir a outros, que não entraram no aprisco pela porta
verdadeira. Construíram, sobre a areia, cabanas mudáveis e
diferentes umas das outras, que não tinham nem altar nem sacrifício,
porém cata-ventos nos tetos e suas doutrinas mudavam-nas com os
ventos; contradiziam-se uns aos outros, não se entendiam, nem tinham
estadia permanente.
Viu-os destruírem muitas vezes as cabanas, lançando os destroços
contra a pedra angular da Igreja, que ficou inabalável.
Viu muitos que, apesar da escuridão nas suas moradas, não queriam
aproximar-se da luz, posta no candelabro, na casa da esposa, mas
erravam, com os olhos cerrados, em redor do jardim cercado da Igreja,
de cujos perfumes ainda viviam. Estendiam as mãos a imagens nebulosas
e seguiam astros errantes, que os conduziam a poços sem água e mesmo
na margem das fossas, não davam ouvido à voz do Esposo que os
chamava e esfomeados riam-se ainda, com orgulho arrogante, dos servos
e mensageiros, que os convidavam para o banquete nupcial. Não queriam
entrar no jardim, por temerem os espinhos da cerca-viva.
Viu-os o Senhor, inebriados de amor próprio, morrer de fome, por não
ter trigo e de sede, por não ter vinho; cegos pela sua própria luz,
chamavam de invisível a Igreja do Verbo encarnado. Jesus viu-os todos
com tristeza; quis sofrer por todos que não queriam seguí-lo,
carregando a cruz da Igreja, sua esposa, à qual se deu no SS.
Sacramento, na sua cidade colocada no cimo do monte, que não pode
ficar escondida, na sua Igreja, fundada sobre a pedra e contra a qual
as portas do inferno não prevalecerão.
Todas estas inumeráveis visões da ingratidão dos homens, do abuso
feito da morte expiatória de meu Esposo Celeste, vi-as passar diante
da alma contristada do Senhor, ora variando, ora em dolorosa repetição;
vi Satanás, em diversas figuras assustadoras, arrancando e
estrangulando, diante dos olhos de Jesus, os homens remidos pelo seu
sangue e até mesmo homens ungidos com o seu santo Sacramento.
O Salvador viu com grande amargura toda a ingratidão, toda a corrupção,
tanto dos primeiros cristãos, como dos que se lhe seguiram, dos
presentes e dos futuros. Entre estas aparições dizia o tentador
continuamente à humanidade do Cristo: “Eis aí, por tal ingratidão
queres sofrer?”
Estas imagens passaram, em contínua repetição diante do Senhor e
com tanta impetuosidade, com tanto horror e escárnio pesaram sobre
Jesus, que angústia indizível lhe oprimia a natureza humana. Jesus
Cristo, o Filho do Homem, estendia e torcia as mãos, caindo como que
oprimido e pôs-se de novo de joelhos. A vontade humana do Redentor
travava uma luta tão terrível contra a repugnância de sofrer tanto
por uma raça tão ingrata, que o sangue lhe saiu do corpo, em grossas
gotas de suor e correu em torrentes sobre a terra.
Naquela aflição olhou em redor de si como para pedir socorro e
parecia chamar o céu, a terra e os astros do firmamento por
testemunhas de seu sofrimento. Parecia-me ouví-lo exclamar: “É
possível suportar tal ingratidão? Sois testemunhas do que sofro”.
Então foi como se a lua e as estrelas se aproximassem num instante;
senti nesse momento que se tornava mais claro. Observei então a lua,
o que antes não fizera, e pareceu-me de todo diferente: ainda não
era toda cheia e parecia maior do que em nossa terra. No meio vi uma
mancha escura, semelhante a um disco posto diante dela e no meio havia
uma abertura, pela qual brilhava a luz para o lado onde a lua ainda não
estava cheia. A mancha escura era como um monte e em redor da lua
havia ainda um círculo luminoso, como um arco-íris.
Jesus, na sua aflição, levantou a voz por alguns momentos, em alto
pranto. Vi os Apóstolos levantarem-se assustados, com as mãos postas
erguidas, escutarem e querendo correr para junto do Mestre. Mas Pedro
reteve a João e Tiago, dizendo: “Ficai, eu vou lá”. Vi-o correr
e entrar na gruta. “Mestre, disse ele, que tendes?”, e parou,
tremendo, ao vê-lo todo ensangüentado e angustiado. Jesus, porém, não
lhe respondeu e pareceu não lhe notar a presença. Então voltou
Pedro para junto dos outros dois e suspirava. Por isso lhes aumentou
ainda a tristeza; sentaram-se, velando as cabeças e rezaram entre lágrimas.
Eu, porém, voltei a meu Esposo Celeste, em sua dolorosa agonia. As
imagens hediondas da ingratidão e dos abusos dos homens futuros, cuja
culpa tomara sobre si, a cuja pena se entregara, arremessaram-se
contra Ele, cada vez mais terríveis e impetuosas. De novo lutou
contra a repugnância da natureza humana de sofrer; diversas vezes o
ouvi exclamar: “Meu Pai, é possível sofrer por todos estes? Pai,
se este cálice não pode ser afastado de mim, seja feita a vossa
vontade”.
No meio de todas estas visões de pecados contra a divina misericórdia,
vi Satanás em diversas formas hediondas, conforme a espécie dos
pecados. Ora aparecia como homem alto e negro, ora sob a figura de
tigre, ora como raposa ou lobo, como dragão ou serpente; não eram,
porém, as figuras naturais desses animais, mas apenas as feições
salientes da respectiva natureza, misturadas com outras formas horríveis.
Não havia nada ali que representasse figura completa de uma criatura,
eram somente símbolos de decadência, de abominação, de horror, da
contradição e do pecado: símbolos do demônio.
Essas figuras diabólicas empurravam, arrastavam, despedaçavam e
estrangulavam, à vista de Jesus, inumeráveis multidões de homens,
por cujo resgate, das garras de Satanás, o Salvador entrara no
doloroso caminho da Cruz. No princípio não vi tão freqüentemente a
serpente, mas no fim a vi gigantesca, com uma coroa na cabeça,
arremessar-se com força terrível contra Jesus e com ela, de todos os
lados, exércitos de todas as gerações e classes. Armados de todos
os meios de destruição, instrumentos de martírio e armas, lutavam
ora uns contra os outros, ora com terrível raiva contra Jesus.
Era um espetáculo horrível. Carregavam-nO de insultos, maldições e
imundícies, cuspiam-Lhe, batiam-Lhe, traspassavam-nO. As suas armas,
espadas e lanças, iam e vinham, como os manguais dos debulhadores
numa imensa eira; todos desencadeavam a sua fúria sobre o grão de
trigo celeste, caído na terra para nela morrer e depois alimentar
eternamente todos os homens com o pão da vida, com fruto imensurável.
Vi Jesus no meio destas coortes furiosas, entre as quais me parecia
haver muitos cegos; estava tão alterado, como se realmente sentisse
os golpes dos agressores. Vi-O cambalear de um lado para o outro; ora
caia, ora de novo se levantava. Vi a serpente no meio de todos esses
exércitos, instigando-os continuamente; batia ora aqui, ora ali, com
a cauda, estrangulando, despedaçando e devorando todos que com ela
derrubava.
Tive a explicação de que a multidão dos exércitos que lutavam
contra Nosso Senhor, era o número imenso daqueles que maltrataram de
muitíssimos modos a Jesus Cristo, seu Redentor, real e
substancialmente presente no Santíssimo Sacramento, com divindade e
humanidade, com corpo e alma, com carne e sangue, debaixo das espécies
de pão e vinho. Avistei entre esses inimigos de Jesus todas as espécies
de profanadores do SS. Sacramento, penhor vivo de sua contínua presença
pessoal na Igreja Católica.
Vi com horror todos esses ultrajes, desde o descuido, irreverência,
abandono, até o desprezo, abuso e sacrilégios os mais horrorosos, o
culto dos ídolos deste mundo, orgulho e falsa ciência e por outro
lado, heresia e descrença, fanatismo, ódio e sangrenta perseguição.
Vi entre esses inimigos de Jesus todas as espécies de homens: até
cegos e aleijados, surdos e mudos e mesmo crianças; cegos, que não
queriam ver a verdade; coxos, que por preguiça não queriam seguí-lO;
surdos, que não queriam ouvir-Lhe as exortações e advertências;
mudos, que não queriam lutar por Ele nem com a palavra; crianças,
desviadas na companhia dos pais e mestres mundanos e esquecidos de
Deus, nutridos pela concupiscência, ébrias de ciência falsa, sem
gosto das coisas divinas ou já perdidas por falta delas, para sempre.
Entre as crianças, cujo aspecto me afligiu particularmente, porque
Jesus amava tanto as crianças, vi também muitos meninos ajudantes da
Santa Missa, pouco instruídos, mal educados e desrespeitosos, que nem
respeitavam a Jesus Cristo na mais santa cerimônia. Em parte eram
culpados os mestres e os reitores das Igrejas.
Vi com espanto que também muitos sacerdotes, de todas as hierarquias
contribuíam para o desrespeito de Jesus no SS. Sacramento, até
alguns que se tinham por crentes e piedosos. Quero mencionar, entre
estes infelizes, apenas uma classe: vi ali muitos que acreditavam,
adoravam e ensinavam a presença de Deus vivo no SS. Sacramento, mas
na sua conduta não Lhe manifestavam fé e respeito: pois
descuidavam-se do palácio, do trono, da tenda, da residência, dos
ornamentos do Rei do Céu e da Terra, isto é, não cuidavam da
Igreja, do altar, do tabernáculo, do cálice, do ostensório de Deus
vivo e dos vasos, utensílios, ornamentos, vestes para uso e enfeite
da casa do Senhor.
Tudo estava abandonado e se desfazia em poeira, mofo e imundície de
muitos anos; o culto divino era celebrado com pressa e descuido e se não
profanado internamente, pelo menos degradado exteriormente. Tudo isso,
porém, não era conseqüência de verdadeira pobreza, mas de
indiferença, preguiça, negligência, preocupação com interesses vãos
deste mundo, muitas vezes também de egoísmo e morte espiritual, pois
vi tal descuido também em Igrejas ricas e abastadas; vi muitos até,
nas quais o luxo mundano e inconveniente e sem gosto substituíra os
magníficos e veneráveis monumentos de uma época mais piedosa, para
esconder, sob aparências mentirosas e cobrir com um disfarce
brilhante o descuido, a imundície, a desolação e o desperdício.
O que faziam os ricos, por vaidosa ostentação, logo imitaram
estupidamente os pobres, por falta de simplicidade. Não pude deixar
de pensar nesta ocasião na Igreja do nosso pobre convento, cujo belo
altar antigo, esculpido artisticamente em pedra, tinham também
coberto com uma construção de madeira e pintura tosca, imitando mármore,
o que sempre me fez muita pena.
Todas essas ofensas feitas a Jesus no SS. Sacramento, vi-as aumentadas
por numerosos reitores das Igrejas, que não tinham esse sentimento de
justiça de repartir pelo menos o que possuíam com o Salvador,
presente sobre o Altar, que se entregou por eles à morte e se lhes
deu todo inteiro no SS. Sacramento.
Em verdade, mesmo os mais pobres estavam muitas vezes melhor
instalados nas suas casas do que o Senhor nas Igrejas. Ai! Como esta
falta de hospitalidade entristecia Jesus, que se lhes tinha dado como
alimento espiritual! Pois não é preciso ser rico para hospedar
aquele que recompensa ao cêntuplo o copo de água oferecido a quem
tem sede. Oh! Quanta sede tem ele de nós! Não terá acaso motivo de
queixar-se de nós, se o copo estiver sujo e a água também?
Por tais negligências vi os fracos escandalizados, o SS. Sacramento
profanado, as Igrejas abandonadas, os sacerdotes desprezados e em
pouco tempo passou essa negligência também às almas dos fiéis
daquelas paróquias: não guardavam mais puro o tabernáculo do coração,
para receber nele o Deus vivo, do que o tabernáculo dos altares. Para
agradar e adular os príncipes e grandes deste mundo, para
satisfazer-lhes os caprichos e desejos mundanos, vi tais
administradores de Igrejas fazer todos os esforços e sacrifícios;
mas o Rei do Céu e da Terra estava deitado, como o pobre Lázaro,
diante da porta, desejando em vão as migalhas de caridade que ninguém
lhe dava. Tinha apenas as chagas que nós lhe fizemos e que lhe
lambiam os cães, isto é, os pecadores reincidentes, que, semelhantes
a cães, vomitam e depois voltam para comer o vômito.
Se falasse um ano inteiro, não podia contar todas as afrontas feitas
a Jesus e que deste modo conheci.
Vi os autores dessas afrontas agredirem a Nosso Senhor com diferentes
armas, conforme a espécie de seus pecados.
Vi clérigos irreverentes, de todos os séculos, sacerdotes levianos,
em pecado, sacrílegos celebrando o Santo Sacrifício e distribuindo a
sagrada Eucaristia; vi multidões de comungantes tíbios e indignos.
Vi homens numerosos para os quais a fonte de toda a bênção, o mistério
de Deus vivo, se tornara uma palavra de maldição, fórmula de maldição;
guerreiros furiosos e servidores do demônio, profanando os vasos
sagrados e jogando fora as hóstias sagradas ou maltratando-as
horrivelmente e até abusando do Sumo Bem, por uma hedionda e diabólica
idolatria. Ao lado destes brutais e violentos, vi inúmeras outras
impiedades, menos grosseiras, mas do mesmo modo abomináveis.
Vi muitas pessoas, seduzidas por mau exemplo e ensino pérfido,
perderem a fé na presença real de Jesus na Eucaristia e deixarem de
adorar nela humildemente seu Salvador.
Vi nestas multidões grande número de professores indignos, que se
tornaram heresiarcas; lutavam a princípio uns contra os outros e
depois se uniam, para atacar furiosamente a Jesus no SS. Sacramento,
na sua Igreja.
Vi um grupo numeroso destes heresiarcas negar e insultar o sacerdócio
da Igreja, contestar e negar a presença de Jesus Cristo neste mistério
do SS. Sacramento, negar também ter Ele entregue este mistério à
Igreja e havê-lo esta guardado fielmente; pela sedução Lhe
arrancaram do coração um número imenso de homens, pelos quais tinha
derramado o seu sangue.
Ai! Era um aspecto horrível: pois vi a Igreja como corpo de Jesus,
que reunira, pela dolorosa Paixão, os membros separados e dispersos;
vi todas aquelas comunidades e famílias e todos os seus descendentes,
separados da Igreja, serem arrancados, como grandes pedaços de carne,
do corpo vivo de Jesus, ferindo e despedaçando-O dolorosamente.
Ai! Ele os seguia com olhares tão tristes, lastimando-lhes a perdição.
Ele, que no SS. Sacramento se nos tinha dado como alimento, para unir
ao corpo da Igreja, sua Esposa, os homens separados e dispersos,
viu-se despedaçado e dividido nesse mesmo corpo de sua Esposa, pelos
maus frutos da árvore da discórdia. A mesa da união no SS.
Sacramento, sua mais sublime obra de amor, na qual quis ficar
eternamente com os homens, tornara-se, pela malícia dos falsos
doutores, fonte de separação. No lugar mais conveniente e salutar
para união de muitos, na mesa sagrada, onde o próprio Deus vivo é o
alimento das almas, deviam os seus filhos separar-se dos infiéis e
hereges, para não se tornarem réus de pecado alheio.
Vi que deste modo povos inteiros se Lhe arrancaram do coração,
privando-se do tesouro de todas as graças, que Ele deixara à Igreja.
Era horrível vê-los separarem-se, só poucos no princípio, mas
esses se voltaram como povos grandes, em hostilidade uns contra os
outros, por estarem separados no Santíssimo. Por fim vi todos que
estavam separados da Igreja, embrutecidos e enfurecidos, em descrença,
superstição, heresia, orgulho e falsa filosofia mundana, unidos em
grandes exércitos, atacando e devastando a Igreja e no meio deles, a
serpente, instigando e estrangulando-os.
Ai! Era como se Jesus se visse e sentisse despedaçado em inúmeras
fibras, das mais delicadas. O Senhor viu e sentiu nessas angústias
toda a árvore venenosa do cisma, com todos os respectivos ramos e
frutos, que continuam a dividir-se até o fim do mundo, quando o trigo
será recolhido ao celeiro e a palha será lançada ao fogo.
Esta horrorosa visão era tão terrível e hedionda, que meu Esposo
celeste me apareceu e, colocando a mão misericordiosa sobre o meu
peito, disse: “Ninguém viu isto ainda e o teu coração se despedaçaria
de dor, se eu não o sustentasse”.
Vi então o sangue rolando, em largas e escuras gotas, sobre o pálido
semblante do Senhor; o seu cabelo, em geral liso e repartido no meio
da cabeça, estava conglutinado com o sangue, eriçado e desgrenhado,
a barba ensangüentada e em desordem. Foi depois da última visão, na
qual os exércitos inimigos O despedaçaram, que saiu da caverna,
quase fugindo e voltou para junto dos discípulos.
Mas não tinha o andar firme; andava como um homem coberto de feridas
e curvado sob um fardo pesado, como quem tropeça a cada passo.
Chegando junto dos três Apóstolos, viu que não se tinham deitado
para dormir, como da primeira vez; estavam sentados, as cabeças
veladas e apoiadas sobre os joelhos, posição em que vejo muitas
vezes o povo daquele país, quando estão de luto ou querem rezar.
Adormeceram vencidos pela tristeza, medo e fadiga.
Quando Jesus se aproximou, tremendo e gemendo, acordaram, mas ao vê-lo
diante de si, na claridade do luar, com o peito encolhido, o semblante
pálido e ensangüentado, o cabelo desgrenhado, fitando-os com olhar
triste, não O reconheceram por alguns momentos, com a vista fatigada,
pois estava indizivelmente desfigurado. Jesus, porém, estendeu os braços;
então se levantaram depressa e, segurando-O sob os braços,
ampararam-nO carinhosamente.
Disse-lhes que no dia seguinte os inimigos O matariam; daí a uma hora
O prenderiam, conduziriam ao tribunal, seria maltratado, insultado, açoitado
e finalmente entregue à morte mais cruel. Com grande tristeza lhes
disse tudo o que teria de sofrer até a tarde do dia seguinte e
pediu-lhes que consolassem sua Mãe e Madalena. Esteve assim diante
deles por alguns minutos, falando-lhes; mas não responderam, porque não
sabiam o que dizer, de tal modo as palavras e o aspecto do Mestre os
tinha assustado; pensavam até que estivesse em delírio. Quando, porém,
quis voltar à gruta, não tinha mais força para andar; vi que João
e Tiago O conduziram e, depois de ter entrado na gruta, voltaram. Eram
cerca de onze horas e um quarto.
Durante essas angústias de Jesus, vi a SS. Virgem também cheia de
tristeza e angústia, em casa de Maria, mãe de Marcos. Estava com
Madalena e a mãe de Marcos, num jardim ao lado da casa; prostrara-se
de joelhos, sobre uma pedra. Diversas vezes perdeu os sentidos
exteriormente, pois viu grande parte dos tormentos de Jesus. Já
enviara mensageiros a Jesus, para ter notícias, mas não podendo, na
sua ânsia, esperar-lhes a volta, saiu com Madalena e Salomé para o
vale de Josafá. Ela andava velada e estendia muitas vezes as mãos
para o monte das Oliveiras, porque via em espírito, Jesus banhado em
suor de sangue e ela parecia, com as mãos estendidas, querer
enxugar-lhe o rosto.
Vi Jesus, comovido por esses caridosos impulsos da alma de sua Mãe,
olhar para a direção em que Maria se achava, como para pedir
socorro.
Vi esses movimentos de compaixão em forma de raios luminosos, que
emanavam de um para o outro. O Senhor pensou também em Madalena,
percebeu-lhe comovido a dor e olhou também para ela; por isso mandou
também aos discípulos que a consolassem, pois sabia que, depois do
amor de sua Mãe, o de Madalena era o mais forte e tinha também visto
o que ela teria de sofrer por Ele e que nunca mais O ofenderia pelo
pecado.
Neste momento, cerca de 11 horas e 15 minutos, voltaram os oito Apóstolos
à cabana de folhagem, no horto de Getsêmani; ali conversaram ainda e
finalmente adormeceram. Estavam muito assustados e desanimados, em
veementes tentações. Cada um tinha procurado um lugar para
esconder-se e perguntaram uns aos outros inquietamente: “Que
faremos, se o matarem? Abandonamos tudo quanto tínhamos e ficamos
pobres e expostos ao escárnio do mundo. Fiamo-nos inteiramente nEle e
ei-Lo agora tão impotente e abatido, que não podemos mais procurar
nEle consolação”. Os outros discípulos, porém, erraram no princípio
de um lado para outro e depois de terem ouvido várias notícias das
últimas palavras assustadoras de Jesus, retiraram-se, pela maior
parte, para Betfagé.
Visões consoladoras; Anjos confortam Jesus
Vi Jesus rezando ainda na gruta e lutando contra a repugnância da
natureza humana ao sofrimento. Estava exausto de fadiga e abatido e
disse: “Meu Pai, se é a vossa vontade, afastai de mim este cálice.
Mas faça-se a vossa vontade e não a minha”.
Então se abriu o abismo diante dEle e apareceram-Lhe os primeiros
degraus do Limbo, como na extremidade de uma vista luminosa. Viu Adão
e Eva, os patriarcas, os profetas, os justos, os parentes de sua Mãe
e João Batista, esperando-Lhe a vinda, no mundo inferior, com um
desejo tão violento, que essa vista Lhe fortificou e reanimou o coração
amoroso. Pela sua morte devia abrir o Céu a esses cativos; devia tirá-los
da cadeia onde languesciam à espera.
Tendo visto, com profunda emoção, esses Santos dos tempos antigos,
apresentaram-Lhe os Anjos, todas as multidões de bem-aventurados do
futuro que, juntando seus combates aos méritos da Paixão do Cristo,
deviam unir-se por Ele ao Pai Celeste. Era uma visão indizivelmente
bela e consoladora. Todos agrupados, segundo a época, classe e
dignidade, passaram diante do Senhor, vestidos dos seus sofrimentos e
obras. Viu a salvação e santificação sair, em ondas inesgotáveis,
da fonte da Redenção, aberta pela sua morte. Os Apóstolos, os discípulos,
as virgens e santas mulheres, todos os mártires, confessores e
eremitas, papas e bispos, grupos numerosos de religiosos, em uma
palavra: um exército inteiro de bem-aventurados apresentou-se-Lhe à
vista.
Todos traziam na cabeça coroas triunfais e as coroas variavam de
forma, de cor, de perfume e de virtude, conforme a diferença dos
respectivos sofrimentos, combates e vitórias que lhes tinham
proporcionado a glória eterna. Toda a vida e todos os atos, todos os
méritos e toda força, assim como toda glória e todo o triunfo dos
Santos provinham unicamente de sua união aos méritos de Jesus
Cristo.
A ação e influência recíproca que todos estes Santos exerciam uns
sobre os outros, a maneira por que hauriam a graça de uma única
fonte, do santo Sacramento e da Paixão do Senhor, apresentava um
espetáculo singularmente tocante e maravilhoso. Nada parecia casual
neles; as obras, o martírio, as vitórias, a aparência e os vestuários:
tudo, apesar de bem diferente, se fundia numa harmonia e unidade
infinitas; e essa unidade na variedade era produzida pelos raios de um
único sol, pela Paixão de Nosso Senhor, do Verbo feito carne, o qual
era a vida, a luz dos homens, que ilumina as trevas, as quais não a
compreenderam.
Foi a comunidade dos futuros Santos que passou diante da alma do
Salvador, que se achava colocado entre o desejo dos patriarcas e o
cortejo triunfal dos bem-aventurados futuros; esses dois grupos
unindo-se e completando-se de certo modo, cercavam o coração do
Redentor, cheio de amor, como uma coroa de vitória. Essa visão,
inexprimivelmente tocante, deu à alma de Jesus um pouco de consolação
e força. Ah! Ele amava tanto seus irmãos e suas criaturas, que teria
aceito de boa vontade todos os sofrimentos, aos quais se entregaria
pela redenção até de uma só alma. Como essas visões se referissem
ao futuro, pairavam em certa altura.
Mas essas imagens consoladoras desapareceram e os Anjos mostraram-lhe
a Paixão, mais perto da terra, porque já estava próxima. Estes
Anjos eram muito numerosos. Vi todas as cenas apresentadas muito
distintamente diante dele, desde o beijo de Judas, até à última
palavra na Cruz; vi lá tudo o que vejo nas minhas meditações da
Paixão, a traição de Judas, a fuga dos discípulos, os insultos
perante Anás e Caifás, a negação de Pedro, o tribunal de Pilatos,
a decisão diante de Herodes, a flagelação, a coroação de
espinhos, a condenação à morte, o transporte da cruz, o encontro
com a Virgem SS. no caminho do Calvário, o desmaio, os insultos de
que os carrascos O cobriram, o véu de Verônica, a crucifixão, o escárnio
dos fariseus, as dores de Maria, de Madalena e João, a lançada no
lado, em uma palavra, tudo passou diante da alma de Jesus, com as
menores circunstâncias.
Vi como o Senhor, na sua angústia, percebia todos os gestos, entendia
todas as palavras, percebia tudo que se passava nas almas. Aceitou
tudo voluntariamente, sujeitou-se a tudo por amor dos homens. O que
mais O entristecia era ver-se pregado na Cruz num estado de nudez
completa, para expiar a impudicícia dos homens: implorava com instância
a graça de livrar-se daquele opróbrio e que pelo menos Lhe fosse
concedido um pano para cingir os rins; e vi ser atendido, não pelos
carrascos, mas por um homem compassivo. Jesus viu e sentiu
profundamente a dor da Virgem SS., que pela união interior aos
sofrimentos do seu Divino Filho, caíra sem sentidos nos braços das
amigas, no Vale de Josafá.
No fim das visões da Paixão, Jesus caiu por terra, como um
moribundo; os Anjos e as visões da Paixão desapareceram; o suor de
sangue brotava mais abundante; vi-O escoar-se através da veste
amarela encostado ao corpo. A mais profunda escuridão reinava na
caverna.
Vi então um Anjo descendo para junto de Jesus: era maior, mais
distinto e mais semelhante ao homem do que os que eu vira antes.
Estava vestido como um sacerdote, de uma longa veste flutuante, ornada
de franjas e trazia na mão, diante de si, um pequeno vaso, da forma
do cálice da última Ceia. Na abertura deste cálice se via um
pequeno corpo oval, do tamanho de uma fava, que espargia uma luz
avermelhada. O Anjo estendeu-Lhe a mão direita e pairando diante de
Jesus, levantou-se; pôs-lhe na boca aquele alimento misterioso e fê-Lo
beber do pequeno cálice luminoso. Depois desapareceu.
Tendo aceitado o cálice dos sofrimentos e recebido nova força, Jesus
ficou ainda alguns minutos na gruta, mergulhado em meditação tranqüila
e dando graças ao Pai Celeste. Estava ainda aflito, mas confortado de
modo sobrenatural, a ponto de poder andar para junto dos discípulos
sem cambalear e sem se curvar sob o peso da dor. Estava ainda pálido
e desfigurado, mas o passo era firme e decidido. Enxugara o rosto com
um sudário e pusera em ordem os cabelos, que lhe pendiam sobre os
ombros, úmidos de suor e conglutinados de sangue.
Quando saiu da gruta, vi a lua como dantes, com a mancha singular que
formava o centro e a esfera que a cercava, mas a claridade dela e das
estrelas era diferente da que tinham dantes, por ocasião das grandes
angústias do Senhor. A luz era agora mais natural. Quando Jesus
chegou junto aos discípulos, estavam estes deitados, como na primeira
vez, encostados ao muro do aterro, com a cabeça velada e dormiam. O
Senhor disse-lhes que não era tempo de dormir, mas que deviam velar e
orar. “Esta é a hora em que o Filho do homem será entregue nas mãos
dos pecadores, disse, levantai-vos e vamos: o traidor está perto;
melhor lhe seria que não tivesse nascido”.
Os Apóstolos levantaram-se assustados e olharam em roda de si
inquietos. Depois de um pouco tranqüilo, Pedro disse calorosamente:
“Mestre, vou chamar os outros, para vos defendermos”. Mas Jesus
mostrou-lhes à alguma distância, no vale, do outro lado da torrente
de Cedron, uma tropa de homens armados que se aproximavam com archotes
e disse-lhes que um deles O tinha traído. Os Apóstolos julgavam-no
impossível.
O Mestre falou-lhes ainda com calma, recomendando-lhes de novo que
consolassem a Virgem SS. e disse: “Vamos ao encontro deles. Vou
entregar-me sem resistência nas mãos dos meus inimigos”. Então
saiu do horto das Oliveiras, com os três Apóstolos e foi ao encontro
dos soldados, no caminho que ficava entre o jardim e o horto de Getsêmani.
Quando a SS. Virgem voltou a si, nos braços de Madalena e Salomé,
alguns discípulos, que viram aproximar-se os soldados, vieram à ela
e reconduziram-na à casa de Maria, mãe de Marcos. Os soldados
tomaram um caminho mais curto do que o que Jesus tinha seguido, vindo
do Cenáculo.
A gruta onde Jesus tinha rezado nessa noite, não era aquela na qual
estava acostumado a rezar, no monte das Oliveiras. Ia geralmente à
uma caverna mais afastada, onde, depois de ter maldito a figueira
infrutífera, rezara numa grande aflição, com os braços estendidos
e apoiados sobre um rochedo.
Os traços do corpo e das mãos ficaram-Lhe impressos na pedra e foram
mais tarde venerados; mas não se sabia então em que ocasião o prodígio
fora feito. Vi diversas vezes semelhantes impressões feitas em
pedras, seja por profetas do Velho Testamento, seja por Jesus, Maria
ou algum dos Apóstolos; vi também as do corpo de Santa Catarina de
Alexandria, no monte Sinai. Essas impressões não parecem profundas,
mas semelhantes às que ficam, pondo-se a mão sobre uma massa
consistente.
Judas e sua tropa
Judas não esperava que a traição tivesse as conseqüências que
se lhe seguiram. Queria ganhar a recompensa prometida e mostrar-se
agradável aos fariseus, entregando-lhes Jesus, mas não pensara no
resultado, na condenação e crucifixão do Mestre; não ia tão longe
em seus desígnios. Era só o dinheiro que lhe preocupava o espírito
e já havia muito tempo travara relações com alguns fariseus e
Saduceus astutos que, com lisonjas, o incitavam à traição. Estava
aborrecido da vida fatigante, errante e perseguida, que levavam os Apóstolos.
Nos últimos meses furtara continuamente as esmolas, de que era
depositário e a cobiça, irritada pela liberalidade de Madalena
quando derramou perfumes sobre Jesus, impeliu-o finalmente ao crime.
Tinha sempre esperado um reino temporal de Jesus e uma posição
brilhante e lucrativa nesse reino; como, porém, não o visse
aparecer, procurava amontoar fortuna. Via crescerem as fadigas e
perseguições e pretendia manter boas relações com os poderosos
inimigos de Jesus, antes de chegar o fim; pois via que Jesus não se
tornaria rei, enquanto que a dignidade do Sumo Sacerdote e a importância
dos seus confidentes lhe produziam viva impressão no espírito.
Aproximava-se cada vez mais dos agentes fariseus, que o lisonjeavam
incessantemente, dizendo-lhe, num tom de grande certeza, que dentro de
pouco tempo dariam cabo de Jesus. Ainda recentemente tinham vindo
procurá-lo diversas vezes em Betânia. O infeliz entregava-se cada
vez mais a esses pensamentos criminosos e multiplicava nos últimos
dias as diligências para que os príncipes dos sacerdotes se
decidissem a agir. Estes ainda não queriam começar e tratavam-no com
visível desprezo. Diziam que não havia tempo suficiente antes da
festa e que qualquer tentativa causaria apenas desordem e tumulto
durante a festa. Somente o sinédrio deu atenção às propostas do
traidor.
Depois da recepção sacrílega do SS. Sacramento, Satanás
apoderou-se totalmente de Judas, que saiu decidido a praticar o crime.
Primeiro procurou os negociadores, que sempre o tinham lisonjeado até
ali e que o receberam ainda com amizade fingida. Foi ter com outros,
entre os quais Caifás e Anás; este último, porém, usou para com
ele de um tom altivo e sarcástico. Estavam hesitantes, não contavam
com o êxito, porque não tinham confiança em Judas.
Vi o império infernal dividido: Satanás queria o crime dos Judeus,
desejava a morte de Jesus, do santo Mestre que fizera tantas conversões,
do Justo a quem tanto odiava; mas sentia também não sei que medo
interno da morte dessa inocente vítima, que não queria subtrair-se
aos perseguidores; invejava-O por sofrer inocentemente. Vi-O assim
excitar de um lado o ódio e furor dos inimigos de Jesus e de outro
lado insinuar a alguns destes que Judas era um patife, um miserável,
que não se podia fazer o julgamento antes da festa, nem reunir número
suficiente de testemunhas contra Jesus.
No sinédrio houve longa discussão sobre o que se devia fazer e,
entre outras coisas, perguntaram a Judas: “Podemos prendê-Lo? Não
terá homens armados consigo?” E o traidor respondeu:, “Não, está
só com os onze discípulos; está desanimado e os onze são homens
medrosos”. Também lhes disse que era preciso apoderar-se de Jesus
nessa ocasião ou nunca, que não podia esperar mais tempo para entregá-Lo,
porque não voltaria para junto do Mestre, pois, alguns dias antes, os
outros discípulos e Jesus mesmo haviam evidentemente suspeitado dele;
pareciam pressentir-lhe os ardis e sem dúvida o matariam, se voltasse
para o meio deles.
Disse-lhes ainda que, se não O prendessem agora, escaparia, voltando
com um exército de partidários, para fazer proclamar-se rei. Essas
ameaças de Judas fizeram efeito. Deram-lhe ouvido ao conselho maldoso
e ele recebeu o preço da traição, os trinta dinheiros. Essas moedas
tinham a forma de uma língua, estavam furadas na parte arredondada e
enfiadas, por meio de argolas, numa espécie de corrente; traziam
certos cunhos.
Judas, ofendido pelo contínuo desprezo e a desconfiança que lhe
manifestavam, sentiu-se impelido pelo orgulho a restituir-lhes esse
dinheiro ou oferecê-lo ao Templo, para que o tomassem por um homem
justo e desinteressado. Mas recusaram-no, porque era preço de sangue,
que não se podia oferecer ao Templo. Judas viu quanto o desprezavam e
sentiu-o profundamente. Não tinha esperado provar os frutos amargos
da traição já antes de a ter cometido; mas de tal modo que se havia
comprometido com aqueles homens, que estava nas suas mãos e não
podia mais se livrar deles.
Observavam-no de muito perto e não o deixariam sair antes de ter
explicado o caminho a seguir, para apoderar-se de Jesus. Três
fariseus acompanhavam-no, quando desceu a uma sala, onde se achavam
guardas do Templo, que não eram todos judeus, mas gente de todas as
nações. Quando tudo estava combinado e reunido o número de soldados
necessários, Judas correu primeiro ao Cenáculo, acompanhado de um
servo dos fariseus, para lhes dar notícia, se Jesus ainda estava ali,
por causa da facilidade de prendê-lo lá, ocupando as portas; devia
mandar avisar-lhe por um mensageiro.
Um pouco antes de Judas receber o prêmio da traição, um dos
fariseus saíra, para mandar sete escravos buscar madeira, para
preparar a Cruz de Cristo, no caso que fosse condenado, porque no dia
seguinte não teriam mais tempo, pois começava a festa da Páscoa.
Andaram cerca de um quarto de hora, para chegar ao lugar onde queriam
buscar o madeiro da cruz; estava ali ao longo de um muro alto e
comprido, junto com muitas outras madeiras, destinadas a construções
do Templo; carregaram-no para um lugar atrás do tribunal de Caifás,
afim de prepará-lo.
A árvore da cruz crescera antigamente perto da torrente Cedron, no
vale, de Josafá; mais tarde caíra através do ribeiro e servia de
ponte. Quando Neemias escondeu o fogo santo
e os vasos sagrados na piscina Betesda, empregou também este
tronco para cobrí-los, junto com outra madeira; tirando-o depois de
novo, jogaram-no para o lado, com outra madeira de construção. Em
parte foi para zombar de Jesus, em parte aparentemente por acaso, mas
em verdade unicamente por disposição da Divina Providência, que a
Cruz foi construída de uma forma especial. Sem contar a tábua do título,
a cruz foi feita de cinco diferentes espécies de madeiras. Tenho
visto muitas coisas a respeito da cruz, diversos acontecimentos e
significações, mas tenho esquecido tudo, fora o que acabo de contar.
Judas, no entanto, voltou e disse que Jesus não estava mais no Cenáculo,
mas havia de estar certamente no monte das Oliveiras, num lugar onde
costumava rezar. Insistiu então que mandassem com eles somente uma
pequena tropa, para que os discípulos, que espiavam por toda a parte,
não suspeitassem e provocassem uma insurreição. Trezentos soldados
deviam ocupar as portas e ruas de Ofel, bairro ao sul do Templo e o
vale Milo, até a casa de Anás, no monte de Sião, para poder mandar
reforço à tropa na volta, caso o pedisse; pois em Ophel todo o povo
baixo aderia a Jesus.
O indigno traidor disse-lhes ainda que tomassem muito cuidado, para
Jesus não lhes escapar, mencionando que este já muitas vezes se
tinha tornado invisível, por meio de artifícios misteriosos, fugindo
assim aos companheiros na montanha. Fez-lhes também a proposta de
amarrá-lo com uma corrente e servir-se de certas práticas mágicas,
para que Jesus não rompesse as correntes. Os Judeus, porém,
recusaram desdenhosamente esse conselho, dizendo: “Não nos podes
impor nada; uma vez que esteja em nossas mãos, está seguro”.
Judas combinou com a tropa entrar ele primeiro no horto, para beijar e
saudar Jesus, como se voltasse do negócio, como amigo e discípulo;
depois deviam entrar os soldados, para prender o Mestre. Procederia
como se os soldados tivessem chegado na mesma hora, só por acaso;
fugiria depois, como os outros discípulos, fingindo não saber de
nada. Talvez pensasse também que houvesse um tumulto, no qual os Apóstolos
se defenderiam e Jesus fugiria, como fizera já diversas vezes.
Assim pensava nos momentos de raiva, sentindo-se ofendido pelo
desprezo e desconfiança dos inimigos de Jesus, mas não porque se
arrependesse da negra ação ou por ter compaixão de Jesus; pois
tinha-se entregue inteiramente a Satanás. Também não queria
consentir que os soldados, entrando depois, trouxessem algemas e
cordas, nem que o acompanhassem, homens de má reputação.
Satisfizeram-lhe aparentemente os desejos, mas procederam como
julgavam dever proceder com um traidor em quem não se pode fiar e que
se joga fora, depois de ter feito o serviço.
Foram dadas ordens expressas aos soldados de vigiar bem Judas e não o
deixar afastar-se antes de ter prendido e amarrado Jesus; pois, como já
tivesse recebido a remuneração, era de recear-se que o patife
fugisse com o dinheiro e assim não poderiam prender Jesus de noite ou
prenderiam outro em seu lugar, de modo que resultariam desta empresa
apenas tumultos e desordens, no dia da Páscoa.
A tropa escolhida para prender Jesus compunha-se de vinte soldados,
alguns da guarda do Templo, os outros soldados de Anás e Caifás.
Estavam vestidos quase da mesma forma que os soldados romanos; usavam
capacetes e do gibão lhes pendiam correias em redor da cintura, como
tinham também os soldados romanos. Distinguiam-se desses
principalmente pela barba, pois os romanos em Jerusalém usavam só suíças,
os lábios e queixo tinham imberbes. Todos os vinte soldados estavam
armados de espadas, alguns tinham apenas lanças. Levavam consigo
tochas e braseiras que, fixas sobre paus, serviam de lanternas; mas ao
chegar, traziam acesa só uma das lanternas.
Os judeus queriam mandar antes uma tropa mais numerosa com Judas, mas
abandonaram esse plano, concordando com ele, objeção do traidor, de
que do monte das Oliveiras se podia ver todo o vale e desse modo uma
tropa maior não poderia deixar de ser vista. Ficou, portanto, a maior
parte em Ophel; mandaram também sentinelas a vários atalhos e
diversos lugares da cidade, para impedir tumultos ou tentativas de
salvar Jesus.
Judas marchou à frente dos vinte soldados; mandaram, porém, seguí-lo
a certa distância quatro soldados de má reputação, gente ordinária,
que levavam cordas e algemas. Alguns passos atrás desses, seguiam
aqueles seis agentes, com os quais Judas travara relações há muito
tempo. Havia entre eles um sacerdote de alta posição e confidente de
Anás, outro de Caifás; além desses havia dois agentes fariseus e
dois saduceus, que eram também herodianos. Todos, porém, eram espiões,
hipócritas, aduladores interesseiros de Anás e Caifás e inimigos
ocultos de Jesus, dos mais maliciosos.
Os vinte soldados seguiram ao lado de Judas, até chegarem ao lugar
onde o caminho passa entre Getsêmani e o horto das Oliveiras; aí não
quiseram deixá-lo avançar sozinho e começaram a discutir com ele,
num tom grosseiro e impertinente.
A prisão do Senhor
Quando Jesus saiu do horto, no caminho entre Getsêmani e o horto
das Oliveiras, apareceu na entrada desse caminho, à distância de
vinte passos, Judas com os soldados, que ainda estavam discutindo.
Pois Judas queria, separado dos soldados, aproximar-se de Jesus, como
amigo; eles deviam depois entrar como por acaso, aparentemente sem Ele
saber; mas os soldados seguraram-no, dizendo: “Assim não camarada,
não nos fugirás antes de termos preso o Galileu”. Avistando depois
os oito Apóstolos, que ao ouvir, o barulho se aproximaram, chamaram
os quatro soldados para reforçar-se. Judas, porém, não consentiu
que esses o acompanhassem e discutiu veementemente com eles.
Quando Jesus e os três Apóstolos viram, à luz da lanterna, esse
tropel ruidoso, com as armas nas mãos, Pedro quis atacá-los à força
e disse: “Senhor, os oito de Getsêmani estão também lá adiante:
Vamos atacar esses soldados”. Jesus, porém, mandou-o ficar quieto e
retirou-se alguns passos para além do caminho, onde havia um lugar
coberto de relva. Judas, vendo o seu plano transtornado,
enraiveceu-se.
Quatro dos discípulos saíram do horto Getsêmani, perguntando o que
havia acontecido. Judas começou a conversar, querendo sair do embaraço
por meio de mentiras, mas os soldados não o deixaram afastar-se.
Aqueles quatro eram Tiago, o Menor, Filipe, Tomé e Natanael; este e
um dos filhos do velho Simeão e alguns outros tinham vindo para junto
dos oito Apóstolos, em Getsêmani, uns enviados pelos amigos de
Jesus, para ter notícias dEle, outros impelidos pela inquietação e
curiosidade. Além desses quatro, andavam também os outros discípulos
pelas vizinhanças, espiando de longe e sempre prontos a fugir.
Jesus, porém, aproximou-se alguns passos da tropa e disse em voz alta
e clara: “A quem estais procurando?” Os chefes dos soldados
responderam: “Jesus de Nazaré”. E Jesus disse: “Sou eu”.
Apenas tinha dito estas palavras, caíram os soldados uns sobre os
outros, como que atacados de convulsões. Judas, que estava perto,
ficou ainda mais desconcertado no seu plano; e pareceu querer
aproximar-se de Jesus, mas o Senhor levantou a mão, dizendo:
“Amigo, para que vieste?”. Judas disse, cheio de confusão, alguma
coisa sobre negócio realizado. Jesus, porém, disse-lhe mais ou menos
as seguintes palavras: “Oh! Melhor te fora não ter nascido”. Mas
não me lembro mais das palavras exatas. No, entretanto tinham-se
levantado os soldados e aproximaram-se de Jesus e dos seus, esperando
o sinal do traidor: que beijasse a Jesus. Pedro, porém, e os outros
discípulos, cercaram Judas com ameaças, chamando-o de ladrão e
traidor. O infeliz quis livrar-se deles por meio de mentiras, mas não
conseguiu justificar-se, pois os soldados defenderam-no contra os discípulos,
dando assim testemunho contra ele.
Jesus, porém, disse mais uma vez: “A quem procurais?” Virando-se
para Ele, responderam de novo: “Jesus de Nazaré”. Então disse:
“Sou eu; já vos tenho dito que sou eu; se, pois, procurais a mim,
deixai aqueles”. À palavra “sou eu”, caíram os soldados de
novo com convulsões e contorções, como as têm os epiléticos e
Judas foi de novo cercado pelos Apóstolos, que estavam extremamente
furiosos contra ele. Jesus disse aos soldados: “Levantai-vos”.
Levantaram-se assustados e como os Apóstolos ainda discutissem com
Judas e também se dirigissem contra os soldados, estes atacaram os Apóstolos,
livrando-lhes Judas das mãos e impelindo-o com ameaças a dar o sinal
combinado, pois tinham ordem de prender só aquele a quem beijasse.
Judas aproximou-se então de Jesus, abraçou e beijou-O, dizendo,
“Deus te salve, Mestre”. E Jesus disse: “Judas, é com um beijo
que atraiçoas o Filho do Homem?”.
Então os soldados cercaram Jesus e os soldados, avançando, puseram mãos
em Nosso Senhor. Judas quis fugir, mas os Apóstolos detiveram-no e
atacaram os soldados, gritando: “Mestre, feriremos com as
espadas?”. Pedro, porém, mais excitado e zeloso, puxou da espada e
golpeou Malcho, criado do Sumo Sacerdote, que o quis repelir e
cortou-lhe um pedaço da orelha, de modo que Malcho caiu por terra,
aumentando deste modo ainda a confusão.
A situação nesse momento do veemente ataque de Pedro era a seguinte:
Jesus preso pelos soldados, que O queriam amarrar; cercavam-nO, num
largo círculo, os soldados, um dos quais, Malcho, foi prostrado por
Pedro. Outros soldados estavam ocupados em repelir os discípulos, que
se aproximaram ou em perseguir outros que fugiram. Quatro dos discípulos
andavam pelo lado do monte e só se avistavam de vez em quando, à
grande distância.
Os soldados estavam em parte um pouco desanimados pelas quedas, em
parte não ousavam perseguir seriamente os discípulos, para não
enfraquecerem demasiadamente a tropa que cercava Jesus. Judas, que
quis fugir logo depois do beijo traidor, foi detido a certa distância
por alguns discípulos, que o cobriram de injúrias. Mas os seis
agentes, que só então se aproximaram, livraram-no das mãos dos
cristãos indignados. Os quatro soldados, em roda de Jesus, estavam
ocupados com as cordas e algemas, seguravam-nO e iam amarrá-lO.
Tal era a situação, quando Pedro golpeou Malcho e Jesus ao mesmo
tempo disse: “Pedro! Embainha a tua espada, pois quem se serve da
espada, perecerá pela espada. Ou pensas que eu não podia pedir a meu
Pai que me mandasse mais de doze legiões de Anjos? Então não devo
beber o cálice que meu Pai me apresentou? Como se cumpririam as
Escrituras, se assim não se fizesse?”. Disse aos soldados:
“Deixai-me curar este homem”. Aproximou-se de Malcho, tocou-lhe na
orelha, rezando e ficou sã. Estavam, porém, em roda os esbirros, os
soldados e os seis agentes, que O insultaram, dizendo aos soldados:
“Ele tem contrato com o demônio; a orelha por feitiço parecia
ferida e por feitiço sarou”.
Então lhes disse Jesus: “Viestes a mim, armados de espadas e paus,
a prender-me como um assassino. Todos os dias tenho ensinado no
Templo, no meio de vós e não ousastes pôr a mão em mim; mas esta
é a vossa hora, a hora das trevas”. Eles, porém, mandaram amarrá-lO
e insultaram-nO, dizendo: “A nós não nos pudeste jogar por terra
com teu feitiço”. Do mesmo modo falaram os soldados: “Acabaremos
com as tuas práticas de feiticeiro, etc”.. Jesus respondeu ainda
algumas palavras, mas não sei mais o que foi; os discípulos, porém,
fugiram para todos os lados.
Os quatro soldados e os seis fariseus não tinham caído e, portanto
também não se tinham levantado, o que sucedeu, como me foi revelado,
porque estavam inteiramente nas redes de Satanás, do mesmo modo que
Judas, que também não caíra, apesar de estar no meio dos soldados;
todos os que caíram e se levantaram, converteram-se depois e
tornaram-se cristãos. O cair e levantar era símbolo da conversão.
Esses soldados não puseram a mão em Jesus, mas apenas O cercaram;
Malcho converteu-se logo depois da cura, de modo que só por causa da
disciplina continuou o serviço; já nas horas seguintes, durante a
Paixão de Jesus, fazia o papel de mensageiro entre Maria e os outros
amigos de Jesus, para dar notícias do que se passava.
Os soldados amarraram Jesus com grande barbaridade e com a brutalidade
de carrascos, por entre contínuos insultos e escárnios dos fariseus.
Eram pagãos da classe mais baixa e vil; tinham o peito, os braços e
joelhos nus; na cintura usavam uma faixa de pano e na parte superior
do corpo, gibão sem mangas, ligado nos lados com correias. Eram de
estatura baixa, mas fortes e muito ágeis, de cor parda-ruiva, como a
dos escravos do Egito.
Amarraram Jesus de uma maneira cruel, com as
mãos sobre o peito, prendendo sem compaixão o pulso da mão direita
por baixo do cotovelo do braço esquerdo e o pulso da mão esquerda
por baixo do cotovelo do braço direito, com cordas novas e duras que
lhe cortavam a carne.
Passaram-lhe em redor do corpo um cinturão
largo, no qual havia pontas de ferro e argolas de fibra ou vime, nas
quais amarraram-Lhe uma espécie de colar, no qual havia pontas e
outros corpos pontiagudos, para ferir; desse colar saiam, como uma
estola, duas correias cruzadas sobre o peito até o cinturão, ao qual
foram fortemente apertadas e ligadas.
Fixaram ainda, em diversos pontos do cinturão,
quatro cordas compridas, pelas quais podiam arrastar Jesus para lá e
para cá, conforme lhes ditava a maldade. Todas essas cordas e
correias eram novas e pareciam preparadas de propósito, desde que
começaram a pensar em prender Jesus.
Termina aqui a parte relativa ao
sofrimento do Horto das Oliveiras. Nos textos dos exorcismos, que já
colocamos no site, a certa altura um dos demônios diz, que somos algo
como sacos de estrume. Jamais eu aceitei com tanta consciência uma
frase tão pesada. E digo mais, quem, lendo apenas esta pequenina
parte do sofrimento de Jesus, e mesmo assim não se sensibilizar,
certamente é menos ainda que um saco de estrume. Quando pela primeira
vez li estes textos, e a media que me afundava neles, por horas
seguidas sem poder parar, eu me sentia esmagado no corpo, dilacerado
na alma, e desde então cada vez que eu contemplo o primeiro dos Mistérios
Dolorosos do Rosário, me assaltam novamente os mesmos sentimentos.
Entretanto, como vimos, este é apenas o
começo. Até aqui, o sofrimento de Jesus foi apenas espiritual, foi
na alma. A partir de agora, porém, começam igualmente as dores do
corpo, que até chegar ao Calvário e à Cruz, não terá mais figura
humana, como bem o disse o grande profeta Isaías. Eis até onde o
levará o seu imenso amor por nós.
Meditemos, neste mistério da Paixão, e até o próximo texto.
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Fonte: Recados do Aarão
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