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O CORDEIRO DE DEUS -
Parte 3
Neste novo texto, apresentaremos parte da chamada vida oculta de
Jesus. De fato, os Evangelhos citam as passagens do nascimento Dele,
depois falam da passagem da perda no Templo de Jerusalém, aos 12
anos, e depois vão retomar apenas nas passagens do início da vida pública,
aos 30 anos de idade. E milhões de pessoas sempre tiveram a
curiosidade de saber o que aconteceu com Ele durante aqueles anos.
Na verdade Jesus jamais ficou parado. Desde a mais tenra infância,
pela vida inteira, Ele sempre esteve trabalhando ciosamente na missão
que Lhe foi confiada pelo Pai. Não sendo somente exemplo de vida, mas
também doutrinando a todos aqueles que viviam ao seu redor, também
visitando escolas, mas, sobretudo, rezando e meditando para fortalecer
sua parte homem, preparando-o para o imenso sacrifício da cruz. Nesse
tempo Ele fez grandes viagens, retornando inclusive ao Egito onde a
família de Nazaré vivera por alguns anos, e depois visitando os três
reis magos, em seus países de origem. Todas estas visões, teve a
privilegiada serva Ana Catarina, conforme relata a seguir.
Família, amigos, infância e mocidade de Jesus – A Vida
Oculta de Jesus!
A Escritura Sagrada diz: “Quando veio a plenitude dos tempos,
enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, sujeito à lei, a fim de
remir os que estavam debaixo da lei, para que recebêssemos a adoção
de filhos”. (Gal. 4, 4-5).
Essas palavras nos ensinam que, com a vinda do Redentor a este mundo,
começou uma era nova, a qual a Escritura Sagrada chama a plenitude e
consumação de todos os tempos.
A era de Jesus Cristo foi a plenitude dos tempos, porque nele se
cumpriram todas as predições dos profetas. Foi-o também, porque em
Jesus Cristo começou a última e perfeita era.
Quantos períodos já tinham passado antes de começar esta última e
mais sublime era! Segundo o que nos ensinam as ciências, tanto as
profanas como as sagradas, já a haviam precedido muitos e, em parte,
longos espaços de tempo. Assim a era sideral, em que foram criados
por Deus, os astros, com o respectivo movimento e desenvolvimento;
depois a era telúrica, em que a terra, até então uma massa ígnea
em fusão, começou a formar em si uma crista firme, mais e mais
espessa.
Depois a era orgânica, em que Deus ornou e encheu a terra de plantas
e animais; afinal a era histórica, que teve princípio com a criação
dos primeiros homens. Mas esta última teve ainda diversos períodos;
pois no princípio ficaram os homens sob o império da lei natural,
que Deus lhes gravou em letras indeléveis na consciência; com ela
todos os homens conhecem o que devem fazer ou deixar de fazer e por
isso Deus exige a observação dessa lei de todos os homens, mesmo dos
pagãos que não o conhecem. Mas Deus não se contentou com isso; quis
entrar em relações com os homens, pela graça e assim conduzir
aqueles que Lhe obedecessem, a uma união mais íntima consigo.
Mas também nesse desígnio procedeu gradualmente. A primeira aliança
foi a que começou pela escolha de Abraão para ser pai do povo de
Israel e acabou com a promulgação da lei, no monte Sinai. Em conseqüência
dessa aliança, entrou o povo de Israel em relações mais estreitas
com Deus. Recebeu d´Ele um culto novo, novas leis e a promessa
consoladora de que do seu seio proviria o Salvador.
Para esse fim, serviam todas as leis especiais, cerimônias e
preceitos do Velho Testamento; até dos pecados e das desgraças do
povo israelita sabia o Senhor, pela sua Divina Providência, dirigir
os efeitos, de modo que lhe serviam aos divinos desígnios. Sob esse
ponto de vista encara a Serva de Deus especialmente a formação
daquela família, da qual devia nascer o divino Salvador.
Quando o Redentor apareceu neste mundo, terminou a velha Aliança,
porque estava realizado o seu fim: os bons, entre os judeus e também
entre os gentios, reconheceram o seu estado pecaminoso e a necessidade
da salvação, anelando ansiosos pelo Messias.
Começou então uma segunda Aliança, abundante em graças, a qual foi
confirmada no monte Sião, em Jerusalém, pela vinda do Espírito
Santo, no dia de Pentecostes. Com essa Nova Aliança, que durará até
o fim do mundo, principiou a consumação dos tempos, na qual foi
proporcionada aos homens pecadores a salvação abundante em Jesus
Cristo e pela qual somos elevados do estado de servidão ao estado de
liberdade e à dignidade de filhos de Deus.
Da família altamente privilegiada de Nosso Senhor
O evangelista S. Mateus começa a genealogia do Divino Salvador,
segundo a sua humanidade, com as seguintes palavras “Livro da
genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. Reduz
assim a linhagem do Salvador a Abraão, o pai do povo de Israel. Jesus
descendeu dele por Judá e Davi; era, portanto, da tribo de Judá e da
família real de Davi.
Catharina Emmerich narra a seguinte visão:
“Vi a linhagem do messias dividir-se em Davi em dois ramos. A
direita passou a linha através de Salomão, acabando em Jacó, pai de
José, esposo de Maria. Essa linha corria em direção mais alta;
partia em geral da boca e era inteiramente branca, sem cores. As
pessoas ao lado da linha eram todas mais altas do que as da linha
oposta. Todas seguravam na mão uma haste de flor, do tamanho de um
braço, com folhas semelhantes às da palmeira, que se dependuravam em
volta do ramo.
Na ponta da haste havia uma flor campanada, branca, com 5 estames
amarelos, que espalhavam um pó fino. Três membros desta linha, antes
do meio, contados de cima, estavam eliminados, enegrecidos e
ressequidos. As flores variavam em tamanho, beleza e vigor; a de José
era de grande pureza, com as pétalas frescas e brancas, era mais
bela. Vi esta linha unir-se pelo fim com a linha oposta, por um raio
luzido; a significação sobrenatural e misteriosa desse raio me foi
revelada: referia-se mais à alma e menos à carne; tinha algo da
significação de Salomão; não sei explicá-lo bem.
A linha da esquerda passou de Davi por Natan até Helí, que é o
verdadeiro nome de Joaquim, pois recebeu este nome só mais tarde,
como Abrão o de Abraão. Eu sabia o motivo desta troca e sabê-lo-ei
talvez de novo. José foi chamado muitas vezes nas minhas visões
“filho de Helí”. Toda essa linha vi passar mais baixo; tinha
diversas cores e manchas cá e lá, mas saía depois mais clara. Era
vermelha, amarela e branca; não havia azul. As pessoas ao lado eram
menos altas do que as do lado oposto; tinham ramos mais curtos,
pendentes para o lado, com folhas verde-amarelas e dentadas, os quais
rematavam em um botão avermelhado, da cor da rosa silvestre; em parte
estavam vigorosos, em outra parte murchos; o botão não era tanto um
botão de flor, mas um ovário e sempre fechado.
Sant’Ana descendeu, pelo pai, da tribo de Leví, pela mãe, da de
Benjamin. Vi alguns de seus avós carregarem a Arca da Aliança, mui
piedosos e devotos e notei que receberam nessa ocasião raios do mistério,
os quais se lhe referiam à descendência: Ana e Maria. Vi sempre
muitos sacerdotes freqüentarem a casa paterna de Ana, como também a
de Joaquim; daí o parentesco com Isabel e Zacarias.
No ramo de Salomão havia diversas lacunas; os frutos, estavam mais
separados, mas as figuras eram maiores e mais espirituais. As duas
linhas tocaram-se várias vezes; três ou quatro membros, talvez,
antes de Helí, se cruzaram, acabando afinal em cima, com a SS.Virgem
Maria. Creio que nesses cruzamentos já vi principiar o sangue da SS.
Virgem.”
Os membros eliminados significam provavelmente ascendentes pecaminosos
do Salvador. Se bem que Ele mesmo seja o “Santo dos Santos” e também
tenha por Mãe uma Virgem Imaculada e por pai nutrício S. José,
houve, todavia, pecadores e pecadoras entre os seus antepassados, por
exemplo, o rei Salomão, Asa, Joram, Achaz, Manasses, Tamar e Betsabé;
até duas pagãs: Racháb e Rut. Com certeza Jesus assim o permitiu,
para manifestar a sua misericórdia e o seu amor para com os pecadores
e também a intenção que tinha, de fazer participar da Redenção os
gentios e conduzi-los à eterna bem-aventurança.
Segundo as narrações de Anna Catharina Emmerich, eram os avós de
Maria Santíssima piedosos Israelitas, que estavam em íntimas relações
com os Essenos, os quais formavam uma espécie de ordem religiosa.
“Vi os avós da SS.Virgem, conta Anna Catharina, gente
extraordinariamente piedosa e simples, que alimentava secretamente o
vivo desejo da vinda do Messias prometido. Vi-os levar uma vida
mortificada; os casados muitas vezes fizeram a promessa de mútua
continência durante certo tempo. Eram tão piedosos, tão cheios de
amor a Deus, que os vi freqüentemente sozinhos no campo deserto, de
dia e também de noite, clamando por Deus com um desejo tão veemente,
que arrancavam as vestes do peito, como para deixar que Deus entrasse
pelos raios do sol, ou como para saciar com o brilho da lua e das
estrelas a sede que os devorava, do cumprimento da promissão.”
Segundo Anna Catharina, chamava-se Emorun a avó de Sant’Ana e teve
do matrimônio com Stolanus três filhas, uma das quais Isméria, foi
mais tarde a mãe de Sant’Ana. Ana tinha uma irmã mais velha,
chamada Sobe e uma mais moça, com o nome de Maharha e uma terceira,
que era casada com um pastor.
O pai de Ana, de nome Eliud, era da tribo de Leví, ao passo que a mãe
pertencia à tribo de Benjamin. Ana nasceu em Belém, mas os pais
foram depois viver em Seforis, perto de Nazaré. Após a morte de Isméria,
Eliud morava no vale de Zabulon. Ali se encontraram Ana e Joaquim e
travaram conhecimento. O pai de Joaquim, Matthat, era o segundo irmão
de Jacó, pai de S. José. Joaquim, cujo nome legítimo era Helí, e
José eram descendentes, pelo lado paterno, da estirpe real de Davi
(1). Joaquim e Ana, depois de casados, levaram uma vida piedosa e
benfazeja, primeiro em casa do pai, Eliud, depois em Nazaré.
A filha mais velha recebeu o nome de Maria Helí; conheceram, porém,
que esta não era a filha da promissão. Ana e Joaquim rezavam muitas
vezes com grande devoção e davam muitas esmolas. Assim viveram 19
anos depois do nascimento da primeira filha, em contínuo desejo da
filha prometida e em crescente tristeza. Além disso ainda eram
insultados pelo povo. Quando um dia Joaquim quis oferecer um sacrifício
no Templo, recusou-o o sacerdote, repreendendo-o por sua esterilidade.
Joaquim, muito abatido, não voltou a Nazaré, mas viveu cinco semanas
escondido, com os rebanhos, ao pé do monte Hermon.
Com isso aumentou ainda a tristeza de Ana, que chorou e rezou muito.
Um dia, quando rezava com grande aflição, eis que lhe apareceu um
Anjo, anunciando-lhe que Deus lhe ouvira a oração. Mandou-a ir a
Jerusalém, onde se encontraria com Joaquim na Porta Áurea.
Na noite seguinte lhe apareceu de novo um Anjo, dizendo que conceberia
uma filha santa; e escreveu o nome de Maria na parede.
Joaquim teve também a aparição de um Anjo; foi por isso ao Templo,
ofereceu um sacrifício e recebeu nessa ocasião a bênção da
promissão ou o santo da Arca da Aliança.
Ana e Joaquim encontraram-se na Porta Áurea, transbordando de alegria
e felicidade. Ali, diz Catharina Emmerich, lhes veio aquela abundância
da divina graça, pela qual Maria recebeu a existência, somente pela
santa obediência e pelo puro amor de Deus, sem qualquer impureza dos
pais.”
Desse modo, após muitos anos de oração fervorosa, alcançou esse
santo casal, Joaquim e Ana, aquela pureza e santidade, que os tornou
aptos para receberem, sem o fomento da concupiscência, a santa filha,
que foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Redentor.
Os discípulos do Senhor e outras pessoas bíblicas
Para facilitar a leitura e a compreensão do livro, damos algumas
informações sobre os discípulos de Jesus e outras pessoas
mencionadas freqüentemente durante a narração, informações
colhidas das comunicações de Anna Catharina Emmerich.
Zacarias e Isabel, os santos pais de S. João Batista, moravam em
Juta, perto de Hebron. Por sua conhecida virtude e descendência reta
de Aarão, gozavam ambos de alta estima do povo; Zacarias figurava
como chefe de todos os sacerdotes que moravam em Juta.
Isabel era filha de Emerenciana, irmã de Isméria, que era a mãe de
Sant’Ana. Por isso chama a Escritura Sagrada a Isabel prima de
Maria.
Maria, Mãe de Jesus, tinha uma irmã mais velha, de nome Maria Helí,
cujos filhos eram Tiago, Sadah e Heliachim.
Uma filha de Maria Helí era chamada pelo nome do pai - Maria Cleophas,
que quer dizer Maria filha de Cleophas. Esta teve do primeiro marido,
Alfeu, três filhos: Judas Tadeu, Simão e Tiago o Menor e uma filha,
Suzana. Alfeu, que era viúvo, trouxe para esse matrimônio um filho,
de nome Mateus, antes chamado Leví, que mais tarde tinha uma aduana
perto de Betsaida, no lago Genezaré. Do segundo matrimônio, com Sabás,
teve Maria Cleophas um filho, de nome José Barsabas, chamado na
Escritura Sagrada “Joseph”. Depois da ascensão de Jesus, foi ele,
junto com Matias, escolhido para um deles ocupar entre os Apóstolos o
lugar de Judas; a sorte designou Matias. Do terceiro matrimônio de
Maria Cleophas, com Jonas, irmão mais moço do sogro de São Pedro,
nasceu Simeão, que, depois do martírio de seu irmão Tiago o Menor,
lhe sucedeu na cadeira de Bispo de Jerusalém.
Todos esses filhos de Maria Helí e Maria Cleophas se tornaram discípulos
de Jesus, alguns até Apóstolos (Judas, Simão, Tiago e Mateus).
Quatro filhos de Maria Cleophas são chamados no Evangelho “irmãos
(isto é, parentes) de Jesus”. (Mat. 13, 55)
Pedro e André eram irmãos germanos; eram filhos de Jonas. Ambos
viviam de pescaria e moravam no lago Genezaré; Pedro em Cafarnaum,
André em Betsaida. Pedro casou com a viúva de um pescador, a qual
lhe trouxe do primeiro matrimônio dois filhos e uma filha; esta será
provavelmente a Santa Petronila, muitas vezes mencionada como filha de
S. Pedro. Pedro, porém, não teve filhos; tinha quase a idade de
Judas Tadeu, cinco anos mais que Jesus. André tinha dois anos mais do
que Pedro. Era pai de dois filhos e duas filhas; depois da sua vocação
ao apostolado, viveu em perfeita continência.
Tiago o Maior e S. João Evangelista eram também irmãos, filhos de
Zebedeu; a mãe chamava-se Maria Salomé e era filha de Sobe, irmã de
Sant’Ana e, portanto, tia da Mãe de Deus. Foi ela que um dia
apresentou os filhos ao Salvador, pedindo-lhe que os colocasse um à
sua direita e o outro à sua esquerda, no reino do céu. S. Tiago
tornou-se o Apóstolo da Espanha; seu sepulcro, em Compostela, é um
lugar célebre de romaria. São João pregou em Éfeso, na Ásia
Menor, onde morreu, na idade de mais de 100 anos, sendo o único dos
Apóstolos que teve morte natural. Era o discípulo predileto do
Salvador, não somente por sua fidelidade, singeleza e amor, mas também
por causa de sua vida casta e pura.
O Apóstolo S. Filipe morava em Betsaida e foi conduzido a Jesus por
André.
Bartolomeu era Esseno. O pai, Tolmai, era descendente do rei Tolmai de
Gessur, cuja filha era casada com o rei Davi. Como escrivão,
Bartolomeu era conhecido de Tomé, que tinha a mesma profissão e
vivia em Arimatéia.
De Judas Iscariotes falaremos por extenso no número 20 deste capítulo.
O santo Apóstolo Matias era natural de Belém e pregou o Evangelho na
Palestina.
O Apóstolo S. Paulo pertencia à tribo de Benjamin e era natural de
Gischala, a três léguas do monte Tabor. Os pais mudaram-se mais
tarde para Tarso. Em Jerusalém teve Paulo como mestre o célebre e
douto Gamaliel. Antes da conversão era partidário zeloso da lei de
Moisés e por isso adversário encarniçado dos cristãos.
O santo evangelista Marcos era pescador perto de Betsaida e tornou-se
um dos primeiros discípulos de Jesus.
S. Lucas Evangelista era natural de Antioquia; estudou pintura na Grécia
e depois medicina e astronomia numa cidade do Egito. Durante a vida de
Jesus, não se lhe associou, nem aos Apóstolos, ficando muito tempo
indeciso, até que foi confirmado na fé pelo próprio Senhor, no
domingo da Páscoa, em Emaús.
Cleophas, que junto com Lucas foi favorecido com a aparição de
Jesus, era neto do tio paterno de Maria Cleophae.
José de Arimatéia (assim chamado porque era natural de Arimatéia) e
Nicodemos eram escultores. Ambos moravam em Jerusalém e eram membros
do Conselho do Templo
Menção especial merece-nos a família de Lázaro, que tinha íntimas
relações com Jesus e sua SS. Mãe. Vindo Jesus a Betânia, onde
morava Lázaro, ou a Jerusalém, hospedava-se geralmente em casa de Lázaro,
um edifício em forma de castelo, rodeado de jardins e plantações. A
irmã de Lázaro, Marta, tinha dois anos menos e Madalena nove anos
menos do que ele. Uma terceira irmã, chamada Maria, a silenciosa, que
era considerada como mentecapta, não é mencionada nos Evangelhos.
Depois da morte dos pais coube a Madalena por sorte o castelo de Mágdala,
na banda oriental do lago Genezaré. Na idade de onze anos ali se
instalou com grande pompa e começou a levar uma vida suntuosa. Ainda
muito moça, deixou-se arrastar à aventuras amorosas, tornando-se
assim um escândalo para os irmãos, que viviam muito simples e
recolhidos em Betânia.
No começo do segundo ano da vida pública de Jesus, Madalena assistiu
a um dos sermões do Divino Mestre e ficou inteiramente perturbada e
arrependida; pouco depois ungiu os pés do Salvador, em casa de Simão
Zabulon e recebeu nessa ocasião a consoladora certeza de que os
pecados lhe foram perdoados. Mas pouco tempo depois recaiu nos mesmos
vícios. Pelos insistentes rogos de Marta, deixou-se levar a assistir
mais uma vez à pregação de Jesus. Enquanto o Salvador falava, saíram
os maus espíritos de Madalena que, muito contrita, se juntou às
santas mulheres.
Lázaro recebeu uma prova especial do amor de Jesus na milagrosa
ressurreição, depois do corpo já lhe haver estado quatro dias no
sepulcro. Outros pormenores sobre Lázaro, Marta e Madalena se
encontram nos números 14 e 15 deste capítulo.
O Evangelho e também a vidente mencionam muitas vezes as “santas
mulheres”; além das já conhecidas, Maria Helí, Maria Cleophae,
Marta, Madalena, Maria Salomé, mulher de Zebedeu e Suzana, filha de
Alfeu, pertenciam ao grupo das santas mulheres ainda as seguintes:
1. Verônica, (propriamente: Seráfia) prima de São João Batista
e cujo marido, de nome Sirach, era membro do Conselho do Templo.
2. Maria Marcos, mãe de João Marcos, que morava fora dos muros de
Jerusalém, defronte do monte das Oliveiras.
3. Joana Chusa, viúva sem filhos, natural de Jerusalém.
4. Salomé, também viúva; morava em casa de Marta, em Betânia; era
parenta da família por um irmão de José.
5. Suzana, de Jerusalém, filha do irmão mais velho de José,
Cleophas e deste modo parente da família, como Salomé.
6. Dina, a Samaritana, que falara com Jesus no poço de Jacó e que se
juntara às santas mulheres, depois da conversão.
7. Maroni, a viúva de Naim, cujo filho, Martialis, Jesus ressuscitara
dos mortos.
8. Maria Sufanitis, Moabita, que Jesus livrara de um mau espírito.
Os ascendentes dos três Reis Magos e a viagem destes a Belém
Um dos fatos mais maravilhosos da vida do Divino Salvador é a
vinda dos três Reis Magos ao presépio. Surge a pergunta: Como foi
possível que três homens de alta posição, com numerosa comitiva,
vindos de terras longínquas, chegassem guiados por uma estrela ao
presépio de Belém?
Para explicação cita-se geralmente o trecho do livro Números 24,
17; “Uma estrela sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel, que
esmagará os príncipes de Moab.” Certamente é este trecho de
importância e sem dúvida o conheceram os pontífices dos judeus,
melhor do que os chefes das tribos longínquas dos gentios. Contudo, não
vieram aqueles ao presépio, mas estes últimos. Logo, não bastava só
a estrela, para levá-los lá, faziam-se precisas outras previdências
divinas, milagrosas. Quais foram estas, conta-nos a pobre camponesa de
Flamske:
“Os antepassados dos três Reis Magos descendiam de Jó, que outrora
vivera no Cáucaso. Um discípulo de Balaão anunciara ali a profecia
deste, de que apareceria uma estrela de Jacó. Essa profecia achou
larga aceitação. Construiu-se uma torre alta, numa montanha. Muitos
sábios e astrônomos viveram ali alternadamente; tudo que notavam nos
astros, escreviam e ensinavam a todos.
Os chefes de uma tribo da terra de Jó, numa viagem ao Egito, na região
de Heliópolis, receberam por um Anjo a revelação de que o Salvador
nasceria de uma Virgem e seria adorado pelos seus descendentes. Eles
mesmos deviam voltar e estudar os astros. Esses Médos começaram então
a observar as estrelas. Diversas vezes, porém, caiu esse estudo em
esquecimento, por causa de vários acontecimentos. Depois começou o
abominável abuso de sacrificarem crianças, para que a criança
prometida viesse mais depressa.
Cerca de 500 anos antes do nascimento de Jesus, estava esse estudo dos
astros também em decadência. Existia, porém, a descendência
daqueles chefes, constituída por três irmãos, que viviam separados,
cada um com sua tribo. Tiveram três filhas, às quais Deus deu o dom
de profecia, de modo que ao mesmo tempo percorreram o país e as três
tribos, profetizando e ensinando sobre a estrela de Jacó. Então se
renovou nessas três tribos o estudo das estrelas e renasceu o desejo
da vinda do Menino prometido.
Desses três irmãos descenderam os Reis Magos em linha direta, por 15
gerações, após 500 anos; mas, pela mistura com outras raças, eram
de cores diferentes. Desde o princípio desses 500 anos, ficavam
sempre alguns dos antepassados dos Reis num edifício comum, para
estudarem os astros; conforme as diversas revelações que recebiam,
mudavam certas coisas nos templos e no culto divino. Infelizmente
continuou ainda entre eles, por muito tempo, o sacrifício de homens e
crianças.
Todas as épocas que se referiam à vinda do Messias, conheciam-nas em
visões milagrosas, ao observar as estrelas. Desde a Conceição de
Nossa Senhora, portanto há 15 anos, essas visões mostravam, cada vez
mais distintamente, a vinda da criança. Por fim viram até muitas
coisas que se referiam à paixão de Jesus.
Podiam calcular bem o tempo da estrela de Jacó, que Balaão
predissera. (Núm. 24, 17); pois viram a escada de Jacó e, segundo o
número dos degraus e a sucessão das imagens que nestes apareciam,
podiam calcular, como num calendário, a proximidade da Salvação;
pois o cume da escada deixava ver a estrela ou a estrela era a última
imagem dela. Viam a escada de Jacó como um tronco, que tinha três séries
de escalões cravados em roda; nestes aparecia uma série de imagens,
que viam também nas estrelas, no tempo da sua realização. Dessa
maneira sabiam exatamente que a imagem havia de aparecer e conheciam,
pelos intervalos, quanto tempo haviam de esperá-la.
Lembro-me de ter visto, na noite do nascimento de Jesus, dois dos Reis
na torre. O terceiro, que vivia a leste do Mar Cáspio, não estava
com eles; viu, porém, a mesma visão, à mesma hora, na sua terra.
A imagem que reconheceram, apareceu em diversas variações; não foi
numa estrela que a viram, mas numa figura composta de um certo número
de estrelas. Divisaram, porém, sobre a lua um arco-íris, sobre o
qual estava sentada uma virgem; à esquerda desta, aparecia no arco
uma videira, à direita um molho de espigas de trigo.
Vi aparecer diante da Virgem a figura de um cálice ou, melhor, subir
ou sair-lhe do esplendor; saindo desse cálice, apareceu uma
criancinha e, sobre esta, um disco luminoso, como um ostensório
vazio, do qual emanavam raios semelhantes à espigas. Tive nisso a
impressão do SS. Sacramento.
Do lado direito da criancinha, que subia do cálice, brotou um ramo,
no qual desabrochou, como uma flor, uma igreja octogonal, que tinha um
portão grande e duas portas laterais. A Virgem moveu com a mão o cálice,
a criança e a hóstia para cima, colocando-as dentro da Igreja e a
torre da Igreja levantou-se-lhe por cima e tornou-se por fim uma
cidade brilhante, assim como representamos a Jerusalém celeste. Vi
nessa imagem muitas coisas, como procedendo e desenvolvendo-se umas
das outras.
Os Reis viram Belém como um belo palácio, como uma casa na qual se
junta e se distribui muita bênção. Lá viram a Virgem SS., com o
Menino, rodeada de muito esplendor e muitos reis se inclinarem diante
dele, oferecendo-lhe sacrifícios. Tomaram tudo como realidade,
pensando que o rei tinha nascido em tal esplendor e que todos os povos
se lhe haviam submetido; por isso foram também lhe oferecer os seus
dons. Havia um grande número de imagens naquela escada de Jacó.
Vi-as todas aparecer nas estrelas, no tempo do seu cumprimento.
Naquelas três noites, os três Reis Magos viram continuamente essas
imagens. O mais nobre entre eles mandou então mensageiros aos outros
e, quando viram a imagem dos reis que ofereceram presentes ao Rei recém-nascido,
puseram-se também a caminho, com riquíssimas dádivas, para não
serem os últimos. Todas as tribos dos astrônomos viram a estrela,
mas só aqueles a seguiram.
Alguns dias depois da partida dos reis, vi Theokenos, com o seu séquito,
juntar-se aos grupos de Mensor e Sair; Theokenos não tinha estado
antes com estes últimos. Cada um dos Reis tinha no séquito quatro
parentes próximos da tribo, como companheiros. A tribo de Mensor era
de cor agradável, pardacenta; a de Sair parda e a de Theokenos de cor
amarela, brilhante.
Mensor era Caldeu; depois da morte de Jesus, foi batizado por S. Tomé
e recebeu o nome de Leandro. Sair teve o batismo de desejo; não vivia
mais, quando Jesus foi à terra dos Reis Magos. Theokenos veio da Média
e era o mais rico; foi batizado e chamado Leão por S. Tomé. Deram-se
aos Reis Magos os nomes de Gaspar, Melchior e Baltasar, porque estes
nomes lhes designam o caráter: Gaspar - Vai com amor. Melchior -
Aproxima-se humildemente. Baltasar - Age prontamente, conformando a
sua vontade com a de Deus.
O caminho para Belém era de mais de 700 léguas: fizeram-no em 33
dias, viajando muitas vezes dia e noite. A estrela que os guiava, era
como um globo brilhante. Um jorro de luz emanava dela sobre a terra.
Vi finalmente chegarem os Reis à primeira vila judaica. Ficaram, porém,
muito acabrunhados, porque ninguém sabia coisa alguma do Rei recém-nascido.
Quanto mais se aproximavam de Jerusalém, tanto mais tristes ficavam,
pois a estrela se tornava muito menos clara e brilhante e na Judéia a
viram raras vezes. Quando pararam, fora de Jerusalém, desaparecera
totalmente. Falaram da estrela e da criança recém-nascida, ninguém
quis compreendê-los; por isso, tornaram-se ainda mais tristes,
pensando que se tinham enganado”.
Anna Catharina descreve ainda a admiração e sensação que a
caravana dos Reis Magos causou na cidade; como Herodes, alta noite,
mandou chamar Theokenos ao palácio e convidou os Reis a virem
apresentar-se na manhã seguinte. Herodes enviou alguns criados a
chamarem os sacerdotes e escribas, que se esforçaram por sossegá-lo.
Ao nascer do dia, se apresentaram os Reis a Herodes e perguntaram-lhe
onde estava o novo rei dos judeus, cuja estrela tinham visto e ao qual
tinham vindo adorar. Herodes ficou muito inquieto, informou-se mais
sobre a estrela e disse-lhes que a profecia se referia a Belém
Ephrata; aconselhou-os a irem silenciosamente a Belém e voltarem
depois a informar-lhe, pois que também queria adorar o Menino.
Vi sair de Jerusalém a caravana dos Reis. Vendo de novo a estrela,
deram um grito de alegria. Ao cair da noite, chegaram a Belém; então
desapareceu a estrela. Muito tempo ficaram diante das portas,
duvidando e hesitando, até que viram uma luz brilhante, ao lado de
Belém. Então tomaram o caminho para o vale da gruta, onde acamparam.
No entanto, apareceu a estrela por cima do outeiro da gruta e uma
torrente de luz caiu verticalmente sobre este. De repente se lhes
encheram os corações de grande alegria, pois viram na estrela a
figura luminosa da criança. Os três Reis Magos aproximaram-se da
colina; abrindo a porta da gruta, Mensor viu-a cheia de luz celeste e
a Virgem sentada lá dentro, com a criança, como a tinham visto nas
visões. Anunciou-o aos outros dois.
S. José saiu-lhes ao encontro, cumprimentando-os e dando-lhes as boas
vindas. Então se prepararam para o ato solene que queriam fazer e
seguiram S. José. Dois jovens estenderam primeiro um tapete de pano
no chão, até a manjedoura. Mensor e os companheiros entraram, caíram
de joelhos e Mensor colocou aos pés de Maria e José os presentes;
com a cabeça inclinada e os braços cruzados, proferiu palavras
comoventes de adoração. Depois tirou do bolso uma mão cheia de
barras do tamanho de um dedo, grossas e pesadas, com um brilho de ouro
e pô-las ao lado da criança, nas vestes de Maria. Tendo se retirado,
com os companheiros, entrou Sair com os seus, prostrando-se, com
profunda humildade, com os dois joelhos por terra. Ofereceu com
palavras tocantes os presentes, colocando diante do Menino Jesus uma
naveta de incenso, feita de ouro puro, cheia de pequenos grãos
esverdeados de incenso. Ficou muito tempo de joelhos, com grande devoção
e amor. Depois dele se aproximou Theokenos, o mais velho. Ficando em pé,
inclinou-se profundamente e apresentou um vaso de ouro cheio de uma
erva verde; ofereceu mirra e ficou muito tempo diante do Menino Jesus,
em profunda comoção.
Os Reis Magos estavam encantados e repassados de amor e humilde adoração.
Lágrimas de alegria caiam-lhes dos olhos; também Maria e José
derramaram lágrimas de felicidade. Aceitaram tudo, humildes e gratos;
finalmente dirigiu Maria a cada um algumas palavras afáveis.
Após os Reis, entraram também os criados, aproximando-se, cinco a
cinco, do presépio; ajoelharam-se em roda do Menino e adoraram-no em
silêncio; finalmente entraram também os pajens. Os Reis Magos
voltaram mais uma vez ao presépio, vestidos de amplos mantos,
trazendo turíbulos nas mãos; incensaram o Menino, Maria e José e
toda a gruta, retirando-se depois, com profunda inclinação. Era esta
a cerimônia de adoração entre aqueles povos.
No outro dia visitaram os Reis mais uma vez o Menino e de noite vieram
despedir-se. Mensor entrou primeiro. Maria pôs-lhe o Menino nos braços;
ele chorou, radiante de alegria. Depois vieram também os outros.
Maria deu-lhes o seu véu de presente.
Pela meia noite viram no sono a aparição de um Anjo, avisando-lhes
que partissem imediatamente, não tomando o caminho de Jerusalém, mas
o do Mar Morto. Com incrível rapidez desapareceram as tendas; e,
enquanto os Reis Magos se despediam de S. José, já o séquito estava
caminhando a toda a pressa, em três turmas, para leste, com rumo ao
deserto de Engadi, ao longo do Mar Morto. Vi o Anjo com eles na
campina, mostrando-lhes a direção do caminho; de súbito não se
avistaram mais.
O Anjo tinha avisado os Reis bem a tempo; pois a autoridade de
Belém, não sei se por ordem de Herodes ou por próprio zelo, tinha a
intenção de prender os Reis, que dormiam na estalagem, fechá-los,
sob a sinagoga, onde havia adegas profundas e acusá-los perante o rei
Herodes de desordens públicas. Mas de manhã, quando se soube da
partida dos Magos, estes já estavam perto de Engaddi, e o vale onde
haviam acampado estava quieto e deserto como dantes, nada restando do
acampamento, fora algumas estacas de tendas e os rastos do capim
pisado”.
Em memória da visita dos três Reis Magos ao presépio é que se
celebra, todos os anos, a festa de Reis. A Escritura Sagrada chama-os
apenas os “Magos”, mas o povo deu-lhes, desde os primeiros tempos,
o título de “Reis”, talvez induzido pela profecia de Davi: “Os
reis de Tharsis e das ilhas oferecer-Lhe-ão dons; os reis da Arábia
e de Sabá trar-Lhe-ão presentes”. (S. 71, 10).
A festa de Reis é uma das mais antigas da Igreja cristã, mais antiga
do que a de Natal. É prova de que esse acontecimento fez grande
impressão aos amigos de Jesus. Em verdade era um fato maravilhosíssimo
virem três príncipes do Oriente, com numeroso séquito, guiados por
uma estrela, prestar adoração ao Menino Jesus no presépio, ao passo
que Israel não conheceu o seu Senhor.
Só Deus pode criar estrelas e, sobretudo uma estrela que guia homens
e pára por cima do presépio: é um milagre grandioso, que só Deus,
o Senhor da natureza, pode operar. Foi, pois, esse acontecimento uma
prova de que tinha chegado verdadeiramente o cumprimento dos tempos e
de que Jesus era mais do que um homem comum.
A vinda dessa caravana numerosa e estranha devia dirigir os olhares de
todo o povo para Belém; tinha todo o cabimento a pergunta: Então
chegou o tempo em que deve vir o Messias? Desse modo foram preparadas
todas as almas que amavam a Deus, ao reconhecimento de Jesus como
Messias; os infiéis, porém, tornaram-se mais culpados.
Apresentação de Jesus no Templo e fuga para o Egito
A santa vontade de Deus exigia a apresentação de Jesus no Templo,
tanto mais necessária, quanto é certo que o nosso Divino Salvador
tinha a vocação de oferecer-se ao Pai celeste como sacrifício de
expiação pelos pecados dos homens. Sacrificou-se em espírito, desde
o começo da vida, como lemos na Escritura Sagrada. Mas esse
oferecimento havia de fazer-se também publicamente, tanto por seus
santos pais, como por ele mesmo, ao ser apresentado no Templo.
“Na madrugada do dia seguinte, conta a Serva de Deus, vi a Sagrada
Família dirigir-se ao Templo. Entraram num pátio do Templo, que era
cercado de muros. Maria, com o Menino, foi recebida por uma matrona
idosa, que a conduziu por um corredor ao Templo. Nesse corredor veio o
velho Simeão, cheio de santa esperança, ao encontro da SS. Virgem.
Ele vira, no dia anterior, um Anjo que lhe aparecera e avisara de que
prestasse atenção ao Menino que no dia seguinte seria apresentado em
primeiro lugar: era o Messias. Simeão dirigiu algumas palavras à
Maria, cheio de júbilo e, tomando o Menino nos braços, apertou-o ao
coração. A SS. Virgem foi depois conduzida aos átrios do Templo,
onde a receberam Ana, que também tivera uma visão e Noemi, sua
antiga mestra.
Simeão levou Maria à mesa do Sacrifício, sobre a qual ela colocou o
Menino Jesus, num bercinho de vime. Nesse momento, vi que o Templo se
encheu de uma luz inefável. Vi que Deus estava nessa luz e, por cima
do Menino, vi o céu aberto, até ao trono da SS. Trindade. Simeão
reconduziu então Maria ao lugar das mulheres. Ele e três outros
sacerdotes tomaram as vestes sacerdotais. Um deles colocou-se atrás e
outro diante da mesa do sacrifício; os outros dois, nos lados
estreitos da mesa, orando sobre o Menino.
Maria, conduzida de novo à mesa do sacrifício, ofereceu frutas,
algumas moedas e um par de rolas. O sacerdote, porém, de trás da
mesa, tomando o Menino nos braços, levantou-o e moveu-o para diversos
lados do Templo, orando por muito tempo. Entregou depois o Infante a
Simeão, que o depositou nos braços de Maria, orando sobre esta e o
Menino. A SS.Virgem retirou-se depois ao lugar das mulheres, ao qual,
entretanto, cerca de vinte mães já haviam chegado, com os primogênitos
para os apresentar. José ficou mais para trás, no lugar dos homens.
Então começaram os sacerdotes diante do altar uma cerimônia com
incenso e orações. Tendo acabado esse ato, dirigiu-se Simeão à
Nossa Senhora, e, tendo recebido a criança nos braços, falou muito a
respeito do Menino, com entusiasmo, alegria e em alta voz. Louvando a
Deus, por ter cumprido a sua promessa, exclamou: “Agora, Senhor,
deixai partir o vosso servo em paz, conforme Vossa palavra. Pois meus
olhos viram a Vossa salvação, que preparastes diante dos olhos das
nações: luz para aclarar os gentios e glória de Israel, vosso
povo.”
José aproximara-se depois do sacrifício, escutando respeitosamente,
juntamente com Maria, as palavras entusiasmadas de Simeão, que abençoou
a ambos, dizendo depois a Maria: “Este menino veio ao mundo para a
ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser um sinal de
contradição. Vós mesma tereis a alma varada por uma aguda espada e
assim serão patenteados os corações de muitos”.
Tendo Simeão acabado de falar, começou também a profetisa Ana,
inspirada pelo Espírito Santo, a glorificar o Menino Jesus,
felicitando à SS. Virgem. Esta luzia, como uma rosa celeste.
Oferecera o sacrifício mais pobre, exteriormente; mas José deu
secretamente a Simeão e à Ana muitas barras pequenas amarelas, para
serem empregadas em beneficio das Virgens pobres do Templo. Depois do
sacrifício, partiu a Sagrada Família, seguindo logo, através de
Jerusalém, para Nazaré.
Maria, a Virgem Puríssima, Imaculada, sujeitou-se humildemente à lei
da purificação, escondendo deste modo também o seu alto privilégio.
Apesar de tão belo ato de humildade, devia o gládio da dor
atravessar-lhe a alma. Dor e sofrimento, considerados à luz da fé, não
são males, mas uma fonte de bênção e graça. A profecia de Simeão
atravessou dolorosamente o brando Coração materno de Maria, mas em
pouco, esse Coração havia de sofrer uma nova dor veemente, quando se
viu forçada a fugir de Nazaré para o Egito, a fim de salvar o Menino
Jesus, das garras dos assassinos, enviados por Herodes. Ouçamos o que
Anna Catharina nos narra a respeito:
“Vi um jovem resplandecente aproximar-se da cama de José e
falar-lhe. José acendeu uma luz e, batendo à porta do quarto de
Maria, pediu licença para entrar. Vi-o entrar e falar-lhe. Depois,
foi à estrebaria dos jumentos e a um quarto. Aprontou tudo para a
viagem. Maria vestiu-se imediatamente para a fuga e foi à casa de sua
mãe, Sant’Ana, anunciando-lhe a ordem de Deus. Ana abraçou à SS.
Virgem diversas vezes, chorando. Maria Helí prostrou-se no chão,
desfazendo-se em lágrimas. Ambas apertaram, mais uma vez, o Menino
Jesus de encontro ao coração. Ainda não era meia noite, quando
abandonaram a casa. Maria levava o Menino Jesus, em uma faixa, diante
de si; vestia um manto largo, que a envolvia e ao Menino”.
Vi a Sagrada Família passar, ainda de noite, por alguns lugarejos e
descansar, pela manhã, em um rancho. Só três vezes acharam, durante
a fuga, uma estalagem para pernoitar. Nos outros dias, com os freqüentes
e penosos desvios, dormiam sempre em barrancos, cavernas e lugares
desertos, longe da estrada. Viajavam sempre à distância de uma milha
da estrada real, sofrendo falta de tudo. Vi-os chegar cansados e
abatidos a uma gruta, perto de Efraim. Mas, para os refrescar, brotou
uma fonte da terra e aproximou-se-lhes uma cabra selvagem, que deixou
ordenhar-se por eles; apareceu-lhes também um Anjo, que os consolou.
Tendo passado o território de Herodes e entrado num vasto deserto
arenoso, não viram mais caminho, nem sabiam a direção; diante de
si, viram serras inviáveis. A Sagrada Família estava muito
angustiada; ajoelharam-se, pedindo a Deus socorro. Então vieram
algumas feras enormes, que olharam para as serras, correram para
frente e voltaram para trás, como cães que querem conduzir alguém a
certo caminho.
A Família Sagrada seguiu finalmente às feras, atravessou a montanha
(Séir?) e entrou numa região deserta e inóspita. Vi-a cercada por
uma quadrilha de salteadores: o chefe, com cinco ou seis homens. A
princípio estes se mostraram malévolos; mas à vista do Menino
Jesus, tocou um raio de graça o coração do chefe, que proibiu à
sua gente fazer mal aos viajantes.
Conduziu a santa Família à sua cabana, na qual a mulher lhes
ofereceu alimentos; trouxe também uma gamela com água, para que
Maria nela banhasse a Jesus. Nossa Senhora aconselhou-lhe que banhasse
na mesma água o filho morfético. Esse menino estava cheio de lepra,
mas, apenas mergulhado na água, caíram-lhe as crostas da enfermidade
e tornou-se são e limpo. A mulher ficou fora de si, de alegria. Tive
uma visão, na qual conheci que o menino curado se tornou, mais tarde,
o bom ladrão.(São Dimas)
Pela madrugada, a Sagrada Família continuou a viagem pelo deserto e,
tendo perdido de novo o rumo, vieram animais rasteiros mostrar-lhe o
caminho. Mais tarde viam sempre brotar uma rosa de Jericó, ao alcance
da vista.
Havendo chegado já às terras do Egito, vi a Família Sagrada lânguida
de sede, passar por um mato, em cuja orla havia uma tamareira. As
frutas pendiam do alto da árvore. Maria aproximou-se com o Menino
Jesus e, levantando-o, rezou; então se inclinou a tamareira com a
copa, de modo que lhe puderam colher todos os frutos.
A Sagrada Família tomou o caminho de Heliópolis, cidade do Egito. Em
frente às portas dessa cidade havia um grande ídolo, uma cabeça de
touro sobre uma coluna, como pedestal. Sentaram-se os viajantes não
longe dela, debaixo de uma árvore, para descansar. Pouco tempo depois
se deu um abalo da terra; o ídolo vacilou e caiu do pedestal. Houve
por isso na cidade grande alvoroço entre o povo.
A Sagrada Família entrou pela cidade e foi morar sob um baixo
alpendre. José construiu, diante dessa morada, uma sacada, de
madeira. Vi-o trabalhar muito em casa, como também fora e vi a Virgem
Santíssima tecendo tapetes ou fazendo outros trabalhos. Moraram perto
de ano e meio em Heliópolis; tiveram, porém, de sofrer muitas
perseguições, depois de terem caído ainda outros ídolos, num
templo vizinho. Pouco antes de deixar a cidade, teve a Santíssima
Virgem, por um amigo, notícias da matança das crianças de Belém,
Maria e José ficaram muito tristes; o Menino Jesus, que já podia
andar, chorou durante todo o dia.
Por causa da perseguição e por falta de trabalho, saiu a Sagrada Família
de Heliópolis e, indo ao interior do país, em direção a Mênfis,
veio para Mataréia, onde José executou muitos trabalhos de construção.
À chegada, caiu também o ídolo de um pequeno templo e, mais tarde,
todos os ídolos.
Vi como o Menino Jesus, pela primeira vez, buscou água da fonte para
sua Mãe. Maria estava rezando, quando o Menino Jesus, saindo
furtivamente, foi ao poço com um odre, para buscar água. Maria ficou
muito comovida quando Jesus voltou e pediu-lhe de joelhos que não o
fizesse mais, com medo de que caísse no poço. Jesus, porém,
disse-lhe que teria muito cuidado e queria sempre ir buscar água,
quando ela precisasse.
Ainda pequenino, Nosso Senhor prestava muitos serviços aos pais, era
muito atencioso e ajuizado: notava tudo. Ia também comprar pão no próximo
bairro dos judeus, em troca dos trabalhos de Maria. Quando o Menino
Jesus foi lá pela primeira vez tinha seis ou sete anos. Vestiu, também
pela primeira vez, aquela túnica parda, tecida pela Virgem Santíssima
e bordada em baixo com florões amarelos. No caminho, lhe apareceram
dois anjos, que lhe anunciaram a morte de Herodes, o Grande.
Vi que S. José estava muito abatido uma noite; não lhe pagaram o salário
e, assim, não pôde trazer nada para casa, onde tanto precisavam.
Cheio de angústia, ajoelhou-se no campo deserto, queixando a Deus sua
mágoa. Na noite seguinte lhe apareceu um Anjo, que lhe trouxe a ordem
de partir do Egito e voltar à sua terra, pela estrada real.
A viagem correu sem maior perigo para a Santa Família. Mas Maria Santíssima
muitas vezes ficou aflita por causa de Jesus, que sofreu muito com a
caminhada através da areia quente. José quis ir primeiro a Belém e
não para Nazaré; estava, porém, indeciso. Finalmente lhe apareceu
um Anjo, que lhe ordenou voltar para Nazaré, o que fez imediatamente.
Ana ainda estava viva. Jesus tinha oito anos, menos três semanas”.
Da mocidade de Jesus. Sua permanência em Jerusalém onde ensina
aos doutores da lei e é encontrado pelos pais no Templo
Visto que a Escritura Sagrada pouco relata da infância de Jesus,
deve ser de grande interesse para nós o que Anna Catharina Emmerich
nos conta dessa época, descrevendo como o nosso Divino Salvador
passou a infância e mocidade.
Vi a Sagrada Família, constituída pelas três pessoas Jesus, Maria e
José, desde o décimo até o vigésimo ano de Jesus, morar duas vezes
em casa alugada, com outras famílias; do vigésimo ao trigésimo ano
de Cristo, vi-a morar sozinha numa casa.
Havia na casa três quartos separados: o da Mãe de Deus era o
mais espaçoso e agradável e nesse se reuniam também os três
membros da Família para a oração; fora disso, raramente os vi
juntos. Durante a oração ficavam em pé, as mãos cruzadas sobre o
peito; pareciam rezar alto. Vi-os rezar muitas vezes de noite, à luz
do candeeiro. Todos dormiam separados nos respectivos quartos. Jesus
passava a maior parte do tempo no seu quarto. José carpintejava no
seu local de trabalho; vi-o talhar varas e ripas, polir peças de
madeira ou, de vez em quando, trazer uma viga. Jesus ajudava-o no
trabalho. Maria ocupava-se muito com trabalhos de costura ou certa espécie
de ponto de malha, com varinhas. Vi Jesus cada vez mais recolhido,
entregue à meditação, à proporção que se lhe aproximava o tempo
da vida pública.
Até os dez anos prestava aos pais todos os serviços que podia; era
também amável, serviçal e obsequiador para com todos na rua e onde
quer que se lhe oferecesse ocasião. Como menino, era modelo para
todas as crianças de Nazaré. Amavam-no e receavam desagradar-lhe. Os
pais dos companheiros, censurando os maus costumes e as faltas dos
filhos, costumavam dizer-lhes: “Que dirá o filho de José, se lhe
contar isso? Como ficará triste!” Às vezes se Lhe queixavam dos
filhos, na presença destes, pedindo: “Dize-lhe que não façam mais
isso ou aquilo!” E Jesus aceitava-o de maneira infantil, como
brincadeira, rogando aos amigos carinhosamente que procedessem de tal
ou tal modo; rezava também com eles pedindo ao Pai Celeste força
para se corrigirem, persuadia-os a confessarem sem demora as faltas e
a pedirem perdão.
Jesus tinha figura esbelta e delicada, rosto oval e alegre, a tez
sadia, mas pálida. O cabelo liso, de um louro arruivado, repartido no
alto da cabeça, pendia-lhe da testa, franca e alta, sobre os ombros.
Vestia uma túnica comprida, de cor parda acinzentada, inteiramente
tecida, que lhe chegava até os pés; as mangas eram um pouco mais
largas nas mãos.
Aos oito anos foi Jesus pela primeira vez a Jerusalém, para a festa
da Páscoa e depois ia todos os anos. Quando Ele veio a Jerusalém, na
idade de doze anos, possuía já muitos conhecidos na cidade. Os
progenitores costumavam andar com os conterrâneos nessas viagens e,
como fosse já a quinta romaria de Jesus, sabiam que sempre andava em
companhia dos jovens de Nazaré. Desta vez, porém, na volta, se
separara dos companheiros, perto do monte das Oliveiras, pensando
estes que fosse juntar-se aos pais. Mas, quando chegaram a Gophna,
notaram Maria e José a ausência de Jesus e tornaram-se muito
inquietos. Voltaram imediatamente, procurando-o pelo caminho e em
Jerusalém; mas não o acharam logo.
Nosso Senhor se havia dirigido, com alguns rapazes, à duas escolas da
cidade; no primeiro dia, à uma; no segundo, à outra. No terceiro
dia, fora de manhã à uma terceira escola, e de tarde ao Templo, onde
o acharam os pais. Jesus pôs os doutores e rabinos de todas as
escolas, em tal estado de admiração e de embaraço, pelas suas
perguntas e respostas, que resolveram humilhar o Menino, por intermédio
dos rabinos mais doutos, na tarde do terceiro dia, em auditório público,
interrogando-o sobre diversas matérias.
Vi Jesus sentado numa cadeira grande, rodeado de numerosos judeus
velhos, vestidos como sacerdotes. Escutavam atentamente e parecia
estarem furiosos. Como o Senhor houvesse alegado, nas escolas, muitos
exemplos da natureza, das artes e ciências, para demonstrar as suas
respostas, reuniram-se conhecedores de todas essas matérias. Começando
estes, pois, a discutir com Jesus, entrando em pormenores,
objetou-lhes que tais coisas não se deviam discutir no Templo;
queria, porém, lhes responder por ser isso vontade de Deus.
Falou então sobre medicina, descrevendo todo o corpo humano, como
ainda não o conheciam os sábios; discorreu sobre astronomia,
arquitetura, agricultura, geometria, matemática, jurisprudência e
sobre tudo que lhe foi proposto. Deduziu tudo isso tão claramente da
Lei e da promissão, das profecias do Templo, dos mistérios do culto
e dos sacrifícios, que uns não se fartavam de admirar e outros
ficavam, ora envergonhados, ora zangados e afinal todos se tornaram
furiosos, porque lhes dissera Nosso Senhor, coisas de que nunca haviam
tido conhecimento, nem tão clara compreensão.
Já havia ensinado desse modo algumas horas, quando José e Maria
chegaram ao Templo, para se informarem, com Levitas conhecidos, a
respeito do Filho. Então souberam que se achava com os doutores da
lei no auditório. Como fosse um lugar em que não lhes era permitido
entrar, mandaram um dos levitas chamar Jesus. Este, porém, lhes
mandou dizer que primeiro queria acabar o trabalho. Magoou muito à
Maria o não vir Ele logo.
Era a primeira vez que fazia saber aos pais que as ordens destes não
eram as únicas que tinha a cumprir. Ensinou ainda uma boa hora e, só
depois de todos estarem refutados, envergonhados e em parte zangados,
foi que saiu do auditório e se dirigiu ao átrio de Israel e das
mulheres, para se encontrar com os progenitores. José, retraído e
admirado, nada disse; Maria, porém, encaminhou-se para Ele, dizendo:
“Filho, porque nos fizeste isso? Olha que teu pai e eu te andávamos
procurando, cheios de aflição.” Mas Jesus, ainda muito sério,
disse: Por que me procuráveis? Não sabeis que me devo ocupar das
coisas de meu Pai?” Eles, porém, não compreenderam essas palavras
e partiram com Ele, sem demora, de volta a Nazaré.
A doutrina de Jesus produziu grande sensação entre os doutores da
lei; mas estes guardaram silêncio sobre o acontecimento, falando só
de um menino presunçoso, a quem haviam repreendido, que possuía bom
talento, mas precisava ainda ser educado e polido.”
Jesus, ficando em Jerusalém, não teve nenhuma intenção de afligir
os pais; teve em mira só a vontade do Pai Celeste, que lhe inspirou
ficar, para revelar a divina sabedoria. Por isso, mostrou nas escolas
e no Templo um saber maior que o natural. Como menino de doze anos,
ainda não freqüentara nenhuma escola, mas já se apresentava como
mestre dos doutores. Oxalá tivessem ouvido e recebido a doutrina com
coração suscetível! Mas, vaidosos de seu saber, não queriam ser
ensinados; antes quiseram humilhá-lo, propondo-Lhe perguntas difíceis,
às quais, como supunham, não poderia responder. Mas foram eles
mesmos que ficaram humilhados pelas sábias respostas de Jesus e por
isso se enraiveceram contra Ele. Recusaram-se a ver a luz que os
iluminava.
Uma estrela milagrosa anunciara o nascimento do Messias; mas o povo
escolhido não se importara com tal fato, nem recebera o Salvador. O
Menino Jesus fez brilhar a sua luz no Templo; mas as autoridades do
povo, os sacerdotes e doutores fecharam propositadamente os olhos à
essa luz. Por isso lhes será tirada: cada ano voltará o Salvador ao
Templo; mas não ensinará mais publicamente, até que, chegado à
idade madura, percorrerá todas as regiões da Palestina, pregando sua
doutrina divina a todo o povo. Então se apresentará de novo no
Templo, exclamando, em alta voz: “Eu sou a luz do mundo”. Jerusalém,
se ao menos nesse dia o conhecesses!
A vida do Senhor, até o começo de suas viagens apostólicas
Depois de voltar de Jerusalém, viveu Jesus, até a idade de trinta
anos, com Maria e José, em paz e recolhimento, na pequena casa de
Nazaré. Nem a Escritura Sagrada, nem a tradição nos transmitem
pormenores dessa época; o Evangelho diz apenas: “E era-lhes (aos
pais) submisso.” (Luc. 2, 51). Também Anna Catharina Emmerich conta
pouco dessa fase da vida de Jesus. Ouçamos os fatos principais:
“Depois de Jesus ter voltado a Nazaré, vi preparar-se uma festa, em
casa de Sant’Ana, onde todos os moços e moças, parentes, e amigos
de Jesus, se reuniram. Nosso Senhor era a pessoa principal dessa
festa, à qual estiveram presentes 33 meninos, todos futuros discípulos
do Salvador. Ele os ensinou e contou-lhes uma belíssima parábola de
núpcias nas quais a água seria mudada em vinho e os convidados
indiferentes em amigos fiéis; depois lhes falou de outras bodas, nas
quais o vinho seria mudado em sangue e o pão em carne; e esta boda
permaneceria, com os convidados, até o fim do mundo, como consolação
e conforto e como vínculo vivo de união. Disse também a Natanael,
jovem parente seu: “Estarei presente às tuas bodas.”
Desde esse tempo, Jesus sempre foi como que o mestre dos companheiros.
Sentava-se-lhes no meio, contando ou ensinando, ou passeava com eles
pelos campos.
Aos 18 anos, começou a ajudar a S. José na profissão. Dos vinte aos
trinta anos, teve muito que sofrer, por secretas intrigas dos judeus.
Estes não podiam suportá-lo, dizendo, com inveja, que o filho do
carpinteiro queria saber tudo melhor.
Na época em que começou a vida pública, tornou-se cada vez mais
solitário e meditativo. Quando Jesus se aproximava dos trinta anos,
tornou-se José cada vez mais fraco. Vi Jesus e Maria mais vezes em
companhia dele. Maria sentava-se-lhe ao lado do leito, de quando em
quando. Quando José morreu, estava Maria sentada à cabeceira da
cama, segurando-o nos braços; Jesus se achava em frente, junto ao
peito do moribundo. Vi o quarto cheio de luz e de Anjos. O corpo de
José foi envolvido num largo pano branco, com as mãos postas abaixo
do peito, deitado num caixão estreito e depositado numa bela gruta
sepulcral, perto de Nazaré, gruta a qual recebera como doação de um
homem bom. Além de Jesus e Maria, foram poucos os que acompanharam o
caixão; vi-o, porém, acompanhado de Anjos e rodeado de luz. O corpo
de José foi levado mais tarde pelos cristãos para um sepulcro perto
de Belém. Julgo vê-lo jazer ali, ainda hoje, em estado Incorrupto.
José teve de morrer antes de Jesus, pois, sendo muito fraco e
amoroso, não lhe teria sobrevivido à crucificação. Já sentira
profundamente as perseguições que o Salvador teve de sofrer, dos
vinte aos trinta anos, pelas repetidas maldades secretas dos judeus.
Também Maria havia sofrido muito com essas perseguições. É indizível
com que amor o jovem Jesus suportava as tribulações e intrigas dos
judeus.
Depois da morte de José, Jesus e Maria se mudaram para uma aldeia
situada entre Cafarnaum e Betsaida, em que um homem chamado Leví
ofereceu uma casa a Jesus. Maria Cleophae, que, com o terceiro marido,
vivia na casa de Sant’Ana, perto de Nazaré, mudou-se para a casa de
Maria, em Nazaré. Vi Jesus e Maria irem de Cafarnaum para lá e creio
que Maria ficou ali, pois havia acompanhado Jesus a Cafarnaum.
Entre os moços de Nazaré Jesus já tinha muitos adeptos; mas sempre
o abandonavam de novo. Andava com eles pelas regiões marginais do
lago e também em Jerusalém, pelas festas. A família de Lázaro, em
Betânia, era também já conhecida de Jesus”.
São estas as visões de Ana Catarina, e nos dão uma noção mais
aproximada do que Jesus fez neste tempo oculto de sua vida. Tudo Nele
impressiona a gente. Mas o que mais me deixou pasmo, foi saber que a
grande arrogância dos homens daquele tempo, foi incapaz de perceber
naquele jovem o Messias esperado. De fato, um homem que tinha uma tão
vasta cultura, sem ter nunca freqüentado uma escola, deveria ser
visto por todos com olhos muito diferentes, pois a sabedoria manda
assim, somente os orgulhosos não a obedecem.
Hoje, ainda, se Jesus viesse à terra, incógnito, e se pusesse
entre os cientistas a discutir sobre astros e ciências, certamente
encontraria nuvens de cépticos, que ligados a conceitos próprios e
errôneos, haveriam de O combater ferozmente.Sempre pensei na questão
da pena de morte e na crucificação que hoje não existe mais. Penso,
entretanto, que se Jesus tivesse escolhido o nosso tempo para nascer,
certamente os homens reinventariam a pena de morte na Cruz, apenas
para se cumprirem as escrituras. De fato, não tenho dúvidas de que
Ele teria tão tenebrosos opositores, que sua vida de pregador seria
impossível. Não é à toa que, para cada ser humano que – depois
de 2.000 anos fala em Jesus – existem cinco outros querendo matá-lo!
Que o Senhor guie nossos passos, até nosso próximo texto.
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Fonte: Recados do Aarão
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