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O CORDEIRO DE DEUS -
Parte 1
Sob
este título, com a graça de Deus, nos colocamos diante de uma bela
tarefa: Pretendemos trazer aos leitores partes de um livro da maior
importância para todos os cristãos, não só católicos. Trata-se do
livro da grande mística alemã, Ana Catarina Emmerich, aqui no Brasil
intitulado “Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus”, . Aconselho a todos os que
puderem ler este livro na íntegra, que não percam a chance. Todas as
famílias católicas da terra o deveriam ter. Colocamos aqui, apenas
as partes mais importantes.
Como não poderia deixar de ser, primeiro trazemos a parte relativa
à vida da própria mística, para que os leitores compreendam a
dignidade superior de seu ministério. Isso só vem edificar a sua
obra e dar valor ao seu conteúdo de fé. Talvez nenhuma outra pessoa
na terra, jamais tenha tido a graça de ver, com os próprios olhos, e
com tão perfeita ordem, tudo aquilo que aconteceu com nosso Senhor,
Jesus Cristo, desde os dias de Seu nascimento, até Sua morte dolorosa
na Cruz. De fato, o Calvário fica real diante dos olhos do leitor, a
medida que as palavras forem fluindo diante de nossas vistas.
Como sempre, se houver observações, as faremos ao final,
indicando sempre por um número (1). Os tipos diferentes de máquina
indicarão as nossas colocações, em especial no início e no fim de
cada texto, para melhor esclarecimento. Segue então os escritos de
Ana Catarina Emmerich. Na verdade, como ela não tinha escolaridade,
os escritos foram passados ao papel pelo escritor Clemente Brentano,
que ouvia seus relatos, e os transcrevia com fidelidade. E como a mística
diz, ele próprio era conduzido pelo Espírito Santo, de modo que soam
falsos todos os acusadores de Ana Catarina, que atribuem à imaginação
do escritor, a maioria destas revelações fantásticas e minuciosas.
Vamos aos textos!
QUEM FOI ESTA GRANDE MÍSTICA?
Anna Catharina Emmerich, filha de camponeses pobres, mas piedosos,
nasceu na aldeia de Flamske, perto de Coesfeld, na Westfália, no dia
8 de Setembro de 1774 e foi batizada no mesmo dia. Desde a primeira
infância, não cessou de receber do céu uma direção superior. Via
freqüentemente o Anjo da Guarda e brincava com o Menino Jesus, nos
prados e no jardim. A Mãe de Deus, a Rainha do Céu,
apresentava-se-lhe muitas vezes e também os Santos lhe eram bons e
afetuosos amigos.
Quando era criança, falava com toda a simplicidade dessas visões e
fatos íntimos, pensando que as outras crianças vissem e
experimentassem o mesmo; vendo, porém, que se admiravam das suas
narrações, começou a guardar silêncio, pensando que era contra a
modéstia falar dessas coisas.
Anna Catharina tinha um gênio alegre e amável; andava, porém, quase
sempre calada e recolhida. Os pais, julgando que fosse por teimosia,
tratavam-na com bastante rigor. Ela conta mais tarde: “Meus pais
muitas vezes me censuravam, mas nunca me elogiavam; como, porém, eu
ouvisse outros pais louvarem os filhos, julgava-me a pior criança do
mundo”. Era, contudo, de uma grande delicadeza de consciência; a
menor transgressão afligia-a tanto, que lhe perturbava a saúde.
Quando fez a primeira confissão, sentia tanta contrição, que chorou
alto e foi preciso levá-la para fora do confessionário. Na Primeira
Comunhão, cheia de ardente amor, ofereceu-se de novo, sem reservas,
ao seu Deus e Senhor.
No verdor da mocidade, dos 12 aos 15 anos, Catharina trabalhou, como
criada, em casa de um parente camponês, pastoreando rebanhos; depois
voltou à casa paterna. Certa vez, trabalhando no campo, ouviu ao
longe o toque lento e, sonoro do sino do Convento das Anunciadas, em
Coesfeld. Contava então 16 anos apenas. Sentiu-se tão fortemente
enlevada com a voz daqueles sinos, que lhe pareciam mensageiros do Céu,
convidando-a para a vida religiosa e tão grande lhe foi a comoção,
que caiu desmaiada e foi levada para casa, onde esteve, por muito
tempo, adoentada.
Para conseguir mais facilmente admissão num convento, foi durante três
anos trabalhar em casa de uma costureira, em Coesfeld, economizando
assim 20 thalers (cerca de 3 libras Inglesas). Depois se mudou para a
casa do piedoso organista Soentgen, esperando que, aprendendo a tocar
órgão, se lhe facilitasse a entrada para um Convento. Mas a pobreza
da família de Soentgen inspirou-lhe tanta compaixão, que,
renunciando a tocar órgão, trabalhava na casa como criada, dando até
as suas economias para aliviar a miséria do lar. “Deus deve ajudar
agora”, disse depois à mãe, “dei-lhe tudo, Ele saberá
socorrer-nos a todos”.
O bom Deus não deixou de ajudá-la, ainda que Anna Catharina só com
29 anos visse realizado o seu desejo de entrar para um convento.
Quatro anos antes recebeu da bondade de Deus uma graça especial.
Estava de joelhos na igreja dos padres Jesuítas, em Coesfeld,
meditando e rezando diante de um crucifixo. “Então vi, conta ela
mesma, vindo do Tabernáculo, onde se guardava o SS. Sacramento, o meu
Esposo celeste em forma de um jovem resplandecente. Na mão esquerda
trazia uma grinalda de flores, na direita uma coroa de espinhos;
apresentou-mas, ambas, para eu escolher. Tomei a coroa de espinhos,
Ele a pôs na minha cabeça e eu a apertei com ambas as mãos; depois
desapareceu e voltei a mim, sentindo uma dor veemente em torno da cabeça.
No dia seguinte a minha testa e as fontes, até as faces estavam muito
inchadas e sofria horrivelmente. Essas dores e a inflamação voltaram
muitas vezes. Não notei sangue em volta da cabeça, até que as
minhas companheiras me induziram a vestir outra touca, porque a minha
já estava cheia de manchas vermelhas, ferrugentas”.
Como Anna Catharina não tinha mais dote, ficaram-lhe fechadas as
portas dos Conventos, segundo o pensamento dos homens. Mas Deus
ajudou-a, como esperava. Clara Soentgen, a filha do organista, sendo
também organista perfeita, foi de boa vontade recebida no convento
das Agostinhas, em Duelmen. Soentgen, porém declarou então que
deixava entrar a filha somente sob a condição de que admitissem também
Anna Catharina. Em conseqüência disso, entraram as duas jovens para
o Convento, em 18 de Setembro de 1802.
O tempo do noviciado foi para Anna Catharina uma verdadeira escola da
cruz, porque ninguém lhe compreendia o estado d’alma. Sofria, porém,
tudo com paciência e amor, observando conscienciosamente a regra da
Ordem. No dia 13 de Novembro de 1803, um ano depois de começar o
noviciado, fez os votos solenes, tornando-se esposa de Jesus. O Esposo
divino cumulou-a de novas e abundantes graças. “Apesar de todas as
dores e sofrimentos”, disse ela, “nunca estive tão rica no coração;
minh’alma transbordava de felicidade. Eu vivia em paz, com Deus e
com todas as criaturas. Quando trabalhava no jardim, vinham as
avezinhas pousar sobre minha cabeça e meus ombros e cantávamos
juntas os louvores de Deus. Via sempre o meu Anjo da Guarda ao meu
lado e, ainda que o mau espírito me assustasse e agredisse, não me
podia fazer mal. O meu desejo do SS. Sacramento era tão irresistível,
que muitas vezes deixava de noite a minha cela, para ir rezar na
igreja, quando estava aberta; se não, ficava ajoelhada diante da
porta ou perto do muro, mesmo no inverno ou prostrada no chão, com os
braços estendidos e em êxtase. Assim me encontrava o capelão do
convento, Abbé Lambert (sacerdote francês, exilado da pátria, por não
prestar juramento exigido pela constituição atéia), que tinha a
caridade de vir mais cedo, para dar-me a sagrada Comunhão. Mas, logo
que se aproximava para abrir a igreja, eu voltava a mim, indo depressa
à mesa da Comunhão, onde achava o meu Deus e Senhor”.
Como tantos Conventos, no princípio do século 19, também o Convento
de Agnetenberg foi fechado a 3 de Dezembro de 1811. As piedosas
freiras foram obrigadas a abandonar, uma após outra, o querido
mosteiro. Anna Catharina, doente e pobre, ficou até a primavera
seguinte, quando se mudou para uma pequena casa em Duelmen. No outono
do mesmo ano (1812), lhe apareceu de novo o Divino Salvador, como um
jovem resplandecente e entregou-lhe um crucifixo, que ela apertou com
fervor de encontro ao coração. Desde então lhe ficou gravado no
peito um sinal da cruz, do tamanho de cerca de três polegadas, o qual
sangrava muito, a princípio todas as quartas-feiras, depois nas
sextas-feiras, mais tarde menos freqüentemente.
A estigmatização deu-se-lhe poucos dias depois, a 29 de Dezembro.
Nesse dia, às 3 horas da tarde, estava deitada, com os braços
estendidos, em êxtase, meditando na Sagrada Paixão de Jesus. Viu então,
numa luz brilhante, o Salvador crucificado e sentiu um veemente desejo
de sofrer com Ele. Satisfez-se-lhe esse desejo, pois saíram logo das
mãos, dos pés e do lado do Senhor raios luzidos cor de sangue, que
penetraram nas mãos, nos pés e no lado da Serva de Deus, surgindo
logo gotas de sangue nos lugares das chagas. Abbé Lambert e o
confessor da vidente, Pe. Limberg, viram-nas sangrar dois dias depois,
mas com sábio propósito fingiram não dar importância ao fato, na
presença da Serva de Deus. Ela mesma procurava esconder os sinais das
chagas, o que lhe era fácil, porque desde o dia 2 de Novembro de 1812
estava de cama, adoentada.
Desde então não pôde mais tomar alimento, a não ser água,
misturada com um pouco de vinho, mais tarde só água ou, raras vezes,
o suco de uma cereja ou ameixa. Assim vivia só da sagrada Comunhão.
Esse estado e a estigmatização tornaram-se públicos na cidade, em
Março de 1813. O Vigário de Duelmen, Pe. Rensing, encarregou dois médicos,
os Drs. Wesener e Krauthausen, como também o confessor, de fazerem um
exame das chagas, que freqüentemente sangravam., Os autos foram
mandados à autoridade diocesana de Muenster, a qual enviou o Rev. Pe.
Clemente Augusto de Droste Vischering, mais tarde Arcebispo de Colônia,
o deão Overberg e o conselheiro medicinal Dr. von Drueffel a Duelmen,
para fazerem outra investigação, que durou três meses. O resultado
foi a confirmação da verdade das chagas, da virtude e também o
reconhecimento do caráter sobrenatural do estado da jovem religiosa.
Também a autoridade secular, querendo examinar e “desmascarar a
embusteira”, mandou, em 1819, uma comissão de médicos e
naturalistas; isolaram-na por isso em outra casa, rigorosamente
observada, do dia 7 a 29 de Agosto, o que lhe causou muita humilhação
e sofrimento; também o resultado desse exame lhe foi favorável.
No ano anterior, viera visitá-la pela primeira vez o poeta Clemente
Brentano, recomendado pelo deão Overberg; a 17 de Setembro ele
a viu pela primeira vez. Ela, porém, já o tinha visto muito antes,
nas visões e recebido ordem do Céu para comunicar-lhe tudo. “0
Peregrino”, como o chamava, ficou até Janeiro de 1819,
mas voltou de novo, para ficar com ela, no mês de Maio.
Foi para Catharina um amigo fiel até a morte, mas fê-la sofrer
também às vezes, com seu gênio veemente.
Reconheceu a tarefa que lhe fora dada por Deus, de escrever as visões
desta mártir privilegiada e dedicou-se a isso com cuidado
consciencioso. “O Peregrino” escrevia durante as narrações, em
tiras de papel, os pontos principais, que imediatamente depois
copiava, completando-os de memória. A cópia, a limpo, lia à Serva
de Deus, corrigindo, acrescentando, riscando sob a direção de
Catharina, não deixando nada que não tivesse recebido a confirmação
expressa de fiel interpretação.
Pode-se imaginar a grande facilidade que a prática diária, através
de alguns anos, trouxe ao “Peregrino”, para esse trabalho, dada a
sua extraordinária inteligência e perseverança, como também o fato
de ver nesse serviço uma obra santa, para a qual costumava
preparar-se com orações e exercícios piedosos; assim podemos
confiar que não lhe tenha faltado aos esforços o auxílio de Deus. O
escrúpulo e a consciência com que procedia nesse trabalho, nunca lhe
permitiram, durante tantos anos, resposta alguma aos que atribuíam
grande parte das visões à imaginação do poeta, o que equivale a
dizer que, homem sério que era, na tarde da vida se teria dado a esse
incrível trabalho, para enganar conscientemente a si mesmo e aos
outros”.
“Ela falava geralmente baixo-alemão, no êxtase, também o idioma
mais puro; a sua narração era, ora de grande singeleza, ora cheia de
elevação e entusiasmo. Tudo que ouvi e que, nas dadas condições, só
raras vezes e apenas em poucas palavras podia anotar, escrevia eu mais
extensamente em casa, imediatamente depois. O Doador de todos os bens
deu-me a memória, a aplicação e elevação da alma acima dos
sofrimentos, que tornaram possível a obra, como está. O escritor fez
tudo que era possível e pede, nesta convicção, ao benévolo leitor
a esmola da oração”. Anna Catharina deu também a este trabalho
plena aprovação.
Quando estava num profundo êxtase, a 18 de Dezembro de 1819 e
Brentano lhe apresentou uma folha, com as anotações, disse ela:
“Estes são papéis de letras luminosas. O homem (isto é, o
Peregrino) não escreve de si mesmo; tem para isto a graça de Deus.
Nenhum outro pode fazê-lo; é como se ele mesmo visse”.
Anna Catharina viu no êxtase toda a vida e paixão do Divino Salvador
e de sua Santíssima Mãe; viu os trabalhos dos Apóstolos e a propagação
da Santa Igreja, muitos fatos do Velho Testamento, como também
eventos futuros. Tocando em relíquias, geralmente via a vida, as
obras e os sofrimentos dos respectivos Santos. Com certeza reconhecia
e determinava as relíquias dos Santos, distinguindo em geral
facilmente objetos sagrados de profanos.
Adversários da Serva de Deus querem negar-lhe o caráter sobrenatural
das informações recebidas durante os êxtases, alegando que Anna
Catharina tirava a maior parte dos conhecimentos de livros, que antes
teria lido. Mas isso não está de conformidade com o que Peregrino
escreveu, em 8 de Maio de 1819 . Ela me disse que nunca fora capaz de
aproveitar coisas de livros e que sempre pensava: - Ora, tal livro não
há de fazer pecar. Também não pôde guardar na memória coisas da
Escritura Sagrada; mas tem da vida do Senhor a graça de tal intuição,
que a consciência e certeza, que disso tenho, às vezes me fazem
tremer, por manter um trato tão familiar e simples com uma criatura
de Deus tão maravilhosa e privilegiada, como talvez não haja
outra”.
Em outra ocasião ela disse ao Peregrino: “Nunca tive lembrança
viva de histórias do Antigo Testamento ou dos Evangelhos, pois vi
tudo com os meus próprios olhos, durante a minha vida inteira; o
mesmo vejo cada ano de novo e nas mesmas circunstâncias, ainda que às
vezes em outras cenas. Umas vezes estive naqueles lugares, no meio dos
espectadores, assistindo aos acontecimentos, acompanhando-os e mudando
de lugar; mas não estive sempre no mesmo lugar, pois às vezes fui
levada para cima da cena, olhando deste modo para baixo.
Outras coisas, principalmente os mistérios, vi-os mais com a vista
interior da alma, outras em figuras separadas da cena: em todos os
casos se me apresentava tudo transparente, de modo que nenhum corpo
cobria o outro, nem havia confusão”.
Com todas estas grandes graças, Anna Catharina permanecia humilde,
simples e singela como uma criança. Mostrava-se sempre obediente aos
pais e às superioras religiosas, como também ao confessor e diretor
espiritual. Se lhe mandavam tomar remédio, consentia, apesar de
prever-lhe o mau efeito. Mesmo em êxtase, obedecia imediatamente à
chamada do confessor.
Era à dolorosa Paixão de Nosso Senhor que tinha uma devoção
especial e rezava por isso muitas vezes, enquanto lhe era possível, a
Via Sacra erigida ao longo de um caminho de quase duas léguas, nos
arredores de Coesfeld. Nos domingos fazia essa devoção em companhia
de algumas jovens piedosas, nos dias úteis a fazia muitas vezes de
noite. Clara Soentgen, sua amiga, conta: “Muitas vezes ela se
levantava de noite, saindo furtivamente de casa e rezava descalça a
Via Sacra. Se a porta da cidade estava fechada, pulava os altos muros,
para poder ir à Via Sacra; às vezes caia dos muros abaixo, mas nunca
se machucava”.
Além dos muitos padecimentos que sofria com paciência e perseverança,
exercitava-se constantemente nas mortificações voluntárias. Já na
infância costumava privar-se de parte do sono e da comida. Muitas
horas da noite passava velando e rezando; comia e bebia o que os
outros recusavam, levando as comidas melhores aos doentes e pobres,
dos quais tinha muita compaixão. O amor ao próximo impelia-a a pedir
a Deus que, por favor, lhe desse a sofrer as doenças e dores dos
outros ou que a deixasse cumprir os castigos merecidos pelos
pecadores. Já o fizera na infância e fazia-o depois de um modo muito
mais intenso. “A tarefa principal da sua vida, escreve Clemente
Brentano, era sofrer pela Igreja ou por alguns membros da mesma, cuja
necessidade lhe era dada a conhecer em espírito ou que lhe pediam a
intercessão”. Anna Catharina aceitava de boa vontade tais
sofrimentos e trabalhos. Muitas vezes, porém, se tornavam estes tão
grandes e pesados, que parecia prestes a morrer.
Quando um dia, quase sucumbindo ao peso das dores, pediu ao Senhor que
não a deixasse sofrer mais do que podia suportar, apareceu-lhe o
Esposo Celeste e disse: “Coloquei-te no meu leito nupcial das dores,
com as graças dos sofrimentos, adornada com os tesouros da reconciliação
e com as jóias das boas ações. Deves sofrer. Não te abandono; estás
amarrada à videira, não perecerás”.
Também as almas do purgatório se lhe dirigiam muitas vezes,
pedindo-lhe socorro; e ela provava de boa vontade sua compaixão
ativa. “Fiz um contrato com meu doce Esposo do Céu”, conta ela,
que cada gota de sangue, cada pulsar do coração, toda a minha vida e
todos os meus atos devem sempre clamar: “Almas queridas do purgatório,
saúdo-vos pelo doce Coração de Jesus”. Isso faz bem a essas
infelizes e alivia-as, pois são tão pacientes!”
Depois de muitos e indizíveis sofrimentos, chegou o dia da sua morte
a 9 de Fevereiro de 1824.
A 15 de Janeiro desse ano dissera a Serva de Deus: “Na festa de
Natal o Menino Jesus me trouxe muitos sofrimentos, hoje me deu ainda
maiores, dizendo: “Tu me pertences, és minha esposa: sofre como eu
sofri; não perguntes porque, é para a vida e para a morte”.
Ela jaz com febre, com dores reumáticas e convulsões, escreve o
Peregrino, mas sempre em atividade espiritual, em prol da santa Igreja
e dos moribundos. O confessor pensa que ela em pouco terminará,
porque disse no êxtase, com grande serenidade “Não posso aceitar
outro trabalho, já estou próxima do fim”. Ela pronuncia, com voz
de moribunda, só o nome de “Jesus”.
A 27 de Janeiro recebeu a Extrema-Unção. Aumentaram-lhe as dores;
mas repetia de vez em quando: “Ai, meu Jesus, mil vezes vos agradeço
toda a minha vida; não a minha vontade, mas a Vossa seja feita”. Na
véspera da morte rezou: “Jesus, para Vós morro; Senhor, dou-Vos
graças, não ouço nem enxergo mais”. Quiseram mudar-lhe a posição,
para aliviá-la, mas Anna Catharina disse: Estou deitada na cruz;
deixem-me, em pouco acabarei”. Recebeu mais uma vez a sagrada Comunhão,
a 9 de Fevereiro. Suspirando pelo Divino Esposo, rezou diversas vezes:
“Oh! Senhor, socorrei-me; vinde, meu Jesus”.
O confessor assistiu à moribunda, dando-lhe muitas vezes o crucifixo
para beijar e rezando preces pelos moribundos. Ela ainda lhe disse:
“Agora estou tão sossegada; tenho tanta confiança, como se nunca
tivesse cometido pecado”. Deram justamente 8 horas da noite, quando
exclamou três vezes, gemendo: “Oh! Senhor, socorrei-me, vinde, oh!
meu Senhor!” E a alma pura voou-lhe ao encontro do Esposo Celeste,
para permanecer, como esperamos confiadamente, eternamente unida com
Ele, na infinita felicidade do Céu.
Com grande concorrência do povo foi sepultado o corpo da Serva de
Deus, no cemitério de Duelmen, onde jaz ainda. Na noite de 21 a 22 de
Março de 1824 foram abertos o sepulcro e o caixão, em presença do
prefeito da cidade e do delegado de polícia. Viu-se que a decomposição
ainda não tinha começado. Uma segunda abertura do sepulcro foi
feita, no dia 6 de Outubro de 1858, pela autoridade eclesiástica.
Anna Catharina achou muitos veneradores na
Alemanha e longe, além das fronteiras, que se alegraram pela abertura
do processo chamado de informação, feito pela autoridade diocesana
de Muenster, no ano de 1892. Encerrou-se esse processo no ano de 1899,
sendo os documentos enviados à Santa Sé em Roma, para pedir a
beatificação da piedosa sofredora. Oxalá que essa honra seja dada
pelo chefe da Igreja, para a glória de Deus, que é “admirável nos
seus Santos!”
Grande número de homens doutíssimos examinaram as visões da piedosa
Anna Catharina Emmerich e reconheceram-lhe a credibilidade, com
palavras calorosas. Citamos apenas algumas sentenças da opinião de
Frederico Windischmann, professor tão piedoso como douto, mais tarde
Vigário geral do arcebispado de Muenchen Freising: “A Providência
Divina escolheu em Anna Catharina um Instrumento que - preparado com
os poucos conhecimentos da instrução rural, familiarizada, como se
achava, somente com livros de devoção ordinários, não versada na
Escritura Sagrada, privada até propriamente de uma direção
espiritual, - não podia apresentar ao divino assunto um vaso
humanamente tão bem formado como S. Teresa, Maria de Agreda e outras;
por isso mesmo era muito menos capaz de fazer impostura, querendo
imitar aqueles grandes exemplos.
Pelo contrário, para provar claramente a verdade do dom divino,
deviam as visões da jovem camponesa, despidas quase inteiramente da
parte subjetiva e mística, no sentido comum desta palavra, referir-se
somente ao objetivo da vida real de Jesus Cristo. Mas, justamente por
isso lhe foi dado um assunto, em que não há lugar para fantasia
puramente humana e para os sonhos de falsa contemplação, os quais,
se quisessem imiscuir-se-lhe, deveriam causar erros e enganos à cada
passo; numa palavra: a inimitável objetividade da visão, sem reflexões
místicas da vidente, é uma prova evidente da veracidade.
Assim a descrição, às vezes quase fatigante, de pessoas, do
respectivo aspecto, vestuário, costumes de vida; a enumeração de
cidades e povoações, de caminhos e viagens, de regiões, montanhas,
rios e lagos: todos estes detalhes arqueológicos tem o fim
providencial: primeiro, de provar a impossibilidade de invenção, por
parte da vidente ou do seu secretário; segundo, de dar à pessoa de
Jesus, aparecendo e agindo com verdade histórica, um fundo histórico,
do mesmo modo verdadeiro.
Dissemos antes que nenhuma reflexão mística e contemplação
subjetiva da vidente escurecia a objetividade das visões; mas isso não
impede que, de vez em quando, resplandeça, através das pessoas e dos
acontecimentos, uma luz maravilhosa de um mundo superior e que a
vidente, como criança singela, nos deixe contemplar os mistérios
mais profundos da Escritura Sagrada e da doutrina cristã”.
Eis aí um pouco da vida desta
grande santa. Há mais textos a respeito dela, porém cremos que o
essencial está aqui retratado. Infelizmente, ainda não feita santa
pela Igreja, mas com certeza esta glória ela tem no Céu. Vejam o ódio
de satanás contra ela, tal que o seu processo de beatificação teve
início em 1892, portanto há 111 anos, sem ter andado quase nada. Só
agora, recentemente, foi aceito um milagre atribuído a ela, que deverá
agilizar o processo. Somente este fato deveria acender o coração dos
homens da Igreja, para que se debruçassem sobre seus escritos, porque
certamente eles são da maior importância.
Nós, porém, vamos fazer a nossa parte.
Com a colaboração de todos, editor, leitores e divulgadores,
poderemos fazer chegar a muitos, pelo menos as partes mais importantes
destas preciosas revelações. Este primeiro texto termina aqui, mas
em breve os outros chegarão, certamente para o bem e a edificação
de muitos.
PS. Como viram a data de início deste trabalho é de 26/06/03.
Hoje, quando reviso o texto, leio as matérias relativas ao filme A
PAIXÃO, do ator Mel Gibson, que é baseado nas visões desta grande mística
da nossa Igreja Católica. Também fico sabendo que tudo isso está
impulsionando, finalmente, o processo de canonização dela, o que já
não é sem tempo.
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Fonte: Recados do Aarão
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